domingo, 14 de outubro de 2018

Drácula (Dracula, EUA, 1931)



Em 1897, o escritor irlandês Bram Stoker presenteou o mundo com seu livro de horror gótico “Drácula”, que conta a história do famoso conde vampiro que deixa seu castelo na Transilvânia (Romênia) e vai para a Inglaterra, onde compra alguns imóveis e se alimenta do sangue de suas vítimas.
Em 1931, os fãs do cinema de horror e vampirismo são novamente presenteados com o clássico “Drácula”, produção com fotografia em preto e branco, direção de Tod Browning, o mesmo de “Monstros” (Freaks, 1932), e com o ator húngaro Bela Lugosi encarnando magistralmente o conde vampiro.
O advogado Reinfield (Dwight Frye) está a caminho da Transilvânia com o objetivo de entregar para o Conde Drácula em seu castelo no alto de uma montanha, alguns documentos referentes à locação de uma velha abadia em Londres. Quando chega ao vilarejo próximo do castelo, ele é alertado pelos aldeões supersticiosos que é “Noite de Walpurgis”, e que os vampiros saem de seis caixões para se transformar em lobos e morcegos, vagando à noite em busca de sangue dos vivos.
Desconsiderando os avisos, ele é levado até o castelo numa carruagem conduzida por um cocheiro sinistro. Ao entrar na imponente construção de pedra, se depara com aposentos enormes repletos de poeira e teias de aranhas, numa atmosfera sinistra de gelar a alma. Depois, é recepcionado pelo misterioso anfitrião Conde Drácula e acertam os detalhes burocráticos do aluguel da abadia inglesa.
Depois de transformar Reinfield em seu servo através de controle hipnótico, tornando-o um louco comedor de moscas e aranhas, eles vão para Londres num navio que chega ao destino com seus tripulantes misteriosamente mortos. Ao se apossar da abadia de Carfax, que fica ao lado de um sanatório dirigido pelo Dr. Seward (Herbert Bunston), o conde vampiro instaura o horror alimentando-se do sangue de suas vítimas. Ele também conhece os novos vizinhos, as belas jovens Lucy (Frances Dade) e Mina (Helen Chandler), além de John Harker (David Manners) e o temível Prof. Van Helsing (Edward Van Sloan), que se tornaria seu inimigo mortal.
A versão americana de 1931 para “Drácula” é curta, com apenas 75 minutos de duração. Tem produção com orçamento reduzido e as características daqueles primeiros filmes sonoros que foram concebidos naquela distante época, com interpretações exageradamente teatrais do elenco, num ritmo narrativo lento e com efeitos toscos na criação dos morcegos. Porém, a história cativante do conde vampiro assustou de forma decisiva as plateias do período e marcou para sempre o cinema de horror gótico, popularizando o mito do vampirismo em uma infinidade de filmes posteriores.
O roteiro apresentou com respeito algumas das características tradicionais dos vampiros e que se tornariam eternizadas no imaginário popular, como o fato deles não terem reflexo em espelhos, não tolerarem símbolos religiosos como crucifixos, não gostarem de sol, não suportarem uma erva conhecida como acônito, dormirem em caixões com terra de seu local de origem, e serem criaturas imortais, porém que poderiam ser destruídos com uma estaca de madeira cravada no coração.
O filme é altamente recomendado para os apreciadores do vampirismo e do cinema gótico de horror, seja pela atmosfera sombria do castelo na Transilvânia ou da abadia abandonada em Londres, e pela interpretação convincente de Bela Lugosi, tornando o Conde Drácula um vilão ameaçador, povoando os pesadelos dos espectadores da época e registrando para sempre seu nome na galeria de astros do Horror. Ele é reconhecido como o principal Drácula do cinema, ao lado do ícone Christopher Lee, que fez o vampiro em vários filmes da cultuada produtora inglesa “Hammer”.
 
“Tem coisas bem piores à espera do Homem que a morte” – Conde Drácula
  
(Juvenatrix – 14/10/18)

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O Problema dos Três Corpos


O Problema dos Três Corpos (The Three-Body Problem, a partir de um original chinês), Cixin Liu. São Paulo: Suma de Letras, 2016, 316 páginas. Tradução de Leonardo Alves. Capa de Rodrigo Maroja.

Até alguns anos os fãs brasileiros de ficção científica suspiravam de angústia ao lembrar que vários bons romances do gênero vencedores dos principais prêmios – os norte-americanos Hugo e Nebula –, não eram publicados no país. Era quase sempre mais do mesmo: a publicação de uma nova obra de um autor tradicional ou alguma republicação.
Uma boa novidade mudou o cenário nos últimos anos quando as editoras brasileiras passaram a prestar atenção às obras mais recentes, e mesmo de autores pouco conhecidos, e lançá-los por aqui. Livros de FC como Quem Teme a Morte? (Who Fears Death), da afro-americana Nnedi Okorafor (Geração Editorial, 2014), finalista do Nebula 2010; A Cidade e a Cidade (The City & the City), de China Miéville (Boitempo, 2015), vencedor do Hugo 2010; A Guerra do Velho (Old Man´s War), de John Scalzi (Aleph, 2016), finalista do Hugo 2006.
Mas nem mesmo neste contexto a publicação de O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu, deixa de ser uma boa surpresa. Isso porque trata-se, muito provavelmente, da primeira obra da FC chinesa lançada no Brasil e, mais importante, representa a primeira vitória no Prêmio Hugo de Melhor Romance para uma obra não escrita em inglês e de um autor não-anglófono, em 2015. Isso não é pouco e demonstra, em boa medida, como o fenômeno da internacionalização da ficção científica se ampliou neste século XXI, embora o centro hegemônico ainda permaneça com os norte-americanos. Lembro ainda o ótimo O Cromossomo Calcutá (The Calcutta Chromosome, 1995), do indiano Amitav Ghosh (Editora Ática, 1998), que também foi pioneiro ao vencer o prestigioso prêmio britânico Arthur C. Clarke Award 1997. São obras como estas que ampliam a leitura e a perspectiva do gênero para além da cultura anglo-americana. Mas independentemente disso, o fato é que O Problema dos Três Corpos vale por si mesmo. É um livro maiúsculo de ficção científica, desde já entre as de maior relevo no tema das histórias de contatos com civilizações extraterrestres.
Primeiro volume da trilogia Remembrance of Earth’s Past, a narrativa começa durante os caóticos e sinistros anos da Revolução Cultural na China, um processo de reorganização social que se seguiu à implantação revolucionária do regime socialista no país, no final dos anos 1940. Foi um movimento violento de perseguição, humilhação e eliminação dos formalmente escolarizados antes do socialismo. O objetivo era estabelecer uma nova doutrinação ideológica, totalmente anti-burguesa. E todos que, mesmo que remotamente, cultivassem hábitos e opiniões burguesas deveriam ser combatidos.
Uma jovem vê seu pai, professor de Física de uma universidade, ser brutalmente assassinado em público durante uma das cerimônias de humilhação. Perseguida, ela recebe uma nova chance para trabalhar numa remota estação de monitoramento de satélites. Mas nunca mais recuperou o gosto de viver e a fé na humanidade. Por meio de sua atuação ao longo de décadas, o autor desenvolve o romance. E numa estrutura em camadas, em que se sobrepõem e se agregam mais informações, deixando o leitor sempre na expectativa de que determinada sequência tenha o seu desenlace. Assim, o autor deixa ganchos que vão sendo preenchidos ao longo da narração, situada entre o final dos anos 1960 até os dias atuais, já numa China ainda formalmente socialista, embora mais integrada ao capitalismo globalizado – e seus valores burgueses.
O mistério que ronda o tal problema dos três corpos começa a ser revelado através de um videogame online que simula a vida no planeta Trissolaris. Iluminado por três estrelas, ele sofre de enorme instabilidade geológica e climática, a ponto de levar ao colapso periodicamente as civilizações que emergem, até o próximo ressurgimento centenas (ou até milhares) de anos depois. Em si, é pouco crível que tal situação pudesse acontecer, que vida inteligente socialmente organizada e com desenvolvimento tecnológico pudesse vicejar, quanto mais várias vezes. Mas o problema dos três corpos é também um teorema não resolvido pela física clássica. Equações e cálculos não conseguem chegar a um modelo de interação e equilíbrio gravitacional entre três esferas. Ou seja, seria intrinsecamente instável e imprevisível devido à mútua influência da força gravitacional, se entendi bem o que é discutido no livro. A resolução deste enigma poderia ajudar os habitantes do mundo de Trissolaris a encontrarem alguma viabilidade em sua sucessão trágica de eras, ora chamadas de Estáveis, ora de Caóticas. Tudo a depender da presença de uma ou mais estrelas no céu do planeta ao mesmo tempo.
Como disse, tudo no livro é revelado paulatinamente, o que, depois de certo tempo, torna-se um pouco cansativo e anticlimático, pois apenas no terço final do livro é que sabemos que o tal jogo nada tem de lúdico, pois é uma representação da vida dos alienígenas que orbitam, simplesmente, o sistema trinário de Alfa-Centauri, a estrela mais próxima da Terra, situada a meros 4,3 anos-luz.
Jogo nada inocente, porque tem por objetivo recrutar os melhores jogadores para a causa de uma seita, a Organização Trissolaris, que estabeleceu contato, por meio de ondas de rádio, com os extraterrestres e anseia por sua chegada para intervir nos assuntos humanos – ou até mesmo, eventualmente, exterminar a raça humana.
E por onde andava a jovem vítima da Revolução Cultural? Ye Wenjie tem um papel chave, pois foi ela quem enviou a primeira mensagem e recebeu a resposta dos trissolarianos. Passa a ser uma das lideranças da seita que traiu a humanidade. Talvez o autor tenha exagerado um pouco ao imaginar uma organização que se insurge contra o restante de seus semelhantes, formada por fanáticos místicos e ambientais de variados matizes, verdadeiros sociopatas. Mas, por outro lado, quem sabe o que realmente aconteceria se tal descoberta fosse feita por pessoas com esta índole amarga e fanática?
Os trissolarianos organizam uma expedição gigantesca com naves de gerações, pois viajam a um milionésimo da velocidade da luz, para invadir e fazer da Terra o seu novo lar, um verdadeiro paraíso, em comparação ao inferno onde vivem. Mas depois de descobrirem que os governos da Terra desmascararam a seita e descobriram seu objetivo, chegam à conclusão de que os 450 anos que levarão para chegar ao seu destino permitirá aos terráqueos desenvolver-se tecnologicamente para repeli-los. Assim, lançam mão de um engenhoso estratagema baseado na física de partículas para travar o desenvolvimento científico da humanidade. A discussão do conceito é fascinante, mas um pouco difícil para um leigo acompanhar. Certamente deverá deleitar leitores com formação em física.
O romance apresenta uma boa contextualização histórica da China contemporânea importante para a história, mas ela é, principalmente, uma FC hard e das boas. Procura basear-se no conhecimento científico conhecido hoje, e isso dá mais plausibilidade à especulação de como seria o mundo alienígena e seus habitantes, chegando mesmo a impressionar pelo seu grau de detalhismo. Isso sem falar do que poderíamos chamar de uma perspectiva não-ocidental para uma aventura de FC, ao mostrar dois momentos diferentes da sociedade e da cultura chinesa. Soa até estranho imaginar que os chineses façam o eventual contato, tão acostumados que estamos a pensar que esta primazia pertencerá a alguma nação rica do Ocidente. Mas por que não?
E como alerta Cixin Liu em seu ótimo posfácio, não é sensato imaginar que eventuais civilizações extraterrenas sejam, necessariamente, pacíficas. Por que elas assim seriam, se nós mesmos nunca fomos com outras culturas e povos aqui da Terra, com tantos casos de genocídio e escravização? Apenas porque teriam atingido um estágio científico tecnológico superior ao chegarem às estrelas? É um equívoco primário associar desenvolvimento da técnica com valores éticos e morais. Até porque eles são relativos, de uma sociedade para outra. Quanto mais dirá de civilizações não humanas.
O Problema dos Três Corpos é o primeiro de uma celebrada trilogia campeã de vendas na China. (Imagine o que deve ser isso, no país mais populoso do mundo!) O segundo volume acaba de sair no país, também pela Suma de Letras: A Floresta Sombria (The Dark Forest, 2008). A trilogia deverá ser completada, assim esperamos, com Death’s End (2010). Para quem gostar do primeiro, será certamente uma leitura obrigatória.

– Marcello Simão Branco

domingo, 23 de setembro de 2018

O essencial da literatura fantástica no Brasil em 2015

2015 foi o ano da crise. Não se falou em outra coisa ao longo do ano e praticamente todos os setores sentiram o impacto da desaceleração da economia brasileira. Apesar do forte componente político no processo, não se pode negar que realmente aconteceu uma mudança paradigmática pois, com a desvalorização do Real, importar ficou mais caro e a produção interna e exportação voltaram a ser as bolas da vez. Alguns setores até obtiveram crescimento justamente por conta dessa mudança de contornos, mas o mercado editorial de ficção especulativa não reagiu da mesma forma porque o interesse das grandes editoras que dominam o mercado ainda está nos textos de autores estrangeiros, especialmente aqueles que vêm associados a lançamentos cinematográficos, por isso a produção nacional segue desprezada, subsistindo em pequenas editoras de nicho e na publicação autoral.
Este artigo aborda o que de essencial a fc&f apresentou em 2015, e não foi pouco. Mas antes, cabe fazer uma importante observação sobre o que foi o maior diferencial do mercado nesse ano: as volta vigorosa das novelizações.
Nos anos 1990, houve um período em que mercado foi dominado pela publicação de novelizações – também conhecidas como tie-ins – principalmente ligadas aos seriados de televisão Star trek e X files, sucessos que então sustentavam grandes clubes de fãs no país. Não é exatamente o que aconteceu em 2015 porque o mercado está muito maior, as franquias mais variadas e com autores brasileiros aproveitando a onda. Além das sempre lembradas séries de tv, tivemos novelizações de cinema (Star wars), séries de quadrinhos (Marvel) e jogos eletrônicos, com destaque para a novelização Dois mundos um herói (Suma das Letras), assinada pelo youtuber Rezende Evil e inspirada no jogo eletrônico Minecraft, que foi o lançamento mais badalado e comercialmente bem sucedido da fantasia nacional em 2015.
A fantasia continuou como o gênero mais praticado pelo mercado, tomando mais da metade do total de lançamentos de literatura fantástica e é nela que se destacam os autores mais bem sucedidos, como Eduardo Spohr com o terceiro volume de série Filhos do Éden: Paraíso perdido (Verus), e Carolina Munhóz com Por um toque de ouro e O mundo das vozes silenciadas – este assinado em parceria com Sophia Abrahão –, ambos pela Rocco.
Dos autores mais identificados com o fandom, é preciso registrar a edição de Flores do jardim de Balaur, de Carlos Orsi, novela de fantasia heroica ao estilo weird originalmente publicada no fanzine Juvenatrix em 1999.
Felipe Castilho publicou o terceiro volume de sua série O legado folclórico: Ferro, água & escuridão (Gutenberg) que vale a pena conhecer, assim como o curioso Tijucamérica (Paralela), romance do cronista esportivo José Trajano, que envereda pelos caminhos do futebol.
A série Crônicas de Salicanda, de Pauline Alphen chegou ao terceiro volume com A aliança (L'alliance, Seguinte). Esta autora tem uma característica diferenciada: apesar de brasileira de nascimento, seus livros são traduzidos aqui pois foram originalmente publicados na França, onde ela reside há muitos anos.
Entre os autores estrangeiros, destacou-se o romance arturiano O gigante enterrado (The buried giant), do nipobritânico Kazuo Ishiguro, publicado pela Companhia das Letras. Ainda que parte de sua notoriedade tenha advindo da polêmica criada em torno de declarações pouco simpáticas do autor sobre o gênero da fantasia, o livro é excelente e merece a leitura. Quando a polêmica varreu as redes sociais, o multipremiado fantasista britânico Neil Gaiman foi um dos primeiros a sair em defesa de Ishiguro.

E Gaiman também apareceu de forma importante em 2015, com dois livros: A bela e a adormecida (The sleeper and the spindle, Rocco) e A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras (The truth is a cave in the Black Mountains, Intrínseca).
Como a fantasia não dá sinal de enfraquecimento e os títulos à mão já foram todos publicados, as editoras partiram em busca de obras e autores esquecidos que, de outra forma, talvez nunca desembarcassem aqui. É o caso de Diana Wynne Jones (1934-2011), autora de grande prestígio no exterior mas pouco publicada aqui. A edição de O vitral encantado (Enchanted glass) pela Record foi uma tímida tentativa em dar à autora de O castelo animado (Howl's moving castle) e Crestomanci (Chrestomanci) a atenção que lhe é devida. Outro nome importante lembrado em 2015 foi o escritor e ilustrador americano Dr. Seuss (1904-1991) com O desaparecimento do Lórax (The Lorax), pelo selo infantil da Companhia das Letras, um clássico do gênero. E também Chris Van Allsburg, com Jumanji, numa das derradeiras publicações da editora Cosac Naify, que anunciou no final do ano o encerramento de suas atividades. Vale ainda lembrar da publicação de Pequenos deuses (Small gods), do britânico Terry Pratchett (1948-2015), 13º volume da série Discworld, publicado pela Record no selo Bertrand Brasil.
Desde 2014, a ficção científica voltou a despertar interesse entre as editoras. A pequena Editora Draco, especializada no gênero, trouxe em 2015 alguns títulos que merecem a atenção, por autores historicamente ligados ao fandomE de extermínio, de Cirilo Lemos, Encruzilhada, de Lúcio Manfredi, e Estranhos no paraíso, de Gerson Lodi-Ribeiro, enquanto Roberto de Sousa Causo apareceu com a coletânea Shiroma: Matadora ciborgue, pela Devir Livraria. Outro nome conhecido no fandom, há anos ausente da atividade autoral, é Henrique Flory que, pela Editora Arte e Ciência, publicou O elo, sequência de Projeto evolução, romance dos anos 1990 também republicado agora.
Ventania brava, de Luis Bras (Sesi-SP), junto à história alternativa A segunda pátria, de Miguel Sanches Neto (Intrínseca), formaram o núcleo da fc nacional que melhor dialogou com o mainstream em 2015. Mas o livro brasileiro de fc mais comentado no ano foi Le Chevalier e a Exposição Universal, de A. Z. Cordenonsi (Avec), romance steampunk que mistura ficção com personagens reais numa aventura à moda de Sherlock Holmes.
Entre os estrangeiros, é preciso antes de mais nada registrar a presença intensiva da coleção alemã Perry Rhodan da editora SSPG, que lançou regularmente cerca de seis volumes digitais por mês ao longo de todo o ano. Trata-se da série mais longa da literatura, com mais de dois mil livros e ainda em publicação.
O escritor americano Jeff Vandermeer retornou à série Comando Sul com Autoridade (Authority), pela editora Intrínseca, que explora possibilidades aterradoras advindas do contato com uma vida alienígena com a qual a comunicação não é uma possibilidade.
O último policial (The last policeman), do também americano Ben H. Winters, pela editora Rocco, aproxima a literatura policial da ficção científica ao contar a história de um homem obcecado em desvendar um assassinato nos dias finais da humanidade no planeta Terra, prestes a sofrer o impacto de um meteoro gigante. Trata-se do primeiro de uma trilogia, cujo segundo volume Cidade dos últimos dias (Countdown city, Philip K. Dick Award 2014) foi lançado pela mesma editora logo nos primeiros dias de 2016.
A editora Aleph, que investe principalmente na republicação de grandes clássicos da fc e tem como carro-chefe o escritor americano William Gibson – autor do prestigiado Neuromancer, que a editora tem republicado seguidamente desde sua primeira edição em 1991 –, dele traduziu História zero (Zero history), terceiro volume da série Blue ant que, por ser ambientada no presente, nem sempre é considerada ficção científica, mas segue os protocolos especulativos do cyberpunk para discutir o impacto psicossocial da tecnologia moderna.
Outro importante representante do cyberpunk que desembarcou por aqui em 2015 foi Ian McDonald com o romance Brasyl, pela editora Saída de Emergência Brasil, numa história que une três realidades, uma delas na cidade do Rio de Janeiro.
O horror é historicamente um gênero de produção estável e sustentou seu espaço em 2015. André Vianco, o maior bestseller da fc&f nacional, estreou o selo autoral Calíope na editora Giz, com o inédito romance Estrela da manhã. Também vale conferir a coletânea O vilarejo, de Rapahel Montes (Suma das Letras), que tem sido bem avaliada no ambiente mainstream.
Apesar de sua tradição e importância como nascedouro de talentos, as antologias tiveram um momento discreto em 2015. Contudo, vale destacar Vampiros, estreia da coleção Sobrenatural (Avec), organizada pelo escritor Duda Falcão com contos de importantes nomes do gênero como Giulia Moon, Carlos Patati, Nazareth Fonseca, Lord A. e Simone Saueressig, entre outros. Contudo, a grande novidade de 2015 no horror nacional foi a volta do mestre R. F. Lucchetti, com dois títulos: O museu dos horrores (Corvo) e O Escorpião Escarlate: O roteiro original (Laços).
Entre os estrangeiros destacou-se outro mestre, Stephen King, com nada menos que três livros publicados no ano: a coletânea Escuridão total sem estrelas (Full dark, no stars), e os romances Joyland e Revival, todos pela Suma das Letras, hoje selo da Companhia das Letras.
Outro mestre do gênero que apareceu em 2015 foi Clive Barker, com a novela original Hellraiser: Renascido do inferno (The hellbound heart), pela Darkside.
A dama do horror, Anne Rice, retornou ao universo de Entrevista com o vampiro (Interview with the vampire) no novo romance As crônicas vampirescas: Príncipe Lestat (Prince Lestat), pela Rocco. Até mesmo George R. R. Martin não resistiu aos encantos vampíricos e apareceu nas livrarias com Sonho febril (Fevre dream) pela LeYa Brasil. O romance é de 1982, mas só chegou agora devido ao sucesso de Martin com livros de fantasia medieval.
Finalmente, mas não menos importante, foi a publicação da coletânea Solomon Kane: A saga completa, de Robert E. Howard (1906-1936) pela editora Generale, reunindo os nove contos escritos por Howard para o destemido puritano caçador de bruxas.
Diante deste quadro, a conclusão é que não há do que se lamentar. A publicação de fc&f resistiu bem aos humores do mercado, e a crise pode até ser benéfica para o setor, depurando o mercado dos evidentes excessos que em nada contribuem para o estabelecimento de uma fc&f sólida e relevante.
Ainda há muito que trilhar para tornar a ficção fantástica um espaço profissional ao exercício artístico, mas já é possível dizer, no que se refere aos aspectos conceituais, que a ficção fantástica brasileira está amadurecendo.

Livros citados:
Dois mundos, um herói, Rezende Evil (Suma das Letras)
Filhos do Éden: Paraíso perdido, Eduardo Spohr (Verus)
Por um toque de ouro, Carolina Munhóz (Rocco)
O mundo das vozes silenciadas, Carolina Munhóz e Sophia Abrahão (Rocco)
Flores do jardim de Balaur, Carlos Orsi (Draco)
O legado folclórico: Ferro, água & escuridão, Felipe Castilho (Gutenberg)
Tijucamérica, José Trajano (Paralela)
Crônicas de Salicanda: A aliança, Pauline Alphen (Seguinte)
O gigante enterrado, Kazuo Ishiguro (Companhia das Letras)
A bela e a adormecida, Neil Gaiman (Rocco)
A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras, Neil Gaiman (Intrínseca)
O vitral encantado, Diana Wynne Jones (Record)
O desaparecimento do Lórax, Dr. Seuss (Companhia das Letras)
Jumanji, Chris Van Allsburg (Cosac Naify)
Pequenos deuses, Terry Pratchett (Bertrand Brasil)
E de extermínio, Cirilo Lemos (Draco)
Encruzilhada, Lúcio Manfredi (Draco)
Estranhos no paraíso, Gerson Lodi-Ribeiro (Draco)
Shiroma: Matadora ciborgue, Roberto de Sousa Causo (Devir)
O elo, Henrique Flory (Arte e Ciência)
Ventania brava, Luis Bras (Sesi-SP)
A segunda pátria, Miguel Sanches Neto (Intrínseca)
Le Chevalier e a Exposição Universal, A. Z. Cordenonsi (Avec)
Perry Rhodan (SSPG)
Autoridade, Jeff Vandermeer (Intrínseca)
O último policial, Ben H. Winters (Rocco)
História zero, William Gibson (Aleph)
Brasyl, Ian McDonald (Saída de Emergência Brasil)
Estrela da manhã, André Vianco (Giz)
O vilarejo, Rapahel Montes (Suma das Letras)
Vampiros, Duda Falcão, org. (Avec)
O museu dos horrores, R. F. Lucchetti (Corvo) e
O Escorpião Escarlate: O roteiro original, R. F. Lucchetti (Laços).
Escuridão total sem estrelas, Stephen King (Suma das Letras)
Joyland, Stephen King (Suma das Letras)
Revival, Stephen King (Suma das Letras)
Hellraiser: Renascido do inferno, Clive Barker (Darkside)
As crônicas vampirescas: Príncipe Lestat, Anne Rice (Rocco)
Sonho febril, George R. R. Martin (LeYa Brasil)
Solomon Kane: A saga completa, Robert E. Howard (Generale)

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Pau e pedra, Peter Kuper

Pau e pedra (Sticks and stones), Peter Kuper. 132 páginas. Quadrinhos na Cia, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2016.

Quadrinho é literatura? Eis a questão. Muita gente concorda que as histórias em quadrinhos são literatura tão sofisticada quanto os livros exclusivamente em texto. Outros defendem que comparar os quadrinhos à literatura é um reducionismo, que tira dos quadrinhos seu próprio espaço na medida em que o constrange frente a uma arte que tem muito mais tempo de desenvolvimento.
Entendo que haja aqui um problema de autoestima dos autores de quadrinhos que, no Brasil, têm muito menores oportunidades de se fazer visíveis, sem falar na luta contra o preconceito que ainda grassa no mainstream. Contudo, em outros mercados, essa síndrome de vira-latas não procede, pois autores de quadrinhos têm, muitos deles, mais visibilidade e fama que muitos escritores tradicionais.
No campo da ficção científica, esse divergência é ainda mais notável. No Brasil, onde o gênero ainda engatinha em busca de personalidade, são raros os quadrinhos que ombreiam a literatura, que, por sua vez, também não é muita. Mas no exterior, esse contorno também não procede. Obras como O eternauta, de Oesterheld e Solano Lopez, Akira, de Katsuhiro Otomo, e Nausicaa do Vale dos Ventos, de Hayao Miyazaki, são usualmente considerados como expoentes da literatura de ficção científica mundial. A estes certamente podemos acrescentar Pau e pedra, de Peter Kuper, uma narrativa que dá um novo conceito ao termo "romance gráfico": a história é contada exclusivamente através de desenhos, sem nenhum texto.
Esse estilo de narrativa, conhecido no Brasil como quadrinho mudo, não é novidade. Nos jornais, as tiras do Reizinho (The little king, de Otto Soglow, 1931) e Pinduca (Henry, de Carl Anderson, 1932) estão entre as mais conhecidas. Mesmo assim, a ausência do textos é um recurso razoavelmente incomum na arte. Mas o norte americano Peter Kuper tem no quadrinho mudo o seu estado natural. Antes de Pau e pedra, publicado originalmente em 2004, Kuper vem exercitado a narrativa sem palavras desde 1997, quando assumiu Spy vs. Spy, série cômica publicada periodicamente na revista Mad, criação do cartunista cubano Antonio Prohias.
Pau e pedra é uma fábula sobre poder e intolerância, contada de forma sensível, mas não menos chocante. Um bebê de pedra é cuspido da boca de um vulcão. Lentamente, enquanto cresce e amadurece, desenvolve habilidades físicas e intelectuais que permitem que ele domine uma população de pequenos seres de pedra que o ajudam a construir sua cidadela. Mas o gigante também desenvolve um caráter dominador, praticamente escravizando seus súditos, que o idolatram como a um deus. Um dia, conduzido por um de seus exploradores, o tirano de pedra descobre, numa área isolada próxima ao seu castelo, uma comunidade de seres de madeira, que vivem em idílio pastoral. O povo de pedra ataca e escraviza o povo de madeira, para levar para sua cidade aquele novo e confortável material. Com os seres de madeira, também encontram pedras preciosas, que se tornam o grande tesouro do gigante. Contudo, entre o povo de pedra, há aqueles que discordam da forma com que o gigante governa, mas isso acaba por fazer com que todos os dissidentes, de pedra e de madeira, sejam aprisionados numa cela no alto das muralhas. Mas a maldade e a ganância não podem durar para sempre.
Os desenhos de Kuper são simples e esquemáticos, com um ótimo tratamento de claro/escuro. Curioso é a interpretação que Kuper dá a narrativa quanto ao espírito da cena: no estado de paz, os desenhos ganham cores vibrantes, contrastando com o cinzento predominante no restante da história.
A edição da Quadrinhos na Cia é elegante, em papel couchê de alta gramatura, que dá ao volume uma dignidade própria dos livros. Mas o formato incomum, praticamente quadrado, destaca a edição tanto entre o padrão dos livros quanto dos álbuns de quadrinhos em geral.
Pau e pedra foi premiado com a medalha de ouro de 2004, pela Society of Illustrators.
Cesar Silva

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Na eternidade sempre é domingo

Na eternidade sempre é domingo, Santiago Santos, 144 páginas. Ilustrações de Jean Fhilippe. Editora Carlini & Caniato, Cuiabá, 2016.

O escritor matogrossense Santiago Santos apareceu há poucos anos nas redes sociais com um trabalho a conta gotas apoiado em minicontos surpreendentes, mas logo chamou a atenção por suas tramas envolventes e bizarras. Essas pequenas narrativas, que podem ser vistas no blogue Flash Fiction, revelam um autor maduro e repleto de recursos, que não se embaraça seja no mainstream, seja nos gêneros, que desenvolve sem padrões e protocolos. Cada texto é uma experiência diferente e, muitas vezes, depois dos poucos minutos dedicado à degustação do mesmo, o leitor fica com a vontade de mais.
Na eternidade sempre é domingo vem atender ao desejo desses leitores. Trata-se do que, na tradição anglófona, se convencionou chamar de fix-up, um romance construído a partir de narrativas menores independentes entre si mas que, quando reunidas assim, formam um todo coerente. Os vinte pequenos contos publicados neste livro parecem prometer satisfazer o anseio do leitor, mas, no fim das contas, fiquei querendo mais do mesmo jeito.
O romance, o primeiro do autor, é um relato de um mochilão pelos Andes peruano e boliviano, viagem que Santiago realmente empreendeu em 2014. No primeiro conto, ainda no Brasil, o autor é confrontado por uma entidade mágica que se apresenta como Nipi, um espírito ancestral que, a cada trecho da viagem, revela os segredos fantásticos que diversos personagens escondem em sua aparência cotidiana. Assim, uma senhora insuspeita se revela uma antiga modelista da corte incaica, dois meninos de rua são os filhos imortais de Atahuallpa e Huáscar, e até animais domésticos se elevam a categoria de semidivindades. Todo isso para que a história e a cultura andinas sejam levadas ao mundo e nunca esquecidas.
A jornada nos leva a Cusco, La Paz e diversos vilarejos e pontos turísticos da região, como o Lago Titicaca e Machu-Picchu, com descrições vívidas de suas paisagens e costumes. Cada conto/capítulo é aberto por uma fotografia tirada pelo autor, que ilustra os personagens que irão ali se apresentar.
O autor revela ter feito uma longa e minuciosa pesquisa para escrever os relatos, de forma que a ficção se mistura à realidade e não sabemos exatamente onde termina uma e começa a outra. Para auxilar o entendimento dos muitos termos quíchua que dão título aos contos e surgem a todo tempo em meio à narrativa, há oportunas notas de rodapé e vários apêndices, que também dão aos contos uma sólida consistência histórica.
Mas o que isso tem a ver com nós, brasileiros, que aparentemente não somos em nada participantes dessa cultura? Em tempos de governo golpista que vira as costas para a América Latina, pode mesmo parecer inútil, mas nos faz pensar no porquê disso, que é uma questão que paira sem resposta desde os primeiros tempos do fandom brasileiro de fc&f. Por que não temos um intercâmbio com a produção dos nossos vizinhos? Por que não valorizamos a cultura do subcontinente no qual nos incluímos, desprezando até mesmo nossa própria tradição em favor de modelos de terras muito mais distantes e ainda mais incompreensíveis?
Santiago Santos mostra que é possível construir ficção relevante sem tributar às metrópoles e que a América Latina é um mistério ainda por ser descoberto pelos brasileiros. Porque, afinal, as fronteiras são apenas limitações políticas: a América Latina também está em nós.
A aventura termina como todas as peregrinações: numa última viagem de ônibus de volta para casa. Nipi se despede mas, por certo, continua a espera dos peregrinos, para mostrar outros segredos da rica magia andina.
O trabalho de Santiago Santos é muito expressivo e, não raro, contundente. Um autor a ser acompanhado com atenção.
Cesar Silva

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Revista Ficções


Ficções – Revista de Contos. Organização e edição de Dorva Rezende. Ano VIII, número 15, julho de 2006, 112 páginas. Rio de Janeiro: Editora Sete Letras, 2006.

De tempos em tempos a ficção científica brasileira deixa a sua tradicional invisibilidade. Ganha algum destaque na grande imprensa, por meio de uma ou outra editora que publica alguma obra relevante ou ainda em uma publicação especializada do mainstream, com uma crítica positiva ou um volume de contos. Pois este último caso é o desta bem-vinda edição da revista Ficções, da editora carioca Sete Letras, que dedicou um número inteiro sobre a ficção científica brasileira, no penúltimo número da revista. Descontinuada pouco depois como todas as da história do mercado editorial brasileiro, foi um acontecimento que surpreendeu não só a comunidade brasileira voltada ao gênero, como o próprio leitor que habitualmente comprava esta revista, ou seja, do mainstream. Com pouco ou nenhum conhecimento sobre a ficção científica escrita no Brasil.
Mas a edição é meritória não apenas por sua intenção. É principalmente pelo conteúdo do volume. É que o jornalista Dorva Rezende, organizou uma verdadeira antologia do gênero no país. E das melhores já montadas.
Ficções reúne sete dos mais representativos autores brasileiros da Segunda Onda (1982 a 2004), a maioria deles em momentos especialmente felizes de suas obras. Como em toda coleção de histórias curtas de autores diferentes, há narrativas melhores e outras piores. Mas chama a atenção a média elevada de trabalhos de boa qualidade. Talvez para isso tenha contribuído a quantidade pequena de histórias o que, em tese, diminui a possibilidade de mais irregularidade entre os trabalhos. Mas também é possível afirmar que o equilíbrio virtuoso seja consequência da boa escolha de autores, todos já com uma carreira com trabalhos profissionais publicados.
A revista abre com um bom artigo do próprio editor, discutindo as razões pelas quais o gênero praticado no país continua pouco considerado por boa parte da comunidade literária. Aponta uma invisibilidade que teima em se fazer aparecer e fornece alguns exemplos históricos de bons autores que o gênero já tem no país. Mesmo usando uma linguagem um pouco afetada, com uma verborragia excessiva em termos de referências eruditas – talvez devido ao público alvo preferencial do volume, ou seja, não leitores de ficção científica –, o texto é inteligente e serve para instigar a leitura dos contos a seguir.
O primeiro dos contos publicados é também o melhor da edição e provavelmente a melhor história brasileira de 2006. Estou me referindo ao texto “A propósito da difração quântica nas regiões periféricas da consciência”, de Braulio Tavares. É uma história surpreendente e sofisticada, que mostra como seria um ser humano com a visão de outros universos paralelos, embasados na concepção quântica do princípio da incerteza. A ideia básica é simples, mas provocadora: para existir é preciso ser visto. Como se nota, estamos diante de uma premissa fascinante e polêmica, pois abre outras maneiras de enxergar a realidade, relativizando-a, abrindo a mente e a postura para outras experiências não convencionais da vida.
O recurso do personagem estar sob efeito de uma droga, só acentua o possível nexo causal que pode existir entre o cérebro e as estruturas físicas que compõem a Natureza. Como se houvesse uma oportunidade de atravessar àquela ao qual estamos ‘presos’ em direção a concepções mentais e físicas outras. É Braulio Tavares novamente em um momento brilhante.
Na sequência vem “Um dia perfeito para um piquenique”, de Simone Saueressig. Uma boa escolha, pois a autora gaúcha é talentosa e mantém o nível do conto precedente. E também não deixa de ser uma surpresa agradável constatar que uma autora mais voltada à fantasia e ao horror, escreve uma história de ficção científica tradicional com competência.
Em uma missão brasileira em Marte, um astronauta descobre uma fenda no solo que dá em um túnel subterrâneo. Em sua missão ele está à procura do Porto 31 que, acredita-se, seja uma estrutura metálica sob a superfície. De fato, ela se confirma. Mas o astronauta jamais poderia imaginar que era sua própria nave há milhares de anos. Embora seja possível descobrir o rumo da história no início, a autora narra com segurança, mantendo o suspense e o interesse em sabermos o que acontecerá com o desafortunado astronauta. 
A terceira história é de Jorge Luiz Calife, o autor símbolo da ficção científica hard brasileira. O seu “Mergulho nas Bahamas” apresenta Patrícia, uma jovem fotógrafa da vida selvagem. Ela está em missão nas águas do Caribe, quando é surpreendida por uma lula gigante. O animal a leva para a escuridão do fundo do oceano. E ela desperta a 680 anos-luz da Terra, em um planeta oceânico, mantido como um zoológico de espécies marítimas raras por uma civilização extraterrestre. Pois ela foi confundida com uma sereia, que os alienígenas julgam existir, seguindo as lendas terrestres que encontraram.
Obviamente um engano e Patrícia procura se utilizar da crença alienígena para tentar voltar à Terra. A maneira como ela os convence pode parecer pouco crível, mas é divertido e faz sentido, pois se os aliens acreditam mesmo que ela seja uma sereia, nada mais lógico que continuassem ingenuamente em seu engano. O conto é uma variação das lendas sobre os misteriosos desaparecimentos nesta região do planeta, narrado com desprendimento e segurança, com as conhecidas belas imagens da natureza, uma marca do autor. Uma história bem-vinda, pois foge da mesmice de seu universo ficcional de “Padrões de Contato”, mostrando que o autor pode escrever contos interessantes como este. Por fim, é de se perguntar por que esta história não foi publicada na sua coletânea As Sereias do Espaço (2001). Teria sido uma das melhores do livro. A não ser que tenha sido escrita mais recentemente.
“Bárbaros nos portões” é a contribuição de Gerson Lodi-Ribeiro à antologia. Como já é comum em sua obra, esta é mais uma história de especulação política sobre o futuro próximo do Brasil. Em 2043 o contexto internacional vive uma nova Guerra Fria, desta vez entre a Aliança Ocidental – liderada pelos Estados Unidos – e a União Sulina – que inclui o Brasil. Ao que parece o conflito não é mais Leste-Oeste, mas Norte-Sul.
São construídas cidadelas subterrâneas para abrigar as autoridades no caso de uma guerra nuclear. Floresta é uma delas, próxima a Brasília. Na iminência da guerra, os políticos e militares correm para os portões da cidadela. Só que os residentes, cientistas em sua maioria, não deixam que os ‘bárbaros’ entrem. Isso porque parte da população fixa teria de ser retirada para dar lugar às autoridades. A guerra ocorre e Floresta torna-se líder no mundo, entre as poucas que sobrevivem. A história é interessante, mas a parte final diminui o impacto, quando o autor resolve explicar o que veio depois do conflito. Sai a narrativa e entra o documento. Perde uma força dramática bem conseguida até então.
Questionável também o argumento de considerar os políticos como bárbaros e corruptos e os cientistas como virtuosos e idealistas. Será que é um desabafo com os escândalos recentes na política brasileira? Ademais, como é que as cidadelas não estavam preparadas para receber as autoridades, na eventualidade de um conflito?
Sobre a dicotomia em si, ela não faz sentido em um Estado que, pelo que é sugerido, é democrático. No fundo, os bárbaros são os que impedem a entrada dos governantes, representantes do povo. Impedidos de entrar em uma instituição que é pública e não dos que nela residem. Um autêntico golpe de Estado!
O texto é curioso também pelas referências a personalidades do fandom por meio de personagens, como Silvio Gonçalves (tradutor), Fábio Fernandes (escritor) e um certo general Souza Castro, uma referência indireta ao escritor Roberto de Sousa Causo.
E é exatamente de Causo a próxima história. Coincidência ou não, outra história de futuro próximo com o Brasil em guerra. “Brasa 2000” foi primeiramente publicada no fanzine Somnium no. 79, mas esta nova versão é modificada. O conflito é com a Argentina. São Paulo é severamente bombardeada, sobrando pouco mais do que ruínas do Centro da cidade. O drama enfoca o soldado Exequiel, único sobrevivente de seu grupo. Ele tenta se desvencilhar de drones altamente sensíveis e mortíferos, quando encontra um velho civil ferido em escombros. Procura ajudá-lo e uma curta e estranha relação ocorre entre os dois, sem que o soldado compreenda o significado. O velho fala por parábolas existencialistas. Demais para um soldado, ou qualquer pessoa numa situação vital, que quer apenas sobreviver.
Causo imprime uma boa dramaticidade, além de – como já lhe é habitual –, narrar de maneira convincente os detalhes das batalhas, mesmo sem perder o cacoete – ainda mais recorrente – , de descrever com detalhes os armamentos e como funcionam. Se no conjunto é um bom conto, principalmente por causa da sensação iminente de morte dos personagens, por outro soa incompleto. Como se fosse o fragmento intenso de uma história maior, o que deixa uma sensação de certo desconforto ao final. De uma narrativa que poderia render mais.
A próxima história é de Carlos Orsi Martinho, com o seu “O Colosso de Bering”. Um sujeito morre e vai parar em outro universo, no fim do século XIX bem no meio de uma guerra entre russos e japoneses. É verdade que esta guerra existiu em nosso universo. A diferença é que são estes dois países as potências dominantes da época. Pois da mesma forma que lá foi parar ele retorna ao que acredita ser o ‘seu’ mundo. Procura um amigo, que se tornou escritor de mistérios para lhe ajudar a decifrar o seu próprio.
Resumido desta forma, talvez o leitor não ache muito interessante. Mas o que vale é ler a história, contada com bom ritmo e um suspense intrigante. Um conto que prende a leitura até o desfecho que, por sinal, ainda consegue ser provocador.
A última história é de Fábio Fernandes. Para exemplificar, permitam-me uma indiscrição. Na dedicatória que o autor escreveu ao meu exemplar ele afirma que “Às vezes escrevo hoje em dia, mas quando escrevo é ficção científica”. Parece que de lá para cá a situação não mudou.
“Charlotte Sometimes” não é um conto facilmente digerível – o que, aliás, é comum no autor –, mas é sutil em suas consequências. Explicá-lo é um pouco difícil, pois perde-se as suas nuances e seu jogo de aparências, sempre volvendo, como se no próximo parágrafo uma nova e diferente sentença se apresentasse. Toda esta estrutura subjetiva se dá na experiência onírica de um sujeito que não sabe mais o limite entre o sonho e a realidade. Até ser confrontado com duas descobertas: Sua finitude e sua vivência através de alguém que lhe perdeu.
Após os contos ainda há um bônus, com uma boa entrevista com Braulio Tavares, realizada por Dorva Rezende e Manoel Ricardo de Lima. Ele fala sobre as razões de não mais escrever ficção – na época –, das dificuldades do gênero crescer no Brasil, de Guimarães Rosa e Jorge Luís Borges, além de citar algumas obras da ficção científica brasileira que considera dignas de serem conhecidas.
Esta edição número 15 da revista Ficções merece alguns reparos, contudo, pois faltou uma boa revisão, além do fato das biografias da maioria dos autores estarem com dados incorretos. É curioso também que esta revista tenha uma distribuição precária, encontrada para compra apenas na própria editora (!), conforme me revelou uma de suas publishers. É irônico que uma publicação que visa a divulgar a ficção científica brasileira seja ela também de acesso difícil.
Mas estes problemas são laterais. O principal é que os leitores do mainstream e do próprio gênero que conseguirem comprar a edição serão brindados com um momento feliz da ficção científica brasileira. Isso não é pouca coisa, principalmente para a comunidade que se dedica ao gênero, pois sugere boas perspectivas para seu reconhecimento no país.

Marcello Simão Branco

sábado, 28 de julho de 2018

The War in Space / Battle in Outer Space 2 (Japão, 1977)



The War in Space” é o título americano dessa bagaceira de FC japonesa produzida pela “Toho” em 1977, aproveitando o lançamento de “Star Wars” para tentar lucrar com as histórias de guerras no espaço. O filme também é conhecido como “Battle in Outer Space 2”, numa referência como algum tipo de sequência para “Os Bárbaros Invadem a Terra” (The Mysterians, 1957) e “Mundos em Guerra” (Battle in Outer Space, 1959), ambos dirigidos por Ishirô Honda.
A história é ambientada em 1988, um futuro para a época da produção e um passado já distante para os tempos atuais, 30 anos depois. A Terra está sendo atacada por alienígenas de um planeta muito distante que está em processo de extinção, e que procuram outro lugar para viverem, um dos clichês mais saturados desse sub-gênero da FC. Eles estabelecem uma base em Vênus e promovem um ataque destrutivo nas principais cidades do nosso mundo. Para combatê-los, um renomado cientista japonês, Professor Takigawa (Ryô Ikebe, que esteve também no anterior “Mundos em Guerra”), projetou a nave de guerra “Gothen”, que é utilizada como representante da humanidade e da “Federação Espacial das Nações Unidas” para deter a invasão alienígena.
A “Gothen” tem uma broca perfuradora gigante localizada na parte frontal e com suas armas de raios laser e um sistema de lançamento de aviões similar ao disparo de projéteis de um revólver, vai até Vênus para destruir a base inimiga. A bela filha do cientista, June (Yûko Asano), é sequestrada pelo líder dos vilões e seu antigo namorado, Miyoshi (Kensaku Morita), tenta resgatá-la, respondendo um pedido do atual noivo da moça, o piloto Morrei (Masaya Oki), formando um tradicional e clichê triângulo amoroso. Trava-se então uma guerra no espaço longínquo, no distante planeta Vênus, entre os humanos e os alienígenas invasores, com sua imensa nave na forma de um galeão típico de navegação em nossos oceanos, com suas esferas voadoras que soltam raios laser.
“The War in Space” ou “Wakusei Daisenso” (no original japonês) é um filme bagaceiro de ficção científica dirigido por Jun Fukuda, com uma história típica das exageradas batalhas espaciais entre os humanos e invasores alienígenas, pela defesa de nosso planeta tão cobiçado. A única característica realmente interessante, para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro, são as esperadas maquetes e miniaturas de naves e aviões de guerra, os cenários coloridos tanto das bases terrestre como a alienígena, os computadores gigantes imaginados pelas mentes dos roteiristas da época, e o vilão estranho, aqui representado pelo líder tirano Comandante Supremo do Império da Galáxia, de pele verde e usando um capacete e vestuário hilários. As naves são barulhentas e a “Gohten” até solta fumaça, “poluindo” o espaço.
Porém, de resto, o filme é muito ruim. A interpretação dos atores é sofrível, sendo impossível estabelecer alguma empatia com os personagens e seus destinos. O inexpressivo ator David Perin, que faz o papel do piloto Jimmy, tem uma cena patética onde tenta esboçar alguma emoção ao saber da morte da família num ataque alienígena. Mas, ele falha de forma desastrosa na tentativa. O roteiro é extremamente superficial, explorando os mesmos elementos de dezenas de filmes similares sobre invasão alienígena pela posse da Terra.
Curiosamente, em outra cena patética, temos um clone pobre do “Chewbacca”,o “Wookiee” que se tornou um ícone popular pela cultuada saga “Star Wars”. Só que a cópia japonesa tem chifres bizarros e é um simples guarda que aterroriza a mocinha presa pelo vilão. Porém, ao contrário do famoso guerreiro original, esse é tão incompetente que dá pena.
(Juvenatrix – 26/07/18)