domingo, 17 de fevereiro de 2019

Nova era, Chris Weitz

Mundo novo 3: Nova era (The revival), Chris Weitz. 216 páginas. Tradução de Álvaro Hattnher. Editora Companhia das Letras, Selo Seguinte. São Paulo, 2016.

Com este livro, originalmente publicado em 2016 nos EUA, chega ao fim a saga da tribo de adolescentes novaiorquinos que sobreviveu ao apocalipse depois que um vírus altamente agressivo dizimou toda a população adulta na América.
Nos volumes anteriores, Mundo novo (2014) e Nova ordem (2015), vimos como Jefferson, Donna, Petter, Crânio e seus amigos tentam, a todo custo, encontrar uma cura para a praga antes que todos cheguem a idade fatal. Para isso, abandonaram a segurança de sua aldeia protegida por barricadas e algumas armas, e lançaram-se numa jornada de esperança pela Nova York devastada e ocupada por adolescentes violentos, psicopatas, antropófagos, escravagistas e outros tipos igualmente perigosos. A cura foi enfim encontrada, mas ela era apenas o começo do verdadeiro problema que se desenrolava em outras partes do mundo. Na Europa e na Ásia, uma vacina foi produzida e os adultos sobreviveram, bem como toda a parafernália tecnológica a qual estamos acostumados. Mas o desaparecimento dos EUA no cenário mundial causou grandes mudanças no equilíbrio político do mundo e agora todos querem dominar o que sobrou de útil na América, o que significa "arsenal nuclear". A ideia dos governos estrangeiros, especialmente a Inglaterra, é esperar que todos morram na América para então agir com mais liberdade e segurança. Mas a cura de Jefferson os obriga a acelerar seus planos, ainda mais porque há grupos dissidentes que não querem que a nova ordem mundial seja construída sobre uma hegemonia britânica. Um desses grupos, conhecido como Reconstrução, se alia aos garotos na cruzada para salvar o que restou da América. Mas, enfim, as coisas não eram exatamente o que pareciam.
Neste terceiro e último volume, Jefferson e seus companheiros têm de lutar mais um pouco para salvar seus amigos. De volta a Nova York, o plano de Jefferson de unir as gangues em torno da cura fracassou. Traído pela Reconstrução, a "Bola de futebol" e o "Biscoito", os dispositivos de lançamento de mísseis nucleares encontrados no prédio da ONU onde haviam sido abandonados no auge da crise, acabam nas mãos da tribo de Uptown, um grupo belicoso e muito bem armado liderado por um psicopata chamado Evan. Caçado pelos garotos de Uptown, Jefferrson tem de fugir e encontrar algum apoio, e ele vem na pessoa de Donna que, finalmente, retorna à Nova York acompanhada de um comando militar britânico altamente equipado cuja missão é resgatar os dois equipamentos que estão com Evan. A chama do amor entre Jeff e Donna foi severamente afetada pelos eventos do volume anterior. Ainda há uma fagulha, mas nada pode prosperar enquanto o mundo estiver a beira do desastre nuclear total. Contudo, não é uma opção permitir que os dispositivos caiam nas mãos dos britânicos, nem os russos ou dos chineses, que também enviaram tropas para a ilha com o mesmo fim. A esperança repousa na tribo do Harlen, que Jefferson traiu no passado, e o reencontro entre eles pode ser imprevisível.
Weitz, que tem experiência como roteirista e diretor de cinema, desenvolve sua trama através de depoimentos e registros pessoais de personagens-chaves, de modo que, apesar na narrativa ser linear, o leitor obtém uma visão tridimensional do ambiente e das relações entre os diversos núcleos narrativos. O autor tem grande habilidade em modular as vozes dos personagens, mas a produção gráfica ajuda dando a cada um deles uma tipografia diferente, que combina com sua psicologia. E Weitz fez questão de dar personalidade variada a eles, adotando uma linha inclusiva que privilegia minorias e as trata com dignidade. Por exemplo, Petter, que é negro e homossexual, finalmente ganha neste volume seu próprio núcleo narrativo.
Também percebe-se que Weitz se esforçou por atualizar o ambiente, referindo-se a fatos e personalidades mais recentes, como Donald Trump, o Estado Islâmico, por exemplo, que não chegaram a ser citados nos volumes anteriores. Para uma leitura atual, por certo que tais citações acrescentam realismo, mas são elementos datados que podem envelhecer com o passar dos anos.
Apesar de toda a violência, Nova era é um livro para leitores jovens, de leitura fácil e sem grandes complexidades filosóficas, a não ser nas entrelinhas, pois o ambiente permite insights mais sofisticados aqui e ali.
Em toda grande história, vale mais a jornada do que a chegada, e não é diferente com a trilogia de Chris Weitz. Se é preciso um final, então que seja. Por mim, eu estaria muito disposto a seguir acompanhando as desventuras de Jeff e os sobreviventes de sua tribo nesse mundo desfigurado pela peste. Quem sabe, talvez não tenha sido mesmo o The end definitivo.
Cesar Silva

sábado, 2 de fevereiro de 2019

O Mundo Perdido


O Mundo Perdido (The Lost World), Arthur Conan Doyle. Capa de Antonio Jeremias. Tradução de Luiz Horácio da Matta. 238 páginas. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, Coleção Mundos da Ficção Científica, no. 28. Original de 1912 e edição brasileira de 1982.

Mais conhecido e aclamado pelos contos e romances em torno do personagem Sherlock Holmes é certamente uma injustiça que os demais textos de Arthur Conan Doyle (1859-1930) tenham sido relegados a um segundo plano. Resultado de uma crítica elitista, pois podemos afirmar que pelo menos um de seus romances sempre foi muito popular e influente, O Mundo Perdido (The Lost World).
Esta aceitação foi imediata quando em 1912 a história foi publicada em partes na revista britânica Strand Magazine, e logo a seguir como livro próprio. O autor tinha plena ciência do perfil dos seus leitores, pois afirma antes de iniciá-la: “Terei realizado meu plano simples se der uma hora de prazer ao menino que é meio homem ou ao homem que é meio menino.” Sem nenhum demérito foi um livro escrito para entreter, em alto nível de aventura e especulação, a imaginação de leitores comuns, e não críticos e literatos nem sempre tão abertos a uma narrativa que prioriza a ação e o suspense. Mas Conan Doyle não produziu apenas bom entretenimento – o que já não seria pouco – mas um bom romance que equilibra de forma admirável rigor científico e a sensação do maravilhoso. Passa uma sensação de que ser cientista é uma das atividades humanas mais excitantes, misturando pesquisa com aventuras por terras incógnitas, onde a descoberta traz, além da satisfação pessoal e contribuição ao conhecimento, um prestígio que poucas profissões são capazes de oferecer.
O Mundo Perdido foi escrito no início do século XX período no qual o tema de mundos e civilizações perdidas estava na ordem do dia. Na verdade um pouco mais de tempo, já que, pelo menos, desde a segunda metade do século XIX a literatura popular havia produzido algumas histórias marcantes. Exemplos, entre outros, Viagem ao Centro da Terra (Voyage au Centre de la Terre, 1864) de Julio Verne (1828-1905), O Povo da Névoa (The People of the Mist, 1884), de H. Rider Haggard (1856-1925), A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau, 1896), de H.G. Wells (1866-1946), Tarzan, o Filho das Selvas (Tarzan fo the Apes, 1912), de Edgar Rice Burroughs (1875-1950), e os brasileiros A Amazônia Misteriosa (1925), de Gastão Cruls (1988-1959), e República 3000 (1930), de Menotti del Picchia (1892-1988), dois clássicos da nossa FC que nada ficam a dever às histórias estrangeiras. Todas tratam, em linhas gerais, de povos e mundos perdidos, esquecidos mas que, surpreendentemente, são redescobertos, com efeitos espantosos para os personagens e, principalmente, os leitores.
A contribuição específica de Conan Doyle para o que se tornou mesmo um subgênero da ficção científica é o achado de um platô escondido na selva amazônica que revela que os dinossauros não foram extintos por completo. A elevação, inspirada no Monte Roraima, teria ficado isolada por milhões de anos, mantendo uma autonomia ecológica responsável pela sobrevivência dos dinossauros. Além disso, neste lugar insuspeito também convivem duas sociedades humanoides, uma mais próxima de ancestrais evolutivos humanos e outra plenamente humana, indígena. Talvez um leitor mais exigente possa torcer o nariz, e mesmo na época já se sabia que os humanos nunca haviam convivido com animais do período jurássico. De qualquer modo, na história os personagens especulam que os mamíferos humanoides vieram de fora deste mundo perdido, indo lá habitar com os saurópodes e terópodes de eras imemoriais.
O enredo acompanha a expedição liderada pelo professor George Challenger. Depois de uma primeira missão à Amazônia ele volta à Londres, mas sem ter provas concretas do que encontrou, é ridicularizado pela comunidade científica. Desafiado num congresso acadêmico, Challenger propõe uma nova expedição, que teria como participante o professor Summerlee, seu grande detrator. A eles se juntam o aventureiro Lorde John Roxton, e o jornalista Ed Malone. Assim, eles partem em direção à selva amazônica.
O personagem principal é o professor Challenger, mas o condutor da narrativa é Ed Malone, pois a história é contada em primeira pessoa por ele, relatando os acontecimentos em missivas enviadas ao Dayle Gazette, o jornal em que trabalha. Chama a atenção de que a expedição procura confirmar o que já foi descoberto. Ou seja, não há um suspense sobre o que poderá vir. Mas sim da extensão do que virá pela frente. Isso me soou meio estranho e com certa expectativa desfeita sobre o potencial da aventura. Mas a forma como Conan Doyle a narra evitou plenamente algum sentimento de decepção. O texto é repleto de situações de perigo e desafio para os expedicionários, que têm suas vidas colocadas em risco quase que a cada página. Muito estimulante também é a força descritiva da selva amazônica em si, os rios enormes e caudalosos, a floresta fechada, os animais que a todo o momento surgem. Mesmo com algumas imprecisões geográficas perfeitamente compreensíveis, está quase na plenitude a exposição de uma selva indomável, misteriosa e cheia de surpresas. Tal como é a maior floresta da Terra e tudo aquilo que ela sempre suscitou na curiosidade científica ou na especulação artística ou crença sobrenatural.
Após chegaram ao platô nossos heróis são sabotados por um dos membros da equipe de apoio que corta a ponte que ligava o penhasco ao platô. Uma vingança contra Lorde Roxton que teria matado seu irmão numa expedição anterior. Agora eles estavam sem ter como descer, com poucas provisões e à mercê de descobertas ao mesmo tempo incríveis e arriscadas. O único apoio que passaram a ter foi a presença de Zambo, um dos empregados que ficou na superfície.
Mas é quando ficam efetivamente isolados que eles descobrem o tal mundo perdido: plantas exóticas, pequenos animais nunca vistos e o mais espantoso: espécies de répteis que deveriam estar extintos há dezenas de milhões de anos. Estegossauros, pterodáptilos, plessiossaurus e os terópodes carnívoros. Curiosamente, o Tiranossaurus Rex não é nomeado, mas supõe-se que se refira a ele, tal o seu tamanho e agressividade.
O romance se situa também no espírito do seu tempo com relação à posição do homem branco ocidental com os outros da selva amazônica, os negros e os mestiços. Sem surpresa os ingleses são mostrados como mais civilizados e inteligentes, superiores aos povos que os servem, retratados em mais de uma ocasião como inferiores e devotados à servir os súditos da rainha. Mas não há um racismo explícito, apenas a constatação de como o povo europeu, inglês em especial, se sentia e relacionava com culturas e comunidades ao redor de um mundo que, em boa parte, havia sido invadido por ele.
Podemos afirmar que a era da ficção científica espacial teve início a partir dos anos 1930, se desenvolvendo plenamente a partir da Golden Age dos anos 1940, estabelecendo mesmo um futuro de consenso, de que a nova e última fronteira estava no espaço sideral. Como apontado acima, a época em que O Mundo Perdido foi escrito o limite do desconhecido a ser desbravado ainda estava situado em nosso próprio planeta. Havia mesmo uma crença popular, embora não levada muito a sério pela comunidade científica, de que em regiões ainda inexploradas do planeta pudesse haver espécimes que sobreviveram às transformações geológicas e biológicas. Além disso, indo um pouco mais longe na imaginação, com a chance de haver alguma civilização perdida, apartada da história convencional. Tais histórias se filiam numa corrente da FC conhecida como romance planetário, embora possamos encontrar histórias deste tipo também situadas em outros planetas. Neste contexto, como já dito, O Mundo Perdido foi publicado, mas embora não tenha sido uma obra pioneira, mantém-se como uma das mais influentes para o gênero e a cultura popular ainda hoje.
Prova disso é que já em 1925 foi produzida a primeira versão para o cinema, ainda mudo. Irwin Allen (1916-1991) produziria o filme mais conhecido em 1960, estrelado por Claude Rains (1889-1967), Michael Rennie (1909-1971) e David Hedison, mais conhecido como o Capitão Lee Crane da série Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea, 1964-1968). No Reino Unido ocorreram duas dramatizações radiofônicas, em 1938 e 1944 e, mais recentemente, entre 1999 e 2002 foi ao ar pela TNT uma série de TV, com três temporadas. Antes disso Land of the Lost foi produzida pela NBC, entre 1974 e 1976. Chamada no Brasil de Elo Perdido foi livremente inspirada na obra de Conan Doyle e muito exibida no país, durante os anos 1980 e 1990. Aqui as aventuras na Amazônia de outra era são vividas por um pai, seus filhos e um cachorro.
Em termos editoriais O Mundo Perdido tem recebido diversas edições em língua portuguesa. A primeira brasileira saiu pela Cia. Editora Nacional, em 1958 e a mais recente em 2018, num volume caprichado da Editora Todavia. Afora estas duas, mais a edição da Francisco Alves Editora em que me baseei para escrever esta resenha – aliás,  com a mais bela capa de todas as que pude ver em pesquisa na internet –, mais quatro saíram no Brasil. Sete no total, portanto. Por sinal o mesmo número de edições vistas em Portugal, a mais recente pela Publicações Europa-América, em 2003. São, simplesmente, 14 edições diferentes da mesma obra!
Já conhecia O Mundo Perdido através do filme de Irwin Allen, que vi diversas vezes numa época em que a “Sessão da Tarde” da Rede Globo exibia várias produções de FC. Talvez por isso, resisti em ler o livro, pois achava que como já conhecia a história não haveria grandes atrativos. Como quase sempre acontece com bons livros, felizmente me equivoquei, pois o romance de Arthur Conan Doyle é muito mais interessante, por apresentar personagens críveis e carismáticos, uma descrição competente da floresta e do mundo perdido, além do equilíbrio virtuoso entre o conhecimento da época e uma especulação destemida, como a que deve ser realizada pela melhor ficção científica.

– Marcello Simão Branco

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Almanaque Entrevista



Nelson de Oliveira fala sobre o livro Fractais Tropicais e a ficção científica brasileira

por Marcello Simão Branco


Já pelo final de 2018 foi lançada a antologia de contos Fractais Tropicais: O Melhor da Ficção Científica Brasileira, pela Sesi-SP Editora, com organização de Nelson de Oliveira. Não é um volume de contos qualquer, pois reúne 30 contos dos mais representativos da história da ficção científica brasileira. Além disso, pela primeira vez, um livro publica autores das três ondas históricas do gênero no país, tornando-se, desde já, uma referência indispensável para quem quer conhecer e pesquisar sobre a ficção científica brasileira.
O responsável pelo projeto é Nelson de Oliveira (e seu pseudônimo Luiz Bras), um autor com carreira prévia consolidada no mainstream, que tem sido um dos mais atuantes e provocadores nomes do gênero no país neste século XXI, na condição de crítico, blogueiro, editor, antologista e escritor. Escolhido “Personalidade do Ano de 2010” pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, já inclui, ao menos um livro seminal em nossa FC, a coletânea Paraíso Líquido (Editora Terracota, 2010). Na entrevista a seguir ele fala sobre os detalhes da edição da antologia, da condição favorável da ficção científica brasileira atual e suas perspectivas, de seu fascínio pelo gênero, e de uma nova antologia já em gestação que abordará, na mesma perspectiva de Fractais Tropicais, o fantástico brasileiro.

“Fractais Tropicais” é a mais abrangente antologia de ficção científica brasileira já organizada, pois reúne contos das três ondas do gênero. Nos fale da ideia do projeto e o que espera com ele.



A antologia nasceu de minha paixão pela ficção científica brasileira e do desejo de contaminar outros leitores com o vírus dessa paixão. O volume ficou mais abrangente porque tive a sorte de encontrar na equipe da Sesi-SP Editora a parceira ideal. Quando apresentei a ideia, eram apenas quinze autores. Quem propôs fazermos uma antologia mais ampla foi o pessoal da editora. A ficção científica brasileira está voltando a viver um ótimo momento. Eu realmente gostaria que o leitor brasileiro começasse a prestigiar mais os autores brasucas de FC. Espero que essa antologia desperte o interesse principalmente dos jovens leitores que até pouco tempo atrás nem sabiam que nós também escrevemos e publicamos ótima ficção científica. Gostaria que Fractais Tropicais se tornasse um best-seller e abrisse caminho pra outras antologias, provando que nossa FC também pode ser um empreendimento comercialmente viável.

A divisão dos contos por ondas em “Fractais Tropicais” é um tanto quanto desigual. Por que alguns autores importantes da segunda onda (como Henrique Flory, Roberto Schima, Simone Saueressig, José dos Santos Fernandes) e, sobretudo, da primeira onda (Levy Menezes, Nilson Martelo, Domingos Carvalho da Silva) ficaram de fora?

A historiografia da ficção científica brasileira é longa. Já passou quase um século e meio desde que O Doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar, foi publicado, em 1875. Não daria pra fazer justiça a essa historiografia apenas com uma antologia de trinta autores. Seriam precisos mais um ou dois volumes. Minha proposta aos leitores é que Fractais Tropicais seja considerada junto com “Os melhores contos brasileiros de ficção científica”, Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras e As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica, antologias organizadas por Roberto de Sousa Causo para a editora Devir, e Páginas do Futuro, antologia organizada por Braulio Tavares para a editora Casa da Palavra. Tanto a pesquisa historiográfica quanto a produção literária desses dois autores-organizadores me inspiraram bastante, durante a elaboração da Fractais Tropicais. Gosto de pensar que todas as antologias disponíveis somam forças, em vez de competirem entre si. Todas convergem em nome de uma causa comum.

O livro tem recebido uma boa divulgação, com resenhas nos dois principais jornais de São Paulo, algo raro em se tratando de FC brasileira, se é que já ocorreu. Você atribui isso ao fato da antologia ter sido organizada por você – um autor e antologista de prestígio – ou também porque, aos poucos, podemos dizer que a FCB está saindo de sua invisibilidade, com mais reconhecimento junto ao mainstream literário e o jornalismo cultural?

Podemos afirmar, com segurança, que a ficção científica brasileira está saindo de sua proverbial invisibilidade. A boa recepção da antologia, pela grande imprensa, talvez seja o coroamento de uma equação virtuosa envolvendo muitas variáveis. Quando a Netflix estreou a primeira temporada da série 3% (2015) eu percebi que a ficção científica brasileira estava começando a viver outro ótimo momento. Mas eu sinto que a FC brasuca precisa chegar às camadas mais altas do mercado editorial e conquistar as grandes instâncias legitimadoras: os prêmios e as feiras importantes, as grandes editoras, o prestígio acadêmico. Ainda estamos longe do cenário que eu considero o cenário ideal para os livros de FCB. Ainda não vi, por exemplo, a reedição de dois dos melhores romances do último quartel do século 20: Piscina Livre e Amorquia, de André Carneiro. Ainda não vi obras de FCB vencendo os principais prêmios literários: Jabuti, Oceanos, São Paulo, Biblioteca Nacional. Ainda não vi os autores de FCB participando dos principais eventos cult: Flip, Jornada Nacional de Passo Fundo, Flima, Flipoços, Flop. Ainda não vi os autores de FCB participando do Conversa com Bial ou protagonizando uma matéria do Fantástico.

Gostaria que você explicasse um pouco qual foi o critério de escolha dos contos selecionados. Foi sua preferência como organizador, ou foi levando em conta também o interesse do autor selecionado? Isso porque, em minha opinião, contos muito bons de alguns autores ficaram de fora. Procurou-se levar em conta também a diversidade temática ou textos mais recentes, talvez no intuito de divulgar o que certos autores vêm escrevendo?

O critério de escolha obedeceu a uma diretriz histórica (a divisão em três ondas) e uma diretriz puramente afetiva (meu autores e ficções prediletos). É por isso que a Primeira Onda tem menos textos do que a Segunda e a Terceira. Confesso que eu respeito, mas não sou muito fã da obra dos pioneiros de nossa ficção científica. Aprecio bastante os livros do André Carneiro, e um ou outro conto da Dinah Silveira de Queiroz, do Fausto Cunha, do Jeronymo Monteiro e do Rubens Teixeira Scavone. Mas gosto muito mais dos livros dos ficcionistas contemporâneos. Outro detalhe importante: tendo em vista a convergência de antologias, eu preferi não repetir contos já incluídos nas antologias do Causo e do Braulio. A exceção foi o conto do Ademir Assunção, porque esse autor do mainstream até hoje só escreveu um conto de ficção científica. O conto “Quinze Minutos”, do Ademir, também aparece na antologia Páginas do Futuro.

Fractais Tropicais é importante também pela grande representatividade de temas que apresenta, mostrando que a FCB já abordou quase todos os temas importantes do gênero. Contudo, chamou a atenção a ausência de dois temas: histórias de fim do mundo e de histórias alternativas, sendo que há ótimos contos sobre ambos os assuntos. Alguma razão para isso?

Podemos classificar essas ausências na categoria “contingência inevitável”. Foram contemplados catorze subgêneros da ficção científica. Mas a antologia teria resultado mais didática se realmente todos os ramos da FC tivessem sido contemplados com um conto. O problema é que existem muito mais de trinta ramos e eu não consegui evitar repetições. Por exemplo, um dos ramos mais importantes do momento, ausente da Fractais Tropicais, é o afrofuturismo. Também faltaram: império galáctico e mundo perdido. Prometo incluir esses subgêneros numa próxima antologia.

Ao final do livro, no texto “Sobre o Organizador” é informado que Luiz Bras deverá organizar uma antologia equivalente sobre o fantástico no Brasil. Como está o projeto? Terá o mesmo recorte histórico e temático mostrado em Fractais Tropicais?

A ideia é essa mesmo: reunir trinta dos melhores contos de nossa ficção fantástica, de autores modernos e contemporâneos. De um lado: André Carneiro, Aníbal Machado, Edla van Steen, Jamil Snege, José J. Veiga, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Murilo Rubião, Rosário Fusco, Victor Giudice… Do outro: Alex Xavier, Carlos Emílio Corrêa Lima, Fábio Fernandes, Flávio Moreira da Costa, Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Carlos Regina, João Paulo Parisio, Lygia Bojunga, Maria Helena Bandeira, Modesto Carone, Paulo Sandrini, Romy Schinzare, Santiago Santos, Veronica Stigger… Ainda estou lendo e selecionando os contos. É importante lembrar que, no excêntrico mundo de Luiz Bras & Nelson de Oliveira, a ficção fantástica − às vezes chamada, na América Latina, de “realismo mágico” − é diferente da ficção sobrenatural, geralmente sobre feiticeiros, vampiros, lobisomens, fantasmas, zumbis etc. Pra maiores explicações sobre minha definição particular de ficção científica, ficção fantástica e ficção sobrenatural, eu recomendo a leitura do manifesto “Convite à Convergência”, publicado recentemente no jornal Rascunho. Num de seus parágrafos o autor escreve:

§

O que mais me agrada na ficção fantástica e na ficção científica é a subversão das leis da natureza.
Num conto ou num romance, adoro quando a causalidade, a força da gravidade, a biologia, a geologia, a atmosfera, enfim, o tempo, o movimento planetário, os minerais, as plantas e os animais, as pessoas e as estações do ano passam a funcionar de maneira diferente da nossa familiar realidade.
Isso acontece também na ficção sobrenatural.
Na ficção sobrenatural, as pessoas se metamorfoseiam, ficam invisíveis, interagem com os mortos, trocam de corpo, viajam no tempo ou enfrentam criaturas impossíveis por meio de feitiços, maldições e encantamentos, ou seja, graças à magia.
Na ficção científica, as pessoas fazem as mesmas coisas por meio da engenharia genética, da mecânica quântica, da inteligência artificial etc., ou seja, graças à ciência e à tecnologia.
Na ficção fantástica, ao contrário, as pessoas fazem as mesmas coisas extraordinárias graças a nada e ninguém. Não há feitiços ou máquinas, feiticeiros ou cientistas, por trás dos fenômenos insólitos. Apenas as leis da natureza são diferentes.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Teorema das Letras


O Teorema das Letras, André Carneiro. Capa: Claudio Takita. Posfácio de Ramiro Giroldo. 166 páginas. São Paulo: Devir, Coleção Pulsar, 2016.

Este é o quinto livro de contos publicado pelo autor, o único de forma póstuma, já que ele faleceu em novembro de 2014.
Assim, a coletânea reúne a parte final dos seus escritos em prosa, o que mostra a vitalidade e longevidade de sua criação literária, iniciada em 1949 com o volume de poesias Ângulo e Face. Também em termos de ficção científica é o autor brasileiro que escreveu por mais tempo, já que seu primeiro livro do gênero, a coletânea Diário da Nave Perdida, é de 1963.
Mas O Teorema das Letras é mais do que o encerramento de uma carreira longa e reconhecida no campo da FC – no Brasil e no exterior –, e na poesia. Suas cinco histórias exploram de forma arrojada, surpreendente e mesmo incômoda questões relativas à sempre problemática condição humana: sua solidão, dificuldade de conexão com o outro, necessidade de expressar a liberdade como forma de afirmação de uma humanidade mais autêntica. Ainda mais se confrontada com súbitas e desnorteadoras mudanças sociais a partir de inovações tecnológicas ou a partir de regimes políticos não democráticos. Esta última questão particularmente aguda na vida de Carneiro, um libertário humanista em meio a uma sociedade tão conservadora como a brasileira.
Como bem observa Ramiro Giroldo no posfácio, O Teorema das Letras segue a tendência de seu livro anterior, a enorme coletânea de 27 contos Confissões do Inexplicável (2007), “com contos onde se intensificam a indefinição entre o real e o imaginário e a incerteza quanto ao narrado. A narrativa pode se reconstruir e se fazer outra de um momento a outro, abalando a certeza que a mera observação dos fatos possa levar à compreensão deles – os próprios sentidos a decodificar o mundo ao redor são indignos de confiança (...) estamos em um terreno de incertezas e paradoxos.”
Que fique claro, portanto, de que não estamos diante de uma prosa que prime pela convencionalidade e respostas facilitadas para o leitor. Quem conhece André Carneiro de outras obras já parte deste princípio, mas mesmo assim ele não deixa de soar algo insólito nas nuances que vão se insinuando a cada frase de seus contos. Assim, exige-se do leitor uma postura aberta ao novo e improvável, uma expectativa de estranhamento sempre à postos. Mas longe de tornar a leitura difícil é um estímulo, um desafio intelectual frente às situações incertas e ambíguas apresentadas, muitas vezes, em cada história.
Os dois primeiros contos “Alice e Roberval” e “Zinska” são os menores e servem como uma espécie de prólogo a esta complexidade temática que se assume como mais desenvolta nas três noveletas posteriores.
“Alice e Roberval” mostra um futuro em que é possível fazer predições sobre o futuro através dos cálculos de um computador. Mas ao contrário da psicohistória de Isaac Asimov (1920-1992), vista em sua série Fundação, em que a estatística está a serviço de predizer o comportamento coletivo de grandes populações, aqui se antevê o que poderá acontecer com a vida individual do consulente. É como se a matemática desnaturalizasse o esoterismo místico ao racionalizar o porvir, das dúvidas e ansiedades no rumo de sociedades ou na vida de pessoas.
Em “Zinska” temos a mesma toada da materialização tecnológica a tentar responder necessidades humanas. Estamos diante da construção de uma androide com capacidades telepáticas e seu relacionamento com os cientistas da empresa onde foi criada. Neste ambiente supostamente racional e asséptico se sobressai a inveja, a intriga e o ciúme em torno de Zinska e de liderança na empresa. No limite, homens lutando por atenção sexual e disputa de poder. Nada mais primevo, e humano.
A noveleta seguinte é a mais desconcertante do livro. “From Veronika Volpato” apresenta uma narrativa misteriosa sobre um casal que recebe algumas missões previamente desconhecidas por eles. Supõe-se trabalharem para alguma organização secreta ou clandestina a lutar contra um regime político opressor. Mas isso não fica propriamente claro. Lugares, pessoas e fatos se sucedem, e ainda mais enigmáticos com as mudanças de nomes do casal – uma peculiaridade recorrente em sua obra fruto de sua própria experiência pessoal durante a ditadura militar.
Para ilustrar como as impressões se desfazem mais adiante sai (ou perde importância) a possibilidade de atuarem junto a uma organização com fins políticos, para participarem da experiência de criação de um novo mundo. Uma nova realidade a ser vivida por seres humanos emancipados, mutantes. É uma história fascinante, tanto pelo suspense onipresente, pela sensação de estar sempre a faltar algo à espera de uma explicação, que nunca vem plenamente. Foi uma história que li e reli, me abrindo a cada leitura novas interpretações sobre o transcurso e o desdobramento final.
E o que dizer de “Sonho Lúcido”? Rodolfo anda triste e sem muito prazer nas coisas da vida. Para escapar, sonha. Faz do sonho uma atividade ansiada, talvez para explicar os seus problemas existenciais. Anota os sonhos logo que acorda, lê livros sobre psicanálise para entender mais sobre o assunto e a si mesmo. E é quando surge Ruth, uma mulher misteriosa por quem se apaixona. Vem não se sabe de onde, nem o que faz, nem para onde vai na sua ausência. Pois ela passa a dominar sua vida, com resultados perturbadores. Mais uma história incomum e aberta a muitas interpretações.
A última história é “O Bairro dos Tatus”. Um rapaz se muda para o tal bairro. Na verdade se refere aos tatuadores e não ao animal rastejador, como ingenuamente ele chegou a pensar.
Depois de fazer uma tatuagem de um pterodáptilo logo abaixo do umbigo, ele passou a ser desejado por várias mulheres – que homem não gostaria disso? –, pondo à prova seu relacionamento com Nissa, sua namorada. Mas também em relação à sua própria vida, depois dela sofrer um acidente automobilístico grave. Uma narrativa forte e triste, que procura refletir sobre as consequências voluntárias e involuntárias de nossos atos.
Como já disse o livro se encerra com o pósfácio de Ramiro Giroldo, professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Em “André Carneiro entre os Quânticos da Incerteza”, ele, que também defendeu um mestrado sobre a a distopia na obra de Carneiro,[1] na verdade é bem mais do que um texto de encerramento do livro. Fazendo um balanço cronológico e, por meio, dele, dos temas e características da obra de Carneiro, realiza um trabalho de análise literária não menos que notável. Pelo conhecimento, pela sutileza de suas análises e contextualização da condição do autor frente à ficção científica, à poesia e à literatura brasileira. É, desde já, um dos trabalhos mais completos sobre um autor de ficção científica escrito em língua portuguesa, uma referência para quem for estudar, principalmente, a vida e a obra de André Carneiro e, por extensão, a ficção científica brasileira.
Sabe-se que na última década de sua vida Carneiro sofreu com problemas de saúde, especialmente a visão. Com glaucoma, tinha apenas 10% restante e, mesmo assim, e por meio de aparelhos que amplificavam sua leitura, não esmoreceu. Continuou escrevendo e com qualidade e uma liberdade temática talvez ainda mais ousada. Isso só valoriza ainda mais O Teorema das Letras, uma obra que inspira e desafia, como poucas em nossa FC, a inteligência e a imaginação do leitor.
– Marcello Simão Branco




[1] Publicado como Ditadura do Prazer: Sobre Ficção Científica e Utopia, pela Editora UFMS, 2013.

domingo, 6 de janeiro de 2019

A Bandeira do Elefante e da Arara, Christopher Kastensmidt

A Bandeira do Elefante e da Arara (The elephant and macaw banner), Christopher Kastensmidt. 330 páginas. Tradução de Roberto de Sousa Causo e Christopher Kastensmidt. Editora Devir Livraria, São Paulo, 2016.

Este é mais um dos casos incomuns em que não é possível definir com precisão se estamos diante de uma obra nacional ou estrangeira. Isso porque ambas as origens concorrem neste romance. O autor, Christopher Kastensmidt, é texano e está radicado no Brasil desde 2001. Sua origem norte-americana não é nenhum segredo, mas é preciso que ele o diga para que a gente descubra, porque fala português com fluência perfeita, sem esquecer que compôs praticamente toda sua obra literária em solo tupiniquim. Por outro lado, o texto foi originalmente redigido em inglês e precisou ser traduzido, trabalho brilhantemente desenvolvido pelo escritor Roberto de Sousa Causo, com a supervisão do próprio autor. Isso porque Kastensmidt não se sente suficientemente à vontade com o português para escrever diretamente na Flor do Lácio, que é considerada por muitos linguistas como um dos idiomas mais difíceis do planeta. Mas a pendenga não para aí: o tema do romance não poderia ser mais brasileiro, pois toda a história se passa nas selvas de um Brasil colonial mítico, em que seres fantásticos têm existência real e palpável, para desespero dos colonos portugueses.
O modelo não é inédito, autores nativos já se aventuram por esse tema espinhoso com ótimos resultados, como Ivanir Calado (A mãe do sonho) Simone Saueressig (aurum Domini: O ouro das missões), Felipe Castilho (Ouro, fogo e magabytes), Tabajara Ruas (O fascínio), e o já citado Roberto de Sousa Causo (A sombra dos homens). Contudo, essa não é a regra. Entre os autores brasileiros de fantasia e ficção científica, ainda domina o preconceito em relação a nossa própria cultura e história, bem como dificuldades com a pesquisa, e a insegurança em desrespeitar a tradição folclórica, o que até se justifica em alguns casos. Talvez tenha sido justamente por não ser brasileiro e não compartilhar dessas amarras, que o autor de A Bandeira do Elefante e da Arara ousou embrenhar nesse ambiente difícil.
O resultado é favorável: não há nada a reprovar em A Bandeira do Elefante e da Arara. A história é movimentada e com muita ação, os personagens são redondos e sem cacoetes, os seres mitológicos são fiéis aos originais e há um tratamento responsável e respeitoso com relação a todos os protagonistas e suas origens, sem preconceitos ou estereótipos.
O romance é o que se chama, nos EUA, de fix-up, ou seja, a reunião de textos independentes que formam um todo coerente. Tanto é que os três primeiros capítulos, "O encontro fortuito de Gerad van Oost e Oludara", "A batalha temerária contra o capelobo" e "O desconveniente casamento de Oludara e Arani" tiveram anteriormente, de fato, edições independentes na coleção Duplo Fantasia Heroica, publicada pela mesma Devir Livraria, e já comentados aqui.
Kastensmidt explora com habilidade a construção do ambiente selvagem brasileiro. A abertura de cada capítulo apresenta um animal típico de nossa fauna, que também é lembrado no final. Para um brasileiro pode parecer pouco relevante, mas imagino a sensação que as descrições precisas e coloridas causam nos leitores estrangeiros, que nunca viram animais como esses. Não é por acaso que o primeiro capítulo, "O encontro fortuito de Gerad van Oost e Oludara", foi indicado ao prestigioso Prêmio Nebula em 2011.
Nas primeiras histórias, somos apresentados aos protagonistas, Gerad e Oludara, bem como ao seu nêmesis, o bandeirante Antônio Dias Caldas, que vai aparecer em diversos momentos da trama.   Acompanhamos como o aventureiro holandês Gerad conhece o príncipe africano escravizado Oludara e, juntos, fundam a sua bandeira de dois homens, o primeiro encontro com o Saci Pererê, a feroz luta contra o Capelobo, o confronto com o Curupira e seu gigantesco porco do mato, além da tribo dos Tupinambás, a segunda casa dos protagonistas, onde Oludara conhece, se apaixona e casa com a nativa Arani.
Em seguida, temos outras sete noveletas, cujos títulos, além de toda pompa e circunstância, são por si bastante reveladores: "O impropício retorno de Antônio Dias Caldas", "Uma série inconcebível de capturas e calamidades", "Uma tumultuosa convergência de desajustados, monstros e franceses", "A ameaçante aparição da Mula sem Cabeça", "O doloroso nascimento de Tainá", "Um caso audacioso em Olinda" e o impactante "O catastrófico final das façanhas brasileiras de Gerard e Oludara", que fecha o romance com um grande clímax onde não falta destruição, lutas e surpresas que vão colocar em cheque a boa relação entre os heróis. Nessas histórias, vamos também conhecer versões assustadoras dos mitos brasileiros, que não deixam de fora nem mesmo a Cuca e o beligerante Pai do Mato; mas percebe-se que ficaram muitos outros monstros de reserva para o futuro. Por certo que Kastensmidt não contou tudo de propósito. Além das adaptações para os quadrinhos – cujo primeiro volume foi publicado pela Devir Livraria em 2014 –, foi lançado pela mesma editora um jogo de tabuleiro no universo do livro que, tudo indica, é fato inédito no Brasil. Mais informações sobre isso podem ser obtidas no saite oficial do romance, aqui.
Por tudo isso é que A Bandeira do Elefante e da Arara é um livro obrigatório não só para os que gostam de boas aventuras, mas também para que autores e editores descubram que não há nada de errado com a mitologia brasileira. Assim como os nomes dos personagens em português, que ainda é tabu para alguns autores brasileiros, a cultura, os cenários, a história e a mitologia nacionais são ambientes ricos e interessantes, que devem e precisam ser melhor aproveitados.
Longa vida a A Bandeira do Elefante e da Arara!
Cesar Silva

Boris Strugatsky (1933-2012)

No dia 20 de novembro de 2012, o mundo perdeu mais um grande nome da literatura especulativa: Boris Strugatsky, escritor russo que, ao lado do irmão mais velho Arkady Strugatsky (1925-1991), construiu uma sólida bibliografia no gênero da ficção científica, extremamente popular entre os soviéticos e reconhecida internacionalmente como clássica do gênero, sendo traduzida em mais de 30 idiomas.
Nascido em 14 de abril de 1933, Boris Natanovich Strugatsky passou sua infância em Leningrado e lá estava quando a cidade foi sitiada pelo exército nazista. Em 1955, formou-se em astronomia pela Universidade de Leningrado (atual São Petersburgo) e trabalhou como matemático no Observatório de Pulkov.
Os primeiros trabalhos da dupla eram profundamente influenciados por outro grande nome da ficção russa, Ivan Efremov (1908-1972), com uma visão positivista e ingênua da ciência, mas com o passar do tempo, os textos ficaram mais críticos e satíricos. O romance de estreia foi From beyond (Извне), publicado em 1958, e o primeiro grande sucesso editorial veio em 1962, com a publicação de Meio-dia: Século 22 (Полдень, XXII век), romance fix-up formado por várias histórias curtas interligadas.
A enorme aceitação dos leitores russos permitiu que, a partir de 1966, os irmãos Strugatsky se dedicassem à escrita em tempo integral. No total, a dupla publicou cerca de 30 romances e dezenas de contos e novelas.
Muitos de seus livros estão disponíveis em língua portuguesa, especialmente em edições lusitanas, tais como Prisioneiros do poder (Обитаемый остров, 1969), Que difícil é ser deus (Трудно быть богом, 1964) e Um besouro no formigueiro (Жук в муравейнике, 1980), entre outros.
Contudo, quase nada foi publicado no Brasil. Além do conto "O cone branco de Alaíde" ("Белый конус Алаида", 1959), visto nas antologias Rotas para o amanhã (s/d, Editora Bruguera) e 5 novelas de antecipação soviéticas (1964, Editora Estúdios Cor), somente dois romance foram traduzidos: Certamente, talvez (За миллиард лет до конца света, 1977), publicado em 1980 pela editora Civilização Brasileira – que explora um polêmico conceito científico sobre a ação da própria natureza para equilibrar o Universo no caso de descobertas científicas ameaçarem estabelecer paradoxos irreversíveis –, e o maior sucesso da dupla, o romance Piquenique na estrada (Пикник на обочине, 1972), publicado em 2017 pela editora Aleph, sobre exploradores ilegais que entram em um território perigoso e proibido com o intuito de resgatar artefatos abandonados por alienígenas em parada temporária, para vendê-los num ávido mercado negro. A história inspirou um longa-metragem Stalker, dirigido pelo respeitado cineasta Andrey Tarkovsky em 1979.
Diversos outros romances dos Strugatsky chegaram a telona, entre os quais Certamente, talvez, filmado por Alexander Sukorov cujo título americano é Days of eclipse; Prisioneiros do poder, dirigido por Feodor Bondarchuk sob o título The inhabited island, e Que difícil é ser deus, filmado por Peter Fleishmann com o nome de Hard to be a god.
Após a morte de Arkady, em 1991, Boris publicou mais dois romances assinados como S. Vititsky: Busca da predestinação ou o 27º teorema da ética (Поиск предназначения, или Двадцать седьмая теорема этики, 1994) e Os incapazes deste mundo (Бессильные мира сего, 2003).
Boris Strugatsky morreu em São Petersburgo, aos 79 anos, de causa incerta, provavelmente de problemas cardíacos, dos quais o escritor já sofria há algum tempo.
Cesar Silva

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

O problema dos três corpos, Cixin Liu

O problema dos três corpos (三体), Cixin Liu. 316 páginas. Tradução de Leonardo Alves da edição em inglês The three-body problem. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2016.

Histórias de contato estão entre as mais praticadas dentro do gênero da ficção científica. Algumas delas são muito criativas quanto aos problemas inerentes da troca de informação entre raça humana e alienígenas, em que quase sempre o que é dito por um não é bem compreendido pelo outro, gerando muitos desentendimentos. Mas, em algum momento, o diálogo se estabelece e as coisas se acertam. A não ser naqueles casos – bastante frequentes diga se de passagem – em que uma das partes quer destruir a outra. Aí temos uma história de invasão, que também é um tema muito explorado pelo gênero.
Sabe-se que toda a história de invasão ou de contato, remete-se à comunicação entre os próprios seres humanos, em que as barreiras linguísticas, culturais e econômicas geram situações de opressão incontornáveis para a parte tecnologicamente mais fraca do diálogo. E é muito difícil escapar dessa interpretação, mesmo que o autor diga que não se trata de uma metáfora. Inclusive no caso de O problema dos três corpos, romance do escritor chinês Cixin Liu, vencedor do prêmio Hugo de melhor romance em 2015. O Hugo é o mais importante prêmio da fc internacional, promovido pelo fandom norte-americano e votado durante suas convenções anuais. Foi o primeiro romance de um autor não anglófono a obter o mérito, mas ele não veio por acaso: Cixin Liu já tinha o reconhecimento de seus conterrâneos, visto ter ganhado oito vezes o Galaxy Award, o mais importante prêmio chinês do gênero.
A história inicia durante os conflitos da Revolução Cultural. As primeiras cenas são chocantes e relatam o assassinato de um acadêmico por seus próprios alunos, diante da filha que assiste a tudo sem poder intervir. Essa estudante, chamada Ye Wenjie, será protagonista de um cabo de guerra entre a humanidade e uma raça alienígena, mas ela ainda não sabe disso. Por hora, é apenas uma jovem solitária e traumatizada, também perseguida pelo governo chinês. Às portas da execução, recebe a oferta de ser poupada em troca de  trabalhar num programa ultra-secreto do governo, cujo objetivo é buscar o contato com alguma civilização extraterrestre. Ela aceita, apesar de saber que será prisioneira num laboratório remoto, chamado Base da Costa Vermelha, e que talvez nunca mais saia de lá.
Anos depois, em nossos dias, cientistas destacados em suas áreas começam a desaparecer em todo o mundo, causando estagnação no avanço da ciência. Alguns deles chegaram a se suicidar depois de concluir que a ciência é inútil. O pesquisador chinês Wang Miao, especializado em nanotecnologia, é assediado por um grupo de homens do governo que pretende recrutá-lo para algo que eles chamam de "guerra", embora não exista nenhuma guerra sendo travada no momento e ninguém fale claramente a respeito.
Entre o grupo está o detetive de polícia Shi Quiang, que passa a ser a sombra de Miao pois desconfia que ele pode ser uma futura vítima. A suspeita recai sobre um  grupo de fiéis de uma religião integralista que se une em torno de um sofisticado jogo de imersão total online chamado "O problema dos três corpos", no qual filósofos do passado da Terra que vivem num mundo que orbita um sistema de três sóis, tentam desenvolver uma teoria que preveja, com exatidão, os drásticos fenômenos climáticos que assolam o planeta, de forma a permitir que a civilização se proteja antecipadamente dos cataclismos mortais que a abatem periodicamente. Nessas circunstâncias, a civilização desaparece e o jogo acaba, para retornar em outro momento da história quando for feito novo login.
Quando Miao passa a enxergar no fundo dos olhos uma aterrorizante contagem regressiva que mais ninguém vê, busca ajuda com uma envelhecida Ye Wenjie, e acaba por se envolver com o estranho jogo. Com a cientista anciã, fica sabendo o que aconteceu na Base da Costa Vermelha, bem como o significado do problema dos três corpos – que ele ajuda a solucionar – e como tudo isso se relaciona com as mortes dos cientistas e a iminente invasão alienígena na Terra.
Cixin Liu é engenheiro, chinês de nascença, e ainda reside na China onde desenvolve uma bem sucedida carreira como escritor de ficção científica, gênero do qual se declara fã desde a juventude.
Diz o autor no posfácio que fecha a edição: "não uso minha ficção como um modo mascarado de criticar a realidade do presente. Acho que o maior atrativo da ficção científica é a criação de diversos mundos imaginários fora da realidade". Contudo, é impossível não ver em O problema dos três corpos uma série de metáforas muito bem assetadas. Sinal de que, como sempre me pareceu correto pensar, as obras têm pretensões próprias que nem sempre são compatíveis com as de seus autores. O leitor experiente também vai perceber uma série de homenagens sutis que o autor faz à importantes obras da ficção científica. Fica a dica para quem quiser se divertir identificando cada uma delas.
O problema dos três corpos funciona muito bem como obra única, mas trata de uma trilogia, cujo título geral em inglês é Remembrance of Earth’s past. Além do primeiro volume, originalmente publicado em 2007, as sequências são A floresta sombria (The dark forest, 2008) publicado em 2017 no Brasil pela mesma editora, e Death's end (2010), que foi anunciado para ser publicado aqui em 2018, mas foi adiado.
Cesar Silva