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sábado, 4 de abril de 2020

Uma Força Medonha


Uma Força Medonha (That Hideous Strength), C.S. Lewis. Tradução de Waldéa Barcellos, 556 páginas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. Lançado originalmente em 1945.

Este é o livro de encerramento da Trilogia Cósmica, ou de Ransom, o mais longo dos três livros e, talvez, o mais controverso. Iniciada com Além do Planeta Silencioso (Out of the Silent Planet, 1938) – resenha aqui –, e continuada com Perelandra (Perelandra, 1943) – resenha aqui.
Uma Força Medonha recebeu o subtítulo “Um conto de fadas para adultos”, pois a possível intenção do autor era apresentar ao leitor adulto o romance mais sobrenatural (ou fantástico) da trilogia, embora fenômenos deste tipo também tenham sido vistos nos dois livros anteriores, além de abordar de uma forma mais explícita o conflito entre o bem e o mal.
Aqui, o linguista Ransom não atua como protagonista. Ganha a cena agora um jovem casal, Mark e Jane Sutddock, recém-casados e à procura de afirmação, profissional e sentimental. Mark é professor de Sociologia numa pequena universidade no interior da Inglaterra, e Jane anseia retomar seu doutorado, insatisfeita com a condição de dona de casa.
O enredo se desenvolve por meio das trajetórias paralelas dos dois, afastados um do outro pelo curso dos acontecimentos estranhos que ocorrem na cidade de Edgestown, mas, sobretudo, pela distância que existe entre os dois. Tanto que passarão quase o livro inteiro separados, e pouco incomodados com isso.
Mark, inseguro e carente por reconhecimento, adentra numa nova organização que se instala na cidade, o obscuro Instituto Nacional de Experimentos e Coordenações (Inec), uma sigla que, a rigor, não quer dizer nada. Mas a ideia é esta: não revelar suas reais intenções até poder se apossar de uma “força medonha”, daí o título do livro.
O Inec compra um terreno não usado pela universidade, e a partir disso vai assumindo o controle da própria cidade: derrubando árvores e alterando o curso do rio, desapropriando os moradores de suas casas, tudo de forma abrupta e violenta. Mark inicialmente não se importa com nada disso – e nem se sua esposa possa ser ameaçada –, pois quer apenas saber que funções terá nesta organização. Aliás, este personagem é irritante com sua atitude subserviente e omissa com as barbaridades, interessado apenas em si mesmo.
Jane, por sua vez, de repente passa a ter sonhos perturbadores, que alteram sua rotina. Como o de um homem preso e depois morto pela guilhotina, que surge vivo apenas com sua cabeça. Ao abrir o jornal no dia seguinte ela lê a notícia de um preso morto, com a cabeça separada do corpo. Sem saber o que fazer – consultar seu ocupado marido nem pensar – ela acaba encontrando casualmente uma amiga, também esposa de um professor da mesma universidade. Este a aconselha a procurar uma certa mulher que poderia ajudá-la. Mesmo contrariada Jane a procura, e esta lhe diz que não há nada de errado com sua saúde, mas que ela é uma vidente, e deve usar esse dom a favor da causa pela qual ela está por trás, num mosteiro situado nas cercanias de Edgestown.
A história alterna os capítulos, com as realizações e planos dos membros do Inec, e a resistência informal que se forma, com ambas as situações sendo mostradas do ponto de vista de Mark, de um lado, e Jane, de outro. Esse aspecto é interessante pois acompanhamos junto com os dois do que se trata afinal tudo isso, sem sabermos de antemão os objetivos de ambos os lados.
Mas Lewis concentra mais a narrativa no desenvolvimento do Inec, a instituição que altera o status quo e provoca a reação dos membros do mosteiro. Formado por velhos cientistas, nas áreas da Física, Química e Biologia, é um lugar sombrio e que oculta suas reais intenções até de vários de seus membros, embora todos compartilhem uma visão de mundo sectária e totalitária. Não é revelado como, mas o Inec tem conexões poderosas com políticos, banqueiros, jornalistas e militares e, com isso, com abertura para agir em nome de suas próprias leis, como se fosse um novo Estado no interior do Estado britânico. Se apodera dos principais jornais, opera uma força paramilitar – chamada eufemisticamente de polícia institucional –, que reprime, prende e tortura os cidadãos de Edgestown que oferecem alguma resistência a esta nova ordem.
Dentro deste contexto cabe a Mark escrever artigos mentirosos aos jornais de Londres, enaltecendo o Inec e depreciando os cidadãos que se opõem, rotulando-os de vândalos e bandidos. No interior do Inec são realizadas experiências “científicas” com animais e condenados pela Justiça, lá encaminhados às escondidas. Querem descobrir vacinas e criar vitaminas para tornar o ser humano mais saudável e inteligente. Neste projeto pobres, doentes e idosos deverão ser exterminados, um estorvo na direção de uma espécie mais “evoluída”. Aqui Lewis, de forma contundente, critica as ideologias racistas e eugenistas de um certo darwinismo social vigente em parte da intelectualidade ocidental entre o fim do século 19 até o tempo em que ele escreveu o livro. Ora, em graus variados viraram políticas públicas em vários Estados nacionais – inclusive no Brasil durante o século XIX –, mas se tornaram o terror desenfreado mostrado no livro especialmente em regimes totalitários, como o nazismo alemão.
Embora Mark faça vista grossa à forma violenta como o Inec funciona, começa a ficar contrariado, primeiro por se prestar ao papel indigno de escrever mentiras, depois ao saber o grau de barbaridades que estão sendo cometidas. Principalmente quando lhe é permitido conversar com o Cabeça. Sim, a cabeça guilhotinada do sonho de Jane está viva, através de conexões com um computador. E é neste aspecto que o romance pode ser mais diretamente relacionado com a ficção científica, além do contato com os chamados macróbios, seres não claramente identificados como alienígenas ou sobrenaturais que, supostamente, orientariam os membros do Inec, para que a humanidade chegasse à condição de uma “realidade superior”. Mas não fica claro se realmente estes seres existem, ou não passa da imaginação delirante de cientistas loucos.
Já em torno do mosteiro se reúnem pessoas com diferentes habilidades, sendo que a de Jane é central pois ela pode vir a antecipar futuros movimentos do Inec. O que as une é a fé cristã, a resistência a uma ‘força medonha’ que quer se apossar definitivamente da Terra (Thulcandra), já corrompida pelo mal e pecado. Nesta missão, quem os aproxima é Ransom, nesta história uma figura quase não humana, um espírito evoluído, mas ainda encarnado, que terá sua última tarefa para tentar salvar a humanidade.
Ora, neste terceiro livro torna-se mais claro o confronto ensaiado nas aventuras vividas em Marte (Malacandra) e Vênus (Perelandra). Mas o que incomoda é esta vinculação da ciência com uma visão niilista e desumana, configurados num regime de terror. Se Lewis critica corretamente a doutrina racista e eugenista de parte da mentalidade da época, exagera ao mostrar uma organização poderosa formada por cientistas com carta branca para realizar todas estas atrocidades, como se o próprio desenvolvimento científico estivesse relacionado com uma visão de mundo deste tipo. Não há o devido contraponto de cientistas e intelectuais que se oponham ao Inec. Onde estão os acadêmicos das universidades de Oxford e Cambridge, as duas maiores do Reino Unido e das mais prestigiadas do mundo?
Dá a impressão que estamos diante de uma polarização entre uma ciência utilitarista e anti-civilizatória, contra os religiosos – e só cristãos –, e estes que tem por missão salvar o mundo, e os valores do amor, solidariedade e moralidade. Ora, mas o que o mundo mostra, primeiro no Renascimento e sobretudo com o Iluminismo é que os valores da individualidade e da razão se opuseram aos valores da submissão e do sobrenatural, configurados pela associação do cristianismo com o poder político. Lewis veria como corrompido o mundo pós-iluminista por separar a esfera de ação humana do julgo religioso? Veria a economia de mercado e o conhecimento científico como males da modernidade? Não fica claro se ele radicaliza a este ponto, e creio que não, mas da maneira como apresenta fica uma sensação incômoda de anti-modernidade, de defesa de um certo romantismo a um mundo regressivo que não existe mais.
No plano narrativo ocorrerá o óbvio confronto, mas surpreende que a figura responsável pelo desfecho será o mitológico mago Merlin. Sim, ele mesmo, revivido não se explica como depois de séculos enterrado no terreno da faculdade, por isso comprado pelo Inec. Os dois lados lutam para reviver Merlin primeiro, para trazê-lo para o seu lado e ter mais chances de vitória. Outra surpresa é a quase ausência dos seres espirituais dos romances anteriores, os eldila, que atuam de forma muito tênue, através da liderança de Ransom.
Uma Força Medonha é o mais denso e ideológico dos três livros, e aquele que mais depende dos outros para ser melhor compreendido. Já havia sido publicado em Portugal em 1991 pela coleção FC Europa-América, nos. 185 e 186, como Aquela Força Medonha, e só apareceu uma tradução no Brasil com esta edição da Martins Fontes, cerca de vinte anos depois – mais recentemente foi publicada uma nova edição pela Editora Thomas Nelson Brasil, como Aquela Fortaleza Medonha, em 2019.
Apesar de tomar partido de uma visão anti-moderna, embora não necessariamente medievalista, o romance é forte e se mantém, principalmente, por sua estrutura narrativa bem organizada, a presença de personagens densos e complexos, que acabam por justificar a leitura e a conclusão da trilogia.

Marcello Simão Branco

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Trilogia da Fundação

Fundação (238 páginas), Fundação e Império (244 páginas) e Segunda Fundação (235 páginas), de Isaac Asimov. Tradução de Fábio Fernandes e Marcelo Barbão, capa e ilustrações de Delfin. Editora Aleph, São Paulo, 2009.

Como parte de sua proposta de relançar clássicos da ficção científica, a editora Aleph começou bem com Isaac Asimov em 2009, ao tornar disponível novamente nas livrarias os três volumes da Trilogia da Fundação. É a obra mais volumosa de Isaac Asimov (1920-1992) e uma das mais populares da história da ficção científica.
Isaac Asimov (1920-1992) é um dos principais autores da chamada Golden Age da ficção científica norte-americana, vivida basicamente nas páginas das pulp magazines, de meados dos anos 30 até o final dos anos 40. Uma plêiade de autores hoje considerados clássicos no modelo ainda hoje mais conhecido do gênero – com aventuras espaciais e abordagem hard (das ciências naturais) –, surgiu neste período como, por exemplo, Robert A. Heinlein (1907-1988) e A.E. van Vogt (1912-2000).



O romance em três volumes chamado Trilogia da Fundação é, na verdade, composto de cinco noveletas e quatro novelas publicadas entre 1942 e 1949 na mais influente revista da época, a Astounding Science Fiction, editada por John W. Campbell, Jr., o maior responsável por esta nova geração de autores. Apenas nos anos 50 é que as histórias foram reunidas em três volumes: Foundation (1951), Foundation and Empire (1952) e Second Foundation (1953). A publicação em formato de livro valorizou a obra e a popularizou ainda mais, para além do círculo dos fiéis apaixonados pelo gênero.
A popularidade da obra é indiscutível, como atesta estes dois exemplos. Em primeiro lugar, recebeu o Prêmio Hugo Especial de 1966, como “a melhor série de todos os tempos”, uma distinção única, criada à parte no mais importante prêmio do gênero. Em segundo aqui no Brasil, no restrito ambiente do fandom, foi escolhido por duas vezes, o “melhor romance de ficção científica de todos os tempos”, em votações dos leitores do fanzine Megalon, em 1991 e 1998. Mais recentemente, em 2013,  a revista norte-americana Locus – The Magazine of the Science Fiction and Fantasy realizou uma ampla pesquisa com seus leitores, que a considerou como o terceiro melhor romance de ficção científica do século XX.
A história é uma grande saga de dimensões épicas que procura mostrar a expansão humana por toda a Via Láctea. Neste universo não existem alienígenas e nos espalhamos por toda a galáxia construindo um gigantesco império formado por milhares de planetas, todos controlados pelo centro político, a capital Trantor. Se você pensou no Império Romano está correto pois a inspiração é assumida pelo próprio autor. Mas ele foi além ao apresentar como este poderoso império – a exemplo do romano – semeia em seu próprio esplendor as contradições internas que o levam à decadência e violenta dissolução, num retorno à “barbárie”.
Hari Seldon, um brilhante cientista, cria a ciência da psico-história como um antídoto para reduzir os efeitos catastróficos da queda do império, prevista por ele para acontecer em alguns séculos. É acusado de conspirador, mas seu plano é aceito e posto em prática. São estabelecidas duas colônias de cientistas nos extremos do império – as fundações – de motivações distintas, para preservar a sabedoria e a cultura, e continuar desenvolvendo a ciência e a tecnologia mesmo em tempos de barbárie. Para Seldon não será possível impedir a queda, pois o processo já estaria adiantado, mas permitir o ressurgimento em apenas mil anos de um novo e revigorado império galáctico.
A psico-história é uma ciência que lida com os fenômenos sociais de um ponto de vista coletivo, adotando, princípios filosóficos de indução e as ferramentas da estatística. Pode soar pouco crível, mas bebe na fonte das teorias dos jogos, que começaram a ganhar ímpeto nos anos 1940 e tem servido como um suporte metodológico importante para as ciências sociais desde então, em especial para a economia.


As diversas aventuras situadas nos três volumes mostram as turbulências entre o fim do império e o surgimento de vários pequenos estados despóticos, assim como o desenvolvimento das duas fundações, que tem por objetivo restaurar a glória perdida.  Contudo, aparece uma situação não planejada pelas equações da psico-história, um poderoso mutante com poderes mentais chamado O Mulo, que ambiciona assumir o controle da galáxia.
 Se é verdade que estamos diante de uma clássica história ao estilo space opera – colonização espacial, futuro de consenso, grandes períodos de tempo, ritmo de aventura e personagens pouco densos, em sua maioria – percebe-se o quão complexa é a trama e as várias nuances que surgem ao longo dos três romances. Chama a atenção que a ênfase do enredo esteja no processo histórico e nas mudanças na sociedade, ou seja, discute-se as relações humanas numa aventura de space opera, que é mais afeita também à exploração de grandes engenhos tecnológicos. Em Fundação eles apenas fazem parte do pano de fundo, aceitos como integrantes da civilização. Deste modo, Asimov descola a ênfase das ciências naturais para as sociais, utilizando, contudo, o uso de uma nova ciência que alia História e Matemática.
Há quem veja também em Fundação os efeitos do contexto político em que a história foi criada, pois estávamos em plena Segunda Guerra Mundial. Talvez Asimov especulasse sobre o destino do modo de vida dominante à época, primeiramente desafiado pelo colapso da balança de poder entre as potências europeias (na Primeira Guerra Mundial) e anos depois por um regime totalitário que a todos queria subjulgar. Assim, talvez as duas fundações pudessem representar as democracias e seus valores civilizatórios em perigo.
Já para a figura de Seldon e seus colaboradores seria possível estabelecer um paralelo com a idéia de Platão, de sábios a conduzir o destino da sociedade, em que a ciência teria as melhores soluções para os conflitos inerentes da natureza humana. Aqui poderíamos compreender as implicações da história de um ponto de vista mais autoritário.
Seja qual interpretação for mais relevante – ou outras, a depender da interpretação de cada um –, o fato é que a Trilogia da Fundação é uma obra significativa, pois vai além do tradicional das histórias de exploração do espaço que, procuravam mostrar muito da visão anglo-americana de como se constituir a melhor forma de sociedade. Em Fundação tais alicerces são construídos para depois serem questionados, a partir de desafios políticos e surpresas do destino.
Durante os anos 1980 esta obra foi publicada pela editora Hemus, de São Paulo, em um único volume. A edição era modesta, mas simpática e, melhor, econômica. O relançamento ocorre em três volumes separados, o que encarece a compra. Ainda mais porque a edição é bem produzida, com uma tradução melhor do que a anterior, ainda que as ilustrações de capa destoem do espírito da obra. Quem tem a edição da Hemus deve preservá-la já que ela é única também com relação ao conteúdo, pois é a tradução da obra original escrita nos anos 1940. Já a da Aleph contempla uma revisão realizada por Asimov em meados dos anos 1980 para padronizá-la em relação ao conjunto de suas obras de ficção científica, já que ele passou a escrever outras aventuras dentro deste universo. Seja por qual edição for, o excitamento pelo entretenimento inteligente ou por debates políticos-filosóficos subjacentes, garante uma leitura rica e ilustrativa da própria evolução do gênero no século XX.

– Marcello Simão Branco