sábado, 13 de janeiro de 2018

Viagem à Europa (com alguma Ficção Científica e Política)

por Marcello Simão Branco

Faz três anos agora em janeiro que estive na Europa com minha esposa, a Rossana Arouck.[1] Foi minha primeira viagem ao velho continente e escolhemos como locais de visitação a Itália – por motivos sentimentais, afinal sou neto de italianos por parte de mãe – e a Alemanha, por causa de uma amiga de muitos anos da Rossana que mora por lá.
Viajamos num voo da Air France sob alguma tensão, pois dias antes Paris havia sofrido o brutal e covarde atentado que vitimou os cartunistas do jornal satírico Charlie Hebdo. Chegamos à cidade no domingo de 11 de janeiro, justamente no dia marcado para a grande manifestação de desagravo contra a barbárie e à liberdade de expressão e consciência convocada por François Hollande, presidente do país. A tentação de se juntar ao evento era obviamente grande, mas como o aeroporto Charles de Gaulle é longe do Centro e o tempo de conexão era de apenas algumas horas resolvemos ficar dentro do aeroporto. Vimos, contudo, soldados armados com fuzis no interior do local, o que certamente não é rotina, ilustrando o clima tenso que o país vivia. Pude, ao menos, pegar um exemplar de uma edição especial do Le Monde com a manchete “Marcher Contre La Terreur”, que era fartamente distribuído. Além disso, na livraria dentro do aeroporto não resisti e comprei o “Space Adventure Model Kit”, uma caixa com miniaturas da conquista da Lua, com o Saturno V, carros e jipes lunares, o módulo de descida, bandeirinhas e astronautas. Sem querer, começava também minha incursão espacial e de ficção científica que prosseguiria por toda a viagem.
Aterrisamos em Roma na noite do mesmo dia e por lá ficamos por mais três. Conseguimos visitar e conhecer o básico, como o Coliseu, as ruínas do Forum Romano e os jardins do Palatino, além de uma tarde no Vaticano. Roma pulsa nervosamente sua vida cotidiana como toda grande metrópole, mas tem em paralelo uma imponência e beleza histórica que impressiona. É uma sensação única entrar num lugar como o Coliseu, visitar as ruínas da residência de Augusto, o primeiro imperador, ou ainda contemplar arcos como os de Constantino e Tito. Nem precisaria, mas a enorme quantidade de turistas do mundo inteiro – especialmente chineses! – só reforça este sentimento. Apesar da fama de certa desorganização dos italianos – mais um clichê que não se confirma – a cidade é bem sinalizada, os serviços de apoio e informação aos turistas profissionalizados, e há um cuidado visível de manutenção dos marcos históricos. Inclusive, perto do Coliseu vimos um sítio arqueológico que soube ter sido descoberto recentemente, por onde passaria uma linha de metrô, que terá de ser desviada, pois lá estão as ruínas de parte da Domus Aurea, o antigo palácio de Nero.




Ficamos hospedados próximos ao principal terminal rodoviário, Termini, e lá pude visitar livrarias e bancas de jornais. Há uma quantidade expressiva de histórias em quadrinhos, sendo que Tex e Martin Mystére são muito presentes, assim como uma revista de suspense e horror chamada Diabolik. Achei exemplares mais recentes da coleção de ficção científica Urania. Na esperança de encontrar um livro de um autor italiano de FC publicado na coleção, Glauco de Bona, que com o romance Cuori Strappati venceu o Prêmio Urania 2014 para o melhor livro de FC nativa publicado no país, não comprei nenhum exemplar desta coleção em Roma. Mas não saí de mãos vazias, pois comprei num sebo o livro Roma Segreta, de Pierluigi Marrone, para aqueles que já conhecem bem os pontos históricos da cidade, e procuram por lugares menos conhecidos. Só para matar a curiosidade, claro, pois não é o meu caso.
Gostamos tanto da cidade que queríamos ficar mais um dia. Mas como não foi possível trocar de um dia para o outro a passagem de trem à Florença, partimos com vontade de voltar à capital eterna algum dia. Pelo menos cumprimos o ritual de jogar a moeda sobre os ombros na Fontana de Trevi – que, aliás, estava em reforma. Quem sabe?
Em duas horas estávamos no berço artístico do Renascimento, pois os trens que cruzam a Itália são muito rápidos, ainda que não sejam os famosos TGVs, como os de França e Japão.
Ao contrário de Roma, Florença é uma cidade pequena, e seu centro histórico é belíssimo com suas construções medievais, em especial as catedrais, museus e palácios que estão por toda parte. Ficamos três dias na cidade e pude, enfim, comprar exemplares de fantascienza – como é chamada a ficção científica na Itália. Primeiro procurei na rede de livrarias Feltrinelli mas, de forma surpreendente, não tinha exemplares da coleção Urania. Perguntei então pela seção de FC com a expectativa de conhecer alguma coisa da FC do país. Mas as estantes estavam lotadas mesmo é de traduções de autores tradicionais como Tolkien, Asimov, Lovecraft, King, Clarke, Heinlein, Dick, Pratchett, Adams. Havia também livros de autores anglo-americanos atuais como, por exemplo, Miélville, Doctorow, Scalzi, Stross e Alastair Reynolds. Mas deixei a livraria sem comprar nada, pois não vi nenhuma FC de autor italiano.
Circulando pelas ruelas históricas, achamos um túnel que é na verdade uma grande galeria de lojas. E lá encontrei um sebo com dezenas de livros da Urânia. Comprei apenas um Quando Due Modi si Incontrano (número 602, de 1973), uma antologia com duas novelas: “Quando Due Mondi si Incontrano”, de Robert Moore Williams e “Le Ragioni Degli Altri”, de Jack Vance. Mas no mesmo dia, achei numa banca de jornal próxima à estação ferroviária, o exemplar atual da coleção Urania, Astronave Mercenaria, de Mike Resnick (número 1614), e um livro que não havia visto até então, o Almanacco del Mistero. Pude finalmente adquirir exemplares da fantascienza publicada em janeiro de 2015, ou seja, o que de mais atual havia no momento da viagem.
Astronave Mercenaria (Starship Mercenary: Book Three) é o número 1614 da coleção Urania, que existe desde 1952! Historicamente publica autores estrangeiros, mas depois de instituir o Prêmio Urania, tem publicado autores nacionais que vencem o concurso de caráter anual. Basta lembrar que nos últimos anos revelou Valerio Evangelist, autor de prestígio na Europa, especialmente pelo romance steampunk Black Flag, lançado no Brasil pela editora Conrad em 2005.
Urania faz parte de uma tradição europeia centrada em coleções, assim como a Argonauta, de Portugal – que também teve início em 1953 e terminou em 2006, com 562 edições –, e a Fleuve Noir francesa, que existiu por meio século, de 1951 a 2001, publicando 2001 edições. Felizmente para os italianos a Urania mantém-se viva e forte, ao que parece, pois publica um livro por mês, e numa rápida pesquisa na internet constata-se que há todo um culto de fãs e leitores em torno da coleção. Vale lembrar que o próprio Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) teve como fonte inspiradora de criação a coleção Argonauta, por meio do livro Quem é Quem na FC, a Coleção Argonauta, Vol. 1, de R.C. Nascimento, em 1985. Na verdade o CLFC nasceu como uma associação de colecionadores da Argonauta. Mas curiosamente o culto era de brasileiros e não de portugueses.
Os livros da Urania valorizam o relacionamento com os fãs. Não havia seção de cartas – apesar de uma solicitação para isso do editor no texto de apresentação da edição –, mas além do romance, há resenhas de livros, artigo que discute os princípios científicos abordados na obra, chamadas para eventos de FC no país e o anúncio do Prêmio Urania. Não é um livro convencional, mas sim quase uma revista.
Surpresa mesmo tive com o Almanacco del Mistero. É uma publicação anual de variedades em torno de FC, fantasia e horror. Apresenta uma enorme HQ do personagem Martin Mistère em P&B como atração principal da revista, com 91 páginas, “Saturno Contro La Terra”, com texto de Alfredo Castelli e desenhos de Giancarlo Alessandrini. O restante é fartamente colorido com fotos e ilustrações de artigos sobre filmes, séries de TV, resenhas de livros, notícias e o tema da edição, a FC pulp, através da própria HQ e dos artigos “L´alba dei Fanta-Pulp: Tutte Le Strade Portano a Mongo”, de Maurizio Colombo e Graziano Frediani”, e “Alieni Divini: E Venne um Ufo!”, de Gianmaria Contro. Uma revista bonita, que em princípio lembra um pouco o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica pela proposta, mas é mesmo um almanaque que junta diversas seções em torno da FC&F.



Deixamos Florença em 17 de janeiro e partimos para Veneza. Ficamos dois dias numa das mais surpreendentes e improváveis cidades, toda circundada por rios e canais que somada à sua arquitetura medieval e renascentista lhe dá um caráter sem igual. Tivemos a fortuna de ficarmos hospedados num modesto hotel que nos deu o privilégio de ao abrirmos a janela avistarmos os canais que circundavam o quarteirão. Claro que visitamos pontos turísticos tradicionais, como a Praça e a Basílica de San Marco, e viajamos de barco pelos canais – mas não de gondola, pois custava 80 euros! – mas o mais legal em Veneza é andar a pé e sentir a beleza singular da cidade.
Depois de Veneza passamos uma noite em Milão – principal centro industrial da Itália, na região da Lombardia – e logo cedo voamos para Copenhague, em conexão para Bremen, no norte da Alemanha. Na capital da Dinamarca uma surpresa: a moeda não é o Euro, mas a Coroa. Mas como o país integra a União Européia, não houve problema de aceitação da moeda. No início da noite estávamos em Bremen e pudemos sentir a diferença radical de temperatura: saímos de 10, 12º C na Itália para – 5º C. º.
Fomos recebidos e ficamos hospedados na casa de uma amiga da Rossana dos tempos da adolescência, que foi viver na Alemanha, e está casada e com filhos. Foi bom também porque o marido dela, embora alemão, fala bem português, pois morou alguns anos em Portugal.
Tivemos três dias inteiros no país, e em dois deles percorremos Bremen e no outro estivemos em Hamburgo, que fica apenas uma hora de trem de Bremen. É uma cidade portuária, mas semelhante à Florença no que diz respeito à sua arquitetura histórica, também medieval, mas com um caráter mais neogótico, em especial em suas muitas igrejas, muitas delas construídas a partir da reforma protestante, no século 16. É inverno e a noite chega cedo, por volta das 16 horas – na Itália, às 17h30 –, mas a cidade é animada, com vários artistas realizando performances na rua, e instrumentistas tocando música clássica. Tudo ao ar livre e de graça.
No dia seguinte conhecemos Hamburgo, a segunda maior cidade do país, e muito diferente de Bremen, pelo menos na parte da cidade em que estivemos. Próximo ao terminal ferroviário onde descemos, sem querer paramos no bairro da comunidade turca, enorme no norte da Alemanha. Parecia que nem estávamos mais no país mais rico da Europa, pois as pessoas tinham a pele morena e o cabelo escuro, além de não falar necessariamente alemão, mas sim sua língua natal. Com fome, almoçamos num restaurante turco e quase fomos expulsos, pois o garçom ficou ofendido quando pedimos cerveja. Não havíamos percebido, mas o restaurante não era apenas turco, mas também mulçumano. Mesmo assim ficamos, e a comida estava boa. (Sem comparações, contudo, com a comida alemã típica, e menos ainda com a italiana. Mas não vou entrar nesta seara, pois renderia outro texto sobre como os europeus comem bem.)
O que nos chamou a atenção também em Hamburgo – e de forma ainda mais surpreendente, pois estávamos no país de maior economia da Europa – é a pobreza, com pessoas pedindo esmolas na rua.  E vimos isso também em Roma e em Veneza. Isso sem falar na farta presença de indianos e africanos na península italiana, vivendo de bicos em situação ilegal. Em Veneza, inclusive, conversamos rapidamente com um ucraniano – em inglês – foragido da guerra em seu país que vivia na rua. Mas os mendigos que avistamos foram alemães e italianos mesmo. Apesar dos bem-estruturados sistemas de welfare state, os efeitos da grande crise econômica de 2007 ainda estão visíveis no coração da Europa.
Na segunda noite em Bremen, na companhia de Joaquim, o alemão que nos hospedou –,  entrei de bico numa festa do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), que governa Bremen há 40 anos. Era pelo lançamento de um programa da prefeitura sobre a inclusão de pessoas com deficiência no serviço público do município. Ouvimos um ou outro discurso, bebemos vinho e saímos aquecidos e de volta para o frio quase polar. Estar na Alemanha em pleno inverno é como estar num freezer a ao ar livre, apesar dos quilos de agasalhos que temos que vestir. Apesar disso só vimos neve na região rural entre Bremen e Hamburgo. E soubemos que começou a nevar forte em Bremen um dia após nossa partida...


Depois de ter procurado Perry Rhodan em Bremen, acabei achando numa banca de jornal dentro da estação ferroviária de Hamburgo. Mas não era a coleção principal, e sim Perry Rhodan Neo, n. 87, “Ruckkehr der Fantan”, de Michelle Stern. É uma das coleções derivadas da série que procura reescrever o universo ficcional do herói espacial a partir de outras premissas, isto é, uma história alternativa que, em linhas gerais, situa a conquista ao espaço em 2036 e não em 1971, como na linha temporal tradicional da série. É um romance, portanto bem maior que as aventuras quinzenais, e também contém seções complementares, como de cartas, humor e artigos. Sai uma vez por mês.
Apenas no dia seguinte é que, novamente, em Bremen, pude comprar Perry Rhodan. Era o exemplar da quinzena, “Die drei Tage der Manta”, de Christian Montillon, número 2788. Isso mesmo, 2788! Já imaginou acompanhar uma série que esteja num número como este? Fantástico para quem acompanha, mas desanimador para quem pega a coisa pelo caminho. Em todo caso, talvez até mais que a coleção Urania italiana, Perry Rhodan é idolatrada na Alemanha. Inclusive, o vendedor exclamou: “Perry Rhodan!”. Disse mais algumas palavras em alemão, mas tive de cortar seu entusiasmo ao dizer, em inglês, que não falava alemão.
Se na Itália esperava comprar um livro da Urania, não podia estar na Alemanha e não comprar Perry Rhodan, mas fui surpreendido – assim como com o Almanacco del Mistero – com quatro séries de literatura de gênero vendidas no país. São revistas de formato semelhante à de Perry Rhodan, mas de outra editora, e que publicam séries de aventuras infanto-juvenis de FC, fantasia, horror e western. Comprei o exemplar de FC Bastei Maddrax die Dunkle Zukunft der Ende, com a aventura “Daa´Muren unter Sich”, de Lucy Guth, que já está no número 391, e tem periodicidade semanal!
Se na Itália um dos carros-chefes de sua FC é a coleção Urania, na Alemanha o pulp está vivo e forte em revistas de aventuras seriadas. Apesar do boom da FC&F brasileira nestes anos 2000, que inveja de ver livros e revistas populares sendo vendidas a preços baixos (de 2 a 5 euros) em bancas de jornais espalhadas pelos países. Isso sim ajuda a fortalecer um fandom, e permite o surgimento de novos autores, além de manter em parte as carreiras de outros autores. A FC brasileira tentou algumas vezes, mas o fato é que nunca fomos bem sucedidos neste seguimento de popularização e desenvolvimento da FC&F.
Depois de duas semanas intensas, partimos no dia 25 de Bremen para Paris e, de novo sem deixar o aeroporto para conhecer a cidade luz, rumamos de volta a São Paulo, Brasil. Foi muito legal, mas é bom estar de volta.





[1] Este texto foi escrito logo após minha volta ao Brasil, em janeiro de 2015, a pedido de Roberto de Sousa Causo que pretendia publicá-lo em seu fanzine Papêra Uirandê. Como não há perspectiva de uma nova edição  do zine resolvi publicar o artigo aqui no Almanaque.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O Altar do Diabo (The Dunwich Horror, EUA, 1970)


A lenda do Necronomicon diz que antigamente a Terra era habitada por uma espécie de outra dimensão. Com certos cânticos do livro, junto com antigos ritos de sacrifício, esta raça de outrora pode ser trazida de volta.

O Altar do Diabo”, dirigido por Daniel Haller, é baseado na história “The Dunwich Horror”, de H. P. Lovecraft, produzido pela nostálgica “American International”, de James H. Nicholson e Samuel Z. Arkoff, com produção executiva do “Rei dos Filmes B” Roger Corman, e elenco liderado por Dean Stockwell e Sandra Dee, além dos veteranos Ed Begley e Sam Jaffe.
Um jovem estudioso de ocultismo, Wilbur Whateley (Dean Stockwell), vive na pequena cidade de Dunwich em sua casa imensa e sinistra. Ele é temido pelos supersticiosos e assustados moradores locais, depois que sua mãe Lavinia (Joanna Moore Jordan) enlouquece após o parto e é internada num hospício. Ele tenta através dos ensinamentos do raro, poderoso e proibido livro “Necronomicon”, e com um ritual de sacrifício humano no “altar do diabo”, da bela e jovem Nancy Wagner (Sandra Dee), abrir um portal que permitiria a entrada dos “Antigos”, uma raça ancestral de outra dimensão, que habitava nosso planeta em tempos imemoriais, reassumindo o controle da Terra e destruindo a raça humana.
Para tentar combatê-lo e impedir o retorno dos “Antigos” ao nosso mundo, o Dr. Henry Armitage (Ed Begley), professor de filosofia da Universidade de Arkham, une forças com o médico Dr. Cory (Lloyde Bochner), de Dunwich, e juntos seguem de perto os passos do jovem ocultista, principalmente depois que o livro “Necronomicon” é roubado.
Filme de horror com uma atmosfera sinistra constante, explorando vários elementos presentes na mitologia dos “Mitos de Cthulhu”, criada por Lovecraft, com citações ao livro “Necronomicon” e à entidade cósmica maléfica “Yog-Sothoth”. A diversão é garantida, graças à presença de Roger Corman nos bastidores e pelo elenco interessante, formado por jovens em ascensão na época como Dean Stockwell e Sandra Dee, ou pelos veteranos Ed Begley e Sam Jaffe, rostos conhecidos por longas carreiras em séries diversas de TV. Mas, o resultado final certamente poderia ser ainda mais interessante com uma exploração maior das criaturas indizíveis de Lovecraft, algo que ficou mais restrito pelas questões de orçamento reduzido.
Entre as curiosidades, o filme foi exibido dublado na televisão brasileira na extinta TV Manchete, na Sessão “Terça Especial”, de onde gravei em VHS entre os anos 80 e 90 do século passado, e passei depois para a mídia DVD. Em 2009 tivemos outra versão, produzida pela “Nu Image”, conhecida pelas bagaceiras de seu catálogo. O elenco tem o cultuado ator Jeffrey Combs (de “Re-Animator”) como Wilbur e novamente Dean Stockwell, só que em outro papel, interpretando o Dr. Henry Armitage. O filme foi lançado em DVD por aqui pela “Focus Filmes” com o nome “Bruxas”.

... e com o portão aberto, os Antigos vão passar. O Homem governa agora o que eles governavam antes. Eles aguardam pacientes e potentes. E por aqui eles reinarão de novo. E governarão por onde antes caminhavam...

(RR – 07/01/18)



domingo, 7 de janeiro de 2018

O karma de Gaargot, Sergio Macedo

O karma de Gaargot, Sergio Macedo. 48 páginas, Editora Massao Ohno, São Paulo, 1973.

Volta e meia, o pesquisador de quadrinhos nacionais se depara com um nome surpreendente que, por razões imperdoáveis, não está na ponta da língua de todos os leitores. Às vezes é uma revista, que publicou obras de qualidade, mas teve uma distribuição limitada e poucos a conheceram; outras é uma hq, que apresentou um estilo inovador, mas, justamente por estar muito adiante de sua época, não galvanizou atenção; ou ainda um artista que, apesar de ter desenvolvido um trabalho meritório, caiu no esquecimento ao longo do tempo. Estes três aspectos podem ser observados simultaneamente em O karma de Gaargot, de autoria do mineiro Sergio Macedo, originalmente publicada em forma de seriado na revista Grilo nos anos 1970, e reunida em álbum em 1973 pelo importante editor independente Massao Ohno.
Primeiro, a revista. Massao Ohno deu à este álbum um tratamento sui-generis, com pranchas impressas em papéis diferentes e páginas de seda separando algumas delas, num acabamento luxuoso para os padrões editoriais da época. De muitas formas, o álbum remete ao igualmente transgressor e raro Saga de Xan, resenhado aqui.
Segundo, a obra em si. Trata-se de uma peça de ficção científica distópica sobre uma sociedade industrial dominada por um governo totalitário e totalmente dependente da tecnologia – que divide o mundo com seres híbridos de homens, animais e máquinas – quando surge um artefato desconhecido nos céus, chamado por eles de Aparição. Essa máquina indestrutível e inexpugnável é uma espécie de inteligência cósmica, que elege um único ser humano entre os oprimidos para ser transcendido. Enquanto esse homem passa pelas diversas etapas da evolução consciente e inconsciente, o governo tenta todas as formas de destruir a Aparição.
Trata-se, obviamente, de uma alegoria ao estado opressor em que o Brasil estava submetido a época da publicação e que duraria ainda muitos anos após sua conclusão. Mas é também um tratado filosófico sobre a relação com a natureza e o outro, sendo, dessa forma, uma das primeiras peças do quadrinho nacional a abordar a questão ambiental – ainda que de forma transversal – e a filosofar abertamente, algo que, anos depois, se tornara praticamente um gênero nos fanzines nacionais, batizado por seus praticantes como "quadrinho filosófico". Além disso, temos ali a estética extremamente autoral de Macedo como ilustrador, com desenhos que se desdobram em detalhes minuciosos e técnicas variadas, que passam pelo bico de pena, pincel e, especialmente, o pontilhismo, com resultados muito expressivos ainda que unicamente em preto em branco. Sem esquecer a linguagem repleta de licenças poéticas, como se fosse uma estado futuro do português.
E, finalmente, o autor. Sérgio Macedo é um caso singular nos quadrinhos nacionais. Sua obra tem aspectos extremamente ousados, afinada com as propostas político-sociais da época, quando a contracultura ainda estava muito fresca na mente dos artistas e do público. Reconhecemos mais os efeitos dessa escola na música, com o tropicalismo de Os Mutantes e Tom Zé, na poesia concretista de Augusto de Campos e Décio Pignatari, e no cinema de Glauber Rocha, por exemplo. Sérgio Macedo é o grande expoente desse momento cultural no quadrinho brasileiro, autor de um trabalho que, à época, só encontrava paralelo na arte de Philippe Druillet e Moebius, artistas europeus de vanguarda. Tanto é que, pouco depois de publicar este material, Macedo transferiu-se para a Europa e tornou-se colaborador contumaz na revista Metal Hurlant, fundada em 1975 por esses dois artistas ao lado do jornalista Jean-Pierre Dionnet, que viria a revolucionar a linguagem dos quadrinhos no mundo inteiro.
Macedo reside hoje no Taiti e continua a trabalhar para o mercado europeu, onde tem diversos álbuns publicados. Apesar de toda essa importância, o autor foi pouquíssimo publicado no Brasil. Além do O karma de Gaargot, Macedo teve publicado aqui apenas Xingu! (Devir, 2007), com uma história baseada nas experiências do autor que viveu algum tempo entre os índios kayapó. Na Europa, esse álbum recebeu o nome de Brazil! e faz parte de uma série de cinco títulos contando as aventuras do explorador Vic Voyage.
O karma de Gaargot é um trabalho que merece e precisa ser resgatado para as novas gerações, devido à importância histórica e estética que, a sua época, manteve o quadrinho brasileiro na ponta de lança do quadrinho mundial.
Cesar Silva

Zombie Nightmare (Canadá, 1987)


Nos créditos iniciais temos a música “Ace of Spades”, da lendária banda inglesa “Motorhead”, apenas uma de várias outras de heavy metal que participam da trilha sonora como “Girlschool”, “Virgin Steele”, “Thor” e “Battalion”, que desfilam sua música ao longo do filme. Tem também o ator cultuado da televisão Adam West (falecido em 2017 aos 88 anos), um rosto reconhecido como Bruce Wayne (Batman) da série homônima de TV dos anos 1960, pastelão e tranqueira ao extremo. Completa ainda um único zumbi, tosco e super bagaceiro, ressuscitado dos mortos em busca de vingança contra seus assassinos. O resultado é “Zombie Nightmare”, produção canadense de 1987 dirigida por Jack Bravman a partir de roteiro de John M. Fasano.
Tony Washington (o cantor Jon Mikl Thor, líder fundador da banda “Thor”, na ativa desde 1977), é um jovem que morre num acidente trágico, atropelado por um carro guiado por Jim Batten (Shawn Levy), um adolescente acéfalo e rebelde, que não respeita ninguém e lidera um grupo ainda formado por dois casais de namorados, Peter (Hamish McEwan) e Susie (Manon E. Turbide), e Bob (Allan Fisher) e Amy (Tia Carrere, atriz que conseguiu algum destaque posterior na carreira). Tony volta do mundo dos mortos, invocado num ritual de magia negra pela bruxa Molly Mokembe (Manuska Rigaud), e sai de seu túmulo para se vingar daqueles que causaram sua morte violenta.
Paralelamente, com a ocorrência de mortes estranhas dos jovens rebeldes, a polícia entra em cena com a investigação do jovem detetive Frank Sorrell (Frank Dietz), auxiliado pelo veterano chefe Capitão Tom Churchman (Adam West). Eles tentam descobrir o mistério por trás dos assassinatos com toques sobrenaturais, evidenciando o tal “pesadelo zumbi” do título.
“Zombie Nightmare” tem um nome sonoro e chamativo, mas é um filme extremamente ruim, mal feito e datado. Trata-se apenas de um exemplo do cinema bagaceiro oitentista com pouca diversão, valendo conhecer exclusivamente por curiosidade.
Exceto pela música do “Motorhead” e pela presença do eterno canastrão Adam West, mesmo somente a partir da metade do filme, pouca coisa se salva. A história, repleta de furos, é um clichê totalmente sem interesse, cansativo e arrastado. As interpretações do elenco são amadoras. O zumbi vingativo tem uma maquiagem péssima e sua atuação nas cenas de mortes é bem patética. Aliás, as mortes também são bem discretas.
Curiosamente, num momento em que o zelador de uma academia de ginástica está dormindo em serviço, permitindo o ataque do zumbi em seu plano de vingança, podemos ver que em seu colo tem uma revista “Fangoria”, cuja capa mostra o líder dos caminhões que ganharam vida própria na tranqueira “Comboio do Terror” (Maximum Overdrive, 1986), dirigido por Stephen King e baseado em seu conto.
(Juvenatrix – 05/01/18)


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O Mistério do Invisível (The Unseen, EUA, 1980)


Uma equipe de mulheres jornalistas de televisão formada por Jennifer Fast (Barbara Bach), sua irmã Karen (Karen Lamm) e Vicki Thompson (Lois Young), está a caminho da pequena cidade americana Solvang, no Estado da California, para cobrir uma festa tradicional da região. Porém, com todas as vagas nos hotéis esgotadas, elas procuram alternativas de hospedagem e encontram uma improvável oportunidade na casa do zelador de um antigo museu que foi hotel no passado, Ernest Keller (Sydney Lassick). Ele é um homem simpático e bom anfitrião, mas também tem comportamentos estranhos e esconde um misterioso segredo no porão.
Sua irmã Virginia (Lelia Goldoni) fica extremamente preocupada com a chegada imprevista das convidadas, e sempre está triste, assustada e com um olhar deprimido e perturbado, ocultando o “mistério do invisível”, representado por uma criatura demente que vive no porão (“Junior”, interpretado por Stephen Furst).
Enquanto a repórter Jennifer faz seu trabalho, sabemos que está grávida e enfrentando uma crise conjugal com o namorado Tony Ross (Douglas Barr), um ex-jogador de futebol americano que teve que desistir da carreira por causa de uma grave lesão na perna.
O que todas elas não esperavam é que uma aparente simples estadia iria se transformar num pesadelo quando suas vidas são ameaçadas pelo que está escondido no porão, além de enfrentar o suspeito anfitrião que ofereceu sua casa para elas.
"O Mistério do Invisível" é um filme irregular, com alguns momentos arrastados lembrando apenas um thriller comum daqueles produzidos para a televisão. Mas, também tem boas cenas de tensão e atmosfera sinistra na exploração do “mistério do título”, na especulação sobre quem vive oculto no porão, sua origem, motivações e atos com conseqüências trágicas. O desfecho ainda reserva uma longa sequência de confronto com perseguições, lutas desesperadas e insanidade.
O elenco é composto por poucos atores e as atuações são muito boas, principalmente Sydney Lassick, que faz um homem gentil e brincalhão e ao mesmo tempo sinistro e insano, convidando as mulheres para a morte. E também Stephen Furst, que aparece pouco, mas de forma intensa no papel do demente que vive no porão.
Entre as várias curiosidades, o diretor e também autor do roteiro Danny Steinmann (1942 / 2012), que tem em seu pequeno currículo um filme da franquia do popular psicopata Jason Voorhees (“Sexta-Feira 13 Parte 5: Um Novo Começo”, 1985), não gostou do corte final do filme, com a retirada de várias cenas assustadoras, e decidiu assinar com o pseudônimo Peter Foleg.
Stan Winston, cultuado mestre em efeitos especiais, falecido em 2008, foi um dos co-autores da história, sendo que uma primeira versão (depois bastante modificada) foi de autoria de Kim Henkel, o criador de “O Massacre da Serra Elétrica” junto com Tobe Hooper.
A atriz Barbara Bach, que em “O Mistério do Invisível” grita e luta desesperadamente por sua vida, participou também da divertida bagaceira italiana “A Ilha dos Homens-Peixe” (1979). Ela é casada com Ringo Starr, o baterista da lendária banda “The Beatles”.
(Juvenatrix – 01/01/18)

sábado, 23 de dezembro de 2017

Mystics in Bali (Indonésia / Austrália, 1981)


Mystics in Bali” é uma tranqueira produzida na Indonésia em parceria com a Austrália, também conhecido pelo título alternativo “Leák”. Com direção de H. Tjut Djalil, a história mistura elementos de magia negra, feitiçaria e vampirismo, apresentando uma cabeça voadora com órgãos internos pendurados, em efeitos precários e com um elenco extremamente ruim.
Uma escritora americana, Catherine Kean (Ilona Agathe Bastian), está em Bali (uma ilha localizada na Indonésia) para pesquisar informações sobre a antiga, estranha, misteriosa e poderosa magia negra “leák”, com o objetivo de escrever um livro sobre o assunto. Ela é auxiliada pelo namorado Mahendra (Yos Santo), nativo da região, e consegue um contato noturno e sinistro com uma feiticeira, uma rainha leák (interpretada por Sophia W. D. quando velha, e por Cinthya Dewi quando jovem).
A poderosa bruxa, com voz gutural, aceita passar os ensinamentos da magia para a ingênua Cathy, que se torna uma discípula das trevas e se transforma eventualmente numa criatura assassina e vampira à procura de sangue e carne de suas vítimas, sendo que sua cabeça, agarrada à espinha, pulmões e intestinos, se separa do corpo e voa em busca de alimento. Mahendra tenta salvá-la da maldição e pede ajuda ao seu tio Machesse (W. D. Mochtar) e outros religiosos para combater a rainha leák e libertar a namorada Cathy de seu domínio maléfico.
Com esse roteiro absurdo já dá para imaginar a imensa tranqueira que é “Mystics in Bali”, um filme tão ruim que o espectador torce para que acabe logo, mas isso somente ocorre depois de seus longos 87 minutos. Os atores são muito inexpressivos, artificiais e tão amadores que chegam a incomodar pela precariedade das atuações. A rainha leák dá tantas gargalhadas histéricas irritantes que nos incentivam a avançar o filme minimizando o incômodo. Sem contar a dança ridícula do ritual de magia negra.
Os efeitos são extremamente bagaceiros, principalmente a tal criatura demoníaca que é a cabeça voadora de Cathy possuída, arrastando as tripas pelos ares. Tem também uma mão decepada que caminha sozinha, o tentáculo enorme em forma de língua da bruxa leák, as cenas de transformação dela e da discípula Cathy em animais como porcos e outras criaturas gosmentas, além dos vômitos verdes misturados com ratos vivos e o duelo de feiticeiros transformados em bolas de fogo numa guerra patética de raios, entre outras bizarrices. Mas, onde normalmente isso seria um motivo para agregar valor como entretenimento para os apreciadores de filmes toscos, acaba surtindo um efeito contrário por causa da ruindade extrema geral do filme, desde a história sofrível até as atuações inacreditavelmente inexpressivas.
(Juvenatrix – 22/12/17)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O Grito da Caveira (The Screaming Skull, EUA, 1958)


“Nós garantimos enterrá-lo sem custos se você morrer de susto durante O Grito da Caveira – jogada de marketing dos produtores

“O Grito da Caveira é um filme que atinge seu clímax num horror chocante. Seu impacto é tão terrível que pode causar um efeito imprevisto. Pode até matá-lo. Portanto, seus produtores garantem serviços funerários gratuitos para quem morrer de susto enquanto assistir O Grito da Caveira”.

No final dos anos 1950, uma época de ouro do cinema fantástico bagaceiro, vários filmes de baixo orçamento do produtor e cineasta William Castle receberam um tratamento diferenciado e criativo na área de marketing e divulgação, despertando a atenção e curiosidade do público para ir aos cinemas. Utilizando técnicas interativas para assustar os espectadores como poltronas que tremem e dão pequenos choques elétricos, fornecimento de apólices de seguro de vida para quem morresse durante a exibição do filme, ou o uso de um esqueleto humano iluminado movimentado por um complexo mecanismo de polias, cordas e correias, que era arremessado por cima das pessoas. Inspirado por esse marketing inusitado de William Castle, os produtores de “O Grito da Caveira” (The Screaming Skull, 1958), Thomas F. Woods e John Kneubuhl (também autor do roteiro), igualmente entraram na onda e prometeram pagar os serviços funerários de quem morresse de susto durante a projeção do filme (conforme atestam a tagline e a narração de introdução reproduzidas acima).
No filme, dirigido por Alex Nicol (mais conhecido pela carreira de ator coadjuvante), Eric Whitlock (John Hudson) se casa com Jenni (Peggy Webber) e juntos vão morar no casarão de Eric, que utilizava quando ainda era casado com Marianne, morta num trágico acidente doméstico, ao se afogar num pequeno lago após escorregar num dia de forte chuva.
Jenni tenta ser feliz ao lado do marido, após enfrentar uma fase conturbada com problemas psicológicos num hospital psiquiátrico por causa da morte dos pais afogados num acidente de barco. Na mansão ainda vive o suspeito jardineiro Mickey (Alex Nicol), um homem com retardamento mental que cuida do imenso jardim que rodeia a casa, e continua sentindo uma devoção exagerada à antiga patroa falecida. E entre os amigos do casal temos os vizinhos Reverendo Edward Snow (Russ Conway) e sua esposa (Tony Johnson).
Os problemas se iniciam quando Jenni é atormentada por gritos na escuridão da noite e com a suposta presença fantasmagórica da falecida primeira esposa de seu marido, além de uma misteriosa caveira que está constantemente perseguindo-a para desestabilizar o seu já fragilizado estado psicológico. Apavorada, o estado mental dela vai progressivamente piorando, confusa com os acontecimentos sinistros da casa e do passado trágico envolvendo a morte perturbadora de Marianne.
“O Grito da Caveira” tem fotografia em preto e branco e uma duração curta, com apenas 68 minutos. É uma produção de orçamento reduzido, poucos personagens (apenas 5), uma história clichê e ingênua com elementos de horror que talvez pudessem assustar as platéias mais sensíveis de meados do século passado, mas que atualmente dificilmente causaria algum desconforto. Os efeitos especiais da “caveira que grita” são patéticos de tão hilários. Porém, são exatamente esses ingredientes típicos do cinema fantástico bagaceiro daquele período que resultam na diversão dos apreciadores dessas tranqueiras. Temos uma atmosfera sinistra de um casarão envolto em manifestações sobrenaturais, um fantasma atormentado em busca de vingança e paz, uma mulher lutando para manter sua instável sanidade, e a jogada de marketing promocional com um caixão nos cinemas reservado para quem morresse de susto durante a exibição do filme.
Curiosamente, “O Grito da Caveira” também recebeu outro nome alternativo nacional: “A Maldição na Noite de Núpcias”.
(Juvenatrix – 19/12/17)