sábado, 27 de maio de 2017

Kurt Vonnegut, Jr. (1922-2007)

Escritor americano faleceu aos 84 anos no dia 10 de abril de 2007 em conseqüência de lesões cerebrais provocadas por uma queda em sua residência, semanas antes. É um dos mais prestigiados e controversos autores de sua geração, influente em temas como sátira política e comportamental, boa dose de humor negro e, claro, ficção científica. Dizia que não pertencia ao gênero enquanto tal usava-o como uma ferramenta metafórica para criticar os homens e a sociedade de sua época, mas também entre os especialistas do gênero, Vonnegut é celebrado por sua inteligência e descompromisso com qualquer padrão, uma alma iconoclasta, antes de qualquer outra coisa. Nascido em Indianápolis (Indiana) em 1922, estudou química na Universidade de Cornell, antes de se alistar no Exército para a Segunda Guerra Mundial. Foi feito prisioneiro dos alemães e um dos poucos sobreviventes do bombardeio de Dresden, o pior realizado na Europa, em 1945. 
Depois da guerra trabalhou como jornalista em vários lugares até começar a escrever e publicar. Seu primeiro romance é Player piano (Revolução no futuro), de 1951. Logo depois, vieram Sirens of Titan (As sereias de Titã), de 1959, seu primeiro livro publicado no Brasil, pelo editor Gumercindo Rocha Dorea, em 1966. Talvez seu livro mais conhecido seja Slaughterhouse-Five, or the children’s cruzade: A duty-dance with death (Matadouro 5 ou a cruzada das crianças), de 1969, em que mistura viagens no tempo com alienígenas do futuro do planeta Tralfamadore e suas próprias experiências pessoais de sobrevivente do bombardeio de Dresden. Ganhou uma boa adaptação para o cinema em 1971, sob direção de George Roy Hill. Outros livros importantes incluem Cat’s cradle (Cama de gato), de 1963, God-bless you, Mr. Rosewater (1965) – aqui apresentando um de seus alter egos, Eliot Rosewater, retomado em livros posteriores. Outros incluem Billy Pilgrim – o sobrevivente de Dresden de Matadouro 5 – e  Kilgore Trout, um mal-sucedido autor justamente de, ficção científica neste romance e também em Breakfast of champions, or goodbye, blue monday! (Almoço dos campeões), de 1973.

Outros livros importantes são Galapagos (Galápagos), de 1985, uma fantasia de humor negro sobre os sobreviventes de um holocausto nuclear que vivem na tal ilha do título; Hocus Pocus, or what’s the hurry,  Sam?(Hocus Pocus), de 1990, uma ácida especulação sobre as contradições sociais que poderiam levar à auto-destruição da civilização. Vonnegut era, à maneira de um Mark Twin, um sujeito existencialista, no sentido de partir das dúvidas básicas da vida, tais como “Por que estamos neste mundo?” ou “Há mesmo alguma figura presidindo tudo isso?”. Era, assim, um pessimista contumaz e usava a mordacidade cômica para disfarçá-la ou melhor, torná-la mais explícita e suportável. Muito polêmico, foi guru dos hippies e da contra-cultura, o que lhe custou reações truculentas, como quando seus livros foram queimados por grupos conservadores no início dos anos 1970. Apesar do reconhecimento sofreu de depressão a maior parte da vida e tentou o suicídio – assim como sua mãe que se matou –, em 1984, tomando pílulas e álcool.
Tem um público fiel no Brasil, para além das fronteiras da ficção científica, pois dos seus 14 romances escritos sete estão disponíveis no mercado, incluindo o publicado em 2007, pela editora Record, Deus, o abençoe, Dr. Kervokian. Um nome importante, talvez mais da cultura ocidental do pós-guerra, do que propriamente da ficção científica, mas que mesmo nela, a ilustrou com sua irreverência e inteligência acima da média.

– Marcello Simão Branco

Rubens Teixeira Scavone (1925-2007)

Promotor e Corregedor do Ministério Público, professor universitário, jornalista, romancista e ensaísta, Rubens Teixeira Scavone faleceu no dia 17 de agosto de 2007, aos 82 anos.
Nascido na cidade de Itapira, interior de São Paulo, em 8 de julho de 1925, filho dos escritores Hermelino Scavone e Maria de Lourdes Teixeira, o pequeno Rubens teve acesso a uma das mais completas bibliotecas do Brasil em sua própria casa. Mesmo depois da separação de seus pais mãe, continuou a conviver num meio erudito porque seu padastro, José Geraldo Vieira, também era um escritor importante.
Scavone graduou-se em 1948 pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco e seguiu a carreira do Direito, como Promotor de Justiça, chegando a ser Corregedor Geral do Ministério Público.
Paralelamente, desenvolveu uma sólida carreira literária, com uma das mais expressivas bibliografias da literatura fantástica brasileira. Estreou em 1958 com o romance O homem que viu o disco voador (Palácio do Livros), que publicou sob o pseudônimo de Senbur T. Enovacs, um anagrama de seu próprio nome. Em 1961, publicou duas coletâneas de contos, Diálogo dos Mundos (GRD) e Degrau para as estrelas (Martins), além de participar da Antologia brasileira de ficção científica (GRD), um período literariamente muito ativo.
Entretanto, Scavone não se limitou à literatura fantástica e alcançou muito sucesso também redigindo ensaios e romances mainstream. Em 1973 foi agraciado com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro por Clube de campo (Record), um denso romance de mistério que se passa exatamente no dia em que o homem pousou na Lua.
Apesar de todo o sucesso, Scavone não deixou de participar das atividades dos fãs de ficção científica no Brasil, com os quais sentia grande identificação.

Sempre gentil e atencioso, esteve presente no histórico Simpósio de Ficção Científica do Rio de Janeiro, em 1969. Também foi convidado para formar a mesa de debates da 1ª Mostra de Ficção Científica do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), em 1987 no SESC Pompéia, em São Paulo, foi convidado da II InteriorCon 1991, em Sumaré/SP, e da I HiperCon 1993, em Santo André/SP, mesmo ano em que publicou a importante novela O 31º peregrino (Estação Liberdade), resenhada adiante.
Em 1988 foi eleito para a cadeira nº18 da Academia Paulista de Letras, que presidiu por dois mandatos.
Depois disso, debilitado por problemas de saúde, não apareceu mais entre os fãs. Mesmo assim, participou das antologias Estranhos contatos (Caioá, 1998), Histórias de ficção científica (Ática, 2005), Vinte voltas ao redor do Sol (CLFC, 2005) e Os melhores contos brasileiros de ficção científica (Devir, 2007), estas últimas através da representação de seu filho, o fotógrafo  Marcio Scavone.
Rubens T. Scavone deixa um importante legado, com um acervo de contos, novelas e romances de altíssima qualidade, que merece ser republicado para conhecimento das novas gerações de leitores. Sua contribuição para a identidade da ficção fantástica brasileira é importantíssima e deve ser sempre  referenciada.

Bibliografia:
= O homem que viu o disco voador (Palácio do Livros, 1958) – Romance.
= Degrau para as estrelas (Martins, 1961) – Coletânea.
= Diálogo dos mundos (GRD, 1961) – Coletânea.
= Antologia brasileira de ficção científica (GRD, 1961) – Antologia.
= Ensaios norte-americanos (Revista dos Tribunais, 1963) – Ensaio.
= Além do tempo e do espaço (EDART, 1965) – Antologia.
= O lírio e a antípoda (Revista dos Tribunais, 1965) – Romance.
= Passagem para Júpiter (Mundo Musical, 1971) – Coletânea.
= Clube de campo (Record, 1973) – Romance.
= A noite dos três degraus (Melhoramentos, 1976) – Romance .
= Morte, no palco (Clube do Livros, 1979) – Coletânea.
= Faukner & cia (Soma, 1984) – Ensaio.
= O Projeto Dragão (Scipione, 1988) – Coletânea.
= Templários, Frankenstein, Buracos Negros e outros temas (Hemus, 1991) – Ensaio
= Sete faces da ficção científica (Moderna, 1992) – Antologia.
= Sete faces da ficção espacial (Moderna, 1992) – Antologia.
= O 31º peregrino (Estação Liberdade, 1993) – Novela.
= Estranhos contatos (Caioá, 1998) – Antologia.
= Vinte voltas ao redor do Sol (CLFC, 2005) – Antologia.
= Histórias de ficção científica (Ática, 2005) – Antologia.
= Os melhores contos brasileiros de ficção científica (Devir, 2007) – Antologia.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Despertar do Demônio (Bay Cove, EUA, 1987)


O mercado brasileiro de vídeo VHS foi bastante movimentado entre os anos 80 e 90 do século passado, com muitos lançamentos de filmes de horror. “Despertar do Demônio” (Bay Cove) é de 1987 e foi lançado por aqui pela “Globo Vídeo”, sendo uma produção especialmente para a televisão dirigida por Carl Schenkel, e com a curiosidade da participação no elenco de um jovem Woody Harrelson, em início de carreira. Dentre uma infinidade de atores e atrizes que aparecem em centenas de filmes de todos os estilos e para todos os lados, apenas alguns poucos conseguem sucesso efetivo na carreira. Harrelson é um deles, sempre atuante e participando de grandes projetos como a franquia “Jogos Vorazes”.  
Um jovem casal sem filhos, Jerry Lebon (Tim Matheson) e a esposa Linda (Pamela Sue Martin), decide se mudar e sair do aluguel, comprando uma casa afastada da cidade, localizada num pequeno vilarejo de uma ilha pouco habitada. O lugar é chamado de “Bay Cove” (do título original) e a comunidade local tem mais de 300 anos de história. Eles primeiramente são recebidos com entusiasmo e cordialidade pelos novos vizinhos, como a idosa Beatrice Gower (Barbara Billingsley), antiga proprietária da casa vendida para eles, e pelos casais Josh (Jeff Conaway) e Debbi McGwin (Susan Ruttan), e os misteriosos Nicholas (James Sikking) e Matty Kline (Inga Swanson).
Porém, uma série de acontecimentos bizarros e sinistros transforma seus novos vizinhos em pessoas extremamente estranhas. Como a ocorrência de acidentes misteriosos e trágicos envolvendo um amigo de Linda, Slater (Woody Harrelson), que veio à ilha para visitá-la, e também o cachorro de estimação da moça, passando pelo comportamento nada infantil das poucas crianças do lugar, e pelos avisos de alerta para o perigo de um velho recluso numa cadeira sempre observando os movimentos de uma janela num sótão. Além de um cântico assustador ecoando pela ilha e a descoberta de uma caverna escondendo um ambiente preparado para a realização de cultos demoníacos, com um enorme pentagrama no chão e iluminação por tochas de fogo.   
O nome nacional “Despertar do Demônio” é oportunista e já entrega a temática do roteiro com uma conspiração satânica. Uma vez sendo uma produção para a televisão, quase não há violência e sangue, e o foco está na construção de uma atmosfera de suspense e mistério que lembra situação similar do clássico “O Bebê de Rosemary” (1968, de Roman Polanski). Apesar dos velhos clichês de filmes com seitas demoníacas e covil de feiticeiros, e da presença inevitável de previsibilidade nos eventos, temos aqui uma história que ainda consegue envolver o espectador com um clima de tensão crescente. Que ocorre na medida em que Linda desconfia do comportamento estranho dos habitantes da ilha, e decide investigar a história sinistra do lugar, descobrindo aos poucos a obscura verdade e reais intenções de seus moradores envolvidos com bruxaria.
“Se um mortal vir o local, deve ser sacrificado na primeira noite de lua cheia. Se o sacrifício não ocorrer à meia-noite, então qualquer pacto com Satanás será destruído.
(Juvenatrix –22/05/17)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Complô contra a América

Complô contra a América (The plot against America), Philip Roth. 440 páginas. Tradução de Paulo Henriques Britto. Coleção Companhia de Bolso, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2015. Traduzido originalmente no Brasil em 2005, pela mesma editora.

A ficção especulativa, por motivos econômicos, especializou-se em uma miríade de gêneros e subgêneros devidamente esquematizados. Autores especializados em cada um desses subgêneros exploram cada uma de suas dobras em busca de seus limites sem perder os apelos comerciais que os editores exigem. Essa prática nos trouxe uma série de bons trabalhos criativos e perturbadores mas, por mais que se tente, sempre há uma fronteira que tem que ser respeitada, um protocolo que ali está para estabelecer a identidade da obra e seu público alvo. Eventualmente contudo, ocorre de um autor importante, mas não especializado, acidentalmente ou não, adentrar os domínios de um gênero como um touro enfurecido e, sem respeitar nenhum desses protocolos, ali instalar uma obra de tal forma autoral que a crítica tem dificuldade de classificá-lo. Há diversos exemplos dessa ordem, que causam intermináveis polêmicas entre os fãs, uns denunciam a invasão não autorizada, outros festejam que alguém importante finalmente tenha enxergado valor naquilo que tanto gostam, tudo isso enquanto o crítica mainstream destila seus preconceitos.
Por exemplo, temos os casos de 1984, de George Orwell, Shikasta, de Doris Lessing, A estrada (The road), de Cormac McCarthy, Associação Judaica de Polícia (The Yiddish Policemen's Union), de Michael Chabon, Não verás pais nenhum de Ignácio de Loyola Brandão, e Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A eles se soma também Complô contra a América de Philip Roth, que recebeu uma nova edição em 2015 na coleção Companhia de Bolso, da Editora Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto.
É um caso curioso porque a obra de Philip Roth não apresenta nenhum outro livro especulativo. Sua produção está focada no realismo, em livros como O complexo de Portnoy (Portnoy's complaint) e Pastoral americana (American pastoral). Nascido em Newark, Nova Jersey, em 1933, Roth é um autor mainstream prestigiado, detentor dos mais importantes prêmios literários, entre os quais o Pulitzer e a National Medal of Arts. É um mistério os motivos que o levaram a escrever esta ficção especulativa instalada no subgênero da História Alternativa, um formato que geralmente faz sucesso apenas entre fãs de ficção científica.
Não se trata de uma ideia original. Antes de Roth, outros autores dedicaram textos à utopias nazistas na América, como, por exemplo, O homem do castelo alto (The man in the high castle), de Philip K. Dick, e O sonho de ferro (The iron dream), de Norman Spinrad, ambos já publicados no Brasil.
O caso é que Complô contra a América é muito mais que uma história alternativa. Trata-se de um romance em que o real e o imaginário misturam-se de tal forma que é praticamente impossível desassociá-los. Não porque seja difícil saber o que é historicamente correto ou não, porque essa percepção o autor providencia de modo muito claro, ao inserir, no final do livro, um apêndice detalhado com as biografias reais dos principais personagens históricos citados no romance, para "fornecer referências aos leitores interessados em saber até onde vão os fatos históricos e onde tem inicio a imaginação histórica", cita o próprio Roth na nota de esclarecimento que abre a seção.
O que não sabemos se é real ou não são os fatos ocorridos com os protagonistas, que nada mais são que os membros da família de Philip Roth, num relato que pode muito bem ser autobiográfico em sua maior parte, ou completamente inventado. Pois o romance, narrado em forma de um testemunhal, conta as impressões do infante Philip Roth que, com apenas sete anos de idade, vive um período turbulento da sociedade americana, exatamente os dias que antecederam a entrada do país na Segunda Guerra Mundial.
No romance, a comunidade judaica de Newark, onde vivem os Roth, é abalada quando, nas eleições de 1940, o herói da pátria Charles Lindberg – o primeiro homem a atravessar o oceano Atlântico sozinho num vôo sem escalas – elege-se presidente dos Estados Unidos derrotando o democrata Franklin Delano Roosevelt, que se candidatara ao terceiro mandato. Ocorre que Lindberg tinha ideias controversas, pois era antissemita assumido e admirador de Adolf Hitler. A presença de Lindberg na Casa Branca faz o país manter-se fora do conflito europeu e cria desconforto entre os judeus americanos ao abrir espaço à propagação do nazismo nos EUA.
O texto de Roth, ainda que dotado de menos maravilhamento que seus antecessores, ao importar o holocausto europeu para a América – numa situação que não aconteceu de fato –, apresenta um retrato um tanto cruel da sociedade judaica, discutindo agudamente a questão antissemita nos EUA, a estrutura familiar da comunidade, seus valores e cultura. Pelos olhos do pequeno Phil vamos acompanhar como o fascismo avança gulosamente sobre a sociedade americana, animada pela ampla aprovação à política isolacionista de Lindberg, travestida por ações pacifistas e progressistas. E a tragédia que era apenas um temor, comprova-se para a família Roth quando são tratados como cidadãos de segunda classe em uma malfadada viagem turística à capital do pais, assim como no drama do primo Alvin, que havia se alistado no exército canadense para lutar contra Hitler na Europa, mas retornou poucos meses depois sem uma das pernas, perdida em batalha.
O mais dramático, contudo, é que os traumas pelo que vão passar os Roth e seus vizinhos da comunidade judaica de Newark são, de forma geral, criados a partir da intolerância dos próprios judeus entre si, em especial a ação de Walter Winchell, radialista de enorme audiência que move uma campanha difamatória incansável – e não propriamente honesta – contra o presidente Lindberg. Em cada detalhe das recordações do pequeno Phil, as pistas de como os próprios judeus ajudam a construir as armadilhas para seus iguais, incluindo o próprio Philip que, do alto de seu inocente egoísmo juvenil, lança seu vizinho Seldon, provavelmente o único admirador que jamais teve, no pior de todos os infernos, potencializando a natureza de culpa que todo judeu carrega desde o berço.
O que enfraquece a tocante história de Complô contra a América é a atabalhoada explicação final, que sugere Lindberg como mais uma das vítimas de um plano nazista para dominar a América, sendo que tudo o que ele fez foi decorrente de chantagem, uma vez que os alemães teriam seu filho refém (na história oficial, o filho de Lindberg morreu ainda bebê, assassinado por um sequestrador psicopata). Ainda que a forma como Roth apresenta essa conspiração seja um tanto transversal, através de uma série de contraditórias reportagens de jornal que não parecem ser dignas de crédito, o efeito final é da História sendo reconduzida ao normal, apenas com um ano de atraso: os japoneses atacam Pearl Harbour em 1942 e os EUA acabam por entrar na Segunda Guerra ao lado dos aliados.
Mesmo assim, a opção de Roth por construir um holocausto pessoal pelos olhos de sua própria infância dá tal credibilidade á história que nos faz pensar que ela talvez tenha acontecido de uma forma ou outra, e que inacreditável é o fato de não ter sido assim, uma dúvida que perturbará para sempre o leitor: talvez, a história tenha sido mesmo aquela e sejamos nós que vivemos na realidade alternativa.
Cesar Silva

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Infinito em Pó

Infinito em Pó, Luís Giffoni. Belo Horizonte: Editora Pulsar, 238 páginas. Lançado originalmente em 2004.

Este romance de ficção científica surgiu em fins de 2004 quando o mercado editorial brasileiro ainda estava avesso à publicação de ficção científica. Recebeu, além disso, uma resenha favorável no caderno ‘Prosa e Verso’, do jornal carioca O Globo, um dos principais do país.
Talvez isso se explique pelo fato de Luís Giffoni, ser um um autor razoavelmente experimentado, assinando outros romances e recebendo premiações prestigiosas, como os da Academia Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Bienal Nestlé, e duas indicações para o Prêmio Jabuti, o principal da literatura nacional.
Com tais referenciais recebi o livro enviado pelo próprio autor com bastante expectativa. De que a obra pudesse acrescentar qualidade e visibilidade à ficção científica, dois elementos de que ela tanto carece entre nós. O tema, de saída, já ajuda, é dos mais interessantes, a temática da nave de gerações, que parte da Terra em direção às estrelas numa viagem muito inferior à da luz. E que por isso, só deverá ser testemunhada pelos descendentes da tripulação original, milhares de anos depois.
Lamento dizer, contudo, que o livro decepciona. Embora seja bem escrito e imerso de metáforas inspiradas, argutas observações e ironias sobre a condição humana e em particular sobre a racionalidade de uma missão como esta, o livro se enfraquece e se torna um fastio pela ausência de drama, de um enredo trabalhado. Uma narrativa que fosse mais fluente, palatável, que apresentasse e desenvolvesse tramas e problemas próprios e inerentes à operacionalidade da missão e os inúmeros perigos que ela potencialmente pode apresentar. Enfim, falta ao romance vida própria.
Há algumas especulações interessantes das, digamos, consequências sociais de avanços científico-tecnológicos. Como por exemplo, no desenvolvimento de seres humanos artificiais criados apenas para o prazer sexual dos tripulantes. Mas são secundárias dentro da trama, apresentadas mais como curiosidades, do que como possibilidades dramáticas a serem desenvolvidas.
Não que não haja um enredo. Há e já começa com um recurso metalinguístico que dilui os problemas vindouros, pois se sabe de antemão, em suas primeiras páginas, que, enfim, de um modo ou de outro, a missão teve êxito. Isso porque o livro se conta por meio de um relato de um historiador de um dos planetas habitados de Alpha Centauri. Então, já no começo, Giffoni se impõe um desafio. Qual? De contar uma história forte o suficiente para dissipar a perda de suspense, que a revelação inicial encerra. Contudo, o autor não perde tempo com este suposto esforço em contar de forma vibrante – talvez épica, por que não? –, como se deu a trajetória em direção ao sistema estelar situado a pouco mais de quatro anos-luz da Terra.
Já no primeiro capítulo se inicia um denso mergulho reflexivo – pontificado pelo óbvio recurso da primeira pessoa do singular –, no qual os principais tripulantes da nave vão alternando suas dúvidas e divagações existenciais sobre a razão de estarem ali e do destino que os aguarda.
O livro, página após página, capítulo após capítulo, com tal imersão psicológica torna-se ‘pesado’, difícil de ser lido com uma mínima fluidez e prazer narrativo. E as tais introspecções existenciais são muito semelhantes entre si, na voz de cada tripulante, causando até uma certa ambiguidade  sobre quem é realmente quem, para além dos papéis hierárquicos de cada um na nave.
Para se ter uma ideia da ‘densidade’ da narração, temos somente na página 98 a primeira sucessão de diálogos continuados em torno de um problema prático.
Ao seu modo intimista, a narrativa vai de forma paulatina mostrando alguma ação e tensão própria, saindo desta espécie de ‘inércia psicológica’. Assim é que dois fatores externos ganham relevo. O primeiro é uma guerra que viceja na Terra, envolvendo o governo mundial ditatorial e grupos rebeldes que tentam derrubar o regime. Opositores do planeta e de outras colônias humanas instaladas em outros planetas e luas do Sistema Solar. O segundo é a revelação de que a nave, Unity, leva consigo um mini-buraco negro, o que pode, potencialmente, destruir a nave e levar ao fim da missão.
O grande desfecho para as duas situações se insinua a partir dos últimos capítulos, mesclados com as repetitivas elucubrações. Na página 174, temos as frases:  “Envolta por tanta conjectura...” e “Chega de divagar...” Ora, embora estejam dentro do contexto da história, serviu a mim, na condição de leitor, como uma espécie de confissão do próprio autor sobre o exagero de sua opção de estilo. Outro exemplo emblemático se dá à página 200:

“As dúvidas são mesmo meu grande vício. Questiono por defeito de fábrica, meu selo de origem descontrolada. Quando em paz, imagino problemas para me perturbar, com frequência chuto o incômodo para a frente e desestabilizo a rotina. Será que meu gesto enriquece a vidinha a bordo?”

Apesar da sucessão de capítulos muito parecidos em suas divagações, foi divertido constatar a homenagem de Giffoni a vários escritores de ficção científica ao longo do texto. Pois vários deles foram retratados como tripulantes, cientistas, artistas e políticos. Nomes como: Arthur C. Clarke, Robert A. Heinlein, Kurt Vonnegut, Aldous Huxley, Murray Leinster, William Burroughs, Doris Lessing, Ursula K. Le Guin, Walter Miller, Jr, Edgar Allan Poe, Hugo Gernsback, tem seus sobrenomes emprestados a personagens secundários. E sim, há brasileiros: Fausto Cunha e Jorge Luiz Calife, ou melhor George Califa!, que foi o nome do personagem que se refere ao escritor carioca.
Outra expectativa quanto a este livro é o do diálogo que ele poderia estabelecer com outras obras sobre o mesmo tema. Em termos arquetípicos o melhor romance sobre nave de gerações da história da ficção científica é Nave-Mundo (Non-stop), do inglês Brian Aldiss, de 1958. Milhares de anos depois de iniciada a viagem uma distante geração de tripulantes vive em regiões diferentes e isoladas da nave, sem nem ao menos ter consciência de que estão em um vazo que singra o espaço sideral. Um terrível acidente ocorrido há muito tempo e a manutenção de um comando autocrático, sustentado por uma religião criada para legitimar o poder, mantém os tripulantes alheios à sua origem e ao seu destino. Temos um equilíbrio virtuoso sobre a aventura épica e única que representa uma missão deste tipo e as idiossincrasias humanas nela envolvidas, além das surpresas e perigos que inevitavelmente põe em risco e remodela todos os objetivos inicialmente planejados. Enfim, um clássico.
Outro que pode ser elencado é o romance As Canções da Terra Distante (The Songs of Distant Earth, de 1986), do também inglês Arthur C. Clarke. Com a proximidade do fim da Terra, a nave Magalhães é enviada para um planeta anos-luz distante de casa. Ao atingirem o destino programado, os descendentes da viagem inicial descobrem que o tal planeta já abriga uma civilização inteligente. Taí um problema fascinante a ser enfrentado. Pena que Clarke não estivesse particularmente inspirado em desenvolver a dramaticidade que o enredo suscita.
No Brasil podemos citar ao menos dois: Horizonte de Eventos (1986), de Jorge Luiz Calife – segundo livro de sua trilogia ‘Padrões de Contato’ – no qual a nave de geração não é propriamente o tema principal, mas compõe com outros – e o romance Projeto Evolução (1990), de Henrique Flory, no qual uma missão é montada às pressas ao se descobrir que o Sol se tornará em pouco tempo uma nova.
Em termos comparativos, Infinito em Pó, tem o seu diferencial. Menos pelo que traz de novo ao tema, do que pela opção de enveredar pelos meandros das reflexões existenciais dos personagens. Sem dúvida, uma opção interessante e que acrescenta um novo ponto de vista. O que compromete, porém, é o excesso.
É possível dizer que Infinito em Pó seja um livro literária e formalmente bem acabado. Que tenha o seu público próprio, pois a prosa de Giffoni é boa e bem articulada. Mas talvez tenha faltado à obra, uma busca por um equilíbrio entre o aspecto literário e intimista – tão valorizado pelo mainstream em geral –, com uma literatura que prioriza mais as ideias e o desenvolvimento do enredo, que é uma marca característica da ficção científica.

– Marcello Simão Branco



terça-feira, 2 de maio de 2017

Veio do Espaço (It Came From Outer Space, EUA, 1953)


O diretor americano Jack Arnold (1916 / 1992) é sempre lembrado pelos fãs do cinema fantástico por causa de vários filmes cultuados produzidos durante os saudosos anos 50 do século passado, como “O Monstro da Lagoa Negra” e “O Incrível Homem Que Encolheu”. Sua estréia no gênero foi em 1953 com a primeira produção da história do cinema de Ficção Científica filmada em 3-D, “Veio do Espaço” (It Came From Outer Space), do estúdio “Universal”.

Com fotografia em preto e branco, roteiro de Harry Essex, inspirado na história “The Meteor” do veterano escritor americano Ray Bradbury, o filme mostra um casal de noivos, o astrônomo John Putnam (Richard Carlson) e a professora Ellen Fields (Barbara Rush), que testemunha a queda de um meteoro no deserto do Arizona, chocando-se violentamente contra o solo nas redondezas da pequena cidade de Sand Rock. Ao investigar de perto o misterioso objeto que “veio do espaço”, o homem descobre que se trata na verdade de uma nave extraterrestre, que fica soterrada após um desmoronamento de pedras na cratera formada por sua queda. O astrônomo observador de estrelas e sua noiva são desacreditados pela população local e pelos jornalistas sensacionalistas quando mencionam a chegada de alienígenas ao nosso planeta, sendo vítimas de gozações e calúnias de auto promoção, enfrentando também a intolerância do xerife Matt Warren (Charles Drake), que organiza um grupo armado para invadir o local da queda da nave.
O objeto voador pertence a uma civilização alienígena avançada tecnologicamente, que descobriu uma forma de viajar pelo espaço sideral, conhecendo novos mundos, mas um acidente fez com que caíssem na Terra, obrigando-os a entrarem em contato com os humanos na tentativa de obterem recursos para consertar a nave e poderem partir. Eles tem o poder de assumir a forma humana, transformando-se numa réplica fria e sem emoções de qualquer pessoa, como aconteceu com uma dupla de técnicos que faziam trabalhos na área para a manutenção de postes e linhas telefônicas, o veterano Frank Daylon (Joe Sawyer) e o jovem George (Russell Johnson). Os horríveis seres do espaço não são bem recebidos e sentem a desconfiança e o despreparo da raça humana em aceitá-los como uma civilização superior e com um visual aterrador, distante da aparência humanoide (os alienígenas tem apenas um olho central, além de tentáculos e outras características que os tornam monstruosos aos olhos humanos).  
 
Analisando a história de mais de 100 anos do cinema fantástico, estou inclinado a escolher numa opinião totalmente subjetiva que os anos 50 (principalmente) e também a década seguinte, foram o período mais importante com a produção de filmes de Ficção Científica com elementos de Horror que ficaram marcados para sempre, explorando temas diversos e fascinantes como invasões alienígenas, exploração espacial, cientistas loucos em meio as suas experiências bizarras para o suposto bem da humanidade, homens transformados em monstros ameaçadores, expedições científicas rumo ao desconhecido, monstros atômicos gerados pelo descontrole da tecnologia nuclear, guerras interplanetárias... Em filmes como “O Monstro do Ártico” (51), “Destino: Lua” (51), “O Dia Em Que a Terra Parou” (51), “Colisão de Planetas” (52), “A Guerra dos Mundos” (53), “Os Invasores de Marte” (53), “Vinte Mil Léguas Submarinas” (54), “O Mundo em Perigo” (54), “O Monstro da Lagoa Negra” (54), “O Monstro do Mar Revolto” (55), “Tarântula” (55), “Vinte Milhões de Léguas a Marte” (55), “Guerra Entre Planetas” (55), “Godzilla” (56), “A Invasão dos Discos Voadores” (56), “Planeta Proibido” (56), “Vampiros de Almas” (56), “Emissário de Outro Mundo” (57), “O Começo do Fim” (57), “O Incrível Homem Que Encolheu” (57), “A Bolha” (58), “Guerra dos Satélites” (58), “A Mosca da Cabeça Branca” (58), “O Horror Vem do Espaço” (58),  “O Monstro de Mil Olhos” (59), “Viagem ao Centro da Terra” (59), “Quarta-Dimensão” (59), e muitos outros mais. E dentro dessa lista interminável de pérolas do cinema fantástico dos anos 50, temos o divertido “Veio do Espaço”. 

Entre as várias curiosidades e observações interessantes sobre o filme, podemos citar:
* Temos três outros títulos originais alternativos, “Atomic Monster”, “Strangers From Outer Space” e “The Meteor”.
* Foram apresentadas duas concepções visuais dos alienígenas para a aprovação dos executivos da “Universal”, e aquela que foi rejeitada inicialmente foi aproveitada depois como o monstro mutante de “Guerra Entre Planetas”, lançado dois anos depois.
* A ideia apresentada pelo filme mostrando os alienígenas se transformando em cópias de pessoas, assumindo a forma humana, num tratamento claro do roteiro evidenciando atitudes de xenofobia, também foi utilizada como o argumento básico de outras preciosidades da  FC como “O Dia em Que Marte Invadiu a Terra” (The Day Mars Invaded Earth, 62) e “Vampiros de Almas” (Invasion of the Body Snatchers, 56), de Don Siegel, que teve sua história baseada na obra do escritor Jack Finney, considerada como uma analogia política gerada pelos efeitos perturbadores da guerra fria e a paranoia americana de invasão comunista soviética (apesar que o próprio autor não confirma essa intenção quando escreveu o livro).
* Outra ideia interessante abordada em “Veio do Espaço” é a intenção dos alienígenas em tentar reparar os problemas da nave que ocasionaram a queda, para poderem partir de nosso planeta o mais rápido possível, algo que também aconteceu em “Escravos da Noite” (Night Slaves, 1970), com James Franciscus, onde os moradores de uma pequena cidade são manipulados e escravizados por alienígenas que os utilizam como mão de obra para consertar sua nave avariada.   
* “Veio do Espaço” é um dos poucos filmes dentro da temática de “invasão alienígena” que retrataram as criaturas do espaço como pacíficas, assim como em “O Dia Em Que a Terra Parou”, de 1951. A maioria dos filmes de FC similares fizeram questão de enfatizar os extraterrestres como hostis e ameaçadores para a raça humana.  
* Em 1996, foi lançada uma desnecessária e oportunista continuação, produzida especialmente para a televisão e dirigida por Roger Duchowny. Recebeu o nome original de “It Came From Outer Space II”.
* Em 2004, o escritor Ray Bradbury, autor da história original que inspirou a produção de “Veio do Espaço”, publicou um livro intitulado “It Came From Outer Space”, reunindo suas versões para o roteiro do filme dos anos 50. Bradbury teve várias de suas histórias adaptadas em filmes interessantes como “O Monstro do Mar” (53), “Fahrenheit 451” (66) e “O Homem Ilustrado” (69).  

Veio do Espaço / A Ameaça Que Veio do Espaço (It Came From Outer Space, Estados Unidos, 1953). Universal. Preto e Branco. Duração: 81 minutos. Direção de Jack Arnold. Roteiro de Harry Essex, baseado na história “The Meteor”, de Ray Bradbury. Produção de William Alland. Fotografia de Clifford Stine. Música de Irving Gertz e Henry Mancini. Edição de Paul Weatherwax. Direção de Arte de Robert Boyle e Ruby R. Levitt. Efeitos Especiais de Roswell A. Hoffman e David S. Horsley. Elenco: Richard Carlson (John Putnam), Barbara Rush (Ellen Fields), Charles Drake (Xerife Matt Warren), Joe Sawyer (Frank Daylon), Russell Johnson (George). 

(Juvenatrix - 25/07/2007)

sábado, 29 de abril de 2017

Vinte anos no Hiperespaço

Vinte anos no Hiperespaço, Cesar Silva, org. Prefácio de Marcello Simão Branco. Capa: Cerito. Editora Virgo, São Caetano do Sul, 2003.
A ANTOLOGIA QUE FECHOU UM CICLO
O fanzine Hiperespaço, editado por Cesar Silva e, no início, também por José Carlos Neves e Mário Mastrotti, durou uns vinte anos. Quando resolveu encerrá-lo, Cesar organizou uma antologia comemorativa, que passo a comentar.
VINTE ANOS NO HIPERESPAÇO, Cesar Silva e Mário Mastrotti.
A capa do livro equivale a um conto em forma de noticiário em torno do personagem “Tripanossoma”, pirata galático criado por Mário Mastrotti, responsável pela parte visual da história. A notícia da captura do pirata e seu cúmplice Dodô é bem-humorada, mas infelizmente a colocação das colunas da notícia em posição inclinada fez com que algumas letras se perdessem, impossibilitando a leitura integral do trabalho.
A NOVA REVOLUÇÃO DOS BICHOS, Carlos Orsi Martinho.
Este é, a meu ver, o melhor trabalho da antologia. Com uma originalidade muito grande Carlos Orsi desenvolve uma fábula utópica e autópica que já começa com palavras intrigantes: “O maligno Humanoide observa, impotente, os Gorilas Selvagens de Chachka-Qun atacarem as paredes do Palácio de Tugstênio com brocas roubadas de diamante.” É um conto divertido, que prima pelo absurdo e narrado com grande engenhosidade, numa tessitura que se completa brilhantemente no desfecho, e ainda aproveita para uma referência a Animal farm de George Orwell (ao seu título no Brasil, A revolução dos bichos).
BACTÉRIA, Edgard Guimarães.
Conto sofisticado onde um sujeito especula sobre um hipotético micro-organismo que altera os textos impressos. É um conto bem escrito em termos de língua portuguesa mas esbarra com o problema de não conseguir passar a mensagem de humor que pretende na surpresa final, que de resto é previsível.
ANDROIDES ORGÂNICOS TERÃO CABELOS NO PEITO?, E. R. Corrêa.
História extravagante e de difícil compreensão, a começar pelo título esquisito e excessivamente comprido. Tudo gira em torno de um sujeito reles num botequim, no meio-dia de São Paulo, pensando em ataques terroristas e que, por fim, começa a desconfiar ser ele próprio um androide bomba. A linguagem “punk” prejudica muito o clima de terror induzido e o desfecho, anticlimático, é decepcionante.
PAULA, A ESTRANHA, Fernando Moretti.
Parece que o autor se inspirou, no título, na Carrie de Stephen King. A história porém segue a via da psicopatia, não a do terror puro. O que salta aos olhos é a gratuidade da violência narrada, uma história que segue a triste via do “brutalismo” que hoje infesta a literatura e o cinema.
COLEIRA DO AMOR, Gerson-Lodi Ribeiro.
Num entrecho mais longo – aliás esse autor costuma escrever contos bem mais longos – Gerson conta uma história que poderíamos chamar “passional-tecnológica”, exercitando sua habitual firmeza de estilo e habilidade em tecer tramas. No entanto, a ideia da manipulação dos próprios sentimentos mediante a implantação de nanorrobôs e a discussão se isso fere ou não o livre-arbítrio resulta numa discussão em jargão técnico que soa bem artificial e pesada para os leitores, principalmente aqueles que veem a ficção científica como lazer. Vejam este trecho: “Os chips de amor eterno não inserem novos padrões (...) Apenas reforçam as trilhas neurais que expressam sentimentos mútuos pré-existentes.” Em todo o caso creio que Gerson tem razão ao sugerir a possibilidade de loucura como consequência de tais manipulações.
V.I.R.T.U.A.L., Gian Danton.
Uma divertida vinheta que brinca com aquele clichê de “nada é o que parece ser”, tornado mais comum após a descoberta do mundo virtual. Fazendo lembrar o Hal – o computador inteligente de “2001: uma odisseia no espaço” – o pequeno conto de Gian Danton pode ser considerado perfeito, e admite vários níveis de leitura. O que é a realidade? O que é a auto-consciência?
O MONSTRO DO ARMÁRIO EMBUTIDO, Miguel Carqueija.
Uma espécie de conto lovecraftiano infantil, que se reporta aos clássicos terrores das crianças. Como se sabe, o folclore infantil fala nos monstros  que habitam os armários ou se emboscam embaixo da cama, nos amigos invisíveis e nos brinquedos que se movem e falam na ausência dos humanos. O protagonista-narrador, já adulto, relembra um fato traumatizante de sua meninice.
(observação: como sou eu o autor do conto não posso dar opinião sobre ele e limitei-me a explicar o enredo)
ARMAGEDOM EM MADUREIRA, Octávio Aragão.
Incursão no domínio do “non sense”, como nos velhos quadrinhos de Juarez Machado; porém com detalhes vulgares. A história começa com uma mulher sendo lambida pelo telefone (sic). Outros horrores vão acontecendo, culminando com uma explicação atroz a respeito de uma invasão do inferno. Esse é, de longe, o pior conto do livro.
PRÉ-NATAL, Roberto de Sousa Causo.
Os textos de Causo com frequência tratam de assuntos militares e políticos, e também polêmicos. No caso trata da luta contra a tirania, uma ditadura de algum país não identificado (mas que parece ser o Brasil), já que o autor tem a idiossincrasia de falar apenas no “Regime” e no “Ditador”. Uma criança em gestação deve ser contrabandeada e, para tanto, é implantada no abdômen de um homem, na suposição de que isto iludirá a vigilância do inimigo. O conto me parece pouco convincente do ponto de vista científico, pois não consegui entender como o bebê poderia sobreviver no corpo de um homem.
O ÚLTIMO SUSPIRO, Cesar Silva.
Um conto muito curto para o assunto, passado em época nebulosa, talvez num futuro distante, onde uma nova idade de gelo isola comunidades humanas e, numa delas, um dos habitantes tem a ideia de organizar torneios esportivos para evitar a degeneração da raça e manter a esperança de dias melhores; todavia os torneios só servem, afinal, para estimular o ódio entre as famílias. É um conto deprimente, com um final sombrio. Creio que a ideia básica daria para melhor desenvolvimento e um final menos pessimista. Em todo o caso, uma visão bastante ácida em relação à natureza humana.
Miguel Carqueija

segunda-feira, 17 de abril de 2017

As Crônicas de Medusa

As Crônicas de Medusa (The Medusa Chronicles), Stephen Baxter e Alastair Reynolds. Tradução de Ronaldo Sérgio de Biasil. 432 páginas. Rio de Janeiro: Editora Record, 2016.

Quando Arthur C. Clarke (1917-2008) escreveu “Encontro com Medusa” ele estava no auge de seu prestígio e popularidade. Vinha do êxito do filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, de 1968, em que ele foi co-responsável pelo roteiro e autor de um excelente romance. A novela foi publicada em dezembro de 1971 na edição norte-americana da revista Playboy, e venceria o Prêmio Nebula em 1972 e o Prêmio Hugo em 1973, os dois mais importantes da ficção científica.
“Encontro com Medusa” foi publicado no Brasil na coletânea O Vento Solar: Histórias da Era Espacial (Globo, 1973), e é provavelmente seu último trabalho de relevância na ficção curta. O enredo narra uma missão ao interior de Júpiter, e a descoberta de surpreendentes formas de vida que flutuam na atmosfera gasosa do gigantesco planeta. As descrições acuradas das etapas da missão e do encontro com as tais medusas são um primor de equilíbrio entre criatividade e verossimilhança científica. Quem conduz a missão é Howard Falcon, que anos antes sofrera um grave acidente no comando do dirigível Queen Elisabeth IV, e fora cobaia de uma experiência medicinal de fronteira, pois ele foi quase totalmente reconstruído com componentes artificiais. Falcon tornou-se um ciborgue, meio homem e meio máquina, e por isso o único capaz de mergulhar no interior de um planeta hostil à vida humana, com temperaturas e pressões na casa dos milhares de graus e atmosferas.
Já ao final de “Encontro com Medusa”, após o êxito da missão, Falcon havia se tornado uma espécie de pária. Respeitado sim, mas com reservas, pois se intuia que como um ciborque ele sinalizava o possível passo evolutivo da humanidade. Um pós-humano. Cerca de dez anos depois, reencontramos Howard Falcon no romance As Crônicas de Medusa, escrito pela dupla de autores britânicos Stephen Baxter e Alastair Reynolds.
O livro cobre um período de tempo de quase mil anos, e mostra como um ser praticamente imortal serve de elo entre a humanidade e as máquinas que, após adquirirem inteligencia e autonomia, se desprendem dos seus criadores e passam a competir com eles sobre o predomínio dos corpos celestes do Sistema Solar e seus recursos naturais. Falcon, que manteve a sua patente de comandante da Marinha Imperial da Terra, é chamado, de forma intermitente, para agir como uma espécie de embaixador da humanidade nos contatos cada vez mais complexos com as máquinas. Desta forma o livro apresenta uma série de eventos em que Falcon assume a tarefa – meio a contragosto – de representar os interesses humanos frente ao dos robôs. Só que sua ligação com os últimos torna-se próxima o suficiente para que sua lealdade seja posta em xeque.
Numa atividade industrial de extração de recursos energéticos num asteróide transplutoniano, ocorre um acidente que destroi vários robôs. Adam, o líder, para os trabalhos e Falcon é enviado para descobrir o que aconteceu. Descobre que Adam sentia tristeza pela perda dos companheiros e questionava como que os humanos os haviam colocado numa missão perigosa, e sem a segurança necessária. Ao descobrir que Adam tinha sentimentos, Falcon não apaga suas memórias, como era recomendado, mas faz um acordo com ele para que voltasse aos trabalhos, até conseguirem construir uma nave para zarparem do Sistema Solar. Centenas de anos depois, Adam anuncia o retorno da agora civilização artificial, e com um últimato: os humanos teriam 500 anos para sairem da Terra, pois seria ocupada pelas máquinas. Com isso humanos e máquinas entram definitivamente em conflito pela supremacia política e tecnológica dos planetas do Sistema Solar, numa ação de certa forma iniciada por Falcon em sua missão ao asteróide.
As Crônicas de Medusa é um romance épico que mostra como ocorre o relacionamento entre criadores e criaturas, retomando um tema dos mais tradicionais da ficção científica, agora em escala espacial. Na verdade, Baxter e Reynolds especulam sobre o que pode acontecer se as máquinas adquirirem uma autoconsciência e se tornarem muitíssimo mais inteligentes e capazes que a humanidade. Segue os argumentos da chamada singularidade, que poderia estar por acontecer ainda no século XXI. Mesmo que seja pouco provável que isto aconteça, ao menos em nosso tempo histórico, quais poderiam ser os possíveis desdobramentos? Uma nova espécie inteligente se contentaria a servir apenas aos seus criadores? Ou passaria a questionar sua condição subalterna e se rebelaria, lutando por direitos, liberdade e buscando seus próprios objetivos? Como ficaria a humanidade à mercê de uma espécie muito mais inteligente, capaz e praticamente imortal? Todas estas perguntas já foram feitas e mostradas em muitas histórias do gênero, e Baxter e Reynolds não almejam originalidade, embora coloquem a questão numa contextualização contemporânea, com aquilo que temos de mais recente em termos de pesquisa científica.
Mas o leitor pode estar se perguntando: E as Medusas? Sim, Falcon cultiva um carinho especial por estes seres enormes que flutuam no meio da atmosfera gasosa de Júpiter. De tempos em tempos, ele voltará a encontrá-las. E são nestas sequências que temos os momentos mais belos de especulação e fantasia nos mergulhos cada vez mais profundos do imenso planeta. Poucas vezes presenciei a descrição de cenas tão inspiradas sobre os mistérios de um planeta tão diferente e fascinante. Tanto do ponto de vista de como ele pode ser em termos naturais, como das eventuais formas de vida que ele pode abrigar. Pois poderá vir justamente das entranhas de Júpiter a chance eventual de reaproximação entre os homens e as máquinas, tendo, mais uma vez, Howard Falcon como uma figura central nos acontecimentos.
O desafio de escrever um romance que ocorre num intervalo de séculos é que possa segurar o interesse e não se torne uma espécie de colcha de retalhos de diferentes eventos que se justapõe. Pois Baxter e Reynolds são competentes ao amarrarem os diferentes acontecimentos dentro de um contexto maior e tendo um personagem principal a servir como elo da narrativa. Mesmo assim, pode-se ponderar que paira sobre a história um drama frio e distanciado. Alguns dos eventos cataclísmicos que ocorrem não recebem uma carga emocional condizente. Os personagens não são muito densos e desenvolvidos do ponto de vista psicológico, mesmo Howard Falcon, um sujeito que atravessa as eras praticamente sozinho, pois perde seus amigos, não tem família e apenas a sua médica é o que mais se pode considerar como uma pessoa íntima – mas ela também é humana. Contudo, pode fazer sentido, pois afinal ele, conforme o tempo passa, tona-se cada vez menos humano e mais próximo das máquinas. Virtualmente imortal como elas.
As Crônicas de Medusa foi listada como “leitura recomendada” dos melhores do ano da revista Locus: The Magazine of the Science Fiction & Fantasy Field, a mais prestigiosa da FC, embora não tenha sido finalista do Hugo e Nebula.  E é surpreendente que tenha sido traduzida e publicada tão rapidamente no Brasil pois, afinal, o livro é de 2016. Talvez tenha a ver com o fato de Ronaldo Sérgio de Biasi ser o tradutor, uma figura importante na ficção científica brasileira no início dos anos 1990, quando editou as 25 edições da Isaac Asimov Magazine (1990-1993) – versão brasileira da Asimov´s Science Fiction. Biasi nunca escondeu que prefere a vertente hard da FC, e talvez tenha influenciado a editora a publicar este romance. Acertou em cheio.
Quando imaginamos que As Crônicas de Medusa seja uma homenagem a Arthur C. Clarke, já seria louvável, embora pudesse não acrescentar muita coisa aos autores, dois expoentes da FC hard desde, pelo menos, os anos 1990. Mas a obra vai além e se ombreia na melhor tradição da corrente temática mais tradicional do gênero.
Num momento em que parte expressiva da FC se repete de maneira desanimadora com histórias sobre temas distópicos, tornando o gênero mais pobre, As Crônicas de Medusa é um sopro de criatividade. Na melhor tradição de uma literatura de ideias, apresenta vários insights especulativos e reflexões sobre os possíveis efeitos complexos da convivência entre duas civilizações inteligentes. Mostra que a FC ainda pode ser capaz de obras no qual é possível especular de forma despojada, e em que o sense of wonder não só é desejável, como necessário. E que uma obra como esta tenha sido inspirada numa história de Arthur C. Clarke não é mera coincidência.


– Marcello Simão Branco

domingo, 16 de abril de 2017

O peculiar, Stefan Bachmann

O peculiar (The peculiar), Stefan Bachmann. 272 páginas. Tradução Viviane Diniz. Editora Record, selo Galera Júnior, Rio de Janeiro, 2014.

A Terra Velha, também conhecida como o mundo das fadas, liga-se ao mundo dos homens por portais que surgem eventual e naturalmente. Nesses episódios, homens desatentos os atravessam para ficar para sempre presos nas florestas selvagens da magia, ou fadas vêm parar aqui, onde definham por causa da magia fraca. Mas, em raríssimas vezes, surgem portais grandes o suficiente para que muitas fadas atravessem para o nosso mundo. É quando as coisas realmente ruins acontecem. Foi o que ocorreu em Bath, uma pequena aldeia próxima de Londres, na noite de 23 de setembro de algum ano no século 19. Todos os aldeões desapareceram misteriosamente e uma horda fadas selvagens começaram a causar todo tipo de problemas nos arredores. O exército interveio e uma guerra feroz aconteceu. No início, foi um massacre, mas aos poucos os homens aprenderam a subjugar as fadas e acabaram por vencê-las. Com o fim do conflito, que ficou conhecido como Guerra Sorridente, o mundo mudou. As fadas se tornaram um recurso valioso entre os homens, como fonte alternativa à tecnologia, embora esta ainda predomine na maior parte do mundo. Máquinas movidas a carvão e magia são coisas corriqueiras. Na virada do século, homens e fadas desfrutam de uma convivência quase pacífica, embora estas ainda estejam, em sua maior parte, escravizadas ou segregadas em guetos insalubres. As fadas até são toleradas, ao ponto de terem representantes no Parlamento, mas uma categoria delas é odiada pela sociedade, tanto humana quanto mágica: os peculiares, popularmente chamados de medonhos. Filhos da união entre fadas e homens, sem ser nem homens nem fadas, os peculiares são odiados e perseguidos até a morte. Por isso, ninguém ligou quando corpos ocos de peculiares jovens começaram a surgir boiando no Tâmisa.
Na periferia favelada de Bath, no Beco do Velho Corvo, os irmãos peculiares Bartholomew e Hattie Kettle moram com sua mãe humana. Seu lema de vida é "não seja notado e não será enforcado". Por isso, vivem escondidos no barraco que chamam de casa, fora das vistas de todos. Mas como a curiosidade também é um traço forte nas crianças peculiares, Barth vê quando uma linda e elegante dama num vestido cor de ameixa leva embora um de seus poucos amigos, peculiar como ele, entregue pela própria mãe a troco de alguma coisa. Mas a bisbilhotice de Barth não passou despercebida.
Em Londres, o despreocupado Sr. Jelliby segue com sua vida confortável como representante no Parlamento. Sobreviver às tediosas reuniões políticas é o principal desafio de sua vida, sendo que passa o restante de seu tempo em festas, espetáculos e bons restaurantes da metrópole. Mas o destino tem outros planos para ele e as coisas começam a acontecer muito rápido quando é obrigado, muito a contragosto, a comparecer a uma reunião social protocolar na residência do Lorde Chanceler John Wednesday Lickerish, a mais bem posicionada fada do império. Quando mais um peculiar é encontrado no Tamisa, um turbilhão de acontecimentos sinistros colocará o Sr. Jelliby ao lado do jovem Bartholomew, empurrando-os literalmente em direção ao fim do mundo.
O peculiar (The peculiar) é o romance de estreia do jovem escritor americano Stefan Bachmann, publicado em 2012 pela Harper Collins quando tinha apenas 19 anos, sendo elogiado por autores como Rick Riordan e Christopher Paolini. Bachmann nasceu em 1993, no Colorado, e vive atualmente em Zurique, na Suiça, onde estuda música, tendo composto uma trilha sonora para o livro, disponível em ThePeculiarBook. A edição brasileira veio em 2014 pelo selo Galera Junior da editora Record, com tradução de Viviane Diniz.
O romance impressiona pela concisão e boas ideias, dialogando com obras vultosas como o premiado Jonathan Strange & Mr. Norrell, de Susanna Clarke. Há um toque steampunk secundário na trama, embora seja um elemento útil em vários momentos. Também há méritos do autor na habilidade em reconstruir o ambiente britânico, algo que nem todo americano consegue tão naturalmente.
Bachmann escreveu uma sequência, The whatnot, publicado originalmente em 2013 e traduzido no Brasil pela mesma Record em 2015 com o título de Não-sei-o-quê, cujo capítulo inicial está disponível para leitura aqui.
-- Cesar Silva

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A Morte Veste Vermelho (I´m Dangerous Tonight, EUA, 1990)


A Morte Veste Vermelho” é um filme que tem direção de Tobe Hooper, um cineasta com nome reconhecido no gênero principalmente pelo eterno clássico “O Massacre da Serra Elétrica” (1974). O elenco é formado, entre outros, por Anthony Perkins, o psicopata Norman Bates de “Psicose”, e Dee Wallace-Stone, atriz veterana e um rosto conhecido por preciosidades dos anos 80 como “Grito de Horror”, “E.T. – O Extraterrestre”, “Cujo” e “Criaturas”. Lançado em nosso mercado de vídeo VHS pela “CIC”, o filme realmente desperta a atenção por essas credenciais e só por esses nomes no projeto já valeria uma conferida. Mas, fora isso, não deixa de ser apenas mais um filme mediano de horror, produzido diretamente para a televisão, que diverte ligeiramente sem muita exigência.
Um caixão misterioso que era utilizado em rituais de sacrifícios humanos pelos antigos astecas é comprado ilegalmente por um museu. Em seu interior repousa a múmia de um sacerdote maligno, vestindo um manto cerimonial vermelho com poderes sobrenaturais. Após um incidente com morte, o manto vermelho vai parar dentro de um baú que foi comprado numa venda de garagem pela bela estudante Amy O´Neill (Madchen Amick), namorada do colega de escola Eddie (Corey Parker). Depois de transformado num belo vestido, aos poucos a jovem vai descobrindo que o estranho tecido vermelho exerce forte influência na personalidade das pessoas que o vestem, despertando agressividade e tendências assassinas em seus usuários.
Entre as vítimas gananciosas do manto estão Gloria (Daisy Hall), prima de Amy, e Wanda Thatcher (Dee Wallace-Stone), uma mulher envolvida com bebidas, drogas e prostituição e que se aproveita do vestido sobrenatural para se afundar ainda mais na criminalidade. Os assassinatos misteriosos despertam a atenção da polícia, sob a investigação do Capitão Ackman (R. Lee Ermey), que sempre está fumando, e também a curiosidade do sinistro Prof. Gordon Buchanan (Anthony Perkins), que está interessado no “Animismo” (a crença que objetos inanimados possuem uma essência espiritual), e consequentemente nos eventuais poderes do misterioso manto vermelho, com sua história sobre violência e mortes sangrentas.
Quem combate monstros deve se cuidar para não virar monstro. Quando você olha um abismo, o abismo também olha para você.” – Friedrich Nietzsche (1844 / 1900)
Dessa vez parece que o título nacional escolhido é até melhor que o original. “A Morte Veste Vermelho” soa bem e tem relações coerentes com a história, funcionando bem melhor que “I´m Dangerous Tonight”, que numa tradução literal seria “Eu Estou Perigoso(a) Esta Noite”, um título mais comum e sem impacto. O filme tem o diferencial pela direção de Tobe Hooper e elenco com Dee Wallace-Stone e Anthony Perkins, mas isso não é suficiente para torná-lo especial. A história, baseada num conto de Cornell Woolrich, até tem seus interesses, mas o resultado final é mediano, principalmente pelas doses discretas de violência. O desfecho apresenta um gancho que até poderia ser explorado para uma sequência, mas a ideia foi descartada.
(Juvenatrix –12/04/17)

domingo, 9 de abril de 2017

A Morada do Terror (Grandmother´s House, EUA, 1988)


Com direção de Peter Rader, “A Morada do Terror” (outro título nacional oportunista e sem relação com o original) é de 1988 e foi lançado por aqui em VHS pela “Transvídeo”. A produção é do grego Nico Mastorakis, que também é conhecido pela direção de outras bagaceiras dos anos 1970 e 80 como “A Ilha da Morte” (1976),  “A Próxima Dimensão” (1984) e “The Zero Boys” (1986).
Depois da morte do pai dos irmãos adolescentes David (Eric Foster) e Lynn (a bela Kim Valentine), eles vão morar com seus avós numa casa de campo (daí o nome original “A Casa da Vovó”). São bem recebidos pelo avô (Len Lesser) e a avó (Linda Lee), mas depois que o garoto David testemunha um movimento suspeito deles com uma misteriosa e estranha mulher (a “scream queen” Brinke Stevens), ele passa a se sentir inseguro e desconfia que seus parentes mais velhos possam estar envolvidos em assassinatos.
Qualquer informação adicional pode ser considerada “spoiler” e comprometer a diversão do espectador, pois o filme é cheio de reviravoltas e revelações importantes ao longo da história. Temos um clima constante de suspense que consegue manter a atenção, apesar de que algumas situações inverossímeis ocasionalmente atrapalham o resultado final. Alguns personagens desaparecem por um tempo e reaparecem depois, numa manobra propícia para facilitar o trabalho do roteirista, porém prejudicando a coerência da história.
O filme tem pouco sangue, as mortes são discretas e as cenas de golpes com faca e machado não evidenciam o líquido vermelho, com as lâminas limpas mesmo após penetrarem repetidas vezes nos corpos das vítimas, numa falha grosseira que minimiza o grau de violência. Mas, ainda assim, “A Morada do Terror” consegue despertar o interesse com as reviravoltas na descoberta da verdade. A dupla de atores adolescentes cumpre bem o papel, principalmente o garoto Eric Foster, assumindo uma posição importante na história tentando entender a postura sinistra de seus avós e a real identidade da mulher misteriosa que surge para aterrorizar a casa. E o veterano ator Len Lesser (1922 / 2011) também se destaca no papel do avô com segredos obscuros do passado, numa interpretação assustadora e convincente.
(Juvenatrix –09/04/17)

terça-feira, 4 de abril de 2017

A Marca do Vampiro (Pale Blood, EUA / Hong Kong, 1990)


Lançado em VHS no Brasil pela “Sato Comunicações”, “A Marca do Vampiro” (Pale Blood, 1990) é um obscuro filme de vampirismo totalmente datado, nos remetendo ao período de transição entre as décadas de 80 e 90 do século passado, uma época sem as facilidades do celular, da internet e dos efeitos artificiais de computação gráfica. Tudo é datado, desde a atmosfera, figurinos e trilha sonora, com várias músicas da banda americana de punk rock “Agent Orange”.
Numa co-produção entre EUA e Hong Kong e com direção de V. V. Dachin Hsu e Michael W. Leighton, a história é sobre a chegada aos Estados Unidos de um misterioso homem vindo da Europa, Michael Fury (George Chakiris), atraído pela ocorrência de estranhos assassinatos em série de mulheres, que apresentavam sinais de mordidas no corpo e com o sangue drenado, como se fossem atacadas por um vampiro. Ele solicita ajuda para investigar os casos, contratando uma bela jovem, Lory (Pamela Ludwig), representando uma agência de detetives. Ela é aficionada pelo tema do vampirismo, consumindo filmes e livros sobre o assunto. Em paralelo, um videomaker esquisito, Van Vandameer (Wings Hauser), contrata duas dançarinas de boate, Jenny (Diana Frank) e Cherry (Darcy DeMoss) para participarem de um filme erótico, e misteriosamente ele sempre aparecia nas cenas dos crimes para captar imagens. Com os principais personagens apresentados, a ideia é descobrir a autoria das mortes sangrentas e a possível relação com as ações de um vampiro.
Primeiramente, vale registrar uma crítica na escolha do nome nacional, que poderia ser uma tradução literal do original, algo como “Sangue Pálido”, uma vez que já existia um filme chamado “A Marca do Vampiro” (Mark of the Vampire), de 1935 e com o ícone Bela Lugosi, confundindo os colecionadores e apreciadores do cinema fantástico, e dificultando ainda mais um trabalho de catalogação.
Esse “A Marca do Vampiro” de 1990 não apresenta nada que já não tenha sido visto à exaustão em filmes de vampirismo, e sua existência praticamente significa apenas mais um produto dentro do tema e que foi criado para permanecer no limbo do esquecimento. A presença do ator canastrão Wings Hauser, um rosto conhecido em uma infinidade de produções bagaceiras, pode até ser um convite para conhecer o filme, mas a narrativa arrastada e os clichês por outro lado tendem a afastar o espectador.
Curiosamente, no quarto da jovem investigadora Lori, consumidora de produtos relacionados ao vampirismo, podemos notar a exibição do clássico “Nosferatu” (1922) na televisão, além de posters de cinema nas paredes, com destaque para uma foto do ator Bela Lugosi caracterizado como “Drácula” e o cartaz francês do filme “O Beijo do Vampiro” (Kiss of the Vampire, 1963) da lendária produtora inglesa “Hammer”.
(Juvenatrix –03/04/17)

domingo, 2 de abril de 2017

A Maldição de El Diablo (The Evil Below, EUA, 1989)


Algumas coisas são melhores deixadas sozinhas

A frase acima é uma tradução literal de uma tagline promocional do filme “A Maldição de El Diablo” (The Evil Below, 1989), e podemos alterar para algo como “Alguns filmes são tão descartáveis que não valem a pena assistir”. Lançado em vídeo VHS em nosso mercado pela “Top Tape”, o filme foi dirigido por Jean-Claude Dubois, em seu único trabalho.
Max Cash (Wayne Crawford) tem um barco e leva turistas para pescar em alto mar, auxiliado pela jovem assistente Tracy (Sheri Able). Endividado, ele aceita o convite de uma bela mulher, a professora de Arte Sarah Livingstone (June Chadwick), para alugar seu barco por uma semana na tentativa de localizar um suposto tesouro perdido num navio espanhol que naufragou em 1683. O navio carregava artefatos religiosos roubados por um grupo de padres hereges renegados do catolicismo, inspirados por Lucifer. Por causa disso, o navio afundado, conhecido por “El Diablo” (do título nacional), tinha fama de amaldiçoado e seu paradeiro no fundo do mar era desconhecido e protegido por um misterioso guardião sobrenatural, Adrian Barlow (Ted Le Platt). 
A ideia central do roteiro nem é tão ruim, com potencial para uma boa história. Porém, não é o que acontece com “A Maldição de El Diablo”, cujo título original numa tradução literal seria algo como “O Mal Abaixo”. O filme é arrastado e quase sem elementos de horror, perdendo a oportunidade de explorar melhor a lenda de um navio satânico maldito e as conseqüências para todos que se atreviam a tentar roubar seus tesouros. Tem poucas mortes e sangue, quase sempre fora da tela, e a parte “mistério sobrenatural” não consegue empolgar, num inevitável convite ao sono.
Curiosamente, no mesmo período foram lançados vários filmes com temática sub-aquática como por exemplo “Abismo do Terror” (Deep Star Six), de Sean S. Cunningham, e “Leviathan”, de George P. Cosmatos, que pelo menos divertem muito mais que a bagaceira analisada nesse breve texto.   
“Convém não mexer em certas coisas, senão você morre misteriosamente” – tagline promocional da fita VHS lançada no Brasil. Acho que ficaria melhor assim: “Convém não ver esse filme, senão você pode dormir de tédio.”
(Juvenatrix –01/04/17)

sexta-feira, 31 de março de 2017

A Maldição dos Espíritos (Spirits, EUA, 1990)


A frase acima é uma junção de duas taglines originais promocionais do filme “A Maldição dos Espíritos” (Spirits, 1990), lançado no mercado brasileiro de vídeo VHS pela “Carat Home Video”. A direção é do veterano Fred Olen Ray, dono de um currículo imenso repleto de bagaceiras, e o elenco é liderado por Erik Estrada, da cultuada série de TV “CHiPs” (1977 / 1983), e por Robert Quarry, conhecido por vários filmes preciosos de horror como “Conde Yorga, Vampiro” (1970), “A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes” (1972) e “A Casa do Terror” (1974).   
A história é manjada e já vista várias vezes em outros filmes. Um grupo de estudiosos de fenômenos paranormais vai investigar uma casa assombrada que tem um passado sinistro de mortes violentas. A equipe de investigação é formada pelo cientista Dr. Richard Wicks (Robert Quarry), a psicóloga descrente Beth Armstead (Kathrin Middleton), a médium sensitiva Amy Goldwin (Brinke Stevens, veterana atriz com carreira de mais de 150 créditos de tranqueiras diversas), e pelo membro da “Sociedade de Preservação Histórica” Harry Matthias (Oliver Darrow). O objetivo do grupo é obter provas da existência de espíritos (daí o título original), de vida após a morte, baseando-se em relatos sobre atividades psíquicas misteriosas no local e que resultaram em assassinatos.
A casa existe desde 1901 e seu morador original foi um expatriado francês místico e ocultista, que realizava rituais satânicos com sacrifícios de jovens virgens. Enquanto eles enfrentam a ira dos espíritos malignos que assombram a casa, um padre católico, Anthony Vicci (Erik Estrada), está atormentado pela perda da fé e por ter cometido pecados com uma bela mulher que viveu na casa maldita, sendo constantemente perturbado com visitas de demônios femininos, obrigando-o a se juntar ao grupo de investigadores para tentar combater o mal que habita a casa.
Primeiramente, não dá para deixar de citar a escolha do nome nacional do filme, apelando para o manjado “Maldição” no título, somando-se às dezenas de outros filmes que também tem essa palavra clichê em seus nomes, numa falta de criatividade imensa dos responsáveis por essa tarefa, os preguiçosos distribuidores dos filmes de horror que chegam ao Brasil.
“A Maldição dos Espíritos” é certamente um filme datado, nos remetendo imediatamente para os anos 80 e início de 90. Uma época sem a artificialidade da moderna computação gráfica, tanto que os efeitos das pessoas possuídas pelos espíritos malignos e demônios são tão toscos que divertem pela precariedade, com os atores maquiados e transformados em monstros. O filme tem um diretor de cinema bagaceiro, um nome associado ao gênero, e tem um elenco de atores cultuados pelos apreciadores de filmes de orçamentos menores. Apesar de que parece bem apelativa a exploração do nome de Erik Estrada, inclusive com um dos cartazes do filme estampando seu rosto, sendo que na verdade ele nem aparece tanto em cena, com o foco de boa parte das atenções para o grupo de estudiosos da casa assombrada.
O roteiro é um grande clichê, já explorado à exaustão pelo cinema de horror, onde podemos citar apenas por curiosidade os clássicos “Desafio ao Além” (The Haunting, 1963) e “A Casa da Noite Eterna” (The Legend of Hell House, 1973), com histórias muito similares, também apresentando um grupo de pesquisadores que investiga as atividades sobrenaturais de uma casa com fama de maligna.
Depois dessa breve análise, o que podemos dizer é que o filme é indicado para quem aprecia bagaceiras oitentistas e se diverte com efeitos toscos, histórias rasas, clichês comuns e atores com imagens associadas às produções de orçamentos reduzidos.
(Juvenatrix –26/03/17)

sexta-feira, 17 de março de 2017

Uma Introdução aos Prêmios de Ficção Científica e Fantasia

Marcello Simão Branco

Quem disse que é só o cinema americano que tem o seu Oscar? Se a festa maior do cinema acontece no último domingo de fevereiro, a da ficção científica dos Estados Unidos acontece no primeiro domingo de setembro, com a entrega do Hugo. Assim como a Sétima Arte, a Arte do Amanhã também tem vários prêmios de diferentes matizes.
Se no cinema americano o Oscar foi instituído em um momento decisivo, em 1928, com o surgimento dos filmes falados, com relação à ficção científica americana deu-se um fenômeno semelhante.
Era o início dos anos 1950, e o gênero começava a ganhar ares industriais, passando do ambiente dos pulp magazines (revistas baratas vendidas em bancas de jornais e supermercados), para a das grandes editoras, que começavam a publicar regularmente os primeiros livros de ficção científica, aproveitando os autores mais populares dos anos 1940, na chamada Golden Age: Isaac Asimov (1920-1992), A.E. Van Vogt (1912-2000), Robert Heinlein (1907-1988) e Frederik Pohl (1919-2013).
É nesse clima de expansão comercial que surgem os primeiros prêmios voltados à ficção científica. O primeiro deles foi o International Fantasy Award (IFA), criado na Inglaterra, por um grupo de fãs e escritores em 1951. Escolhiam os vencedores alguns nomes importantes da ficção científica britânica. A primeira obra vencedora foi o romance Só a Terra Permanece (Earth Abides), do escritor americano George R. Stewart (1895-1980), um clássico.
Mas o IFA acabou superado por aquele que viria a ser o prêmio mais popular da ficção científica em todo o mundo, o Hugo. Ele foi criado em 1953 pelo fã Hal Linch e apresentado na Convenção Mundial de Ficção Científica daquele ano, na Filadélfia. O primeiro vencedor é outra obra clássica da ficção científica, O Homem Demolido (The Demolished Man), de Alfred Bester (1913-1987). A partir de 1955 na WorldCon realizada em Cleveland até o prêmio a ser entregue este ano em San José (California), o Hugo vem sendo entregue todos os anos aos melhores e mais populares da ficção científica em língua inglesa.
A exemplo do Oscar, o Hugo - com o troféu ao lado -, é entregue em várias categorias, tais como romance, novela, conto, filme, editor, ilustrador etc., refletindo mais tendências populares do que propriamente critérios artísticos. Também como o principal prêmio do cinema, seu nome deriva de uma homenagem carinhosa. Só que ao contrário do Oscar, que ninguém sabe realmente quem foi, o Hugo lembra a figura do editor Hugo Gernsback (1884-1967). Ele foi o sujeito que publicou a primeira revista dedicada inteiramente à ficção científica em todo o mundo, Amazing Stories, a partir de 1926 e também cunhou o termo “science fiction”.
Os vencedores em cada categoria são escolhidos por eleição dos fãs, votando tanto aqueles que comparecem às WorldCons, tanto aqueles que mandam seus votos por correspondência. A partir do ano 2000 passou a ser aceito votos enviados pela Internet. Nos últimos anos o Hugo tem enfrentado polêmicas relacionadas a grupos ou escritores que dizem representar minorias e, por se sentirem prejudicados, adotam ações de lobby ou sabotagem para prejudicar o prêmio. Mesmo assim ele segue inabalável como o mais representativo do campo da FC.

Escritores
Se o Hugo é o prêmio dos fãs, surge em 1965 um prêmio mais rigoroso quanto à escolha dos vencedores. É o Prêmio Nebula, criado pela Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFFWA), uma associação de escritores norte-americanos. Votam no Nebula apenas os autores associados e as categorias são apenas literárias: Melhor romance, novela, noveleta, conto e, mais recentemente, roteiros de cinema e televisão. O primeiro vencedor do Nebula, foi um dos clássicos absolutos da ficção científica, Duna, de Frank Herbert (1920-1986), que também conquistou o Hugo no mesmo ano.
A partir de 1974 o Nebula passou a ser entregue também a um escritor com destacada carreira e influência dentro da ficção científica, o chamado Grande Mestre, rebatizado posteriormente como Damon Knight Memorial Grand Master, em homenagem ao escritor e crítico Damon Knight (1922-2002), também agraciado com o título em 2002. O primeiro homenageado foi Robert Heinlein (1907-1988). Arthur C. Clarke (1917-2008), Isaac Asimov e Ray Bradbury (1920-2012) também já ganharam. No total 33 autores já foram lembrados, e em 2017 o prêmio será entregue para Jane Yolen, autora ainda inédita no Brasil.  

Não demorou muito para a indústria editorial americana explorar o filão dos autores e obras vencedores do Hugo e Nebula. Livros que vencem estes prêmios têm edições extras, seus autores são mais bem pagos, editam-se várias antologias com os contos vencedores de ambos os prêmios. E, de mais a mais, não deixa de ser um critério objetivo de qualidade para o leitor na hora de escolher que livro de ficção científica levar para casa.
Sendo a sociedade americana extremamente competitiva e diversificada, não demorou em surgir outros prêmios, de características mais específicas. Entre eles, podemos citar, o World Fantasy Award, um equivalente do Hugo para o gênero fantasia; dois prêmios que levam o nome de John W. Campbell, Jr (1910-1961), o mais influente editor da história da FC dos EUA: o John Campbell Award, entregue ao autor revelação do ano, e o John Campbell Memorial Award, para o melhor romance de FC do ano nos EUA, agraciado pela Kansas Science Fiction and Fantasy Society; o prêmio entregue pela principal revista sobre ficção científica no mundo, a Locus, que leva o seu nome; além de dois prêmios britânicos tradicionais, entregue por associações de fãs e escritores: British Science Fiction e o British Fantasy.
E sem esquecer de citar os prêmios que recebem nomes de escritores consagrados, como Philip K. Dick, Arthur C. Clarke e Theodore Sturgeon. O primeiro para o melhor romance em formato pocket (bolso) publicado anualmente nos Estados Unidos; o segundo para o melhor romance publicado na Grã-Bretanha; e o terceiro para o melhor conto norte-americano do ano.

Cinema
Mas se estamos falando dos prêmios literários, é importante lembrar que existem também prêmios para o cinema de ficção científica, tal como o Saturno - com o troféu ao lado -, e o Avoriaz, este entregue no festival espanhol de cinema de mesmo nome. Mas a referência principal no cinema também é o Hugo. A categoria “Dramatic Presentation”, que representa séries de TV e filmes para o cinema é a mais concorrida e votada todos os anos.
Algumas obras seminais que mudaram o destino do gênero na TV e cinema ganharam o Hugo, tais como a série Além da Imaginação (por três anos), Jornada nas Estrelas (clássica, dois anos), 2001: Uma Odisséia no Espaço, Guerra nas Estrelas, Os Caçadores da Arca Perdida, Blade Runner, Truman Show e, no ano passado, Perdido em Marte, como longa-metragem, e um episódio da série Jessica Jones.
Mas não é só nos States e no Reino Unido que os prêmios de ficção científica proliferaram. Países como França, Austrália, Rússia, Itália, Espanha e Japão também entregam prêmios importantes no ambiente local de sua produção literária de ficção científica.

Brasil
Mas e nós? No Brasil, os prêmios de ficção científica também existem e vieram a refletir o desenvolvimento do gênero no fim dos anos 1980. Assim surgiu o Prêmio Nova, criado pelo fã e escritor Roberto de Sousa Causo em 1987. O objetivo foi homenagear os trabalhos de destaque em cada ano e incentivar a competição e o aprimoramento entre os escritores, editores e ilustradores de ficção científica no Brasil. Desta forma, o Nova mudava o número de categorias quase todos os anos e também o critério de votação, refletindo o que se produzia em termos de ficção científica brasileira. Embora restrito à comunidade de fãs, o Nova durou dez anos – até 1996 – é uma tradição em nossa história, além de ter legado um herdeiro nos dias atuais, o Prêmio Argos.
Entregue pelo Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), entre 2000 e 2003, é escolhido pelo voto dos sócios foi o primeiro e único prêmio brasileiro de ficção científica, que remunerou os vencedores – em suas duas primeiras edições. Depois de ausente alguns anos retornou em 2012 e mantém-se ativo no momento.
Outros prêmios foram criados e descontinuados. Ainda nos anos 1990, o fanzine Megalon promoveu a entrega do Prêmio Tapìraì, entre 1992 e 1994, votado pelos leitores da publicação; também originário dos anos 1990, o Prêmio SBAF, da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica, era concedido a uma pessoa em particular por serviços relevantes para o desenvolvimento da ficção científica no Brasil. Não era concedido  necessariamente todo ano, mas apenas quando seu júri entendia que alguém havia se destacado o suficiente. O último premiado foi o escritor Roberto de Sousa Causo, em 2003,  com seu livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (1875-1950). De certa forma, anda que não oficialmente, este prêmio foi substituído pela seção de entrevista “Personalidade do Ano”, do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, edição coordenada por Marcello Simão Branco e Cesar Silva, publicado entre 2004 e 2013.
 Alguns outros prêmios foram extemporâneos como o Prêmio Fantasticon, entregue apenas em 2011, durante o simpósio literário de mesmo nome; o “Melhores do Ano”, em votação realizada apenas na internet, entregue em 2010; o Codex de Ouro, de caráter bianual, também apurado no ambiente da internet. Sua última premiação foi em 2015.
Se no Brasil os prêmios não tem repercussão comercial e nem chegam a incentivar a carreira dos vencedores, tem sim sua importância, no sentido de fazer um registro do melhor da produção do gênero entre nós, ao longo dos anos. Além de revelar as tendências temáticas premiadas no gosto do leitor brasileiro e estimular uma pequena, mas renhida competição em algumas categorias já tradicionais, como ficção curta e fanzine. É pouco? Em termos de mercado profissional, sem dúvida. Mas em termos de instituição de uma tradição e reconhecimento do trabalho entre os brasileiros que produzem ficção científica e gêneros afins, é um serviço vital e que deve ser mantido e aperfeiçoado, e ampliado com a criação de mais prêmios.