domingo, 17 de setembro de 2017

Mistério no Bosque / Olhos na Floresta (The Watcher in the Woods, EUA, 1980)


A produtora “Walt Disney”, conhecida pelas animações e filmes com humor e histórias voltadas para a família, também tem a sua contribuição para o gênero fantástico, representado por “Mistério no Bosque” (1980), uma mistura de horror, assombração, suspense, mistério e até ficção científica. A direção é do inglês John Hough, que tem em seu currículo “As Filhas de Drácula” (1971), da “Hammer” e com o ícone Peter Cushing, e o clássico de casa assombrada “A Casa da Noite Eterna” (1973), com Roddy McDowall.
Uma família se muda para um antigo casarão no interior da Inglaterra, isolado e cercado por uma floresta. Temos o pai músico Paul Curtis (o escocês David McCallum, rosto conhecido pela série de TV dos anos 70 “O Homem Invisível”), a mãe escritora Helen (Carroll Baker) e as duas filhas, a adolescente Jan (Lynn-Holly Johnson) e a pequena Ellie (Kyle Richards). A mansão pertence à idosa mal humorada Sra. Aylwood, interpretada por Bette Davis (1908 / 1989), veterana com vários filmes de horror na carreira como o clássico “O Que Aconteceu Com Baby Jane?” (1962). 
Porém, um mistério ronda a região, com o desaparecimento 30 anos atrás da adolescente Karen (Katharine Levy), filha da Sra. Aylwood, em circunstâncias estranhas durante um raro eclipse solar, e que nunca foram solucionadas. Um segredo obscuro também envolve outros moradores das redondezas como o sinistro John Keller (Ian Bannen), o ermitão Tom Colley (Richard Pasco), e Mary Fleming (Frances Cuka), mãe do adolescente Mike (Benedict Taylor), amigo de Jan, e vizinho que trabalha com frutas e legumes.
Para complicar ainda mais as coisas, a família recém chegada precisa lidar com a ocorrência de constantes situações perturbadoras como ruídos, vozes e visões fantasmagóricas de uma menina com os olhos vendados, desesperada pedindo ajuda. Além de sensações desconfortáveis como se os novos moradores estivessem sendo observados à espreita (daí o título original), tanto no interior da enorme casa quanto principalmente no bosque sinistro, em relatos das filhas que revelam habilidades sensitivas.  
“Mistério no Bosque” é um filme comum sobre casas e florestas assombradas, com todos os velhos clichês e elementos do estilo, que ainda assim continuam funcionando sem muita exigência. Uma diferença notável que lhe confere certo destaque é a sempre bem vinda presença de Bette Davis no elenco, mesmo numa participação menor, e o fato de ser uma produção da “Walt Disney”, cujo nome está sempre associado às animações e filmes infanto-juvenis de aventura, comédia e dramas familiares, sem ligação com o horror.
Entre as diversas curiosidades interessantes, vale destacar que o final original do filme lançado em 1980 foi considerado muito sombrio e não foi bem recebido na época. Então os realizadores optaram por relançar o filme um ano depois em 1981, com outro final mais leve e explicativo, que teve a direção não creditada de Vincent McEveety. Particularmente, o final original e depois censurado é muito melhor e mais interessante, com ótimos efeitos especiais típicos daquele período e com uma associação mais efetiva com os elementos de ficção científica da história.
O filme foi baseado no livro “A Watcher in the Woods” (na tradição literal, “Um Observador na Floresta”, publicado em 1976 e escrito por Florence Engel Randall. A película recebeu dois nomes no Brasil, “Mistério no Bosque” na exibição nos cinemas e “Olhos na Floresta” no lançamento em vídeo VHS. Em 2017, ganhou uma refilmagem dirigida por Melissa Joan Hart e com Anjelica Houston liderando o elenco.
Boa parte das locações são as mesmas do clássico “Desafio ao Além” (The Haunting, 1963), de Robert Wise, um dos principais filmes de casas assombradas da história do cinema de horror.
(Juvenatrix – 17/09/17)

sábado, 9 de setembro de 2017

O Endereço do Medo (The House That Mary Bought, Inglaterra, 1995)


O Endereço do Medo” (The House That Mary Bought, 1995) é uma produção inglesa para a televisão que foi lançada em DVD no Brasil. Trata-se de uma história típica de suspense e mistério, dirigida por Simon MacCorkindale (1952 / 2010), a partir de um roteiro dele em parceria com Chris Bryant, baseado numa novela de Tim Wynne-Jones.
Mary Close (Susan George) pinta quadros e é casada com Malcolm (Ben Cross), um arquiteto que também gosta de escrever. Eles vivem num belo casarão à beira mar, afastado da cidade. Sozinhos depois da morte do filho, o casal conta apenas com a ajuda parcial de uma empregada doméstica, Odette Callot (Chantal Gresset). Porém, as coisas começam a se complicar depois que diversos eventos misteriosos e estranhos passam a acontecer na enorme casa isolada, transformando o local no “endereço do medo” do título nacional. E a “casa que Mary comprou”, do título original, torna-se o palco de um mistério que poderia ser associado a assombrações ou loucura dos moradores.
Os acontecimentos bizarros geram um clima de tensão constante e crescente envolvendo o casal e também amigos próximos como Alex Fischer |(Maurice Thorogood), o agente para exposição dos quadros de Mary, ou a jovem Claire Benoit (Charlotte Valandrey), secretária de Malcolm. Culminando com as investigações da polícia local, sob o comando do Inspetor Jarrier (Jean-Paul Muel), que tenta em vão descobrir alguma coisa.
O filme é uma típica produção para a televisão, sem elementos de violência ou cenas sangrentas, num trabalho mais voltado para o suspense psicológico sobre o mistério da casa, com um resultado final mediano, o que não deixa de ser interessante, uma vez que a grande maioria dos filmes similares é descartável. Apesar de longo, com 104 minutos, sua história desperta uma empatia com o espectador na construção relativamente bem sucedida de uma atmosfera de mistério que prende a atenção na tentativa de descoberta da origem e motivação dos acontecimentos estranhos na casa, com a inevitável influência no relacionamento do casal, progressivamente mais conturbado.
(Juvenatrix – 08/09/17)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O Massacre da Serra Elétrica - Arquivos Sangrentos (2003)


“...O Massacre da Serra Elétrica é atemporal, inigualável, talvez até uma obra de arte; ele criou vida própria além de qualquer coisa que seus realizadores pudessem ter imaginado...” 

A Editora “Dark Side” presenteou os fãs brasileiros lançando por aqui em 2013 um livro sobre os bastidores de um dos grandes e indispensáveis filmes de horror de todos os tempos, “O Massacre da Serra Elétrica” (The Texas Chainsaw Massacre, 1974), dirigido por Tobe Hooper e que iniciou uma extensa franquia com continuações e refilmagens. A autoria é do músico e escritor inglês Stefan Jaworzyn, e o livro traz uma imensa quantidade de fotos, informações gerais e principalmente detalhes e curiosidades de bastidores da produção não só do primeiro filme, mas de toda a extensa franquia, com depoimentos de muita gente envolvida no projeto, de atores à equipe técnica. O livro, na verdade um compêndio, foi lançado pela “Coleção Dissecando – Filmes Clássicos de Terror” em duas versões, sendo uma delas com capa dura.

“Eggshells” (1969)

O capítulo inicial falando sobre o primeiro filme de longa metragem da carreira de Tobe Hooper, “Eggshells”, é bem arrastado e cansativo, não despertando interesse. O filme é um drama psicodélico experimental com elementos de fantasia. Porém, logo a seguir, ao iniciar os depoimentos sobre o clássico “Massacre”, começa a grande quantidade de curiosidades e informações de bastidores.  

“O Massacre da Serra Elétrica” (1974)

O cineasta Tobe Hooper, que nasceu em 1943 em Austin, Texas, e morreu em 2017, revelou que a ideia básica para a concepção do filme teve inspiração numa combinação de quatro fatores. A leitura dos antigos quadrinhos americanos de horror da “E.C. Comics” dos anos 1950, que foram censuradas e cujas histórias se transformaram em filmes e séries de TV. A lenda do assassino em série Ed Gein, que vivia em Wisconsin e tinha a particularidade de guardar os ossos e se alimentava literalmente de suas vítimas. A ressaca de seu primeiro filme na carreira, o psicodélico “Eggshells” (1969). E as tão temíveis serras elétricas, as quais foram lembradas quando ele estava na seção de ferramentas numa grande loja de departamentos infestada de gente na época do natal, e pensou como elas poderiam ser úteis para ele conseguir sair de lá.

Já a atriz Marilyn Burns (1949 / 2014), que interpretou a “scream queen” Sally Hardesty, comentou sobre o estranho roteiro inspirado no assassino Ed Gein, cujas atrocidades também serviram de referência para outros dois excelentes filmes, “Psicose” (1960) e “O Silêncio dos Inocentes” (1991), sem contar diversos outros menores. Segundo ela, os três filmes são diferentes, apesar da mesma fonte de inspiração, e no caso do “Massacre”, eles apenas juntaram a serra elétrica e a palavra “Texas”.

O ator islandês Gunnar Hansen (1947 / 2015), que interpretou o maníaco “Leatherface”, curiosamente revelou que no período de contratação do elenco, a equipe de produção gostou do fato dele ser tão grande que ocupava todo o vão da porta, e isso deve ter ajudado na sua escolha para o papel do psicopata.    

O diretor de arte Robert A. Burns, assim como outros envolvidos na produção, informou que o roteiro original do filme tinha muitas páginas sobre jovens dirigindo aleatoriamente pelas estradas, com muito humor hippie, e que depois foi encurtado e reescrito diariamente durante as filmagens. Ainda bem que ocorreu essa mudança, pois teria grande chance de tornar o filme mais comum e menos perturbador. “Leatherface” teria muitas falas originalmente, mas após uma análise de Tobe Hooper foi decidido que não funcionariam e foram cortadas, numa decisão acertada. O psicopata com máscara de pele humana tornou-se uma lenda do cinema de horror, sem voz e rosto. Burns foi o responsável pelos efeitos especiais em geral e pelos objetos de cena, como as mobílias de ossos. Ele revelou que coletava ossos de animais mortos em fazendas e que recebia artefatos similares de seus amigos. Disse também que até aprendeu taxidermia especialmente para aplicar a técnica num tatu que encontrou morto atropelado, e que foi utilizado numa cena rápida do filme.   

Os atores fizeram questão de enfatizar as imensas dificuldades de trabalho por causa do baixo orçamento, que ficou em torno de apenas US$ 125 mil. Eles tinham que filmar entre 12 e 16 horas diárias enfrentando muito calor, acima de 40 graus. E não havia um trailer para descanso, pois tudo era muito limitado. A famosa cena do jantar demorou 26 horas para filmar e com o calor intenso as mobílias de ossos e os restos de vísceras estavam apodrecendo, deixando o ambiente com um cheiro extremamente desagradável.

O ator John Dugan, cunhado de Kim Henkel (um dos roteiristas e produtores), era muito jovem na época, com apenas 20 anos. Ele interpretou o centenário vovô, tendo que se submeter a um trabalho demorado de maquiagem para envelhecimento.

Por causa do baixo orçamento e o receio de estragar a roupa de “Leatherface” com uma lavagem que poderia alterar a cor, o ator Gunnar Hansen teve que utilizar a mesma roupa sem lavar durante o filme inteiro, convivendo com um odor que inevitavelmente incomodava todos ao redor.

O filme não tem muito sangue e violência explícita, mesmo sendo considerado um dos mais perturbadores da história do cinema de horror. Os realizadores não queriam sangue em profusão, preferindo optar por um horror mais implícito. Por mais reais que as cenas sangrentas possam parecer, existe uma distância entre o público e a história, pois os espectadores sabem que é falso. A cena da garota Pam (Teri McMinn) pendurada num gancho de açougue é extremamente chocante sem uma única gota de sangue, com o uso de efeitos especiais convincentes, numa época sem a computação gráfica que torna tudo muito artificial.     

“O Massacre” estreou em 11/10/1974 nos Estados Unidos, distribuído pela “Bryanston Pictures”, que curiosamente tinha relações com a máfia e com o lançamento do famoso filme erótico “Garganta Profunda” (Deep Throat, 1972). Porém, a grande quantidade de dinheiro obtida pelo sucesso comercial do filme sumiu, não chegando até os realizadores. Depois de vários problemas e processos na justiça, o filme foi depois relançado pela “New Line”. Algo similar também aconteceu com a distribuição internacional com a empresa “Raven”, cujos proprietários desapareceram depois de ganhar muito dinheiro com o filme.

Todos os membros da equipe técnica e os atores foram unânimes em afirmar que jamais esperavam o imenso sucesso e repercussão positiva que o filme conquistou. Eles achavam que seria apenas mais um filme de horror de baixo orçamento, e que a maior parte do sucesso deve-se ao fato do público acreditar que a história fosse real, que o filme poderia ser uma espécie de documentário falando de algo violento que realmente aconteceu. Porém, a história é totalmente fictícia, e apenas inspirada no assassino Ed Gein.

Assim como diversos outros filmes similares de horror, o “Massacre” foi censurado na Inglaterra por muitos anos e apenas em 1999 foi liberado sem cortes no cinema e em vídeo, ou seja, 25 anos depois de seu lançamento americano.

Uma das cenas mais perturbadoras e sempre lembradas e citadas tanto pelos envolvidos no projeto quanto pelos fãs, é a longa sequência de perseguição entre a garota Sally e o psicopata “Leatherface”, numa correria desenfreada e interminável pela floresta, com o barulho ensurdecedor da motosserra muito próxima de destroçar a carne da vítima indefesa. 

No capítulo referente à repercussão do filme entre os críticos de cinema, vale transcrever o resumo de uma das críticas:
Prepare-se para uma experiência totalmente repugnante e, para muitos, literalmente nauseante... uma torrente explícita de sangue. Quatro ou cinco (é difícil determinar a quantia exata somando os pedaços) jovens aventureiros encontram um diabólico açougueiro de carne humana no interior do Texas. O maníaco corre enfurecido atrás deles com uma serra elétrica e outros instrumentos de destruição, incluindo um gancho de açougue. O filme é doentio, como também é o público que se diverte com ele.

O diretor Tobe Hooper também ganhou um capítulo específico sobre sua carreira instável, sempre oscilando em altos e baixos, com informações curiosas de bastidores sobre vários de seus filmes. De sua filmografia foram citados, analisados e comentados, entre outros, os filmes “Eaten Alive” (1976), “Pague Para Entrar, Reze Para Sair” (The Funhouse, 1981), “Poltergeist, o Fenômeno” (1982), “Força Sinistra” (Lifeforce, 1985), “Invasores de Marte” (1986), “O Massacre da Serra Elétrica Parte 2” (1986), “Conspiração Atômica” (Spontaneous Combustion, 1990), “A Morte Veste Vermelho” (I´m Dangerous Tonight, 1990), “Noites de Terror” (1993), “Mangler – O Grito de Terror” (1995), “Crocodilo” (2000), etc.

A produtora Cannon, dos israelenses Yoram Globus e Menahem Golan, fechou um contrato com Hooper para 3 filmes entre 1985 e 1986: “Força Sinistra”, “Invasores de Marte” e “O Massacre 2”. Porém, a parceria foi tensa e cheia de conflitos e os dois primeiros filmes tiveram uma receptividade ruim nas bilheterias. “Força Sinistra”, por exemplo, sofreu um corte imenso dos produtores e teve seu nome original alterado de “Space Vampires” para “Lifeforce”, desagradando completamente Hooper. “Space Vampires” (no Brasil, “Vampiros do Espaço”) é o nome do livro de Colin Wilson, lançado em 1976 e que inspirou o roteiro do filme.

Curiosamente, a máquina assassina do bizarro “Mangler – O Grito de Terror”, uma espécie de lavadeira que se alimenta de carne humana, foi criada pelo filho de Hooper, William Tony Hoopert. O filme foi baseado num conto de Stephen King e estrelado por Robert Englund, que é mais conhecido como o psicopata da luva de facas “Freddy Krueger” na franquia “A Hora do Pesadelo”.   

“O Massacre da Serra Elétrica Parte 2” (1986)

A continuação de “O Massacre da Serra Elétrica” recebeu outro extenso capítulo. Infelizmente, por decisão equivocada de Hooper, a parte 2 é repleta de elementos de humor negro que em minha opinião não funcionaram. E, apesar da grande quantidade de cenas sangrentas e do excelente trabalho de maquiagem do mestre Tom Savini, em comparação com o filme de 1974, a sequência é infinitamente inferior. Hooper inicialmente seria apenas produtor, mas como não conseguia encontrar um diretor com as qualidades exigidas em tempo, foi obrigado a assumir a direção também.
O filme teve um elenco diferente do original, exceto pelo retorno de Jim Siedow como o cozinheiro. Com um orçamento muito maior e produção da “Cannon”, os realizadores cometeram uma falha quando não fizeram grandes esforços para trazer de volta Gunnar Hansen como “Leatherface”, e o papel foi para Bill Johnson. Foi um erro grosseiro, uma vez que Hansen fez o “Leatherface” original e será para sempre lembrado por sua atuação.
Entre as diversas informações de bastidores, foi revelada a imensa dificuldade no trabalho de muitas horas de maquiagem do ator Ken Evert para ser transformado no vovô (aliás, foi sua única participação no cinema). As condições de trabalho eram muito difíceis, e vários atores e membros da equipe técnica adoeceram nas filmagens, devido à grande diferença de temperatura entre o ambiente externo com muito calor e o set com ar condicionado misturado com fumaça. Bill Johnson revelou que contraiu pneumonia e passou muito mal.
O diretor de fotografia Richard Kooris informou que a relação com a produtora “Cannon” era caracterizada por muita animosidade entre eles. Hooper e demais comandados sofreram grande pressão para redução de prazos e custos. O trabalho foi extremamente árduo e desgastante física e psicologicamente, com quinze horas diárias de filmagens, em seis dias por semana, num total de nove semanas e meia. 
Na parte das resenhas sobre a continuação, a receptividade foi ruim. Segue transcrição de uma delas:
Outro erro é comparar gritaria e mutilação com suspense. Este filme é monótono do início ao fim, nunca dando atenção ao ritmo, ao tempo, à expectativa do horror. Ele não pausa nem para apresentar os personagens; Dennis Hopper tem a tarefa mais ingrata, a de interpretar um homem que passa a primeira metade do filme parecendo distraído e vago, e a segunda metade gritando em meio a duelos de serras.

“Leatherface: O Massacre da Serra Elétrica 3” (1990)

A terceira parte da franquia também recebeu o seu capítulo específico, com a produção passando agora para a “Nerw Line Cinema”, que fez alguns filmes da cinessérie “A Hora do Pesadelo”. O roteirista do original, Kim Henkel, achava inicialmente que poderia ser um consultor com significativa participação na concepção do filme, mas a produtora não deu muita atenção para ele.
A direção é de Jeff Burr e o elenco tem nomes importantes como Viggo Mortersen (o Aragorn da trilogia “O Senhor dos Anéis”) e Ken Foree (do cultuado “Despertar dos Mortos”, 1978, de George Romero, e “Do Além”, 1986, de Stuart Gordon). “Leatherface” mudou de ator novamente, passando a serra para R. A. Mihailoff.
Com um orçamento de US$ 3 milhões, as filmagens ocorreram entre Julho e Agosto de 1989, com 80% de cenas noturnas que foram trabalhosas e dificultadas pela forte neblina das madrugadas no set de filmagens.
Como o filme sofreu muitos cortes de cenas violentas para poder receber uma classificação de acesso para um público maior, o diretor Jeff Burr não gostou do tratamento final e queria seu nome retirado dos créditos, alegando que os cortes prejudicaram demais o filme. Que, aliás, foi censurado na Inglaterra, ficando proibido até 2004. O capítulo traz também uma interessante entrevista com o roteirista David J. Schow, onde ele fala sobre esse problema com a censura e a crítica de violência contra as mulheres no filme.
A receptividade dessa terceira parte da franquia também não foi entusiasmada, apesar da opinião geral dos críticos e público sobre ser bem melhor que a parte 2, com seu humor meio fora de contexto.  

“O Massacre da Serra Elétrica – O Retorno” (1994)

A parte 4 da franquia também teve um orçamento baixo, em torno de US$ 600 mil, com as filmagens ocorrendo em apenas 6 semanas em 1993. A direção e roteiro são de Kim Henkel, o roteirista do filme original. A maior curiosidade é a presença no elenco dos atores Matthew McConaughey e Renée Zellweger, então desconhecidos na época e que tiveram carreiras bem sucedidas. Outra curiosidade refere-se à atriz Tonie Perenski, que estava sempre bonita e maquiada nas filmagens, mesmo em cenas de confrontos e lutas, onde não deveria estar tão bem. O ator Robert Jacks, que interpretou “Leatherface” e teve uma carreira curtíssima com praticamente esse único filme, morreu ainda jovem em 2001 com 41 anos, vítima de um aneurisma abdominal.
Kim Henkel revelou que tiveram muitos problemas de distribuição com a produtora Columbia, que não tinha interesse em lançar o filme nos cinemas, tanto que foi exibido nos Estados Unidos em poucas salas de forma limitada e com um atraso imenso, somente em 1997.
Três atores do clássico de 1974 foram homenageados com pontas no final do filme: Paul A. Partain, John Dugan e Marilyn Burns.
Quanto à receptividade, existem opiniões diversas e opostas, mas vale registrar e reproduzir uma resenha depreciativa de um fã bem desapontado com o filme:
... Leatherface é um viado travesti que grita como uma menina e em todos os filmes a família dele é canibal, menos na parte 4 em que eles comem pizza. Leatherface também não é mais o principal membro da família, é aquele idiota do Vilmer (Matthew McConaughey). E também Leatherface só matou uma pessoa e foi com uma marreta, não a serra, o resto das mortes é do Vilmer. Então os filmes do Massacre da Serra Elétrica são meus favoritos, exceto essa enganação da parte 4...

“O Massacre da Serra Elétrica” (2003)

A refilmagem de 2003 tem produção de Michael Bay, um nome bem conhecido por blockbusters como “Armageddon” (1998) e “Pearl Harbor” (2001), filmes da mesma época, e atualmente é só se lembrar da barulhenta franquia “Transformers”. O único membro da equipe de produção do filme original que foi chamado para participar novamente foi o diretor de fotografia Daniel Pearl. Tobe Hooper e Kim Henkel estão creditados como co-produtores, mas revelaram que suas opiniões para o projeto não foram consideradas.
A direção foi de Marcus Nispel, com um orçamento de US$ 15 milhões pela produtora “New Line Cinema” novamente (que já tinha a parte 3 no currículo). “Leatherface” foi interpretado de novo por outro ator diferente, Andrew Bryniarski. E exceto pelo veterano R. Lee Ermey, o elenco é formado por jovens desconhecidos, vistos apenas em séries americanas de TV.

“O Massacre da Serra Elétrica – O Início” (2006)

Apenas três anos depois da refilmagem, foi lançada uma pré-sequência contando eventos antes da história do filme de 2003. A direção foi de Jonathan Liebesman e Andrew Bryniarski repetiu o seu papel como o maníaco “Leatherface”. Curiosamente, ele revelou que aprecia metal extremo e citou a sangrenta música “Raining Blood”, da lendária banda de thrash metal “Slayer”.
O eterno, primeiro e único “Leatherface”, Gunnar Hansen, disse que ficou desapontado com o filme, pois o psicopata foi desmascarado, seu mistério deixou de existir, revelando que teve uma doença de pele na infância e que a partir daí começou a matar por vingança pessoal.  

“O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua” (2013)

Considerado uma continuação direta do original de 1974, o sétimo filme da série foi filmado em 3D com direção de John Luessenhop. Curiosamente, tem a presença de alguns atores do clássico, em pequenas participações que serviram mais como forma de homenagem para Marilyn Burns, Gunnar Hansen e John Dugan, além também de Bill Moseley, que foi o “Chop-Top” na parte 2. “Leatherface” novamente foi interpretado por um ator diferente, com a serra indo para as mãos de Dan Yeager.
Apesar que esses velhos atores revelaram que gostaram do roteiro, esse filme é mais uma “bomba” manchando a franquia, repleto de clichês e situações já vistas tantas vezes que o tornaram apenas mais um filme comum perdido na infinidade de produções similares, com o único diferencial de possuir um título da popular franquia.  

OBS.1: Em 2017 veio o oitavo filme situado nesse imenso universo ficcional de “Massacre da Serra Elétrica”. Com o sugestivo e manjado título “Leatherface”, foi dirigido por Alexandre Bustillo e Julien Maury, os mesmos responsáveis pelo excelente filme francês “A Invasora” (2007). A história mostra eventos anteriores ao primeiro filme da saga, abordando a adolescência conturbada de “Leatherface”.
OBS.2: Em 1988 foi lançada uma paródia do clássico de 1974, “Hollywood Chainsaw Hookers”, com Gunnar Hansen no papel principal, e direção de Fred Olen Ray. Foi lançado em VHS no Brasil com o nome picareta “O Massacre da Serra Elétrica 3 – O Massacre Final”, mas não tem relação com a franquia, e o título recebido por aqui apenas contribuiu para confundir os fãs.

Documentários e filmes derivados

Segundo o livro, existem três documentários sobre a franquia (e mais um “making of” no DVD da parte 3). São eles: “The Texas Chainsaw Massacre: A Family Portrait” (1988), de Brad Shellady, “The Return of the Texas Chainsaw Massacre: The Documentary” (1996), de Brian Huberman, e “Texas Chain Saw Massacre: The Shocking Truth” (2000), de David Gregory.
O primeiro documentário é sobre o filme original, num trabalho independente do diretor, que contou principalmente com o auxílio de Gunnar Hansen. O segundo é sobre a parte 4, com informações de bastidores e depoimentos dos envolvidos no projeto, com sua produção acontecendo em paralelo com as filmagens. E o terceiro também tem como foco principal o primeiro filme, porém com espaço paras as demais partes 2, 3 e 4, com vários depoimentos de Tobe Hooper e Kim Henkel, além dos atores e demais membros da equipe técnica.
Tem também um documentário de curta metragem chamado “Leatherface Speaks” (2001), de Jim Moran, com revelações interessantes de Gunnar Hansen sobre os bastidores do clássico de 1974.
Além dos documentários, o livro informa sobre um filme de curta metragem (22 minutos) chamado “Headcheese” (2002), que foi um dos primeiros nomes imaginados para o “Massacre”. Tem direção de Duane Graves e Justin Meeks, além de co-produção do próprio Kim Henkel. É uma homenagem ao cultuado filme de 1974, com as filmagens utilizando as mesmas locações do clássico.
“All American Massacre” é um média metragem de 60 minutos que nunca foi lançado, dirigido pelo filho de Tobe Hooper, William Tony Hooper e Eric Lasher. A história é um tributo aos dois primeiros filmes da franquia, focando as ações no personagem doentio “Chop-Top”, interpretado por Bill Moseley (parte 2).  

Ed Gein

O psicopata americano Ed Gein (1906 / 1984) teve seu capítulo também. Ele ficou conhecido pelas atrocidades cometidas, roubando restos de cadáveres dos cemitérios e guardando em casa, além de fazer mobílias e objetos com ossos e peles humanas, inspirando a realização de vários filmes. O livro dá uma atenção especial para o filme “Confissões de Um Necrófilo” (Deranged, 1974), baseado na história real desse assassino.

Finalizando este compêndio precioso, temos um capítulo com os nomes e breves biografias de dezenas de pessoas envolvidas nos vários projetos da extensa franquia: atores, diretores, roteiristas e equipe técnica de produção. Em outro capítulo, temos as fichas técnicas de “Eggshells” e de todos os sete filmes da série.

O Massacre da Serra Elétrica – Arquivos Sangrentos” (The Texas Chain Saw Massacre Companion, 2003)
Autor: Stefan Jaworzyn
Editora “Dark Side” (Rio de Janeiro/RJ). Lançado no Brasil em 2013. Tradução de Antônio Tibau e Dalton Caldas.
“Coleção Dissecando – Filmes Clássicos de Terror”. Formato: 16 x 23 cm. 320 páginas.

(Juvenatrix - 07/09/17)

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Almanaque da Arte Fantástica Brasileira 2016

Está disponível aqui, para leitura e download gratuitos, a lista de lançamentos e relançamentos literários de fantasia, fc e horror no Brasil em 2016, que é um suplemento do blogue Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.
Há alguns meses, publiquei aqui um estudo elaborado como tarefa acadêmica no curso Bacharelado de Ciências e Humanidades da Universidade Federal do ABC, com algumas conclusões estatísticas sobre essa lista. Contudo, como prossigo com a pesquisa dos títulos até mais ou menos o meio do ano, foram acrescentados títulos à relação que serviu de base ao estudo e alguns números foram ligeiramente ampliados, mas não em quantidade que desqualifique as conclusões obtidas nele. Também publiquei aqui, no início deste ano, um artigo comentando os títulos que considero mais relevantes dessa produção. Ambos merecem a leitura de quem tiver interesse pelo assunto, então agora vou apenas comparar os números finais de 2016 com os de 2015, cuja relação também está disponível aqui.
Foi interessante observar que, apesar da crise moral, política e financeira que assola o país, o campo da literatura fantástica brasileira cresceu. Isso não é incomum. Em tempos de crise, a busca pelo gênero fantástico – dito escapista – tende a aumentar. E, desta vez, o fenômeno não ficou restrito às mídias audiovisuais e chegou também aos livros.
No total, foram publicados em 2016, 321 títulos de autores brasileiros, contra 282 em 2015, um crescimento até bastante razoável. A fantasia segue sendo o gênero mais praticado, com a fc em segundo e o horror em terceiro, e os três gêneros apresentaram crescimento em relação a 2015. Na categoria romance, por exemplo, a fantasia subiu de 105 para 142 títulos, a fc foi de 49 para 53, e o horror, de 37 para 43.
No que se refere a ficção traduzida, os números caíram: foram publicados 339 livros em 2016 contra 414 em 2015. Ainda que a fantasia também predomine aqui, sofreu uma redução de 129 para 93 títulos publicados na categoria romance. Também a fc caiu de 140 para 127, e o horror, de 50 para 32, nessa categoria.
Isso leva a crer que a crise está ajudando os autores locais a obterem espaço, embora muito desse crescimento seja enganoso em termos de tiragem absoluta: os livros de autores nacionais continuam a ser muito menos distribuídos que dos estrangeiros e são poucos os que ganham tiragem superior a uma centena de unidades. Por isso, a plataforma virtual tem sido cada vez mais utilizada pelos autores e até algumas editoras.
As ferramentas tecnológicas vieram para ficar, assim como a globalização. Se isso é bom, ainda não é possível saber. É cada vez mais difícil fazer este levantamento devido a miríade de nanoeditoras atuando no mercado. A quantidade de títulos aumenta, mas decerto que o público não inflaciona na mesma medida. E com mais autores disputando o mesmo mercado restrito, favorece-se o seletivismo, que eleva a qualidade a médio prazo. O que não deixa de ser interessante. 

O gigante enterrado, Kazuo Ishiguro

O gigante enterrado (The buried giant), Kazuo Ishiguro. 396 páginas. Tradução de Sonia Moreira. Editora Companhia da Letras, São Paulo, 2015.

Há alguns meses, o fandom mundial de ficção fantástica agitou-se com as polêmicas declarações do escritor nipobritânico Kazuo Ishiguro a propósito do seu romance O gigante enterrado, uma história na tradição arturiana com inúmeros elementos de fantasia heróica medieval, rótulo que o autor fez questão de negar com comentários algo preconceituosos. Importantes autores do gênero reagiram às opiniões de Ishiguro, que moveu uma verdadeira campanha para contornar o mal estar criado pelo debate público. Ficou a suspeita de ter sido uma polêmica deliberada, pois o debate só fez aumentar o interesse pelo livro que a editora Companhia das Letras trouxe ao público brasileiro em 2014, com tradução de Sonia Moreira.
O que causou mais estranheza nas incômodas declarações de Ishiguro foi o fato dele já ter pelo menos um outro bestseller de gênero, a ficção científica Não me abandone jamais (Never let me go), uma história sobre clonagem de seres humanos já adaptada para o cinema. Menos mal, pois o debate ajudou a construir uma ponte, ainda que frágil, entre as muitas definições de fantasia que navegam nos ambientes do fandom e do mainstream.
O tenso bailado entre o mainstream e a ficção de gênero é recorrente não apenas na literatura, mas em todas as mídias. Trata-se do velho choque entre as artes erudita e a popular, que motivou mais de um paladino a propor manifestos e movimentos de resistência cultural, como por exemplo, o Movimento Armorial de Ariano Suassuna. Tanto é que, poucas semanas depois, a conhecida escritora infantojuvenil Ana Maria Machado fez declarações muito similares ao discurso de Ishiguro, com os mesmos resultados dentro do fandom brasileiro.
O gigante enterrado instala-se num momento imediatamente posterior a queda de rei Arthur. Contudo, apesar da ausência do soberano, a paz entre bretões e saxões continua, contrariando todas as expectativas em contrário. Os dois povos seguiam vivendo juntos e misturados, apesar das incontornáveis diferenças passadas que foram o maior problema ao longo do reinado de Arthur.
A história é contada a partir da vida do casal ancião Axl e Beatrice, que decidiu abandonar a comunidade na qual viviam para fazer uma visita ao filho, que morava numa aldeia distante. Mas algo não vai bem. A névoa que predomina a paisagem britânica parece ser a causa do peculiar comportamento das pessoas que, fácil e rapidamente, se esquecem das coisas. Não é diferente com o casal de anciãos, que também tem dificuldade de lembrar de seu passado e até da localização exata da aldeia em que mora o filho. Mesmo assim, lançam-se à aventura e sua jornada vai revelar não apenas a origem da estranha névoa do esquecimento, mas também os motivos que a trouxeram para um mundo à beira de se transformar para sempre. Ao longo do caminho, o casal vai se envolver com os protagonistas da dramática mudança que está por vir: o guerreiro saxão Wistan, cuja missão é matar a perigosa e traiçoeira dragoa Querig, o jovem estigmatizado Edwin, que foi mordido por um filhote de dragão e agora é protegido de Winstan, e um envelhecido Sir Gawain, último remanescente da prestigiosa Távola Redonda, que parece saber muito mais do que dá revelar. Ogros, fadas malignas, bruxas e outros seres mitológicos também vão surgir no longo e duro caminho de Axl e Beatrice. Apesar da evidente fragilidade física dos protagonistas, a história tem muita ação e violência, com uma conclusão dramática cheia de significados que certamente mudam conforme a percepção do leitor.
Japonês de nascimento, Ishiguro cresceu e foi educado na Inglaterra, para onde se mudou aos cinco anos de idade; sua literatura está, portanto, classificada como de língua inglesa. Contudo, podemos perceber influências da cultura japonesa em alguns momentos de O gigante enterrado, sobretudo nos duelos de espada, muito similares aos das histórias de samurais, nos quais tudo se resolve num único golpe.
Não há dúvida que O gigante enterrado é diferenciado do modelo de fantasia heroica que os leitores de nicho estão acostumados, não apenas pelo fato dos protagonistas serem idosos em contraposição aos adolescentes imberbes que infestam o gênero, mas por um conjunto de detalhes que vão de um estilo literário algo mais sofisticado, dos mecanismos narrativos, dos temas propostos à discussão e do final aberto e nada redentor. E, ainda que se possa perceber um pouco da famigerada "jornada do herói" no enredo, o autor o subverte em vários momentos, o que certamente o diferencia, mas não o suficiente para descaracterizá-lo como um romance de gênero como desejava o autor.
O gigante enterrado é uma leitura inteligente e acessível, embora um tanto perturbadora quanto as expectativas à fantasia heroica; é preciso estar disposto a rever alguns dos conceitos do gênero; um romance para o leitor que gosta de ser desafiado, portanto.

sábado, 26 de agosto de 2017

El Caminante (The Traveller, Espanha, 1979)


O espanhol Paul Naschy (1934 / 2009) é um dos grandes nomes do cinema de horror bagaceiro europeu, com uma carreira imensa como ator, roteirista e diretor. “El Caminante” (1979, também conhecido pelo título em inglês “The Traveller”) é mais uma pérola obscura de seu produtivo currículo, dirigindo e escrevendo a história sob o pseudônimo Jacinto Molina, além de atuar liderando o elenco repleto de belíssimas mulheres em várias cenas de nudez.
Ele interpreta Leonardo, um viajante que caminha sem destino, enfatizando um discurso que defende a ideia que a humanidade é uma raça corrompida de natureza ruim e mesquinha. E que a religião, os escrúpulos e a consciência são bobagens para fracassados. Segundo ele, a vida apenas vale a pena com dinheiro e prazer, e que para obtê-los não se deve medir esforços, sendo permitido matar se necessário, e até vender a alma ao diabo.
O andarilho encontra em seu caminho e resgata o jovem Tomás (David Rocha), que era um servo maltratado por seu mestre, um velho cego. A partir daí, eles andam juntos e Leonardo decide mostrar como eles poderiam melhorar de vida rapidamente enganando e roubando as pessoas que cruzassem seu caminho. Para ele, soberba, malícia, ira, gula, inveja e preguiça são características humanas que facilmente condenam uma alma ao diabo. Debochando o tempo todo da honestidade e da religião, ele é o próprio demônio caminhando na Terra, se divertindo com os homens fracos que matam, roubam, fraudam, invejam e odeiam, terminando sempre nas mãos do diabo.
Entre as peripécias do obscuro caminhante, com a eventual ajuda do jovem aprendiz, temos vários momentos onde enganam e roubam tanto ricos como pobres, se escondem num convento, assumem identidades falsas de religiosos, se aproveitam das freiras, e se envolvem com prostitutas de um bordel. Entre as vítimas, uma mãe deprimida e com tendências suicidas depois que é enganada pelo viajante na tentativa de salvar sua filha doente. Porém, a ganância e falta de caráter os coloca inevitavelmente um contra o outro, tornando-se inimigos, numa reviravolta que apenas valida a ideologia de uma humanidade caracterizada essencialmente pela desonestidade.
“El Caminante” é um passeio do diabo na forma humana pela Terra, com uma história interessante e divertida, focada na crítica social denunciando a natureza pervertida da humanidade. Com elementos de humor negro impagáveis como a freira obesa que está sempre dormindo e soltando gases, ou as conversas hilárias entre Leonardo e Tomás sobre um incidente no bordel onde o mais jovem foi vítima de uma conspiração do experiente andarilho.
Curiosamente, Leonardo utiliza seu poder sobrenatural com o intuito de mostrar para Tomás em imagens de pesadelos, o futuro da humanidade numa sucessão de cenas perturbadoras e depressivas de guerras, mortes em campos de concentração e destruição com bombas atômicas.
(Juvenatrix – 26/08/17)

domingo, 20 de agosto de 2017

Graça infinita

Graça infinita (Infinite jest), David Foster Wallace. Tradução de Caetano W. Galindo. 1136 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

Leitores de ficção científica são muito desconfiados. Traumatizados por décadas de críticas nada favoráveis a suas histórias preferidas, aprenderam a desconfiar de toda e qualquer opinião, especialmente quando vem do mainstream e ainda mais quando é unânime. Os leitores de fc têm na ponta da língua uma ampla coleção de frases feitas usadas pelos críticos, entre as quais se destaca a máxima "Se é bom, certamente não é ficção científica". O trauma é tão intenso que, quando a crítica é favorável, a desconfiança é ainda maior. Porque, afinal, quem nunca entendeu absolutamente nada de fc certamente deve estar enganado. Fica valendo outro velho jargão: "Não li e não gostei" e o preconceito pela crítica acaba por tornar os fãs de fc igualmente preconceituosos. Deve ser por isso que Graça infinita, obra monumental do escritor novaiorquino David Foster Wallace (1962-2008) extremamente bem avaliada pela crítica, não despertou entusiasmo no meio dos fãs de fc quando de sua publicação no Brasil, ainda em 2014 pela Editora Companhia das Letras. O que é uma enorme e inaceitável injustiça porque, neste caso, as boas palavras da crítica em relação ao livro estão cobertas de razão. E o livro é mesmo ficção científica sem nenhuma sombra de dúvida. Mais do que isso: é muito provável que seja o melhor livro de fc já escrito. Mas aí já é o meu entusiasmo pessoal falando.
Graça infinita é um romance massivo de cerca de 600 mil palavras, publicado originalmente em 1996 nos EUA, considerado pela crítica americana como o último grande romance do século 20. Em termos de extensão, não é nenhuma novidade. Há dezenas de livros que têm essa dimensão e alguns são até maiores. Portanto, não é o tamanho do livro que conta aqui, embora ele seja ótimo também por isso. O que torna Graça infinita memorável é que se trata de uma literatura de alta octanagem, repleta de todo tipo de gadgets que a literatura pós-moderna já ousou aproveitar: citações, experiências formais, discursos descontrutivistas, solilóquios em fluxo de pensamento, linguagem não convencional, sexo, drogas, rock'n'roll e violência próprias da cultura popular deste início de século. Mas não só isso.
Há uma história em Graça infinita. Só não dá para saber com muita certeza quem é o protagonista porque a narrativa é de tal forma fragmentada e são tantos os personagens que algumas vezes parece que estamos lendo, de fato, uma coletânea de contos decapitados, passados todos no mesmo universo. Digo decapitados porque a maior parte dessas histórias não tem início e muitas delas também não têm fim.
De forma geral, o livro acompanha a vida dos três irmãos da família Incandenza: Orin, Hal e Mario. Orin, o mais velho, é  atleta profissional, jogador de futebol americano com sérios problemas para dormir. Hal é um gênio viciado em maconha que estuda no ATE, colégio voltado à formação de jogadores de tênis de alto desempenho; e o caçula, Mario, é um adolescente mentalmente deficiente e com um defeito congênito (sua cabeça é desproporcional ao corpo). O pai, James Incandenza – chamado pelos filhos de "Sipróprio" –, também ele um gênio da tecnologia ótica, fundador do ETA e cineasta experimental com uma extensa filmografia, suicidou-se alguns anos antes, mas sua herança maldita ecoa fortemente na vida dos filhos e da esposa, que os meninos chamam de "Mães". A família Incandenza vive em Boston, num futuro impreciso no qual a contagem dos anos é patrocinada por grandes corporações (no caso, estamos em AFGD que, por extenso, significa Ano da Fralda Geriátrica Depend) e os países da América do Norte foram politicamente unificados na Organização das Nações da América do Norte – Onan, para os íntimos – que passa por uma situação de instabilidade política com diversas comunidades terroristas lutando pela separação, como os violentos grupos canadenses Assassinos Cadeirantes e Frente de Libertação de Quebec, entre outros. Os grupos disputam a posse de uma arma chamada por eles de O Entretenimento, que nada mais é que uma das diversas versões de Graça infinita, filme produzido por James Incandenza que tem um nível de mesmerização tão potente que leva seus expectadores à morte. Cópias remetidas anonimamente já causaram baixas em cargos importantes do governo e uma exibição em rede do filme – essa sociedade futura é tão viciada em audiovisuais quanto a nossa – pode ser o ato que permitirá resultados efetivos na luta separatista. A curiosa apresentação gráfica do livro, que não tem nada escrito em sua capa, remete justamente ao cartucho de O Entretenimento.
Wallace elabora o cenário desse futuro com uma riqueza de detalhes que beira a de uma enciclopédia e torna o improvável extremamente convincente. Para coroar o capricho do autor, o livro contém um caderno de mais de 130 páginas, em corpo reduzido, com notas tão bem elaboradas que são peças literárias em si, como por exemplo o verbete que detalha a filmografia de James Incandenza, divertidíssima para quem aprecia boa ficção científica.
A obra de Wallace – que se suicidou em 2008 – dialoga com as de outros dois autores associados à literatura pós-moderna: Thomas Pynchon e China Miéville, que também trafegam pela ficção científica e o experimentalismo formal. A diferença entre eles é que Graça Infinita não é uma obra hermética e cifrada. Apesar das ousadas propostas formais e estilísticas, o texto é claro e acessível, focado em dramas explicitamente humanos: não é necessário ser um iniciado em fc ou em literatura pós-moderna para entender o que o autor diz. Talvez seja isso que tenha deixado os fãs de fc tão aborrecidos... azar deles.
Cesar Silva