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sábado, 1 de junho de 2019

Ao Cair da Noite


Ao Cair da Noite (Just after Sunset), Stephen King. Tradução de Fabiano Morais. 398 páginas. Rio de Janeiro: Editora Objetiva/Suma de Letras, 2011.


Stephen King tem sido publicado com frequência no Brasil há mais de trinta anos. A começar pela carioca Francisco Alves Editora, nos anos 1980 e 1990, a seguir nos anos 2000 pela também carioca Objetiva, e mais recentemente pela paulista Companhia das Letras. Se a maior parte de seus títulos é composta de romances, a maioria de suas histórias são contos e noveletas.
King afirma que escreve contos por duas razões básicas. Primeiro porque gosta; escrever contos serve para o manter ativo, exercitar constantemente a criatividade entre um ou outro projeto literário de maior envergadura, na maior parte das vezes um romance volumoso. Segundo porque afirma — e não é primeira vez que o faz na introdução de uma coletânea — que, ao escrever e publicar histórias curtas, ajuda a mantê-las vivas, já que esta forma literária tem sido cada vez menos praticada, tanto pela dificuldade em si como, principalmente, pelo rendimento muito maior que um romance traz.
Esta é a segunda coletânea de King publicada no país pela Objetiva. A primeira foi Tudo É Eventual,[1]  em 2003, e continha 14 histórias, algumas delas poderosas como, por exemplo, “O Homem do Terno Preto”, “As Irmãzinhas de Eluria” e “Andando na Bala”. Quase dez anos depois, King reúne mais 13 neste Ao Cair da Noite. Há histórias tão boas quanto estas citadas na coletânea anterior? Sim, pelo menos três delas: “A Corredora”, “A Bicicleta Ergométrica” e “n.”
O texto de “A Corredora” é vibrante e angustiante ao mesmo tempo. Uma mulher perde seu bebê, e tudo o que consegue fazer depois é correr. Torna-se uma corredora compulsiva. Claro, é para esquecer que ela assume essa obsessão, ou melhor, para fugir. O casamento entra em crise e ela se refugia na casa de praia do pai, numa cidadezinha da Flórida. Até topar acidentalmente com um psicopata. É espancada, presa e torturada. Sua única chance é se desvencilhar da cadeira em que está amarrada, antes que o seu algoz volte. Ela perceberá que o fato de ter adquirido o hábito diário de correr será fundamental para escapar do maníaco, que, por sua vez, também tem suas manias e fobias. Com um enredo aparentemente simples, “A Corredora” tem o mérito de segurar a leitura de forma igualmente compulsiva (uma das maiores e mais conhecidas virtudes de King), por meio de um ritmo de thriller, além das sutilezas psicológicas de cada personagem também serem parte vital no êxito da história.
“A Bicicleta Ergométrica”, por sua vez, também explora uma premissa simples, a da necessidade quase premente que todos temos de controlar a alimentação. Um ilustrador recebe más notícias do médico, compra uma bicicleta ergométrica, e torna-se fissurado em andar nela. Não no exercício em si, mas nos efeitos psicológicos que provoca, pois ele imagina estar eliminando as funções do próprio corpo, como se operários perdessem o emprego de limpar seu organismo dos excessos alimentares. Desenha uma tela com os “operários” numa estrada e a situação fica cada vez mais “normal” em sua mente. É um conto dos mais perturbadores, e lida com o limite da sanidade e da loucura.
Mas se há um texto de horror abertamente sobrenatural é “n.”, que também lida com questões se saúde mental. Um psiquiatra é procurado por um paciente com toc (transtorno obssessivo compulsivo) e relata seu desespero a partir do encontro com um conjunto de pedras misteriosas achadas numa propriedade abandonada à beira de uma estrada. Elas provocariam efeitos ilusórios e visões aterradoras, como que vindas de uma outra dimensão da realidade. Apesar do tratamento, ele comete suicídio, e a título de comprovar a insanidade do paciente, o psiquiatra vai atrás das tais pedras para descobrir que também está profundamente perturbado pelos acontecimentos. King revela que se inspirou na novela O Grande Deus Pã (1895), de Arthur Machen, mas me veio à mente ecos de Lovecraft. Seja como for, uma história de horror aterradora e de alto nível.
Em Ao Cair da Noite, King trabalha com alguns temas recorrentes, embora o livro não seja uma coleção de histórias de horror no sentido mais tradicional, ou seja, ligada a eventos sobrenaturais malignos. Ao invés, com eventos sobrenaturais ligados à exploração de situações pós-morte. É o caso do conto que abre o livro, “Willa”, uma história triste, em que as pessoas custam a crer que morreram depois de um acidente ferroviário, até que dois deles, um casal, desabafa suas mágoas numa casa noturna. Outro é “The New York Times a Preços Promocionais Imperdíveis”, em que uma viúva recebe o telefonema do finado marido às vésperas de seu funeral, com este descrevendo onde está, sem perceber que já partiu. Mais um é “Ayana”, que lida com a questão do poder de cura milagrosa que algumas pessoas podem possuir e de como esse dom pode se tornar um fardo a ser carregado. Mas o melhor é “As Coisas que Eles Deixaram Para Trás”, em que objetos pessoais de companheiros de trabalho mortos no 11 de Setembro surgem do nada no apartamento de um sujeito que faltou ao trabalho no dia fatídico. King disse que foi profundamente abalado pelos atentados, como, de resto, a maioria das pessoas civilizadas, e escreveu esta bela e tocante história para tentar extravasar seus sentimentos a respeito.
Outra característica constante do autor é colocar os protagonistas em situações improváveis, absurdas, mas teoricamente possíveis em nosso mundo ilusoriamente ordenado. Ele procura lidar com horrores possíveis, e, por isso mesmo, mais assustadores. Temos exemplos neste livro, nas penúrias pelo qual passam os personagens de “Mudo”, e, sobretudo, “No Maior Aperto”. Pode soar como lugar comum, mas quem tiver lido estas duas histórias pensará duas ou mais vezes antes de dar carona a um deficiente auditivo ou, mais prosaicamente, usar um banheiro químico — aliás, algo desagradável por si mesmo.
No conjunto, Ao Cair da Noite é uma coletânea bem temperada em termos temáticos, sustentada pela prosa segura de sempre, além de personagens críveis envoltos com situações tristes ou à beira do desespero. Se há pelo menos três histórias realmente boas, a maioria das outras não fica muito atrás, tornando este livro um entretenimento de horror competente, mesmo que já tenhamos encontrado King em momentos mais brilhantes. Ele continua em boa forma, e isso é melhor do que a maioria dos outros escritores consegue atingir em seus melhores momentos.

– Marcello Simão Branco



[1] Escrevi uma resenha deste livro para o site Scarium Online, disponível em http://www.scarium.com.br/artigos/sombras/simao11.html.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

O bazar dos sonhos ruins, Stephen King

O bazar dos sonhos ruins (The bazaar of bad dreams), Stephen King. 528 páginas. Tradução de Regiane Winarski. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.

Stephen King é provavelmente o autor mais presente na minha vida de leitor. Desde minha juventude tenho acompanhado sua obra e é interessante observar como ele tem se tornado um autor cada vez mais mainstream sem perder o apelo de uma ficção fantástica, mesmo quando não tem nada de fantasiosa. Esse caráter já pode ser claramente percebido no coletânea Escuridão total sem estrelas, resenhada aqui, mas fica ainda mais evidente na nova coletânea O bazar dos sonhos ruins, publicada em 2017 pela editora Companhia das Letras no selo Suma das Letras.
Diferente da coletânea anterior, formada principalmente por novelas, esta é mesmo uma seleção de contos, com vinte textos distribuídos em suas 528 páginas.
Os momentos mais expressivos do autor neste volume são justamente os contos não fantásticos, que demonstram que King tornou-se um sensível cronista da América decadente.
Não comentarei todos eles, pois isso tornaria a leitura desta resenha um tanto enfadonha - uma vez que não tenho, nem de longe, a habilidade do mestre para entreter o leitor. Então, falarei sobre aqueles que mais me empolgaram, embora nenhum texto da seleta possa ser classificado abaixo de bom. De fato, a maior parte está entre muito bom e excelente, com picos de excepcionalidade, que serão aqueles que vou comentar.
"Batman e Robin têm uma discussão" é uma pequena obra prima. Apesar do título, não tem nada a ver com quadrinhos e os personagens do título não aparecem na história, que conta sobre um almoço entre pai e filho num restaurante. Nada muito especial, exceto pelo fato de que o pai sofre de alzheimer, e este pequeno ritual, repetido semanalmente, é um momento de extrema ternura entre ambos. Contudo, ao retornar para a casa de repouso onde o pai vive, algo ruim acontece e a ficção vai assumir um caráter imprevisivelmente realista.
"Ur" conta uma história com a qual qualquer leitor moderno vai se identificar. Um professor de literatura algo tecnofóbico, num momento de indignação extrema depois de uma discussão com a namorada que o acusa de ser quadrado, resolve comprar um kindle, o leitor de ebooks da Amazon. Contudo, o aparelho que é entregue em sua casa algumas horas depois não é exatamente o que nós conhecemos como um kindle. É igual na forma e na operacionalidade, mas além de uma cor rosa absurda, tem um ícone a mais no menu que dá ao seu usuário acesso a livros que nunca foram escritos - pelo menso não na nossa realidade.
"Blockade Billy" tem aquele delicioso formato de alguém que conta um causo. Trata-se de uma história de esporte, sobre beisebol, um jogo com os qual os brasileiros, com raras exceções, não têm nenhuma empatia. Contudo, o que acontece dentro das "quatro linhas" - ou do diamante, com diriam os fãs de beisebol - não é diferente do que acontece em qualquer outro esporte coletivo: vitórias, derrotas, camaradagem, antagonismos, violência acidental ou não, juizes parciais, angústias e alegrias, é isso que faz com que quem gosta de algum esporte, mesmo não sendo o beisebol, curta a história. Trata-se do surgimento de um novo craque que vai levar o time a um patamar inédito de conquistas. Mas, sabendo quem é o autor da história, dá para imaginar que não há apenas glória e ouro no fim do arco-íris.
Em "Mr. Delícia" o elemento fantástico está presente, mas é tão impreciso que poderia ser classificada como uma história realista. Estamos mais uma vez entre gente idosa numa casa de repouso. Entre eles, dois amigos compartilham a montagem de um quebra-cabeças. Um deles conta ao outro sobre Mr. Delícia, alguém que ele conheceu quando era muito jovem e aparentemente está de volta a sua vida.
"Trovão de verão" é o texto que fecha a coletânea, um conto pós-holocausto de extrema delicadeza. Não há zumbis, nem canibais, nem correrias, nem explosões. A frase "o mundo não acaba numa explosão, mas num suspiro", poderia ser usada aqui mas, de fato, o mundo acaba mesmo é com um trovão em pleno verão.
Além dessas excelentes histórias, a coletânea tem muito mais a oferecer, um carro antropófago, uma duna que revela quem vai morrer, o que há depois da morte, um exorcismo bastante assustador, uma desconfortável história sobre obituários, uma corrida armamentista, um demônio em forma de menino, e pelo menos dois poemas, que é uma raridade na obra do mestre do horror.
Cada conto vem precedido de uma contextualização feita pelo autor, que revela detalhes de sua concepção e desenvolvimento, muito interessantes e efetivamente úteis para a leitura.
O bazar dos sonhos ruins é um grande livro que prova que Stephen King continua sendo um ótimo contista. Com e sem fantasia.
— Cesar Silva

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Escuridão total sem estrelas, Stephen King

Escuridão total sem estrelas (Full dark, no stars), Stephen King. Tradução de Viviane Diniz. 390 páginas. Editora Objetiva, selo Suma das Letras, Rio de Janeiro, 2015.

A dúvida mais frequente entre o público leigo sobre o gênero do terror é se há alguma diferença entre "terror" e "horror". É provável que os dicionários considerem os dois termos como sinônimos e é isso mesmo. Contudo, os especialistas aproveitaram a diferença de grafia para definir "terror" como o nome do gênero de forma geral, que inclui todos os tipos de histórias que aterrorizam independente do agente do medo, enquanto que "horror" define especificamente aquelas cuja emoção emana de um vetor sobrenatural. Porque, é claro, existem muitas histórias em que o monstro não vem da mitologia, de outra dimensão ou de outro planeta: são pessoas normais, homens e mulheres que, como vemos todos os dias no noticiário policial, podem ser tão maldosos e degenerados quanto qualquer monstro de fantasia.
Dessa forma, seriam "de terror" as histórias de psicopatas, assassinos seriais, violência doméstica, perversões, tragédias fatais, canibalismo, etc, e como "de horror" as histórias de fantasmas, vampiros, lobisomens, alienígenas, zumbis etc que, geralmente, têm níveis de leitura mais ricos no campo metafórico.
Os livros assinados pelo escritor norte americano Stephen King são usualmente associados ao horror. E muitos deles são de fato vinculados ao sobrenatural. Contudo, King dá a todos eles um aspecto naturalista tão palpável que facilmente somos levados a questionar se estão efetivamente instalados nesse campo. Histórias como O iluminado (The shining), um de seus maiores sucessos, ficam na fronteira dessa definição, contemplando tanto a leitura fantástica quanto a naturalista, conforme a interpretação do leitor.
É o que acontece com as quatro histórias do autor que compõe a coletânea Escuridão total sem estrelas, publicada originalmente em 2010 nos EUA e traduzida em 2015 no Brasil pelo selo Suma das Letras da editora Objetiva. São histórias em que o maravilhoso se confunde com o psicológico e tudo o que parece sobrenatural pode ser apenas fruto da imaginação perturbada do protagonista.
A primeira história, "1922", é a mais longa e pesada do conjunto. Conta como uma família comum do meio-oeste americano, que sempre viveu mais ou menos bem, desmorona por quase nada, embora pareça quase tudo a princípio. Um fazendeiro, pressionado pela esposa que pretende vender as terras que herdou para morar na cidade grande, temeroso por perder suas próprias terras, planeja e executa, com a concordância do filho adolescente, o assassinato da mulher. Todos os cuidados que toma para não ser incriminado dão certo, mas ele não contava com a imaturidade do filho que engravida a namorada a quem ama profundamente e que, em tese, foi o argumento usado pelo pai para convencer o filho a ser seu cúmplice; e alguém que matou a própria mãe para não ser afastado de sua amada certamente não terá escrúpulos de passar por cima de qualquer outra dificuldade. O narrativa tem uma estrutura recorrente na obra do autor, como  visto por exemplo no conhecido romance O cemitério (Pet sematary), em que uma decisão equivocada do protagonista, ainda que decorrente de circunstâncias com as quais o leitor compactua, desencadeia uma série de eventos que, passo a passo, levam-no à perdição completa.
O segundo conto é "Gigante do volante", que tem um interessante viés metaliguístico. Autora de uma popular série de livros de detetive, ao retornar de uma palestra numa cidadezinha próxima de onde mora, é atacada e estuprada por um maníaco – o Gigante do Volante do título –  que acredita que a matou. Mas ela sobrevive e inicia uma cruzada de justiça para terminar de vez com a onda de violência que a vitimou. Mas, para isso, terá de se tornar ela mesma um monstro.
A seguir, encontramos o curioso "Extensão justa", um conto de humor negro que também aborda a questão da justiça. Um homem com câncer terminal encontra-se com um estranho vendedor ambulante que lhe oferece uma barganha com o que ele chama de "extensões" numa prosaica e bem pouco séria barraquinha de rua. No caso, o homem está interessado em estender sua vida um pouco mais, mas o vendedor exige, além de uma comissão de 10% de todos os seus ganhos futuros depositados uma vez ao ano numa conta no exterior, que indique alguém que irá receber o refluxo do mal que será tirado dele. Este aparenta ser o texto mais sobrenatural do livro mas, ainda aqui, podemos fazer uma leitura realista em que a aparição bizarra não seja real e esteja apenas na imaginação desesperada do personagem. Mas os resultados parecem indicar um pouco mais do que isso.
Fechando o volume, "Um bom casamento" conta como as coisas se encaminham entre um casal que tem o que parece ser um casamento perfeito há mais de 25 anos – financeiramente próspero e com filhos adultos e bem criados – quando a esposa encontra, por acidente, provas de que seu marido talvez seja um famigerado psicopata que assassinou diversas mulheres e crianças ao longo das últimas décadas.
Como acontece nos livros deste mestre do horror, os contos fazem inúmeras citações da cultura pop, como canções, livros, filmes de cinema e televisão, que cria um ambiente confiável e realista, e, em alguns casos, são fundamentais para se compreender o enredo. Nada está ali por acaso e, como nas mais elaboradas histórias de mistério, todo detalhe será aproveitado no final.
King diz no posfácio que este volume, ganhador dos prêmios Bram Stoker 2010 e British Fantasy 2011 de melhor coletânea: "Tentei dar o meu melhor em Escuridão total sem estrelas para mostrar o que as pessoas poderiam fazer, e como poderiam se comportar, sob certas circunstâncias terríveis", e é justamente esta a costura que alinhava estas quatro trabalhos tão diferentes entre si.
O que nos assusta de verdade em Escuridão total sem estrelas não é a violência e as mortes, sempre descritas com riqueza de detalhes dignas de uma imagem em alta definição, mas sim o fato de que, sob a mesma pressão, talvez nós também tenhamos talento para realizar coisas igualmente terríveis. O inferno não é o outro; está dentro de nós pronto para emergir: é só ter o motivo certo. Como diz King ao final de seu posfácio: "...acredito que a maioria das pessoas é essencialmente boa. Sei que eu sou. É quanto a você que não tenho tanta certeza". Touchê!
Cesar Silva

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Escuridão Total sem Estrelas

Escuridão Total sem Estrelas (Full Dark, No Stars), Stephen King. 390 páginas. Tradução de Viviane Diniz. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2015.


Quando vi o livro em uma livraria pensei que se tratava de mais uma obra sobre a ausência de luz. Afinal, Escuridão Total sem Estrelas sugere isso, ainda mais pelo design do livro, com capa e contra-capa preta e as folhas pintadas de preto em sua espessura. E o efeito é marcante. Se assim fosse, faria companhia a autores tão bons e diversos como o nosso André Carneiro (1922-2014), o inglês John Wyndham (1903-1969) e o português José Saramago (1922-2010).
Tal impressão me agradou pela perspectiva de ver um autor como King abordar o tema, mas se desfez quando percebi que as quatro histórias – duas novelas e duas noveletas – tratavam, isto sim, da escuridão da alma humana. Nas sombras que habitam em cada um de nós, nos pensamentos escuros, ruins que temos vez por outra, especialmente quando diante de grandes problemas ou dificuldades. Normalmente afastamos rapidamente tais pensamentos – nos reprimindo por tê-los –, mas nas narrativas deste livro, King mostra como tais alternativas más podem, eventualmente, se tornar tentadoras, e aflorarem. Para a ilusão de um alívio imediato que se transforma num pesadelo de proporções inimagináveis.
Este fato é especialmente verdadeiro no caso da primeira história, “1922”. Por causa de uma disputa em torno da herança de uma propriedade, um casal se desentende, pois ele quer incorporar o terreno à fazenda em que já vivem, e ela quer vender para recomeçar a vida na cidade. De saída já sabemos que as coisas tiveram o pior desfecho, já que ele, num quarto de hotel, anos depois escreve uma confissão de como tramou com o filho adolescente a morte da sua esposa e mãe de seu filho. Colocar esta novela como a primeira do livro foi muito arriscado pois é extremamente chocante, tanto pelo ato em si, pela violência desencadeada e, principalmente, pelo que acontece depois na vida do pai e do filho. Confesso que tive de parar a leitura em certos momentos e, embora ficasse com a narrativa remoendo na cabeça durante o dia, me incomodava a perspectiva de enfrentá-la depois, mesmo querendo saber o que iria acontecer. Tudo vai mal para os dois, e a tentativa de escrever a confissão parece sugerir uma certa expiação do pai pelo ato em si e por ter incluído o pobre do fillho. Além de ser uma história pesada e violenta é muito triste. Dos textos mais fortes que li de Stephen King. E olha que li boa parte do que ele já escreveu.
“Gigante do Volante” conta a história de uma escritora que após apresentar uma palestra em uma biblioteca numa cidadezinha do interior do Maine, é surpreendida quando um pneu de seu carro fura na estrada. Até aí nada demais, mas surge um homenzarrão para ajudá-la. Sim, ele troca o pneu, mas não fica só nisso. Ela é estuprada e espancada, e só escapa porque finge estar morta. Para seu horror é colocada dentro de um cano de esgoto num matagal ao lado dos corpos de outras vítimas do monstro. A partir daí ela descobre que existe uma outra persona de si mesma, como se nascesse uma nova, pois o que faz nada tem a ver com a pacata escritora de histórias de suspense adocicado. Mas o mais inacreditável ainda está por vir, na figura da bibliotecária que a havia contratado, e sua ligação com o estuprador. Embora King não defenda que se faça justiça com as próprias mãos é uma história que toma partido da vítima e a justificativa para seus atos.
De certa forma isto ocorre também – e de forma ainda mais terrível – na novela que fecha o volume, “Um Bom Casamento”. Num dia qualquer uma mulher vai até a garagem da casa em busca de um par de pilhas para o controle remoto da TV, e descobre que seu amado e fiel marido é um serial killer. Ela encontra casualmente os documentos de uma das vítimas do famoso assassino que se identifica como Beadie. O que fazer? Esta pergunta a move durante todo o tempo, principalmente depois que o próprio marido descobre que ela soube de seu segredo, e nada faz contra ela. Como que a pedir um pacto em nome do casamento, dos filhos e, claro, pela própria vida dela. A solução encontrada pode ser discutível, mas é amplamente justificada. Principalmente em nome das muitas mulheres que ele estuprou, mutilou e assassinou ao longo de quase quarenta anos.
A terceira narrativa é a única com um elemento sobrenatural. Em “Extensão Justa”, um doente de câncer vê a chance de sobreviver ao fazer um acordo improvável com um camelô à beira da estrada. Ele nota que o vendedor nada vende, apenas fica sentado em uma cadeira e expõe sobre uma mesinha uma plaquinha com os dizeres: “extensão justa” que, no caso, se trata de oferecer um período a mais daquilo que mais se deseja. Pode ser tempo, dinheiro, carreira, amor, saúde. Claro que existe uma contrapartida, e deve haver uma transferência. No caso, alguém deve ser prejudicado, uma pessoa que seja odiada pelo beneficiado. Após uma breve hesitação ele afirma que é seu amigo de infância que deve receber tudo de ruim que paira sobre ele. Afinal, roubou sua primeira namorada e é muito mais bem sucedido economicamente. Com o pacto o câncer vai embora, sua vida financeira melhora, e seu amigo perde a esposa – a mesma antiga namorada – de câncer, um de seus filhos morre num acidente e outro fica seriamente doente, além da vida financeira da família piorar muito. O que espanta nesta história é como o personagem que faz o acordo com o Diabo é insensível a tudo o que acontece com seu amigo, com o qual ele continua convivendo. Ele vai ficando mais saudável e feliz quanto mais desgraças acontecem com o objeto de seu ódio.
Como observa Stephen King no seu ótimo posfácio, a pergunta recorrente que inspirou cada uma destas histórias é a de que ninguém conhece verdadeiramente outra pessoa, por mais presente, íntima ou amada que ela seja. Claro que o desconhecimento não precisa ser sobre algo necessariamente ruim, mas esta é a premissa do livro, quer dizer, mesmo de quem jamais desconfiaríamos coisas muito más podem surgir. É o que descobre a mulher brutalmente morta em “1922”; o que a escritora descobre sobre si mesma após ser violentada; a esposa feliz que, de repente descobre que seu marido é o oposto radical do que acreditava; e o cara que também descobre em si mesmo o bem estar de fazer o mal a alguém que sempre lhe foi bem próximo. Ora, em “1922” o tema motivador das ações é a ganância; em “Gigante do Volante” é a vingança; em “Extensão Justa” é a inveja e em “Um Bom Casamento” estamos diante de uma situação de ilusão, de auto-engano.
Para nossa fortuna Stephen King escreve muito e é profusamente publicado no Brasil. A qualidade de sua obra é acima da média, ou seja, mesmo um King menor muitas vezes é mais interessante do que outros autores no melhor de sua forma. Escuridão Total sem Estrelas recebeu os prêmios Bram Stoker e British Fantasy em 2010 na categoria “melhor coletânea”, e se distingue como um grande momento do autor. As quatro narrativas propõe uma questão fundamental e como cada personagem vai responder de acordo com suas circunstâncias e motivações. Um livro com histórias poderosas, que desestabiliza os personagens, transformando de forma definitiva suas vidas e, sobretudo, incomoda e perturba o leitor. Quantos escritores são capazes disso?

– Marcello Simão Branco

domingo, 27 de setembro de 2015

Celular, Stephen King

Celular (Cell), Stephen King. 398 páginas. Tradução de Fabiano Morais. Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2007.

Romance de horror e ficção científica do festejado escritor norte-americano Stephen King, autor de best sellers como O iluminado (The shining), Carrie (Carrie), A dança da morte (The stand), Christine (Christine), entre outros.
Em Celular, King volta a um tema que ele mesmo já explorou em outras histórias: o do cidadão americano comum diante do fim do mundo como o conhecemos. Desta vez, ele é Clayton Riddell, um jovem artista que acaba de assinar o seu primeiro contrato com uma grande editora de histórias em quadrinhos de Boston. Ao sair da editora, por volta da 15 horas do dia 1 de outubro,  diante de um prosaico quiosque de sorvetes, testemunha um surto coletivo de loucura da população em geral. As pessoas começam a se engalfinhar em lutas sangrentas e mortais, automóveis fora de controle atropelam pedestres e invadem lojas, causando grande destruição, pessoas em pânico correm pelas ruas, perseguidas por outras que gritam sons desarticulados.
Um desconhecido ataca Clay com um cutelo de açougueiro, mas Clayton é salvo pelo providencial intervenção de Thomas McCourt, um homem baixinho, de bigotes, e com um ar um tanto afetado, mas que não estava louco. Juntos, eles sobrevivem às primeiras horas de caos escondidos num bar, onde encontram outras pessoas igualmente apavoradas e em estado de choque, como a jovem Alice Maxwell, que perdeu a mãe para a loucura. Do lado de fora, a matança continua e, em algum momento, acaba a energia elétrica, assinalando o fim da civilização humana na Terra.
Clay está muito longe de sua casa, em Kent Pond, e preocupa-se com sua esposa Sharon e seu filho Johnny, de doze anos, que lá ficaram enquanto ele empreendia a viagem à Boston. Durante a noite, as coisa se acalmam e, uma vez que Tom mora nos arredores da Boston, Clay e Alice decidem que é uma boa ideia acompanhá-lo até lá. Quando saem da cidade, percebem que boa parte dela arde em chamas.
Eles passam o restante da noite na casa em que Tom morava apenas com seu gato, sem maiores surpresas. Especulando sobre as causas do fenômeno, chegam a conclusão que pode ter sido ocasionado por algum tipo de pulso eletrônico distribuído pelos celulares, e passam a evitar todo o tipo de aparelhos, incluindo rádios e televisores, que também poderiam distribuir o pulso. Sem condição de se comunicar, o único modo de Tom ter notícias da família é indo até Kent Pond. Enquanto se preparam para a longa expedição, observam os enlouquecidos, aos quais chamam de "fonáticos". Percebem que eles demonstram um padrão comportamental: desaparecem durante a noite, mas são muito ativos durante o dia, circulando como zumbis pelas ruas, em busca de alguma coisa que nem eles mesmos parecem saber o quê. A princípio, atacam-se mutuamente, mas esse comportamento aos poucos começa a desaparecer. Os fonáticos também não demonstram interesse em entrar nas casas, de forma que o grupo decide viajar durante a noite, recolhendo-se em algum abrigo durante o dia. Com armas de fogo obtidos numa casa abandonada, partem rumo a Kent Pond.
Durante as longas semanas seguintes, os três companheiros encontram ao longo das estradas dos Estados Unidos um cenários de completo caos e decadência. Cidades abandonadas, muitas destruídas, milhares de carros acidentados com os corpos dos motoristas ainda dentro deles, muitas vezes semi-devorados, e cadáveres insepultos espalhados por toda parte. Os fonáticos, cada vez mais deteriorados, parecem não ter consciência de sua situação. Imundos, alguns com ferimentos gravíssimos, seguem sua rotina sem sentido. Aos poucos os peregrinos percebem que eles estão se organizando em grandes grupos e que parecem comunicar-se telepaticamente.
Nas ruínas de uma escola, Clay, Tom e Alice encontram Jordan, um jovem gênio da eletrônica que sobrevive ali junto ao Sr. Charles Ardai, velho professor e diretor interino da outrora pujante Academia Gaiten. Os três os ajudam a realizar um grande ataque a uma concentração de fonáticos num arruinado campo de futebol. A matança é tão horrenda que motiva o líder dos fonáticos, um negro tão ferido que eles o chamam de Homem Escangalhado, a dedicar atenção especial ao grupo. Fica claro que os fonáticos não estão apenas organizados, mas estabeleceram uma nova ordem social no mundo, incompatível com a existência dos não-fonáticos. A partir do primeiro encontro do Homem Escangalhado, que obriga o velho Charles a suicidar-se controlando-lhe os pensamentos, os quatro sobreviventes prosseguem o caminho para Kent Pond, com as esperanças de Clay cada vez mais reduzidas de encontrar sua esposa e filho com vida.
Celular está dividido em nove episódios, separados conforme a narrativa salta de nível para nível: "O pulso", "Malden", "Academia Gaiten", "As rosas murcharam, o jardim morreu", "Kent Pond", "Bingo do telefone", "Worm", "Kashwak" e "Salvar no sistema".
É interessante notar que, ao contrário de outros trabalhos, King não deixa para mostrar as cenas de horror mais pesadas no final do livro: ele as coloca logo de cara, a partir dos primeiros parágrafos da história, nos momentos iniciais da loucura que se abate sobre a civilização. A tensão escatológica sobrenatural mantém-se por todo o primeiro episódio, mas logo deixa de ser uma história de horror e torna-se uma ficção pós-apocalíptica na linha de Eu sou a lenda (I'm a legend) de Richard Matheson, associado a A noite dos mortos-vivos (Night of the living dead), de George Romero, autores aos quais King dedicou o romance.
Mas King vai ainda mais longe pois, além de ser um bom contador de histórias com ótimas referências, é um grande criador de personagens, provavelmente sua melhor qualidade como escritor. Cada um dos personagens das suas histórias – e Celular não é exceção – é um confidente do leitor, tão realista quanto pode ser um personagem de ficção. Desse modo, seus dramas parecem mais vivos e agudos, suas decisões mais dolorosas, suas experiências mais traumáticas. A certa altura, o leitor começa a se perguntar o que ele faria no lugar daquele personagem e, geralmente, as opções não são muito animadoras: tornamo-nos seus cúmplices, o que faz as questões morais envolvidas ficarem muito mais contundentes.
O romance, originalmente lançado em 2006 nos EUA, já recebeu o interesse da indústria cinematográfica, mas não espere pelo filme: o livro
é suficientemente bom por si só.
— Cesar Silva

quarta-feira, 4 de março de 2015

Stephen King: Coração Assombrado

Stephen King: A Biografia, Coração Assombrado (Haunted Heart: The Life and Times of Stephen King), Lisa Rogak, 2013. Editora Darkside, 320 páginas.


Já no início do livro o leitor é surpreendido com uma frase que, como se verá, justificará o subtítulo do livro. “Eu tenho medo de tudo”, diz Stephen King. Na verdade, frase se presta a uma dupla função. Primeiro, chamar a atenção e provocar certa surpresa no leitor. Segundo, ajudar a compreender o que o medo exerce na ficção de um dos autores mais importantes da literatura popular contemporânea.
Não deve causar estranheza o fato de King afirmar, em várias passagens do livro, de que ele é uma pessoa assombrada, tanto pelos medos mais óbvios, como para aqueles possíveis de ocorrer em situações do cotidiano, dos quais prestamos pouca atenção. E nisso, King é um mestre com um conjunto enorme e variado de histórias de horror que partem desta premissa.
Um escritor de horror que afirma ter receio de muitas coisas, como no caso de King, em realidade busca inspiração no medo, no terror, no que o mal pode causar na vida das pessoas. Por outro lado, serve também como fonte de compreensão de como King trabalhou seus medos, tristezas e frustrações, a começar pelo fato mais perturbador de sua vida: a ausência do pai, que abandonou a família, deixando-os pobres e desamparados.
Normalmente não tenho interesse em biografias ou autobiografias. No caso de um escritor, me interessa muito mais a sua arte, suas histórias, como e porque ele teve uma ou outra ideia. Contudo, Stephen King é uma exceção. Tanto porque sou seu fã declarado, como porque através desta biografia é possível conhecer mais detalhes sobre várias de suas histórias e bastidores sobre sua carreira. Mas também o ser humano é interessante, especialmente por sua história de vida precocemente sofrida e por suas posições literárias absolutamente democráticas sobre a relação entre o mainstream e os gêneros populares.
Para o leitor fiel dos livros de King o fato é que esta biografia não é o primeiro livro sobre o autor publicado no Brasil. Seu primeiro livro de não-ficção, Dança Macabra (1989) – um clássico ensaio sobre o gênero horror na cultura popular – ja falava um pouco sobre sua infância e adolescência; a seguir foi publicado Dissecando Stephen King: Conversando Sobre Terror com Stephen King (1990), de Tim Underwood e Chuck Miller, que traz 25 pequenas entrevistas do autor a jornais e revistas, compiladas pelos autores, mostrando aspectos detalhados da criação de suas histórias no início de sua carreira. Outros livros de entrevistas publicados no país foram Mestres do Terror: Stephen King e Clive Barker (1998), com edição de Anthony Timpone para a revista Fangoria. Finalmente, saiu O Essencial de Stephen King (2003), de Stephen J. Spignesi, com comentários, listas e curiosidades sobre seus romances, contos e filmes baseados em sua obra.
Coração Assombrado foi escrito pela experiente biógrafa Lisa Rogak, e foi indicado ao Prêmio Edgar Allan Poe de melhor biografia em 2008. É também um dos primeiros lançamentos da editora Darkside. A edição em capa dura é caprichada e inclui vários anexos, como uma cronologia da vida e obra de King, uma bibliografia selecionada, indicação de sites especializados no autor e um índice remissivo. O que o livro traz de novo é a ênfase na vida pessoal do autor, como nenhum dos livros citados chegou perto, além de trazer muitas informações e anedotas sobre suas criações. Nesse sentido, embora o livro não seja uma biografia autorizada e nem ter entrevistado King e sua esposa, está longe de ser um amontoado de fofocas, mas sim baseado numa extensa pesquisa em tudo o que já se publicou sobre o autor, além de colher saborosos depoimentos de pessoas próximas ou que em algum momento compartilharam de sua vida.
O livro está estruturado em capítulos nomeados com títulos de suas histórias que ilustram passagens de sua vida. Assim temos: “O Aprendiz”, “O Pistoleiro”, “Angústia”, “Quatro Estações” etc. Mas mesmo que obedecendo a uma lógica de sequência linear que vai de sua infância até o ano de 2013, seria possível trabalhar também a partir de uma perspectiva mais temática como, por exemplo, sua infância e adolescência; o início de sua carreira; seus romances principais; suas histórias adaptadas para o cinema e por aí vai.
Rogak enfatiza que o abandono do pai e a luta pela sobrevivência em meio à pobreza são dois aspectos centrais na vida e obra de King. Na vida seria óbvio afirmar, mas na maneira como refletiu em sua literatura nem tanto. Em todo caso, muitas das histórias dele falam de dor, do sentimento de perda, crises familiares, crianças em situação de perigo, a busca pelo perdão e redenção. Tudo isso não soa gratuito ao constatarmos como King, seu irmão e sua mãe sofreram após a ausência do pai e como foi difícil para que ele conseguisse publicar seu primeiro livro, já casado e com uma filha pequena e tendo de viver de bicos e residir num trailler porque não tinha dinheiro para alugar um quarto.
Neste contexto difícil Stephen King vislumbrou uma saída a partir do que ele gostava de fazer: escrever e curtir histórias de horror. Claro que ele não se utilizou conscientemente deste talento para se tornar anos depois o escritor multimilionário e mundialmente conhecido, mas um dos aspectos mais interessantes do livro é mostrar como King perseverou para conseguir publicar e, por meio disso, vislumbrar uma vida um pouco melhor do que ser professor de inglês para o ensino médio, como ele temia que fosse seu destino. Mas ele não podia imaginar o sucesso que faria. A partir da publicação de Carrie, a Estranha, em 1974, ele não parou mais de publicar e cada vez mais, alimentando tanto o apetite dos leitores e editoras, como dele mesmo, um escritor compulsivo, que afirma: “Escrever é um vício para mim. Mesmo quando o texto não vai bem, se eu não o fizer, fico irritado.” (página 13).
Além disso, o livro mostra, em pinceladas, nada muito extenso, peculiaridades do seu processo de criação. King é uma usina de ideias, elas vêm quase todos os dias de situações cotidianas e aparentemente desconexas, isto é, da junção de dois temas aparentemente distantes para criar uma história. Não é um escritor metódico que pensa a história toda antes de escrever, deixa-se levar pelo enredo e personagens, além de não gostar de pesquisar, deixando esta tarefa, quando é o caso, para depois de escrever uma primeira versão de uma história.
Tão dramático quanto a pobreza de sua vida infantil e início da adulta é o processo de dependência por álcool e drogas que ele viveu durantes os anos 1980, o que quase acabou com o seu casamento com a também escritora Tabitha King. Grandes doses todos os dias, acrescentados por fileiras de cocaína madrugadas à dentro, como combustível para que ele criasse novas histórias e escrevesse cada vez mais. Mas a partir do momento em que venceu a batalha contra os vícios, ao que parece, sua ficção derivou para outras searas, não mais exclusivas do horror, e ele tem escrito um pouco menos e melhor, do ponto de vista literário, ainda que tenha voltado a considerar seriamente a possibilidade de parar de publicar após um terceiro evento terrível em sua vida, quando foi atropelado por uma van em junho de 1999.
Seria interessante que Rogak explorasse um pouco mais como se deu esta transição e de como fez com que ele perdesse muitos leitores, aqueles mais fãs de suas poderosas histórias de horror. A autora fala sobre isso no livro, King afirma que aceita este fato com certa resignação, mas não se avança muito mais, a não ser com fatos e obras que ilustram esta mudança de perfil embora, no fundo, possamos dizer que King nunca deixou de ser um escritor de horror, apenas acrescentou ao seu repertório temático outros temas populares e refinou, amadureceu um pouco sua prosa, sem se tornar com isso um estilista. O mais importante é que Stephen King nunca deixou de ser um pageturner, um genuíno contador de histórias. Isto está presente tanto em Christine, o Carro Assassino (1983), quanto em Love: A História de Lisey (2008).
Nesse sentido é possível apreciar qualquer uma de suas histórias, seja a de um horror mais tradicional, como para um mais relativizado que, ao contrário do que esta divisão faz parecer, não é tão rigorosa assim. No primeiro grupo, temos clássicos como O Iluminado (1977), A Dança da Morte (1978), O Cemitério (1983), A Coisa (1986); no segundo, livros poderosos como, por exemplo, Zona Morta (1979), Angústia (1987), Insônia (1994) e Desespero (1996).
O fato de não ser reconhecido como um grande escritor pelos críticos literários mais tradicionais não o aborrece tanto quanto o preconceito associado ao tipo de ficção popular que ele escreve, além da fama e dinheiro que ele conseguiu. Pode ser um fato, para qualquer forma de arte, de que quanto mais simplificada suas mensagens e estrutura, mais impacto tende a provocar numa maior parcela de pessoas de pouca cultura. Mas é um fato até certo ponto, pois mesmo numa literatura, no caso, mais popular é possível produzir obras de relevo artístico e crítica social, para não falar na construção de personagens críveis e psicologicamente complexos. E se King ganha muito dinheiro com isso, qual o problema? O importante é que sua obra de entretenimento tem conteúdo. Como já afirmaram uma e outra vez, King é um dos mais agudos intérpretes dos problemas, virtudes e valores da sociedade norte-americana do final do século XX e início de XXI. Sem favor algum.
Coração Assombrado é também um livro engraçado, pois em várias páginas são ilustradas passagens curiosa de sua vida, como quando saiu fantasiado de monstro com seu filho de uma filmagem e foi parar na delegacia, ou o comportamento muitas vezes bizarros de fãs, que circulam próximos à sua casa ou levam livros embalados em papel celofane com a recomendação de que King deve ter cuidado ao manuseá-lo porque nunca foi aberto. Curioso para mim foi saber que King é um cara muito alto, com seus 1,90m e de que sempre teve certa dificuldade em lidar com sua altura.
Stephen King é uma figura pública atuante e generosa. Envolveu-se com o movimento estudantil desde a adolescência e promoveu jantares e eventos de apoios a políticos como, por exemplo, Gary Hart e Barack Obama. Contudo, chama a atenção a sua sensibilidade e de sua esposa com relação ao uso do dinheiro para beneficiar causas ou pessoas. King escrevia contos para revistas obscuras para completar o magro orçamento, de meados dos anos 1960 até meados dos anos 1970, mas nunca deixou de colaborar com elas. Por gratidão sim, mas também por acreditar que é importante que existam revistas que mantenham a chama da publicação de contos, base da cultura popular letrada norte-americana forjada no século XX. Estudantes sem recursos para cursar uma universidade ou artistas em dificuldades financeiras são financiados pelo casal através de fundações especialmente criadas para isso. Em certo sentido, Stephen King se insere na tradição dos ricos socialmente conscientes da importância social que sua posição econômica privilegiada pode resultar numa sociedade capitalista extremamente individualista e competitiva, como a norte-americana.
Em seu conjunto, Coração Assombrado um livro rico para quem já é fã e leitor de Stephen King, ou para quem sabe pouco de sua obra, principalmente das adaptações de suas histórias para o cinema. Contudo, a contribuição mais interessante é aquela que ressalta as particularidades do ser humano – como requer uma boa biografia, enfim – ao mostrá-lo como um ser frágil e muito resistente em enfrentar o abandono do pai, a pobreza , as drogas e o atropelamento. Mas, sobretudo, pela sua posição de liderança em prol de uma literatura popular de qualidade, e na importância social de um artista, não só através de declarações ou apoios, mas também por meio de atitudes concretas de melhoria de pessoas e causas nas quais acredita.
–– Marcello Simão Branco