sábado, 1 de junho de 2019

Ao Cair da Noite


Ao Cair da Noite (Just after Sunset), Stephen King. Tradução de Fabiano Morais. 398 páginas. Rio de Janeiro: Editora Objetiva/Suma de Letras, 2011.


Stephen King tem sido publicado com frequência no Brasil há mais de trinta anos. A começar pela carioca Francisco Alves Editora, nos anos 1980 e 1990, a seguir nos anos 2000 pela também carioca Objetiva, e mais recentemente pela paulista Companhia das Letras. Se a maior parte de seus títulos é composta de romances, a maioria de suas histórias são contos e noveletas.
King afirma que escreve contos por duas razões básicas. Primeiro porque gosta; escrever contos serve para o manter ativo, exercitar constantemente a criatividade entre um ou outro projeto literário de maior envergadura, na maior parte das vezes um romance volumoso. Segundo porque afirma — e não é primeira vez que o faz na introdução de uma coletânea — que, ao escrever e publicar histórias curtas, ajuda a mantê-las vivas, já que esta forma literária tem sido cada vez menos praticada, tanto pela dificuldade em si como, principalmente, pelo rendimento muito maior que um romance traz.
Esta é a segunda coletânea de King publicada no país pela Objetiva. A primeira foi Tudo É Eventual,[1]  em 2003, e continha 14 histórias, algumas delas poderosas como, por exemplo, “O Homem do Terno Preto”, “As Irmãzinhas de Eluria” e “Andando na Bala”. Quase dez anos depois, King reúne mais 13 neste Ao Cair da Noite. Há histórias tão boas quanto estas citadas na coletânea anterior? Sim, pelo menos três delas: “A Corredora”, “A Bicicleta Ergométrica” e “n.”
O texto de “A Corredora” é vibrante e angustiante ao mesmo tempo. Uma mulher perde seu bebê, e tudo o que consegue fazer depois é correr. Torna-se uma corredora compulsiva. Claro, é para esquecer que ela assume essa obsessão, ou melhor, para fugir. O casamento entra em crise e ela se refugia na casa de praia do pai, numa cidadezinha da Flórida. Até topar acidentalmente com um psicopata. É espancada, presa e torturada. Sua única chance é se desvencilhar da cadeira em que está amarrada, antes que o seu algoz volte. Ela perceberá que o fato de ter adquirido o hábito diário de correr será fundamental para escapar do maníaco, que, por sua vez, também tem suas manias e fobias. Com um enredo aparentemente simples, “A Corredora” tem o mérito de segurar a leitura de forma igualmente compulsiva (uma das maiores e mais conhecidas virtudes de King), por meio de um ritmo de thriller, além das sutilezas psicológicas de cada personagem também serem parte vital no êxito da história.
“A Bicicleta Ergométrica”, por sua vez, também explora uma premissa simples, a da necessidade quase premente que todos temos de controlar a alimentação. Um ilustrador recebe más notícias do médico, compra uma bicicleta ergométrica, e torna-se fissurado em andar nela. Não no exercício em si, mas nos efeitos psicológicos que provoca, pois ele imagina estar eliminando as funções do próprio corpo, como se operários perdessem o emprego de limpar seu organismo dos excessos alimentares. Desenha uma tela com os “operários” numa estrada e a situação fica cada vez mais “normal” em sua mente. É um conto dos mais perturbadores, e lida com o limite da sanidade e da loucura.
Mas se há um texto de horror abertamente sobrenatural é “n.”, que também lida com questões se saúde mental. Um psiquiatra é procurado por um paciente com toc (transtorno obssessivo compulsivo) e relata seu desespero a partir do encontro com um conjunto de pedras misteriosas achadas numa propriedade abandonada à beira de uma estrada. Elas provocariam efeitos ilusórios e visões aterradoras, como que vindas de uma outra dimensão da realidade. Apesar do tratamento, ele comete suicídio, e a título de comprovar a insanidade do paciente, o psiquiatra vai atrás das tais pedras para descobrir que também está profundamente perturbado pelos acontecimentos. King revela que se inspirou na novela O Grande Deus Pã (1895), de Arthur Machen, mas me veio à mente ecos de Lovecraft. Seja como for, uma história de horror aterradora e de alto nível.
Em Ao Cair da Noite, King trabalha com alguns temas recorrentes, embora o livro não seja uma coleção de histórias de horror no sentido mais tradicional, ou seja, ligada a eventos sobrenaturais malignos. Ao invés, com eventos sobrenaturais ligados à exploração de situações pós-morte. É o caso do conto que abre o livro, “Willa”, uma história triste, em que as pessoas custam a crer que morreram depois de um acidente ferroviário, até que dois deles, um casal, desabafa suas mágoas numa casa noturna. Outro é “The New York Times a Preços Promocionais Imperdíveis”, em que uma viúva recebe o telefonema do finado marido às vésperas de seu funeral, com este descrevendo onde está, sem perceber que já partiu. Mais um é “Ayana”, que lida com a questão do poder de cura milagrosa que algumas pessoas podem possuir e de como esse dom pode se tornar um fardo a ser carregado. Mas o melhor é “As Coisas que Eles Deixaram Para Trás”, em que objetos pessoais de companheiros de trabalho mortos no 11 de Setembro surgem do nada no apartamento de um sujeito que faltou ao trabalho no dia fatídico. King disse que foi profundamente abalado pelos atentados, como, de resto, a maioria das pessoas civilizadas, e escreveu esta bela e tocante história para tentar extravasar seus sentimentos a respeito.
Outra característica constante do autor é colocar os protagonistas em situações improváveis, absurdas, mas teoricamente possíveis em nosso mundo ilusoriamente ordenado. Ele procura lidar com horrores possíveis, e, por isso mesmo, mais assustadores. Temos exemplos neste livro, nas penúrias pelo qual passam os personagens de “Mudo”, e, sobretudo, “No Maior Aperto”. Pode soar como lugar comum, mas quem tiver lido estas duas histórias pensará duas ou mais vezes antes de dar carona a um deficiente auditivo ou, mais prosaicamente, usar um banheiro químico — aliás, algo desagradável por si mesmo.
No conjunto, Ao Cair da Noite é uma coletânea bem temperada em termos temáticos, sustentada pela prosa segura de sempre, além de personagens críveis envoltos com situações tristes ou à beira do desespero. Se há pelo menos três histórias realmente boas, a maioria das outras não fica muito atrás, tornando este livro um entretenimento de horror competente, mesmo que já tenhamos encontrado King em momentos mais brilhantes. Ele continua em boa forma, e isso é melhor do que a maioria dos outros escritores consegue atingir em seus melhores momentos.

– Marcello Simão Branco



[1] Escrevi uma resenha deste livro para o site Scarium Online, disponível em http://www.scarium.com.br/artigos/sombras/simao11.html.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Mustafá Ali Kanso (1960-2017)

Deixou-nos, em 26 de junho último, aos 57 anos, o escritor curitibano Mustafá ibn Ali Kanso.
Bacharel em Química e Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Kanso teve uma carreira breve nas letras fantásticas, contudo produtiva e bem avaliada. Suas primeiras contribuições surgiram no início do século, durante as oficinas de escrita criativa ministradas na capital paranaense pelo saudoso escritor André Carneiro, que foi seu grande mentor. Após a morte do mestre em 2014, Kanso assumiu a direção da atividade.
O autor conviveu com grandes nomes do gênero e com eles compartilhou várias antologias: Futuro presente (2009, Record), organizada por Nelson de Oliveira, Contos imediatos (2009, Terracota), Proibido ler de gravata (2010, Multifoco), Sagas: Odisseia espacial (2012, Argonautas), Estranhas histórias de seres normais (2015, Illuminata) e Possessão alienígena (2017, Devir), além de algumas edições do Projeto Portal, organizadas e editadas por Luiz Brás em 2009 e 2010.
Seus livros solo foram a coletânea A cor da tempestade (2011, Multifoco) e o romance O mesmo sol que rompe os céus (2016, Fragmentos).
Vítima de um ataque cardíaco fulminante, seu passamento repentino e precoce surpreendeu todo fandom nacional de literatura fantástica. O corpo foi cremado no Crematório Vaticano, em Curitiba. Uma grande perda para a ficção científica brasileira.
Cesar Silva

O bazar dos sonhos ruins, Stephen King

O bazar dos sonhos ruins (The bazaar of bad dreams), Stephen King. 528 páginas. Tradução de Regiane Winarski. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.

Stephen King é provavelmente o autor mais presente na minha vida de leitor. Desde minha juventude tenho acompanhado sua obra e é interessante observar como ele tem se tornado um autor cada vez mais mainstream sem perder o apelo de uma ficção fantástica, mesmo quando não tem nada de fantasiosa. Esse caráter já pode ser claramente percebido no coletânea Escuridão total sem estrelas, resenhada aqui, mas fica ainda mais evidente na nova coletânea O bazar dos sonhos ruins, publicada em 2017 pela editora Companhia das Letras no selo Suma das Letras.
Diferente da coletânea anterior, formada principalmente por novelas, esta é mesmo uma seleção de contos, com vinte textos distribuídos em suas 528 páginas.
Os momentos mais expressivos do autor neste volume são justamente os contos não fantásticos, que demonstram que King tornou-se um sensível cronista da América decadente.
Não comentarei todos eles, pois isso tornaria a leitura desta resenha um tanto enfadonha - uma vez que não tenho, nem de longe, a habilidade do mestre para entreter o leitor. Então, falarei sobre aqueles que mais me empolgaram, embora nenhum texto da seleta possa ser classificado abaixo de bom. De fato, a maior parte está entre muito bom e excelente, com picos de excepcionalidade, que serão aqueles que vou comentar.
"Batman e Robin têm uma discussão" é uma pequena obra prima. Apesar do título, não tem nada a ver com quadrinhos e os personagens do título não aparecem na história, que conta sobre um almoço entre pai e filho num restaurante. Nada muito especial, exceto pelo fato de que o pai sofre de alzheimer, e este pequeno ritual, repetido semanalmente, é um momento de extrema ternura entre ambos. Contudo, ao retornar para a casa de repouso onde o pai vive, algo ruim acontece e a ficção vai assumir um caráter imprevisivelmente realista.
"Ur" conta uma história com a qual qualquer leitor moderno vai se identificar. Um professor de literatura algo tecnofóbico, num momento de indignação extrema depois de uma discussão com a namorada que o acusa de ser quadrado, resolve comprar um kindle, o leitor de ebooks da Amazon. Contudo, o aparelho que é entregue em sua casa algumas horas depois não é exatamente o que nós conhecemos como um kindle. É igual na forma e na operacionalidade, mas além de uma cor rosa absurda, tem um ícone a mais no menu que dá ao seu usuário acesso a livros que nunca foram escritos - pelo menso não na nossa realidade.
"Blockade Billy" tem aquele delicioso formato de alguém que conta um causo. Trata-se de uma história de esporte, sobre beisebol, um jogo com os qual os brasileiros, com raras exceções, não têm nenhuma empatia. Contudo, o que acontece dentro das "quatro linhas" - ou do diamante, com diriam os fãs de beisebol - não é diferente do que acontece em qualquer outro esporte coletivo: vitórias, derrotas, camaradagem, antagonismos, violência acidental ou não, juizes parciais, angústias e alegrias, é isso que faz com que quem gosta de algum esporte, mesmo não sendo o beisebol, curta a história. Trata-se do surgimento de um novo craque que vai levar o time a um patamar inédito de conquistas. Mas, sabendo quem é o autor da história, dá para imaginar que não há apenas glória e ouro no fim do arco-íris.
Em "Mr. Delícia" o elemento fantástico está presente, mas é tão impreciso que poderia ser classificada como uma história realista. Estamos mais uma vez entre gente idosa numa casa de repouso. Entre eles, dois amigos compartilham a montagem de um quebra-cabeças. Um deles conta ao outro sobre Mr. Delícia, alguém que ele conheceu quando era muito jovem e aparentemente está de volta a sua vida.
"Trovão de verão" é o texto que fecha a coletânea, um conto pós-holocausto de extrema delicadeza. Não há zumbis, nem canibais, nem correrias, nem explosões. A frase "o mundo não acaba numa explosão, mas num suspiro", poderia ser usada aqui mas, de fato, o mundo acaba mesmo é com um trovão em pleno verão.
Além dessas excelentes histórias, a coletânea tem muito mais a oferecer, um carro antropófago, uma duna que revela quem vai morrer, o que há depois da morte, um exorcismo bastante assustador, uma desconfortável história sobre obituários, uma corrida armamentista, um demônio em forma de menino, e pelo menos dois poemas, que é uma raridade na obra do mestre do horror.
Cada conto vem precedido de uma contextualização feita pelo autor, que revela detalhes de sua concepção e desenvolvimento, muito interessantes e efetivamente úteis para a leitura.
O bazar dos sonhos ruins é um grande livro que prova que Stephen King continua sendo um ótimo contista. Com e sem fantasia.
— Cesar Silva

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Almanaque Entrevista


Renato Rosatti fala sobre o recorde de seu fanzine Juvenatrix e as perspectivas do fandom e do horror no Brasil

por Marcello Simão Branco

Renato Rosatti foi o meu primeiro companheiro de projetos na ficção científica e no horror. Juntos criamos o Megalon, no segundo semestre de 1988, que se tornou o mais premiado fanzine da história dos gêneros no país. Conforme o Renato detalha a seguir, ele seguiu rumo próprio como fanzineiro e no mês de abril de 2019 atingiu uma marca incrível: seu fanzine Juvenatrix chegou à 200ª edição. Dificilmente uma outra publicação do gênero no país atingirá esta marca. Em outros tempos tal acontecimento teria gerado alguma repercussão entre os fãs interessados. Mas neste século XXI, isso não ocorreu, pois houve uma desarticulação entre os antigos fãs dos anos 1980 e 1990, como também surgiu uma nova geração, mais pulverizada em grupos segmentados e mais atuantes no meio virtual. Desta forma não é exagero dizer que o Juvenatrix é uma das instituições sobreviventes da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira. Renato conta um pouco sobre a história do zine, seu idealismo por fanzinar, sua paixão por filmes de horror e FC e o que pensa sobre o atual momento do horror no Brasil.

Nos conte um pouco sobre a longa trajetória do Juvenatrix, até atingir esta marca histórica de duzentas edições.
Vou falar um pouco sobre minha trajetória como fanzineiro. Iniciei as atividades em novembro de 1988, na co-edição do fanzine Megalon, ao lado de Marcello Simão Branco, até 1991. A partir de janeiro desse mesmo ano, passei a editar o Vortex que depois passou a se chamar Juvenatrix a partir do número 7. Depois vieram em janeiro de 1995 o Astaroth e em janeiro de 2001 o Carnage. Algumas curiosidades: o nome Vortex foi inspirado na sociedade futurista do filme de FC Zardoz (1973); o nome Juvenatrix foi inspirado no título original de um filme americano obscuro de horror, Re-juvenator (Rejuvenatrix, 1988). O Astaroth tem o nome inspirado num demônio do filme Uma Filha Para o Diabo (1976). São todas publicações voltadas para a arte fantástica, com contos, resenhas de cinema e literatura, ilustrações, quadrinhos e divulgação de produção alternativa. O Juvenatrix era impresso até o número 107 e a partir da edição 108 (novembro de 2007), migrou para o formato eletrônico em arquivo PDF distribuído por e-mail. Ao chegar à edição 200, ficou registrada uma história com números expressivos: 29 anos, 4711 páginas e milhares de textos publicados.

O que a edição do Juvenatrix, e mais geralmente  a prática da edição de fanzines, representa para você? Ou seja, o que mais te motiva a ser um fanzineiro?
Editar um fanzine é um ato de idealismo e satisfação pessoal. Sou apreciador de horror e ficção científica e sempre quis fazer algo extra além de ser apenas um consumidor. Encontrei nos fanzines uma forma de produzir esses gêneros da arte fantástica.

Eu imaginei que nesta edição histórica você repetiria algumas das edições especiais que marcaram o Juvenatrix, como a inesquecível edição 50, publicada em abril de 2001, que contou, justamente, com 200 páginas. Por que isso não se repetiu?

Essa super edição do Juvenatrix 50 teve a presença de 51 colaboradores e bateu um recorde de páginas em um único volume (202), com capas coloridas, encadernação em espiral e edições numeradas e assinadas pelo editor. Não foi possível repetir a dose com algo similar. Os tempos são outros e bem mais tenebrosos. Não tenho disponibilidade para gastar tanta energia em produzir algo tão grandioso. A repercussão das pessoas também não é mais a mesma, e os fanzines perderam o interesse, ficando cada vez mais no passado. Manter a chama acesa, mesmo que fraca, ainda é uma missão do Juvenatrix.    

De que forma a transição da versão impressa para a digital (em PDF) significou também uma mudança de patamar do fanzine e do tipo de colaboração que ele passou a receber?
Mudar para um formato eletrônico em arquivo PDF tornou-se a única saída para continuar existindo. É inviável editar o Juvenatrix de forma impressa em tamanho A4, com os altos custos das cópias e distribuição pelos correios. As pessoas preferem gastar dinheiro com um sanduíche e refrigerante que são consumidos em cinco minutos, do que com um fanzine. Com essa mudança, também ficou mais fácil a edição e distribuição por e-mail, atingindo uma quantidade maior de leitores. Quanto às colaborações, não mudou muita coisa. Tenho alguns poucos colaboradores regulares, e quando necessário utilizo materiais de minha autoria, sejam inéditos ou republicados da versão impressa, que tinha tiragem pequena.

Neste século 21 o que restou do fandom de FC&F dos anos 1980 e 1990 se dissipou quase completamente em outros grupos de fãs mais recentes. Assim, podemos afirmar que o Juvenatrix é uma instituição sobrevivente do tempo em que os zines eram mais importantes?
Os fanzines eram mais importantes antigamente. Hoje, até sites e blogs da internet enfrentam dificuldades para sobreviverem. As pessoas têm preguiça de ler e estão preferindo vídeos no Youtube. O Juvenatrix é mesmo um sobrevivente. São 29 longos anos de edição ininterrupta. Pode até estar respirando por aparelhos, mas ainda está vivo. E deverá continuar, mesmo se tiver que utilizar materiais não inéditos, pois tenho centenas de resenhas de cinema que escrevi ao longo dos anos e que foram publicadas apenas nas versões impressas de meus fanzines.

Além do Juvenatrix você já editou outros zines de horror, como o Astaroth e o Boca do Inferno - este uma derivação do site de mesmo nome. Nos fale sobre seus próximos projetos e se pretende voltar a editar outro zine além do Juvenatrix.
Também teve o Carnage, com duas edições lançadas em 2001 e 2002. O Astaroth voltou a circular impresso com alguns números, mas novamente retornou para sua tumba fria. Sinceramente, se eu conseguir manter o Juvenatrix vivo, já estou satisfeito. Então, esse é o meu único projeto, além de escrever resenhas de cinema de horror esporadicamente.

Nestes últimos tempos alguns observadores tem apontado que o horror voltou a estar na moda aqui no Brasil, com o lançamento de filmes e livros de autores nacionais. Você concorda com isso? Poderia apontar algumas tendências interessantes do horror em geral neste século 21?
Atualmente temos uma cena ativa com produção de horror nacional, sejam filmes ou livros, e a internet e redes sociais estão contribuindo com a facilidade de divulgação dos diversos projetos, além dos financiamentos coletivos. Muitos apreciadores do estilo estão se aventurando na produção de vídeos independentes e escrevendo histórias. Torçamos para que perdure e todos nós seremos beneficiados com esse movimento.

sábado, 4 de maio de 2019

Tangentes da Realidade


Tangentes da Realidade, Jeronymo Monteiro. Capa de Pavel Kudis. Orelha de Jurandi Santos. São Paulo: Livraria Quatro Artes Editora, Série Infinito. 204 páginas. Lançamento original de 1969.

Jeronymo Monteiro (1908-1970) fez um pouco de tudo na ficção científica brasileira, ao atuar como escritor, radialista, jornalista, fã e editor. É difícil encontrar alguém semelhante e que tenha atuado por tantos anos, do final dos anos 1930 até o início dos anos 1970. Não por acaso alguns o apelidam de “Pai da Ficção Científica Brasileira”.
Assim, embora ele pertença à Geração GRD, ou de forma mais acadêmica Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1958-1972), ele já atuava antes no gênero, ao contrário de outros autores de destaque, como André Carneiro (1922-2014), Fausto Cunha (1923-2004) e Rubens Teixeira Scavone (1925-2007). Mas o que também distingue Monteiro é o seu enfoque pessoal para a FC, uma perspectiva socialmente crítica e, principalmente, humanista. Esta virtude está presente em toda a sua obra, de romances e contos, mas é talvez neste Tangentes da Realidade – aliás, cá pra nós, que título bonito! –, que se mostra de maneira mais desenvolvida, madura.
Este livro é a sua única coletânea, e os contos nela publicados foram escritos em diferentes épocas, de 1947 a 1964, a maioria deste ano. Alguns dos mais antigos foram reescritos, mas é possível perceber que, reunidos, formam um todo coerente, embora sejam tematicamente bem diversificados: contatos com extraterrestres, exploração espacial, guerra nuclear, fenômenos psíquicos inexplicáveis, evolução humana etc. A coerência gira em torno da ideia de que alguma coisa sempre dá errada em todas as atividades exercidas pelo homem. Há um sentido de trágico, como se o que poderia dar certo, por causa de limitações da natureza humana, como a vaidade, a inveja, o egoísmo, a ambição, ou o simples azar colocasse tudo em risco. Mesmo com este sentido mais pessimista, por vezes, emerge também uma certa ingenuidade com relação às ações e comportamentos dos personagens, o que, se numa primeira vista não está de acordo com esta visão mais crítica, por outro, é como se mostrasse que o homem é também um ser voluntarista e, por vezes, altruísta com relação aos seus interesses e seus semelhantes.
A década de 1960 foi a última com produção do autor – que no fim da vida editou a revista Magazine de Ficção Científica, versão brasileira da prestigiosa Fantasy & Science Fiction –, com três livros: Fuga Para Parte Alguma (1961), talvez o seu melhor livro, uma FC de pesadelo em que formigas se reproduzem sem controle a ameaçam a vida humana na Terra; Visitantes do Espaço (1963) – sobre alienígenas que aterrizam em pleno planalto central brasileiro –, e Tangentes da Realidade (1969). Neste sentido, a coletânea é sua única obra publicada já sob o regime militar. Este detalhe é importante porque o livro é dos poucos da FCB que dá um testemunho do momento político sombrio que o país vivia – já no AI-5 –, na mesma época de sua ocorrência, e ainda por cima de um ponto de vista pessoal.
Em “O Copo de Cristal” (maio de 1964), narra-se a história de um copo que é reencontrado depois de muitos anos e as visões estranhas e perturbadoras que ele provoca. O protagonista – vivido pelo alter ego do autor – fala sobre sua prisão, possivelmente denunciado por algum apoiador da ditadura. Apesar de ser contada de passagem na noveleta é de um realismo assustador e expõe a revolta do autor com a violência que sofreu. De certa forma, então, o copo de cristal se presta a uma reflexão sobre o arbítrio e dos rumos possíveis de uma cultura autoritária, não especificamente no Brasil, mas na humanidade em geral. Visto no escuro o copo produz imagens sobre possíveis futuros, todos eles com cenas de violências e guerras. Nesta história, a melhor do livro, e incluída em Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (2007), organizado por Roberto de Sousa Causo, está presente de maneira mais completa sua visão de mundo humanista. Monteiro, que viveu nos últimos anos de sua vida na pacata Mongaguá, no litoral sul de São Paulo mostra também no conto como valorizava uma vida despojada do consumismo e valores materiais. O mar simboliza esta simplicidade que harmonizava o humanismo com a natureza. “O Copo de Cristal” é uma obra-prima.
Outra noveleta notável é “Um Braço na Quarta Dimensão” (também escrita em maio de 1964), que conta a história de um pintor humilde vítima de um dom (ou maldição). Contratado para pintar a casa do alter ego de Monteiro, ele desaparece fisicamente quando fica em pânico por algum motivo. Justamente numa destas situações perdeu o seu braço, preso dentro de uma parece, após se materializar do sumiço. O dono da casa o convence a ir com ele a São Paulo para uma consulta com um hipnólogo. Ora, ninguém menos que o já citado escritor de FC André Carneiro que, de fato, atuou na área, tendo escrito dois livros sobre o assunto. Mas o encontro acaba por não ocorrer para o infortúnio do pobre pintor. Uma história que fica nas franjas entre a FC e o fantástico, e mostra suas muitas possibilidades temáticas. Não por acaso foi incluída na antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica Brasileira: Fronteiras (2009).
Além destas o alter ego do autor ressurge em mais duas histórias, dando a entender que, de certa forma, estas aventuras tenham alguma coisa de autobiográfico – certamente o caso mais concreto é de “o Copo de Cristal”. Pois na terceira destas histórias, “A Incrível História de Tômas de Saagunto”, sugere-se que Monteiro ficcionalizou com as tintas do fantástico uma situação que teria testemunhado. Depois de muitos anos, Mendes – o nome da vez que representa o autor no livro –, reencontra um velho amigo dos tempos de juventude, que foi morar em Mongaguá. É um relato mais estranho do que fantástico sobre como um acidente trágico numa mina mudou para sempre a vida de seu amigo.
“O Sonho”, que fecha o livro (1950, reescrita em junho de 1964), é uma história de teor mais intimista, em que também o alter ego de sua esposa Car (de Carmen), reaparece, depois de participar em “O Copo de Cristal” e “Um Braço na Quarta Dimensão”. O casal oferece em sua casa de praia um churrasco aos amigos, em que um deles conta um estranho sonho sobre sua presença nos campos de batalha na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. A força reside na verossimilhança do relato, extremamente realista e que serve para denunciar, mais uma vez, a insanidade e os horrores da guerra.
Como se vê ao menos metade das histórias são contadas de uma perspectiva bem pessoal, sugerindo que tenham sido escritas a partir de eventos vivenciados pelo autor. Já a outra metade das histórias apresentam temas mais tradicionais da FC, com uma verve mais voltada para a ação. Como, por exemplo, “Base Espacial Alfa” (1955, reescrita em 1964) – publicada em sua primeira versão na Antologia Brasileira de Ficção Científica (1961), organizada por Gumercindo Rocha Dorea. Versa sobre a impossibilidade da futura exploração do espaço devido a não superação das hostilidades políticas entre as nações. Outra nesta mesma linha é “Missão de Paz” (1955, reescrita em junho de 1964), sobre as dificuldades de superação de preconceitos com o anúncio da chegada à Terra de uma civilização extraterrena.
Duas histórias complementam o volume, e acentuam o aspecto trágico da condição humana. A primeira delas é “As Pedras Radiantes” (junho de 1964). Conta sobre um estranho comerciante que oferece diamantes a preços módicos às joalherias. Na verdade é um alienígena que procura testar os valores humanos, que não resistem à tentação das pedras, expondo toda a mesquinharia e egoísmo da condição humana, como uma civilização bárbara, não qualificada para frequentar uma comunidade de civilizações interplanetárias. Mais incisiva ainda é “O Elo Perdido” (de 1947, reescrita em 1964), sobre um casal que tem um filho que nasce com uma mutação, com características semelhantes a um neanderthal. Uma situação que teria sido provocada devido às doses de radioatividade que o pai teria recebido quando havia trabalhado num laboratório de física nuclear. Além do insólito do tema chamar a atenção, o mais forte é a não aceitação do pai, que passa a viver em constante conflito com a criança. Uma história, sobretudo, sobre como o preconceito pode ser mais forte do que o amor, mesmo que seja de um pai com relação ao seu filho.
Em suma, Tangentes da Realidade é uma obra madura, de conclusão da obra de Jeronymo Monteiro. Em termos de prosa, demonstra habilidade em envolver o leitor em suas tramas e tem como maior virtude os diálogos inspirados, que por vezes soam como se estivéssemos testemunhando ao vivo as situações. Já a partir dos temas, como já dito, ressalta a sua postura de vida simples, ilustrada pelas belas imagens da vida litorânea e pelo comportamento solidário com os amigos ou humildes. Falando de uma forma mais geral, temos com este livro mais um exemplo da principal característica e, diria, virtude dos autores da Primeira Onda: sua postura socialmente crítica e humanista. Alguns observadores da nossa FC defendem, não sem alguma frequência, de que a FC produzida nos anos 1960 não é muito atraente, sendo inferior ao que se fez posteriormente, em especial nos anos 1990, com o pessoal da Segunda Onda. Se estiverem se referindo ao grau de qualidade da especulação ficcional e da variedade dos temas tratados, talvez tenham razão, mas subestimam o que ela ofereceu de mais interessante e ainda não superado: a crítica social e a postura mais madura com que os autores daquele período refletiram sobre o mundo, as transformações tecnológicas e a condição humana.
– Marcello Simão Branco

sábado, 27 de abril de 2019

A fantástica jornada do escritor no Brasil

A fantástica jornada do escritor no Brasil, Katia Regina Souza. 178 páginas. Editora Metamorfose, Porto Alegre, 2017.

Em 2016, recebi o telefonema da jornalista Katia Regina Souza que queria colher depoimentos sobre minha atividade editorial com ficção fantástica. Tinha ficado com a impressão que era para um artigo de algum jornal de Porto Alegre, que é a terra da jornalista, por isso fiquei positivamente surpreso quando soube que se tratava de um trabalho acadêmico sobre o mercado de fc&f no Brasil e que geraria um livro. E fiquei ainda mais impressionado quando um exemplar de A fantástica jornada do escritor no Brasil, publicado pela editora Metamorfose, desembarcou aqui em casa, gentilmente enviado pela autora, a quem agradeço duplamente: pelo volume em si, que é muito bacana, e também porque muitas de minhas falas estão fielmente reproduzidas ali. Mas o significado do livro vai muito além de uma massagem no ego.
Ocorre que o volume é, de fato, um profundo ensaio de 178 páginas, cuidadosamente elaborado com detalhes colhidos em dezenas de entrevistas que a autora realizou ao longo de mais de um ano, com autores e editores de várias regiões do país que atuam no segmento: Ana Cristina Rodrigues, Ana Lúcia Merege, André C. S. Santos, André Vianco, Anna Fagundes Martino, Artur Vecchi, Bárbara Morais, Becca Mackenzie, Camila Fernandes, Camila Guerra, Carlos Orsi, Celly Borges, Cesar Silva, Christopher Kastensmidt, Cirilo Lemos, Clara Madrigano, Claudia Dugim, Clinton Davisson, Cristina Lasaitis, Duda Falcão, Eduardo Kasse, Eduardo Spohr, Eric M. Souza, Eric Novello, Erick Sama, Fábio M. Barreto, Felipe Castilho, FML Pepper, Gianpaolo Celli, Giulia Moon, Helena Gomes, Jana P. Bianchi, Jim Anotsu, Ju Lund, Karen Alvares, Lauro Kociuba, Marcella Rossetti, Marcelo Amado, Marcus Barcelos, Martha Argel, Nikelen Witter, Peterson Rodrigues, R. F. Lucchetti, Regina Drummond, Richard Diegues, Roberta Spindler, Roberto de Sousa Causo, Rodrigo van Kampen, Rosana Rios, Simone O. Marques, Simone Saueressig e Thais Lopes.
As entrevistas foram fragmentadas e suas partes distribuídas ao longo de oito capítulos: "O papel do editor"; "A publicação tradicional"; "A publicação independente"; "Panorama da literatura fantástica brasileira; "O processo criativo"; "Divulgando o trabalho"; "Como sobreviver às críticas negativas" e "O fim da jornada?". O texto é agradável, otimista e com brilho jornalístico, sem o peso que se espera de um texto acadêmico.
Apesar da proposta da autora de produzir um manual para novos autores – confissão expressa na primeira orelha –, o resultado é um valioso instantâneo do estado da ficção fantástica brasileira contemporânea, que pode servir como farol para autores e editores em atividade, sejam eles novos ou veteranos. Este é realmente um livro que todos precisam ler.
— Cesar Silva

sábado, 30 de março de 2019

Mistério de Deus, Roberto de Sousa Causo

Mistério de Deus, Roberto de Sousa Causo. 600 páginas. Devir Livraria, São Paulo, 2017.

Há anos esperava que o meu amigo Roberto de Sousa Causo trouxesse à luz a história de Mistério de Deus, do qual fui leitor beta. A espera acabou em 2017, com o lançamento do romance pela Devir Livraria.
Mistério de Deus não é continuação nem spin-off de Um anjo de dor, romance de horror de Causo publicado em 2009 pela mesma Devir Livraria. Mas há pontos de contato entre as duas histórias, a começar pelo cenário de Sumaré, cidade no interior paulista onde o autor passou boa parte de sua juventude.
Tenho na memória, muito nitidamente, a maioria das cenas do romance, que conta a história de um ex-presidiário, leão de chácara num inferninho de Sumaré nos idos de 1991, que é levado pelas circunstâncias e por um profundo senso de justiça, a intervir nas ações de um grupo criminoso que aterroriza a região a bordo de um maverick preto envenenado. Mas não é só isso, há algo sobrenatural em torno das ações do bando, e o rapaz vai ter que levar sua determinação ao limite para tirá-los de cena.
A história tem um contorno realista que dialoga com um modelo literário que está muito em voga, como o do romance vencedor do prêmio São Paulo de Literatura Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2012), um drama policial de contornos regionalistas que aos poucos assume os protocolos das histórias de horror.
Seguindo as orientações de mestres do gênero, especialmente Stephen King, Causo não se furta a mostrar a cara do monstro no momento adequado e com toda a crueza possível. Porém, a elegância narrativa não permite que a história assuma caminhos demasiadamente apelativos, com sangue e tripas espirrando na cara do leitor, como seria de se esperar no estilo brutalista tão popular no gênero atualmente.
O livro tem 600 páginas – é provavelmente o livro mais volumoso já publicado pelo autor – e traz na capa uma ilustração agressiva de Vagner Vargas, que tem sido parceiro constante de Causo em suas publicações.
Roberto de Sousa Causo é Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo e mantém um intensivo trabalho como autor de ficção especulativa, com diversos livros de ficção e não ficção publicados no Brasil – alguns deles premiados – e dezenas de contos publicados no exterior em países como Portugal, Argentina, França, China e Cuba. Entre seus trabalhos mais importantes, está o ensaio Ficção científica, fantasia e horror no Brasil – 1875 a 1950 (UFMG, 2003).
Mistério de Deus vai agradar vários tipos de público: desde o leitor de horror, que é óbvio, mas também os de histórias de mistério policial e principalmente os fãs de muscle cars, um público ainda pouco explorado pela literatura nacional.

sábado, 23 de março de 2019

O Terror


O Terror (The Terror: A Novel), Dan Simmons. Tradução de Alexandre Martins. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2017. 751 páginas. Lançamento original em 2007.


Em 1845 partiram da Inglaterra os navios HMS Erebus e o Terror da Marinha real com o objetivo de descobrir e atravessar a Passagem Noroeste, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico através do Círculo Polar Ártico, situada no extremo norte do Canadá.
A chamada Expedição Franklin, nome dado por causa do comando do capitão Sir John Franklin, do Erebus, contava com uma tripulação de mais de cem homens, equipamentos modernos e provisões para cerca de três anos. Estavam, portanto, preparados para a travessia e a viagem pelo Pacífico adentro. Mas tiveram o infortúnio de serem surpreendidos por um inverno rigoroso fazendo com que os dois barcos ficassem encalhados em meio a massas de gelo colossais e temperaturas dezenas de graus abaixo de zero.
O enorme romance, de mais de 700 páginas que retrata um dos acontecimentos históricos mais dramáticos da Marinha real britânica, é narrado de forma não linear, entremeando os capítulos num vai e vem, entre o início da expedição e o drama que passam a viver quando os navios encalham. Apenas mais ou menos da metade em diante a história assume uma linha narrativa mais convencional, embora sempre abordada do ponto de vista de um personagem, que recebe o nome do capítulo. E é por meio deste recurso que a história é contada principalmente através do capitão Francis Crozier, do Terror, que é quem de fato assume o comando da expedição após a morte do capitão Franklin, em meados de 1847. Outro personagem interessante é o Dr. Goodsir, que relata em um diário tudo aquilo que sente e testemunha, principalmente do ponto de vista médico. Assim, o nível dos detalhes dos problemas que enfrenta, como doenças e cirurgias são bastante detalhados e às vezes indigestos para quem não está acostumado a lidar com situações deste tipo. Esta escolha do autor dá ao livro uma perspectiva mais particular do drama geral, ganhando em verossimilhança das situações e intimidade com os personagens, tornando-os quase como confidentes junto ao leitor.
Chama a atenção também o grau profundo e bem documentado com que Simmons narra o drama naval, com muitas informações e detalhes sobre a rotina dos navios, suas características de trabalho e funcionamento, bem como das funções de cada tripulante. Mas, acima de tudo, do clima atmosférico tenebroso – sim, esta é a melhor palavra que encontro – que se instaura na vida dos cento e poucos homens. Frio extremo, escuridão que dura meses, alimentos de má qualidade e estragados, ferimentos e doenças em profusão, racionamento do carvão que mantém os navios minimamente aquecidos, e uma moral cada vez mais baixa entre os tripulantes, o que só torna o convívio mais tenso e perigoso, inclusive para a linha de comando.
Este drama durou três invernos e com a perda do Erebus, que afundou parcialmente, e a constatação de que o Terror teria poucas chances de voltar a navegar mesmo com um degelo, as tripulações dos dois navios partem rumo ao sul (arrastando sobre a neve trenós e pequenos barcos), para tentar encontrar uma saída para sobreviverem.
Como já dá para perceber este drama já é, por si, terror. E ainda mais pungente quando sabemos que tudo isso ocorreu de verdade. Mas a este contexto o autor acrescenta seu toque ficcional, tornando a história algo mais do que um romance histórico competente. Pois os homens são também aterrorizados pela presença de um monstro, quase invisível, pois é branco como a neve, e que fica à espreita e só aparece no momento final do ataque, quando é tarde demais. Descomunal, tem quatro metros de altura e por ser muito parecido com um urso polar, confunde ainda mais suas vítimas.
A fera, que surgiu não se sabe de onde, circunda os navios e costuma atacar quando os tripulantes têm de sair deles por alguma razão. Mas aos poucos também começa a atacar as embarcações, matando com muita facilidade e devorando suas vítimas. Sim, ela adora carne humana.
Embora não afirme nos “Agradecimentos” é possível aludir que Simmons se inspirou no conto clássico “Quem Anda Aí?[1] (“Who Goes There?”, 1938), de John W. Campbell, Jr., adaptado três vezes ao cinema, como O Monstro do Ártico (The Thing, 1951), O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), e A Coisa (The Thing, 2011). Mas ele chega, ao menos, a incluir entre àqueles que dedica o livro, o diretor Christian Nyby e o produtor Howard Hawks, da primeira versão para o cinema. Nas duas primeiras versões o monstro é um alienígena predador que ficou congelado por milhares de anos até ser despertado, inadvertidamente, por uma expedição no Ártico. Na terceira é encontrado numa nave espacial sob o gelo num planeta – um pouco semelhante ao clássico Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, 1979), de Ridley Scott.
Mas ao invés, Simmons investe numa perspectiva sobrenatural para justificar a existência do monstro, chamado de Tuunbaq pelos nativos inuits da região, remetido à mitologia de criação do mundo deles. E isso fica exemplificado quando o capitão Crozier, depois de ferido em uma emboscada por um grupo de tripulantes amotinados, é salvo por Lady Silêncio, uma esquimó que havia sido adotada pela expedição após perder seu companheiro, e que recebeu este nome porque, misteriosamente, não tinha língua. Pois ela não é atacada pela fera, ao contrário, interage amistosamente. De acordo com a mitologia, os ataques aos homens brancos, forasteiros, seria uma forma do monstro proteger a cultura e a vida dos inuit.
Embora longo o livro não decai em interesse, e é mesmo notável como Simmons não enrola, pois em todos os capítulos, não só aspectos particulares são contados, mas também novas e dramáticas situações surgem. Há sempre um sentimento de apreensão sobre o que virá, e o livro está repleto de cenas visualmente poderosas, difíceis de esquecer. Os ataques furtivos e cruéis de Tuunbaq, as descrições do inverno escuro e rigoroso, as tempestades de raios, a aurora boreal, os sonhos premonitórios do capitão Crozier – ele mesmo com tendências à paranormalidade –, o encontro inesperado do tripulante John Irving com um grupo de esquimós, o destino cruel de vários personagens. Neste último caso, inclusive, chega-se a um ponto em que a leitura fica penosa, pois vários personagens morrem, um a um, seja de doenças, de frio, de fome, dos assassinatos ou pelas garras da fera sobrenatural.
Há também certa ambiguidade com o título do livro. Afinal, de que terror mesmo se refere? A do navio que curiosa e estranhamente chama terror? Do frio terrível que inviabiliza tragicamente a expedição? – como aconteceu na vida real –, ou do monstro assassino, não por acaso, apelidado pelos tripulantes de O Terror?
O romance foi finalista do British Fantasy Award em 2008 e recebeu uma adaptação na TV – que foi o que motivou a Editora Rocco a traduzir o livro, como informa, inclusive, na capa. Produzido por Steven Spielberg e Ridley Scott a série de mesmo nome foi ao ar em 2018 pelo canal fechado AMC, com oito episódios. Não vi o seriado, mas o livro já me bastou para considerar Dan Simmons como um dos mais talentosos contadores de história especulativa das últimas décadas. Autor da premiada série de FC espacial Hiperyon (1989), dele antes havia lido o forte e sofrido A Canção de Kali (Song of Kali, 1985), publicado em Portugal pela Editora Saída de Emergência, em 2009.
O que fica da leitura de mais de um mês de O Terror é que Simmons, para além da narrativa clara e fluente que prende o leitor, dos personagens vivos e complexos – semelhantes aos dos craques Stephen King e Peter Straub –, tem como maior virtude a capacidade de nos tornar próximos, cúmplices mesmo dos personagens, seus sonhos, medos, dramas, esperanças, e nos fazer sentir tudo isso com eles. Sobretudo por isso, O Terror não é apenas um livro grande, mas um grande livro.

– Marcello Simão Branco



[1] Publicado na antologia O que Será o Futuro? (The Future in Question), organizada por Isaac Asimov, Coleção Argonauta no. 327, Portugal, 1984.

domingo, 10 de março de 2019

A Noite do Demônio (Night of the Demon, Inglaterra, 1957)


Lançado em DVD no Brasil pela “Versátil”, na coleção “Obras Primas do Terror – Volume 1”, “A Noite do Demônio” (Night of the Demon / Curse of the Demon, 1957) é uma produção inglesa de horror psicológico, com fotografia em preto e branco e direção do francês Jacques Tourneur, famoso cineasta com preciosidades no currículo como “Sangue de Pantera” (1942), “A Morta-Viva” (1943),  “Farsa Trágica” (1963) e “Monstros da Cidade Submarina” (1965), esses dois últimos com Vincent Price.

Está escrito desde o início do tempo, até mesmo nessas antigas pedras (referência ao monumento histórico Stonehenge, na Inglaterra), que criaturas malignas sobrenaturais existem em um mundo de trevas. E também se diz que o Homem que pode utilizar o poder mágico dos antigos símbolos rúnicos, pode invocar esses poderes das trevas e os demônios do inferno. Ao longo das eras, o Homem tem temido e venerado tais criaturas. A prática da bruxaria e dos cultos do mal resistiu e ainda continua em nossos dias.” 

Um psicólogo americano, John Holden (Dana Andrews, de “Uma Fenda no Mundo”, 1965), viaja até Londres, Inglaterra, para participar de uma convenção científica com o objetivo de investigar e denunciar como fraude as ações de um culto demoníaco liderado pelo ocultista Dr. Julian Karswell (Niall MacGinnis).
Holden recebe a ajuda da jovem Joanna Harrington (Peggy Cummins), uma professora de escola infantil que é sobrinha do Prof. Harrington (Maurice Denham), um cientista que investigava a seita satânica e que morreu de forma misteriosa num acidente de carro. Ela tenta convencer o cético psicólogo americano dos perigos reais do satanismo e das práticas de bruxaria, e que ele pode ser uma vítima de uma maldição demoníaca que ameaça sua vida, através de um pergaminho com inscrições rúnicas.
“A Noite do Demônio” é um filme de horror psicológico e magia negra, cuja ideia central é o questionamento da existência do Mal, representado por criaturas do inferno invocadas em cultos satânicos. Combatendo o ceticismo e em alguns momentos o sarcasmo de John Holden, um homem da ciência que defende que os demônios são apenas invenções de auto-sugestão ou histeria em massa. Mas, os conceitos de feitiçaria não são apenas originários de princípios simplórios como a lendária bruxa cavalgando sobre sua vassoura, ou o mau olhado que tortura os pensamentos de sua vítima, ou o alfinete espetado na imagem que enfraquece a mente e o corpo. Os demônios podem ser reais e o cético John Holden irá arriscar sua vida para conhecer a verdade sobre essas criaturas ancestrais que já faziam parte de diversas culturas antigas, como o “Baal” dos babilônios, “Seth” dos egípcios, “Asmodeu” dos persas, ou “Moloch” dos hebreus.
Entre as curiosidades, vale destacar que o filme é baseado no conto “Casting the Runes”, de Montagne R. James, publicado em 1911. E uma questão bastante comentada é sobre a exposição do demônio, que aparece pouco e mesmo visto apenas em alguns momentos rápidos, muitos fãs e profissionais que trabalham com o gênero parecem concordar que seria mais eficaz para a história se ele nem aparecesse. Tanto que o diretor Jacques Tourneur, que prefere o horror sugestivo, fez questão de evidenciar que não era sua intenção mostrar a criatura, deixando para a imaginação do espectador, e que a decisão da exposição do monstro do inferno foi dos produtores, com as cenas adicionadas na pós-produção, sem a participação do diretor. Eu, particularmente, como apreciador do cinema bagaceiro de horror, gostei da aparição do demônio em efeitos toscos e divertidos (a criatura infernal estampa o pôster e recebeu grande destaque, ajudando muito na divulgação e trabalho de marketing).  

Como quem vai com medo e horror num caminho deserto. Pois sabe que algum demônio medonho o segue bem de perto.” – trecho do poema “A Balada do Velho Marinheiro”

(Juvenatrix – 07/03/19)

sexta-feira, 8 de março de 2019

Contos de terror

Contos de terror, Camilo Prado, org. 166 páginas Ilustrações internas e capa de Angelo Agostini. Edições Nephelibata, Desterro, 2016.

O gênero do horror sempre teve uma convivência mais íntima com o mainstream literário brasileiro, e não é difícil para o leitor atento identificar obras sombrias na bibliografia de uma infinidade de autores consagrados. Isso acontece devido a uma fase importante da arte literária, que acorreu entre o final do século 19 e o início do século 20, que os pesquisadores chamam de Decadentismo. Esse movimento artístico, herdeiro tardio do gótico, que em tudo reflete aos protocolos do horror como o conhecemos hoje, foi bastante popular na Europa – especialmente na França – e, por conseguinte, sua influência atingiu o Brasil em cheio, daí a razoável prodigalidade com que esse tipo de texto foi praticado, em comparação a outros gêneros da literatura especulativa.
Contos de terror, antologia organizada pelo pesquisador Camilo Prado para a editora independente Nephelibata, buscou reunir uma amostra da escola decadentista brasileira, para o que o organizador estabeleceu uma regra de ouro: só publicar contos em que os elementos tétricos fossem decorrentes de uma ação natural. Ou seja, nada de assombrações, demônios e outras manifestações do sobrenatural. Trata-se, portanto, de uma antologia de terror no sentido estrito, em que são apresentadas as faces mais sombrias do ser humano a partir da arte de autores renomados, quase todos em domínio público, numa tiragem muito pequena: apenas 70 exemplares numerados produzidos artesanalmente pelo editor. Este volume é uma espécie de lado B de uma publicação anterior, a antologia Contos decadentes brasileiros, já esgotado, mas que a editora pretende dar sequência com dois novos volumes que estão no prelo.
Outro aspecto interessante adotado pelos editores foi a manutenção da grafia da época, ou seja, os textos são apresentados da mesma maneira em que foram vistos originalmente, com as regras ortográficas da virada do século 19, o que dá um sabor especial à leitura, assim como as ilustrações do jornalista ítalo brasileiro Angelo Agostini, um dos primeiros ilustradores editoriais do país.
São quinze os textos presentes neste volume, de autoria de quatorze autores: Coelho Netto, Lucilo Varejão, Viriato Corrêa, Domicio da Gama, João do Rio, Julia Lopes, Humberto de Campos, Théo-Filho, Rodrigo Octavio, Monteiro Lobato, Carlos de Vasconcelos, Baptista Junior, Gastão Cruls e Medeiros e Albuquerque.  Alguns nomes são identificados com a literatura especulativa – como Humberto de Campos, João do Rio, Coelho Netto, Gastão Cruls e Monteiro Lobato –, mas a maior parte dos nomes é mesmo uma grata novidade. O organizador cuidou para que cada um deles fosse devidamente apresentado ao leitor numa breve biografia que antecede cada um dos contos, e ajuda bastante a contextualização do que será lido.
O conto que abre a seleta é "Na treva", de Coelho Netto, autor extremamente popular em sua época, dono de um estilo rebuscado com pendão para o inusitado, que conta a história vertiginosa de um grupo de passageiros a bordo de um trem noturno aparentemente desembestado.
Outro texto de destaque é "A peste", de João do Rio, que desenvolveu em seus contos um importante trabalho de registro da cultura carioca de sua época. Neste, o drama hospitalar sobre um surto de varíola.
"Madrugada negra", de Viriato Corrêa, não é de todo desconhecido. Trata-se de um relato em primeira pessoa, em que um homem conta a um grupo de amigos uma história de grande infortúnio. Contar uma história dentro de outra é um formato recorrente neste tipo de narrativa, e o autor de Cazuza, membro da Academia Brasileira de Letras, desfia aqui uma tragédia advinda da covardia de um homem.
Julia Lopes é a única mulher no grupo, e também única a comparecer com dois textos. "Sob as estrellas" envereda pela trágica relação de amor de um casal separado pela insensibilidade do homem, e "As rosas" é a história triste e tétrica de um jardineiro que perdeu a filha.
Outra história bastante antologizável é "O juramento", de Humberto de Campos, sobre um homem que testemunhou a amada ser devorada por índios canibais.
Gastão Cruls, autor do importante romance A Amazônia misteriosa, aparece aqui com "G.C.P.A.", também uma narrativa hospitalar sobre um homem que padece de uma doença rara.
"Bugio moqueado" é o texto de Monteiro Lobato, um dos maiores clássicos do terror brasileiro, originalmente publicado na coletânea Negrinha (1920), com o relato sobre a técnica educativa de um homem muito mau.
Também vale comentar aqui o texto de Rodrigo Octavio, "Gongo Velho (Cousas de outro tempo)", uma história pungente de exploração e preconceito que, ainda que tenha sido publicada em 1932, tem forte apelo em nossos dias.
A antologia é muito equilibrada e demonstra o quanto o Decadentismo foi prolífico no Brasil. Sabemos que muitos desses autores não se negavam a avançar nos domínios do sobrenatural quando lhes convinha, como se pode perceber na leitura de antologias como Páginas de sombra (Casa da Palavra, 2003) e Contos macabros (Escrita Fina, 2010). Mesmo sem o componente metafísico, Contos de terror junta-se a elas para contribuir com o estudo da presença da ficção de horror na literatura brasileira. Sem esquecer que também é, por si mesma, uma leitura perturbadora e, porque não, divertida.
Cesar Silva

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Nova era, Chris Weitz

Mundo novo 3: Nova era (The revival), Chris Weitz. 216 páginas. Tradução de Álvaro Hattnher. Editora Companhia das Letras, Selo Seguinte. São Paulo, 2016.

Com este livro, originalmente publicado em 2016 nos EUA, chega ao fim a saga da tribo de adolescentes novaiorquinos que sobreviveu ao apocalipse depois que um vírus altamente agressivo dizimou toda a população adulta na América.
Nos volumes anteriores, Mundo novo (2014) e Nova ordem (2015), vimos como Jefferson, Donna, Petter, Crânio e seus amigos tentam, a todo custo, encontrar uma cura para a praga antes que todos cheguem a idade fatal. Para isso, abandonaram a segurança de sua aldeia protegida por barricadas e algumas armas, e lançaram-se numa jornada de esperança pela Nova York devastada e ocupada por adolescentes violentos, psicopatas, antropófagos, escravagistas e outros tipos igualmente perigosos. A cura foi enfim encontrada, mas ela era apenas o começo do verdadeiro problema que se desenrolava em outras partes do mundo. Na Europa e na Ásia, uma vacina foi produzida e os adultos sobreviveram, bem como toda a parafernália tecnológica a qual estamos acostumados. Mas o desaparecimento dos EUA no cenário mundial causou grandes mudanças no equilíbrio político do mundo e agora todos querem dominar o que sobrou de útil na América, o que significa "arsenal nuclear". A ideia dos governos estrangeiros, especialmente a Inglaterra, é esperar que todos morram na América para então agir com mais liberdade e segurança. Mas a cura de Jefferson os obriga a acelerar seus planos, ainda mais porque há grupos dissidentes que não querem que a nova ordem mundial seja construída sobre uma hegemonia britânica. Um desses grupos, conhecido como Reconstrução, se alia aos garotos na cruzada para salvar o que restou da América. Mas, enfim, as coisas não eram exatamente o que pareciam.
Neste terceiro e último volume, Jefferson e seus companheiros têm de lutar mais um pouco para salvar seus amigos. De volta a Nova York, o plano de Jefferson de unir as gangues em torno da cura fracassou. Traído pela Reconstrução, a "Bola de futebol" e o "Biscoito", os dispositivos de lançamento de mísseis nucleares encontrados no prédio da ONU onde haviam sido abandonados no auge da crise, acabam nas mãos da tribo de Uptown, um grupo belicoso e muito bem armado liderado por um psicopata chamado Evan. Caçado pelos garotos de Uptown, Jefferrson tem de fugir e encontrar algum apoio, e ele vem na pessoa de Donna que, finalmente, retorna à Nova York acompanhada de um comando militar britânico altamente equipado cuja missão é resgatar os dois equipamentos que estão com Evan. A chama do amor entre Jeff e Donna foi severamente afetada pelos eventos do volume anterior. Ainda há uma fagulha, mas nada pode prosperar enquanto o mundo estiver a beira do desastre nuclear total. Contudo, não é uma opção permitir que os dispositivos caiam nas mãos dos britânicos, nem os russos ou dos chineses, que também enviaram tropas para a ilha com o mesmo fim. A esperança repousa na tribo do Harlen, que Jefferson traiu no passado, e o reencontro entre eles pode ser imprevisível.
Weitz, que tem experiência como roteirista e diretor de cinema, desenvolve sua trama através de depoimentos e registros pessoais de personagens-chaves, de modo que, apesar na narrativa ser linear, o leitor obtém uma visão tridimensional do ambiente e das relações entre os diversos núcleos narrativos. O autor tem grande habilidade em modular as vozes dos personagens, mas a produção gráfica ajuda dando a cada um deles uma tipografia diferente, que combina com sua psicologia. E Weitz fez questão de dar personalidade variada a eles, adotando uma linha inclusiva que privilegia minorias e as trata com dignidade. Por exemplo, Petter, que é negro e homossexual, finalmente ganha neste volume seu próprio núcleo narrativo.
Também percebe-se que Weitz se esforçou por atualizar o ambiente, referindo-se a fatos e personalidades mais recentes, como Donald Trump, o Estado Islâmico, por exemplo, que não chegaram a ser citados nos volumes anteriores. Para uma leitura atual, por certo que tais citações acrescentam realismo, mas são elementos datados que podem envelhecer com o passar dos anos.
Apesar de toda a violência, Nova era é um livro para leitores jovens, de leitura fácil e sem grandes complexidades filosóficas, a não ser nas entrelinhas, pois o ambiente permite insights mais sofisticados aqui e ali.
Em toda grande história, vale mais a jornada do que a chegada, e não é diferente com a trilogia de Chris Weitz. Se é preciso um final, então que seja. Por mim, eu estaria muito disposto a seguir acompanhando as desventuras de Jeff e os sobreviventes de sua tribo nesse mundo desfigurado pela peste. Quem sabe, talvez não tenha sido mesmo o The end definitivo.
Cesar Silva

sábado, 2 de fevereiro de 2019

O Mundo Perdido


O Mundo Perdido (The Lost World), Arthur Conan Doyle. Capa de Antonio Jeremias. Tradução de Luiz Horácio da Matta. 238 páginas. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, Coleção Mundos da Ficção Científica, no. 28. Original de 1912 e edição brasileira de 1982.

Mais conhecido e aclamado pelos contos e romances em torno do personagem Sherlock Holmes é certamente uma injustiça que os demais textos de Arthur Conan Doyle (1859-1930) tenham sido relegados a um segundo plano. Resultado de uma crítica elitista, pois podemos afirmar que pelo menos um de seus romances sempre foi muito popular e influente, O Mundo Perdido (The Lost World).
Esta aceitação foi imediata quando em 1912 a história foi publicada em partes na revista britânica Strand Magazine, e logo a seguir como livro próprio. O autor tinha plena ciência do perfil dos seus leitores, pois afirma antes de iniciá-la: “Terei realizado meu plano simples se der uma hora de prazer ao menino que é meio homem ou ao homem que é meio menino.” Sem nenhum demérito foi um livro escrito para entreter, em alto nível de aventura e especulação, a imaginação de leitores comuns, e não críticos e literatos nem sempre tão abertos a uma narrativa que prioriza a ação e o suspense. Mas Conan Doyle não produziu apenas bom entretenimento – o que já não seria pouco – mas um bom romance que equilibra de forma admirável rigor científico e a sensação do maravilhoso. Passa uma sensação de que ser cientista é uma das atividades humanas mais excitantes, misturando pesquisa com aventuras por terras incógnitas, onde a descoberta traz, além da satisfação pessoal e contribuição ao conhecimento, um prestígio que poucas profissões são capazes de oferecer.
O Mundo Perdido foi escrito no início do século XX período no qual o tema de mundos e civilizações perdidas estava na ordem do dia. Na verdade um pouco mais de tempo, já que, pelo menos, desde a segunda metade do século XIX a literatura popular havia produzido algumas histórias marcantes. Exemplos, entre outros, Viagem ao Centro da Terra (Voyage au Centre de la Terre, 1864) de Julio Verne (1828-1905), O Povo da Névoa (The People of the Mist, 1884), de H. Rider Haggard (1856-1925), A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau, 1896), de H.G. Wells (1866-1946), Tarzan, o Filho das Selvas (Tarzan fo the Apes, 1912), de Edgar Rice Burroughs (1875-1950), e os brasileiros A Amazônia Misteriosa (1925), de Gastão Cruls (1988-1959), e República 3000 (1930), de Menotti del Picchia (1892-1988), dois clássicos da nossa FC que nada ficam a dever às histórias estrangeiras. Todas tratam, em linhas gerais, de povos e mundos perdidos, esquecidos mas que, surpreendentemente, são redescobertos, com efeitos espantosos para os personagens e, principalmente, os leitores.
A contribuição específica de Conan Doyle para o que se tornou mesmo um subgênero da ficção científica é o achado de um platô escondido na selva amazônica que revela que os dinossauros não foram extintos por completo. A elevação, inspirada no Monte Roraima, teria ficado isolada por milhões de anos, mantendo uma autonomia ecológica responsável pela sobrevivência dos dinossauros. Além disso, neste lugar insuspeito também convivem duas sociedades humanoides, uma mais próxima de ancestrais evolutivos humanos e outra plenamente humana, indígena. Talvez um leitor mais exigente possa torcer o nariz, e mesmo na época já se sabia que os humanos nunca haviam convivido com animais do período jurássico. De qualquer modo, na história os personagens especulam que os mamíferos humanoides vieram de fora deste mundo perdido, indo lá habitar com os saurópodes e terópodes de eras imemoriais.
O enredo acompanha a expedição liderada pelo professor George Challenger. Depois de uma primeira missão à Amazônia ele volta à Londres, mas sem ter provas concretas do que encontrou, é ridicularizado pela comunidade científica. Desafiado num congresso acadêmico, Challenger propõe uma nova expedição, que teria como participante o professor Summerlee, seu grande detrator. A eles se juntam o aventureiro Lorde John Roxton, e o jornalista Ed Malone. Assim, eles partem em direção à selva amazônica.
O personagem principal é o professor Challenger, mas o condutor da narrativa é Ed Malone, pois a história é contada em primeira pessoa por ele, relatando os acontecimentos em missivas enviadas ao Dayle Gazette, o jornal em que trabalha. Chama a atenção de que a expedição procura confirmar o que já foi descoberto. Ou seja, não há um suspense sobre o que poderá vir. Mas sim da extensão do que virá pela frente. Isso me soou meio estranho e com certa expectativa desfeita sobre o potencial da aventura. Mas a forma como Conan Doyle a narra evitou plenamente algum sentimento de decepção. O texto é repleto de situações de perigo e desafio para os expedicionários, que têm suas vidas colocadas em risco quase que a cada página. Muito estimulante também é a força descritiva da selva amazônica em si, os rios enormes e caudalosos, a floresta fechada, os animais que a todo o momento surgem. Mesmo com algumas imprecisões geográficas perfeitamente compreensíveis, está quase na plenitude a exposição de uma selva indomável, misteriosa e cheia de surpresas. Tal como é a maior floresta da Terra e tudo aquilo que ela sempre suscitou na curiosidade científica ou na especulação artística ou crença sobrenatural.
Após chegaram ao platô nossos heróis são sabotados por um dos membros da equipe de apoio que corta a ponte que ligava o penhasco ao platô. Uma vingança contra Lorde Roxton que teria matado seu irmão numa expedição anterior. Agora eles estavam sem ter como descer, com poucas provisões e à mercê de descobertas ao mesmo tempo incríveis e arriscadas. O único apoio que passaram a ter foi a presença de Zambo, um dos empregados que ficou na superfície.
Mas é quando ficam efetivamente isolados que eles descobrem o tal mundo perdido: plantas exóticas, pequenos animais nunca vistos e o mais espantoso: espécies de répteis que deveriam estar extintos há dezenas de milhões de anos. Estegossauros, pterodáptilos, plessiossaurus e os terópodes carnívoros. Curiosamente, o Tiranossaurus Rex não é nomeado, mas supõe-se que se refira a ele, tal o seu tamanho e agressividade.
O romance se situa também no espírito do seu tempo com relação à posição do homem branco ocidental com os outros da selva amazônica, os negros e os mestiços. Sem surpresa os ingleses são mostrados como mais civilizados e inteligentes, superiores aos povos que os servem, retratados em mais de uma ocasião como inferiores e devotados à servir os súditos da rainha. Mas não há um racismo explícito, apenas a constatação de como o povo europeu, inglês em especial, se sentia e relacionava com culturas e comunidades ao redor de um mundo que, em boa parte, havia sido invadido por ele.
Podemos afirmar que a era da ficção científica espacial teve início a partir dos anos 1930, se desenvolvendo plenamente a partir da Golden Age dos anos 1940, estabelecendo mesmo um futuro de consenso, de que a nova e última fronteira estava no espaço sideral. Como apontado acima, a época em que O Mundo Perdido foi escrito o limite do desconhecido a ser desbravado ainda estava situado em nosso próprio planeta. Havia mesmo uma crença popular, embora não levada muito a sério pela comunidade científica, de que em regiões ainda inexploradas do planeta pudesse haver espécimes que sobreviveram às transformações geológicas e biológicas. Além disso, indo um pouco mais longe na imaginação, com a chance de haver alguma civilização perdida, apartada da história convencional. Tais histórias se filiam numa corrente da FC conhecida como romance planetário, embora possamos encontrar histórias deste tipo também situadas em outros planetas. Neste contexto, como já dito, O Mundo Perdido foi publicado, mas embora não tenha sido uma obra pioneira, mantém-se como uma das mais influentes para o gênero e a cultura popular ainda hoje.
Prova disso é que já em 1925 foi produzida a primeira versão para o cinema, ainda mudo. Irwin Allen (1916-1991) produziria o filme mais conhecido em 1960, estrelado por Claude Rains (1889-1967), Michael Rennie (1909-1971) e David Hedison, mais conhecido como o Capitão Lee Crane da série Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea, 1964-1968). No Reino Unido ocorreram duas dramatizações radiofônicas, em 1938 e 1944 e, mais recentemente, entre 1999 e 2002 foi ao ar pela TNT uma série de TV, com três temporadas. Antes disso Land of the Lost foi produzida pela NBC, entre 1974 e 1976. Chamada no Brasil de Elo Perdido foi livremente inspirada na obra de Conan Doyle e muito exibida no país, durante os anos 1980 e 1990. Aqui as aventuras na Amazônia de outra era são vividas por um pai, seus filhos e um cachorro.
Em termos editoriais O Mundo Perdido tem recebido diversas edições em língua portuguesa. A primeira brasileira saiu pela Cia. Editora Nacional, em 1958 e a mais recente em 2018, num volume caprichado da Editora Todavia. Afora estas duas, mais a edição da Francisco Alves Editora em que me baseei para escrever esta resenha – aliás,  com a mais bela capa de todas as que pude ver em pesquisa na internet –, mais quatro saíram no Brasil. Sete no total, portanto. Por sinal o mesmo número de edições vistas em Portugal, a mais recente pela Publicações Europa-América, em 2003. São, simplesmente, 14 edições diferentes da mesma obra!
Já conhecia O Mundo Perdido através do filme de Irwin Allen, que vi diversas vezes numa época em que a “Sessão da Tarde” da Rede Globo exibia várias produções de FC. Talvez por isso, resisti em ler o livro, pois achava que como já conhecia a história não haveria grandes atrativos. Como quase sempre acontece com bons livros, felizmente me equivoquei, pois o romance de Arthur Conan Doyle é muito mais interessante, por apresentar personagens críveis e carismáticos, uma descrição competente da floresta e do mundo perdido, além do equilíbrio virtuoso entre o conhecimento da época e uma especulação destemida, como a que deve ser realizada pela melhor ficção científica.

– Marcello Simão Branco