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domingo, 31 de maio de 2020

Missão em Sidar


Missão em Sidar (Rayons pour Sidar), Stefan Wul. Tradução do Eng. Gomes dos Santos. Capa de Lima de Freitas. 151 páginas. Lisboa: Edições Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 72, 1963. Lançado originalmente em 1957.

 Estamos em 2023 e a conquista do espaço avançou bem mais do que em nossa realidade. A Terra mantém um governo de colonização no planeta Sidar, que orbita Alfa do Centauro, a estrela mais próxima do Sol, situada a 4,3 anos-luz. Mas, depois de assinar um tratado de cessão de Sidar aos alienígenas de Xress – outro planeta do sistema de Alfa do Centauro –, os terráqueos preparam-se para evacuar o planeta.
Neste contexto chega a Sidar o físico afrancês Lorrain – assim mesmo com o “a”, mas sem maiores explicações –, que pretende resgatar o seu robô Lionel, que perdeu contato com seu dono. Muitos terrestres têm como companhia um androide, igual ao seu proprietário, mas que tem sua vida garantida apenas na medida em que o dono esteja vivo. Pelo nível de intimidade ambígua mostrada nesta relação, parece ser comum a substituição de um companheiro humano, e no caso de um homem, uma mulher, sugerindo daí, talvez, um tipo de relação homoafetiva.
Em meio à transição que vive Sidar a tarefa de Lorrain é muito complicada, pois o planeta é quase que inteiramente tomado por uma vegetação intensa e fechada, habitada por animais perigosos. Depois de contactar Marco, um administrador de uma vila local, que está deprimido pela perda de seu robô Marcial, Lorrain segue para a província de Horb, onde seu robô Lionel havia se instalado. Na verdade a tarefa vai muito além do mero reencontro sentimental, pois ambos estão em Sidar numa missão secreta.
Após ser ferido pelos nativos de Horb – que vivem como tribos indígenas –, Lorrain surpreendentemente morre. Lionel o recolhe e guarda numa câmara frigorífica com o objetivo de ressuscitá-lo, pois o sucesso da missão depende da atuação da dupla. Mas como assim, ressuscitá-lo? Sim, existe uma tecnologia capaz de reviver quem morre, mas Wul não dá maiores detalhes de como isso seria possível. Lionel tem de voltar com urgência para Gayam – a maior cidade de Sidar –, para cumprir sua missão. No caminho ele encontra Marcial, reduzido apenas à cabeça, depois de sofrer um acidente com a queda de uma rocha. Aliás, a razão do sumiço de Lionel ocorrera por motivo semelhante, desfigurado com o ataque de um krotang, um dos mais terríveis predadores. Levando Lorrain num saco mortuário e a cabeça de Marcial – que retém sua consciência e memória – Lionel termina por reencontrar com Marco e, com sua ajuda, colocar em prática seus objetivos.
Com um ritmo veloz de acontecimentos Missão em Sidar é o quinto romance de Stefan Wul publicado na clássica coleção francesa Fleuve Noir e, curiosamente, traduzido apenas para Portugal e Finlândia.1 O romance está dividido em três partes: a chegada de Lorrain e seu encontro com Lionel; a peregrinação do androide para ressuscitar seu dono e salvar a missão, e a terceira parte, onde ocorre o desenlace final.
Na verdade a Terra não queria ceder Sidar aos belicosos xressianos, pois estes pretendiam ocupar o planeta com o extermínio da população local. Mas interesses políticos e econômicos prevaleceram na votação dos membros da Assembleia Solar. Com isso, secretamente, é elaborado um plano para infiltrar Lionel em Sidar para que este preparasse o terreno até a chegada de Lorrain e, assim, colocar em prática o combinado para impedir a ocupação dos xressianos.
Como dá pra notar Wul trata da questão do imperialismo, assim como já visto no romance anterior O Mundo dos Draagsresenhado aqui. Mas se neste havia uma metáfora da escravidão, aqui estamos diante de uma disputa política de dois impérios (Terra e Xress) pela posse de Sidar – e chega a lembrar um pouco a disputa entre britânicos e franceses por territórios dos árabes desunidos após a Primeira Guerra Mundial. Pois em Sidar também não havia um povo politicamente coeso em torno de um mesmo objetivo. Mas embora não torne evidente uma discussão maior sobre o tema e nem critique a colonização em si, mas a opção entre uma boa e outra ruim – que levaria ao genocídio –, o romance se insere no contexto da década de 1950, no qual a França vivia um problema sério com as lutas emancipatórias de sua principal colônia africana, a Argélia, que se aproximava de sua independência, mas com firme oposição de parte do establishment francês.
Neste sentido alguns romances de FC pulp de Wul mostram-se eivados por um subtexto político, acrescentando um conteúdo crítico para além da mera aventura de entretenimento, com o qual ele é mais identificado. E que, em Missão em Sidar nos leva ao clímax quando os planos de Lorrain e Lionel entram em ação, com a retirada de Sidar da órbita de Alfa do Centauro até tornar-se um novo planeta do sistema solar - situação já mostrada em Pré-História do Futuro (Niourk, 1957), onde é a Terra que escapa de sua órbita - ver a resenha aqui
Wul explica como isso seria possível – em mais uma proeza criativa depois da cena da ressuscitação de Lorrain –, com passagens que justificam sua fama como um autor inventivo e capaz de conduzir o leitor a sensações verdadeiramente delirantes.

Marcello Simão Branco


1Segundo o Internet Speculative Fiction Database: http://www.isfdb.org/cgi-bin/title.cgi?1179049.

sábado, 25 de abril de 2020

Tijucamérica


Tijucamérica, José Trajano. Capa de Alceu Chiesorin Nunes. São Paulo: Paralela, 2015. 230 páginas.

Todo torcedor de futebol é um apaixonado imerso em suas ilusões, alegrias e, sobretudo, sofrimentos. Mesmo o dos grandes times já teve seus momentos de decepção. Mas em contraponto a elas todos os torcedores, seja de que time for, vive como momento único, glorioso, a vitória sobre o rival, uma goleada inesperada ou o título de seu time querido.
Não é segredo para quem acompanha futebol que José Trajano torce para o América, do Rio de Janeiro. Jornalista experiente e dos mais competentes, ele não engana o torcedor – como outros fazem – ao dizer que gosta de um time de menor expressão para não revelar sua verdadeira paixão por um time grande. Então, imagine o que deve ser a angústia de ser americano. Acho que é ainda pior do que torcer por um time pequeno, que nunca ganhou nada importante, pois se o América nunca foi grande como o Flamengo ou o Vasco, teve bons times e venceu alguns campeonatos em meados do século passado. Eu mesmo vi uma raspa de tacho desta fase, entre o final dos anos 1970 e anos 1980, quando o América engrossava para seus rivais e chegou a ser terceiro colocado no Campeonato Brasileiro de 1986.
Talvez pensando nisso e no desespero de concluir que seu time não voltará mais aos bons tempos – já há alguns anos disputa a segunda divisão do Campeonato Carioca e quase não tem mais torcedores –, é que Trajano resolveu escrever o romance Tijucamérica. Nele é revivida a emoção superlativa e insuperável de ver seu time campeão de novo. Mas não se trata de uma ficção que imagine o reerguimento do América. Trajano foi mais sensato e optou pelo caminho da nostalgia: reviver os gloriosos times e jogadores da melhor época do time. Mas não se trata de um livro de memórias. Não, Trajano resolveu trazer para os dias de hoje os ídolos do passado. Para isso, reuniu uma seleção dos mais poderosos pais-de-santo, espíritas e paranormais que se tem notícia no Brasil. Como nos sonhos mais loucos, pediu para que eles juntassem suas forças e ressuscitassem 25 dos melhores jogadores da história do América.
Depois de muita confabulação surgiram os zumbis do time americano para disputar um Campeonato Carioca extraordinário, fora do calendário oficial. Pois aos mortos-vivos do América seria preciso reviver também os dos outros times! Mesmo após algumas resistências, em especial da cartolagem de times rivais, o Carioca metropolitano, dos velhos tempos voltou em pleno século XXI. Além dos jogadores retornaram também os técnicos e dirigentes mais importantes. Trajano foi eleito presidente e resolveu que o América deveria voltar às suas origens, o bairro da Tijuca, onde viveu seus momentos de conquista.
O leitor familiarizado ou não com futebol já percebeu que estamos diante de uma história fantástica. E que explora como poucas na literatura brasileira de FC&F as possibilidades mágicas do panteão africano. Como ressalta o subtítulo “uma chanchada fantasmagórica”, o livro não resvala para um campo sobrenatural mais tradicional ou sombrio. Ao contrário, é solar, colorido e muito divertido. Pois além do futebol em si traça um retrato revivido inspirado da cena cultural carioca de meados do século passado, com as presenças de vários artistas, como Francisco Alves, Heitor Villa-Lobos, Lamartine Babo, Luz del Fuego, Noel Rosa, Orlando Silva, Tom Jobim, Vicente Celestino, Virgina Lane e muitos outros.
Desta forma Trajano vai narrando a formação do novo América e seu desempenho no campeonato jogo a jogo e é uma delícia ver as escalações dos times, e relembrar muitos craques do passado, inclusive dos outros times. E ao lado disso ele entremeia o texto com comentários e divagações sobre a cena cultural carioca, com muitos causos, boemia, canções e gastronomia de dar água na boca.
Outro aspecto interessante da obra é a da ligação primária dos times com os bairros, que permitiu a formação de muitos deles no Rio e em outras cidades do país, como São Paulo. Assim, a ligação do América com o bairro da Tijuca conferiu identidade a um e a outro, como se fossem uma continuidade. Não é coincidência que a saída do América da Tijuca, no início dos anos 1960, para o bairro do Andaraí, enfraqueceu a ambos, especialmente o clube que nunca mais foi o mesmo: times cada vez mais fracos e perda de torcedores. Unindo Tijuca com América o autor quis ressaltar esta relação umbilical que existe ainda hoje entre times e bairros. Em São Paulo, por exemplo, seria impensável ver o Palmeiras fora da Pompeia, o Corinthians fora do Parque São Jorge, ou a desvinculação do Juventus com a Moóca.
Tenho certeza que Trajano pôde ser feliz de novo com o seu querido América. E o melhor é que ele transmite esta alegria a quem lê e compartilha de sua “chanchada fantasmagórica”. Prova disso é que em seguida ele escreveu um outro romance Os Beneditinos (2018), em que revisita novamente o Rio antigo e se reúne a velhos amigos para voltar a praticar um esporte semelhante ao futebol, o walking futebol, também criado pelos ingleses, em que se joga sem tirar os pés do chão.
Ao ler Tijucamérica fiquei pensando em quem eu gostaria de ver num Palmeiras imaginário. Time grande que é, o Verdão viveu inúmeras glórias, mas eu mesmo passei por uma fase parecida como a do América do Trajano, quando fiquei 17 anos sem ver meu time ser campeão, entre 1976 e 1993. Então, vamos lá, se pudesse gostaria de ver uma formação como esta: 1 – Oberdan, 2 – Djalma Santos; 3 – Luís Pereira, 4 – Waldemar Fiume e 6 – Roberto Carlos; 5 – Dudu; 8 – Jair da Rosa Pinto e 10 – Ademir da Guia; 7 – Julinho Botelho, 9 – Liminha e 11 – Rodrigues. Teria muitos e muitos outros que não vi, mas esta formação seria fantástica, incluíndo Luís Pereira e Roberto Carlos, que eu vi, mas gostaria de saber como seria interagindo com os outros.
Tijucamérica é uma declaração de amor ao futebol e vem a se somar aos pouquíssimos livros que abordam o esporte bretão da perspectiva da ficção científica e do fantástico no Brasil. Eu mesmo organizei a antologia pioneira Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998), seguida pelo romance Fáfia: A Copa do Mundo de 2022, de Clinton Davisson (Nexus, 2004), e mais recentemente pelo ótimo romance sobrenatural O Drible, de Sérgio Rodrigues (Cia. Das Letras, 2013) – Peralvo, o craque do romance aparece em Tijucamérica! – e a antologia Futebol: Histórias Fantásticas de Glória, Paixão e Vitórias, organizada por Marco Rigobelli (Draco, 2014). Neste contexto a ficção de José Trajano, em especial, mostra como o potencial do fantástico pode ser bem aproveitado num tema pouco explorado pelo gênero. Um golaço!

Marcello Simão Branco

sábado, 4 de abril de 2020

Uma Força Medonha


Uma Força Medonha (That Hideous Strength), C.S. Lewis. Tradução de Waldéa Barcellos, 556 páginas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. Lançado originalmente em 1945.

Este é o livro de encerramento da Trilogia Cósmica, ou de Ransom, o mais longo dos três livros e, talvez, o mais controverso. Iniciada com Além do Planeta Silencioso (Out of the Silent Planet, 1938) – resenha aqui –, e continuada com Perelandra (Perelandra, 1943) – resenha aqui.
Uma Força Medonha recebeu o subtítulo “Um conto de fadas para adultos”, pois a possível intenção do autor era apresentar ao leitor adulto o romance mais sobrenatural (ou fantástico) da trilogia, embora fenômenos deste tipo também tenham sido vistos nos dois livros anteriores, além de abordar de uma forma mais explícita o conflito entre o bem e o mal.
Aqui, o linguista Ransom não atua como protagonista. Ganha a cena agora um jovem casal, Mark e Jane Sutddock, recém-casados e à procura de afirmação, profissional e sentimental. Mark é professor de Sociologia numa pequena universidade no interior da Inglaterra, e Jane anseia retomar seu doutorado, insatisfeita com a condição de dona de casa.
O enredo se desenvolve por meio das trajetórias paralelas dos dois, afastados um do outro pelo curso dos acontecimentos estranhos que ocorrem na cidade de Edgestown, mas, sobretudo, pela distância que existe entre os dois. Tanto que passarão quase o livro inteiro separados, e pouco incomodados com isso.
Mark, inseguro e carente por reconhecimento, adentra numa nova organização que se instala na cidade, o obscuro Instituto Nacional de Experimentos e Coordenações (Inec), uma sigla que, a rigor, não quer dizer nada. Mas a ideia é esta: não revelar suas reais intenções até poder se apossar de uma “força medonha”, daí o título do livro.
O Inec compra um terreno não usado pela universidade, e a partir disso vai assumindo o controle da própria cidade: derrubando árvores e alterando o curso do rio, desapropriando os moradores de suas casas, tudo de forma abrupta e violenta. Mark inicialmente não se importa com nada disso – e nem se sua esposa possa ser ameaçada –, pois quer apenas saber que funções terá nesta organização. Aliás, este personagem é irritante com sua atitude subserviente e omissa com as barbaridades, interessado apenas em si mesmo.
Jane, por sua vez, de repente passa a ter sonhos perturbadores, que alteram sua rotina. Como o de um homem preso e depois morto pela guilhotina, que surge vivo apenas com sua cabeça. Ao abrir o jornal no dia seguinte ela lê a notícia de um preso morto, com a cabeça separada do corpo. Sem saber o que fazer – consultar seu ocupado marido nem pensar – ela acaba encontrando casualmente uma amiga, também esposa de um professor da mesma universidade. Este a aconselha a procurar uma certa mulher que poderia ajudá-la. Mesmo contrariada Jane a procura, e esta lhe diz que não há nada de errado com sua saúde, mas que ela é uma vidente, e deve usar esse dom a favor da causa pela qual ela está por trás, num mosteiro situado nas cercanias de Edgestown.
A história alterna os capítulos, com as realizações e planos dos membros do Inec, e a resistência informal que se forma, com ambas as situações sendo mostradas do ponto de vista de Mark, de um lado, e Jane, de outro. Esse aspecto é interessante pois acompanhamos junto com os dois do que se trata afinal tudo isso, sem sabermos de antemão os objetivos de ambos os lados.
Mas Lewis concentra mais a narrativa no desenvolvimento do Inec, a instituição que altera o status quo e provoca a reação dos membros do mosteiro. Formado por velhos cientistas, nas áreas da Física, Química e Biologia, é um lugar sombrio e que oculta suas reais intenções até de vários de seus membros, embora todos compartilhem uma visão de mundo sectária e totalitária. Não é revelado como, mas o Inec tem conexões poderosas com políticos, banqueiros, jornalistas e militares e, com isso, com abertura para agir em nome de suas próprias leis, como se fosse um novo Estado no interior do Estado britânico. Se apodera dos principais jornais, opera uma força paramilitar – chamada eufemisticamente de polícia institucional –, que reprime, prende e tortura os cidadãos de Edgestown que oferecem alguma resistência a esta nova ordem.
Dentro deste contexto cabe a Mark escrever artigos mentirosos aos jornais de Londres, enaltecendo o Inec e depreciando os cidadãos que se opõem, rotulando-os de vândalos e bandidos. No interior do Inec são realizadas experiências “científicas” com animais e condenados pela Justiça, lá encaminhados às escondidas. Querem descobrir vacinas e criar vitaminas para tornar o ser humano mais saudável e inteligente. Neste projeto pobres, doentes e idosos deverão ser exterminados, um estorvo na direção de uma espécie mais “evoluída”. Aqui Lewis, de forma contundente, critica as ideologias racistas e eugenistas de um certo darwinismo social vigente em parte da intelectualidade ocidental entre o fim do século 19 até o tempo em que ele escreveu o livro. Ora, em graus variados viraram políticas públicas em vários Estados nacionais – inclusive no Brasil durante o século XIX –, mas se tornaram o terror desenfreado mostrado no livro especialmente em regimes totalitários, como o nazismo alemão.
Embora Mark faça vista grossa à forma violenta como o Inec funciona, começa a ficar contrariado, primeiro por se prestar ao papel indigno de escrever mentiras, depois ao saber o grau de barbaridades que estão sendo cometidas. Principalmente quando lhe é permitido conversar com o Cabeça. Sim, a cabeça guilhotinada do sonho de Jane está viva, através de conexões com um computador. E é neste aspecto que o romance pode ser mais diretamente relacionado com a ficção científica, além do contato com os chamados macróbios, seres não claramente identificados como alienígenas ou sobrenaturais que, supostamente, orientariam os membros do Inec, para que a humanidade chegasse à condição de uma “realidade superior”. Mas não fica claro se realmente estes seres existem, ou não passa da imaginação delirante de cientistas loucos.
Já em torno do mosteiro se reúnem pessoas com diferentes habilidades, sendo que a de Jane é central pois ela pode vir a antecipar futuros movimentos do Inec. O que as une é a fé cristã, a resistência a uma ‘força medonha’ que quer se apossar definitivamente da Terra (Thulcandra), já corrompida pelo mal e pecado. Nesta missão, quem os aproxima é Ransom, nesta história uma figura quase não humana, um espírito evoluído, mas ainda encarnado, que terá sua última tarefa para tentar salvar a humanidade.
Ora, neste terceiro livro torna-se mais claro o confronto ensaiado nas aventuras vividas em Marte (Malacandra) e Vênus (Perelandra). Mas o que incomoda é esta vinculação da ciência com uma visão niilista e desumana, configurados num regime de terror. Se Lewis critica corretamente a doutrina racista e eugenista de parte da mentalidade da época, exagera ao mostrar uma organização poderosa formada por cientistas com carta branca para realizar todas estas atrocidades, como se o próprio desenvolvimento científico estivesse relacionado com uma visão de mundo deste tipo. Não há o devido contraponto de cientistas e intelectuais que se oponham ao Inec. Onde estão os acadêmicos das universidades de Oxford e Cambridge, as duas maiores do Reino Unido e das mais prestigiadas do mundo?
Dá a impressão que estamos diante de uma polarização entre uma ciência utilitarista e anti-civilizatória, contra os religiosos – e só cristãos –, e estes que tem por missão salvar o mundo, e os valores do amor, solidariedade e moralidade. Ora, mas o que o mundo mostra, primeiro no Renascimento e sobretudo com o Iluminismo é que os valores da individualidade e da razão se opuseram aos valores da submissão e do sobrenatural, configurados pela associação do cristianismo com o poder político. Lewis veria como corrompido o mundo pós-iluminista por separar a esfera de ação humana do julgo religioso? Veria a economia de mercado e o conhecimento científico como males da modernidade? Não fica claro se ele radicaliza a este ponto, e creio que não, mas da maneira como apresenta fica uma sensação incômoda de anti-modernidade, de defesa de um certo romantismo a um mundo regressivo que não existe mais.
No plano narrativo ocorrerá o óbvio confronto, mas surpreende que a figura responsável pelo desfecho será o mitológico mago Merlin. Sim, ele mesmo, revivido não se explica como depois de séculos enterrado no terreno da faculdade, por isso comprado pelo Inec. Os dois lados lutam para reviver Merlin primeiro, para trazê-lo para o seu lado e ter mais chances de vitória. Outra surpresa é a quase ausência dos seres espirituais dos romances anteriores, os eldila, que atuam de forma muito tênue, através da liderança de Ransom.
Uma Força Medonha é o mais denso e ideológico dos três livros, e aquele que mais depende dos outros para ser melhor compreendido. Já havia sido publicado em Portugal em 1991 pela coleção FC Europa-América, nos. 185 e 186, como Aquela Força Medonha, e só apareceu uma tradução no Brasil com esta edição da Martins Fontes, cerca de vinte anos depois – mais recentemente foi publicada uma nova edição pela Editora Thomas Nelson Brasil, como Aquela Fortaleza Medonha, em 2019.
Apesar de tomar partido de uma visão anti-moderna, embora não necessariamente medievalista, o romance é forte e se mantém, principalmente, por sua estrutura narrativa bem organizada, a presença de personagens densos e complexos, que acabam por justificar a leitura e a conclusão da trilogia.

Marcello Simão Branco

quarta-feira, 25 de março de 2020

Deuses renascidos, Sylvain Neuvel

Deuses renascidos: Livro 2 dos Arquivos Têmis (Waking gods), Sylvain Neuvel, 392 páginas. Tradução de Mateus Duque Erthal. Editora Companhia das Letras, selo Suma, São Paulo, 2017.

No primeiro volume da série Arquivos TêmisGigantes adormecidos, publicado em 2016 pela Companhia das Letras e comentado aqui, vimos como um colosso de metal em forma de mulher foi montado a partir de partes pré-fabricadas enterradas há milênios em diversas regiões distantes da Terra. Reunidas por um departamento secreto do governo norte-americano a montagem foi supervisionada pela acadêmica Rose Franklin, uma especialista no artefato que em sua infância havia achado uma das mãos da gigante. Uma vez montada, a máquina revelou ser algo de origem extraterrestre, cuja pilotagem exigia duas pessoas com habilidades e genética especiais, além de características físicas um tanto perturbadoras. As dificuldades na anatomia, bem como em compreender a linguagem e os controles da máquina, resultaram na operacionalidade parcial do artefato que, mesmo assim, se tornou a mais poderosa arma de guerra do planeta, capaz de sozinha destruir um exército bem armado antes de sequer ser arranhada. Sua simples existência lança a humanidade num dilema, pois quem detiver o controle do robô gigante, mandará no mundo. O problema é que as pessoas por trás do robô, incluindo seus esforçados pilotos, são pessoas cheias de defeitos e paixões, e tudo nem sempre sai como se espera.  Quando Rose morre num acidente, parece que as coisas podem perder completamente o controle, mas ocorre o impensável: Rose retorna ressuscitada, mas numa "versão reiniciada" que não entende muito bem tudo o que está acontecendo. Quem a ressuscitou, como e por que são alguns dos mistérios que vamos tentar entender na leitura de Deuses renascidos.
Mas a história da robô – que ganhou o simpático nome de Têmis – e do apaixonado casal que o comanda, a piloto militar Kara Resnick e o linguista Vincent Couture, não se resume às paranoias de Rose. Acontece que apareceu um segundo robô na Terra, surgido do nada em pleno centro de Londres, um monstro ainda maior que Têmis, desta vez na forma masculina. Ninguém sabe de onde veio nem se há alguém dentro dele, pois desde que apareceu não se moveu um só milímetro. A organização que controla Têmis decide levá-la até o monstro que parece ter vindo do mesmo lugar que ela, mas o exército britânico decide não esperar e, de olho na possibilidade  de ter seu próprio robô, empreende um ataque ao gigante antes que Têmis tenha a chance de confrontá-lo. O resultado é catastrófico: ao sentir-se ameaçado, o robô entra em ação e simplesmente pulveriza as forças de ataque, atingindo uma grande área habitada da cidade no processo. O confronto dos dois monstros de metal é inevitável, e tudo parece indicar que Têmis não terá a menor chance. Para complicar, Kara descobre que a cientista psicopata Alyssa Papantoniou, que a submeteu a experiências dolorosas no primeiro romance, obteve sucesso ao fecundar um óvulo retirado dela, e em algum lugar na América, ela tem uma filha que está agora com dez anos e corre o risco de ser sequestrada por espiões de países interessados em deter uma possível piloto para a Têmis. E como tragédia pouca é bobagem, surgem outros treze robôs similares nas mais populosas cidades mundo, e cada um deles passa a atacá-las com um gás mortal que devasta as populações em segundos. Mesmo com Têmis completamente operacional já seria praticamente impossível enfrentar tantos adversários mas, justamente nessa hora, Têmis desaparece dos radares e tudo leva a crer que é chegado o fim da humanidade. Há uma saída, contudo, porque os alienígenas não querem de fato destruir a humanidade. Mas, para obter o direito de sobreviver, será necessário entender a psicologia alienígena e dar-lhes a única resposta adequada possível.
É nesse cenário apocalíptico que se desenrola a sequência da aventura de ficção científica escrita pelo canadense Sylvain Neuvel, que está subdividida em quatro partes: "Parentes e amigos", "Tudo em família", "Unha e carne" e "Parente próximo". O autor sustenta o mesmo modelo narrativo adotado no primeiro volume, contando a história através de memorandos, artigos de jornal, transcrições de entrevistas, relatórios de missões e outros documentos que, tal como uma colagem, montam aos bocadinhos a imagem final dessa tragédia de proporções planetárias. Cada documento tem seu próprio espaço e tempo, com personagens surgindo e desaparecendo, de forma que nem mesmo os nossos queridos protagonistas estão completamente fora de perigo, e o autor tem ampla liberdade para ser muito cruel.
Como estamos no segundo volume de uma prometida série de três, embora algumas coisas até sejam definidas, mais uma vez não há uma conclusão satisfatória ao enredo. O terceiro e último volume, Only human, foi publicado nos EUA em 2018 e desde então a editora brasileira tem adiado sua publicação aqui. Outra série da Suma, Remembrance of Earth’s past do escritor chinês Cixin Liu, teve seu terceiro volume publicado apenas em ebook. Talvez seja esse o destino da trilogia de Neuvel, se tivermos sorte. Ou não.
Cesar Silva

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Perelandra


Perelandra (Perelandra), C. S. Lewis. Tradução de Waldéa Barcellos. 302 páginas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. Lançado originalmente em 1943.

Perelandra (Viagem à Vênus) é o segundo romance da Trilogia Cósmica, ou de Ransom. Como o próprio autor informa no início do livro pode ser lido de forma independente. Mas se feito na sequência faz mais sentido para acompanharmos o desenvolvimento da trilogia criada por Lewis.
Depois de voltar de Marte (Malacandra para os habitantes do planeta) Ransom retoma seus afazeres acadêmicos, mas sabe que pode ser convocado pelos eldilas – espíritos evoluídos vistos em Malacandra – para cumprir uma missão para a evangelização cósmica, conforme já havia sido dito a ele em Além do Planeta Silencioso - resenha aqui. Em todo caso, ele é surpreendido com relação ao seu novo destino, pois é levado a Vênus (Perelandra), e não sabe o que deve fazer exatamente por lá.
Ransom se depara com um mundo novo, em processo de construção, e com uma extraordinária vitalidade em seu ecossistema. Tal característica já havia sido vista de forma bela em Malacandra, mas aqui estamos diante de uma natureza (fauna e flora) em intensa transformação. Assim, a maior parte da superfície é aquática, circundada por milhares de pequenas ilhas flutuantes, onde se desenvolve a vegetação e formas de vida animal.
Após explorar parte desta natureza Ransom conhece a Dama Verde, uma mulher misteriosa, com o qual vai travar longos diálogos, em torno de se situar neste mundo, trocar informações e partilhar valores. Na verdade, a mulher – nua, assim como Ransom, levado assim ao planeta – (depois renomeada de Rainha) é a primeira e única do novo mundo. Ela procura reencontrar o Rei, de quem se perdeu em meio às turbulências climáticas. Mas Ransom só percebe o propósito de seu contato, quando aterrissa no planeta o físico Weston, justamente um dos dois sujeitos que o sequestraram para Malacandra.
Weston é o antípoda de Ransom: egoísta, materialista, inescrupuloso, e cientista. Pretende ocupar Perelandra com o objetivo de liderar uma colonização humana. Aqui se estabelece uma polêmica, pois é dado a entender de que por meio do conhecimento científico, que supõe-se superior a outros, se justificaria a expansão humana em escala cósmica, mesmo que prejudicando o destino de outras formas de vida. É provável que tenha havido menos que uma crítica ao desenvolvimento científico em si – como Lewis passou a ser acusado a partir deste livro, especialmente nos Estados Unidos –, mas ao uso instrumentalizado e politicamente imperialista da ciência e tecnologia. Afinal, ele era irlandês, parte da cultura anglo-saxã responsável por colonizar povos em todo o mundo durante alguns seculos. (E não deixa de ser irônico de que no momento em que o livro foi escrito o Reino Unido estava quase por cair sob o império nazista).
Ao longo do livro haverá um embate entre as ideias pacíficas e humanistas de Ransom e as egoístas e bélicas de Weston, em torno da figura da Dama. Ora, como já deve estar claro, Perelandra é uma alegoria sobre o Gênesis, seção do Velho Testamento. A Dama representa Eva, e o Rei, o primeiro homem, Adão. A missão de Ransom, então, é evitar que o novo mundo, belo e inocente, seja corrompido, como acabou acontecendo com a Terra (Thulcandra, para os eldilas). Pois através da construção de um novo Paraíso, que não se deixe levar pelas tentações do prazer, da vaidade e do poder, Perelandra possa se tornar o que Thulcandra poderia ter sido. Um mundo que sucumbiu a todos os tipos de pecados, moralmente corrompido e espiritualmente decaído e, por isso, silencioso, isolado da comunhão celestial. Por outro lado, é interessante pensar que embora Lewis não tivesse conhecimento de como Vênus é na realidade, possa existir uma ironia embutida: a Terra, um paraíso em termos de natureza sucumbiu ao vício e ao pecado do homem; Vênus, um inferno em termos de natureza, deve emergir como o novo paraíso da virtude e da bondade.
Assim como no primeiro da trilogia este livro também tem uma estrutura metalinguística embutida, pois quem narra os feitos de Ransom não é ele em primeira pessoa, mas um amigo dele que não é ninguém menos que o próprio C. S. Lewis. Outro aspecto curioso, é que Ransom viaja a Vênus num caixão, como se morresse e fosse renascer num novo mundo. Ainda mais por ser Perelandra, é como se Ransom despertasse no Paraíso. Aqui, como se percebe, não há nenhuma preocupação racional ou tecnológica em como justificar a viagem interplanetária. Ao invés, ressalta-se a opção mais espiritualista, ou mesmo sobrenatural.
Esta é a segunda edição em língua portuguesa de Perelandra, e a primeira no Brasil. O livro foi publicado em Portugal pela Coleção FC Europa-América, no. 179, em 1991, como Perelandra Viagem a Vênus – que foi o título que recebeu numa das edições publicadas nos Estados Unidos nos anos 1950. Mais recentemente, em 2019 a editora de livros cristãos Thomas Nelson publicou Perelandra, junto com os outros dois livros da trilogia: Além do Planeta Silencioso (Out of the Silent Planet) e Aquela Força Medonha (That Hideous Strenght).
Este romance tem uma discussão teológica cristã evidente, especialmente da metade para o final, e chega a ficar um pouco chato e cansativo, pois carece de ação e drama, ao se concentrar demais na discussão e depois no desdobramento das opções apresentadas ao Rei e à Rainha, de que rumo seguir na construção do novo mundo. Apesar de ser um bom prosador Lewis acaba exagerando, tornando o livro quase que uma peça de defesa proselitista do cristianismo. Mesmo assim, no conjunto, apesar destes problemas, Perelandra vale a leitura, em termos da riqueza filosófica que apresenta, das discussões sobre a condição moral da humanidade e, não menos significativo, da narrativa da construção de um mundo rico e diversificado, cheio de imagens belíssimas.

Marcello Simão Branco

sábado, 18 de janeiro de 2020

Ômega, o Planeta dos Condenados


Ômega, o Planeta dos Condenados (The Status Civilization), Robert Sheckley. Capa de Roberto de Sousa Causo. Tradução de Donald Garschagen. 147 páginas. São Paulo: Edições GRD, coleção Nova Ficção Científica GRD, no. 3, 1989. Lançamento original em 1960.


Um homem desperta da inconsciência em uma sala escura e fechada sem saber onde está e, pior, sem saber quem é. Imagina estar num hospital, mas fica ainda mais desorientado quando lhe dizem que está numa prisão. Na verdade é uma nave espacial a caminho do planeta Ômega, que abriga os condenados da Terra, onde poderão recomeçar suas vidas.
Assim começa o romance curto Ômega, o Planeta dos Condenados (The Status Civilization), do escritor norte-americano Robert Sheckley (1928-2005), um dos mais talentosos e inteligentes surgidos nos anos 1950, logo após a Golden Age dos anos 1940 e antes da emergência da New Wave nos anos 1960.
O prisioneiro de número 402 é informado que seu nome é Will Barrent, e foi condenado pelo crime de assassinato. E da mesma forma que os outros não se lembra de sua vida pregressa na Terra e muito menos sobre as circunstâncias de seu crime.
Eles devem recomeçar uma nova vida, mas logo descobrem que não será fácil. Isso porque Ômega é socialmente dividido em castas muito rígidas, com os mais antigos tendo mais poderes e privilégios. Para conseguir ascender é preciso se defender dos riscos iminentes de serem mortos, pois as leis e os costumes permitem que se cometam assassinatos para subir de casta.
Barrent não terá paz e assim que chega tem de se defender de uma tentativa de assassinato. Mata seu oponente e assim ascende uma casta, ficando com os bens e os negócios de seu oponente. Passa a atuar numa loja de venenos, frequentada principalmente por mulheres, em franca minoria, cerca de um sexto da população do planeta. Aliás, este é um aspecto que poderia ser mais explorado, pois numa situação como esta as mulheres tenderiam a ser muito valiosas e disputadas. Ou mesmo poderosas.
Por meio da adaptação de Barrent é exposto o sistema social de Ômega, bastante cruel e desumano, no qual matar é incentivado. Por isso a expectativa de vida de quem chega é de apenas três anos. Quem burla as leis também é premiado, desde que sobreviva às punições previstas.
Numa noite Barrent é surpreendido com a visita de um sacerdote, mas não é o que parece. Ele representa o Mal, um culto a uma entidade chamada O Negro. Através de rituais de missas negras e com o sacrifício eventual de garotas virgens – muito raras – ele é exaltado como ser supremo da representação dos pecados humanos. Outra instituição curiosa é a Casa dos Sonhos, onde as pessoas são incentivadas a passarem algumas horas consumindo drogas. Barrent comparece aos dois lugares, mas não se sente à vontade em nenhum. Na verdade ele não aceita ter cometido o crime que lhe é imputado pois, de índole pacífica, não imagina como possa ter matado alguém. Para conseguir respostas ele visita o bairro dos mutantes, na periferia de Tetrahyde, a cidade principal de Ômega. Alguns dos mutantes têm a capacidade de vidência passada e, através de uma mulher, ele descobre detalhes sobre as circunstâncias de seu crime.
Sua rejeição à religião, às drogas e a visita aos mutantes, segregados do resto da sociedade, rende a Barrent a condenação a enfrentar Max, uma máquina assassina dos quais pouquíssimos escapam com vida. Colocado numa arena com a presença de uma multidão eufórica, ele tem de usar de toda sua habilidade para não morrer – como mostrado acima a capa do livro representa este duelo –, um dos momentos mais marcantes do livro. Contudo, percebe que não haverá mais paz, pois de uma prova ele é endereçado a outra ainda mais difícil. Nesta escalada ele procura fugir e descobre a existência de uma resistência secreta, formada por condenados por crimes não violentos, especialmente perseguidos políticos da Terra. Com isso, passa a ter mais um objetivo, além de sobreviver e desvendar seu passado. Uma tentativa de reverter o sistema cruel de Ômega e voltar à Terra.
Infiltrado numa das naves que trazem novos prisioneiros Barrent volta ao seu planeta natal. O objetivo é descobrir como ele está e, se for o caso, fazer contato com uma possível oposição com o intuito de juntar forças contra a opressão do sistema. E, de novo, ele fica chocado. Agora com o que se tornou a Terra, que há cerca de 800 anos estabeleceu um governo mundial, mas sem espaço para qualquer outra forma de expressão ou comportamento senão aquele aprovado pelo Estado, que cuida das leis e punições, enquanto máquinas e robôs gerenciam a administração e a economia. Os que se opõe ou cometem algum crime previsto são deportados para Ômega. Mas Barrent descobre que os terráqueos estão decadentes, vivem numa sociedade em anomia e sem objetivos. Desde a infância as pessoas são doutrinadas – como numa lavagem cerebral – a serem obedientes e conformadas, e mesmo para aqueles que se rebelam e são condenados à Ômega, há uma proteção final para preservar a utopia vivida na Terra.
Como se percebe é um livro bastante crítico e sofisticado do ponto de vista social e político. Embora curto, apresenta um painel bastante complexo das sociedades dos dois planetas, talvez facilitado com o recurso engenhoso de expor tudo por meio de acontecimentos na vida do protagonista, o que torna a narrativa ágil e cheia de suspense, pois Barrent enfrenta desafios o tempo todo em sua luta para sobreviver e descobrir sobre o seu passado.
Histórias sobre planetas prisões não são incomuns na FC, como Regresso a Zero (Retour a “0”, 1956), de Stefan Wul, Revolta na Lua (The Moon is a Harsh Mistress, 1966), de Robert A. Heinlein, e Estação dos Exilados (Hawksbill Station, 1968), de Robert Silverberg. Mas Ômega talvez tenha a reflexão social e política mais aguda, mostrando um mundo que destrói a identidade e a individualidade. Poderia ser visto como uma metáfora anti-comunista, já que foi escrito em plena Guerra Fria. Mas acredito que seja mais do que isso, pois reflete em termos amplos sobre a condição de humanidade, afinal descaracterizada na ditadura homogenizadora da Terra e na violência institucionalizada de Ômega. Pois uma mostra a decadência e outra a barbárie. Como indica o título original é a sombria condição a que chegou a civilização.
Antes deste romance Sheckley só teve publicado no Brasil sua excepcional coletânea Inalterado por Mãos Humanas (Untouched by Human Hands), no distante ano de 1970 pela editora Brasiliense. Nesta onda favorável destes últimos anos de publicação de autores estrangeiros de FC no país, Robert Sheckley é um nome que se impõe a ser redescoberto, pela sua qualidade literária refinada e sua visão de mundo satírica e pessimista. Um autor necessário, e que tem em Ômega, o Planeta dos Condenados uma pequena obra-prima.

Marcello Simão Branco

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O livro do juízo final, Connie Willis

O livro do juízo final (Doomsday book), Connie Willis, 573 páginas, tradução de Braulio Tavares. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.

Um dos mais explosivos temas de debate sobre ficção científica no Brasil do século 21 é a representatividade das mulheres no gênero. Mas isso não é de hoje. Desde os primeiros eventos do gênero no país, ainda nos anos 1980, já se trata do assunto, com painéis formados exclusivamente por escritoras e a produção de antologias feministas. A diferença entre o antes e o agora é que a vontade de criar uma discussão quantitativa parece ser mais importante que as obras em si. E assim, tudo aquilo de que realmente vale a pena falar fica para segundo plano. E isso é muito injusto com as autoras que tanto contribuíram para o amadurecimento do gênero, tanto no Brasil quanto no mundo.
Um dos muitos títulos recorrentes nessa discussão recente é O livro do juízo final, da escritora  americana Connie Willis, publicado em 1992 mas que só chegou ao Brasil em 2017, com tradução de Braulio Tavares para o selo Suma das Letras, da editora Companhia das Letras, primeiro de uma série sobre as aventuras dos historiadores de Oxford.
Contudo, Willis não é uma novidade, mas uma saudosa conhecida dos leitores do gênero no Brasil. Isso porque, durante os poucos anos que a revista Isaac Asimov Magazine teve edição brasileira pela editora Record, nos anos 1990, a autora foi bastante publicada e muito bem avaliada pelos leitores. Esperava-se, a época, que a própria editora lançasse romances dos autores vistos ali, mas isso praticamente não aconteceu, com exceção de Charles Sheffield, outro ótimo e frequente autor da IAM que teve os livros Maré de verão e Divergência traduzidos pela Record. Com o pranteado fim da revista, em sua edição 24, muitos desses excelentes autores, que estavam na linha de frente da fc mundial do final no século, acabaram esquecidos e só agora voltam a pauta.
Willis tem uma fc emotiva e introspectiva, e essas características estão presentes em O livro do juízo final, que conta com personagens muito bem elaborados, envolvimentos profundos e sem pieguismo, e uma narrativa naturalista que deixa tudo muito crível, por mais absurdo que seja. Lembro-me vividamente da novela "O último dos winnenbagos", na qual um casal de idosos viaja por estradas americanas futuristas em um anacrônico motorhome.
O título O livro do juízo final é algo enganoso. Enquanto eu carregava o livro por aí, durante a leitura, muita gente se espantava e acreditava que se tratasse de um livro religioso e escatológico. O fim do mundo é um tema que apavora a maior parte das pessoas mas, ainda que seja um título muito bom e adequado, não anuncia perfeitamente o que o texto traz.
A história acompanha a viagem de Kivrin Engle, estudante da universidade de Oxford – provavelmente uma doutoranda ou algo do gênero – à idade média, mais exatamente ao ano de 1320, a partir de uma tecnologia de viagens no tempo que parece bastante comum em 2050, época em que parte da história se passa. O livro começa já nos preparativos finais da viagem, que não é consenso entre os doutores ligados ao departamento de História da universidade. Sr. Dunworthy, uma espécie de mentor de Kivrin, discorda do método apressado do departamento Medieval que está adiante da missão e tenta suspender a viagem por todos os meios, mas é voto vencido. Willis desfralda aqui o ambiente conflituoso que caracteriza o campo acadêmico em que os doutores lutam por espaço para suas teorias, sem medir as consequências de seus atos. Esse é o tema favorito da fc desde Frankenstein e aqui segue mais ou menos o mesmo caminho. Porque, é claro, alguma coisa vai dar muito errado.
Pouco depois da máquina ser acionada, uma virose altamente contagiosa surge na Londres futurista e o foco parece ser justamente o laboratório do qual Kivrin partiu. Enquanto os cientistas e técnicos ligados a missão adoecem um após o outro, com febres altas e delírios, Kivrin segue sua incursão ignorando o que acontece em seu tempo. Porém, como ela também havia contraído a doença, isso vai trazer uma série de imprevistos à missão e pode mesmo levá-la ao completo desastre. Sua esperança – que ela na verdade não tem conhecimento – é a fidelidade canina de Dunworthy, o único que parece realmente interessado em resgatar Kivrin de sua missão desafortunada. Porque a doença não permitiu que todos os parâmetros de segurança fossem implementados e, a cada hora que passa, as chances de trazer Kivrin de volta ficam ainda piores.
Temos então, duas narrativas paralelas: uma em 2050, quando Dunworthy move céus e terra para resgatar Kivrin de uma tragédia da qual ele não duvida um só minuto, e outra em 1320, em que a pesquisadora convive numa paupérrima aldeia medieval igualmente assolada por uma virose ainda mais mortal.
Willis demonstra habilidade narrativa, tecendo uma trama muito bem ajustada que peca apenas em um aspecto: não previu o impacto da telefonia móvel nessa sociedade do futuro. Afinal, numa época em que se pode viajar com segurança pelo tempo ao ponto de ser rotina na maioria das instituições, era de se imaginar que a sociedade contasse com meios de comunicação um pouco melhores que a telefonia com fio. Talvez, em 1992, ainda não fosse possível antever o fenômeno, mesmo nos EUA, então é necessário, para o bom aproveitamento da história, que o leitor releve esse detalhe, mesmo que não seja assim tão pequeno.
Tirando esse obstáculo do caminho, trata-se de uma história de personagens apaixonantes com os quais sofreremos emocional e fisicamente, instalados nas duas épocas de forma muito bem estruturada. É possível visualizar tanto o campus de Oxford e seus arredores, como toda a geografia e arquitetura da vila medieval, sem que se perceba como Willis faz isso, uma habilidade dominada por poucos. Só por isso, mais a saudade da autora que pode ser enfim aplacada em nós, já vale a leitura. Mas há muito mais o que se aproveitar. Altamente recomendável.
Cesar Silva

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Além do Planeta Silencioso

Além do Planeta Silencioso (Out of the Silent Planet), C. S. Lewis. Tradução de Waldéa Barcellos. 220 páginas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. Lançamento original em 1938.

Há alguns meses vi na livraria do Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo, os três volumes da Trilogia Cósmica, ou Trilogia de Ransom, de C.S. Lewis: Além do Planeta Silencioso (1938), Perelandra (1943) e Aquela Força Medonha (1945). Lançamento de 2019, em edições bonitas, com capa dura, da editora de livros cristãos Thomas Nelson. Mas os preços estavam proibitivos.
O primeiro livro eu li quando tinha 19 anos, numa edição portuguesa da coleção Europa-América, no. 80, com título levemente diferente: Para Além do Planeta Silencioso, e seu impacto nunca de desfez. Assim, pensei: será que tantos anos depois valeria a pena ler de novo, agora incluindo os dois livros seguintes? É que tive um certo receio de não macular a memória afetiva do período da minha vida em que o li pela primeira vez. Mas, como disse, o livro me impressionou antes e, portanto, pela sua qualidade resolvi arriscar uma nova leitura. Por sorte, a editora Martins Fontes já havia publicado os três livros antes, entre 2010 e 2011, e os consegui por preços bem mais acessíveis.
Além do Planeta Silencioso é uma história de FC do subgênero planetary romance, em que acompanhamos a incrível aventura do linguista Elwin Ransom. Ele é raptado por dois cientistas e levado a Marte, com o intuito de ser oferecido a alienígenas em troca de ouro, abundante no planeta. Mas o livro revela-se muito mais do que este pobre pretexto. Ransom consegue fugir dos seus captores e perambula pelo planeta em busca de ajuda e sobrevivência. Com isso se depara com um mundo fantástico e desconcertante, em suas multicores, vegetação exuberante, seus rios e mares, planícies e montanhas. Por si só as descrições do mundo alienígena de Lewis valem a leitura e estão entre as mais belas e criativas de toda a ficção científica.
Ransom trava contato com uma civilização inteligente, os hrossa – semelhantes a focas –, que o abriga e inicia nos seus costumes e filosofia de vida poética e integrada à natureza. É um povo que extrai por meio da harmonia e simplicidade, uma postura tranquila e pacífica. Mas Ransom descobre que Marte – chamado de Malacandra por seus nativos –, inclui ainda mais duas espécies inteligentes: os sorns e os pfilfltriggi. Os sorns, grandes e semelhantes a pássaros, e os pfilfltriggi, os menores e parecidos com rãs. Linguista, Ransom aprende a se comunicar com as três espécies, aprendendo a língua dos hrossa que é comum a todos (apenas entre eles os sorns e os pfilfltriggi adotam linguagens próprias), e percebe que eles compõem o que chamam de hnau, os seres inteligentes que se respeitam e se complementam com estilos de vida e habilidade próprias. Os sorns mais empreendedores e os pfilfltriggi muito hábeis em construções e serviços manuais. Todos vivem em conexão íntima com o ecossistema do planeta, sem predação justificada por motivos políticos ou econômicos.
Os hanais dizem a Ransom que ele vem de Thulcandra, o planeta silencioso, e que deve ir ao encontro de Oyarsa, o governante e líder espiritual do planeta, que pertence a uma outra espécie, os eldil. Difíceis de serem descritos, por vezes se materializam, por vezes se manifestam com vozes ou sinais indiretos, numa indicação de serem seres etéreos ou sobrenaturais. Alguma semelhança com anjos não é coincidência.
O romance flui de forma leve, apesar de eivado de muitos simbolismos de ordem cristã. Há mesmo um frescor pulp na narrativa em geral – talvez efeito do tipo de ficção que se escrevia nos EUA na época –, o que só o torna mais atraente e prazeroso.
Ransom e seus dois captores descobrirão por que a Terra (Thulcandra) é chamado de o planeta silencioso, isolado de uma espécie de comunidade cósmica que interage pelos céus (e não pelo espaço em si), em busca de uma convivência mais virtuosa e cheia de confiança mútua.
Embora não seja explícita, a alegoria de Lewis é perceptível, no sentido de que a humanidade é uma espécie que decaiu em seus valores e costumes, perdeu-se no egoísmo, inveja, maldade e ganância, sendo mesmo orientada, sub-repticiamente, pelo Torto, como chamado por Oyarsa – um eldil que se bandeou para o mal. A alusão implícita aqui é com Lúcifer.
Além do Planeta Silencioso é um livro interessante e elegante, tanto em sua narrativa, que mistura aventura com descrições inspiradas da natureza, como na filosofia que prega, que longe de ser proselitista, se aproxima mais do que poderíamos chamar de uma visão de mundo pautada por uma ética humanista e cristã.
Em mais um aspecto de interesse o livro se revela metalinguístico, surgindo como um relato fictício de uma experiência verdadeira, através do qual Ransom – também um nome inventado –, achou mais adequado revelar à humanidade sua experiência e descobertas. Não dá para deixar de pensar que Ransom é um alter ego do próprio Lewis – que, depois de ateu na juventude, se tornou reverendo e professor de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge.
E esta literatura de ficção especulativa baseada em alegorias cristãs prosseguiu anos depois quando Lewis concebeu sua série As Crônicas de Nárnia (The Chronicles of Narnia), composta por sete livros, publicados entre 1950 e 1956. Também aqui, e de forma leve e implícita, as aventuras, agora de alta fantasia, são protagonizadas por crianças e animais falantes no Reino de Nárnia.
Aqui no Brasil o livro tem uma importância editorial histórica, pois inaugurou a mais importante coleção da ficção científica brasileira, a FC GRD, editada pelo editor Gumercindo Rocha Dorea, em 1958 - veja a capa acima à direita. A escolha do livro não foi um acaso, pois uniu a paixão de Dorea pela FC e sua vinculação estreita com o catolicismo. O livro ainda seria republicado em meados dos anos 1970, como Longe do Planeta Silencioso – tenho a segunda edição, de 1979 –, pela editora cristã Livros Co-Lab, de Umuarama, Paraná, numa tradução do Reverendo Amantino Adorno Vassão. Depois os três volumes foram publicados na coleção Europa-América, de Portugal, o já citado no. 80 (em 1984), Perelandra Viagem a Vênus, no. 179 (em 1991), e Aquela Força Medonha, nos. 185 e 186 (também em 1991). E voltou a ser publicado no Brasil em 2010 com a edição que usei para esta resenha, seguido em 2011 com a publicação inédita das duas sequências, todos pela WMF Martins Fontes, até a edição mais recente da editora Thomas Nelson, em 2019.
Escrito em 1938 é um livro que também discutiu a sua época, às vésperas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), como uma espécie de alegoria sobre a condição crítica da humanidade, à beira da barbárie absoluta. Mas seu interesse perene nos anos posteriores, inclusive aqui no Brasil, confirma o seu status de clássico, por equilibrar com rara elegância discussões filosóficas profundas e um sense of wonder dos mais belos.


Marcello Simão Branco

domingo, 10 de novembro de 2019

Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás, Reginaldo Prandi

Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás, Reginaldo Prandi. Ilustrações de Rimon Guimarães, 200 páginas. Selo Seguinte, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2017.

Tratar de mitologia africana não é novidade no ambiente da ficção fantástica brasileira, embora não seja também uma recorrência. De fato, há ainda uma grande defasagem entre as mitologias fundadoras de nossa cultura e as mitologias de matriz estrangeira quando falamos de ficção brasileira. A esmagadora maioria dos autores brasileiros sente-se pouco confortável com a cultura nativa até porque não a conhece: vive num ambiente aculturado, em que os valores estrangeiros, geralmente europeus, predominam. Por isso, é muito comum encontrarmos autores brasileiros no campo do fantástico trabalhando com mitologias grega, nórdica, japonesa e até nativas da região da América do Norte. É o que vemos no cinema, na tv, nos quadrinhos e na literatura dominante do gênero que, não por acaso, vêm exatamente do mercado anglo-americano que explora todas elas. Em alguns momentos, no ambiente dos autores, até se construíram discursos pró-nativos, de matizes modernistas, mas sempre houve uma forte corrente contrária que a acusava de ser patrulheira e pregar uma ficção estereotipada.
O que tem permitido o crescimento de obras literárias com temas africanistas no ambiente da ficção fantástica brasileira, além da laicização do mercado e da "explosão cambriana" na diversidade cultural, foi a cultura do "faça você mesmo" e, principalmente, a popularização dos processos editoriais. Hoje, diferentemente de todos os outros tempos, publica quem quiser e o que quiser. Com as facilidades editoriais, seja no acesso à impressão por demanda ou no crescimento da atividade literária no espaço virtual, os editores comerciais perderam boa parte do poder de determinar o que pode ou não ser publicado. Ainda há, é claro, um nó górdio na distribuição de livros reais, dominado por uma máfia voraz, mas há quem diga que as livrarias também já têm seus dias contados.
Ao longos dos últimos vinte anos, mais ou menos, formou-se um grande grupo de autores e leitores muito interessados em novidades, integrado pelo avanço da internet. Num primeiro momento, enquanto as grandes editoras ainda insistiam em ignorar esse grupo, os autores fizeram circular fanzines e livros independentes que ajudaram a crescer uma massa de leitores ao ponto de formar um mercado potencial. Timidamente,  autores ligados ao fandom começaram a aparecer nas livrarias e cada vez mais deles percebem que a ficção fantástica tem méritos suficientes para romper preconceitos.
Enfim, depois de muita luta, podemos dizer que as comportas abriram e a ficção fantástica não está mais restrita a um fandom especializado. Autores experientes, inclusive do mainstream, parecem entender as vantagens de trabalhar dentro da ficção especulativa, avançando especialmente no fantasia, que tem sido o gênero de melhor aceitação comercial.
Aimó: uma viagem pelo mundo dos orixás é um exemplo disso. Romance de autoria do sociólogo Reginaldo Prandi, autor paulista e estudioso da mitologia africana que escreveu o importante Mitologia dos orixás (2000, Companhia das Letras) e diversos outros volumes sobre cultura afro-brasileira, elabora uma fabulação singela que, de forma bastante didática, mostra como se fundamenta a religiosidade africana. Aimó não é seu primeiro romance no tema: Ifá, o adivinho (2002, Companhia das Letras), por exemplo, foi premiado em 2003 como Melhor Livro Reconto da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Acompanhamos a jornada de Aimó, menina sem memória que, aos prantos, vaga pelo Orum, o mundo dos orixás. São tantas suas lágrimas que acabam por despertar Olorum, o maior dos orixás, que, sensibilizado pelo sofrimento de Aimó, encarrega Ifá e Exu para que apresentem à menina todas as orixás para que ela possa escolher uma delas como sua mãe espiritual e então reencarnar no Aiê, o mundo dos homens, e restaurar sua linhagem. Aimó inicia assim uma peregrinação por Orum, testemunhando, a partir das narrações de Ifá, as principais histórias de cada uma das orixás femininas e, no processo, também dos orixás masculinos. As narrativas de Ifá, sempre apresentadas em uma fonte diferenciada do estilo principal do texto, também expõem ao leitor as características doutrinárias do Candomblé, religião africana que deu origem às seitas praticadas no Brasil.
As ilustrações de Rimon Guimarães, de um estilo primitivista elegante, ajudam a construir o imaginário do Orum. Cada capítulo é introduzido por um dos signos do oráculo de Ifá (o jogo de búzios), detalhados num anexo no final do volume. Também aparecem em anexos: notas do autor, um glossário com termos das línguas nagô e iorubá citados no livro, e uma relação explicativa sobre cada um dos orixás.
O romance de Prandi, como integrante do selo juvenil da Companhia das Letras, tem o objetivo de levar ao leitor jovem algum conhecimento sobre esta que é a mais viva das mitologias modernas, extremamente influente na cultura brasileira. Contudo faz muito mais do que isso: traz também ao leitor experiente da literatura fantástica um das mais expressivas e esclarecedoras explicações sobre o Candomblé, seus fundamentos e seus personagens, integrando-os com naturalidade ao imaginário coletivo, sem proselitismos. Ao lado de O palácio de Ifê (2000, L&PM) e A estrela de Iemanjá (2009, Cortez), ambos da escritora gaúcha Simone Saueressig, Aimó: uma viagem pelo mundo dos orixás forma uma tríade da melhor ficção fantástica sobre orixás já apresentadas ao leitor brasileiro, leituras obrigatórias principalmente a autores que pretendem navegar por águas tão pouco conhecidas.
Cesar Silva

sábado, 24 de agosto de 2019

Flash Forward


Flash Forward (idem), Robert J. Sawyer. Tradução de Ana Carolina Mesquita. Capa de Igor Campos. Rio de Janeiro: Galera Record, 2014. 382 páginas. Lançamento original de 1999.


Em julho de 2012 físicos do CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear), em Genebra, na Suíça, realizaram um experimento de aceleração de partículas com o objetivo de encontrar o Bóson de Higgs. Este componente supremamente ínfimo da natureza seria a peça fundamental que formaria as partículas subatômicas e, por extensão, toda a matéria do universo. O evento foi cercado por alguma polêmica, pois alguns grupos de esotéricos e religiosos temeram que o acelerador de partículas pudesse alterar a tessitura da realidade, talvez criando um miniburaco negro que pudesse engolir a própria Terra.
Em termos de ficção científica a concretização deste temor foi abordada de forma brilhante por David Brin em seu romance Terra (Earth), publicado em Portugal pela coleção Europa-América, nos. 182 e 183 (1991). Mas em Flash Forward, ocorre um outro fenômeno tão ou mais surpreendente e improvável: No ano de 2009, quando a experiência para a descoberta do Bóson de Higgs é realizada toda a humanidade perde os sentidos. Fica neste estado por dois minutos e dezessete segundos. E durante este período cada pessoa se vê 21 anos à frente, no qual cada um sente o fenômeno por meio de sua consciência no futuro, ou seja, em 2030.
Aqueles que estavam em movimento no momento do evento sofrem acidentes ou morrem: em escadas, carros, aviões etc. Milhares perdem a vida em todo o mundo. Mas afora esta tragédia imediata o evento altera de várias maneiras as vidas das pessoas em toda a parte. Pense: como você reagiria se pudesse saber como seria o seu futuro daqui a 21 anos? Para muitas pessoas o futuro é interessante: está com saúde, casou e tem filhos, progrediu na carreira, realizou algum sonho antigo. Mas para muitos outros os objetivos se mostraram um fracasso: sofre de doença grave, relacionamentos sem futuro, carreiras malsucedidas, e o pior: escuridão. Várias pessoas não viram nada, numa indicação de que, então, não terão futuro porque não estarão vivas.
Tal é o caso de um dos cientistas que participam da experiência, o grego Theo Procopides. Com apenas 28 anos, teria 49 duas décadas depois. Mas nada viu. Como vaticina de maneira lúgubre seu chefe, Lloyd Simcoe, é porque ele estará morto em 2030. Mas Simcoe também vê seus planos mais imediatos serem abalados: prestes a casar com Michico Tamura, sua assistente, constatou que sua visão o mostra numa cama com outra mulher, que ele ainda nem chegou a conhecer. E para piorar Tamiko, a filha pequena do primeiro casamento de Michico, morre atropelada por causa do flashforward. Você planejaria um futuro com alguém que não vai estar com você?
Mas as consequências também assumem contornos coletivos, em termos econômicos e tecnológicos. Como o evento ocorreu às 17 horas em Genebra, vislumbrou situações de possíveis vantagens econômicas (de saber como tal produto ou segmento estará) ou tecnológicas (com possíveis invenções). Isso porque boa parte das visões relatadas pelos habitantes da Ásia relatou situações desconexas e sem sentido. Claro, estavam dormindo, e viram seus sonhos. Por outro lado, morreram menos do que os ocidentais, acordados em sua maioria na hora do fenômeno.
No início não estava claro que o flashforward havia sido provocado pela experiência de alta energia, mas evidências indiretas foram sendo compostas até ficar claro de que se tratava de algum fenômeno estranho, que levou ao desmaio de sete bilhões de pessoas. Um dos efeitos secundários inquietantes é que nenhum aparelho de gravação registrou as pessoas desmaiadas ou os acidentes. Não filmou nada, só estática. Uma explicação oferecida pelos cientistas – mas que não me convenceu totalmente – é que com a ausência de qualquer consciência humana durante o flashforward, é como se a realidade tivesse ficado suspensa. Uma evidência do efeito observador na teoria quântica.
Depois de evitar realizar novamente o experimento e de ficar claro de que deviam alguma explicação pública para o ocorrido, Simcoe anuncia a provável conexão e, embora ele e o CERN não sejam imediatamente culpabilizados, é claro que há uma percepção geral de que alguma responsabilidade eles têm pelo que aconteceu.
Sawyer poderia ter desenvolvido a história numa espécie de mosaico, que pudesse mostrar o ponto de vista de vários personagens, em diferentes partes do mundo. Talvez reunindo seus destinos ou não, para mostrar as muitas nuances possíveis de como o fenômeno afetou as mais diversas vidas. Talvez com isso o romance ganhasse no desenvolvimento de dramas particulares, e o romance provavelmente seria maior. Contudo, ele optou por apresentar os dramas das pessoas diretamente envolvidas com a deflagração do evento: os físicos do CERN. De como afetou suas vidas pessoais e profissionais.
Neste aspecto, obviamente, o futuro mais inquietante é o de Procopides. Será mesmo que a escuridão representa a morte? Se sim, poderia haver alguma maneira de evitá-la, já que há um conhecimento prévio de sua ocorrência? Ele divulga publicamente seu problema na internet e encontra pessoas que teriam compartilhado a visão do momento de sua morte, como a de um menino de sete anos que daqui a 21 anos será o policial que investigará o seu assassinato. Mas o drama de Procopides não para aí. Seu irmão mais novo, um escritor talentoso comete suicídio ao descobrir que não teria o futuro de sucesso que imaginava.
Mas será que o futuro seria mesmo imutável? No fundo o livro faz uma ampla discussão sobre se existe livre-arbítrio ou tudo já está determinado. Talvez alguma contribuição religiosa ou mística também pudesse ser incluída, na voz de alguns personagens, mas a discussão fica restrita mesmo às teorias da física. Mesmo assim não deixa de ser altamente instigante acompanhar os diferentes argumentos a defender um ou outro ponto de vista. Acredito que o futuro é aberto, e cada um traça o seu destino, a cada segundo de vida. Mas quase fui quase levado a crer que a visão determinista prevalece, como defendida por Simcoe. Ele se baseou nas teorias de Minkowski, de que a estrutura da realidade seria uma espécie de bloco que conteria passado, presente e futuro. E ao transitarmos pelos diferentes trechos deste espaço poderíamos constatar o que já passou e o que irá ocorrer. Embora seja sugestiva, a observação de Michico ajuda a entender por que Simcoe, no seu íntimo, a defende: seria um álibi para todas as mortes ocorridas. Ele não teria tido responsabilidade porque já estava tudo traçado no continuum inscrito no bloco de Minkowski. Sobretudo pela morte da sua enteada, a razão maior da crise de relacionamento entre os dois, até mais do que a visão dele com outra mulher. Mas aos poucos alguns fatos vão mostrando que o futuro pode ser mudado. Principalmente quando pessoas dão cabo da própria vida, como o irmão de Procopides.
Então era preciso tirar tudo isso a limpo. Não principalmente para eles, mas a maioria das pessoas que ansiavam por uma nova visão que confirmasse ou não seu porvir. Com autorização da ONU a experiência é repetida, mas às 5 horas da manhã, em Genebra, ou seja, invertendo o horário da primeira vez e dando a chance ao Oriente de, eventualmente, vislumbrar mais seus futuros e eventuais ganhos em termos econômicos e tecnológicos. É claro que tudo desta vez é preparado para que as pessoas não sejam pegas de surpresa e se acidentem.
Mas será que haverá um novo vislumbre do futuro? E, afinal de contas, o que o teria provocado? Num laboratório de pesquisas físicas no Canadá, surge a hipótese de que o flashforward teria ocorrido por um súbito aumento da ocorrência de neutrinos na Terra no momento da experiência. Os neutrinos são partículas quase sem massa que vagam pelo universo sem nenhuma resistência. No sistema solar são produzidos principalmente pelas explosões nucleares no interior do Sol, e trilhões deles preenchem o nosso planeta – e nossos corpos – em frações de segundo, mas sem interação alguma com outros átomos e moléculas. Neste caso, contudo, o aumento repentino não teria sido provocado pelo Sol, mas pelo acréscimo de neutrinos ainda em vigência pela explosão da supernova 1987A, a maior de uma estrela observada pela humanidade em 383 anos, ocorrida em 1987 na estrela supergigante azul Sanduleak, na Grande Nuvem de Magalhães, a 170 mil anos-luz da Terra.
De certa forma, a não imutabilidade do destino e a descoberta da provável causa do flashforward, causa alívio nas pessoas, fazendo-as perder o receio de repetir a experiência, justamente na data: 21 de outubro de 2030. Mas como seria possível reproduzir o fenômeno, totalmente fortuito na interação dos neutrinos? É enviada uma sonda em direção aos restos da supernova, com um sistema de alerta para determinar o próximo pico de atividade dos neutrinos. Com isso haveria a chance de repetir um novo flashforward. Contudo, se o futuro não é imutável, parte das visões vislumbradas em 2009 se tornaram realidade. Inclusive para Simcoe, Michico e Procopides.
Flash Forward acrescenta mais um aspecto interessante ao tema da viagem no tempo, um dos mais clássicos da ficção científica. Se os viajantes não comparecem de corpo presente à outra época, eles têm visões do que pode vir a ocorrer com eles. Nesse sentido lembra um pouco o porviroscópio, uma máquina de visualizar o futuro, imaginada por Monteiro Lobato em seu romance O Presidente Negro (1926). Mas o que dá um ganho substancial à obra é o tratamento realista da premissa: O que aconteceria ao mundo se um fenômeno desses acontecesse? Além disso, uma narrativa vigorosa, que soma ao tema fascinante, personagens críveis e humanos que faz com que o interesse pela leitura só cresça a cada página.
O romance foi uma das sensações da ficção científica no final do século XX, embora não tenha vencido o Prêmio Nebula como afirma a Record na capa do livro, mas sim o Aurora, prêmio canadense de FC, em 2000. Foi adaptado numa cultuada série de TV entre 2009 e 2010, que durou apenas uma temporada. Mas o que este livro sobretudo demonstra é como o vigor das boas ideias bem desenvolvidas sustenta uma narrativa criativa e inteligente de ficção científica.

– Marcello Simão Branco