Mostrando postagens com marcador Simone Saueressig. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Simone Saueressig. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O coração de jade e A Pedra da História, Simone Saueressig

Os sóis da América III: O coração de jade, 184 páginas; Os sóis da América IV: A Pedra da História, 176 páginas, Simone Saueressig. Ilustrações e capas de Fabiana Girotto Boff. Edição da autora, Novo Hamburgo, 2014.

Em 2014, Simone Sauressig publicou, com recursos próprios, O coração de jade e A Pedra da História, partes finais da tetralogia Os sóis da América, saga de fantasia com as aventuras do menino Pelume por um continente americano mítico, em busca da história para chamar o Sol, sem a qual seu povo, que habita a longínqua Caverna Mais Alta do Mundo, localizada em uma ilha no Círculo Polar Antártico, jamais verá o astro nascer novamente.
Nos livros anteriores, O Nalladigua e A Flauta Condor, publicados em 2013, Pelume e seus amigos, a menina Misqui e o guarani Nimbó, atravessaram os territórios do sul, passando pelos pampas gaúchos, o Rio da Prata, as cataratas do Iguaçu, os campos de caçada e a grande cordilheira dos Andes, fazendo novos amigos e enfrentando perigos mortais, entre os quais o bruxo Machí que, tendo seus planos frustrados por Pelume, os persegue sem trégua, em busca de vingança a qualquer custo. Quando Pelume precipita-se nos abismos andinos, Misqui e Nimbó são obrigados a seguir viagem sozinhos.
O coração de jade inicia exatamente nesse momento. Miraculosamente, Pelume sobrevive a queda ao ser capturado, em pelo ar, por uma ave que pretende devorá-lo, mas o velho remo – que é um galho da lendária árvore Nalladigua – o protegeu do apetite da fera alada. Perdido na selva, Pelume é envolvido pelas promessas da traiçoeira Cobra Grande, que consegue convencê-lo a trocar seu coração puro de menino pelo transporte até a cidade de Tiahuanaco. No lugar, Pelume passa a ter um coração feito de jade, duro e frio, que a Cobra Grande lhe deu. Agora sem sentimentos, Pelume suporta sem muita dificuldade uma aterrorizante viagem no lombo da cobra, só para, no final da jornada, encontrar seus amigos aprisionados pelo poderoso Machí. O confronto com o bruxo revela o quanto o menino mudara. Pelume resgata seus velhos amigos, mas o custo emocional é enorme e a relação entre eles nunca mais seria a mesma. Na sequência da jornada para o norte, os meninos chegam à maravilhosa cidade Teothiuacán, onde se deparam com uma urbanidade inédita que deixa maravilhado até o insensível Pelume.
Ali eles conhecem um povo muito desenvolvido, mas que está passando por um momento delicado. Esta próxima a hora da cerimônia do Fogo Novo, quando todos os fogos da cidade são apagados e substituídos por uma nova chama. Para isso, é necessário o sacrifício de um homem honrado, ou então, de um pouquinho do fogo sagrado de Popocatepetl, o vulcão que se ergue sobre a cidade. Por trás do drama de Tenamaztli, o valente guerreiro que terá de ser sacrificado, está a história de ciúme de uma mulher egoísta que não se importa em colocar toda a cidade em risco de ser destruída apenas para satisfazer seus caprichos. Isso vai colocar os três jovens do sul na busca pelo fogo de Popocatepetl e numa luta infernal contra um exército de seres mágicos que prenunciam o fim do mundo.
A Pedra da História, volume final da série, vai levar os jovens aos limites setentrionais do continente. Perseguidos de perto pelo cada vez mais enfurecido feiticeiro Maquí, que agora tem um séquito de feras mágicas sob suas ordens, os do sul atravessam as grandes pradarias norte americanas, a Floresta Dourada e a Mata do Norte, conhecem povos nativos e civilizações mágicas, e encontram-se com a misteriosa Mulher-Aranha, que entrega a Pelume a misteriosa Pedra da História e faz revelações que o menino só poderia compreender se ainda tivesse um coração de verdade no peito. A fuga prolongada e cansativa, as constantes lutas e o frio cada vez mais intenso começam a minar a determinação de Pelume, e quando ele percebe que seus amigos estão muito próximos do completo esgotamento físico e emocional, ele mesmo dominado pela frieza de coração de jade, decide abandonar a busca e se entregar à ira de Maquí. Mas as revelações pelas quais tanto lutou, bem como o destino de seus amigos, estão para além da banquisas polares.
Assim como em O Nalladigua A Flauta CondorO coração de jade e A pedra da história são ilustrados por Fabiana Girotto Boff, que também assina as capas. Cada livro vem com um marcador de páginas que estampa um útil glossário de termos linguísticos e figuras mágicas, que ajuda a entender de onde veio a infinidade de criaturas fabulosas que aparece ao longo da narrativa e seu contexto no folclore das diversas culturas com as quais Pelume toma contato.
Apesar da invejável bibliografia da autora, que detém em seu currículo vários prêmios importantes e romances ousados como aurum Domini: O ouro das missões (2010), O jogo no tabuleiro (2010) e B9 (2011), Os sóis da América se destaca como um trabalho de fôlego, que certamente exigiu um esforço monumental de pesquisa. Seu maior mérito é ter ido além de qualquer bairrismo, reclamando todo o continente como o espaço sem as fronteiras que perdemos de vista por causa do apelo nacionalista, uma proposta corajosa e inovadora na ficção fantástica brasileira.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Um vulto nas trevas, Simone Saueressig

Um vulto nas trevas, Simone Saueressig. 80 páginas. Coleção Asa Negra, edição da autora, Novo Hamburgo, 2004.

Há alguns anos a cultura brasileira de fc&f ignoraria qualquer título que estivesse alinhado com o mercado infanto-juvenil. É claro que isso nunca passou de chauvinismo de fã e ele ainda existe e se aplica em diversos segmentos do fandom, mas desde há algum tempo tem se tentado também prestar atenção a esse tipo de literatura que, de mais a mais, não tem nada de desprezível, ao contrário, identifica-se como uma luva com o tipo mais promissor de leitores de fc&f, o adolescente.
Por isso mesmo não é de se admirar que uma das mais completas autoras brasileiras de fc&f seja uma frequente colaboradora de coleções infantojuvenis. Simone Saueressig é gaúcha de Novo Hamburgo, com muitos livros publicados por editoras importantes, tais como O palácio de Ifê (L&PM, 1989), A fortaleza de cristal (L&PM, 1993), A máquina fantabulástica (Scipione, 1997) e Receita para um dragão (Scipione, 1999), entre outros.
Simone confessa ter sido obrigada a publicar Um vulto nas trevas sozinha, pois as editoras não se dispunham a fazê-lo. Temos que agradecer à autora a iniciativa por publicar este que certamente é um de seus melhores trabalhos, dentro de uma galeria de obras maravilhosas.
Trata-se de uma novela de mistério com características de horror sobrenatural gótico, devidamente adaptada ao moderno ambiente brasileiro urbano e claramente orientada ao leitor jovem, ainda que tenha apelo bastante forte ao leitor adulto pela qualidade da narrativa.
É a história de Beto, um garoto de cerca de dez anos que, junto com seu primo Inácio, de 14 anos, vai passar o final do ano com o avô, Seu Chico, num casarão tão velho quanto estiloso em Gramado. Beto já passara outras férias ali e guardava muitas memórias e impressões das outras estadas.
Seu Chico é viúvo e mora apenas com sua filha adotiva Clarisse, uma jovenzinha muito magra e de aparência débil, mas que realizava praticamente todas as tarefas domésticas no casarão.
Logo na primeira noite, Beto tem uma experiência bizarra que vai pautar todo o drama da narrativa. Sem sono, o garoto levanta tarde da noite para beber água e, da janela da cozinha, avista um vulto diáfano dançar no jardim, flutuando ao redor do poço e desaparecendo num salto. De quem seria aquele fantasma? Por que rondava a casa nas noites claras de verão?
Aterrorizado, Beto passa a ver assombrações em todas as partes do casarão, que se presta perfeitamente a essas coisas. Desse modo, o casarão assume o posto de quinto personagem da história, com suas salas vazias, portas rangedoras, gradil enferrujado e muitas, muitas frestas e goteiras.
Numa das explorações no segundo pavimento da casa, fechado ao uso por estar demasiadamente deteriorado pela falta de manutenção, os garotos encontram um embrulho misterioso que os leva a crer que seja um videogame que o avô estaria escondendo para lhes fazer uma surpresa no Natal. Acreditando que poderão passar os dias divertindo-se com o presente do avô, decidem pedir o adiantamento da entrega do mesmo. Sem alternativa, Seu Chico consente.
Beto e Inácio estão certos em quase tudo. Sim, aquele era mesmo o presente de Natal do avô. Sim, eles vão se divertir muito (talvez um pouco mais do que isso), mas... não é um videogame.
Ao abrirem o pacote, encontram um livro enorme e pesado. Não um livro qualquer, mas um antigo livro de recortar e montar a miniatura de cartão de um casarão chamado "Das Voguel Haus" em alemão - "A casa dos pássaros" em português – exatamente onde eles estavam hospedados naquele momento, o mesmo velho casarão de seu avô.
Desenxabidos e sem muito mais para fazer, Beto e Inácio passam a ajudar o avô a montar a maquete, uma representação exata em cada detalhe do projeto original do casarão.
Eles não sabem, mas esse quebracabeças guarda a resposta da visão assustadora que Beto teve naquela noite de insônia e que continua a atormentar-lhe a imaginação.
Todos os mistérios serão desvendados a seu tempo, não sem uma boa dose de coragem, desprendimento e afeição de ambos os garotos com relação ao seu avô e sua prima que, ao início da história, pareciam tão sem graça.
Um vulto nas trevas é uma história de amadurecimento, de um rito de passagem. Para Beto é a passagem da infância para a adolescência. Para Inácio, a passagem da adolescência para a vida adulta. E para todos os leitores, é uma história de como os laços humanos mais diáfanos são reforçados na tragédia.
Simone trata cada um dos personagens com a maturidade de uma escritora experiente. Todos são perfeitamente caracterizados, críveis e verdadeiros em cada detalhe. Os cenários são descritos com clareza e o leitor percebe-se caminhando pelos corredores da Casa dos Pássaros junto aos garotos, explorando seus recônditos mais obscuros, janelas e portas e móveis que bem poderiam abrir para dimensões tão loucas e perigosas como um guardarroupas de C. S. Lewis ou um buraco no jardim de Lewis Carrol.
Só uma coisa a lamentar neste livro de Simone: ele é muito breve. Esse era um livro que deveria ter mais páginas, só para se demorar a acabar. Prova definitiva que é mal negócio ignorar qualquer dos ambientes criativos da nossa literatura, sob o risco de se perder a melhor parte.
Cesar Silva

sábado, 6 de junho de 2015

A estrela de Iemanjá, Simone Saueressig

A estrela de Iemanjá, Simone Saueressig. Capa e ilustrações de Maurício Veneza. 168 páginas. Cortez Editora, São Paulo, 2009.

A ficção fantástica produzida no Brasil, com honrosas exceções, não privilegia as características nacionais. Não que isso tenha sido sempre assim. Muitos fantasistas brasileiros não sentiram dificuldade em inserir o imaginário nos cenários brasileiros. Mas, no que se refere a fc&f contemporânea feita nos últimos 30 anos dentro dos muros do fandom, havia a princípio uma grande dificuldade em enxergar a fantasia e a tecnologia no ambiente cotidiano local. Os autores costumeiramente apelavam para ambientes europeus e norte-americanos, aproveitando também para batizar os personagens com nomes associados a cultura anglo-europeia, pois o contrario lhes soava de tal modo anacrônico que impedia que fosse levado a sério, o que o escritor Braulio Tavares veio a batizar como "Síndrome do Capitão Barbosa". Em 1986, o escritor-fã Ivan Carlos Regina (O fruto maduro da civilização, GRD, 1993), propôs nas páginas do fanzine Somnium um manifesto de valorização da brasilidade na ficção científica nacional, que ficou conhecido como Movimento Antropofágico da FCB, em referência ao Manifesto Antropofágico da Semana de 1922. Em torno do texto de Regina reagiram inúmeros autores, a favor e contra, e com os passar dos anos as imagens, nomes e culturas brasileiros emergiram em boa parte dos textos realizados pelos fãs, o que felizmente continua acontecendo hoje.
Contudo, muito disso deve-se a um esforço militante de um determinado setor que busca uma identidade para a ficção fantástica brasileira. A maior parte desses autores avançou sobre temas e conceitos que para si próprios não eram naturais. Não vou dizer aqui que isso não não funcionou, porque funcionou sim. Mas o "brasileirismo" vai muito além de ambientes.
Uma das maiores dificuldades dos autores é com os personagens. É muito difícil definir idiossincrasias pessoais sem cair na caricatura e no estereótipo. Na digna tentativa de evitar essa armadilha, os personagens acabam homogenizados, achatados num espaço de pouca manobrabilidade, que é ainda mais engessada nas mãos de autores menos experientes.
Então, para demarcar bem seus personagens, os autores costumam lançar mão dos arquétipos. Funciona, do ponto de vista dramático, mas os personagens ficam distantes do leitor, tão irreais como os personagens mitológicos.
Ainda há muita dificuldade em modular personagens e, entre os mais evitados, estão os personagens negros. Isso porque a ampla maioria dos autores brasileiros que se exercita na fc&f são brancos. Não passaram e nunca passarão pelas dificuldades de ser negro num país que aboliu a escravidão há pouco mais de um século. Talvez haja um certo mal estar entre esta legião de escritores brancos em se colocar no lugar de um negro brasileiro, então melhor nem tentar.
Entretanto, houveram tentativas bem sucedidas. Mas, de forma geral, os personagens negros só o são porque o autor decidiu descrevê-los assim. No mais, eles se comportam exatamente como qualquer outro, não há muita etnia em sua vida. Uma das desculpas recorrentes entre os autores é querer reafirmar a igualdade entre negros e brancos, que a cor da pele não faz diferença. Mas faz: interfere de maneira importante na psique do indivíduo e na forma como ele é tratado na sociedade. Talvez apenas os próprios autores negros tenham suficiente sensibilidade para construir personagens negros palpáveis mas, infelizmente, eles são minoria no fandom. Conheço pessoalmente apenas um, o experiente Julio Emilio Braz (Megalópilos, 2006, Rocco). Por isso, não é de se surpreender que tenham sido tão poucas as tentativas de usar o panteão africano como base de histórias especulativas. Talvez haja aqui alguma preocupação com o fato desse imaginário ser base de religiões ativas no país, como a umbanda e o candomblé.
Mesmo assim, a corajosa escritora gaúcha Simone Saueressig, autora de A noite da grande magia branca (Cortez, 2006) e A fortaleza de cristal (L&PM, 2006), ousou investir nesse tema em seu romance A estrela de Iemanjá, publicado pela editora paulista Cortez em uma edição ilustrada por Maurício Veneza, com acabamento luxuoso pouco visto nas letras nacionais.
A história, indicada pela editora para aulas de língua portuguesa, geografia e história, conta como três jovens pescadores negros, Tomás, Cosme e Daniel, inadvertidamente capturam em sua rede a poderosa estrela do mar de Iemanjá, roubada de sua proprietária por Joelho e Benevides, dois salafrários que para isso usaram um submarino. Durante a fuga, a estrela causa problemas na máquina e, morto de medo, Benevides joga fora a estrela por uma escotilha, justamente quando a rede dos meninos flutuava por ali.  Os poderes da estrela provocam uma tempestade furiosa que arremessa os garotos na praia de Aganjú, uma ilha desconhecida que não devia estar ali. Eles ajudam Ubatá, uma garota que está numa importante missão e para isso teve de roubar o amuleto de uma raça de seres ferozes. Para voltar para casa, os meninos terão de acompanhar Ubatá para o interior da ilha, em busca de ajuda. Mas eles não imaginam que Joelho e Benevides estão logo atrás deles, pois querem recuperar a estrela, que eles carregam sem saber do que se trata. A ilha de Aganjú esconde um universo maravilhoso, repleto de magia, perigos e mistérios que os meninos terão de superar caso queiram escapar dessa armadilha mortal, que envolve o próprio fim dos tempos para todo o planeta.
Não é a primeira vez que Simone conta uma história com orixás. Em O palácio de Ifê (L&PM, 1989), a autora enveredou pelo tema, numa aventura que também tem contornos juvenis, mas é algo mais dramática.
Simone não evita temas regionalistas e folclóricos, ao contrário, ela os persegue com rara criatividade e poesia. Talvez tenha sido por isso que a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil selecionou A estrela de Iemanjá para representar o Brasil na Feira do Livro Infantil de Bolonha 2010, junto a outros 210 títulos que foram apresentados a editores, escritores, ilustradores e estudiosos do mercado internacional. Foi a primeira vez que a autora de Novo Hamburgo teve um de seus livros selecionados para a mostra.
A simples presença do trabalho de Simone entre os leitores jovens cria uma boa expectativa para as futuras gerações de escritores, que terão nela uma excelente referência criativa.
Ainda que muita gente ainda sofra, por convicção, da Síndrome do Capitão Barbosa, está bastante claro que não há nenhuma dificuldade ou facilidade agregada ao texto apenas pelo fato dele fazer uso de imagens e etnias brasileiras. Não é preciso disfarçar a origem cultural para ser "melhor recebido" pelo mainstream, seja no mercado nacional seja no internacional. Faça-se o que quiser, tanto faz. O que conta a qualidade do trabalho realizado e, sem dúvida, isso não falta a Simone.
Cesar Silva

quarta-feira, 18 de março de 2015

Contos do Sul, Simone Saueressig

Contos do Sul, Simone Saueressig. 96 páginas. Capa de Marciano Schmitz. Edição da autoraNovo Hamburgo, 2012.

A escritora gaúcha Simone Saueressig é um nome significativo no fandom brasileiro de ficção fantástica. Autora premiada e experiente, Simone surgiu por volta de 1983 nas páginas do boletim do já extinto Clube de Ficção Científica Antares, de Porto Alegre. Logo profissionalizou-se como autora de livros de fantasia infanto-juvenis, tais como os romances O palácio de Ifê (1989) e A máquina fantabulástica (1997), publicados pelas prestigiosas editoras L&PM e Scipione, respectivamente.
Simone viveu na Espanha durante cinco anos e voltou ao Brasil em 1999, quando retomou suas carreiras de professora de dança flamenca e escritora. Logo nos primeiros tempos de sua volta, a dificuldade em restabelecer o contato com as antigas editoras levou a publicar ela mesma o livro Um vulto nas trevas (2004). Embora tenha depois reconquistado seu espaço no meio editorial, gostou da experiência de autopublicação e passou a se utilizar mais vezes desse expediente.
Contos do Sul é uma dessas iniciativas, coletânea com cinco contos de horror que usam como tema as lendas e mitologias gauchescas. O título do volume faz referência ao importante livro de Simões Lopes Neto, Lendas do Sul, publicado pela primeira vez em 1912. A própria Simone comenta a obra, neste trecho transcrito da apresentação do volume:
"Contos do Sul aborda quatro criaturas folclóricas: a Iara em sua forma original de ypupiara, o lobisomem, a mula-sem-cabeça e o Saci. A exceção é o Diabo, que não pode ser considerado folclore brasileiro, já que é universal na área de abrangência da cultura cristã, e não é tema da Lendas do Sul."
O primeiro texto é o excelente "A cisterna", uma história vigorosa e assustadora, que está entre as melhores peças do gênero já escritas por um autor brasileiro. Conta a aventura de um grupo de crianças por uma mata próxima de suas casas. Em algum lugar ali existe uma espécie de piscina artificial, larga e funda, onde alguma coisa estranha vive. Curiosas, as crianças sobem numa árvore para olhar o ser que se move sob as águas escuras, logo abaixo dos galhos. O pouco que se pode observar revela voluptuosos contornos femininos que fascinam os garotos. Mas tudo se complica de verdade quando a coisa começa a falar.
Em "O cemitérios dos cães", investigadores da polícia escavam um terreno próximo a um canil, e encontram pistas que comprometem seriamente a versão do proprietário para o desaparecimento de seu filho. Apesar de ser uma narrativa curta em que as cenas de horror são rápidas e imprecisas, trata-se de um conto de forte expressão emocional.
"O galpão" é a história com o diabo, citada por Simone na apresentação. O vínculo com a cultura sulista vem na forma de uma pequena cidade interiorana, tão pequena que nem cemitério tem. De vez em quanto, passa por ali um trem, conduzindo passageiros e, principalmente, levando os caixões com os mortos do lugar, para serem enterrados em uma outra cidade. O que é uma mão na roda para Klaus, que aproveita o fato de ser o encarregado de despachar os cadáveres para antes dilapidá-los de seus pertences sem que ninguém desconfie. Para passar o tempo, Klaus atrai crianças e vagabundos para o galpão onde são armazenados os cadáveres até a passagem do trem, e ali os assassina por pura diversão. Depois, desfaz-se dos corpo de suas vítimas nas fossas de um curtume desativado. Quando um desconhecido chega a cidade, Klaus logo sente o sangue ferver pela expectativa de mais uma noite de diversão macabra. E, para melhorar, o homem traz uma brilhante corrente de ouro no pescoço, o que vai unir o útil ao agradável.
É o texto mais moralista da coletânea, mas tem personagens muito bem delineados e uma ótima ambientação. Simone chegou a me mandar a foto de um desses tenebrosos buracos de curtume, coisa comum na região.
"O farol" vai para a beira do mar, onde o solitário faroleiro recebe a visita do chefe, que veio entregar suprimentos. Quando desaba um grande temporal, ambos têm que se abrigar no interior do farol. No meio da chuvarada, uma mulher bate à porta e o faroleiro a despacha bruscamente, o que intriga o seu superior. O faroleiro explica que ela é uma mulher meio doida quee pediu para se abrigar da chuva no galpão e ele deixou, mas o homem se indignou: devia ter deixado a infeliz entrar no farol  com eles, que é mais protegido. Quando começa a soar uma zoada estranha do lado de fora, o homem não atende aos pedidos do faroleiro e abre a porta do farol para ver o que é, e o fim do mundo espalha-se sala adentro, escoiceando e queimando tudo. O que aconteceu, só saberemos dias depois, no hospital. Apesar de ser uma história de pouca tensão, os parágrafos que descrevem as cenas de  confusão dentro da sala do farol são vívidas e impressionantes, e fazem valer a história.
O último conto da antologia é "O saci", conto "Destaque" do 3º Prêmio Habitasul Revelação Literária na Feira, de 2003, e publicado então no livro do evento. É o conto mais longo da coletânea, mas isso não significa muito porque os textos são todos mais ou menos do mesmo tamanho. Lembra as histórias de Ray Bradbury, com circos assombrados em que acontecem coisas estranhas, mas a poesia de Simone não é igual à do escritor norteamericano, além do que a ambientação bem desenvolvida, assim como a cultura gaudéria que encharca o texto, não permitem que se realize maiores comparações.
A história conta sobre um jovem, pré-adolescente que, ao visitar a feira de esquisitices de um circo itinerante, vê a oportunidade de ter sua iniciação sexual com a dançarina da trupe. Mas, para isso, ela exige que o menino traga o saci que, inadivertidamente, ele revelou que seu avô guarda aprisionado numa garrafa. Mesmo temendo a maior bronca de sua vida, o menino rouba a garrafa onde a coisa presa demonstra toda a sua fúria, e a leva para a garota, ávida por uma atração realmente incomparável para o circo. Nada mais direi, exceto que este saci tem muito pouco a ver com aquele que Monteiro Lobato tornou popular.
Contos do Sul tem formato de bolso e apenas 96 páginas, sendo um livro que se pode ler de um só fôlego. Mas as histórias são tão intensas e surpreendentes que acabamos lendo cada uma delas mais de uma vez, só pelo prazer reviver as histórias. Especialmente "A cisterna" e "O saci", que são peças de qualidade inegável, representantes de uma dark fantasy brasileira autêntica, que não abre mão de personagens bem estruturados e situações realmente assustadoras, e que não se deixa cair na caricatura e no estereótipo.
Simone sabe, como poucos, manipular as emoções do leitor e conduzir a tensão das histórias em direção ao melhor resultado dramático possível. É uma autora de posse de toda a sua competência técnica, que se movimenta com desenvoltura num gênero que lhe parece tão familiar quanto a própria cultura que herdou de seus antepassados. Simone faz parecer de tal forma natural que nos perguntamos: por quê há tão pouco disso na literatura nacional?
— Cesar Silva

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

B9, Simone Saueressig

B9, Simone Saueressig. 314 páginas. Novo Hamburgo: Editora Clube de Autores, 2011.

Simone Saueressig é uma das mais ativas e bem-sucedidas autoras brasileiras de ficção científica e fantasia. Vencedora de prêmios literários de prestígio, como o Nestlé em 1988, publica seus livros regularmente ano após ano, a maioria deles por editoras do seu estado de origem e residência, o Rio Grande do Sul. O Anuário já resenhou outras de suas obras em edições anteriores e este livro apresenta algumas diferenças em relação aos outros. É, salvo engano, o seu trabalho mais longo, um romance, e é de FC, além de ter sido publicado primeiramente em capítulos num blog na internet para só depois aparecer impresso e de maneira praticamente independente.
Mas talvez a principal característica de sua obra mantenha-se: é uma história endereçada ao seu público preferencial: os jovens. Mas, como em outros de seus escritos, não se destina exclusivamente a eles; é rico e complexo o suficiente para ser lida com seriedade e prazer por pessoas de qualquer idade.
Mais desenvolta e prolífica em histórias de fantasia de recorte brasileiro e, vez por outra, com elementos sobrenaturais, a autora com b9 inverte essa orientação ao apresentar uma história de moldura clássica de ficção científica. O romance mostra uma nave de gerações chamada nca 4468 em missão à estrela Gliese 581, onde um planeta em órbita deverá ser colonizado. Pouco antes de chegar ao destino, porém, a nave é atingida por um cinturão de asteroides inesperado e, avariada, é conduzida à órbita da estrela mais próxima, um sistema binário. Mas o detalhe nem um pouco insignificante é que a estrela principal é, na verdade, um buraco negro que, num breve espaço de tempo, deverá tragar a nave em suas entranhas.
O palco para um bom romance hard de fc já estaria bem armado, mas o foco da autora é outro. O verdadeiro drama no interior da nave não é apenas tirar a nave do perigo, mas contar a história de b9. Mas quem é b9? Depois do acidente, o pai de duas crianças morre e quem passa a cuidar delas é o avô, o comandante da nave, Oliver Carges. Só que o sujeito está longe do padrão de retidão moral e liderança carismática tão comum em histórias do gênero. Carges é autoritário e sexualmente pervertido, praticando orgias e não poupando nem seus netos. Engravida a neta Sofia e estupra o neto Douglas. Com medo e vergonha, o menino foge para o interior semi-abandonado da nave. E recomeça sua vida de forma anônima, simulando mesmo que esteja morto. E assim nasce b9, o nome tirado de uma jaqueta que antes pertencia a um homem que o ajudou e veio a falecer.
Devido a um problema no sistema de comando da nave, o comandante Oliver não é mais reconhecido pelo computador central para poder pilotar a nca para fora do buraco negro. E o segundo em comando é justamente b9, o seu neto. Começa, então, uma busca por seu paradeiro. Tanto pelo comandante, como por sua irmã, que deseja saber, antes de mais nada, se Douglas está vivo e é possível tentar resgatá-lo.
O romance é intenso e com muita ação. De saída chama a atenção em suas primeiras páginas a objetividade e poder de concisão em sintetizar o enredo. Admirável. Mas é só o começo de um livro protagonizado por personagens jovens, mas que discute de forma profunda temas delicados e polêmicos: a violência covarde contra os frágeis, e ainda perpetrada por aqueles que deveriam servir de modelo moral e provedores de segurança.
Simone é habil em conduzir a história de ritmo ágil, ao mesmo tempo em que insere estas questões como leitmotifs da narrativa. E nisso a figura de Douglas Carges/ b9 serve como condutora, na própria dúvida existencial do menino violentado e do jovem que luta por uma nova identidade que apague sua dor e vergonha, mas sem que ele tenha noção integral do que vai se tornar quando amadurecer, se é que vai.
O cenário temático é de ficção científica, mas as questões realmente discutidas no livro são de interesse para qualquer cidadão ou pai de família cioso de como é importante proteger crianças e jovens de violências provocadas por adultos: estupradores e pedófilos que permeiam a sociedade e podem estar mais perto do que imaginamos.
Apesar do enfoque estar centrado na busca do paradeiro de Douglas, e das questões subjacentes embutidas na violência que ele e sua irmã sofreram, Saueressig não descuida do ambiente em que a história é contada, e este é, de fato, um dos raros livros brasileiros de fc ambientados inteiramente dentro de uma astronave. Assim, de maneira não muito detalhada, mas não descuidada, é narrado como a nave produz alimento, água e oxigênio, além de seu sistema de higienização. Elementos que só funcionam bem próximo da ponte de comando, pois à medida que se afasta, a situação geral vai se deteriorando. E é lá, nos chamados arrabaldes, que Douglas torna-se o incógnito adolescente b9, que vive de bicos, arrumando sistemas elétricos avariados.
A tripulação precisa de b9, Sofia também e até o seu avô. Todos por motivos diferentes, o que só entremeia os dramas e demandas pessoais particulares num cruzamento com os próprios dramas de b9. Assim, a narrativa é conduzida como que rumo à realização dos desejos de cada um, em que, claro, b9 será o ponto principal da resolução do romance. Mas tudo isso só será possível — se é que é — como parte da construção da identidade do próprio Douglas, da sua redenção depois da violência que sofreu. Nesta busca interna e particular do protagonista é que o romance ganha sua maior relevância.
Talvez a trama tenha se centrado em demasia nos dramas de cada personagem e deixado de lado um componente vital: a própria sobrevivência da nave. Ficou a impressão de que tudo seria resolvido apenas pela volta de Douglas, mas isso não soa muito verossímil. Podíamos esperar mais de uma tripulação de nave estelar para resolver um problema técnico de sobrevivência, sem depender em demasia de um só personagem.
No início do romance, informa-se que a nave orbita 14 dias pela estrela secundária e dois pelo buraco negro. Neste período de total escuridão, as pessoas passam a compartilhar os sonhos quando adormecem, num fenômeno onírico não explicado. Esta peculiaridade poderia ser mais explorada, embora ela seja citada como parte das experiências dos personagens ao longo da história.
Talvez por ter sido publicado de forma independente, o livro ressente-se de uma boa revisão. Em várias páginas trechos ficam truncados pela falta de uma preposição, ausência de pontuação ou por palavras grafadas de forma incorreta. Não atrapalha a leitura, já que ela é absorvente, mas exatamente por isso o texto merecia um trabalho mais profissional de revisão.
Se em termos de qualidade, a ficção científica brasileira se notabiliza mais pela ficção curta (contos e noveletas), b9 candidata-se, desde já, a estar entre os bons romances do gênero escritos no país. Pois Simone nos apresenta uma obra madura em suas especulações e segura em sua construção narrativa. E ainda mais importante, é uma história que pode interessar não apenas ao leitor de fc, mas por qualquer pessoa, por abordar de forma hábil um tema polêmico e necessário.
— Marcello Simão Branco

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O jogo no tabuleiro, Simone Saueressig

O jogo no tabuleiro, Simone Saueressig. 350 páginas. Editora Clube de Autores, Novo Hamburgo, 2010.

O jogo no tabuleiro é um romance de alta fantasia que consegue, de forma criativa e surpreendente, trazer um gênero iminentemente angloamericano para o dia-a-dia brasileiro, sem parecer forçado.
A história conta o que acontece a um grupo de jovens amigos, moradores de uma cidade pequena, quando um deles desaparece misteriosamente depois de participar de um novo tipo de jogo. Dias depois, a turma traumatizada recebe a visita de um personagem desconhecido que lhes traz um recado do amigo desaparecido, pedindo ajuda e dando um endereço. Apreensivos e sem avisar ninguém, os jovens deslocam-se até o local que revela ser uma apenas uma casa comum, onde uma senhora simpática mantém um espaço lúdico com um jogo de tabuleiro que ela mesma construiu. Ao aceitarem experimentá-lo, finalmente descobrem o que aconteceu com o colega desaparecido e o tamanho das dificuldades para fazer o caminho de volta.
Simone é uma autora experiente, com diversos títulos de fantasia publicados por editoras importantes, como O palácio de Ifê (L&PM, 1989), A fortaleza de cristal (L&PM, 1993), A máquina fantabulástica (Scipione, 1997) e Receita para um dragão (Scipione, 1999), livros comercialmente identificados como infanto-juvenis e recomendados como leitura paradidática. Porém, Simone vai além da maioria dos autores dessa espécie de texto. Todos os seus romances têm níveis mais profundos de interpretação e satisfazem totalmente aos leitores mais exigentes.
A autora investiu todo o seu potencial autoral em O jogo no tabuleiro. Por causa de seu volume avantajado, a autora teve dificuldades em encontrar uma editora para ele. Depois de anos de buscas, resolveu em 2009, publicá-lo em seu site Porteira da fantasia, dividido em em três volumes: O afilhado das fadas, A falcoeira e O Nemthru, reunidos depois em um único volume também publicado pela autora em 2010 através do Clube de Autores.
Quem gosta de fantasia vai se deliciar com O jogo no tabuleiro. E mesmo quem não sabe se gosta, vale a pena arriscar: O jogo no tabuleiro é, sem dúvida, o melhor romance de fantasia já escrito por um autor brasileiro.
Cesar Silva

domingo, 18 de janeiro de 2015

Duplo fantasia heroica 3, Christopher Kastensmidt e Simone Saueressig


Duplo Fantasia Heroica 3Christopher Kastensmidt e Simone Saueressig. 128 páginas. Capa de Jonathan Beard. Devir Livraria, São Paulo, 2012.

Entre os muitos lançamentos de fantasia de 2012, recebemos o terceiro volume da série Duplo Fantasia Heroica, da coleção de livros de bolso Asas do Vento, da Devir Livraria. Como nas edições anteriores, trata-se de um volume com duas histórias de fantasia de autores diferentes, ambas com predominantes aspectos brasilianistas.

No primeiro número, lançado em 2010, foram publicadas as noveletas "O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara", que inaugurou a série A Bandeira do Elefante e da Arara de Christopher Kastensmidt, autor norteamericano radicado no Brasil, e "A travessia", de Roberto de Sousa Causo, uma história da série do índio Tajarê, iniciada no livro A sombra dos homens (Devir, 2004).
O número dois, lançado no finalzinho de 2011, trouxe "A batalha temerária contra o capelobo", sequência da história de Kastensmidt com a dupla de aventureiros Gerard e Oludara no Brasil colonial, e "Encontros de sangue", de Causo, também uma sequência à aventura de Tajarê vista no primeiro volume.Nesta terceira edição, aparece mais um episódio da série de Kastensmidt, "O desconveniente casamento de Oludara e Arani", fazendo par com a novela "O relato do herege", da experiente fantasista gaúcha Simone Saueressig.
Na história de Kastensmidt, o escravo liberto Oludara está ansioso para se casar com a tupinambá Arani, mas ela hesita, embora também o ame. De fato, todos os membros da aldeia ficam perturbados com a notícia do casamento, mas ninguém revela o por quê. Irredutível, Oludara insiste e o casamento é marcado. Em clima de apreensão, a cerimônia começa, para logo ser interrompida pela aparição assustadora e violenta de uma nova entidade da natureza, o Curupira, que reivindica a primazia no casamento com Arani. As feras que o acompanham quase acabam com as vidas de Gerard e Oludara, mas Arani os salva aceitando desposar o Curupira, porém pede dois dias para se preparar. O monstro aceita, e esse é o tempo que os dois amigos terão para evitar que a promessa de Irani se cumpra. Para isso, terão de invadir os domínios de um ser ainda mais terrível, a Iara, no que serão auxiliados pela tímida Flor-do Mato, uma outra entidade das florestas.
Tal como os episódios anteriores, trata-se de uma história movimentada e divertida, com ambientação bem articulada e realista quanto às florestas brasileiras e sua fauna. Os seres mágicos, contudo, estão bem menos ferozes, e o Saci, assustador em sua primeira aparição, está até meio similar aquele que nos acostumamos a ver nas histórias de Monteiro Lobato.
Uma pequena correção talvez deveria ser aplicada a descrição que Gerard faz do caju, fruta natural do Brasil que todos nós conhecemos muito bem, mas que deve ter parecido realmente estranha para um europeu do século 16. Quando Gerard vê a fruta no pé, o autor a descreve como "uma fruta vermelha com um estranho caracol marrom crescendo no topo." A descrição até que está bem próxima da visão que um estranho teria de um caju numa bandeja mas, no pé, o "caracol" deveria ser visto em baixo, e não no topo da fruta. No mais, está tudo muito bem, e o texto é bastante satisfatório para o leitor brasileiro.
O texto leve e bem humorado de Kastensmidt contrasta fortemente com o conto de Simone Saueressig, que deixa bem claro, logo de cara, que não está para brincadeiras. Trata-se de uma história de horror sobrenatural, território muito familiar da autora, que estreia na Devir, mas tem uma sólida carreira literária. Simone já publicou dezenas de títulos por editoras como a L&PM e Scipione, sendo que tem em seu currículos alguns títulos de grande vendagem, como A noite da grande magia branca e A máquina fantabulástica. Em 2012, Simone publicou a antologia Contos do Sul, com cinco histórias de horror apoiadas no folclore brasileiro, linha na qual "O relato do herege" também está inserida.
A história conta, em forma de diário, o drama de Indigo Ruiz Lopes, um herege espanhol desterrado no sul do Brasil, em 1637. Em meio a um cenário desolador, ele testemunha a truculência do ambicioso capitão de uma missão, que abusa de sua autoridade na exploração de seu pequeno império, sustentado com mão de ferro. O odioso líder sabe das acusações que pesam sobre o herege e, quando descobre que ele realmente pode conjurar demônios, manobra as coisas de forma a tê-lo em suas mãos para chamar a maior de todas a entidades sobrenaturais da mitologia indígena e usá-la em seu próprio benefício.
O tom da novela de Simone é trágico e perturbador, como numa história de H. P. Lovecraft, em que a simples visão de um desses seres poderosos pode levar a loucura, na melhor das hipóteses. O cenário insalubre, gelado, úmido e miserável, contribui para que o leitor se sinta ainda menos confortável com toda a situação do pobre herege que, por si, já seria suficientemente desagradável. Mas as cenas de ação são tão poderosas e impactantes que fazem valer todo o desconforto da situação.
Duplo fantasia heroica afirma-se como um projeto editorial consistente e interessante, muito bem conduzido pelo editor Douglas Quinta Reis, e deve ser privilegiada na lista de leituras de todos aqueles que desejam conhecer uma das melhores propostas já apresentadas para uma ficção fantástica autenticamente brasileira.
Cesar Silva

O Nalladigua, Simone Saueressig

Os sóis da América: O Nalladigua, Simone Saueressig. 160 páginas. Ilustrações e capa de Fabiana Girotto Boff. Edição da autora, Novo Hamburgo, 2013.

Cumpro agora a promessa que fiz à escritora Simone Saueressig, resenhando aqui o seu novo livro, O Nalladigua, primeiro volume da série Os sóis da América, ousada proposta autoral desta escritora gaúcha que depois de uma vida dedicada a construir uma fantasia familiarizada com a cultura regional brasileira, sobe de nível e investe numa geografia mais abrangente, que pretende – e não duvido que cumprirá – assenhorar-se do continente, numa aventura pela mitologia de toda a América, da Terra do Fogo ao Alasca.
Lançado em abril, durante a 2ª Odisseia de Literatura Fantástica em Porto Alegre, O Nalladigua é uma publicação da própria autora, que decidiu não esperar pela disposição de uma editora estabelecida, embora seja uma escritora experiente e tenha publicado muitos livros profissionalmente, tais como A noite da grande magia branca (1988, Kuarup), O palácio de Ifê (1989, L&PM), A máquina fantabulástica (1997, Scipione), A estrela de Iemanjá (2009, Cortez), e o premiado aurum Domini: O ouro das missões (2010, Artes e Ofícios), entre outros.
O Nalladigua conta a história de Pelume, jovem da tribo d'Os do Fogo, que habita a Caverna Mais Alta do Mundo, numa ilha em algum lugar do círculo polar antártico, terra onde os dias e as noites duram seis meses cada. A vida d'Os do Fogo é dura mas feliz, um cotidiano limitado e familiar que parece estar sob total controle. Mas, uma noite, a vida do Homem Mais Que Velho, o contador de histórias da tribo que vivia há mais tempo que qualquer outro homem sobre o mundo, finalmente chega ao fim. E a aldeia entra em crise, pois eram as histórias do Homem Mais Que Velho que regulavam as atividades da tribo. Sem a sabedoria dele, ninguém sabe quando é hora de fazer o quê. Além do mais, Pelume teme que o dia nunca mais volte, já que o Homem Mais Que Velho era o único que sabia contar a História Para Chamar o Sol. Apavorado com a ideia de nunca mais ver a luz do Sol, Pelume decide sair da ilha e procurar pela História Para Chamar o Sol no longínquo e mítico norte. Ele pretende remar seu barquinho com um galho seco que encontrou na praia, e chegar ao lugar de onde vêm as histórias que o Homem Mais Que Velho contava. Porém, mal havia saído da caverna, uma tempestade fortíssima o derruba do alto de um penhasco e Pelume cai nas costas de uma ave gigante, que vem a ser Furufuhué, o Vento. Penalizada com a história do menino, a ave decide levá-lo até às estepes da Terra do Fogo, às portas da Elelín, a Cidade Errante. Lá, Pelume reencontra os dias e as noites que, naquelas regiões estranhas, não demoram tanto quando em sua terra natal. Ele é bem recebido pelos habitantes de Elelín e logo vai perguntando sobre a História Para Chamar o Sol, mas ninguém parece conhecê-la. Ele é então encaminhado para a casa da Velha das Palavras, a anciã que guarda a sabedoria da cidade. Com ela, Pelume descobre que o seu remo, o galho seco que carrega desde o início da jornada, é na verdade um pedaço da Nalladigua, uma árvore muito antiga e poderosa, embora ela nada mais saiba a respeito. A Velha das Palavras conhece, de fato, algumas histórias sobre o Sol, mas nenhuma delas é a história que Pelume busca, e ele terá de continuar sua jornada para o norte, onde talvez alguém  a conheça. Agora acompanhado de um camahueto – uma espécie de unicórnio – e da despachada menina Misqui, Pelume avança pelos pampas para encontrar a História Para Chamar o Sol. Ao longo de sua jornada rumo ao Velho Norte, Pelume coleciona lendas sobre a origem do Sol e faz amigos valorosos, mas também tem de enfrentar inimigos poderosos, como monstros antropófagos e um perigoso feiticeiro que pretende roubar o chifre encantando do camahueto.
A história de Pelume segue uma tradição na fantasia, que é a narrativa de jornada, história sobre uma longa e atribulada viagem ao longo da qual o protagonista reúne amuletos mágicos, faz amigos e descobre a si mesmo e ao seu destino. O que diferencia esta histórias de tantas outras que seguem o mesmo formato é justamente o fato da autora ter instalado a narrativa nas paisagens de uma América mítica, fazendo uso mais ou menos livre das muitas lendas dos povos que habitaram o continente. Volta e meia surgem cenários familiares ao leitores. Neste primeiro volume, acompanhamos Pelume pelos pampas argentinos, passando pela foz do Prata até às Cataratas do Iguaçu, e encontramos histórias, seres e personagens mitológicos que povoam a imaginação dos povos americanos.
A América de Pelume parece ser pré-colombiana, contudo, algumas pistas levam a pensar que talvez não seja de um tempo tão recuado assim. Por exemplo, a imagem emprestada por Simone ao Anhangá é a de um selvagem garanhão branco. Sabemos que os cavalos só chegaram à América com Cortez, no século 16, e devem ter demorado ainda mais para se tornarem familiares aos povos da região sul do continente. Guaranis trajados de bombacha e tomando chimarrão também remetem a um tempo mais recente, mas vamos ter que aguardar a sequência da história para confirmar essa impressão.
De qualquer forma, O Nalladigua é uma leitura prazerosa e repleta de histórias surpreendentes, mesmo para nós, sul-americanos. As imagens descritas por Simone são poderosas e inspiradoras, e só posso imaginar o quanto elas impressionariam os leitores europeus ou norte-americanos, menos familiarizados com as lendas e cenários destas exóticas latitudes.
O Nalladigua tem ilustrações em preto e branco da estreante Fabiana Girotto Boff, que dão ao volume um aspecto infanto-juvenil, o que não é demérito algum. Os desenhos ainda carecem de segurança, mas acompanham bem a história e contribuem para torná-la mais acessível aos leitores jovens. Outro colaborador foi o revisor Saint-Clair Stocler, escritor identificado com a Terceira Onda da ficção fantástica brasileira, falecido em abril último.
Para encomendar este e outros livros de Simone Saueressig, visite o saite da autora, Porteira da Fantasia.
Cesar Silva

sábado, 17 de janeiro de 2015

A Flauta Condor, Simone Saueressig

Os sóis da América: A Flauta Condor, Simone Saueressig. 152 páginas. Ilustrações e capa de Fabiana Girotto Boff. Edição da autora, Novo Hamburgo, 2013.

Segundo volume da série Os sóis da AméricaA Flauta Condor dá continuidade às aventuras do menino Pelume em peregrinação pelas terras de uma América mítica em busca da história para chamar o Sol, que pode salvar seu povo do que ele acredita ser a extinção certa.
No primeiro volume, O Nalladigua (também publicado em 2013), Pelume abandona sua terra natal, uma ilha no oceano antártico e, literalmente, voando nas asas do vento – que na sua tradição do povo Do Fogo é um pássaro chamado Furufuhué –, chega às terras meridionais do continente, onde conhece a menina Misqui que o acompanha em sua caminhada para o norte. Depois de enfrentar muitos perigos e tristezas, mas também vitórias, os jovens chegam às cataratas do rio Iguaçu e, de lá, embarcam novamente nas costas de Furufuhué em direção à coluna vertebral da América, a Espinha Branca.
A Flauta Condor inicia com Pelume, Misqui e Nimbó, garoto guarani que se uniu aos peregrinos, voando sobre o coração do continente a bordo de uma canoa equilibrada nas costas do Urubu-Rei, uma das muitas formas que Furufuhué assume entre os povos americanos. Mas, sendo vento, Furufuhué é sensível aos processos climáticos e, quando ele se transforma numa violenta tempestade, tem que deixar os garotos no chão para mantê-los a salvo, e a viagem é interrompida antes que a gigantesca cordilheira seja alcançada: os jovens terão de concluir a jornada a pé.
Caminhando por uma terra árida, exaustos e famintos, os jovens encontram um casebre calcinado pelo sol inclemente da região. Ali encontrar mais dois adolescentes, Taki e Sisa, filhos de nobres incas que até ali foram levados por um servo depois que sua casa foi atacada por revoltosos que mataram seus pais.
Auxiliados pelos espíritos da natureza Pombero e Coquena, os cinco jovens seguem viagem em busca das raízes da cordilheira. Ao atravessarem uma floresta encantada, o galho da Nalladigua – que Pelume carrega desde o início de sua jornada e na qual amarra suas lembranças – começa a revelar seus poderes, que ainda não são entendidos pelo garoto.
Quando, enfim, chegam à cidade inca de Potosi, encontram Uturunku, um antigo amigo da família real, que diz também estar sendo perseguido pelos revoltosos. Ele e seu filho Sonkoy passam a proteger os jovens herdeiros, que precisam escapar dos rebeldes e chegar à Cuzco, onde poderão ser protegidos pelas forças leias do império. Com os soldados em seus calcanhares, Uturunku guia os jovens pelo labirinto de túneis escuros das minas de prata de Potosi. Um dos perseguidores os alcança e, na mortal luta que se segue, Pelume consegue tirar dele um pequeno instrumento, a Flauta Condor, que tem o poder de transportar as pessoas instantaneamente para outros locais. Uma das notas pode levar à Cuzco, mas até que encontrem a nota certa, perigos ainda maiores esperam por Pelume, Misqui, Nimbó, Taki, Sisa, Uturunku e Sonkoy, incluindo a traição de quem menos se espera e o destino trágico para de um dos caminheiros.
Geralmente, as histórias de continuação costumam perder um pouco do fôlego nos volumes intermediários, uma vez que se tratam de "histórias de miolo", que ligam o início, em que os personagens e as situações se apresentam, e a conclusão, no volume final. Mas a experiente escritora Simone Saueressig, autora de livros como A máquina fantabulástica (Scipone) e A estrela de Iemanjá (Cortez), não permitiu que isso acontecesse em A Flauta Condor. A história é movimentada e ainda mais dramática que a do volume inicial, com muitos personagens novos interessantes que serão muito bem-vindos se retornarem à aventura mais adiante. Outras lendas sobre a origem do Sol são relatadas pela autora que vai, assim, construindo um atlas mitológico da América, com histórias colhidas em diversas culturas nativas.
Na resenha ao primeiro volume, citei o fato que numa América pré-colombiana não poderia existir a imagem do cavalo, usada para representar anhangá, uma vez que o animal só veio a ser conhecido por aqui com a chegada das caravelas europeias. Mas a autora contestou essa opinião dizendo que a América de sua história não é a nossa, mas uma outra, de um universo alternativo em que os animais mitológicos realmente existem e a história humana se passou de forma diferente. Portanto, também podem aparecer animais de outras partes do mundo. E, novamente em A Flauta Condor, a autora usa esse recurso ao descrever o guardião do Eldorado, uma enorme espécie de dinossauro que sobrevive nas regiões perdidas da floresta amazônica e é chamado pelos personagens de lagarto-tigre. Como a licença poética de tomar um dinossauro – que não existe em parte alguma – talvez seja ainda mais ousada do que citar um tigre – animal nativo da Ásia que não existe naturalmente na América real – cito aqui o fato só para antecipar ao leitor que na América de Simone Saueressig tudo pode acontecer, inclusive a presença das plantas antropófagas que estrelam o momento mais dramático do volume.
A ilustradora Fabiana Girotto Boff, que fez a capa e ilustrações internas do primeiro volume, retorna em A Flauta Condor, com desenhos mais detalhados e adequados à narrativa. A produção gráfica e editorial é da própria autora, num volume de 152 páginas com capa em cartão plastificado, com orelhas. Um marcador de páginas personalizado acompanha cada exemplar, com um útil glossário de termos incomuns citados na história, o que facilita bastante a busca uma vez que o marcador está sempre à mão. Na página final do volume está anunciado o título de Os sóis da América, Volume 3: O coração de jade, que deve ser lançado em 2014.
Mais informações sobre a saga de Pelume podem ser encontradas no blogue da série, aqui.
Cesar Silva