segunda-feira, 22 de maio de 2017

Despertar do Demônio (Bay Cove, EUA, 1987)


O mercado brasileiro de vídeo VHS foi bastante movimentado entre os anos 80 e 90 do século passado, com muitos lançamentos de filmes de horror. “Despertar do Demônio” (Bay Cove) é de 1987 e foi lançado por aqui pela “Globo Vídeo”, sendo uma produção especialmente para a televisão dirigida por Carl Schenkel, e com a curiosidade da participação no elenco de um jovem Woody Harrelson, em início de carreira. Dentre uma infinidade de atores e atrizes que aparecem em centenas de filmes de todos os estilos e para todos os lados, apenas alguns poucos conseguem sucesso efetivo na carreira. Harrelson é um deles, sempre atuante e participando de grandes projetos como a franquia “Jogos Vorazes”.  
Um jovem casal sem filhos, Jerry Lebon (Tim Matheson) e a esposa Linda (Pamela Sue Martin), decide se mudar e sair do aluguel, comprando uma casa afastada da cidade, localizada num pequeno vilarejo de uma ilha pouco habitada. O lugar é chamado de “Bay Cove” (do título original) e a comunidade local tem mais de 300 anos de história. Eles primeiramente são recebidos com entusiasmo e cordialidade pelos novos vizinhos, como a idosa Beatrice Gower (Barbara Billingsley), antiga proprietária da casa vendida para eles, e pelos casais Josh (Jeff Conaway) e Debbi McGwin (Susan Ruttan), e os misteriosos Nicholas (James Sikking) e Matty Kline (Inga Swanson).
Porém, uma série de acontecimentos bizarros e sinistros transforma seus novos vizinhos em pessoas extremamente estranhas. Como a ocorrência de acidentes misteriosos e trágicos envolvendo um amigo de Linda, Slater (Woody Harrelson), que veio à ilha para visitá-la, e também o cachorro de estimação da moça, passando pelo comportamento nada infantil das poucas crianças do lugar, e pelos avisos de alerta para o perigo de um velho recluso numa cadeira sempre observando os movimentos de uma janela num sótão. Além de um cântico assustador ecoando pela ilha e a descoberta de uma caverna escondendo um ambiente preparado para a realização de cultos demoníacos, com um enorme pentagrama no chão e iluminação por tochas de fogo.   
O nome nacional “Despertar do Demônio” é oportunista e já entrega a temática do roteiro com uma conspiração satânica. Uma vez sendo uma produção para a televisão, quase não há violência e sangue, e o foco está na construção de uma atmosfera de suspense e mistério que lembra situação similar do clássico “O Bebê de Rosemary” (1968, de Roman Polanski). Apesar dos velhos clichês de filmes com seitas demoníacas e covil de feiticeiros, e da presença inevitável de previsibilidade nos eventos, temos aqui uma história que ainda consegue envolver o espectador com um clima de tensão crescente. Que ocorre na medida em que Linda desconfia do comportamento estranho dos habitantes da ilha, e decide investigar a história sinistra do lugar, descobrindo aos poucos a obscura verdade e reais intenções de seus moradores envolvidos com bruxaria.
“Se um mortal vir o local, deve ser sacrificado na primeira noite de lua cheia. Se o sacrifício não ocorrer à meia-noite, então qualquer pacto com Satanás será destruído.
(Juvenatrix –22/05/17)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Complô contra a América

Complô contra a América (The plot against America), Philip Roth. 440 páginas. Tradução de Paulo Henriques Britto. Coleção Companhia de Bolso, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2015. Traduzido originalmente no Brasil em 2005, pela mesma editora.

A ficção especulativa, por motivos econômicos, especializou-se em uma miríade de gêneros e subgêneros devidamente esquematizados. Autores especializados em cada um desses subgêneros exploram cada uma de suas dobras em busca de seus limites sem perder os apelos comerciais que os editores exigem. Essa prática nos trouxe uma série de bons trabalhos criativos e perturbadores mas, por mais que se tente, sempre há uma fronteira que tem que ser respeitada, um protocolo que ali está para estabelecer a identidade da obra e seu público alvo. Eventualmente contudo, ocorre de um autor importante, mas não especializado, acidentalmente ou não, adentrar os domínios de um gênero como um touro enfurecido e, sem respeitar nenhum desses protocolos, ali instalar uma obra de tal forma autoral que a crítica tem dificuldade de classificá-lo. Há diversos exemplos dessa ordem, que causam intermináveis polêmicas entre os fãs, uns denunciam a invasão não autorizada, outros festejam que alguém importante finalmente tenha enxergado valor naquilo que tanto gostam, tudo isso enquanto o crítica mainstream destila seus preconceitos.
Por exemplo, temos os casos de 1984, de George Orwell, Shikasta, de Doris Lessing, A estrada (The road), de Cormac McCarthy, Associação Judaica de Polícia (The Yiddish Policemen's Union), de Michael Chabon, Não verás pais nenhum de Ignácio de Loyola Brandão, e Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A eles se soma também Complô contra a América de Philip Roth, que recebeu uma nova edição em 2015 na coleção Companhia de Bolso, da Editora Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto.
É um caso curioso porque a obra de Philip Roth não apresenta nenhum outro livro especulativo. Sua produção está focada no realismo, em livros como O complexo de Portnoy (Portnoy's complaint) e Pastoral americana (American pastoral). Nascido em Newark, Nova Jersey, em 1933, Roth é um autor mainstream prestigiado, detentor dos mais importantes prêmios literários, entre os quais o Pulitzer e a National Medal of Arts. É um mistério os motivos que o levaram a escrever esta ficção especulativa instalada no subgênero da História Alternativa, um formato que geralmente faz sucesso apenas entre fãs de ficção científica.
Não se trata de uma ideia original. Antes de Roth, outros autores dedicaram textos à utopias nazistas na América, como, por exemplo, O homem do castelo alto (The man in the high castle), de Philip K. Dick, e O sonho de ferro (The iron dream), de Norman Spinrad, ambos já publicados no Brasil.
O caso é que Complô contra a América é muito mais que uma história alternativa. Trata-se de um romance em que o real e o imaginário misturam-se de tal forma que é praticamente impossível desassociá-los. Não porque seja difícil saber o que é historicamente correto ou não, porque essa percepção o autor providencia de modo muito claro, ao inserir, no final do livro, um apêndice detalhado com as biografias reais dos principais personagens históricos citados no romance, para "fornecer referências aos leitores interessados em saber até onde vão os fatos históricos e onde tem inicio a imaginação histórica", cita o próprio Roth na nota de esclarecimento que abre a seção.
O que não sabemos se é real ou não são os fatos ocorridos com os protagonistas, que nada mais são que os membros da família de Philip Roth, num relato que pode muito bem ser autobiográfico em sua maior parte, ou completamente inventado. Pois o romance, narrado em forma de um testemunhal, conta as impressões do infante Philip Roth que, com apenas sete anos de idade, vive um período turbulento da sociedade americana, exatamente os dias que antecederam a entrada do país na Segunda Guerra Mundial.
No romance, a comunidade judaica de Newark, onde vivem os Roth, é abalada quando, nas eleições de 1940, o herói da pátria Charles Lindberg – o primeiro homem a atravessar o oceano Atlântico sozinho num vôo sem escalas – elege-se presidente dos Estados Unidos derrotando o democrata Franklin Delano Roosevelt, que se candidatara ao terceiro mandato. Ocorre que Lindberg tinha ideias controversas, pois era antissemita assumido e admirador de Adolf Hitler. A presença de Lindberg na Casa Branca faz o país manter-se fora do conflito europeu e cria desconforto entre os judeus americanos ao abrir espaço à propagação do nazismo nos EUA.
O texto de Roth, ainda que dotado de menos maravilhamento que seus antecessores, ao importar o holocausto europeu para a América – numa situação que não aconteceu de fato –, apresenta um retrato um tanto cruel da sociedade judaica, discutindo agudamente a questão antissemita nos EUA, a estrutura familiar da comunidade, seus valores e cultura. Pelos olhos do pequeno Phil vamos acompanhar como o fascismo avança gulosamente sobre a sociedade americana, animada pela ampla aprovação à política isolacionista de Lindberg, travestida por ações pacifistas e progressistas. E a tragédia que era apenas um temor, comprova-se para a família Roth quando são tratados como cidadãos de segunda classe em uma malfadada viagem turística à capital do pais, assim como no drama do primo Alvin, que havia se alistado no exército canadense para lutar contra Hitler na Europa, mas retornou poucos meses depois sem uma das pernas, perdida em batalha.
O mais dramático, contudo, é que os traumas pelo que vão passar os Roth e seus vizinhos da comunidade judaica de Newark são, de forma geral, criados a partir da intolerância dos próprios judeus entre si, em especial a ação de Walter Winchell, radialista de enorme audiência que move uma campanha difamatória incansável – e não propriamente honesta – contra o presidente Lindberg. Em cada detalhe das recordações do pequeno Phil, as pistas de como os próprios judeus ajudam a construir as armadilhas para seus iguais, incluindo o próprio Philip que, do alto de seu inocente egoísmo juvenil, lança seu vizinho Seldon, provavelmente o único admirador que jamais teve, no pior de todos os infernos, potencializando a natureza de culpa que todo judeu carrega desde o berço.
O que enfraquece a tocante história de Complô contra a América é a atabalhoada explicação final, que sugere Lindberg como mais uma das vítimas de um plano nazista para dominar a América, sendo que tudo o que ele fez foi decorrente de chantagem, uma vez que os alemães teriam seu filho refém (na história oficial, o filho de Lindberg morreu ainda bebê, assassinado por um sequestrador psicopata). Ainda que a forma como Roth apresenta essa conspiração seja um tanto transversal, através de uma série de contraditórias reportagens de jornal que não parecem ser dignas de crédito, o efeito final é da História sendo reconduzida ao normal, apenas com um ano de atraso: os japoneses atacam Pearl Harbour em 1942 e os EUA acabam por entrar na Segunda Guerra ao lado dos aliados.
Mesmo assim, a opção de Roth por construir um holocausto pessoal pelos olhos de sua própria infância dá tal credibilidade á história que nos faz pensar que ela talvez tenha acontecido de uma forma ou outra, e que inacreditável é o fato de não ter sido assim, uma dúvida que perturbará para sempre o leitor: talvez, a história tenha sido mesmo aquela e sejamos nós que vivemos na realidade alternativa.
Cesar Silva

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Infinito em Pó

Infinito em Pó, Luís Giffoni. Belo Horizonte: Editora Pulsar, 238 páginas. Lançado originalmente em 2004.

Este romance de ficção científica surgiu em fins de 2004 quando o mercado editorial brasileiro ainda estava avesso à publicação de ficção científica. Recebeu, além disso, uma resenha favorável no caderno ‘Prosa e Verso’, do jornal carioca O Globo, um dos principais do país.
Talvez isso se explique pelo fato de Luís Giffoni, ser um um autor razoavelmente experimentado, assinando outros romances e recebendo premiações prestigiosas, como os da Academia Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Bienal Nestlé, e duas indicações para o Prêmio Jabuti, o principal da literatura nacional.
Com tais referenciais recebi o livro enviado pelo próprio autor com bastante expectativa. De que a obra pudesse acrescentar qualidade e visibilidade à ficção científica, dois elementos de que ela tanto carece entre nós. O tema, de saída, já ajuda, é dos mais interessantes, a temática da nave de gerações, que parte da Terra em direção às estrelas numa viagem muito inferior à da luz. E que por isso, só deverá ser testemunhada pelos descendentes da tripulação original, milhares de anos depois.
Lamento dizer, contudo, que o livro decepciona. Embora seja bem escrito e imerso de metáforas inspiradas, argutas observações e ironias sobre a condição humana e em particular sobre a racionalidade de uma missão como esta, o livro se enfraquece e se torna um fastio pela ausência de drama, de um enredo trabalhado. Uma narrativa que fosse mais fluente, palatável, que apresentasse e desenvolvesse tramas e problemas próprios e inerentes à operacionalidade da missão e os inúmeros perigos que ela potencialmente pode apresentar. Enfim, falta ao romance vida própria.
Há algumas especulações interessantes das, digamos, consequências sociais de avanços científico-tecnológicos. Como por exemplo, no desenvolvimento de seres humanos artificiais criados apenas para o prazer sexual dos tripulantes. Mas são secundárias dentro da trama, apresentadas mais como curiosidades, do que como possibilidades dramáticas a serem desenvolvidas.
Não que não haja um enredo. Há e já começa com um recurso metalinguístico que dilui os problemas vindouros, pois se sabe de antemão, em suas primeiras páginas, que, enfim, de um modo ou de outro, a missão teve êxito. Isso porque o livro se conta por meio de um relato de um historiador de um dos planetas habitados de Alpha Centauri. Então, já no começo, Giffoni se impõe um desafio. Qual? De contar uma história forte o suficiente para dissipar a perda de suspense, que a revelação inicial encerra. Contudo, o autor não perde tempo com este suposto esforço em contar de forma vibrante – talvez épica, por que não? –, como se deu a trajetória em direção ao sistema estelar situado a pouco mais de quatro anos-luz da Terra.
Já no primeiro capítulo se inicia um denso mergulho reflexivo – pontificado pelo óbvio recurso da primeira pessoa do singular –, no qual os principais tripulantes da nave vão alternando suas dúvidas e divagações existenciais sobre a razão de estarem ali e do destino que os aguarda.
O livro, página após página, capítulo após capítulo, com tal imersão psicológica torna-se ‘pesado’, difícil de ser lido com uma mínima fluidez e prazer narrativo. E as tais introspecções existenciais são muito semelhantes entre si, na voz de cada tripulante, causando até uma certa ambiguidade  sobre quem é realmente quem, para além dos papéis hierárquicos de cada um na nave.
Para se ter uma ideia da ‘densidade’ da narração, temos somente na página 98 a primeira sucessão de diálogos continuados em torno de um problema prático.
Ao seu modo intimista, a narrativa vai de forma paulatina mostrando alguma ação e tensão própria, saindo desta espécie de ‘inércia psicológica’. Assim é que dois fatores externos ganham relevo. O primeiro é uma guerra que viceja na Terra, envolvendo o governo mundial ditatorial e grupos rebeldes que tentam derrubar o regime. Opositores do planeta e de outras colônias humanas instaladas em outros planetas e luas do Sistema Solar. O segundo é a revelação de que a nave, Unity, leva consigo um mini-buraco negro, o que pode, potencialmente, destruir a nave e levar ao fim da missão.
O grande desfecho para as duas situações se insinua a partir dos últimos capítulos, mesclados com as repetitivas elucubrações. Na página 174, temos as frases:  “Envolta por tanta conjectura...” e “Chega de divagar...” Ora, embora estejam dentro do contexto da história, serviu a mim, na condição de leitor, como uma espécie de confissão do próprio autor sobre o exagero de sua opção de estilo. Outro exemplo emblemático se dá à página 200:

“As dúvidas são mesmo meu grande vício. Questiono por defeito de fábrica, meu selo de origem descontrolada. Quando em paz, imagino problemas para me perturbar, com frequência chuto o incômodo para a frente e desestabilizo a rotina. Será que meu gesto enriquece a vidinha a bordo?”

Apesar da sucessão de capítulos muito parecidos em suas divagações, foi divertido constatar a homenagem de Giffoni a vários escritores de ficção científica ao longo do texto. Pois vários deles foram retratados como tripulantes, cientistas, artistas e políticos. Nomes como: Arthur C. Clarke, Robert A. Heinlein, Kurt Vonnegut, Aldous Huxley, Murray Leinster, William Burroughs, Doris Lessing, Ursula K. Le Guin, Walter Miller, Jr, Edgar Allan Poe, Hugo Gernsback, tem seus sobrenomes emprestados a personagens secundários. E sim, há brasileiros: Fausto Cunha e Jorge Luiz Calife, ou melhor George Califa!, que foi o nome do personagem que se refere ao escritor carioca.
Outra expectativa quanto a este livro é o do diálogo que ele poderia estabelecer com outras obras sobre o mesmo tema. Em termos arquetípicos o melhor romance sobre nave de gerações da história da ficção científica é Nave-Mundo (Non-stop), do inglês Brian Aldiss, de 1958. Milhares de anos depois de iniciada a viagem uma distante geração de tripulantes vive em regiões diferentes e isoladas da nave, sem nem ao menos ter consciência de que estão em um vazo que singra o espaço sideral. Um terrível acidente ocorrido há muito tempo e a manutenção de um comando autocrático, sustentado por uma religião criada para legitimar o poder, mantém os tripulantes alheios à sua origem e ao seu destino. Temos um equilíbrio virtuoso sobre a aventura épica e única que representa uma missão deste tipo e as idiossincrasias humanas nela envolvidas, além das surpresas e perigos que inevitavelmente põe em risco e remodela todos os objetivos inicialmente planejados. Enfim, um clássico.
Outro que pode ser elencado é o romance As Canções da Terra Distante (The Songs of Distant Earth, de 1986), do também inglês Arthur C. Clarke. Com a proximidade do fim da Terra, a nave Magalhães é enviada para um planeta anos-luz distante de casa. Ao atingirem o destino programado, os descendentes da viagem inicial descobrem que o tal planeta já abriga uma civilização inteligente. Taí um problema fascinante a ser enfrentado. Pena que Clarke não estivesse particularmente inspirado em desenvolver a dramaticidade que o enredo suscita.
No Brasil podemos citar ao menos dois: Horizonte de Eventos (1986), de Jorge Luiz Calife – segundo livro de sua trilogia ‘Padrões de Contato’ – no qual a nave de geração não é propriamente o tema principal, mas compõe com outros – e o romance Projeto Evolução (1990), de Henrique Flory, no qual uma missão é montada às pressas ao se descobrir que o Sol se tornará em pouco tempo uma nova.
Em termos comparativos, Infinito em Pó, tem o seu diferencial. Menos pelo que traz de novo ao tema, do que pela opção de enveredar pelos meandros das reflexões existenciais dos personagens. Sem dúvida, uma opção interessante e que acrescenta um novo ponto de vista. O que compromete, porém, é o excesso.
É possível dizer que Infinito em Pó seja um livro literária e formalmente bem acabado. Que tenha o seu público próprio, pois a prosa de Giffoni é boa e bem articulada. Mas talvez tenha faltado à obra, uma busca por um equilíbrio entre o aspecto literário e intimista – tão valorizado pelo mainstream em geral –, com uma literatura que prioriza mais as ideias e o desenvolvimento do enredo, que é uma marca característica da ficção científica.

– Marcello Simão Branco



terça-feira, 2 de maio de 2017

Veio do Espaço (It Came From Outer Space, EUA, 1953)


O diretor americano Jack Arnold (1916 / 1992) é sempre lembrado pelos fãs do cinema fantástico por causa de vários filmes cultuados produzidos durante os saudosos anos 50 do século passado, como “O Monstro da Lagoa Negra” e “O Incrível Homem Que Encolheu”. Sua estréia no gênero foi em 1953 com a primeira produção da história do cinema de Ficção Científica filmada em 3-D, “Veio do Espaço” (It Came From Outer Space), do estúdio “Universal”.

Com fotografia em preto e branco, roteiro de Harry Essex, inspirado na história “The Meteor” do veterano escritor americano Ray Bradbury, o filme mostra um casal de noivos, o astrônomo John Putnam (Richard Carlson) e a professora Ellen Fields (Barbara Rush), que testemunha a queda de um meteoro no deserto do Arizona, chocando-se violentamente contra o solo nas redondezas da pequena cidade de Sand Rock. Ao investigar de perto o misterioso objeto que “veio do espaço”, o homem descobre que se trata na verdade de uma nave extraterrestre, que fica soterrada após um desmoronamento de pedras na cratera formada por sua queda. O astrônomo observador de estrelas e sua noiva são desacreditados pela população local e pelos jornalistas sensacionalistas quando mencionam a chegada de alienígenas ao nosso planeta, sendo vítimas de gozações e calúnias de auto promoção, enfrentando também a intolerância do xerife Matt Warren (Charles Drake), que organiza um grupo armado para invadir o local da queda da nave.
O objeto voador pertence a uma civilização alienígena avançada tecnologicamente, que descobriu uma forma de viajar pelo espaço sideral, conhecendo novos mundos, mas um acidente fez com que caíssem na Terra, obrigando-os a entrarem em contato com os humanos na tentativa de obterem recursos para consertar a nave e poderem partir. Eles tem o poder de assumir a forma humana, transformando-se numa réplica fria e sem emoções de qualquer pessoa, como aconteceu com uma dupla de técnicos que faziam trabalhos na área para a manutenção de postes e linhas telefônicas, o veterano Frank Daylon (Joe Sawyer) e o jovem George (Russell Johnson). Os horríveis seres do espaço não são bem recebidos e sentem a desconfiança e o despreparo da raça humana em aceitá-los como uma civilização superior e com um visual aterrador, distante da aparência humanoide (os alienígenas tem apenas um olho central, além de tentáculos e outras características que os tornam monstruosos aos olhos humanos).  
 
Analisando a história de mais de 100 anos do cinema fantástico, estou inclinado a escolher numa opinião totalmente subjetiva que os anos 50 (principalmente) e também a década seguinte, foram o período mais importante com a produção de filmes de Ficção Científica com elementos de Horror que ficaram marcados para sempre, explorando temas diversos e fascinantes como invasões alienígenas, exploração espacial, cientistas loucos em meio as suas experiências bizarras para o suposto bem da humanidade, homens transformados em monstros ameaçadores, expedições científicas rumo ao desconhecido, monstros atômicos gerados pelo descontrole da tecnologia nuclear, guerras interplanetárias... Em filmes como “O Monstro do Ártico” (51), “Destino: Lua” (51), “O Dia Em Que a Terra Parou” (51), “Colisão de Planetas” (52), “A Guerra dos Mundos” (53), “Os Invasores de Marte” (53), “Vinte Mil Léguas Submarinas” (54), “O Mundo em Perigo” (54), “O Monstro da Lagoa Negra” (54), “O Monstro do Mar Revolto” (55), “Tarântula” (55), “Vinte Milhões de Léguas a Marte” (55), “Guerra Entre Planetas” (55), “Godzilla” (56), “A Invasão dos Discos Voadores” (56), “Planeta Proibido” (56), “Vampiros de Almas” (56), “Emissário de Outro Mundo” (57), “O Começo do Fim” (57), “O Incrível Homem Que Encolheu” (57), “A Bolha” (58), “Guerra dos Satélites” (58), “A Mosca da Cabeça Branca” (58), “O Horror Vem do Espaço” (58),  “O Monstro de Mil Olhos” (59), “Viagem ao Centro da Terra” (59), “Quarta-Dimensão” (59), e muitos outros mais. E dentro dessa lista interminável de pérolas do cinema fantástico dos anos 50, temos o divertido “Veio do Espaço”. 

Entre as várias curiosidades e observações interessantes sobre o filme, podemos citar:
* Temos três outros títulos originais alternativos, “Atomic Monster”, “Strangers From Outer Space” e “The Meteor”.
* Foram apresentadas duas concepções visuais dos alienígenas para a aprovação dos executivos da “Universal”, e aquela que foi rejeitada inicialmente foi aproveitada depois como o monstro mutante de “Guerra Entre Planetas”, lançado dois anos depois.
* A ideia apresentada pelo filme mostrando os alienígenas se transformando em cópias de pessoas, assumindo a forma humana, num tratamento claro do roteiro evidenciando atitudes de xenofobia, também foi utilizada como o argumento básico de outras preciosidades da  FC como “O Dia em Que Marte Invadiu a Terra” (The Day Mars Invaded Earth, 62) e “Vampiros de Almas” (Invasion of the Body Snatchers, 56), de Don Siegel, que teve sua história baseada na obra do escritor Jack Finney, considerada como uma analogia política gerada pelos efeitos perturbadores da guerra fria e a paranoia americana de invasão comunista soviética (apesar que o próprio autor não confirma essa intenção quando escreveu o livro).
* Outra ideia interessante abordada em “Veio do Espaço” é a intenção dos alienígenas em tentar reparar os problemas da nave que ocasionaram a queda, para poderem partir de nosso planeta o mais rápido possível, algo que também aconteceu em “Escravos da Noite” (Night Slaves, 1970), com James Franciscus, onde os moradores de uma pequena cidade são manipulados e escravizados por alienígenas que os utilizam como mão de obra para consertar sua nave avariada.   
* “Veio do Espaço” é um dos poucos filmes dentro da temática de “invasão alienígena” que retrataram as criaturas do espaço como pacíficas, assim como em “O Dia Em Que a Terra Parou”, de 1951. A maioria dos filmes de FC similares fizeram questão de enfatizar os extraterrestres como hostis e ameaçadores para a raça humana.  
* Em 1996, foi lançada uma desnecessária e oportunista continuação, produzida especialmente para a televisão e dirigida por Roger Duchowny. Recebeu o nome original de “It Came From Outer Space II”.
* Em 2004, o escritor Ray Bradbury, autor da história original que inspirou a produção de “Veio do Espaço”, publicou um livro intitulado “It Came From Outer Space”, reunindo suas versões para o roteiro do filme dos anos 50. Bradbury teve várias de suas histórias adaptadas em filmes interessantes como “O Monstro do Mar” (53), “Fahrenheit 451” (66) e “O Homem Ilustrado” (69).  

Veio do Espaço / A Ameaça Que Veio do Espaço (It Came From Outer Space, Estados Unidos, 1953). Universal. Preto e Branco. Duração: 81 minutos. Direção de Jack Arnold. Roteiro de Harry Essex, baseado na história “The Meteor”, de Ray Bradbury. Produção de William Alland. Fotografia de Clifford Stine. Música de Irving Gertz e Henry Mancini. Edição de Paul Weatherwax. Direção de Arte de Robert Boyle e Ruby R. Levitt. Efeitos Especiais de Roswell A. Hoffman e David S. Horsley. Elenco: Richard Carlson (John Putnam), Barbara Rush (Ellen Fields), Charles Drake (Xerife Matt Warren), Joe Sawyer (Frank Daylon), Russell Johnson (George). 

(Juvenatrix - 25/07/2007)