sexta-feira, 1 de junho de 2018

Algo Sinistro vem por Aí


Algo Sinistro vem por Aí (Something Wicked this Way Comes), Ray Bradbury. 293 páginas. Tradução de Jorge Luiz Calife. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.


Entre os principais livros de Ray Bradbury (1920-2012) Something Wicked this Way Comes foi o mais tardio a ser publicado no Brasil. E o mestre nos insere mais uma vez em uma pequena cidade do interior americano neste seu romance, publicado originalmente no já distante ano de 1962.
Romances, por sinal, são minoria na obra deste contista por excelência. Além deste escreveu Fahrenheit 451, um libelo a favor da liberdade e da civilização, publicado em 1953 – um livro, aliás, cada vez mais valorizado. Aqui no Brasil, desde 2017, inspira o nome de uma ótima revista de resenhas, a 451; nos EUA recebe em 2018 uma nova adaptação audiovisual, numa minissérie da HBO.
Alguém pode lembrar-se do celebrado As Crônicas Marcianas (1950), mas em verdade este livro é o que se costuma chamar de fix-up – um romance com pequenas histórias interligadas – e não propriamente uma única história longa, como o caso deste Algo Sinistro Vem por Aí, uma de suas obras mais longas – pelo menos no fantástico.
Esta história tem ecos diretos de sua obra-prima O País de Outubro (1955), uma das mais belas coletâneas já escritas, pois também acontece em um certo outubro. Bradbury começa o livro situando este mês em relação aos outros porque, para ele, seria tão especial e diferente, que poderia ser interpretado à luz do fantástico. As aulas já recomeçaram há um mês, já deu tempo dos jovens se reencontrarem e se acostumarem com a situação, estamos em pleno outono no hemisfério norte, e o desfecho promete uma inesquecível noite de Halloween.
Nesta cidadezinha não identificada, tão igual a centenas pelo interior profundo dos Estados Unidos, mas que poderia ser em qualquer país, o tal Halloween chegou antes no ano em questão. É a súbita chegada de um parque de diversões. Especialmente na vida de dois garotos, Will Halloway e James Nightshade, que ficam imediatamente fascinados. Verão pouco depois que a vida deles e de outros habitantes nunca mais será a mesma.
Não tarda para que eles adentrem ao parque e tomem contato com situações muito além de uma simples diversão para uma cidadezinha sem graça do interior. Coisas insólitas acontecem, primeiro com pessoas próximas a eles, como a professora Foley e o vendedor de para-raios. Mas sobretudo depois da experiência do carrossel, ao verem um homem girar para trás e rejuvenescer, eles estão como que tomados por um outro mundo, como num caminho sem volta.
Não é um parque normal, se é que algum é, mas possui poderes e modifica as pessoas, realizando, de alguma forma, seus desejos inconfessáveis. Os artistas e seres bizarros do parque disso se aproveitam para atrair, seduzir e, finalmente, capturar aqueles mais curiosos ou sensíveis às suas tentações.
O homem ilustrado – que já havia protagonizado um belo romance fix-up, Uma Sombra Passou por Aqui (1951) –, retorna neste livro como o mestre de cerimônias do parque, também chamado de Senhor Dark. Suas inúmeras ilustrações móveis pelo corpo fascinam a todos e ele como que hipnotiza os que dele se aproximam. Há ainda o Esqueleto, a Bruxa, o Anão, e o Senhor Cooger, que depois de ir para frente no carrossel quase morre de tão velho e numa sequencia fantástica – presenciada pelos garotos –, é ressuscitado em uma cadeira elétrica.
O romance é dividido em três partes: chegadas, buscas e partidas. A primeira fala basicamente do parque de diversão e o que desperta em alguns dos personagens. Desta forma, ele não é apresentado em termos narrativos, com suas atrações e personagens numa sequencia linear. Estes surgem por meio da interação com os habitantes da cidade, o que torna o relato mais intimista e particularizado, isto é, a partir do sentimento e ponto de vista de cada um que interage com, por exemplo, a sala dos espelhos, o carrossel, a bruxa ou o temível homem ilustrado.
As “Buscas” da segunda parte são realizadas pelos seres, que saem do parque pelas altas horas da noite, em perseguição aos dois garotos. É que eles perceberam o que este parque de fato representa, muito mais do que uma simples e inocente diversão. Os seres querem as pessoas, recrutá-las como suas possíveis novas atrações, seduzindo-as com os poderes que oferece, como o mais irresistível deles, a fonte da juventude.
Will e Jim contam com a ajuda de Charles, o pai de Will, um solitário zelador da biblioteca pública da cidade. Pesquisando nos jornais antigos eles descobrem que o parque já esteve outras vezes por lá, e que retorna em média a cada 50 ou 60 anos. Quase depois de uma geração inteira de vida da própria cidade. Com a memória coletiva esmaecida o parque retorna, captura alguns poucos dos seus habitantes, mantém para os demais a fachada de um parque de diversões como os outros e parte para outras paragens da mesma forma que chegou neste, para depois de anos retornar ao mesmo local.
Charles, Will e Jim se defrontam com os seres da noite, tanto no interior da biblioteca, nas ruas escuras da cidade e, principalmente, no interior do parque para onde são fatalmente levados. Em “Partidas” temos uma viagem de autodescoberta sobre os valores importantes da vida: humildade, desprendimento, solidariedade, confiança e, sobretudo, alegria. Pois como os três descobrem, a única arma de que dispõe é a alegria, é o bem-estar, pois o Senhor Dark e seus seguidores são fortes e quase imortais porque se alimentam da inveja, do egoísmo, da vaidade e da maldade humana.
É uma história rica em significados que, por si mesma, já evoca imagens fortes no imaginário das pessoas. A atração por um parque de diversão – ou de um circo – é como uma abertura para que entremos em um mundo de fantasia, de realização de sonhos e anseios impossíveis de se alcançar na vida cotidiana, tão modorrenta e cheia de responsabilidades.
A escolha de uma dupla de garotos de 14 anos é oportuna, ainda mais por eles estarem na adolescência, aquela fase da vida onde somos invadidos por várias dúvidas, curiosidades, angústias e possibilidades. Remete à ideia de que a iminência da vida adulta é cheia de riscos e de que é hora de caminhar sozinho. Também por aí se pode interpretar que a chegada de uma atração estranha a uma cidade pequena e de hábitos previsíveis, representa um risco de desestruturação da ordem.
Por este aspecto, também o ato do tal parque ser do mal poderia ser interpretado de uma forma conservadora, no sentido de que não devemos ir muito longe em nossas fantasias, porque elas nos tiram do eixo e nos levam para caminhos errados ou que não mais controlamos. Dizendo de outra forma, tornar-se adulto ou ir embora com o parque. Mas com Bradbury tal viés não se dá, porque os próprios seres de outono são carentes, solitários e contraditórios. Pois se alimentam de nossas fraquezas e isso é o que está subjacente na obra: a valorização da amizade, da confiança e, principalmente, o sentimento de alegria. Para muito além de regras e códigos do que é socialmente visto como “certo”.
O posfácio é interessante porque Bradbury revela a razão de dedicar o livro ao ator e dançarino Gene Kelly (1912-1996). É que o autor escreveu um roteiro para Kelly dirigir. Mas este não encontrou nenhum produtor que se interessasse, fazendo com que Bradbury transformasse o roteiro em um romance. Posteriormente, em 1983, foi produzido o longa-metragem, dirigido por Jack Clayton (1921-1995).
 Embora Algo Sinistro Vem por Aí tenha como protagonistas uma dupla de garotos e o pai de um deles conserve um espírito jovial, é um romance para um público adulto. Pode ser classificado como um dark fantasy (ou fantasia sombria, se preferir), com fortes elementos sobrenaturais. E narrada por um escritor tão naturalmente talentoso, que pode agradar a qualquer tipo de leitor. Seja o aficcionado pelo gênero, ou pelo autor, ou simplesmente por uma narrativa bem escrita e bem contada.

Marcello Simão Branco

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Pré-História do Futuro

Pré-História do Futuro (Niourk), Stefan Wul. Tradução de Mário Henrique Leiria. Capa de Lima de Freitas. 199 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil: Coleção Argonauta no. 56, 1960. Lançado originalmente em 1957.

Este é o segundo romance de Stefan Wul, publicado na coleção francesa Fleuve Noir, no. 57, em 1957, após sua estreia na mesma coleção em 1956 com Regresso a Zero (Retour à “O”). E é também o segundo do autor publicado na coleção Argonauta.
Se no primeiro romance Wul abordou um tema principal – disputa de poder entre a Terra e a Lua – com desdobramentos para a abordagem de temas secundários – como, por exemplo, a belíssima sequência da cirurgia miniaturizada no interior do corpo humano –, em Pré-História do Futuro temos um enredo mais centrado e definido, abrindo a oportunidade de maior aprofundamento dramático da história.
A civilização humana praticamente acabou depois de uma guerra nuclear. As cidades foram destruídas e não há mais mares e oceanos, só terra firme em infindáveis florestas e pradarias, algumas com altos níveis de radioatividade. Os humanos decaíram para uma nova pré-história, vivendo como caçadores e coletores organizados em tribos que apenas lutam para sobreviver. Caçam, entre outros animais cães, para comer! Outrora seus melhores amigos.
Numa destas tribos lidera Thoz, louro, alto e forte. Ele impõe sua liderança mais por sua força física do que pela inteligência, mas com eles vive também O Velho, respeitado por ser o único capaz de se comunicar com os deuses. Esta comunicação ocorre quando ele parte para o alto das montanhas e traz de sua jornada utensílios úteis à vida coletiva. Objetos estranhos, na verdade retirados de Niourk que, como se tornará claro ao longo do texto, é simplesmente o que sobrou de Nova York. A ação se passa entre as localidades do Caribe, como Hait, Jamai, Santiag de Cuba e o que restou da antiga costa leste norte-americana, cujas maiores ruínas encontram-se, justamente, em Niourk.
Numa das visitas do Velho à “morada dos deuses” ele não retorna. Uma expedição liderada por Thoz sai à sua procura, mas não o encontra, embora não ouse entrar em Niourk. Nesse meio tempo um pária que vive com a tribo, um garoto negro – discriminado e maltratado – resolve procurar o Velho de forma independente. Após chegar e percorrer a metrópole em ruínas encontra uma pistola laser e se espanta e encanta com seu novo poder. O rapaz encontra o Velho morto, e devora os miolos do seu cérebro para combinar sua nova força advinda da arma com a sapiência do sábio.
Neste novo mundo surge uma espécie inteligente, os polvos. Chamados de “monstros” pelos humanos guerreiam em busca de terras e alimentos. Numa dessas disputas levam a melhor, mas com a volta do rapaz negro, a vantagem volta aos homens, que os matam em grande quantidade e os devoram.
A tribo agora liderada pelo rapaz negro se sente vitoriosa e marcha para Niourk. Mas, subitamente, as pessoas ficam doentes e morrem rapidamente depois de apresentarem uma estranha luminosidade no corpo. É que os polvos eram seres radioativos e, ao comê-los, as pessoas também ficaram. Nos polvos a radioatividade lhes permitiu uma transformação cognitiva. Nos humanos a morte. Embora também doente o rapaz negro não sofre os efeitos de forma tão intensa, e parte para explorar Niourk, ao lado de um urso que encontrou pela selva.
Pouco antes do holocausto nuclear um pequeno grupo fugiu para Vênus e lá recomeçou a civilização. Numa missão à Terra uma de suas naves sofre um acidente e apenas três tripulantes sobrevivem, e adentram nas ruínas de Niourk. Um deles morre, mas os outros encontram o rapaz negro. Tratam de sua doença e percebem que a radioatividade o tornara superinteligente.
 Agora respeitado e temido Alf – o nome que ganha dos venusianos, uma corruptela de Alfabeto –, lê rapidamente todos os livros que encontra, e torna-se extremamente sagaz. Num verdadeiro salto evolutivo.
Assim como em Regresso a Zero (1956), neste livro o final é absolutamente delirante em termos de imaginação. Sem revelar todos os detalhes, basta dizer que Alf conserta a nave dos venusianos, cria uma nova civilização artificial para ele comandar e transforma a própria Terra numa nave que viaja em direção ao centro da galáxia!
Embora seja puro sense of wonder na melhor tradição pulp o desfecho destoa do tom elaborado ao longo da narrativa, bastante pessimista quanto à viabilidade de um reerguimento da civilização. Nesse contexto surge um novo (super) homem, e justamente daquele considerado inferior pelos outros, por causa da cor de sua pele.
O título original se refere à Niourk, corruptela da mais importante cidade do seu tempo, Nova York, acentuando, por meio de sua queda, à da própria humanidade. Mas o título português é mais interessante. Isso porque pode ser visto como uma alusão à História do Futuro (1718), do Padre Antonio Vieira, a primeira narrativa utópica da língua portuguesa. Pois se para Vieira o futuro reservaria ao povo português a liderança num novo império cristão, para Wul, sua pré-história do futuro não se refere à construção de uma nova e utópica civilização, mas centra-se num único e incrível humano produzido, de forma aleatória, para tornar-se quase que um ser divino. Resta saber que tipo de civilização humanoide, mas artificial, Alf irá construir.

– Marcello Simão Branco

sábado, 12 de maio de 2018

Gigantes adormecidos, Sylvain Neuvel

Gigantes adormecidos (Sleeping giants), Sylvain Neuvel. 308 páginas. Tradução de Michel Teixeira. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2016.

O acaso levou a pequena Rose a encontrar, numa cratera na mata, um artefato intrigante: uma enorme mão de metal. Passado o susto, a menina seguiu sua vida e tornou-se uma cientista destacada, enquanto a mão gigante foi levada para os porões do governo americano e acabou esquecida, até que uma agência tão secreta que nem se sabe nome dela, comandada por um homem tão misterioso quanto poderoso, volta a se debruçar sobre a escultura. Convocada para prestar esclarecimentos, a agora Dra. Rose Franklin, Ph.D., cientista sênior do Instituto Enrico Fermi da Universidade de Chicago, é convidada para coordenar os trabalhos de pesquisa a respeito do artefato, o que ela acaba aceitando. Além da Dra. Rose, também são recrutados a irascível piloto de helicópteros Kara Resnik, o circunspecto militar Ryan Mitchell e o gênio universitário Vincent Coulture. Juntos, eles passam a estudar profundamente o artefato, assim como outros que são posteriormente encontrados espalhados pelo mundo, que parecem ser partes de uma mesma máquina: um robô gigante em forma de mulher, abandonado na Terra por uma civilização antiga.
É claro que eles vão montar o robô e também que ele vai funcionar. Mas a falta de informações adequadas sobre seus controles, bem como as dificuldades anatômicas para pilotar a máquina, vão causar toda a sorte de tragédias, sem falar nos problemas políticos que a simples existência de tal dispositivo passa a suscitar em todo o mundo. Acrescente-se a receita um perturbado triangulo amoroso, e temos uma bomba muito pior que a atômica prestes a por fogo no mundo.
Esta é a história do romance Gigantes adormecidos, livro de estreia do escritor canadense Sylvain Neuvel, Ph.D, em Linguística pela Universidade de Chicago, que chamou a atenção do fandom americano quando de sua publicação, em abril de 2016. O livro chegou aos brasileiros poucos meses depois, com tradução de Michel Teixeira, pela editora Companhia das Letras no selo Suma das Letras.
Fica claro, já pelo título, que se trata do primeiro episódio de uma série: se são "gigantes adormecidos", certamente há mais de um desses colossos. O outro, ou outros, ficaram para as sequências. Além do mais, a ficha catalográfica revela que se trata do "Livro 1 dos arquivos Têmis", seja lá o que isso for. Ou seja, vem mais por aí.
Apesar de não ser conclusiva, a história deste primeiro volume é bastante movimentada, com fugas e perseguições, resgates perigosos, conflitos internacionais, dramas amorosos e até algum sexo.
Mas o melhor mesmo, que dá sabor à leitura, é o estilo narrativo em forma de entrevistas e depoimentos em que se alternam os personagens, com grandes lapsos entre um e outro, de modo que o leitor tem que estabelecer, por sua própria conta, as relações de causa e consequência entre um e outro capítulos. Mas não há grandes dificuldades de entendimento, pois a história é linear e bastante simples. E não deixe de ler  até a última linha, pois lá está o instigante gancho para a segunda parte, Waking gods, cuja publicação nos EUA está prevista para abril de 2017.
Por hora, vale degustar este Gigantes adormecidos, que recoloca o Brasil na rota dos lançamentos recentes da fc norte americana.
Cesar Silva

domingo, 29 de abril de 2018

Invasion of the Saucer Men (EUA, 1957, PB)



Para os apreciadores dos antigos filmes bagaceiros de ficção científica e horror da década de 1950 (principalmente), um filme que sempre é lembrado por suas características que moldaram o sub-gênero de invasão alienígena é “Invasion of the Saucer Men”. Tem o tradicional disco voador pousando numa floresta perto de uma pequena cidade americana, os alienígenas pequenos com cabeças enormes e olhos esbugalhados, ameaçadores e hostis para a humanidade, e as ações (nesse caso incompetentes) da polícia local e principalmente do exército em ocultar as evidências para não criar pânico.
O filme foi distribuído em 1957 pela cultuada “American International”, da dupla de especialistas James H. Nicholson e Samuel Z. Arkoff. Com fotografia em preto e branco, a direção é de Edward L. Cahn, que também foi o responsável por diversas outras tosquices divertidas do período como “O Cadáver Atômico” (55), “O Fantasma de Mora Tau” (57) e “Invasores Invisíveis” (59). Curto com apenas 69 minutos, seu roteiro tem muitos elementos de humor interagindo com os momentos de horror e sua ideia básica de FC fuleira, baseado na história “The Cosmic Frame”, de Paul W. Fairman. 
Um jovem casal de namorados, Johnny Carter (Steven Terrell) e Joan Hayden (Gloria Castillo), vão de carro para um local conhecido como parada tradicional para namorar e beber cerveja, localizado dentro da propriedade do fazendeiro Larkin (Raymond Hatton), que não gosta da invasão dos intrusos e dos restos de cerveja jogados no campo e que são consumidos depois por seu touro de estimação. Quando os jovens decidem retornar para a cidade, atropelam acidentalmente um pequeno alienígena que acabara de chegar com sua nave espacial em forma de disco voador.
A partir daí, inicia-se uma série de confusões depois que dois sócios oportunistas e interessados em ganhar dinheiro de qualquer forma, Joe Gruen (Frank Gorshin) e Artie Burns (Lyn Osborn), se envolvem com a descoberta da nave e seus ocupantes cabeçudos, que emitem ruídos estranhos e possuem garras nas mãos que injetam álcool nas suas vítimas. Para aumentar o tumulto, ainda tem o exército atrapalhado, que tenta esconder a nave e ocultar a invasão, em ações lideradas pelo Coronel Ambrose (Sam Buffington) e o Tenente Wilkins (Douglas Henderson).
“Invasion of the Saucer Men” é o exemplo típico do cinema bagaceiro de ficção científica que diverte com suas inúmeras bobagens, em histórias ingênuas e exageradas na fantasia, representando o período conturbado da década de 1950, com a paranoia de invasão alienígena depois do famoso incidente ufológico em 1947 na cidade americana Roswell.
O disco voador é uma maquete tosca (numa época sem computação gráfica), os alienígenas invasores são interpretados por atores anões vestindo roupas e máscaras de borracha, com imensas cabeças e olhos esbugalhados, encarnando o típico estereótipo criado pelo cinema para esses seres hostis vindos de outros mundos. A história é simples e sem profundidade, não há explicações sobre o disco voador e os extraterrestres, eles apenas vieram e são ameaçadores. Tudo é tratado de forma superficial e conveniente para os baixos custos da produção, com diálogos rasos e situações previsíveis. Mas, o resultado final é pura diversão para quem aprecia o cinema fantástico bagaceiro.     
Curiosamente, tanto a nave espacial quanto a maquiagem dos alienígenas foram confeccionados pelo técnico em efeitos especiais Paul Blaisdell (1927 / 1983), que trabalhou para vários outros filmes similares na época, marcando seu nome no gênero. E foi lançada uma refilmagem em 1965 com o título “The Eye Creatures”, dirigido por Larry Buchanan.
(Juvenatrix – 29/04/18)


quarta-feira, 18 de abril de 2018

Regresso a Zero

Regresso a Zero (Retour à “0”), de Stefan Wul. Tradução de Maria Adelaide Correia Freire e Raul Correia. Capa de Lima de Freitas. 177 páginas. Lisboa: Editora Livros do Brasil, Coleção Argonauta no. 54, 1959. Lançado originalmente em 1956.


No cenário da ficção científica europeia, a coleção francesa Fleuve Noir exerceu grande importância, ao revelar vários autores de seu país e com histórias voltadas, pelo menos em sua fase inicial, às aventuras e space operas, num tom assumidamente pulp.
Regresso a Zero apareceu na Fleuve Noir em seu número 78, no ano de 1956, como o livro de estréia de Stefan Wul (1922-2003), pseudônimo usado por Pierre Pairaul. Wul acabaria por se tornar um dos mais populares escritores franceses de ficção científica.
Se Wul estreou e publicou o restante de sua obra nesta célebre coleção de seu país, faz todo o sentido que quase todos seus livros tenham sido traduzidos e publicados em língua portuguesa, na equivalente portuguesa da coleção francesa, a Argonauta. Além disso, Regresso a Zero é o livro de Wul com mais edições em Portugal. Saiu também como Regresso a “0”, no Clube do Livro e com o mesmo título pela editora Nova Era, ambos em 1977.
A aventura nos leva ao futuro do século 37 (!), com um conflito bélico prestes a acontecer entre a Terra e a Lua. É que desde há alguns séculos todos os condenados por crimes graves eram deportados para o satélite, sem possibilidade de retorno. Com isso os proscritos acabaram por colonizar a Lua, criando uma sociedade autoritária, machista e potencialmente agressiva, pois para os dirigentes mais idosos, o principal objetivo a ser atingido é se vingar dos terráqueos, com uma invasão em grande escala.
O serviço secreto da Terra descobre os planos e envia para a Lua um espião para sabotar os planos ou, se possível, criar canais de diálogo que possibilite um acordo de paz. Desta forma, o físico nuclear Jâ Benal se faz passar por um condenado e é enviado ao nosso satélite natural.
Mal chega e descobre que sua tarefa não será fácil. Isso porque os selenitas não acolhem, de saída, os recém-chegados. Deixa que eles lutem pela sobrevivência num lugar inóspito e desconhecido por pelo menos 15 dias. Caso resista, só então é admitido como membro da nova sociedade.
Jâ Benal pousa numa região difícil e tem de lutar bravamente para sobreviver a uma região pantanosa e contra algumas espécies, especialmente os gorn, pequenos animais – semelhantes a porcos – extremamente agressivos, inteligentes e carnívoros. Benal é tocaiado pelos gorns num labirinto com cavernas subterrâneas onde vivem, mas termina por se safar, mas não sem antes sofrer um sério ferimento na perna. Vale comentar que a Lua descrita por Wul não guarda nenhum compromisso com a realidade científica, mesmo da época, mas isso não diminui o prazer e o envolvimento com as situações descritas.
Como já havia passado os 15 dias e ciente de que o novo membro era um eminente cientista, o governo lunar o recolhe e procede a uma operação de emergência. E é aqui que o romance atinge o clímax da inventividade: uma equipe de cirurgiões é miniaturizado e enviado para o interior do corpo de Benal. As páginas da preparação da cirurgia e da aventura dos médicos é puro sense of wonder. Impossível não lembrar do clássico filme Viagem Fantástica (Fantastic Voyage, 1966), dirigido por Richard Fleisher, e não especular de que possa ter sido inspirado no livro de Wul, escrito dez anos antes.
Pode até parecer estranho que tudo isso aconteça quando o tema principal é a disputa entre a Terra e a Lua pois, de fato, a missão de Benal só começa a ser efetivamente cumprida após estes interregnos iniciais, mas eles são os momentos mais inspirados do livro.
Benal é instalado com todas as condições para continuar seu trabalho de cientista, pois o governo lunar o quer como um aliado no desenvolvimento de suas armas para atacar a Terra. Até lhe entregam para viver em sua companhia uma linda loira, obviamente para amaciá-lo ainda mais.
O que Benal ignora é que o governo lunar sabe que ele é um espião, e quer saber até onde ele pretende ir com seus objetivos. Nira Slid, sua mulher, se apaixona por ele, e acaba por lhe contar tudo. Mas Benal não sabe mais como viver sem ela, e assim a toma como aliada para cumprir sua missão.
Primeiro ele procura Kam, cirurgião-chefe que o operou e um amante da paz para se aliar à sua causa, e buscar uma solução diplomática. Quando esta opção se revela infrutífera Benal parte para uma série de atos de sabotagem às instalações militares com o intuito de enfraquecer os objetivos bélicos dos selenitas.
O tema do uso da Lua como rival da Terra não é incomum no gênero, e certamente o romance mais conhecido é Revolta na Lua (The Moon of a Harsh Mistress, 1966), de Robert A. Heinlein (1907-1988), onde os lunares lutam por sua independência frente ao governo centralizador da Terra. Mas este Regresso a Zero segue uma linha mais despretensiosa, no qual o próprio título da obra só adquire significado no último capítulo por meio do desfecho da rivalidade entre terráqueos e selenitas.
Como um primeiro livro de uma carreira Regresso a Zero apresentou várias ideias interessantes que seriam desenvolvidas posteriormente, à exceção da cirurgia por miniaturização, uma verdadeira pérola de criatividade de realização narrativa. Assim, surge no livro temas como problemas ambientais na Terra, exploração do espaço, alteração da órbita de um corpo celeste, instrumentos de anti-gravidade, espécies alienígenas, colonização de um novo planeta e criação de uma nova civilização.
Embora trate de um tema sério de conflito político, suas possibilidades dramáticas nunca chegam a ser muito exploradas, pois o que conta mesmo é a criatividade e leveza da narrativa, mais preocupada em entreter, sem que isso possa significar, necessariamente, a diminuição de sua qualidade como obra literária. É que o foco é na aventura e no entretenimento, e nisso Wul se mostra exemplar.

– Marcello Simão Branco

domingo, 15 de abril de 2018

Magda

Magda, Rafa Campos Rocha. 144 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Quadrinhos na Cia, São Paulo, 2016.

Por muito tempo restrita ao ambiente amador, publicada em fanzines e edições de autor, a ficção científica agora ocupa espaços bem mais evidentes, em editoras de porte com boa distribuição nas livrarias. Outra prova que o gênero deixou de ser o patinho feio do mercado é a frequência com que o gênero tem sido abordado pelas histórias em quadrinhos, com produções de porte sendo oferecidas com alguma regularidade, inclusive por autores brasileiros, o que há alguns anos era impensável. Isso é decorrente do crescimento do interesse pela arte, mas também do desenvolvimento de uma consciência do gênero entre os autores da nova geração, mais acostumados à tecnologia e aos apelos da cultura pop.
É por isso que temos a chance de ter publicado Magda, de Rafa Campos Rocha, pela editora Companhia das Letras, no selo Quadrinhos na Cia, novela gráfica de ficção científica de grande impacto visual, que trafega também pelas sendas do horror splatter, que é aquele que espirra sangue e vísceras para todos os lados.
Tudo começou quando cientistas brasileiros desenterraram uma rocha, que pensavam ser um meteorito. Ao partirem a pedra, libertaram um vírus poderoso do longínquo passado do planeta que, antes que se dessem conta, escapou do complexo e contaminou a sociedade, transformando pessoas em assassinos furiosos descerebrados literalmente sedentos de sangue humano. Rio de Janeiro e São Paulo se transformam em áreas de contenção, bombardeadas continuamente para evitar que a praga se alastre.
Contudo, não foi apenas o vírus que saiu daquele ovo. Ali também hibernava uma entidade que, ao ser despertada, invadiu o corpo de uma das cientistas - Magda - e com ela estabeleceu uma relação simbiótica. Magda passou a partilhar sua consciência com a invasora, a qual chama de Máquina, que lhe deu uma séria de poderes, mas cobra um preço alto por isso: a fome por sangue e carne humanos.
A história começa num campo de sobreviventes em algum lugar no interior do país, onde a praga dos transformados ainda não se estabeleceu. Os poucos transformados que ali aparecem tornam-se alimento de Magda, que mantém sua condição mutagênica em segredo dos membros da comunidade. Porém, a ausência de incidentes com os transformados chama atenção das forças armadas, que para lá enviam uma força de ocupação que pretende investigar o fenômeno. Instigada pela Máquina, Magda retorna para o local em que as coisas começaram, e o caminho será repleto de confrontos violentos, carnificina e desmembramentos.
Há ecos aqui de várias obras do cinema e da tv, como se pode perceber. A mais evidente é o seriado The walking dead, sucesso dos quadrinhos e da tv, que conta a história de um grupo de sobreviventes depois do apocalipse zumbi, mas também é forte a influência da franquia  de videogame e cinema Resident evil, e mais particularmente do filme de cinema Species  (A experiência, 2001). Apesar disso, Magda consegue sustentar independência autoral, na medida em que se apoia em cenários e maneirismos brasileiros (como não poderia deixar de ser), no estilo despojado, quase amador, dos traços do autor - que continuamente roubam do leitor a suspensão da incredibilidade - e o também evidente diálogo com "A metamorfose", de Franz Kafka: a máquina tem a aparência de uma barata enorme que muitas vezes assume a forma física da personagem.
Por trás dessa trama por si só subversiva, acontece o drama familiar entre Magda, sua amante e uma jovem que ambas têm como filha, e a velha falácia da maldição hereditária que vai dar tom humano à essa narrativa fantástica e grotesca.
O paulistano Rafa Campos Rocha é um artista experiente, professor de História da Arte, cenógrafo e artista plástico, publicou na PiauíFolha de S. Paulo, e Vice, entre outros. Magda é seu segundo álbum pela Quadrinhos na Cia; o primeiro foi Deus essa gostosa, de 2012.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Dia das Mães Macabro (Mother´s Day, EUA, 1980)



A produtora “Troma”, especializada em filmes bagaceiros de horror, lançou em 1980 a divertida tranqueira “Dia das Mães Macabro” (Mother´s Day), dirigida por Charles Kaufman, irmão do fundador da produtora, Lloyd Kaufman.
Três amigas da época da escola, unidas por uma irmandade, se encontram para um passeio de diversão descompromissada. Jackie (Deborah Luce), Abbey (Nancy Hendrickson) e Trina (Tiana Pierce) decidem ir para um local isolado numa floresta, aproveitando um final de semana para sair de suas rotinas diárias e se afastar dos problemas, relembrando os bons momentos do passado na escola. Porém, logo a diversão se transforma em tensão e medo depois que são surpreendidas por dois irmãos psicopatas, Ike (Frederick Coffin, creditado como Holden McGuire) e Addley (Michael McCleery, creditado como Billy Ray McQuade). Eles moram com sua mãe insana e autoritária, interpretada por Beatrice Pons (creditada como Rose Ross), numa cabana no meio do mato.
Os irmãos lunáticos sequestram as garotas e iniciam uma série de torturas físicas e psicológicas, carregadas de violência e perversidade, para satisfazer, além de seus próprios desejos pessoais, também a mãe maluca, que se diverte com o sofrimento das moças capturadas.
É verdade que os primeiros 30 minutos do filme são arrastados, perdendo muito tempo com futilidades envolvendo as três moças, mas depois que elas são capturadas pelos psicopatas assassinos, as ações ganham intensidade com as torturas e violência, espalhando sangue. Além também do plano de fuga e vingança das moças contra seus algozes, que apesar dos inevitáveis clichês, gerou um ritmo tenso com as perseguições e confrontos sangrentos.
Tanto os atores que interpretaram os irmãos sádicos, quanto principalmente a veterana Rose Ross (na verdade, Beatrice Pons), como a mãe perversa, tiveram ótimas atuações, convencendo com seus personagens insanos e ameaçadores, contribuindo significativamente para tornar “Dia das Mães Macabro” mais um exemplo de filme divertido de horror bagaceiro.    
Curiosamente, a primeira vez que vi o filme foi em 1985 através de uma fita “alternativa” de vídeo VHS, um nome diferente na época para “pirata”, e a experiência registrou algumas cenas definitivamente em minha memória, como a decapitação do início e as mãos severamente dilaceradas de uma das garotas, por causa do atrito de uma corda.
Em 2010 tivemos uma refilmagem com o título nacional “Dominados Pelo Ódio”, dirigido por Darren Lynn Bousman e com Rebecca De Mornay no papel da mãe perversa.
(Juvenatrix – 05/04/18)