sábado, 20 de outubro de 2018

O essencial de 2016 - Autores brasileiros

Apesar da crise, 2016 foi um ano favorável para a ficção especulativa brasileira. Não na quantidade, que está em queda livre, mas pelo menos a qualidade do material publicado tem se sustentado, o que aumenta o desempenho médio da produção nacional.  Também observamos o esboço de um núcleo semi-profissionalizado no segmento, com a presença recorrente de determinados autores com novos livros nas livrarias, o surgimento de periódicos sérios, inclusive de natureza acadêmica. Ainda que não necessariamente proveitosos do ponto de vista financeiro,  é importante a conquista desses espaços, que acenam com um futuro alvissareiro a longo prazo, especialmente quando esta crise passar – e ela vai passar.
No que se refere a ficção nacional, os romances ocupam a linha de frente, com treze títulos inéditos e uma republicação importante. Como tem sido a tendência, o gênero da fantasia continua a ser o mais praticado e no qual os autores parecem se sentir mais a vontade. Dois contumazes best-sellers aparecem aqui, ambos pela Editora Rocco: André Vianco, com Dartana, pelo selo Fábrica 231, uma história dark fantasy no ambiente medieval, e Carolina Munhóz, com Por um toque de sorte, segundo volume da série Trindade Leprechaum, pelo selo Fantástica, uma história contemporânea que, assim como Vianco, se desenvolve em torno de mitologias europeias.
Flávia Muniz também é uma autora que podemos classificar como best-seller. Embora seu nome não seja tão lembrado quanto os dois autores acima citados, Flávia está em ação desde os anos 1980 e seu livro Os noturnos é muito bem sucedido comercialmente. A autora publicou em 2016 o romance O manto escarlate, pela editora SESI-SP, que também envereda pela dark fantasy medieval.
Entre os estreantes, há três ótimos destaques. Santiago Santos, autor do saite de microcontos Flash Fiction, publicou seu primeiro romance, Na eternidade sempre é domingo, pela editora Carlini & Cantato, romance fix-up formado por várias narrativas independentes em forma de relato de viagem pelos Andes boliviano e peruano.
Alex Mandarino publicou O caminho do Louco, primeira parte da série Guerras do Tarot, pela editora Avec, ágil aventura de fantasia urbana com toques de mistério. E Caio Alexandre Bezarrias, com Shimandur: A cidade da chuva, pela editora Devir Livraria, fantasia passada na metrópole paulistana assolada por uma chuva interminável.
Antes de passar adiante, convém destacar aqui um livro de estremo valor, que precisa estar nesta relação, apesar de ter autor, em tese, estrangeiro. Trata-se do texano Christopher Kastensmidt, americano radicado no Brasil que aqui tem desenvolvido sua carreira como escritor, privilegiando uma ficção de caráter brasilianista que poucos autores nacionais ombreiam. Depois de publicar vários contos em antologias, Kastensmidt lanço em 2016, pela Devir Livraria, o romance fix-up de fantasia A Bandeira do Elefante e da Arara, que compila todos os dez contos do ciclo das aventuras de Gerard e Oludara, um holandês e outro africano, enfrentando seres mitológicos ao longo de uma ampla peregrinação pelo território do Brasil colonial.
A ficção científica tem se recuperado nos últimos anos, depois de um período de estagnação em que pouco se publicou no gênero. Os representantes de 2016 também são pesos pesados do segmento: Alexey Dodsworth, que em 2015 foi reconhecido pelos fãs com o prêmio Argos, lançou O esplendor, pela editora Draco, história cósmica sobre um planeta de luz eterna que é agitado quando surge um menino que pode dormir e sonhar.
Mustafá Ali Kanso, que é também um nome reconhecido no fandom, publicou O mesmo Sol que rompe os céus, pela editora Fragmentos, com uma história sobre o encontro de dois personagens com experiências bizarras.
Luiz Brás – reconhecido em alguns círculos como o multipremiado Nelson de Oliveira – tem mantido uma forte produção de fc&f nos últimos anos e, em 2016, apresentou aos leitores Não chore, pela editora Patuá, uma ficção anarquista que discute o sistema prisional. Pela mesma editora, Oliveira republicou o esgotado Subsolo infinito, originalmente publicado em 2000, uma perturbadora fantasia urbana sobre a identidade.
O horror é um ambiente razoavelmente assentado no mercado, sempre com uma produção equilibrada e estável. Rosana Rios é uma dama da literatura especulativa nacional, com dezenas de títulos publicados ao longo de sua produtiva carreira iniciada em 1988. Em 2016, lançou Olhos de lobo, pela editora Farol Literário, com uma história que mistura licantropia e nazistas no Rio Grande do Sul.
Pedro Cesarino, reconhecido pesquisador acadêmico da cultura dos povos nativos, vencedor do Jabuti com sua tese de doutorado Oniska: Poética do xamanismo da Amazônia, estreou em 2016 na ficção com Rio acima, pela editora Companhia das Letras, que aproveita sua experiência no tema para contar uma história de terror nas selvas do Xingu, na linha Coração das trevas, de Joseph Conrad.
Também a Companhia das Letras publicou Jantar secreto, de Raphael Montes, uma história de terror urbano deste autor que tem sido muito comentado nos últimos anos por sua ficção de aspectos sombrios.
Coletâneas e antologias representam um papel importante no ambiente da fc&f nacional. Como há poucas revistas publicando ficção, esse modelo editorial, que reúne num mesmo livro textos curtos de diversos autores e estilos, tem sido a sustentação do exercício criativo e revelado muitos autores de qualidade, sem esquecer que é na ficção curta que os autores brasileiros geralmente têm os melhores resultados.
Como em quase tudo, 2016 testemunhou uma forte queda no número de antologias e coletâneas publicadas no país, mas ainda assim é preciso reconhecer o esforço dos editores em investir no formato.
Entre as coletâneas – livros que reúnem textos de um único autor –, o destaque vai para O teorema das letras, título póstumo de André Carneiro (1922-2014), o mais bem sucedido autor brasileiro de ficção científica, que traz cinco contos inéditos que representam a intensa criatividade de Carneiro, mesmo no fim da vida.
No gênero do horror, o ótimo Carlos Orsi apresentou Mistérios do mal, pela editora Draco, que traz contos que unem mitologias e cosmologias típicas da weird fiction, amalgamadas a cenários e personagens brasileiros, como é característico em sua obra.
Também é no horror sobrenatural que se apresenta o escritor gaúcho Duda Falcão, com a coletânea Treze, pela editora Avec (publicada com data de 2015), não por acaso com treze contos ao estilo pulp fiction, com muito sangue, monstros, bruxas e demônios.
Entre as antologias – livros que publicam trabalhos de autores diferentes – os destaques da fantasia são Estranha Bahia, organizada Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares para a editora EX!, com sete contos cujo fio condutor é, como já diz o título, o estado da Bahia.
E também Medieval: Contos de uma era fantástica, organizada por Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse para a editora Draco, com nove textos de autores bem avaliados, todos obviamente num cenário medieval, uma espécie de segundo volume a antologia Excalibur, dos mesmos organizadores e editora, publicada em 2013.
A antologia essencial na ficção científica em 2016 é Dinossauros, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro para a editora Draco, um tema recorrente em antologias nacionais e estrangeiras, mas que traz 16 histórias inéditas de autores experientes e conhecidos no fandom.
Fechando esta seleção, a antologia Contos de terror, organizada por Camilo Prado para a editora Nephelibata, com 15 textos curtos, quase todos em domínio público, numa seleta de histórias tenebrosas de viés realista, por autores clássicos da literatura brasileira que pode surpreender os leitores menos avisados, num modelo que tem recebido razoável atenção dos antologistas nos últimos anos.
Cesar Silva

domingo, 14 de outubro de 2018

Drácula (Dracula, EUA, 1931)



Em 1897, o escritor irlandês Bram Stoker presenteou o mundo com seu livro de horror gótico “Drácula”, que conta a história do famoso conde vampiro que deixa seu castelo na Transilvânia (Romênia) e vai para a Inglaterra, onde compra alguns imóveis e se alimenta do sangue de suas vítimas.
Em 1931, os fãs do cinema de horror e vampirismo são novamente presenteados com o clássico “Drácula”, produção com fotografia em preto e branco, direção de Tod Browning, o mesmo de “Monstros” (Freaks, 1932), e com o ator húngaro Bela Lugosi encarnando magistralmente o conde vampiro.
O advogado Reinfield (Dwight Frye) está a caminho da Transilvânia com o objetivo de entregar para o Conde Drácula em seu castelo no alto de uma montanha, alguns documentos referentes à locação de uma velha abadia em Londres. Quando chega ao vilarejo próximo do castelo, ele é alertado pelos aldeões supersticiosos que é “Noite de Walpurgis”, e que os vampiros saem de seis caixões para se transformar em lobos e morcegos, vagando à noite em busca de sangue dos vivos.
Desconsiderando os avisos, ele é levado até o castelo numa carruagem conduzida por um cocheiro sinistro. Ao entrar na imponente construção de pedra, se depara com aposentos enormes repletos de poeira e teias de aranhas, numa atmosfera sinistra de gelar a alma. Depois, é recepcionado pelo misterioso anfitrião Conde Drácula e acertam os detalhes burocráticos do aluguel da abadia inglesa.
Depois de transformar Reinfield em seu servo através de controle hipnótico, tornando-o um louco comedor de moscas e aranhas, eles vão para Londres num navio que chega ao destino com seus tripulantes misteriosamente mortos. Ao se apossar da abadia de Carfax, que fica ao lado de um sanatório dirigido pelo Dr. Seward (Herbert Bunston), o conde vampiro instaura o horror alimentando-se do sangue de suas vítimas. Ele também conhece os novos vizinhos, as belas jovens Lucy (Frances Dade) e Mina (Helen Chandler), além de John Harker (David Manners) e o temível Prof. Van Helsing (Edward Van Sloan), que se tornaria seu inimigo mortal.
A versão americana de 1931 para “Drácula” é curta, com apenas 75 minutos de duração. Tem produção com orçamento reduzido e as características daqueles primeiros filmes sonoros que foram concebidos naquela distante época, com interpretações exageradamente teatrais do elenco, num ritmo narrativo lento e com efeitos toscos na criação dos morcegos. Porém, a história cativante do conde vampiro assustou de forma decisiva as plateias do período e marcou para sempre o cinema de horror gótico, popularizando o mito do vampirismo em uma infinidade de filmes posteriores.
O roteiro apresentou com respeito algumas das características tradicionais dos vampiros e que se tornariam eternizadas no imaginário popular, como o fato deles não terem reflexo em espelhos, não tolerarem símbolos religiosos como crucifixos, não gostarem de sol, não suportarem uma erva conhecida como acônito, dormirem em caixões com terra de seu local de origem, e serem criaturas imortais, porém que poderiam ser destruídos com uma estaca de madeira cravada no coração.
O filme é altamente recomendado para os apreciadores do vampirismo e do cinema gótico de horror, seja pela atmosfera sombria do castelo na Transilvânia ou da abadia abandonada em Londres, e pela interpretação convincente de Bela Lugosi, tornando o Conde Drácula um vilão ameaçador, povoando os pesadelos dos espectadores da época e registrando para sempre seu nome na galeria de astros do Horror. Ele é reconhecido como o principal Drácula do cinema, ao lado do ícone Christopher Lee, que fez o vampiro em vários filmes da cultuada produtora inglesa “Hammer”.
 
“Tem coisas bem piores à espera do Homem que a morte” – Conde Drácula
  
(Juvenatrix – 14/10/18)

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O Problema dos Três Corpos


O Problema dos Três Corpos (The Three-Body Problem, a partir de um original chinês), Cixin Liu. São Paulo: Suma de Letras, 2016, 316 páginas. Tradução de Leonardo Alves. Capa de Rodrigo Maroja.

Até alguns anos os fãs brasileiros de ficção científica suspiravam de angústia ao lembrar que vários bons romances do gênero vencedores dos principais prêmios – os norte-americanos Hugo e Nebula –, não eram publicados no país. Era quase sempre mais do mesmo: a publicação de uma nova obra de um autor tradicional ou alguma republicação.
Uma boa novidade mudou o cenário nos últimos anos quando as editoras brasileiras passaram a prestar atenção às obras mais recentes, e mesmo de autores pouco conhecidos, e lançá-los por aqui. Livros de FC como Quem Teme a Morte? (Who Fears Death), da afro-americana Nnedi Okorafor (Geração Editorial, 2014), finalista do Nebula 2010; A Cidade e a Cidade (The City & the City), de China Miéville (Boitempo, 2015), vencedor do Hugo 2010; A Guerra do Velho (Old Man´s War), de John Scalzi (Aleph, 2016), finalista do Hugo 2006.
Mas nem mesmo neste contexto a publicação de O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu, deixa de ser uma boa surpresa. Isso porque trata-se, muito provavelmente, da primeira obra da FC chinesa lançada no Brasil e, mais importante, representa a primeira vitória no Prêmio Hugo de Melhor Romance para uma obra não escrita em inglês e de um autor não-anglófono, em 2015. Isso não é pouco e demonstra, em boa medida, como o fenômeno da internacionalização da ficção científica se ampliou neste século XXI, embora o centro hegemônico ainda permaneça com os norte-americanos. Lembro ainda o ótimo O Cromossomo Calcutá (The Calcutta Chromosome, 1995), do indiano Amitav Ghosh (Editora Ática, 1998), que também foi pioneiro ao vencer o prestigioso prêmio britânico Arthur C. Clarke Award 1997. São obras como estas que ampliam a leitura e a perspectiva do gênero para além da cultura anglo-americana. Mas independentemente disso, o fato é que O Problema dos Três Corpos vale por si mesmo. É um livro maiúsculo de ficção científica, desde já entre as de maior relevo no tema das histórias de contatos com civilizações extraterrestres.
Primeiro volume da trilogia Remembrance of Earth’s Past, a narrativa começa durante os caóticos e sinistros anos da Revolução Cultural na China, um processo de reorganização social que se seguiu à implantação revolucionária do regime socialista no país, no final dos anos 1940. Foi um movimento violento de perseguição, humilhação e eliminação dos formalmente escolarizados antes do socialismo. O objetivo era estabelecer uma nova doutrinação ideológica, totalmente anti-burguesa. E todos que, mesmo que remotamente, cultivassem hábitos e opiniões burguesas deveriam ser combatidos.
Uma jovem vê seu pai, professor de Física de uma universidade, ser brutalmente assassinado em público durante uma das cerimônias de humilhação. Perseguida, ela recebe uma nova chance para trabalhar numa remota estação de monitoramento de satélites. Mas nunca mais recuperou o gosto de viver e a fé na humanidade. Por meio de sua atuação ao longo de décadas, o autor desenvolve o romance. E numa estrutura em camadas, em que se sobrepõem e se agregam mais informações, deixando o leitor sempre na expectativa de que determinada sequência tenha o seu desenlace. Assim, o autor deixa ganchos que vão sendo preenchidos ao longo da narração, situada entre o final dos anos 1960 até os dias atuais, já numa China ainda formalmente socialista, embora mais integrada ao capitalismo globalizado – e seus valores burgueses.
O mistério que ronda o tal problema dos três corpos começa a ser revelado através de um videogame online que simula a vida no planeta Trissolaris. Iluminado por três estrelas, ele sofre de enorme instabilidade geológica e climática, a ponto de levar ao colapso periodicamente as civilizações que emergem, até o próximo ressurgimento centenas (ou até milhares) de anos depois. Em si, é pouco crível que tal situação pudesse acontecer, que vida inteligente socialmente organizada e com desenvolvimento tecnológico pudesse vicejar, quanto mais várias vezes. Mas o problema dos três corpos é também um teorema não resolvido pela física clássica. Equações e cálculos não conseguem chegar a um modelo de interação e equilíbrio gravitacional entre três esferas. Ou seja, seria intrinsecamente instável e imprevisível devido à mútua influência da força gravitacional, se entendi bem o que é discutido no livro. A resolução deste enigma poderia ajudar os habitantes do mundo de Trissolaris a encontrarem alguma viabilidade em sua sucessão trágica de eras, ora chamadas de Estáveis, ora de Caóticas. Tudo a depender da presença de uma ou mais estrelas no céu do planeta ao mesmo tempo.
Como disse, tudo no livro é revelado paulatinamente, o que, depois de certo tempo, torna-se um pouco cansativo e anticlimático, pois apenas no terço final do livro é que sabemos que o tal jogo nada tem de lúdico, pois é uma representação da vida dos alienígenas que orbitam, simplesmente, o sistema trinário de Alfa-Centauri, a estrela mais próxima da Terra, situada a meros 4,3 anos-luz.
Jogo nada inocente, porque tem por objetivo recrutar os melhores jogadores para a causa de uma seita, a Organização Trissolaris, que estabeleceu contato, por meio de ondas de rádio, com os extraterrestres e anseia por sua chegada para intervir nos assuntos humanos – ou até mesmo, eventualmente, exterminar a raça humana.
E por onde andava a jovem vítima da Revolução Cultural? Ye Wenjie tem um papel chave, pois foi ela quem enviou a primeira mensagem e recebeu a resposta dos trissolarianos. Passa a ser uma das lideranças da seita que traiu a humanidade. Talvez o autor tenha exagerado um pouco ao imaginar uma organização que se insurge contra o restante de seus semelhantes, formada por fanáticos místicos e ambientais de variados matizes, verdadeiros sociopatas. Mas, por outro lado, quem sabe o que realmente aconteceria se tal descoberta fosse feita por pessoas com esta índole amarga e fanática?
Os trissolarianos organizam uma expedição gigantesca com naves de gerações, pois viajam a um milionésimo da velocidade da luz, para invadir e fazer da Terra o seu novo lar, um verdadeiro paraíso, em comparação ao inferno onde vivem. Mas depois de descobrirem que os governos da Terra desmascararam a seita e descobriram seu objetivo, chegam à conclusão de que os 450 anos que levarão para chegar ao seu destino permitirá aos terráqueos desenvolver-se tecnologicamente para repeli-los. Assim, lançam mão de um engenhoso estratagema baseado na física de partículas para travar o desenvolvimento científico da humanidade. A discussão do conceito é fascinante, mas um pouco difícil para um leigo acompanhar. Certamente deverá deleitar leitores com formação em física.
O romance apresenta uma boa contextualização histórica da China contemporânea importante para a história, mas ela é, principalmente, uma FC hard e das boas. Procura basear-se no conhecimento científico conhecido hoje, e isso dá mais plausibilidade à especulação de como seria o mundo alienígena e seus habitantes, chegando mesmo a impressionar pelo seu grau de detalhismo. Isso sem falar do que poderíamos chamar de uma perspectiva não-ocidental para uma aventura de FC, ao mostrar dois momentos diferentes da sociedade e da cultura chinesa. Soa até estranho imaginar que os chineses façam o eventual contato, tão acostumados que estamos a pensar que esta primazia pertencerá a alguma nação rica do Ocidente. Mas por que não?
E como alerta Cixin Liu em seu ótimo posfácio, não é sensato imaginar que eventuais civilizações extraterrenas sejam, necessariamente, pacíficas. Por que elas assim seriam, se nós mesmos nunca fomos com outras culturas e povos aqui da Terra, com tantos casos de genocídio e escravização? Apenas porque teriam atingido um estágio científico tecnológico superior ao chegarem às estrelas? É um equívoco primário associar desenvolvimento da técnica com valores éticos e morais. Até porque eles são relativos, de uma sociedade para outra. Quanto mais dirá de civilizações não humanas.
O Problema dos Três Corpos é o primeiro de uma celebrada trilogia campeã de vendas na China. (Imagine o que deve ser isso, no país mais populoso do mundo!) O segundo volume acaba de sair no país, também pela Suma de Letras: A Floresta Sombria (The Dark Forest, 2008). A trilogia deverá ser completada, assim esperamos, com Death’s End (2010). Para quem gostar do primeiro, será certamente uma leitura obrigatória.

– Marcello Simão Branco