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sábado, 27 de maio de 2017

Rubens Teixeira Scavone (1925-2007)

Promotor e Corregedor do Ministério Público, professor universitário, jornalista, romancista e ensaísta, Rubens Teixeira Scavone faleceu no dia 17 de agosto de 2007, aos 82 anos.
Nascido na cidade de Itapira, interior de São Paulo, em 8 de julho de 1925, filho dos escritores Hermelino Scavone e Maria de Lourdes Teixeira, o pequeno Rubens teve acesso a uma das mais completas bibliotecas do Brasil em sua própria casa. Mesmo depois da separação de seus pais mãe, continuou a conviver num meio erudito porque seu padastro, José Geraldo Vieira, também era um escritor importante.
Scavone graduou-se em 1948 pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco e seguiu a carreira do Direito, como Promotor de Justiça, chegando a ser Corregedor Geral do Ministério Público.
Paralelamente, desenvolveu uma sólida carreira literária, com uma das mais expressivas bibliografias da literatura fantástica brasileira. Estreou em 1958 com o romance O homem que viu o disco voador (Palácio do Livros), que publicou sob o pseudônimo de Senbur T. Enovacs, um anagrama de seu próprio nome. Em 1961, publicou duas coletâneas de contos, Diálogo dos Mundos (GRD) e Degrau para as estrelas (Martins), além de participar da Antologia brasileira de ficção científica (GRD), um período literariamente muito ativo.
Entretanto, Scavone não se limitou à literatura fantástica e alcançou muito sucesso também redigindo ensaios e romances mainstream. Em 1973 foi agraciado com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro por Clube de campo (Record), um denso romance de mistério que se passa exatamente no dia em que o homem pousou na Lua.
Apesar de todo o sucesso, Scavone não deixou de participar das atividades dos fãs de ficção científica no Brasil, com os quais sentia grande identificação.

Sempre gentil e atencioso, esteve presente no histórico Simpósio de Ficção Científica do Rio de Janeiro, em 1969. Também foi convidado para formar a mesa de debates da 1ª Mostra de Ficção Científica do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), em 1987 no SESC Pompéia, em São Paulo, foi convidado da II InteriorCon 1991, em Sumaré/SP, e da I HiperCon 1993, em Santo André/SP, mesmo ano em que publicou a importante novela O 31º peregrino (Estação Liberdade), resenhada adiante.
Em 1988 foi eleito para a cadeira nº18 da Academia Paulista de Letras, que presidiu por dois mandatos.
Depois disso, debilitado por problemas de saúde, não apareceu mais entre os fãs. Mesmo assim, participou das antologias Estranhos contatos (Caioá, 1998), Histórias de ficção científica (Ática, 2005), Vinte voltas ao redor do Sol (CLFC, 2005) e Os melhores contos brasileiros de ficção científica (Devir, 2007), estas últimas através da representação de seu filho, o fotógrafo  Marcio Scavone.
Rubens T. Scavone deixa um importante legado, com um acervo de contos, novelas e romances de altíssima qualidade, que merece ser republicado para conhecimento das novas gerações de leitores. Sua contribuição para a identidade da ficção fantástica brasileira é importantíssima e deve ser sempre  referenciada.

Bibliografia:
= O homem que viu o disco voador (Palácio do Livros, 1958) – Romance.
= Degrau para as estrelas (Martins, 1961) – Coletânea.
= Diálogo dos mundos (GRD, 1961) – Coletânea.
= Antologia brasileira de ficção científica (GRD, 1961) – Antologia.
= Ensaios norte-americanos (Revista dos Tribunais, 1963) – Ensaio.
= Além do tempo e do espaço (EDART, 1965) – Antologia.
= O lírio e a antípoda (Revista dos Tribunais, 1965) – Romance.
= Passagem para Júpiter (Mundo Musical, 1971) – Coletânea.
= Clube de campo (Record, 1973) – Romance.
= A noite dos três degraus (Melhoramentos, 1976) – Romance .
= Morte, no palco (Clube do Livros, 1979) – Coletânea.
= Faukner & cia (Soma, 1984) – Ensaio.
= O Projeto Dragão (Scipione, 1988) – Coletânea.
= Templários, Frankenstein, Buracos Negros e outros temas (Hemus, 1991) – Ensaio
= Sete faces da ficção científica (Moderna, 1992) – Antologia.
= Sete faces da ficção espacial (Moderna, 1992) – Antologia.
= O 31º peregrino (Estação Liberdade, 1993) – Novela.
= Estranhos contatos (Caioá, 1998) – Antologia.
= Vinte voltas ao redor do Sol (CLFC, 2005) – Antologia.
= Histórias de ficção científica (Ática, 2005) – Antologia.
= Os melhores contos brasileiros de ficção científica (Devir, 2007) – Antologia.
Cesar Silva

segunda-feira, 20 de abril de 2015

O Homem que Viu o Disco Voador, Rubens Teixeira Scavone

O Homem que Viu o Disco Voador, Rubens Teixeira Scavone. 221 páginas. São Paulo: Editora Melhoramentos, Série “Escape”, São Paulo. Edição de 1975. Lançado originalmente em 1958.

Por vários motivos este livro tem importância na história da ficção científica brasileira. Marcou a estreia profissional de Rubens Teixeira Scavone (1925-2007), que iria se tornar pelas décadas seguintes um dos mais importantes autores brasileiros dedicados ao gênero. Representou também o início da chamada “Geração GRD”, o primeiro momento expressivo em termos de obras e movimento literário da ficção científica em nosso país.[1] E, de certa forma, também simboliza o diálogo deste gênero literário com a ufologia, tão mal afamada e incompreendida naquele tempo e ainda hoje.
Publicada originalmente pela editora Palácio do Livro, de São Paulo, a obra chama a atenção já na capa, ao lermos o nome do autor. Um certo Senbur T. Enovacs. Talvez por algum tempo este nome tenha prevalecido na autoria desta obra, mas a verdade é que ele é um anagrama – nome escrito ao contrário –, de Rubens T. Scavone.
O que levou Scavone, filho de Maria de Lurdes Teixeira e José Geraldo Vieira, autores de prestígio junto ao mainstream nacional, a ocultar o seu nome? Talvez o tema, muito polêmico à época, além da marginalização que a ficção científica também desfrutava. De qualquer forma, tornou-se um detalhe sem grande importância nos anos seguintes, pois O homem que viu o disco voador, foi um best-selller, republicado em várias edições, e já com o nome verdadeiro do autor.
O livro tem um objetivo claramente didático e não esconde isso em sua estrutura narrativa e no desenvolvimento da ação e do perfil e comportamento dos personagens, um pouco estereotipados e sem profundidade maior. E está dividido em três partes distintas e complementares.
Na primeira, intitulada de “O mistério”, temos a exposição direta de dois contatos com objetos voadores não identificados (Ovnis). Logo de saída, o aviador Eduardo Germano de Rezende não entende a pane nos instrumentos de seu avião, quando estava prestes a pousar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Semanas depois testemunha um avistamento concreto, próximo a uma das asas de um avião que pilotava. Trata-se de um estranho objeto circular, que inunda o interior da nave com uma luz intensa. Ao contrário do primeiro fenômeno, este é testemunhado pela tripulação e todos os passageiros.
Neste segundo contato, Eduardo conhece um renomado cientista, que expõe a ele de forma rápida o seu profundo conhecimento sobre o assunto. Aos dois, se junta a comissária de bordo, Leila, que não esconde a afeição íntima pelo comandante. Depois de voltar desta viagem, o aviador é perseguido por um homem que deixa em seu apartamento um estranho aparelho. É um visor-transmissor que faz um comunicado dos seres responsáveis pelos dois contatos e que deseja um terceiro, para lhe revelar os segredos de sua origem e as suas intenções. Em princípio abalado e confuso, Eduardo terá a ajuda de sua namorada e do cientista Augusto Vaugirard para saber como proceder frente à convocação. O encontro deve acontecer na ilha de Trindade, próximo à costa atlântica brasileira, a cerca de 1600 km do litoral capixaba. Aos três se junta um colega de trabalho de Eduardo e Leila, o radiotelegrafista Santos, pois ele é dono de um barco apropriado para a viagem.[2]
A segunda parte do romance tem o nome de “Ilha” e narra o fantástico encontro de terceiro grau do grupo com os seres misteriosos. O disco voador aparece no horizonte da noite estrelada sobre a ilha, paira sobre eles e depois de alguns minutos aterrissa. As cinco páginas que descrevem a aparição e a reação das pessoas é o momento principal da obra, pois é narrada com precisão e emoção ao mesmo tempo, com muita verossimilhança, como se Scavone tivesse narrando uma experiência que tivesse realmente vivido.[3]
Um ser humanóide de nome Alik sai do disco e se comunica com o grupo. Convida-os para entrar na nave e lá explica parte de suas intenções. Talvez o mais surpreendente é que ele diz que não é extraterrestre, mas sim intraterrestre. Ou seja, é um ser humano que habita o interior da Terra. Há milhares de anos parte da população da superfície teria entrado em túneis e cavernas e, a partir daí, desenvolvido uma tecnologia que os permitisse perfurar o interior do planeta e construir o mundo de Agarta, composto por sete cidades interligadas. Os avistamentos de discos voadores ocorreriam há milhares de anos, com o intuito de monitorar as atividades dos humanos da superfície.[4] Mas embora não se anunciassem publicamente, teriam ido mais longe, pois alguns deles estariam misturados junto aos habitantes da superfície e teriam recrutado colaboradores que serviriam aos seus planos de união a longo prazo das duas civilizações. Eduardo e seus companheiros seriam apenas mais alguns recrutados para esta missão. Contudo, se eles revelassem publicamente o que agora sabiam seriam “anulados”.


A terceira parte, chamada de “A ameaça”, versa fundamentalmente sobre os desdobramentos deste contato. A vida dos quatro muda inteiramente e eles têm de se manter unidos em seu segredo, pois temem o que pode vir a ser esta “anulação”. Contudo, Santos distoa do restante, ao questionar a origem dos intraterrenos, seus objetivos e ameaças. Então conta o que sabe aos jornais de São Paulo e a vida dele e dos outros três passa a correr risco. É muito curioso como os jornais aceitam e publicam a história de uma pessoa, sem maiores questionamentos. É verdade que eles ocorrem depois que a história é publicada, mas é muito irrealista o comportamento da imprensa neste episódio. Santos relata que a experiência foi vivida apenas por ele e Vaugirard, deixando de fora o casal. O raditelegrafista é devidamente “anulado”, com o sumiço de seu avião em pleno vôo. Já a polêmica que se segue acaba com a reputação do cientista e leva Eduardo e Leila, numa próxima viagem a uma decisão radical de cortar o contato com os seres do disco voador. Com isso acaba não acontecendo a próxima etapa do recrutamento do grupo e nem o avanço dos objetivos dos seres de Agarta, tudo terminando com a manutenção mistério, da dúvida e do segredo do que seria de fato os tais discos voadores.
Embora a parte final seja repleta de um suspense que mantém o interesse, o romance partiu para um anticlímax, pois o momento principal da história foi vivido no meio do livro. Para quem esperava o aprofundamento do contato, a história retrocede quase que a um ponto inicial, a não ser pelo segredo agora partilhado pelos sobreviventes do contato. De certa forma, isso seria um reforço conservador para o mundo tal e qual conhecemos, deixando de lado situações que possam fugir ao nosso controle.
Scavone contou em uma entrevista que O Homem que Viu o Disco Voador foi escrito por volta de 1955 e 1956 para o seu filho, que gostava das aventuras de Julio Verne.[5] Além disso, nessa época, ele também tinha interesse pelo assunto. Então, talvez possamos afirmar que o romance didático e algo esquemático nasce de sua própria motivação de entender um pouco mais sobre o fenômeno dos Ovnis, já nos anos 50 bastante popular nos céus de todo o mundo. Isso talvez explique também porque a história não avance muito, só insinue – e até de forma surpreendente, como na revelação da origem do disco –, mas não tenha muito interesse em extrapolar para uma história de grandes especulações, como chegou a sugerir que faria na metade da obra.
Contudo, mesmo com estas limitações de método, tema e desenvolvimento de personagens, a obra tem brilho próprio, pois nota-se o talento em formação de Scavone, que iria se tornar um dos mais estilosos e certamente o mais erudito dos escritores brasileiros de ficção científica. Para se notar como o tema era caro ao autor, retornaria a ele em mais duas histórias curtas, “O número transcendental”, na coletânea Diálogo dos mundos (1961) e “O grande eclipse”, publicada nas antologias Sete faces da ficção espacial (1992) e Estranhos contatos (1998). E, por fim, ainda produziria em sua maturidade, a obra-prima O 31o peregrino (1993), numa história de abdução por extraterrestres em plena Inglaterra do século 14.
Por tudo isso e mais vale a pena voltar nossa atenção crítica ao primeiro livro de Scavone, para ilustrar como a tradição deste segmento temático dentro da ficção científica brasileira ainda está viva e em contínua renovação, como atesta o lançamento em 2008 do romance De Roswell a Varginha, de Renato A. Azevedo, pela Tarja Editorial. Pois queiram os puristas ou não, o fato é que Scavone inaugurou uma tradição que se manteve ao longo dos anos com outras obras[6] e que tem enriquecido com um dos olhares mais particulares, a maneira como o brasileiro escreve e interpreta os temas associados direta ou indiretamente à ficção científica.
Marcello Simão Branco




[1] Ao lado da antologia Maravilhas da ficção científica, organizada por Mário da Silva Brito, para a editora Cultrix, de São Paulo, no mesmo ano. A Geração GRD, também nomeada de Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira, teria perdurado até 1972, com o fim da publicação da revista Magazine de Ficção Científica, da editora Globo, de Porto Alegre.
[2] Pouco antes do livro ser publicado aconteceu um fenômeno de observação ufológica nesta ilha, em 16 de janeiro de 1958, onde um fotógrafo a bordo de um navio da marinha brasileira tirou seis fotografias de um OVNI. Como observa Roberto Causo em Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (pág. 103, nota 29): “Como o romance de Scavone foi publicado no segundo semestre de 1958, haveria tempo do escritor incorporar a repercussão do avistamento.”
[3] Inclusive, na contracapa da edição de 1975 utilizada para esta resenha, há uma ótima ilustração desta cena, de autoria de Myriam R. da Costa Araújo. Deveria mesmo ter sido a da capa.
[4] Ora, esta é a tese de algumas teorias paracientíficas ou místicas sobre como seria de fato o interior do planeta e a origem dos discos voadores. Uma obra relevante sobre o tema é a de Raymond Bernard, A Terra oca: A descoberta de um mundo oculto (The hollow Earth, 1969), publicado pela editora Record no início dos anos 1980. Talvez Scavone tenha bebido desta fonte a partir da suposta experiência do Contra-almirante Richard Byrd, dos Estados Unidos, que afirma ter entrado com mais alguns tripulantes com um avião, 3.700 Km no interior do planeta, a partir do Polo Sul, em janeiro de 1956. O livro de Bernard conta esta suposta aventura com detalhes.
[5] Concedida a David Lincoln Dunbar, Unique motifs in brazilian science ficion. É o primeiro trabalho acadêmico sobre a ficção científica brasileira, defendida na Arizona State University, em 1976. Esta citação foi retirada do livro ainda inédito, Depois do Sputnik: O debate cultural sobre ficção científica no Brasil, organizado por Roberto de Sousa Causo.
[6] Vários livros no sub-gênero “ficção científica ufológica” tem sido publicados nas últimas décadas, a maioria deles, é verdade, desvinculados de uma indentificação com o gênero, de cunho mais supostamente testemunhal ou mesmo espiritualista. Na tradição do gênero, os melhores exemplos – para além dos de Scavone – são a coletânea de Marien Calixte, Alguma coisa no céu (1985) e a antologia de autores nacionais e estrangeiros, Estranhos contatos, organizada por Roberto de Sousa Causo, em 1998.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O diálogo dos mundos, Rubens Teixeira Scavone

O diálogo dos mundos, Rubens Teixeira Scavone. 152 páginas. Capa: Fotomotagem de Rubens Teixeira Scavone. Coleção Ficção Científica GRD nº10, Editora GRD, Rio de Janeiro, 1961.

É sempre uma grande responsabilidade resenhar um clássico. Isso porque ele carrega valores emocionais e históricos difíceis de não se levar em conta na hora de elaborar uma análise. A dificuldade aumenta ainda mais quando se trata de um autor cujo nome é praticamente sinônimo da ficção científica brasileira. Rubens Teixeira Scavone (1925-2007) é um dos autores que vêm a mente em primeiro lugar quando nos referimos a fc brasileira, e todos os seus textos foram muito bem aceitos por várias gerações de leitores. Scavone foi um escritor erudito, de grande qualidade técnica, conhecedor do gênero e muito bem instalado no mainstream, uma vez que foi um dos raros escritores do fandom a receber o Prêmo Jabuti de Melhor Romance (Clube de campo, 1973).
O diálogo dos mundos é uma coletânea de contos, número 10 da lendária coleção Ficção Científica GRD, com seis textos de Scavone apresentados por um longo prefácio assinado por José Geraldo Vieira, por si só uma peça de interesse, repleta de informações curiosas sobre a proto-ficção científica.
O texto que dá nome à antologia é uma noveleta que toma quase a metade do volume. Conta a história de uma equipe de pesquisa chefiada por um cientista ambicioso que está prestes a divulgar à comunidade internacional, durante um grande evento, o sucesso conquistado num custoso programa que nunca havia recebido muito crédito. A humanidade finalmente contactara uma cultura alienígena, feito obtido depois de anos de escuta em um radiotelescópio, e é justamente em suas dependências que o grande evento acontece.
Enquanto o cientista chefe sonha com os louros que vai conquistar, uma grande nevasca parece querer impedir o sucesso do evento. A tensão aumenta quando o público presente é reunido para, depois de escutar as transmissões captadas, discutir qual seria a melhor forma de respondê-las. Surge um turbulento debate entre os intelectuais presentes, que chega a beira a insanidade, mas o pior ainda estava por vir.
Esta novela é um clássico da fc brasileira. A peça literária é sustentada pela tensão entre um estilo estóico e uma ironia permanente que, durante toda a leitura, permite antever a tragédia que se avizinha. Mais que o final, que é na verdade um tanto anticlimático, o valor desse cabo de guerra está justamente na disputa dessas forças narrativas que Scavone soube manobrar muito bem.
“O fim da aventura” é uma narrativa menos ambiciosa e, fora de seu contexto histórico, pode ser considerada ingênua e inverossímil, mas há 50 anos tinha um valor diferente. Conta a malfadada aventura de uma equipe de cosmonautas que, durante uma viagem exploratória secreta, é obrigada a fazer um pouso de emergência num ambiente hostil e acaba dizimada por nativos ferozes. O resgate dos restos dessa tragédia revela os limites da pretensão da ciência humana. Mais uma vez, o valor do texto está na qualidade narrativa e na estrutura que Scavone teceu para conduzir o leitor para longe das pistas que revelariam, antes da hora, o final da história. Apesar da boa técnica, a repetição seguida da estrutura com final surpresa não ajudou o conjunto. Finais surpresa são difíceis de manobrar e, se não forem sustentados por uma história poderosa, tornam-se armadilhas para o autor. Scavone escapou por pouco, salvo pela qualidade técnica de seu texto.
“Número transcendental” é o melhor conto do volume. Narra a história de um homem rico que, internado contra a sua vontade pela família num hospício, desenvolve um plano de fuga para recuperar o controle de sua vida e de sua fortuna. Mas, durante a ação, tem um inesperado e deslumbrante contato imediato com um grupo de seres alienígenas. Esquecido da fuga, o homem rico acaba por ser recapturado pelos seguranças do manicômio. Diagnosticado com um quadro de piora, perde assim a única oportunidade de fuga que jamais voltaria a ter.
“O menino e o robô” é um dos textos curtos mais conhecidos de Scavone, republicado diversas vezes. Conta a história dramática de um técnico que vive em constantes viagens espaciais e que adquire um robô para fazer companhia a seu filho, que vive com a mãe na Terra. A máquina é programada com rotinas de empatia e fica muito ligada ao menino. Contudo o garoto adoece e morre, e o sofrimento dos pais revela-se não ser maior que o do próprio robô. Uma história tocante ao estilo de Ray Bradbury, e que discute alguns dos grandes temas do relacionamento humano.
“Passagem para Júpiter” é outro conto muito conhecido de Scavone, que emprestou o nome a outra de suas coletâneas. Trata de um cientista do ano de 2222, muito bem-sucedido em suas realizações na Lua e em Marte, mas que nunca deixou a Terra. Sua atenção agora se volta a Júpiter, então a fronteira da humanidade, pois somente lá, entre o desconhecido e o imponderável, poderia encontrar desafios que justificassem sair do planeta. Ele dedica seus esforços ao projeto, mas não percebe que o que o atrai de fato não é Júpiter em si. A história é surpreendente, mesmo depois de tantos anos, enxuta, correta e moderna.
“Flores para uma terrestre” é outro trabalho de laivos emotivos influenciados pela ficção bradburiana. Um astronauta está prestes a encerrar seu turno em uma estação mineradora em Titã, quando, durante uma de suas rondas, se depara com uma rara forma de vida que se assemelha a uma flor. Admirado com a descoberta, que poderia lhe trazer fama e fortuna, decide levá-la à Terra como definitiva prova de amor à sua noiva, que não vê há três anos. Em segredo, prepara tudo para que o espécime, que só pode sobreviver na atmosfera venenosa da lua saturniana, chegue a salvo ao destino e, contra todos os prognósticos, o plano dele dá certo. Ou quase.
O diálogo dos mundos é um volume de leitura obrigatória para todo aquele que pretende conhecer profundamente a ficção cientifica brasileira. A edição de GRD foi a primeira, mas o livro também tem outra edição, de 1965, pelo Clube do Livro, que é bem mais fácil de encontrar nos sebos, pois teve grande tiragem. Mesmo aquele que não pretende se especializar em fc, interessado apenas em desfrutar algumas horas de bom entretenimento, O dialógo dos mundos é leitura recomendável, repleta de sentimento, emoção, humor e maravilhamento frente a imensidão e os mistérios cósmicos.
Cesar Silva

domingo, 18 de janeiro de 2015

O 31º peregrino, Rubens Teixeira Scavone


O 31º peregrino, Rubens Teixeira Scavone. 62 páginas. Capa de Rodney Vernacci. Editora Estação Liberdade, São Paulo, 1993.

Rubens Teixeira Scavone (1925-2007) foi o mais erudito dos autores brasileiros de ficção científica e um dos pioneiros do gênero no País. Ele foi autor do romance O homem que viu o disco voador (1958), possivelmente o mais bem sucedido livro da fc brasileira, e da antologia O diálogo dos mundos (1963), entre outros trabalhos. Scavone recebeu o Jabuti em 1973 por seu romance mainstream Clube de campo e presidiu a Academia Paulista de Letras por vários mandatos.
Apaixonado pela literatura inglesa, Scavone  foi buscar inspiração no clássico Contos de Cantebury, de Geoffrey Chaucer, obra escrita há mais de 600 anos, para produzir o seu melhor livro: O 31º peregrino, publicado em 1993 pela editora Estação Liberdade, com ilustrações de Giselda Leirner.
Trata-se de uma história extremamente significativa em termos humanos e emocionais. Uma narrativa tocante e de estilo incomum que, através de um instrumental exclusivamente léxico, transporta o leitor para seis séculos no passado com uma eficiência rara. Ainda mais porque não segue os parâmetros protocolares da fc convencional. As descrições são ligeiras e não há muitas explicações para situar o leitor. Toda a ambientação emana do estilo rebuscado, que lança mão de uma infinidade de palavras desusadas. Esse estilo, com um quê de barroco, pode parecer estranho ao leitor moderno, mas se deve a escolha do autor, que se fez passar pelo próprio Chaucer.
Contos de Cantebury relata as histórias de trinta peregrinos (entre eles, o próprio Chaucer) a caminho da Catedral de Cantebury, ao sul de Londres, local em que o santificado Arcebispo Becket foi imolado pelos cavaleiros de Henrique II. Cada um dos romeiros assume um arquétipo social e por ele é batizado. Por isso os personagens não têm nomes, mas classificações: o Pároco, o Padre da Freira, o Frade Mendicante, o Monge, a Prioresa, a Mulher de Bath, o Tecelão, o Tapeceiro e o Tintureiro (que formam uma trindade importante na narrativa de Scavone), o Mercador, o Vendedor de Indulgências, o Estudante de Oxford, o Cozinheiro, o Carpinteiro, o Magistrado, o Cavaleiro, o Escudeiro, o Moleiro, o Cônego e seu Criado, o Médico, o Provedor, o Lavrador, a Freira, o Homem do Mar, o Feitor, o Proprietário Rural, o Beleguim e o Estalajadeiro.
Scavone aproveita a narrativa para fazer considerações muito interessantes sobre o Roteiro dos Peregrinos (há um mapa do mesmo na quarta capa do livro, desenhado por James Scavone) que guarda ligações com a mitologia de São Tiago e, por sua vez, remete aos primórdios de outro caminho de peregrinação, Santiago de Compostela, com uma surpreendente explicação da origem desse termo que justifica perfeitamente a releitura fantástica que Scavone dá a obra de Chaucer.
Chaucer/Scavone conta a história de um até então não citado trigésimo primeiro peregrino, que se une aos romeiros a meio caminho. Trata-se da Mulher Grávida, cujo estado parece ter relação com o sobrenatural e alarma os peregrinos católicos que, naturalmente, são muito supersticiosos.
A história relatada pela Mulher Grávida é, em si, uma joia do horror gótico medieval, que reporta aos clássicos do sobrenatural que formam o caldeirão no qual foram cozidos todos os gêneros fantásticos modernos.
Entretanto, O 31º peregrino é uma novela de fc. É claro que, para ser classificada assim, há que se encontrar nela algum componente explícito do gênero, e ele surge à altura devida, quando a Mulher Grávida abandona o grupo durante a noite e vai encontrar seu destino, que é testemunhado pelo narrador Chaucer/Scavone. Mas isso é menos importante que os conflitos humanos que emanam das relações entre os arquétipos definidos por Chaucer e das elucubrações filosóficas, históricas e sociológicas do autor/personagem.
O livro ainda guarda muitas outras qualidades. É uma novela que mergulha no cristianismo e dele faz um discurso ambivalente. Se o afirma ou o rejeita, fica ao leitor a responsabilidade por decidir.
O 31º peregrino está entre os melhores textos da fcb, ao lado de "A escuridão", de André Carneiro, e A hora dos ruminantes, de José J. Veiga e, como tais, deve ser leitura obrigatória para aqueles que apreciam a literatura fantástica brasileira e querem experimentar seus limites.
Cesar Silva