quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Mundo novo, Chris Weitz

Mundo novo (The young world), Chris Weitz. 324 páginas. Tradução de Álvaro Hattnher. Capa: kakofonia.com. Editora Companhia das Letras, selo Seguinte, São Paulo, 2014.

Não há dúvida que a ficção científica, mesmo no século 21, continua a atrair a atenção dos leitores e autores. Em algum momento ao longo dos anos 1990, temia-se que a chegada do 'futuro' tornasse o gênero um exercício frívolo e sem utilidade, pois a realidade o superaria. Mas o que se observa é que o interesse pelo exercício especulativo a respeito do impacto da tecnologia na vida das pessoas, seja no futuro distante, seja no próximo, segue surpreendendo.

Mundo novo (The young word), publicado no Brasil em 2014 pela editora Companhia das Letras pelo selo Seguinte, com tradução de Álvaro Hattnher, é o primeiro romance de Chris Weitz, novaiorquino nascido em 1969 e formado em literatura inglesa pelo Trinity College. Weitz é mais conhecido por seu trabalho no cinema: o roteiro de seu longa About a boy (2002), dirigido por ele ao lado do irmão Paul, foi indicado ao Oscar. Além disso, Weitz dirigiu dois grandes sucessos do cinema de fantasia, A bússola de ouro (2007) e Lua nova (2009).
Trata-se de uma ficção apocalíptica, na mesma linha de uma série de produtos recentes da mídia que discutem a mortalidade, como os seriados de tv The walking deadHelix The last ship. O tema é bastante recorrente também na literatura do gênero, que tem clássicos como Só a terra permanece, de George Stewart, Eu sou a lenda, de Richard Matheson e Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr.
Mundo novo conta o que acontece ao planeta quando uma virose agressiva e desconhecida dizima a população adulta e infantil, deixando vivos apenas os adolescentes, que morrem tão logo completam 18 anos. Sozinhos e sem referências, os jovens tentam sobreviver a sua maneira ao colapso da civilização organizando-se em grupos para procurarem por alimentos e outros recursos necessários que coletam nas ruínas das cidades, e se protegerem de gangues rivais que ali disputam o poder.
A história é contada a partir do ponto de vista de dois personagens: Donna, uma adolescente típica do século 21, e Jefferson, filho de cientistas de ascendência japonesa, que é extremamente compenetrado de suas obrigações. Amigos desde a infância, fazem parte de um grupo de sobreviventes na região de Washington Square, em Nova York. O grupo acabou de perder seu líder, Wash, irmão mais velho de Jeff que completou 18 anos e morreu devido à infecção.
Crânio, um outro membro do grupo e fenômeno mirim da ciência, surge com a proposta de pesquisar um certo artigo científico numa revista que pode estar arquivada na grande biblioteca pública da cidade. Triste com a perda do irmão, Jeff acaba concordando em ajudá-lo, mais para sentir que está fazendo alguma coisa a respeito da doença que acabará por levar a todos, mais cedo ou mais tarde. Aos dois garotos associam-se Donna – que não acredita na possibilidade de que Crânio possa fazer o que os cientistas do mundo todo não puderam – e Peter, negro alto e forte que não esconde sua condição homossexual. A eles, mais tarde, vai se unir Minifu, sino-americana com um grande talento em lutas corpo a corpo.
A jornada inicia a bordo de uma caminhonete, que prova ser muito útil para chegar até a biblioteca, mas não mais do que isso. Contudo, esse é apenas o início de uma jornada repleta de perigos mortais como gangues inimigas, uma comunidade de canibais, matilhas de cães ferozes, animais selvagens sobreviventes do zoológico, muito tiroteio e correrias. Amarrando a peregrinação, que vai passar por diversos pontos turísticos dessa Nova York arruinada, o drama íntimo de Jeff, que não consegue declarar seu amor por Donna, uma história que só vai se definir nas páginas finais.
A narrativa é linear, mas a alternância de narrador lhe acrescenta tempero especial, porque Weitz maneja muito bem as duas vozes. O feito é o de ler dois diários que contam a mesma história em estilos bem diferentes. O texto de Jeff é escorreito e segue a norma culta da língua, o que combina com a personalidade séria do garoto. Já a narração de Donna é indisciplinada e errática, repleta de soluções improvisadas, com o uso exagerado de gírias e de estruturas típicas do roteiro de teatro, com os nomes dos personagens antes de suas falas. A editora também ajudou, definindo uma tipologia específica para cada narrador, de forma que percebemos a variação não apenas pela leitura, mas também no visual das páginas.
Outro mérito de Weitz são as alfinetadas que ele distribui a vontade contra o ambiente acadêmico. Por exemplo, quando Jeff e Crânio discutem a extinta prática da publicação de artigos acadêmicos. Jeff diz:
"Na superfície, parece ser um artigo de opinião, ou mesmo um ensaio sobre ética científica, mas me parece o tipo e coisa com que meus pais tinham de lidar. Chamavam de defesa de interesses pessoais." (página 121).
O autor também insere muitas referências à cultura pop e não evita revelar suas influências mais imediatas, tais como o romance O senhor das moscas (Lord of the flies), de William Golding, e Os arquivos confusos da sra. Basil E. Frankweiler (From the mixed-up files of Mrs. Basil E. Frankweiler) de E. L. Konigsburg, citados pelos personagens, entre outros.
Mundo novo é um romance divertido e adequado ao público jovem-adulto ao qual foi dirigido, mas que não abandona o leitor experiente, oferecendo discussões éticas e morais que podem levar a reflexões bastante profundas.
— Cesar Silva

Um comentário:

  1. Muito obrigado pela resenha; livro adicionado aos desejados rs

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