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quinta-feira, 2 de junho de 2016

Bokurano


Bokurano (Bukurano), Hiroyuki Morita. Gonzo, Japão, 2007.

Um grupo de estudantes em férias, oito meninos e sete meninas, encontram uma caverna na praia. Dentro dela, um programador de computadores meio louco propõe a eles uma boa diversão: participar de um novo jogo que ele criou, para o qual são necessários exatamente quinze jogadores. Como as crianças estão entediadas, decidem aceitar. Para isso são levadas a "assinar" um contrato, colocando a palma da mão numa espécie de leitor ótico.
Depois disso, as crianças desmaiam e acordam na praia, achando que tudo não passou de um sonho. Até que começa a aparecer no mar um robô gigantesco e todas as crianças são teletransportadas para seu interior. Lá, reencontram o programador e ficam sabendo que uma das regras do jogo é que cada um deles pilote o robô em uma luta mortal contra um outro robô gigante. E que, como o robô usa a energia do piloto, este morre depois da luta.
Mas há segredos ainda mais tenebrosos por detrás do jogo, que envolvem inclusive a existência de todo o universo.
Bokurano é uma história de ficção científica de dimensões cósmicas, criada por Mohiro Kitoh, publicada originalmente no Japão em uma série de história em quadrinhos entre 2003 e 2009. Chegou ao Brasil na forma de uma série de desenhos animados exibida pela extinta emissora a cabo Animax, em 24 episódios semanais.
Apesar da aparência de uma aventura infanto juvenil, Bokurano é uma história dramática e realista, sendo que o único ponto de fantasia é a existência dos tais robôs gigantes, que são realmente enormes. Com centenas de metros de altura, destroem cidades inteiras durante os combates.
A escolha do piloto é aleatória e ninguém sabe quem será escolhido para o sacrifício: a criança só sabe que será a próxima a ocupar o posto de piloto quando uma estranha tatuagem surge em sua pele, uma expectativa de horror na vida todas delas. Enquanto o governo tenta descobrir o que está acontecendo, o que é aquele monstro e o que as crianças têm a ver com ele, elas tentam administrar suas vidas, cada qual com seus próprios problemas pessoais e familiares.
Mas, afinal, o que é o jogo? É real ou apenas uma simulação? De onde vêm os robôs? E por que eles lutam? As respostas serão dadas aos poucos por um bizarro avatar de nome Koyemshi que, apesar da aparência simpática, é um cretino de marca maior.
O seriado está disponível online no saite Crunchyroll, aqui.
Cesar Silva

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Mushishi

Mushishi (Mushishi), Hiroshi Nagahama, Japão 2006. Série com 26 episódios.

Algumas ideias das histórias fantásticas são tão absurdas que é necessário que o autor use técnicas narrativas especiais para manter o interesse do expectador/leitor. Entretanto, algumas poucas encontram uma abordagem tão naturalista e emotiva que nos pegamos desejando que aquilo fosse real.
É o caso de Mushishi, série japonesa em desenho animado exibida no Brasil em 2010 pela extinta tv a cabo Animax, que se destacou na programação por ser uma história singela e não violenta, de estilo adulto e sem aqueles personagens "zoiúdos" que caracterizam os animes.
Trata-se uma fantasia eminentemente pastoral, que conta as histórias de Ginko, uma médico andarilho que ajuda as pessoas do Japão antigo em questões relacionadas a um tipo de ser vivo invisível, nem vegetal nem animal, conhecido como mushi.
Os mushis compartilham o mundo com os homens e animais, mas geralmente não interagem conosco. Ocupam um plano intermediário e mal notam a nossa existência. Não são maus mas, como todos os seres vivos, farão o que for preciso para sobreviver e muitas vezes isso significa interferir na vida dos homens, geralmente de forma imprevisível e essa intervenção pode ser perigosa e até mortal. É justamente nos casos mais graves que Ginko revela sua utilidade.
Desde muito jovem, Ginko demonstrou ter afinidade com os mushis, que pode enxergar facilmente, por isso os conhece muito bem. Não pode ficar muito num mesmo lugar porque alguma coisa nele atrai os mushis. Então, Ginko se tornou um mestre dos mushis peregrino, sempre movendo-se de aldeia em aldeia, ajudando os que têm problemas com os bichinhos.
A história da vida de Ginko também é um mistério revelado aos poucos. Sua aparência anacrônica, com cabelos alvos e olhos muito verdes, contrasta com o tipo físico dos japoneses. Suas roupas algo modernas também parecem deslocadas naquele universo rural.
A violência física, tão comum nos animes, é algo que não tem lugar em Mushishi. Ela eventualmente se apresenta sim, mas de forma velada, em preconceitos, desprezo e autoritarismo; armas, nem mesmo uma espada.
As histórias são calmas e suaves, traduzindo um verdadeiro espírito zen budista. A natureza é parte importante da trama e muitas vezes é a intervenção dos homens nela que causa problemas com os mushis, que dependem muito do equilíbrio ambiental.
A abertura do desenho tem uma poética toda especial, com uma trilha sonora no estilo folk norte americano.
Como a natureza dos mushis está além do espaço e do tempo, a interação dos homens com eles pode criar singularidades estranhas, o que permite histórias de diversos gêneros. Embora seja fundamentalmente um seriado de fantasia, algumas histórias chegam as franjas da ficção científica e do horror.
O seriado é baseado na história em quadrinhos homônima criada por Yuki Urushibara, publicada originalmente entre 1999 e 2008 na revista Afternoon. Tem 26 episódios ao todo e um bem produzido longa metragem em live-action lançado em 2007, dirigido por ninguém menos que Katsuhiro Otomo, mais conhecido entre os brasileiros pela hq Akira. Vale a pena procurar pela série, que tem parte de seus episódios legalmente disponível no saite Crunchyroll, aqui.
Cesar Silva

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Almanaque Jornada nas Estrelas

Almanaque Jornada nas Estrelas, Salvador Nogueira e Susana Alexandria. 272 páginas. Capa de Delfin. São Paulo: Editora Aleph, 2009.

A série de TV Jornada nas Estrelas (Star Trek) é um dos símbolos da cultura popular da segunda metade do século 20 e, nesse sentido, parte formadora de boa parte dos fãs que se tornaram leitores de ficção científica no Brasil, a partir do início dos anos 1980.
Este livro é o primeiro escrito e publicado no Brasil sobre o mais popular e influente seriado de TV de ficção científica[1] e, de quebra, de grande sucesso no país, em virtude de sua exibição quase contínua entre o fim dos anos 1960 ao início dos 1990, para ficarmos só na chamada TV aberta.
Os autores são conhecidos fãs da série e bastante ativos. Salvador Nogueira, um jornalista de divulgação científica, criou o bom site Trek Brasilis, uma das principais referências para a informação sobre a série no Brasil. Já Susana Alexandria é uma tradutora de recente destaque ao verter para o português clássicos como, por exemplo, Fim da eternidade, de Isaac Asimov, e tem atuado junto à Jornada através de seu interessante trabalho de pesquisa sobre as fontes literárias, principalmente de William Shakespeare, presentes nos episódios da série clássica. Inclusive, a presença de um capítulo no livro sobre isto é um dos pontos altos a ser ressaltado.
O livro é muito bonito e agradável, fartamente ilustrado – ainda que sem cores internas –, diagramado com desenvoltura e leveza. Além dos textos principais, há várias informações complementares e curiosidades em textos curtos, envoltos em balões e quadros, talvez para agilizar uma consulta rápida, como requer um livro identificado como um “almanaque”. E talvez por se aferrarem demais a este método, o livro acaba revelando suas fraquezas em termos de conteúdo e de prioridades.
Primeiro, o livro é claramente enfocado na série clássica. O início da série é recontado com um nível de detalhe muito bom e inclui também um guia de episódios das três temporadas – bem feito, mas que nada acrescenta aos vários à disposição do trekker brasileiro, inclusive em português.[2] Daí em diante, as demais séries são comentadas de forma resumida, ressaltando-se apenas os seus aspectos principais e algumas informações de bastidores. Mas onde está ao menos a lista dos episódios de cada série? Com relação aos filmes para o cinema, a ênfase se repete, pois comenta até o sétimo filme – onde termina a participação dos personagens da série clássica –, e os demais são apenas citados nominalmente. O mesmo procedimento acontece quando escrevem sobre histórias em quadrinhos e os livros publicados no Brasil. Um diferencial relevante seria publicação de uma listagem dos títulos lançados no país. Uma chance perdida. E mais estranho ainda é que nem os 23 livros da própria Aleph sobre a série são listados, mas sim os de outras editoras! Tomaria tantas páginas assim a publicação dos títulos? É o tipo de informação que deixaria o livro útil para o fã e colecionador.[3]
Mas a pior falha do almanaque é sua abordagem distorcida do fenômeno Star Trek no Brasil. Para começar, poderiam abordar a repercussão da série no país, estabelecendo um instigante paralelo com a da terra natal do seriado e com isso fugir do tradicional de contar como foi nos Estados Unidos. Eu mesmo tenho o recorte da revista Intervalo, de São Paulo, anunciando a estréia no país da série, pela TV Excelsior, em 1968.[4] O incêndio que acabou com esta emissora teve repercussão sobre a exibição da série no país, já que alguns rolos de episódios foram perdidos. Um tópico sobre os dubladores poderia ter sido abordado, falando das versões da AIC e depois da VTI. Isso está disponível na internet.[5]
O mais polêmico, porém, ficou reservado para o capítulo nove, “Trekkers!”, ao comentarem sobre a comunidade de fãs no Brasil. Eles escreveram na página 239:

“Foi durante as reprises das séries coloridas no Brasil, no início dos anos 1980, que toda uma geração de novos fãs veio juntar-se aos antigos. Mas, naqueles tempos pré-internet, pré-celular e pré-teve a cabo, a comunicação entre os fãs era muito precária – para não dizer inexistente. É muito comum ouvir histórias de trekkers que se achavam os únicos fãs brasileiros da série. Isso mudou quando surgiram os primeiros fã-clubes de Jornada nas Estrelas no Brasil, particularmente dois deles, que se tornaram conhecidos nacionalmente: o Jetcom, do Rio de Janeiro, e a Frota Estelar, de São Paulo. Ambos surgiram no mesmo ano em 1989.”

Este trecho não condiz com a verdade. O primeiro fã-clube organizado sobre a série é a Sociedade Astronômica Star Trek (SAST), criada em São Paulo, em 1982. O clube tinha reuniões semanais e publicava o fanzine Star News, que durou onze anos, em 48 edições. A SAST tinha sócios por todo o Brasil e contatos com grupos de fãs semelhantes no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e interior de São Paulo. Além de contatos no exterior, como nos Estados Unidos e em Portugal. Se Nogueira e Alexandria afirmam que havia fãs que se achavam os únicos, bem se vê que não era o pessoal da SAST.
A SAST foi retratada em mais de uma oportunidade por jornais, revistas e programas de TV da época.[6] Dizer que a comunicação era precária ou inexistente é um equívoco de julgamento risível e preconceituoso, como se o mundo sem as tecnologias de hoje praticamente não fosse viável. Além disso, Susana Alexandria manteve contato com a SAST durante um breve período.
Para os autores, ao que parece, a história organizada dos trekkers no Brasil começou com os clubes com os quais eles tiveram mais contatos e participação. Mas por que desconsideraram de maneira tão contundente os fãs dos anos 1980? E nem é possível dizer que não tinham como ter acesso a eles, porque alguns se integraram com destaque aos clubes que vieram depois e existe alguma literatura histórica já escrita sobre o assunto.[7]
É fato que com a Frota Estelar nos anos 1990 houve mais organização, visibilidade e repercussão, principalmente por conta das chamadas “convenções estelares” e do feito significativo de trazer três atores do elenco principal da série clássica para o país: Walter Koenig (Checov), George Takey (Sulu) e Leonard Nimoy (Spock). Mas é prematuro desconsiderar o movimento de fãs dos anos 1980, já que manteve o interesse sobre o seriado, com fãs articulados e ativos. E nunca é demais lembrar que a SAST é considerada uma das primeiras associações de fãs que assinalam o ressurgimento da própria ficção científica brasileira, a chamada Segunda Onda, ao lado do Clube de Ficção Científica Antares, de Porto Alegre, e do fanzine Hiperespaço, ambos de 1983. O que preocupa é que por este ser o primeiro livro sobre a série escrita no Brasil, a defesa da posição dos autores sirva como a versão oficial sobre o assunto.
Quando soube deste livro pensei no que ele poderia trazer de diferente para o trekker brasileiro, já que existem vários livros excelentes sobre a série publicados nos Estados Unidos, e mesmo no Brasil, se pensarmos em Jornada nas Estrelas Compendium, de Allan Asherman e as biografias de William Shatner e Leonard Nimoy. Ou seja, o Almanaque só seria útil como fonte de consulta se tivesse informações básicas completas, como listas de obras e episódios das séries e trouxesse algo brasileiro sobre o assunto. Talvez a obra não tenha sido concebida para o trekker, mas sim para o público em geral. Afinal, a Aleph tem adotado este princípio para os seus livros de ficção científica. Isso explicaria este almanaque light, ao invés de um com mais ênfase em informações de pesquisa. Se assim for, o interesse para o trekker é reduzido. Por tudo isso, embora o livro seja bem produzido, ainda se espera outro sobre a série que traga informações bibliográficas e de pesquisa e, principalmente, mais voltadas à rica – e ainda mal contada – história do movimento trekker no Brasil.
– Marcello Simão Branco



[1] Mas não é o primeiro abordando a série. Em 1993, Ana Creusa Zacharias escreveu uma novelização chamada A abadia, em edição independente.
[2] O mais completo, claro, é Jornada nas Estrelas Compendium, de Allan Asherman, publicado pela Sci-Fi Books, em 1999. Já em termos de guia produzido por brasileiros, o melhor é TV Séries – Jornada nas Estrelas: Guia de Episódios, edição especial da revista em seu ano II, número 16, outubro de 1998, num ótimo trabalho de Fernanda Furquim e Marta Machado.
[3] Talvez por desconhecimento, os autores deixaram de comentar sobre um álbum com 240 figurinhas colantes sobre Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, publicado pela editora Abril Panini S/A, em 1991.
[4] O título da reportagem é “Lá em cima onde mora a aventura: Emoção e garotas bonitas, é o que promete ‘Jornada nas Estrelas’. Fotos dos episódios “Deste lado do paraíso” e “Miri” ilustram o texto.
[5] Veja o artigo “Jornada nas Estrelas (Star Trek): Uma dublagem através do tempo”, de Thiago Siqueira, publicado em http://universofantastico.wordpress.com/2009/04/11/jornada-nas-estrelas-uma-dublagem-atraves-do-tempo.
[6] Veja os títulos de algumas reportagens sobre os fãs dos anos 1980: “Um jeito trek de ser”, no Jornal do Campus da USP, n. 67, 1º de junho de 1988; “A guerra dos trekies brasileiros”, no Jornal da Tarde, de São Paulo, em 27 de maio de 1989. As duas com fotos de fãs. E também na revista Video Business, em 1988, com “Fãs além da imaginação”. Participaram também num programa sobre vídeo e cinema na Rede Bandeirantes, em São Paulo, em 1988, apresentado por Serginho Café. Exemplos que atestam que existia uma intensa atividade de fãs, ao contrário do que defende os autores do Almanaque.
[7] Escrevi uma história dos fãs da série no Brasil, de 1982 a 2006, “Os fãs de Jornada nas Estrelas no Brasil”, em http://www.scarium.com.br/artigos/simao02.htm.

terça-feira, 17 de março de 2015

O Mundo Além da Imaginação de Rod Serling

Marcello Simão Branco

Se os anos 1960 foram os mais radicais e contestadores do século XX, até na mais conservadora das mídias seus ecos foram sentidos. A partir de 1959 estreava na TV americana uma série que modificaria para sempre seus padrões de qualidade, filmagem e criatividade. Uma série que mostrava a que viera até no nome: ‘além da imaginação’ àquilo já visto e imaginado na TV.
O responsável por essa virada foi um sujeito que lia as revistas ‘pulp magazines’ (compradas em bancas de jornais por menos de um dólar) desde criança. Rod Serling  foi além da ‘zona do crepúsculo’ em revistas como Weird Tales, Amazing Stories e Astounding Science Fiction. Chegou até escrever alguns contos para elas, mas suas idéias e criações ganharam espaço mesmo em um novo meio de comunicação e entretenimento que mudou o padrão de comportamento da América nos anos de 1950. Sim, ela, a televisão.
Sem elenco fixo, com cada episódio tendo uma história própria sem ligação alguma com as demais, apenas com a narração clássica de Serling abrindo cada epísódio, Além da Imaginação (Twilight Zone) explorou à exaustão o fantástico na TV.  Foram 156 episódios (138 com 25 minutos de duração e 18 com 50 minutos), Destes apenas 70 foram exibidos entre nós, numa clássica fotografia em preto e branco, angulações ousadas, recursos de metalinguagem e metáforas jamais pensadas que muito ajudaram a mudar o panorama artístico e temático da época.
Isto por si só já seria de interesse em meio à mediocridade reinante, mas o que realmente cativou o público transformando a série num fenômeno popular, foi a solidez, o conhecimento do fantástico que Serling e seus brilhantes roteiristas, entre eles os escritores Richard Matheson e Charles Beaumont, demonstraram em histórias insólitas, absurdas, oníricas, assustadoras, mas sempre com um pé na realidade. Só a primeira pisada do pé direito, é claro. Pois com o esquerdo, Serling & Cia. nos levava a tempos, lugares, acontecimentos ‘além da imaginação’.
Um dos segredos da empatia das histórias era a sua premissa: em situações banais do dia-a-dia os personagens se deparam com fatos, situações, lembranças, imagens, ou até aparições que subvertem o cotidiano onde estão mergulhados. E aí de pouco adianta tentar voltar à realidade. Acompanhamos fascinados, surpresos, apavorados e com pena, as peripécias e o destino dos pobres coitados que entraram numa região onde nossas leis e senso comum não existem. Vale apenas a imaginação além da zona do crepúsculo.
Serling brincou com o público de uma maneira nova: fora dos westerns e comédias de costumes tão características da TV americana da época. Colocou o estranhamento, o sobrenatural, a fantasia na casa dos conservadores familiares da classe média. E eles adoraram!  Além da Imaginação foi além do mero escapismo em suas histórias de viagens no tempo, colonização espacial, pacto com o demônio, invasão extraterrestre, universos paralelos,  discutindo dentro do ‘além’, desde questões importantes e delicadas da condição humana — como morte, pecado, vaidade, egoísmo , até questões da vida social e histórica: ecologia, guerra nuclear, ética científica e tantos outros mais.
E a estrutura e os recursos técnicos de que dispunha só ressaltam a criatividade e qualidade dos episódios. Os filmes eram produzidos ainda em 16 mm, num ritmo alucinante de dois episódios por semana. Trocando em miúdos, apenas um ou dois dias de filmagem para cada episódio, pois após as filmagens vêm as etapas de finalização, como montagem, efeitos especiais, sonorização e copiagem.
Outra curiosidade era quanto ao elenco de atores que Rod Serling dispunha: na grande maioria jovens, sem muita experiência, cobrando um cachê baratinho, precisando de trabalho para alçar sonhos mais altos em Hollywood. E destes vários realmente trilharam uma carreira brilhante, como Lee Marvin, William Shatner, Bill Mumy, Anne Francis, Donald Pleseance, Warren Stevens, Rod Taylor, Dean Stockwell, Leonard Nimoy, Elisabeth Montgomery, Charles Bronson, Jonathan Harris, Buster Keaton, Lee van Cleef, Jeff Morrow, Burgess Meredith, Martin Landau, James Franciscus e... ufa! Muitos outros.
Pergunte aos fãs de horror e ficção científica entre os 40 e 50 anos (talvez seu pai ou sua mãe), qual foi o programa de TV que os fez definitivamente amar histórias de monstros e viagens espaciais. E sem precisar ficar escondido se sentindo um sujeito bizarro e desajustado. Pois a série era elegante e criativa o suficiente para ser assistida por toda a família.
A maioria dos episódios são de ótima qualidade, mas os três primeiros anos foram os mais criativos, quando as histórias eram contadas em apenas 25 minutos e os roteiros eram mais enxutos e as situações mais decisivas e arrebatadoras. Histórias que me vem à mente sem muito esforço, como “Onde Estão Todos”? (“Where is Everybody?), o primeiro da série, onde um homem descobre que está sozinho em uma pequena cidade. Até aí é estranho, mas o que me arrepia até hoje é o final quando ele descobre que fazia parte de uma experiência para analisar as reações humanas na solidão do espaço.
Também muito lembrado é “Tempo Suficiente” (“Time Enough at Last”). Único sobrevivente de uma guerra nuclear, um homem pode se dedicar ao seu passatempo predileto: ler. Depois de selecionar milhares de livros, ele deixa cair seus óculos no chão e...!
Só pra deixar vocês com inveja vou citar mais dois (só mais dois eu prometo!). Em “A Elegia” (“Elegy”), astronautas pousam em um planeta onde seus habitantes parecem estar sempre em transe. Parecem, pois o que lhes espera não os deixarão muito diferentes dos nativos. Já “Céu Aberto” ("And When the Sky is Opened”), mostra três pilotos que depois de voltarem do primeiro vôo espacial tripulado começam a desaparecer, um a um, sem deixar rastros nem lembranças de sequer terem existido. Deu pra sentir o que é estar em contato com “uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito”?
The Twilight Zone é a mais criativa e original série de ficção científica, horror e fantasia já exibida e depois de seu encerramento em 1964 restou a Serling negociar os direitos de reprise em pequenas estações de TV pelo interior dos Estados Unidos. Não demorou muito para aparecem imitações. A primeira delas foi Quinta Dimensão (The Outer Limits) já no ano de 1963. Produzida pela ABC enfocou mais a ficção científica. Durou duas temporadas, 50 episódios e poucos momentos de brilhantismo.
Em 1969 os fãs estavam saudosos e Rod Serling iniciou um novo projeto Rod Serling’s Night Gallery (A Galeria do Terror). Um novo seriado com 50 episódios independentes levados ao ar entre os anos de 1970 e 1972. Desta vez o enfoque foi mais explícito no horror, com adaptações de contos de H.P. Lovecraft, Arthur Machen, Robert Bloch entre outros mestres do pavor. Mas não tinha o mesmo espírito inovador e ousado de sua criação original, pois ele não tinha a mesma independência sobre a produção da série. Serling faleceu em 1975, com apenas 50 anos deixando sua marca como um dos mais brilhantes homens a manipular a imaginação muito além dos nossos sentidos e dimensões.
Todo um culto a Rod Serling apareceu depois de sua morte. Uma revista de cinema e literatura a Twilight Zone Magazine foi publicada de 1981 a 1989 ao mesmo tempo que a CBS produzia entre 1985 e 1987 o remake do clássico com o mesmo nome de Twilight Zone. Nesta, os recursos foram generosos, o que faltou foi qualidade na direção, interpretação e principalmente o nível dos episódios (apesar de ter  boas adaptações de contos de Ray Bradbury, Arthur C. Clarke e Harlan Ellison), que ficava em sua maioria aquém do único que nos levou realmente ‘além da imaginação’. Mais recentemente foi produzido um segundo remake, também com uma produção melhor do que a qualidade média dos episódios, embora seja interessante e louvável que este estilo de seriado, ou seja, pequenos contos independentes sobre o fantástico e o sobrenatural, ainda sobreviva na competitiva e imediatista TV americana.
Mas o charme e, por que não?, o saudosismo da série clássica em preto e branco ainda é insuperável, a começar por sua inesquecível na abertura: “Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação”.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Animal

Nos últimos anos, a teledramaturgia brasileira tem investido na produção de séries originais para a tv a cabo. Essas produções geralmente tratam de questões realistas, dramas familiares e sociais, comédias românticas e humor de forma geral. Apesar das inúmeras opções em diversos canais, a ficção fantástica tem sido um gênero ausente.
No passado, testemunhamos ótimas novelas de fc&f na televisão nacional, especialmente nos tempos da saudosa TV Manchete, que entre a sua programação de sucesso teve, por exemplo, as novelas Pantanal A ilha das bruxas. Mais recentemente, fantasia e horror frequentaram a grade de novelas da Globo e da Record, nas novelas O beijo do vampiroBang bangMorde e assopraCordel encantado e Os mutantes, esta última com toques de ficção científica.
Por isso tudo, é de surpreender a ausência do gênero nas séries nacionais, ainda mais considerando-se o sucesso que os enlatados estrangeiros de fantasia, fc e horror fazem junto ao público brasileiro.
Talvez tenha sido esse o motivo que levou a produtora Accorde Filmes, em parceria com a Globo, a realizar os treze episódios da primeira temporada de Animal, série de mistério e horror, criada e dirigida pelo cineasta e produtor gaúcho Paulo Nascimento, que estreou no dia 6 de agosto de 2014 no canal a cabo GNT.
Paulo Nascimento tem ótimas credenciais, contando em seu currículo com o premiado longa Diário de um novo mundo (2005), além de Valsa para Bruno Stein (2007), A casa verde (2008), Em teu nome (2009) e A oeste do fim do mundo (2013).
O primeiro episódio de Animal, chamado "De volta para a toca", introduz a história do biólogo João Paulo Gil (Edson Celulari, de cabelos e barba grisalhos e desgrenhados) que retorna à sua cidade natal, Monte Alegre do Sul, em busca das anotações que seu pai registrou em diários, sobre uma doença incomum e hereditária que o acomete, cujos sintomas mais evidentes se revelam na ampliação de seus sentidos, mas que o leva a periódicos surtos de fúria incontrolável.
Porém, ele não é plenamente bem vindo na comunidade. Seu pai foi assassinado ali quando ele ainda era uma criança, sendo que ele mesmo não foi morto na oportunidade porque sua mãe o levou, fugindo para a cidade grande. Mesmo depois de tantos anos passados, João Paulo se depara com uma comunidade hostil que ainda o quer morto ou, pelo menos, bem longe dali.
Entre os personagens, um leque de figuras exóticas que são charme da história, como o líder de uma seita de virgens vestais, uma cafetina assustadora e um escultor louco – supostamente o assassino de seu pai – que passa a vida recluso em sua fazenda arruinada, entre outros. Há também uma boa quantidade de mistérios, sem falar em alguma nudez.
A série foi filmada em Caçapava do Sul (RS) e conta com um elenco de estrelas da televisão, tais como Nelson Diniz, Fernanda Moro e Cristiana Oliveira, que interpreta a prefeita de Monte Alegre e faz par romântico com Celulari.
Mais informações na página do seriado, aqui.
Cesar Silva