quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Drácula, o Perfil do Diabo (Dracula Has Risen From the Grave, Inglaterra, 1968)


Terceiro filme da produtora inglesa “Hammer” com o famoso vampiro Drácula interpretado por Christopher Lee. Antes tivemos “O Vampiro da Noite” (Horror of Dracula, 1958) e “Drácula: Príncipe das Trevas” (Dracula: Prince of Darkness, 1966), e depois mais quatro filmes, “O Sangue de Drácula” (Taste the Blood of Dracula, 1970), “O Conde Drácula” (Scars of Dracula, 1970), “Drácula no Mundo da Mini Saia” (Dracula AD 1972, 1972) e “Os Ritos Satânicos de Drácula” (The Satanic Rites of Dracula, 1973).
Drácula, o Perfil do Diabo” tem direção de Freddie Francis e roteiro de Anthony Hinds, creditado como John Elder. A história se passa um ano após os eventos do filme anterior, com a chegada do monsenhor Ernst Muller (Rupert Davies) ao vilarejo próximo do castelo de Drácula. Vendo que os aldeões continuavam aterrorizados mesmo após a suposta destruição do vampiro, ele decide subir ao castelo no alto das montanhas para recitar em latim um ritual de exorcismo, deixando uma imensa cruz na porta da imponente e sombria construção de pedra. Ele é acompanhado pelo padre local (Ewan Hooper) e após um acidente com sua queda e um ferimento na cabeça, seu sangue ressuscita o cadáver de Drácula, preso nas águas congeladas próximas ao castelo.
A criatura da noite ressurge e transforma o padre em seu servo, partindo para a vingança contra o monsenhor que lacrou a porta do castelo com a cruz. Chegando numa pequena cidade vizinha, ele espalha o horror fazendo vítimas como Zena (Barbara Ewing), a garçonete de um bar, e tem um interesse especial na jovem Maria. Ela é sobrinha do monsenhor e é interpretada pela bela Veronica Carlson, de filmes como “Frankenstein Tem Que Ser Destruído” (1969), “O Horror de Frankenstein” (1970) e “O Carniçal” (1975). Drácula tem que enfrentar uma batalha contra o namorado ateu da moça, Paul (Barry Andrews), que trabalha na pousada de Max (Michael Ripper, o recordista de papéis coadjuvantes na “Hammer”).
 Se no filme anterior, “Drácula: O Príncipe das Trevas”, o vampiro não diz uma única palavra, por imposição de Christopher Lee, insatisfeito com o roteiro e receoso por alguma repercussão negativa do personagem, em “Drácula, o Perfil do Diabo”, o temível vampiro sugador de sangue tem até algumas falas, mas são poucas. Sempre rude e agindo com selvageria e violência, certamente seria mais interessante se Drácula tivesse uma participação maior. Suas expressões faciais continuam intimidadoras e seus olhos vermelhos de sangue traduzem o ódio e horror de forma avassaladora. Mas, o vampiro aparece pouco, no meio de uma história comum e previsível, onde sabemos sempre antecipadamente como será o desfecho num confronto final (similar em todos os filmes com o vampiro, nem sendo mais considerado um “spoiler”). Geralmente sabemos o destino dos personagens, e nesse filme as coisas não são diferentes, contando ainda com um acréscimo de moralismo religioso católico.
Por outro lado, não faltam as esperadas cenas e elementos tão característicos do horror gótico que se transformaram na marca registrada da “Hammer”, motivo maior da existência de uma imensa legião de cultuadores eternos que o estúdio ganhou a partir de suas atividades iniciadas em meados dos anos 50 e permanecendo por mais duas décadas. Temos o castelo sombrio, as carruagens, os vilarejos em pânico com seus aldeões supersticiosos, as névoas sinistras, a floresta fantasmagórica e aquela atmosfera constantemente perturbadora de medo e insegurança.
Curiosamente, o mesmo ritual de exorcismo recitado em latim que foi proferido pelo monsenhor para livrar o castelo de Dráculo do mal absoluto, foi também reproduzido na introdução de uma música da banda de metal extremo “Marduk” (Suécia). Trata-se da faixa “Accuser / Opposer”, do álbum “Rom 5:12” (2007). No “Youtube” tem vários vídeos dessa música, segue dois deles: https://www.youtube.com/watch?v=6_eMI6HM4kY e https://www.youtube.com/watch?v=rGPhzzN11fo (sendo este um show na Alemanha em 2008).
(Juvenatrix – 30/12/15)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Vingança da Deusa (The Vengeance of She, Inglaterra, 1968)


Em 1965 a produtora inglesa “Hammer” lançou a aventura com elementos de fantasia “A Deusa da Cidade Perdida” (She), com a dupla dinâmica Peter Cushing e Christopher Lee, e a estonteante Ursula Andress no papel título. Três anos depois, o cultuado estúdio retornou com o mesmo assunto lançando “A Vingança da Deusa”, dirigido por Cliff Owen (1919 / 1994), e sem os astros do filme anterior, tendo apenas o retorno de John Richardson e de André Morell, este em outro papel.
Uma belíssima jovem escandinava, Carol (a Tcheca Olinka Berova), surge desorientada caminhando por uma estrada francesa, indo parar numa praia onde decide nadar até o iate de propriedade de George (Colin Blakely), casado com Sheila Carter (Jill Melford) e amigo do médico psiquiatra Philip (Edward Judd). A garota tem um comportamento estranho e misterioso e abandona o barco sem avisar, sendo ajudada em terra pelo sacerdote místico Kassim (André Morell). Mas, coisas sobrenaturais acontecem com as pessoas próximas à garota e ela desaparece num deserto no norte da África. Philip, que nutre um interesse amoroso por ela desde que a viu pela primeira vez, se une ao capitão do barco Harry (George Sewell), e juntos partem em sua procura. A jovem garota tem habilidades que ainda não sabe controlar, e que consistem no conhecimento e no uso de um profundo poder mental transformado por rituais e símbolos numa força real viva para o bem ou para o mal. Ela pode ser a reencarnação de uma rainha tirana chamada Ayesha (”aquela que deve ser obedecida”), e sente que está sendo atraída pelo controle mental do sacerdote Men-Hari (Derek Godfrey). Após se encontrar com Philip, eles caminham pelo deserto e chegam à cidade perdida de Kuma, governada pelo rei Killikrates (John Richardson), que conquistou a imortalidade num ritual mágico envolvendo um fogo sagrado. Agora, o apaixonado Philip terá o desafio de tentar impedir o destino de Ayesha reencarnada, e voltar com Carol para casa. 
O roteiro de “A Vingança da Deusa”, de autoria de Peter O´Donnell, tem elementos que o aproximam mais de uma refilmagem do que propriamente uma sequência. Trocando os papéis da rainha imortal Ayesha do primeiro filme com o rei imortal Kallikrates do segundo filme, sobram muitas situações similares entre ambos. Por ser um filme da “Hammer”, sempre desperta um interesse especial, mas é evidente que a falta da participação de Peter Cushing e Christopher Lee, e claro, da beleza e carisma de Ursula Andress, o segundo filme perdeu muito de sua força e potencial, tornando-se apenas comum e com história reciclada. 
(Juvenatrix – 24/12/15)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Presentes (Offerings, EUA, 1989)


Exibido na televisão brasileira no cultuado “Cine Trash” da Band, “Presentes” (Offerings) tem direção, roteiro e produção de Christopher Reynolds. É um filme slasher de 1989 e extremamente datado, onde tudo, desde trilha sonora, figurinos, diálogos, atmosfera e história sobre um serial killer vingativo, nos remetem aos anos 80 do século passado.
Após o abandono do pai, o menino John Radley (Josh Coffman) parou de falar, e passou a viver recluso com a mãe megera (Rayette Potts), sofrendo perseguições e bullyng dos vizinhos e colegas da mesma idade, exceto pela amiga Gretchen (Kerri Bechthold), que o defende das ofensas dos outros. Mas, um acidente num poço traria consequências trágicas para John, que ficou deformado e foi internado numa clínica psiquiátrica pelos próximos dez anos. Fugindo do hospício e agora adulto, John (Richard A. Buswell) usa uma máscara para ocultar as feridas de seu rosto, e retorna para o bairro onde viveu na infância à procura de vingança contra os antigos colegas que o insultavam, como Kacy (Elizabeth Greene) e Linda (Heather Scott), além de Jim Paxton (Jerry Brewer), David (Tobe Sexton) e Greg (Patrick H. Berry). Enquanto ocorrem muitas mortes violentas e misteriosas, além de pedaços de corpos serem oferecidos como presentes (daí o título), a polícia tenta desvendar os assassinatos com a investigação do Xerife Chism (G. Michael Smith).
Completamente influenciado por “Halloween: A Noite do Terror” (1978), do psicopata mascarado Michael Myers, “Presentes” na verdade não oferece nada que não sejam os tradicionais e manjados clichês do subgênero “slasher”. Tudo é muito óbvio e previsível, e as cenas de mortes, apesar de sangrentas em alguns casos, também estão longe de permanecer na memória após alguns minutos do término do filme. Visto muitos anos depois, é lógico que desperta aquele sentimento de nostalgia da década de 1980, um período muito significativo para o cinema de horror, especialmente os filmes com psicopatas chacinando suas vítimas das mais diversas maneiras, com Jason Voorhees, Michael Myers e Freddy Krueger, entre outros, disputando um campeonato de empilhamento de cadáveres. Mas, além da nostalgia oitentista, sobra pouco de um filme apenas comum e que se perde na infinidade de produções similares.
O diretor e roteirista Christopher Reynolds não seguiu a carreira, tendo um currículo pequeno, formado apenas por esse “Presentes” e o seguinte “Lethal Justice” (1991). 
(Juvenatrix - 24/12/15)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O Retorno dos Mortos-Vivos (El Ataque de los Muertos Sin Ojos, Espanha, 1973)


Vocês verão os templários retornarem dos mortos! Destruiremos tudo e todos! Somos imortais! E vocês?

 É interessante notar como o mercado brasileiro de vídeo VHS já lançou uma quantidade infindável de filmes que não estão mais disponíveis. Quando a febre dos aparelhos de vídeo cassete iniciou no país, por volta de meados dos anos 1980, surgiu uma grande quantidade de distribuidoras de filmes em VHS que eram tão pequenas e desconhecidas quanto os filmes que lançavam no mercado. Tanto é que a maioria faliu e desapareceu há muitos anos, deixando suas fitas perdidas principalmente em pequenas locadoras de bairro ou sebos espalhados pelo Brasil. Porém, muitos desses filmes desconhecidos, de todos os gêneros, são verdadeiras preciosidades e tornaram-se raridades fora de catálogo para colecionadores e apreciadores do cinema menos convencional. Principalmente agora, com a proliferação dos filmes em discos DVD, que estão tornando-se cada vez mais populares e diminuindo a atenção dispensada pelo público às fitas VHS, num movimento similar ao que já aconteceu com a música, entre os nostálgicos discos de vinil e os modernos CD´s.
Um filme de horror em especial, com o sonoro título de “O Retorno dos Mortos-Vivos” (The Return of the Evil Dead), lançado no Brasil pela extinta “Visocopy”, é uma rara produção espanhola de 1973 que exemplifica muito bem o que foi exposto acima. É um filme pouco conhecido no Brasil, de baixo orçamento no mais tradicional “horror bagaceiro”, e típico representante do cinema “trash”, ou seja, com roteiro óbvio, diálogos banais, situações previsíveis, atores canastrões e amadores, efeitos toscos e tantas outras deficiências não propositais que o tornam exatamente por isso um filme que desperta interesse e principalmente proporciona um inusitado momento de entretenimento. Sem contar outros motivos que ajudam a torná-lo ainda mais especial, como sua raridade e dificuldade de acesso, sendo um filme espanhol com mais de quarenta anos desde sua obscura produção. Além de ser um exemplar tipicamente influenciado pelo clássico filmado em preto e branco “A Noite dos Mortos-Vivos” (The Night of the Living Dead), dirigido por George A. Romero em 1968, que trazia basicamente um grupo de pessoas encurraladas numa casa de campo enfrentando a fúria assassina de uma multidão de zumbis famintos por carne humana. Em “O Retorno dos Mortos-Vivos”, a história mostra um grupo de sobreviventes de uma pequena cidade refugiados numa igreja, sendo ferozmente atacados por mortos-vivos portando espadas em busca de vingança contra o que lhes aconteceu no passado.
 O filme inicia mostrando uma seita da Idade Média realizando rituais satânicos num castelo de estilo gótico. Eles são templários que trouxeram do Oriente o segredo da vida eterna, realizando sacrifícios humanos para as supremas forças do mal, arrancando o coração das vítimas, comendo suas vísceras e bebendo o sangue. Revoltados com os assassinatos nas cerimônias demoníacas, os aldeões locais capturam os templários e os executam queimando-os vivos em fogueiras. Uma vez os satanistas prometendo retornarem do mundo dos mortos para se vingarem, os aldeões então queimaram primeiro os seus olhos antes de atearem fogo em seus corpos, para com isso impedirem sua volta. Um dos próprios moradores da cidade explica o folclore em torno dos templários: “De acordo com a lenda, os aldeões queimaram seus olhos para que não pudessem voltar, para se vingarem. A superstição diz que eles seguem o som!”.
Muitos anos depois, a pequena vila portuguesa de Bouzano está se preparando para comemorar uma festa para lembrar a vitória de seus antepassados sobre os templários, onde eles simulam a execução dos satanistas com bonecos presos em fogueiras. Para alegrar ainda mais a festa, o prefeito Duncan (Fernando Sancho) e seu assistente Howard (Frank Blake), contratam um técnico americano em fogos de artifício, Jack Marlowe (Tony Kendall). Ao chegar à cidade, Jack reencontra uma antiga namorada, a agora noiva do prefeito, Srta. Vivian (Esther Roy), com quem acaba se reaproximando e com isso despertando a ira de Howard, que estava apaixonado pela jovem.
Enquanto os habitantes do vilarejo se divertem com a animada festa noturna, dançando e assistindo a queima dos fogos de artifício, próximo dali, no antigo castelo em ruínas dos templários, eles ressurgem do mundo dos mortos saindo de suas tumbas para consumarem sua vingança prevista quando foram barbaramente executados nas fogueiras. Eles se reúnem em grande quantidade, cavalgando cavalos mortos e portando espadas afiadas, e se dirigem à cidade para iniciarem um massacre. Após sangrenta carnificina, numa gritaria sem fim, com mortos e feridos para todos os lados, um grupo de sobreviventes se refugia numa igreja, sendo encurralado pelos templários esqueléticos. Formado pelo herói mocinho Jack, sua namorada Vivian, o prefeito corrupto e sem escrúpulos Duncan e seu capanga Howard. Ainda tem um casal, Bert (Ramón Lillo) e Amalia (Lone Fleming), com sua pequena filha Nancy (Maria Nuria), uma bela jovem, Monica (Loreta Tovar), que havia visto o namorado ser assassinado, e o vigia do local, um retardado corcunda, Murdo (José Canalejas), que ajudou  no retorno dos mortos-vivos matando uma mulher diante de suas tumbas, mas que foi ignorado pelas caveiras ambulantes. Uma vez encurralados na igreja por uma multidão de mortos-vivos, o grupo vai aos poucos sendo dizimado violentamente enquanto lutam pela sobrevivência, aguardando a chegada do amanhecer. 
 Algumas cenas são bastante interessantes, destacando as sequências em que os templários têm seus olhos dolorosamente queimados por tochas ardentes em fogo; ou quando um homem tem sua mão e outro sua cabeça violentamente decepados em golpes precisos das espadas dos mortos-vivos; ou ainda na brutal chacina dos habitantes do pequeno vilarejo, numa correria desenfreada com sangue e corpos caindo aos montes, vítimas dos templários vingadores.
Os efeitos especiais são extremamente precários, principalmente num momento em que o herói Jack arremessa sobras de fogos de artifício nos zumbis com o objetivo de derrotá-los. Alguns caem mostrando claramente tratarem-se de simples bonecos imóveis, num efeito exageradamente tosco. O roteiro tem erros grotescos de continuidade e diálogos tão infantis que nos incitam a torcer para o sucesso do plano de vingança dos bruxos medievais. Porém, os figurinos dos mortos-vivos são bastante convincentes, dando a impressão sombria de esqueletos podres vestindo grandes capas surradas e desgastadas pelo tempo, auxiliados por uma fotografia escura.
“O Retorno dos Mortos-Vivos” é o segundo filme de uma série de quatro dentro do mesmo universo ficcional, porém com histórias independentes. Sendo precedido por “A Noite do Terror Cego” (1972) e tendo outras duas sequências posteriores, “O Galeão Fantasma” (1974) e “A Noite das Gaivotas” (1975), todos dirigidos por Amando De Ossorio e constituindo-se numa cultuada tetralogia do cinema fantástico envolvendo a sempre fascinante temática de “mortos-vivos”.

(Texto originalmente em Fevereiro de 2003, publicado em 10/12/2005 no blog www.juvenatrix.blogspot.com.br)

O Retorno dos Mortos-Vivos (El Ataque de los Muertos Sin Ojos / The Return of the Evil Dead / The Return of the Blind Dead, Espanha, 1973). Ancla Century / Atlas International. Duração: 83 minutos. Direção e roteiro de Amando De Ossorio. Produção de Raymond Planta. Fotografia de Michael Mila. Edição de Joseph Anthony. Maquiagem de Joe Louis Campos. Música de Tony Abril. Elenco: Tony Kendall, Fernando Sancho, Esther Roy, Frank Blake, Lone Flemming.
(Juvenatrix - Fev. 2003)

Os filhos de Anansi, Neil Gaiman

Os filhos de Anansi (Anansi boys), Neil Gaiman. 384 páginas. Tradução de Juliana Lemos. Editora Conrad, São Paulo, 2006.

O mágico pode estar logo além da esquina. A cada minuto acontece um milagre sobre a Terra, muitos são documentados e testemunhados. Acontecimentos inusitados podem estar prestes a maravilhar a existência de qualquer um. É claro que na maior parte das vezes esses pequenos milagres são apenas impressões, frutos de uma percepção alterada da realidade, esta sim, uma ilusão de nossos sentidos. Uma breve pane sensorial pode fazer o mundo virar literalmente do avesso, para voltar ao normal pouco depois. A impressão forte pode ser interpretada como uma epifania, uma revelação divina. Dificilmente uma pessoa voltará ao seu estado normal depois de uma experiência como essa.
Mas, e se não for apenas uma impressão? E se não for somente uma falha dos sentidos? E se for... real?
É isso que parece estar acontecendo com Charles Nansi – ou Fat Charlie, um apelido de infância –, um jovem afro-americano que vive no subúrbio londrino, tem um emprego numa agência de artistas, um patrão de quem ele decididamente não gosta e uma noiva inglesa de quem ele acha que gosta e que acredita que gosta dele. Nada de muito diferente da rotina de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Fat Charlie vai levando sua vida, aguentando o mau-humor do patrão, a rabugice da futura sogra e a resistência puritana da noiva, que só vai permitir maiores intimidades depois do casamento, marcado para breve. Ela insiste que ele convide o pai para a cerimônia e isso deixa Charlie em pânico.
O pai de Fat Charlie é o que se pode chamar de bon-vivant, um negro sorridente e simpático, que vive curtindo, cantando, dançando e namorando. E é o cara mais constrangedor do mundo. Charlie guardava lembranças ruins de seu pai e se tinha uma coisa que ele não queria era um constrangimento gigante no dia de seu casamento. Mas a noiva tanto insiste que ele decide entrar em contato com a parentela, na Flórida. Viaja para os EUA e descobre, mais aliviado que surpreso, que seu pai morreu. Obviamente, numa situação constrangedora.
Mas havia algo que Charlie não sabia: ele tem um irmão gêmeo. As vizinhas de seu pai, umas velhas assustadoras que agora eram as únicas referências da sua infância, contaram a novidade e estranharam que ele não se lembrasse do irmão. Era uma peste, diziam. Foi morar em outro lugar. Mas, se ele quisesse, poderia chamá-lo. Bastava pedir a uma aranha, qualquer aranha, que ele viria.
Charlie, acreditando que as velhotas estavam esclerosadas, volta para a Inglaterra satisfeito por não ter o pai no casamento. Retorna para o seu emprego medíocre e sua noiva certinha. Numa noite especialmente confusa, enche a cara de vinho branco e faz aquilo que devia – ou não, se quisesse manter sua vida medíocre – ao encontrar uma aranha enorme na banheira, pede a ela que mande um alô para o irmão. Na manhã seguinte, Spider está diante do seu portão.
Spider, o irmão de Fat Charlie, é completamente diferente dele. Parece ser mesmo um filho do velho Nansi, pois é alegre, atraente e muito desencanado. Mas, além de tudo, sabe fazer uns truques maneiros, como tornar um armário num quarto enorme equipado com os mais caros e avançados sonhos de consumo do mercado. Spider é uma espécie de mago-rebelde-sem-causa, que herdou os poderes mágicos que seu falecido pai sempre teve.
Através de Spider, Charlie descobre que ambos são filhos de Anansi, um deus africano que faz com que a realidade mantenha-se nos eixos. Anansi é aquele trapaceiro de quem as lendas falam: a aranha, o macaco, o coelho e outras personificações de um ser esperto que sempre se dá bem no final das histórias. Mas se assim é, como pode ter morrido?
Este é um dos muitos mistérios transcendentais a serem desvendados por Charlie, assim como deve descobrir qual é o seu lugar no plano geral do universo. Isso tudo enquanto manobra a noiva que tem uma aventura voluptuosa com Spider; o chefe, que planeja dar um grande desfalque nos clientes e lançar a culpa em Charlie; as velhotas, que ainda não lhe contaram nem metade da história; Spider que, apesar de ser seu irmão, parece ser um furacão de problemas... e o tigre. Tigre? Bom, pode também ser um leão ou uma onça, dá no mesmo.
Assim são as coisas no universo de Os filhos de Anansi, romance de fantasia do escritor e roteirista britânico Neil Gaiman. Antes de ficar conhecido como romancista, Gaiman já mostrava talento no mercado de história em quadrinhos. Foi de sua pena que saíram os roteiros de uma das mais bem sucedidas, premiadas e cultuadas séries: Sandman, da DC Comics. Gaiman pegou um personagem aparentemente sem substância, ridículo até, e o tornou num caldeirão de ideias bem desenvolvidas. Mesmo depois de encerrada, com mais de 70 episódios publicados, Gaiman voltou ao universo de Sandman várias vezes, em séries curtas e novelas ilustradas. De repente, estava publicando romances.
Geralmente, os leitores de fc&f não recebem muito bem os escritores que vem dos quadrinhos. Gardner Fox e Stan Lee que o digam. Por isso, foi mesmo uma surpresa quando Gaiman começou a faturar Hugos e Nebulas um atrás do outro. A começar por American gods (Prêmios Hugo, Nebula, Locus e British S.F. de melhor romance de 2002), e Coraline (Prêmios Hugo, Nebula e Locus de melhor novela de 2003), além de vários outros prêmios para contos e noveletas em 2003 e 2004.
Era possível esperar que Os filhos de Anansi tivesse o mesmo sucesso. E não decepcionou: conquistou o Prêmio Locus de melhor romance de fantasia de 2006 e Prêmio British Fantasy de melhor romance de 2006.
Os filhos de Anansi surpreende em muitos aspectos. Para começar, os personagens principais são negros. É claro que Gaiman deixou esse detalhe bastante submerso na narrativa, talvez porque conheça bem as regras não escritas do mercado editorial no qual transita. De qualquer forma, um romance em que o protagonista é negro sem qualquer estereótipo já é, por si, uma variação muito importante. Além do mais, Gaiman usou e abusou da mitologia africana para montar o background sobrenatural de seu romance. Um aproveitamento muito sofisticado e sem proselitismos. Algumas das histórias que ele conta sobre as aventuras do velho Anansi têm paralelos idênticos na mitologia brasileira. Bem, Gaiman esteve no Brasil algumas vezes...
A tradução, assinada por Juliana Lemos, foi muito feliz. Algumas figuras literárias florescem aqui e ali, como se o autor as tivesse criado para serem lidas em português. É claro que isso é mérito da tradução, mas fornece uma boa ideia de como deve ser prazerosa a leitura no inglês original.
O romance não é longo e a leitura agradável o torna ainda mais ligeiro. Rapidamente, as páginas se esgotam no inevitável fim e, com ele, vem a sensação que sucede a última página de todos os bons livros: bem que poderia ter se demorado mais um tantinho. Neste caso, faça como eu: leia de novo. E de novo.
— Cesar Silva

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Doce Aroma da Morte (The Sweet Scent of Death, Inglaterra, 1984)


Episódio 8 da série de TV “Hammer House of Mystery and Suspense”, produzida em 1984 pelo cultuado estúdio inglês “Hammer”, em parceria com a americana “Fox”, sendo por isso também conhecida como “Fox Mystery Theatre”. Foram apenas 13 episódios com duração aproximada de 70 minutos, que acabaram transformando-se em filmes independentes. No Brasil, foi exibida em nossas televisões com os títulos “Suspense” ou “Cine Suspense”.
O Doce Aroma da Morte” (The Sweet Scent of Death) tem direção do húngaro Peter Sasdy, cineasta conhecido da própria “Hammer”, assinando filmes como “O Sangue de Drácula” (1970) e “Condessa Drácula” (1971). No elenco, temos os experientes Dean Stockwell, com mais de 200 créditos na longa carreira e Shirley Knight, que não fica muito atrás, com uma infinidade de trabalhos no currículo.
O diplomata americano Greg Denver (Dean Stockwell) se muda para a Inglaterra para assumir a embaixada em Londres. Muito atarefado, ele decide passar mais tempo com a esposa Ann Fairfax (Shirley Knight), uma advogada que deixou a profissão para acompanhar o marido. Eles se mudam para uma mansão rural, porém depois instalados na nova casa, fatos misteriosos começam a ocorrer e Ann sente que está sendo observada e atormentada por alguém à espreita. Levantando suspeitas sinistras de acontecimentos de seu passado nos Estados Unidos, onde ela defendeu no tribunal o suspeito pelo assassinato de uma jovem que ia se casar com Terry Marvin (Michael Gothard), que vive agora nos arredores da mansão como florista, especializado em rosas vermelhas (daí a relação com o título do filme). Outras personagens se envolvem no mistério como a estranha secretária de Greg, Paula (Toria Fuller), e a responsável pelas Relações Públicas do embaixador, a bela Suzy Kendrick (Carmen Du Sautoy), despertando a investigação policial a cargo da dupla de detetives formada pelo Sargento Wells (Robert Lang) e Constable Gray (Struan Rodger).
É uma típica história de detetive, com seus elementos característicos, assassinatos, vinganças, clima de mistério, tensão e suspense, com investigação policial e as tradicionais reviravoltas, tudo funcionando até de forma eficiente, mas sem fugir muito do comum, faltando as sempre esperadas novidades ou mais ousadia no roteiro. É um episódio ligeiramente menor dessa interessante série da “Hammer”. (Juvenatrix – 22/12/15)

domingo, 20 de dezembro de 2015

Tatuagem - A Marca do Diabo (Mark of the Devil, Inglaterra, 1984)


Em 1984 a produtora inglesa “Hammer” lançou uma série para a televisão que recebeu o nome no Brasil de “Suspense” ou “Cine Suspense” (Hammer House of Mystery and Suspense), numa produção em parceria com a Fox (por isso também era conhecida como “Fox Mystery Theatre”). Foram 13 episódios com histórias independentes e duração de 70 minutos. O primeiro episódio foi “Tatuagem – A Marca do Diabo” (Mark of the Devil), dirigido por Val Guest (1911 / 2006), conhecido cineasta por assinar vários filmes importantes da “Hammer” como “Terror Que Mata” (1955), “Usina de Monstros” (1957), “O Monstro do Himalaia” (1957). E no elenco temos Dirk Benedict, que foi o homem transformado em monstro no divertido “O Homem-Cobra” (1973) e também seu rosto é conhecido e identificado pelos fãs da série de TV “Galactica: Astronave de Combate” (1978 / 1979), como o Tenente Starbuck.
Frank Rowlett (Dirk Benedict) está apaixonado pela bela Sara Helston (Jenny Seagrove), que é filha de um rico empresário (John Paul) e que torna-se sua esposa. Mas, ele está envolvido em negócios obscuros, devendo dinheiro para o Sr. Westcott (Tom Adams), que o ameaça para receber o pagamento. Pressionado, ele tentar ganhar algum dinheiro num jogo de cartas e para conseguir entrar na partida de poker ele vende seu relógio (um presente de Sara) para um misterioso tatuador chinês, Hai Lee (Burt Kwouk), também conhecido por envolvimento com magia negra. Porém, Frank descobre que o chinês guarda muito dinheiro em sua casa e decide roubá-lo. Eles entram em confronto e Frank é ferido levemente no peito por uma adaga de tatuagem. O que ele não imaginaria é que a pequena mancha vermelha se transformaria numa enorme tatuagem que cobre seu corpo e cujos desenhos tornam-se reveladores, obrigando-o a evitar exposição com a esposa, se esconder e cometer assassinatos. Além de fugir também de uma investigação policial liderada pela dupla formada pelo Inspetor Grant (George Sewell) e Sargento Kirby (Peter Settelen).  
A história é simples e curta, mas mesmo com essas características, é bastante eficiente. Possui tudo aquilo que queremos ver num filme de suspense com elementos de horror: eventos sobrenaturais, magia negra, mistério, tensão, vingança, assassinatos, investigação policial e principalmente o pesadelo vivido pelo protagonista, que luta para se livrar de uma terrível maldição.
Curiosamente, a cópia desse filme que tive acesso é uma gravação tosca em VHS convertido para DVD, de quando foi exibido na televisão no final doa anos 80 pela TV “Alterosa”, de Belo Horizonte/MG, afiliada do “SBT”. Rever “Tatuagem – A Marca do Diabo” com a dublagem original da época foi um exercício de pura nostalgia, em mais um presente que a “Hammer” deixou para seus cultuadores. 
(Juvenatrix – 19/12/15)

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

30 Anos do Clube de Leitores de Ficção Científica

Marcello Simão Branco


Nos anos 1960 e 1970 boa parte dos livros de ficção científica que apareceram nas livrarias e bancas de jornal brasileiras eram coleções de bolso. Pequenos, baratos e relativamente perecíveis. Muito semelhantes às revistas pulps publicadas nos Estados Unidos nos anos 1930 e 1940. As coleções eram em sua maioria de origem portuguesa: Antecipação, Argonauta, Europa-América; e brasileiras, como Bruguera, Galáxia e Urânia, entre outras. Leitor e colecionador de todos estes livrinhos, Roberto Cesar do Nascimento resolveu escrever um livro sobre a coleção mais importante destas todas, a Argonauta, publicada pela editora lusitana Livros do Brasil, desde o início dos anos 1950. O livro chamou-se Quem é Quem na Ficção Científica: Volume 1, A Coleção Argonauta (João Scortecci Editor, 1985) e, ambicioso, Nascimento incluiu em seu final uma ficha de inscrição para a criação de uma associação de leitores voltada ao gênero.

Como resultado concreto deste sonho em conhecer outros como ele em seu amor e devoção à ficção científica, foi fundado no dia 15 de dezembro de 1985 o Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), na cidade de São Paulo. Além do Nascimento, outros três são considerados fundadores: Ivan Carlos Regina, Fritz Peter Bendinelli e Walter da Silva Machado. Assinaram a ata, escreveram o estatuto, registraram em cartório e publicaram o número zero do “Boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica”. Tudo muito organizado, característica principal do Nascimento.

Previsto para ser mensal, o boletim só ganhou seu nome definitivo em julho de 1986, na sétima edição. Por meio de um concurso promovido entre os sócios, o nome escolhido foi “Somnium”, uma homenagem à história de mesmo nome publicada pelo astrônomo alemão Johannes Keppler (1571-1660), numa sugestão do sócio José dos Santos Fernandes. Desde então o Somnium representou um dos principais centros de divulgação, publicação, debate e crítica da ficção científica realizada no Brasil. Pelo menos nos anos iniciais, sob edição do Nascimento, foi regular, característica que seria abandonada drasticamente nas administrações posteriores. Mesmo assim publicou a incrível marca de 100 edições impressas no ano de 2007, e está atualmente na 111ª. Em termos de qualidade, o fanzine sempre esteve entre os mais importantes e influentes. Venceu o Prêmio Nova de “Melhor Fanzine” em 1987, 1989 (empatado com o Megalon) e 1991; e venceu como “Melhor Publicação Semi-Profissional”, em 1994.

De suas páginas surgiram e/ou se desenvolveram a maior parte dos talentos da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, seja como escritor, crítico, editor, ilustrador: Braulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, Ivan Carlos Regina, Roberto Schima, Roberto de Sousa Causo, Fábio Fernandes, Lúcio Manfredi, Carlos Orsi Martinho, Miguel Carqueija, Jorge Luiz Calife, Gilberto Schoereder, Carlos Andre Mores, José dos Santos Fernandes, Sylvio Gonçalves, Ataíde Tartari, Cesar Silva, Henrique Flory, Octávio Aragão, Martha Argel, Finisia Fideli, José Carlos Neves, e tantos outros. Tal conjunto fez do Somnium o fanzine que mais teve histórias premiadas: 10 prêmios Nova, um Tapìrài e um Argos. Entre os editores do Somnium, tivemos o já citado Nascimento, Lúcio Manfredi, Christiano de Melo Nunes, Luiz Marcos da Fonseca, Carlos André Mores, Marcello Simão Branco, Alfredo Keppler, Cesar Silva, Matias Perazoli Júnior, Daniel Borba, e Ricardo Guilherme dos Santos. O decano dos autores brasileiros de ficção científica, André Carneiro (1922-2014), manteve por vários anos a coluna “Crônicas do André”, com saborosas passagens de sua vida pessoal e literária. Entre fins dos anos 1980 e início dos 1990, o fanzine tinha tal evidência no fandom, que chegou a ser parodiado, com outro fanzine chamado Zomnium, publicado por sócios do Rio de Janeiro.

Além da publicação principal, o CLFC manteve também por alguns anos o Informativo Mensal CLFC, mais voltado à parte social, com informe de novos sócios, eventos, convocações para reuniões etc. Entre seus editores tivemos nomes como Adriana Simon, Ataíde Tartari e Humberto Fimiani. Em termos de livros, o CLFC publicou dois: o primeiro foi Vinte Voltas ao Redor do Sol, organizado por Alfredo Keppler, em comemoração ao aniversário de 20 anos, no ano de 2005. Uma caudalosa e representativa antologia de 390 páginas com depoimentos e 20 histórias escritas por sócios. Já o segundo foi Brasil Fantástico: Lendas de um País Sobrenatural, organizado por Clinton Davisson, Grazielle de Marco e Goergina de Sousa. Ao contrário do primeiro, que foi publicado com recursos do clube, este saiu com o selo da editora Draco, em 2013. Curiosamente uma antologia com 11 histórias de fantasia e horror.

Talvez a atividade mais tradicional do clube seja os encontros mensais. Desde a fundação, os sócios paulistas têm se reunido no último sábado do mês. Nos primeiros anos era de manhã, na então Livraria Paisagem, na Avenida São Luís, Centro de São Paulo. Nesta época outro ponto de encontro regular era a Livraria Temos Livros, na Avenida São João, também no Centro da capital paulista. Do início dos anos 1990 até o início dos anos 2000 o local foi a sede do sindicato dos engenheiros ferroviários de São Paulo, próximo à Estação Luz do metrô, e desde então tem sido realizada à noite, numa pizzaria no bairro da Aclimação, pertencente à família do sócio Humberto Fimiani. Mais recentemente, no segundo semestre de 2015, além do encontro gastronômico, tem havido a tentativa de retornar as reuniões vespertinas, na sede da Devir Livraria. Os grupos de sócios de outros estados não foram tão regulares, mas por vários anos especialmente os sócios do Rio de Janeiro (na capital) e do Rio Grande do Sul (em Porto Alegre), também realizaram animadas reuniões periódicas. As reuniões chegaram a ser muito aguardadas e concorridas, principalmente porque divulgavam as novidades do clube, novos livros, contatos com entidades do país e do exterior, a chance de conhecer novos fãs e sócios, mostrar e vender livros e fanzines, apresentar novos projetos etc. É importante lembrar que nos anos 1980 e em parte dos 1990 não existia internet e nem TV a cabo, além de existir muita dificuldade em importar livros e revistas, por causa da inflação e da burocracia. Desta maneira uma das principais formas de se informar sobre FC era por meio das reuniões, além dos próprios fanzines. Nos anos iniciais, pelo menos em São Paulo, cada reunião tinha como principal atração uma palestra ministrada por algum sócio que fosse especialista num tema, numa obra ou num autor. Chegavam a aparecer 40, 50 pessoas nas reuniões, verdadeiras mini-convenções que se estendiam pelo dia adentro. Velhos e saudosos tempos.



      


Já em seus primeiros anos o CLFC procurou divulgar o clube e a FC junto à sociedade em geral. Realizou duas mostras no Sesc Pompéia, em 1986 e no Sesc Carmo, em 1988. Dois eventos que trouxeram prestígio à associação. Em 1988 organizou uma “Semana de FC”, na então Livraria Belas Artes, na Avenida Paulista, com debates e exposições sobre itens de FC. Já em meados dos anos 1990, realizou dois encontros “FC e Universidade” em São Paulo, com debates entre sócios, acadêmicos e personalidades ligadas à cultura. Num deles esteve presente o indigenista Orlando Villas Boas (1914-2002). Nos anos posteriores, o CLFC esteve presente como entidade convidada ou associada de vários eventos, como a RhodanCon – Convenção Brasileira sobre Perry Rhodan, em 1994, a Convenção Brasileira de FC, em 1995 – ambas realizadas em São Paulo –, as InteriorCons: Convenções de Ficção Científica do Interior de São Paulo, realizadas de 1990 a 1997 pelo sócio Roberto de Sousa Causo, na cidade de Sumaré e, mais recentemente, o clube tem participado de eventos como as JediCons, de iniciativa dos fãs de Star Wars, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Além dos eventos, especialmente nos seus primeiros anos, o CLFC foi bastante divulgado na imprensa de São Paulo, em jornais como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e na revista Veja. Eu mesmo conheci o clube em 1986 através de uma destas reportagens, publicada no Jornal da Tarde.
Ao longo dos anos foi possível acompanhar uma verdadeira troca de gerações no comando e na liderança do clube. Os primeiros presidentes participaram da chamada Primeira Onda, dos anos 1960, seja como fãs, leitores, colecionadores, escritores ou editores. O Nascimento, o Luiz Marcos da Fonseca e o Gumercindo Rocha Dorea. De meados dos anos 1990 em diante, uma nova geração assumiu a entidade: primeiro de sócios surgidos na Segunda Onda nos primórdios do clube: Gerson Lodi-Ribeiro, Humberto Fimiani e Alfredo Keppler; depois os mais identificados com os anos recentes: Ana Cristina Rodrigues, Eduardo Torres – este não em termos de idade, mas de participação –, e o atual presidente Clinton Davisson. Outros nomes que assumiram cargos de diretoria incluem, entre outros, Ivan Carlos Regina, Sérgio Roberto Lins da Costa, Fritz Peter Bendinelli, Daniela Bittencourt, Marcello Simão Branco, Cesar Silva, Matias Perazoli Júnior, Ataíde Tartari, Adriana Simon, Gabriel Bozano, Paulo Elache.
O CLFC não foi o marco inicial da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira. Antes dele, foi fundado o Clube de Ficção Científica Antares (CFCA), de Porto Alegre, e a Sociedade Astronômica Star Trek (SAST), de São Paulo, ambos de 1982 – os dois misturavam entre seus interesses ficção científica e astronomia. Além deles, tivemos ao menos dois fanzines importantes, como o Boletim Antares, do CFCA, e o Hiperespaço, editado por Cesar Silva, José Carlos Neves e Mário Mastrotti, ambos também de 1982.
Mas o CLFC foi o ponto central de convergência de atividades e resultados de toda a Segunda Onda. Especialmente de 1985 a 1995 é possível afirmar que o clube esteve à frente da maior parte das atividades e polêmicas em torno do gênero no país. Nesta época o clube chegou a ser consultado para a publicação de livros de FC, uma espécie de consultoria informal, em algumas editoras. Sócios de destaque divulgaram, publicaram e participaram da revista Isaac Asimov Magazine, publicada pela Editora Record, entre 1990 e 1993, em suas 25 edições. Um exemplo disso foi a composição do júri do “Concurso Jerônymo Monteiro”, no qual dois dos três integrantes pertenciam aos quadros do CLFC. Como parte deste prestígio, o clube torna-se uma das poucas associações de fãs do gênero em todo o mundo a ser aceito como membro da Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFWA).
A queda da importância, uma verdadeira decadência, começa a vigorar em meados dos anos 1990 devido a uma série de motivos. Entre eles, problemas sucessórios e administrativos, um conflito de gerações entre sócios mais colecionadores e outros mais produtores, e como parte disso pela busca por objetivos mais individuais de sócios que despontaram como artistas com chances de êxito profissional, além da queda brutal no número de livros do gênero lançados no país, o que causou certa depressão no fandom como um todo, especialmente depois do fim da Isaac Asimov Magazine. Já nos anos 2000, a falta de relevância foi aprofundada com a segmentação social provocada pela internet – que trouxe também novas maneiras de articular a divulgação e produção de FC –, além de uma nova geração de talentos sem participação prévia na história da associação, e o afastamento de vários sócios dos primeiros anos.
Houve, contudo, algumas formas de resistência contra a crescente perda de importância. Em 2000 foi criado o Prêmio Argos. Durou quatro edições e nas duas primeiras remunerou os vencedores na tentativa de chamar a atenção da mídia. Não deu certo. Mas em 2012 o prêmio voltou a ser organizado, e conta já com mais quatro edições. Neste segunda fase, o Argos têm tido uma boa participação eleitoral dos sócios.
Também aconteceram algumas iniciativas editoriais. Em 2001 o clube firmou uma parceria editorial com editora Meia-Sete, para indicar contos para a revista Sci-Fi News Contos. Mas a revista durou só duas edições. E, como já citado, dois livros foram publicados, ainda que de alcance restrito às fileiras do fandom.
Nestes 30 anos conhecer a trajetória do CLFC é importante para a compreensão da história recente da FC brasileira e dos seus rumos possíveis. Porém, mais que isso, embora sem pretender alcançar a relevância dos seus primeiros anos, o clube pode voltar a ser uma entidade útil para a divulgação, articulação de atividades e promoção de talentos nos dias de hoje. Um pólo informal de atração e identificação do gênero no Brasil, num momento de tantas atividades, mas de certa desarticulação entre elas.
  
-- Marcello Simão Branco é o sócio n. 83, desde maio de 1987.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A Noite das Gaivotas (La Noche de las Gaviotas / Night of the Seagulls, Espanha, 1975)


Quarto e último filme da cultuada tetralogia dos mortos-vivos cegos do espanhol Amando de Ossorio. “A Noite das Gaivotas” é o sucessor de “A Noite do Terror Cego” (The Night of the Blind Terror, 1972), “O Retorno dos Mortos-Vivos” (The Return of the Evil Dead, 1973) e “O Galeão Fantasma” (The Ghost Galleon, 1974).
Uma ordem de cavaleiros templários com centenas de anos realiza cerimônias de magia negra idolatrando um demônio do mar, uma criatura bestial representada por uma estátua, que transformou os seguidores da seita em mortos-vivos esqueléticos vestindo trapos esfarrapados. Eles amaldiçoaram uma pequena vila à beira do mar, e para não destruí-la exigiram a cada sete anos, durante sete noites seguidas, o sacrifício de jovens e belas mulheres. Um médico, Dr. Henry Stein (Victor Petit) chega ao vilarejo com sua esposa Joan (Maria Kosti), para substituir o antigo médico (Javier de Rivera), ávido e impaciente pela transferência daquele lugar maldito. O casal é mal recebido pelos aldeões que não desejam os serviços médicos e não querem intrusos. Eles vivem numa aura de mistério e medo, escondendo um terrível segredo. Porém, uma única pessoa decide ajudá-los, a bela jovem Lucy (Sandra Mozarosky), que se oferece como empregada. Mas, as sinistras procissões noturnas na beira da praia e o desaparecimento de jovens mulheres desperta a atenção do Dr. Stein, que tenta descobrir a verdade e passa a lutar para defender sua vida, da esposa e de Lucy.   
Apesar de fazerem parte de um mesmo universo ficcional, os filmes com os mortos-vivos cegos de Amando de Ossorio podem ser conferidos isoladamente, com histórias independentes em torno de uma ideia central com os templários satanistas zumbis cadavéricos. Em “A Noite das Gaivotas”, temos uma incrível e constante atmosfera sombria com locações arrepiantes de gelar a espinha. E mesmo esbarrando nos velhos e tradicionais clichês do estilo, com efeitos bagaceiros (mas que divertem justamente pela tosquice), e pela narrativa por vezes lenta, é inegável sentir o efeito de horror autêntico escondido nos opressores castelos de pedras, iluminados por tochas de fogo. Além dos aldeões sempre rudes com forasteiros, escondendo segredos antigos, os rituais satânicos com sacrifícios humanos (com direito a corações arrancados e corpos devorados por caranguejos), e as misteriosas comitivas noturnas na praia, com sinos tocando e cantorias tristes simulando lamentos. Tem ainda os gritos agonizantes das gaivotas do título, ecoando pela noite e representando as almas sofridas das mulheres sacrificadas em nome de uma criatura demoníaca marinha, que lembra as feras indizíveis da literatura de H. P. Lovecraft. Não poderia faltar também um panaca com deficiência mental que sofre perseguições com pancadarias e apedrejamentos dos habitantes da vila. Ele é Teddy (interpretado por Jan Antonio Castro) e além de seu nome soar bem estranho, ele é resgatado pelo médico e sua esposa, e morre de medo dos mistérios que envolvem o vilarejo durante a noite. Entre os clichês explorados, tem também a cena dos sobreviventes encurralados numa casa, tentando suportar o ataque dos mortos-vivos sem olhos empunhando suas espadas, numa referência ao clássico americano “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), de George Romero. 
(Juvenatrix – 14/12/15)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O Galeão Fantasma (El Buque Maldito / The Ghost Galleon, Espanha, 1974)


O diretor e roteirista espanhol Amando de Ossorio (1918 / 2001) ficou eternizado na história do cinema de horror bagaceiro pela realização de quatro filmes sobre mortos-vivos cegos, que eram antigos cavaleiros templários satanistas. A quadrilogia é composta por “A Noite do Terror Cego” (La Noche del Terror Ciego / The Night of the Blind Terror, 1972), “O Retorno dos Mortos-Vivos” (El Ataque de los Muertos Sin Ojos / The Return of the Evil Dead, 1973), “O Galeão Fantasma” (El Buque Maldito / The Ghost Galleon, 1974) e “A Noite das Gaivotas” (La Noche de las Gaviotas / Night of the Seagulls, 1975). E, apesar de todos fazerem parte do mesmo universo ficcional, os filmes são independentes entre si.  
Em “O Galeão Fantasma”, o terceiro filme da série, a modelo Noemi (Bárbara Rey) está procurando sua amiga desaparecida Kathy (Blanca Estrada), e descobre com a fotógrafa Lillian (Maria Perschy) que ela está numa lancha em alto mar, junto com outra modelo, Lorena (Margarita Merino). Elas estão participando de uma ousada campanha de publicidade dos iates do empresário Howard Tucker (Jack Taylor). A ideia planejada seria um resgate no meio do oceano, despertando a atenção da mídia para a resistência dos barcos de Tucker, que garantiram a segurança delas até o salvamento. Porém, o plano sai de controle quando a lancha das moças encontra um antigo galeão holandês do século XVI navegando errante envolto numa névoa fantasmagórica. Elas sobem à bordo e encontram um cenário desolado e sem tripulantes.
Em paralelo, um grupo parte secretamente para resgatar as modelos, após conseguirem um contato por rádio onde elas reportaram o encontro com o navio fantasma. A equipe é formada pelas mulheres Noemi e Lillian, junto com Tucker, acompanhado do capanga Sergio (Manuel de Blas) e do cientista Prof. Gruber (Carlos Lemos), um estudioso do misterioso galeão, que nunca é detectado por radar ou instrumentos de navegação, mas que é assunto lendário em casos de desaparecimento de pequenos barcos. Eles descobrem o segredo do misterioso navio fantasma, por um preço que pode custar suas vidas.
Os zumbis são originários de uma ordem blasfema de cavaleiros templários que realizavam cultos satânicos, e que conseguiram dominar a morte por magia, transformando-se em criaturas esqueléticas vestindo capas surradas com capuzes sinistros. Em “O Galeão Fantasma”, o roteiro de Amando de Ossorio é bem forçado e inverossímil na forma como as vítimas encontram o navio sobrenatural, com a premissa de uma inconvincente campanha de marketing para promover o lançamento de barcos. E tem algumas cenas bagaceiras exageradas como o naufrágio do galeão sobrenatural num incêndio tosco. A narrativa também é lenta e cansativa em alguns momentos. Mas, em compensação, temos uma ideia interessante sobre um navio que vaga sem rumo por uma região quente em outra dimensão (com direito até para uma citação de homenagem para a cultuada “Zona do Crepúsculo” ou “Além da Imaginação”, no Brasil). Com seus tripulantes sendo esqueletos mortos-vivos que saem de seus caixões em busca do sangue dos intrusos de seu território. Além de várias cenas de perseguições (e uma em especial acompanhada de uma morte bem violenta), evidenciando uma constante atmosfera sombria e claustrofóbica, que somente os filmes antigos conseguiam realizar, mesmo com efeitos precários, sem a artificialidade da computação gráfica do cinema moderno. Um destaque que merece registro é a cena onde os mortos sem olhos emergem do mar, invadindo uma praia e contribuindo para um desfecho depressivo memorável. 
(Juvenatrix – 07/12/15)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Memórias Encontradas numa Banheira, Stanislaw Lem

Memórias Encontradas numa Banheira (Pamiętnik znaleziony w wannie, de 1961), Stanislaw Lem, 180 páginas. Tradução de Mário Molina. Francisco Alves Editora, coleção Mundos da Ficção Científica, n. 36, 1985.

Se fosse possível definir em uma palavra este romance curto de ficção científica, seria “angustiante”.
Stanislaw Lem (1921-2006), mais conhecido como autor do clássico Solaris (1961), é um autor muito complexo do ponto de vista temático e intelectual. Sua verve satírica por vezes chega ao limite deste recurso, tornando-o incômodo e amargo. Este livro é o que poderia ser chamado de um dos mais "kafkianos" já escritos. Em qualquer relação dos livros que mais levam à frente as influências do imaginário e temática de Franz Kafka (1883-1924), este estaria na linha de frente, sem fazer feio ao que concebeu o escritor tcheco. Lem é cuidadoso e esperto o suficiente para não se calcar numa leitura explicitamente kafkiana, recusando a fácil acusação de estar realizando mais um dos famigerados pastiches.
O autor polonês recobre a prosa de uma situação tão absurda, que o próprio personagem que se indaga do absurdo em que está inserido, transforma-se, ele mesmo, no próprio absurdo.
Memórias Encontradas numa Banheira divide-se em duas partes claramente distintas. E o que torna o livro classificável como FC é o recurso à ciosa e interessantíssima introdução (que vale por si), às “memórias” propriamente ditas.
Uma praga de origem cósmica destrói os papéis de nosso planeta. Os que existem e os que são construídos. Todos os documentos, registros, livros e fontes de conhecimento e comunicação da humanidade baseados no papel são perdidos.
Entramos em colapso e no futuro distante, paleógrafos acham um manuscrito dentro de uma banheira em uma fortaleza subterrânea. E passam a decifrar o significado deste manuscrito, as memórias propriamente ditas, que passam a ser narradas em primeira pessoa, pelo sujeito que se transformará no peregrino do absurdo, do desatino sem fim, de um ir e vir em corredores, salas, escritórios, portas e elevadores à procura das instruções de sua missão, seja ela qual for.
O autor faz um libelo contra a onipotência do Estado totalitário. Sim, totalitário e não autoritário, pois em sua fortaleza subterrânea de inspiração político-religiosa todos são servidores cegos de uma ordem de reconstrução do mundo, só que esta ordem propriamente dita, dilui-se no próprio absurdo de regras e procedimentos já sem sentido, porque não questionados, apenas seguidos numa corrente sem fim de ordens, contra-ordens, ditames e não ditames, onde a forma vale mais que o conteúdo, sem que se perca de vista o peso da ideologia fundadora, mesmo que ela, em si, não faça mais sentido para ninguém individualmente.
Se o foco de Lem é o socialismo polonês, reprodutor imposto do soviético, sua alegoria política supera sua crítica factual, porque ela fala, em ampla escala, de todas as formas de opressão e do nonsense maior da suprema burocratização de todas as formas de relacionamento, no qual, nenhum humano é mais humano, pois não se reconhece nenhuma chance de individualidade e espírito crítico, num regime monolítico e opressor.
No fim da jornada nos resta apenas um sorriso amargo e uma sensação de angústia e libertação. Pena que o personagem que vislumbra uma saída do terror fique imerso em seus próprios medos e dúvidas e se imiscua no terror que em vão ele procurou entender.
Uma obra inteligente, instigante, e mantém sua atualidade como crítica que se pode fazer a qualquer forma de organização social que não priorize a liberdade individual e a pluralidade de escolhas e expressões humanas.

– Marcello Simão Branco

terça-feira, 24 de novembro de 2015

As Bodas de Satã (The Devil Rides Out, Inglaterra, 1968)


A produtora inglesa “Hammer” também contribuiu significativamente para o sub-gênero do cinema de horror que aborda o satanismo. No final dos anos 60 e início da década seguinte, tivemos um período com ótimos filmes com propostas similares, como “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polanski, e “Balada Para Satã”, de Paul Wendkos. Em 1968 foi lançado “As Bodas de Satã”, com direção do especialista Terence Fisher, o mais importante cineasta do cultuado estúdio, e com o ícone Christopher Lee no elenco. O roteiro é do renomado escritor Richard Matheson, a partir de um livro de Dennis Wheatley, cujas histórias serviram de inspiração para “O Continente Esquecido” (1968) e “Uma Filha Para o Diabo” (1976), ambos também da “Hammer”.
Ambientado em 1929, os amigos Duque Nicholas de Richleau (Christopher Lee) e Rex Van Ryn (Leon Greene) prometeram ao pai falecido do jovem Simon Aron (Patrick Mower), que cuidariam dele. E pensando nisso, e após sem vê-lo por alguns meses, eles decidem visitá-lo em sua casa, surpreendendo-o no meio de uma estranha reunião de uma suposta sociedade astronômica. Como profundo conhecedor de doutrinas e ciências ocultas, o duque desconfia dos misteriosos diagramas desenhados no chão de um grande salão no andar de cima da casa e após encontrar galinhas escondidas numa cesta como se estivessem prontas para o abate num ritual de sacrifício, ele acredita que Simon faz parte de uma seita demoníaca. Ele tenta retirar o jovem e outra garota, Tanith Carlisle (Nike Arrighi), da influência maligna dos seguidores do culto, uma vez que eles estavam sendo preparados para um batismo num sabbath, onde passariam a servir o diabo. Então, Nicholas e o amigo Rex, apaixonado por Tanith, juntam esforços com a sobrinha do duque Marie Eaton (Sarah Lawson) e seu marido Richard (Paul Eddington), e todos tentam salvar os jovens das forças do mal e das garras do líder satânico Mocata (Charles Gray), mestre em nível superior do culto demoníaco.
“Na magia não existe o bem e o mal. É somente uma ciência. A ciência de fazer com que ocorram mudanças por meio da vontade própria. A reputação sinistra que a acompanha não tem fundamento. É baseada em superstições, não em observações objetivas”. Essas são as palavras de Mocata, e segundo ele, não há motivos para se temer a magia. Porém, não é o que se vê no filme, principalmente em cenas onde dezenas de seguidores do culto se banham freneticamente com o sangue fresco de um bode abatido em sacrifício, ou quando surge a presença física do demônio Baphomet numa missa negra, uma aparição extremamente sinistra, de uma criatura meio homem e meio bode.
É curioso notar que o ator Christopher Lee, segundo o site “IMDB” (Internet Movie Database), afirmou que “As Bodas de Satã” é seu filme preferido da “Hammer”, e ele esteve em muitas produções do estúdio, interpretando personagens de todos os tipos, principalmente o vampiro Conde Drácula. E que ele insistiu bastante com os produtores para filmarem uma história de Dennis Wheatley. Porém, contrapondo um pouco o entusiasmo de Christopher Lee, o filme é bem exagerado na fantasia, com demônios surgindo envolvidos em névoas, através de rituais sombrios, e parece bem estranho ver o cultuado ator recitando energicamente palavras mágicas de uma oração para combater o poder das trevas. O desfecho também é bastante previsível, onde podemos imaginar com razoável antecedência os rumos das ações, culminando com o manjado confronto final entre o bem e o mal e a óbvia punição para os derrotados.
Entre os momentos de destaque certamente vale registrar uma cena tensa envolvendo uma aranha gigante, que ameaça o Duque e seus amigos quando estão no interior de um círculo desenhado no chão, participando de um ritual para combater o demônio e tentar libertar os jovens Simon e Tanith de sua influência maligna. O enorme aracnídeo peludo utilizado na cena é real, filmado numa perspectiva que o faz parecer bem maior e imponente, realmente passando uma sensação imensa de desconforto, mesmo para quem não sofre de aracnofobia. 
Lançado em DVD no Brasil pela “Cult Classic”, os letreiros de abertura do filme são ilustrados por diversos símbolos e imagens de magia negra, causando um efeito interessante e perturbador logo no início.
(Juvenatrix – 24/11/15)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Terror no Triângulo das Bermudas (Bermuda Tentacles, EUA, 2014)


Com distribuição da dupla dinâmica dos filmes bagaceiros do cinema fantástico tranqueira do século XXI, “SyFy” (na televisão a cabo) e “The Asylum” (em DVD e Blu-Ray), “Terror no Triângulo das Bermudas” não desaponta seus distribuidores, pois é mais uma porcaria colossal. A história é extremamente banal, explorando o exaustivo clichê sobre os mistérios do famoso “Triângulo das Bermudas”, e os efeitos especiais em CGI incomodam de tão exagerados e artificiais. O elenco é repleto de atores inexpressivos, exceto pelas presenças curiosas do experiente John Savage como o Presidente americano DeSteno, e pela agora veterana Linda Hamilton (a Sarah Connor de “O Exterminador do Futuro”, 1984). Ela que está em final de carreira e sem opções para ter que aceitar o papel de uma militar austera, a Almirante Linda Hansen, que fica o tempo todo falando grosso, dando ordens e fazendo pose de durona . A direção é de Nick Lyon, de outras porcarias como “A Invasão Zumbi” (2012).
O avião “Força Aérea Um” que transporta o presidente dos Estados Unidos (Savage), enfrenta uma forte tempestade e antes de explodir no ar, uma cápsula com o presidente é ejetada, caindo no mar na região do Triângulo das Bermudas, indo parar no fundo do oceano. Paralelamente, uma frota de navios da Marinha, sob o comando rígido da Almirante (Hamilton), é atacada por monstros com tentáculos imensos (daí o título original) de origem alienígena. Enquanto enfrentam a ameaça dos monstros, uma equipe de resgate liderada pelo Chefe Trip Oliver (Trevor Donovan) parte num pequeno submarino experimental para tentar localizar a cápsula com o presidente. Além de outros soldados, a equipe ainda conta com a consultoria de apoio técnico da engenheira Tenente Plummer (Mya Harrison) e o piloto do submarino, o Tenente Comandante Barclay (Richard Whiten). No fundo do mar, eles encontram uma caverna gigantesca com um cemitério de aviões e navios que estavam desaparecidos, numa especulação sobre o mistério do Triângulo das Bermudas. Eles teriam sido capturados para fornecerem energia com seus combustíveis para um posto avançado alienígena oculto nessa caverna subaquática. Os sempre heróis americanos precisam superar dois desafios, encontrar e salvar a vida do presidente, e vencer uma batalha contra uma ameaça de invasão alienígena.
“Terror no Triângulo das Bermudas” é um filme muito ruim, exagerado na computação gráfica e extremamente previsível. Mas, o pior de tudo mesmo é o roteiro com ideias já vistas centenas de vezes antes, com os mesmos clichês irritantes. Se não fosse a história patética, poderíamos até tentar com certo esforço nos divertir com as características bagaceiras como os monstros em CGI, as mortes sangrentas, a gigantesca nave alienígena, e com a atriz veterana Linda Hamilton nitidamente deslocada num papel de militar sisuda. Porém, é difícil aguentar os discursos americanos sobre heroísmo, exaltação do ego e atos de bravura com sacrifícios para o bem da humanidade. Aliás, se não fossem por eles, nosso planeta indefeso estaria condenado à destruição.
(Juvenatrix – 18/11/15)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar

A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar: Ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na ficção científica brasileira, Edgar Indalecio Smaniotto. 196 páginas. Editora Corifeu, Rio de Janeiro, 2007.

Um dos filões editoriais que tem sido atacado com entusiasmo pelos fãs brasileiros de ficção científica e fantasia é o dos estudos acadêmicos. Há até pouco tempo, contavam-se nos dedos de uma única mão os livros de não-ficção disponíveis em língua portuguesa sobre o gênero.
Os títulos históricos, publicados ao longo do século 20, geralmente tratavam da produção estrangeira, sendo que o mais importante texto sobre a ficção científica produzida no Brasil foi, por muito tempo, o prefácio escrito por Fausto Cunha para a edição brasileira de No mundo da ficção científica (Science fiction reader's guide), de L. David Allen (Summus Editorial, SD).
Em 2007, os leitores interessados nesse tipo de literatura puderam compartilhar das conclusões de A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar, publicado pela Editora Corifeu, dissertação de mestrado de Edgar Indalecio Smaniotto sobre a vida e a obra do escritor luso-brasileiro Augusto Emílio Zaluar que, em 1875, teve publicado em dois volumes o romance O Doutor Benignus, obra considerada como um dos primeiros exemplos da ficção científica brasileira. A dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNESP de Marília, orientada pela Professora Doutora Christina de Rezende Rubim, que também assina o prefácio do volume.
Smaniotto é um jovem professor que atua no ensino fundamental da cidade de Marília, onde nasceu e reside. Também é colaborador frequente das publicações do fandom brasileiro, geralmente com textos de análise literária.
O trabalho está dividido em seis partes principais. As duas primeiras são “Augusto Emílio Zaluar: Esboço de uma trajetória” e “Entre o relato de viagem e a moderna antropologia”, e dizem mais respeito ao homem Zaluar, sua biografia e sua participação da vida político-cultural na capital do Império Brasileiro. Neles, sabemos que Zaluar nasceu em Lisboa em 1826 e não completou os estudo em medicina para dedicar-se ao ofício de escrever, principalmente na área jornalística. Porém, como não havia possibilidade de se sustentar exclusivamente da escrita em seu país natal, em 1850 Zaluar migrou para o Brasil e se aqui estabeleceu como jornalista. Seus interesses nas ciências, especialmente na antropologia, o levaram a se dedicar aos estudos sobre o homem brasileiro e o seu lugar no mundo. Zaluar acompanhava atentamente os trabalhos das missões científicas no Brasil e isso fica claro na leitura de O Doutor Benignus, pois Zaluar faz questão de citar cada um dos seus inspiradores, inaugurando junto com o gênero uma mania que está cada vez mais em destaque entre os autores brasileiros de ficção científica e fantasia. O conhecimento de Zaluar a respeito do trabalho de campo dos antropólogos está retratado no romance na figura de William River, personagem sequestrado por uma tribo de índios caiapós na Ilha do Bananal, destino final da expedição de Benignus.
Na terceira parte, “A origem do homem: monogenismo e poligenismo”, descobrimos que Zaluar compartilhava da teoria de que o homem teria se originado na América – especialmente no Brasil – e que tinha confiança que mais cedo ou mais tarde essa teoria seria confirmada. Por isso seu personagem em O Doutor Benignus vai encontrar um crânio humano fossilizado, preservado numa providencial caverna no planalto central.
Até aqui, a leitura da dissertação de Smaniotto é conquistada a duras penas. O texto é truncado e repleto de citações e notas de rodapé, algumas bastante longas. Embora o tema não seja enfadonho, não parece ao leitor que se trata de um trabalho sobre ficção fantástica pois, até aqui, o que se falou esteve principalmente associado à pessoa de Zaluar. Entretanto, na segunda metade, o texto ganha contornos pungentes na medida em que Smaniotto aborda os temas que levaram os estudiosos a classificarem o romance de Zaluar com ficção científica de fato.
A teoria da habitabilidade dos mundos é o tema  da quarta parte do estudo, “Seres imaginários do espaço”. Aqui aparece a fascinação de Zaluar pelas teorias do cientista francês Camille Flammarion sobre a habitabilidade dos outros planetas dos Sistema Solar, e até mesmo do Sol e das estrelas, misturando ciência com doutrinas espiritualistas numa real antecipação do que viria a ser a popular ideia dos discos voadores, muitas décadas depois. Mas o trecho em que Benignus trava contato com um habitante do Sol – um ser feito de luz e energia radiante –, tudo acontece durante um sonho do sábio, depois de adormecer sobre os restos calcinados de um meteorito recém-precipitado. É curioso notar que a expedição de Benignus foi proposta principalmente para comprovar que o Sol seria habitado, e Zaluar argumenta que seu personagem teria essa certeza apenas por observar as manchas do Sol por seu telescópio. Sendo essas manchas, na interpretação do autor, fenômenos similares ao olho de um furacão, na sua lógica, a superfície do Sol seria fria e, portanto, habitada. Simples assim. Comprovada a habitabilidade do Sol, fica também comprovada a habitabilidade de qualquer outro astro.
A ficção de Zaluar frente a seus contemporâneos Júlio Verne e H. G. Wells é tema em “Estabelecendo comparações: o Doutor Benignus diante do romance científico europeu”. Nesta parte encontra-se o melhor do estudo para o leitor interessado em ficção científica. Smaniotto faz um relato rápido sobre a influência explícita de Júlio Verne na prosa de Zaluar, especialmente quando este insere um balão na sua história, a moda de Cinco semanas em balão, de Verne. Smaniotto observa ali a antecipação da dirigibilidade dos balões, tecnologia que só seria conquistada no início do século 20 por Alberto Santos Dumont. Apesar de ser uma interpretação romântica e uma forma de dar a Zaluar um arremedo da autoridade verniana, é um exagero. Zaluar definitivamente não deu dirigibilidade alguma ao seu balão em O Doutor Benignus, que só chegou aonde chegou – e no momento mais que oportuno diga-se de passagem – por conta de uma tempestade que o carregou na direção certa. Pelo menos neste caso, Zaluar não antecipou nada.
Mas as melhores sacadas de Samniotto estão nas comparações com Wells, especialmente na análise das diferenças culturais na representação do alienígena. Para Wells, o alienígena é um agressor, uma força de ocupação que humilha a arrogância britânica, enquanto que para Zaluar o alienígena é um ser espiritualmente evoluído que traz uma mensagem pacífica e edificante, e reconhece a promessa de um futuro glorioso para o país.
Smaniotto prepara o fechamento de seu trabalho na sexta e última parte, intitulada “A formação de um mito cultural: o alienígena na literatura brasileira”. Aqui, Smaniotto cita principalmente Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, da brasilianista Elisabeth Ginway (Devir, 2005) e Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950, de Roberto de Sousa Causo (UFMG, 2003), como referências para concluir que o mito do alienígena é uma característica da ficção científica brasileira, na medida em que valida todos os demais componentes da mítica nacional, colocando O Doutor Benignus numa posição de importância para as letras e especialmente para os estudiosos da ficção científica no Brasil.
Cesar Silva

sábado, 14 de novembro de 2015

O Filme Essencial sobre os Mistérios da Existência

O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet), Suécia, 1957, 95 minutos. Direção e roteiro: Ingmar Bergman, baseado em sua peça Pintura sobre a Madeira (1954). Com Max Von Sidow, Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Nils Pope, Bibi Andersson, Inga Gill, Erik Strandmark, Gunnel Lindblom, Anders Ek, Bertil Anderberg, Gunnar Olsson e Inga Landgre. Disponível em DVD pela Versátil Home Video.

O cineasta e dramaturgo sueco Ingmar Bergman (1918-2007), é mundialmente reconhecido como um dos mais influentes cineastas já surgidos. Destacou-se como tema recorrente de sua obra uma busca transcendente, metafísica, sobre as razões da existência humana e sua eventual ligação com algo além, Divino. Pois bem. Em O Sétimo Selo (1957), esta questão básica da vida é colocada de uma forma frontal, crua e perturbadora, como poucas vezes vista no cinema. E, para inserir e justificar o comentário desta obra dentro do gênero Horror, o fato é que Bergman, em primeiro lugar, trata de um tema que é horror em estado puro: a morte que espreita cada um de nós. E em segundo, de uma forma mais direta, pois cobre a narrativa com elementos fantásticos. Não o fantástico por si mesmo, mas como um eficiente recurso de parábola alegórica, conferindo uma forte impressão às questões refletidas. E chama a atenção também, o fato deste filme ser um dos poucos de sua filmografia a abrir mão de um tratamento essencialmente realista para os temas transcendentes que aborda.
Filmada em belíssimo preto e branco, a história se passa na Idade Média, contando a trajetória de regresso de um cavaleiro, Antonius Block (numa interpretação marcante de Max von Sydow) e seu escudeiro Jons, das Cruzadas, onde pela lâmina de suas espadas haviam subjugado ‘infiéis’ em nome do Deus cristão. Deprimidos e cansados, apreendem a inutilidade de suas ações, buscando algum sentido para toda aquela matança e para o mundo sombrio que testemunhavam. Uma época de perseguições religiosas, com pessoas sendo rotineiramente queimadas vivas em praças públicas, além da terrível chegada da Peste Negra (a peste bulbônica, transmitida por ratos contaminados por pulgas infectadas).
Assim, o mundo estava imerso no medo, na superstição e na presença cotidiana da morte, que a todos poderia levar de uma hora para outra. A peste matava de maneira rápida e dolorida e ceifou nesta época simplesmente um terço da população da Europa. Em termos percentuais foi a maior tragédia da história humana até os dias de hoje.
Bergman foi fundo no tema da procura de um sentido para a vida, em um ambiente tão sombrio e macabro. O cineasta afirmou certa vez em uma entrevista que “neste filme, o cavaleiro regressa da cruzada como, em nossos dias, um soldado volta da guerra. Na Idade Média, os homens viviam sob o terror da peste. Hoje vivem sob o terror da bomba.” Estava-se, então, em plena Guerra Fria, sob o possível holocausto nuclear. Desta maneira, O Sétimo Selo pode ser interpretado como uma alegoria do século XX e do mundo que ainda vivemos neste início do século XXI, em forma de lenda medieval. “O tema é bastante simples” – completa o diretor –, “o homem e sua procura eterna de Deus, tendo apenas a morte como única certeza.”
Ao participar das Cruzadas e testemunhar aquele mundo intolerante e degradado, o cavaleiro Block quer uma explicação, seja qual for, para entender que aquilo que fez e está presenciando não é uma completa perda de tempo. Em suma, ele deseja saber, e não crer.
Numa das sequências explicitamente fantásticas – que irá se repetir por todo o filme –, Block encontra a Morte, à beira de uma praia deserta. Com rosto cadavérico, sob uma longa túnica negra e carregando a temível foice em uma das mãos, Ela se anuncia para levá-lo deste mundo. Mais surpreso por poder vê-la do que pelo que isso significa, Block propõe um acordo: um jogo de xadrez. Caso ele vença, a Morte lhe daria mais alguns anos de vida. A proposta é aceita e eles vão, por todo o filme, travando um insólito duelo. Mesmo com toda a bagagem de espectador de filmes de horror, esta presença da Morte, personificada de uma maneira tão verdadeira, em um mundo tão incerto e dilacerado, realmente impressiona, não pelo medo em si, mas pelas implicações do que a Morte realmente representa na vida de cada um de nós.


Este filme, que não é de horror em termos estritos, é muito efetivo no sentido de despertar no espectador sentimentos centrais e incômodos: como a dúvida sobre a razão da vida e a inevitabilidade da morte. Onde Deus entra nisso? Conforme o próprio Block descobre, não há uma resposta definitiva. Ao invés, apenas o aumento da dúvida, da angústia, especialmente em três momentos. Primeiro, quando ele se aproxima da jovem ‘bruxa’ que será queimada e lhe interroga, esperando encontrar Deus através do Diabo, mas no olhar da torturada não vê nada além do medo. Depois, quando descobre que um dos principais fundamentos da religião é a semeadura do medo. Um homem contaminado pela peste pergunta a Jons se ele, de alguma forma, pode aliviar sua dor. Em tom áspero, o escudeiro diz que se o homem sente medo, deve correr para os braços dos padres. “Talvez eles possam ter alguma explicação”. Mas esta suposta explicação é definitivamente desconsiderada, quando Block – numa cena antológica, de tantas –, pergunta à própria Morte, qual o sentido da vida. “Onde está Deus?” Para o seu choque, a Morte diz nada saber. Fria como uma máquina, apenas está ali para executar seu trabalho: retirá-lo do mundo. Bergman nos coloca aí diante da temível condição do “nada”.
Este é um dos filmes mais profundos que já assisti. E suas discussões existenciais são ainda emolduradas por um estilo brilhante, com a intensidade dramática já inerente ao tema, sendo ampliada pela interpretação dos atores, pelo roteiro enxuto e cortante, pela cenografia fiel à época, nas composições e tomadas de câmara experimentais, além da música ora sussurrante, ora impactante que pontua as diferentes situações da obra.
Mas o filme não termina como uma reflexão pessimista da condição humana, que a nada restaria a não ser se corroer de dúvida ante a fatalidade da morte. Isso porque, uma espécie de esperança é vislumbrada, na presença do jovem casal de artistas e seu bebê. O amor partilhado e a valorização de fatos simples e solidários conferem, assim, uma espécie de significado concreto à nossa breve passagem pela Terra. E se na primeira vez que vi o filme, deixei a sala cheio de dúvidas e melancolia, ao revê-lo outras vezes, sinto-me existencialmente reconfortado, ao compreender um pouco melhor a réstia de esperança concreta que Bergman transmite, especialmente na ambígua e até lírica cena final desta obra-prima.

-- Marcello Simão Branco