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domingo, 31 de maio de 2020

Missão em Sidar


Missão em Sidar (Rayons pour Sidar), Stefan Wul. Tradução do Eng. Gomes dos Santos. Capa de Lima de Freitas. 151 páginas. Lisboa: Edições Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 72, 1963. Lançado originalmente em 1957.

 Estamos em 2023 e a conquista do espaço avançou bem mais do que em nossa realidade. A Terra mantém um governo de colonização no planeta Sidar, que orbita Alfa do Centauro, a estrela mais próxima do Sol, situada a 4,3 anos-luz. Mas, depois de assinar um tratado de cessão de Sidar aos alienígenas de Xress – outro planeta do sistema de Alfa do Centauro –, os terráqueos preparam-se para evacuar o planeta.
Neste contexto chega a Sidar o físico afrancês Lorrain – assim mesmo com o “a”, mas sem maiores explicações –, que pretende resgatar o seu robô Lionel, que perdeu contato com seu dono. Muitos terrestres têm como companhia um androide, igual ao seu proprietário, mas que tem sua vida garantida apenas na medida em que o dono esteja vivo. Pelo nível de intimidade ambígua mostrada nesta relação, parece ser comum a substituição de um companheiro humano, e no caso de um homem, uma mulher, sugerindo daí, talvez, um tipo de relação homoafetiva.
Em meio à transição que vive Sidar a tarefa de Lorrain é muito complicada, pois o planeta é quase que inteiramente tomado por uma vegetação intensa e fechada, habitada por animais perigosos. Depois de contactar Marco, um administrador de uma vila local, que está deprimido pela perda de seu robô Marcial, Lorrain segue para a província de Horb, onde seu robô Lionel havia se instalado. Na verdade a tarefa vai muito além do mero reencontro sentimental, pois ambos estão em Sidar numa missão secreta.
Após ser ferido pelos nativos de Horb – que vivem como tribos indígenas –, Lorrain surpreendentemente morre. Lionel o recolhe e guarda numa câmara frigorífica com o objetivo de ressuscitá-lo, pois o sucesso da missão depende da atuação da dupla. Mas como assim, ressuscitá-lo? Sim, existe uma tecnologia capaz de reviver quem morre, mas Wul não dá maiores detalhes de como isso seria possível. Lionel tem de voltar com urgência para Gayam – a maior cidade de Sidar –, para cumprir sua missão. No caminho ele encontra Marcial, reduzido apenas à cabeça, depois de sofrer um acidente com a queda de uma rocha. Aliás, a razão do sumiço de Lionel ocorrera por motivo semelhante, desfigurado com o ataque de um krotang, um dos mais terríveis predadores. Levando Lorrain num saco mortuário e a cabeça de Marcial – que retém sua consciência e memória – Lionel termina por reencontrar com Marco e, com sua ajuda, colocar em prática seus objetivos.
Com um ritmo veloz de acontecimentos Missão em Sidar é o quinto romance de Stefan Wul publicado na clássica coleção francesa Fleuve Noir e, curiosamente, traduzido apenas para Portugal e Finlândia.1 O romance está dividido em três partes: a chegada de Lorrain e seu encontro com Lionel; a peregrinação do androide para ressuscitar seu dono e salvar a missão, e a terceira parte, onde ocorre o desenlace final.
Na verdade a Terra não queria ceder Sidar aos belicosos xressianos, pois estes pretendiam ocupar o planeta com o extermínio da população local. Mas interesses políticos e econômicos prevaleceram na votação dos membros da Assembleia Solar. Com isso, secretamente, é elaborado um plano para infiltrar Lionel em Sidar para que este preparasse o terreno até a chegada de Lorrain e, assim, colocar em prática o combinado para impedir a ocupação dos xressianos.
Como dá pra notar Wul trata da questão do imperialismo, assim como já visto no romance anterior O Mundo dos Draagsresenhado aqui. Mas se neste havia uma metáfora da escravidão, aqui estamos diante de uma disputa política de dois impérios (Terra e Xress) pela posse de Sidar – e chega a lembrar um pouco a disputa entre britânicos e franceses por territórios dos árabes desunidos após a Primeira Guerra Mundial. Pois em Sidar também não havia um povo politicamente coeso em torno de um mesmo objetivo. Mas embora não torne evidente uma discussão maior sobre o tema e nem critique a colonização em si, mas a opção entre uma boa e outra ruim – que levaria ao genocídio –, o romance se insere no contexto da década de 1950, no qual a França vivia um problema sério com as lutas emancipatórias de sua principal colônia africana, a Argélia, que se aproximava de sua independência, mas com firme oposição de parte do establishment francês.
Neste sentido alguns romances de FC pulp de Wul mostram-se eivados por um subtexto político, acrescentando um conteúdo crítico para além da mera aventura de entretenimento, com o qual ele é mais identificado. E que, em Missão em Sidar nos leva ao clímax quando os planos de Lorrain e Lionel entram em ação, com a retirada de Sidar da órbita de Alfa do Centauro até tornar-se um novo planeta do sistema solar - situação já mostrada em Pré-História do Futuro (Niourk, 1957), onde é a Terra que escapa de sua órbita - ver a resenha aqui
Wul explica como isso seria possível – em mais uma proeza criativa depois da cena da ressuscitação de Lorrain –, com passagens que justificam sua fama como um autor inventivo e capaz de conduzir o leitor a sensações verdadeiramente delirantes.

Marcello Simão Branco


1Segundo o Internet Speculative Fiction Database: http://www.isfdb.org/cgi-bin/title.cgi?1179049.

sábado, 14 de março de 2020

O Mundo dos Draags


O Mundo dos Draags (Oms em Série), Stefan Wul. Tradução de Mário Henrique Leiria. Capa de Lima de Freitas. 155 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 64, 1961. Lançado originalmente em 1957.

Este é o quarto romance do autor publicado na célebre coleção Fleuve Noir nos anos 1950 e, mais uma vez, temos como pano de fundo uma ameaça ao destino da humanidade. Tal situação já havia sido tratada em Regresso a Zero (Retour à “0”) (1956) e Pré-História do Futuro (Niourk) (1957), respectivamente, seu primeiro e terceiro romance. Em Regresso a Zero através de um confronto catastrófico entre a velha Terra e o emergente poder de uma Lua rebelde habitada por criminosos. Já no segundo o reerguimento da humanidade após um apocalipse nuclear que dizimou quase toda a civilização.
Agora com O Mundo dos Draags a humanidade encontra-se em xeque, numa posição inferior e indigna. Somos apresentados ao mundo de Ygam onde a espécie dominante chamada draags escraviza os humanos – chamados de oms – não como serviçais, mas pior que isso, como animais de estimação, considerados como estúpidos e pouco inteligentes. Será esse nosso possível destino no caso de um contato com uma espécie alienígena tecnologicamente mais avançada, belicosa e, eventualmente, mais inteligente? Realmente me incomodou ver nossa espécie sendo humilhada, numa relação paternal e opressiva. E num certo sentido talvez possamos dizer que este livro despretensioso de Wul tenha influenciado o bem mais reconhecido O Planeta dos Macacos (La Planète de Singe) (1963), do também francês Pierre Boulle (1912-1994), embora não com uma dominação alienígena, mas de uma espécie de nosso próprio planeta.
Os draags invadiram a Terra em nosso futuro, mas já distante da época em que se passa a história. Levaram para seu planeta seres humanos, considerados como passivos e resignados. Havíamos chegado a uma condição de bem-estar material consolidado que, gradativamente, nos teria deixado fracos para lutar, acostumados com muitos anos sem rivalidades ou problemas sérios a resolver.
O início da história nos mostra a vida de um om domesticado, cuidado com carinho, mas subjugado apenas como estimação para famílias e, principalmente, crianças. Os draags têm a aparência semelhante à de sapos enormes, cerca de cinco vezes a altura de um om adulto. Depois de séculos de escravidão, por meio da fuga de um jovem om, Wul nos conta a lenta saga de resistência que emergirá entre os oms, que sem os donos, vivem em pequenos grupos nos esgotos, parques, lugares ermos da grande metrópole de Ygam.
Através da liderança de Terr – mostrado no início da história – os oms organizam-se crescentemente, unindo-se em coletivos cada vez maiores e mais articulados. Um dos meios para que eles readquirissem o gosto pelo conhecimento era através de fones de ouvido, usados para alfabetizar as crianças draags, que eles roubavam.
Contudo, apesar dos alertas seguidos de Singh, um dos mais prestigiados cientistas draags, de que os oms não deviam ser subestimados, pois estavam readquirindo sua inteligência e capacidade de rebeldia, os draags só o levaram a sério quando era muito tarde. Isso porque os oms, por causa da escravidão e conforto lhes imposta pelos draags, recuperaram seu desejo por liberdade, novamente lutando por sua sobrevivência para se organizar como seres autônomos e dotados de razão.
Sendo Ygam um planeta enorme em comparação com a Terra – com uma superfície distribuída por cinco continentes, três deles artificiais, construídos pela tecnologia draag, os oms conseguem se refugiar num velho porto abandonado e organizar-se numa sociedade. Assim, eles constroem três navios e navegam em direção a um dos dois continentes naturais, pouco habitados pelos draags.
Como já deve antever o leitor presume-se um confronto entre as duas civilizações, agora praticamente invertendo a situação: os conquistadores draags acomodados e sem disposição para a luta e os oms renascidos em sua busca por dignidade e liberdade. Podemos dizer que estamos diante de uma metáfora sobre racismo, numa crítica ao imperialismo europeu – e francês em particular – com relação aos povos conquistados pela força militar e discriminados por uma suposta – e na verdade absurda – superioridade cultural.
Mas Wul não problematiza questões como estas, escreve como que com um impulso natural e irresistível, dando a impressão – como já visto em outros de seus livros – de não planejar o enredo. Assim, a força da história repousa na fluência narrativa e na movimentação dos acontecimentos, sobressaindo o pleno entretenimento. Em todo caso, nota-se em O Mundo dos Draags um subtexto político mais presente do que nos livros anteriores.
Notável e instigante como os outros, é digno de registro que também foi publicado no Brasil como O Cativeiro Humano, pela Tridente Edições e Artes Gráficas, coleção FC no. 5, em 1970. Além disso recebeu também uma interessante adaptação ao cinema de animação em 1973, com o título de La Planète Seuvage (Fantastic Planet, em inglês), dirigido em tons psicodélicos e surrealistas bem à moda dos anos 1970 por René Laloux. Bem recebido pela crítica levou o Prêmio do Jurí do Festival de Cannes de 1973. Tive a sorte de conseguir uma cópia da versão em inglês, mas não foi lançado no mercado audiovisual no Brasil, embora seja possível assisti-lo na internet.
Em suma, O Mundo dos Draags é mais uma das aventuras pulps de Stefan Wul, embora aqui o tom de crítica social e subtexto político tenha um pouco mais de espaço do que seus três livros anteriores, de tonalidades mais fantásticas e delirantes.

Marcello Simão Branco

sábado, 21 de julho de 2018

O Templo do Passado


O Templo do Passado (Le Temple du Pasè), Stefan Wul. Tradução de André Varga. Capa de Lima de Freitas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta no. 85, 1964. 149 páginas. Lançado originalmente em 1957.

Tenho uma história curiosa com este livro. Estava de férias com a família no interior de Santa Catarina. Era 19 de janeiro de 1989 e voltávamos para casa. Meu pai parou num posto de gasolina na saída de Joinville para abastecer o carro. Da janela da parte de trás eu vi um sebo. Sim, um sebo! Saí do carro e fui até lá, sob protestos dos meus acompanhantes. E foi aí que achei O Templo do Passado e mais uns dez outros livrinhos da Argonauta. Foi o momento mais feliz das férias e, até hoje, a única coisa que lembro dela.
Escolhi a esmo um dos livros. Era O Templo do Passado, que li durante todo o tempo da viagem de sete horas até São Paulo. Valeu muito a pena, pois o livro é sensacional. FC pulp da melhor cepa, e minha estreia com a ficção incrivelmente imaginativa de Stefan Wul.
Este pequeno romance é o quinto da carreira de Pierre Pairault (1922-2003), que escreveu toda a sua obra de ficção científica sob o pseudônimo de Stefan Wul. Foi publicado pela primeira vez na célebre coleção francesa Fleuve Noir, no. 106, em 1957, e é o quinto publicado na igualmente célebre Coleção Argonauta, de Portugal, em seu número 85, no ano de 1964.
Durante uma viagem espacial a nave sobre um acidente e entra velozmente na atmosfera de um planeta desconhecido. Foi tudo muito rápido, e com o choque a maioria da tripulação morreu instantaneamente. Inicialmente, quatro sobreviveram mas, em parte por causa dos ferimentos, apenas dois permaneceram vivos: o piloto Massir e o médico Jolt.
A nave foi seriamente avariada e eles percebiam que ela balançava de um lado para outro, subia de cima para baixo ou vice-versa. Para solucionar o mistério Massir sai da nave e adentra num ambiente surpreendente: o interior de uma gigantesca baleia! Mas como foram parar dentro dela? Não há como ter certeza mas, provavelmente, em sua queda a nave penetrou, tal como uma bala, no corpo do cetáceo. Desta forma, além de estarem dentro de um ser vivo, ainda se encontravam no fundo do mar.
Esta é uma típica história identificada com o que os americanos chamam de problem story, na qual os personagens são colocados em perigo e, para sair desta situação, tem de buscar soluções científicas ou tecnológicas. Pois, então,  depois de vencerem a estupefação e o desespero puseram-se a trabalhar com o que tinham à mão dentro da nave. Primeiro, retirá-la do interior do estômago da baleia e depois consertar a nave para decolarem novamente. Duas tarefas extremamente difíceis e improváveis. Mas eles conseguem injetar algumas substâncias moleculares no metabolismo da baleia, para provocar mutações que a fizessem deixar o mar e passasse a viver, gradativamente, na superfície.
Após algumas experiências frustradas Massir e Jolt finalmente conseguem o seu intento, pois a baleia desenvolve patas dianteiras e traseiras, que a permitem deixar a água e viver em terra. Nunca deixa de ser aquático, contudo, transformando-se num anfíbio, mas que passa a maior parte do tempo num ambiente intermediário: um enorme pântano, que lhe dá muito prazer! (As passagens em que a baleia assume a narrativa são encantadoras e nos fazem ter simpatia por ela).
Assim, quando ambos percebem que, na verdade, estavam numa situação ainda mais complicada, decidem sacrificar a baleia, apesar dos protestos de Jolt. Conseguem, depois, retirar a nave do interior do enorme corpo, que acabou por se liquefazer diante de poderosos compostos ácidos presentes na própria atmosfera do planeta, à base de ácidos clorídricos.
É interessante observar que em O Templo do Passado, Wul explora mais profundamente a aventura de uma missão no interior de um organismo, vista pela primeira vez em seu primeiro romance, Regresso a Zero (Retour à “0”), de 1956, quando uma equipe de cirurgiões operou um astronauta acidentado. Outro aspecto interessante é que Wul faz uso do seu conhecimento científico, pois era dentista de formação e profissão. Ele faz um largo e detalhado processo descritivo de como Jolt desenvolve os mecanismos possíveis para uma rápida mutação, além de também usar do próprio organismo da baleia para produzir oxigênio para eles. Nesse sentido é uma FC pulp com pendor hard bastante apurado.
Após a morte da baleia eles descobrem dezenas de ovos. Ela estava grávida e acaba gerando alguns bebês mutantes, anfíbios que, depois de adultos e se reproduzirem, produzem répteis, lagartos de vários tipos que passam a povoar a superfície do planeta. Passam-se anos, mas os dois não desistem de seu objetivo de consertar a nave e voltar para a Terra. Mas ao perceberem que os lagartos os adoram e são telepatas, acabam por se atrapalhar em seu objetivo, ficando, por fim, presos ao planeta desconhecido.
Mas a que se refere o templo do passado do título? Após ficar sozinho no planeta, Massir, fazendo uso de seus conhecimentos técnicos, constrói uma câmara à base de gelo cristalizado, onde hiberna na esperança de ser resgatado num futuro distante. O tal templo é finalmente descoberto alguns milhares de anos depois por uma expedição vinda exatamente da Terra. E o final do livro ainda reserva uma surpresa de cair o queixo. É um daqueles livros com um final extremamente impactante, que fica na memória por anos. Nesse sentido, relutei em voltar a ler o livrinho décadas depois. Mas redescobri o prazer da prosa fluente e direta, de personagens ativos e pragmáticos, e de uma imaginação pulpesca com raro paralelo dentro do campo da ficção científica, deste que é, possivelmente, o melhor livro de Stefan Wul.

– Marcello Simão Branco

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Pré-História do Futuro

Pré-História do Futuro (Niourk), Stefan Wul. Tradução de Mário Henrique Leiria. Capa de Lima de Freitas. 199 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil: Coleção Argonauta no. 56, 1960. Lançado originalmente em 1957.

Este é o segundo romance de Stefan Wul, publicado na coleção francesa Fleuve Noir, no. 57, em 1957, após sua estreia na mesma coleção em 1956 com Regresso a Zero (Retour à “O”). E é também o segundo do autor publicado na coleção Argonauta.
Se no primeiro romance Wul abordou um tema principal – disputa de poder entre a Terra e a Lua – com desdobramentos para a abordagem de temas secundários – como, por exemplo, a belíssima sequência da cirurgia miniaturizada no interior do corpo humano –, em Pré-História do Futuro temos um enredo mais centrado e definido, abrindo a oportunidade de maior aprofundamento dramático da história.
A civilização humana praticamente acabou depois de uma guerra nuclear. As cidades foram destruídas e não há mais mares e oceanos, só terra firme em infindáveis florestas e pradarias, algumas com altos níveis de radioatividade. Os humanos decaíram para uma nova pré-história, vivendo como caçadores e coletores organizados em tribos que apenas lutam para sobreviver. Caçam, entre outros animais cães, para comer! Outrora seus melhores amigos.
Numa destas tribos lidera Thoz, louro, alto e forte. Ele impõe sua liderança mais por sua força física do que pela inteligência, mas com eles vive também O Velho, respeitado por ser o único capaz de se comunicar com os deuses. Esta comunicação ocorre quando ele parte para o alto das montanhas e traz de sua jornada utensílios úteis à vida coletiva. Objetos estranhos, na verdade retirados de Niourk que, como se tornará claro ao longo do texto, é simplesmente o que sobrou de Nova York. A ação se passa entre as localidades do Caribe, como Hait, Jamai, Santiag de Cuba e o que restou da antiga costa leste norte-americana, cujas maiores ruínas encontram-se, justamente, em Niourk.
Numa das visitas do Velho à “morada dos deuses” ele não retorna. Uma expedição liderada por Thoz sai à sua procura, mas não o encontra, embora não ouse entrar em Niourk. Nesse meio tempo um pária que vive com a tribo, um garoto negro – discriminado e maltratado – resolve procurar o Velho de forma independente. Após chegar e percorrer a metrópole em ruínas encontra uma pistola laser e se espanta e encanta com seu novo poder. O rapaz encontra o Velho morto, e devora os miolos do seu cérebro para combinar sua nova força advinda da arma com a sapiência do sábio.
Neste novo mundo surge uma espécie inteligente, os polvos. Chamados de “monstros” pelos humanos guerreiam em busca de terras e alimentos. Numa dessas disputas levam a melhor, mas com a volta do rapaz negro, a vantagem volta aos homens, que os matam em grande quantidade e os devoram.
A tribo agora liderada pelo rapaz negro se sente vitoriosa e marcha para Niourk. Mas, subitamente, as pessoas ficam doentes e morrem rapidamente depois de apresentarem uma estranha luminosidade no corpo. É que os polvos eram seres radioativos e, ao comê-los, as pessoas também ficaram. Nos polvos a radioatividade lhes permitiu uma transformação cognitiva. Nos humanos a morte. Embora também doente o rapaz negro não sofre os efeitos de forma tão intensa, e parte para explorar Niourk, ao lado de um urso que encontrou pela selva.
Pouco antes do holocausto nuclear um pequeno grupo fugiu para Vênus e lá recomeçou a civilização. Numa missão à Terra uma de suas naves sofre um acidente e apenas três tripulantes sobrevivem, e adentram nas ruínas de Niourk. Um deles morre, mas os outros encontram o rapaz negro. Tratam de sua doença e percebem que a radioatividade o tornara superinteligente.
 Agora respeitado e temido Alf – o nome que ganha dos venusianos, uma corruptela de Alfabeto –, lê rapidamente todos os livros que encontra, e torna-se extremamente sagaz. Num verdadeiro salto evolutivo.
Assim como em Regresso a Zero (1956), neste livro o final é absolutamente delirante em termos de imaginação. Sem revelar todos os detalhes, basta dizer que Alf conserta a nave dos venusianos, cria uma nova civilização artificial para ele comandar e transforma a própria Terra numa nave que viaja em direção ao centro da galáxia!
Embora seja puro sense of wonder na melhor tradição pulp o desfecho destoa do tom elaborado ao longo da narrativa, bastante pessimista quanto à viabilidade de um reerguimento da civilização. Nesse contexto surge um novo (super) homem, e justamente daquele considerado inferior pelos outros, por causa da cor de sua pele.
O título original se refere à Niourk, corruptela da mais importante cidade do seu tempo, Nova York, acentuando, por meio de sua queda, à da própria humanidade. Mas o título português é mais interessante. Isso porque pode ser visto como uma alusão à História do Futuro (1718), do Padre Antonio Vieira, a primeira narrativa utópica da língua portuguesa. Pois se para Vieira o futuro reservaria ao povo português a liderança num novo império cristão, para Wul, sua pré-história do futuro não se refere à construção de uma nova e utópica civilização, mas centra-se num único e incrível humano produzido, de forma aleatória, para tornar-se quase que um ser divino. Resta saber que tipo de civilização humanoide, mas artificial, Alf irá construir.

– Marcello Simão Branco

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Regresso a Zero

Regresso a Zero (Retour à “0”), de Stefan Wul. Tradução de Maria Adelaide Correia Freire e Raul Correia. Capa de Lima de Freitas. 177 páginas. Lisboa: Editora Livros do Brasil, Coleção Argonauta no. 54, 1959. Lançado originalmente em 1956.


No cenário da ficção científica europeia, a coleção francesa Fleuve Noir exerceu grande importância, ao revelar vários autores de seu país e com histórias voltadas, pelo menos em sua fase inicial, às aventuras e space operas, num tom assumidamente pulp.
Regresso a Zero apareceu na Fleuve Noir em seu número 78, no ano de 1956, como o livro de estréia de Stefan Wul (1922-2003), pseudônimo usado por Pierre Pairaul. Wul acabaria por se tornar um dos mais populares escritores franceses de ficção científica.
Se Wul estreou e publicou o restante de sua obra nesta célebre coleção de seu país, faz todo o sentido que quase todos seus livros tenham sido traduzidos e publicados em língua portuguesa, na equivalente portuguesa da coleção francesa, a Argonauta. Além disso, Regresso a Zero é o livro de Wul com mais edições em Portugal. Saiu também como Regresso a “0”, no Clube do Livro e com o mesmo título pela editora Nova Era, ambos em 1977.
A aventura nos leva ao futuro do século 37 (!), com um conflito bélico prestes a acontecer entre a Terra e a Lua. É que desde há alguns séculos todos os condenados por crimes graves eram deportados para o satélite, sem possibilidade de retorno. Com isso os proscritos acabaram por colonizar a Lua, criando uma sociedade autoritária, machista e potencialmente agressiva, pois para os dirigentes mais idosos, o principal objetivo a ser atingido é se vingar dos terráqueos, com uma invasão em grande escala.
O serviço secreto da Terra descobre os planos e envia para a Lua um espião para sabotar os planos ou, se possível, criar canais de diálogo que possibilite um acordo de paz. Desta forma, o físico nuclear Jâ Benal se faz passar por um condenado e é enviado ao nosso satélite natural.
Mal chega e descobre que sua tarefa não será fácil. Isso porque os selenitas não acolhem, de saída, os recém-chegados. Deixa que eles lutem pela sobrevivência num lugar inóspito e desconhecido por pelo menos 15 dias. Caso resista, só então é admitido como membro da nova sociedade.
Jâ Benal pousa numa região difícil e tem de lutar bravamente para sobreviver a uma região pantanosa e contra algumas espécies, especialmente os gorn, pequenos animais – semelhantes a porcos – extremamente agressivos, inteligentes e carnívoros. Benal é tocaiado pelos gorns num labirinto com cavernas subterrâneas onde vivem, mas termina por se safar, mas não sem antes sofrer um sério ferimento na perna. Vale comentar que a Lua descrita por Wul não guarda nenhum compromisso com a realidade científica, mesmo da época, mas isso não diminui o prazer e o envolvimento com as situações descritas.
Como já havia passado os 15 dias e ciente de que o novo membro era um eminente cientista, o governo lunar o recolhe e procede a uma operação de emergência. E é aqui que o romance atinge o clímax da inventividade: uma equipe de cirurgiões é miniaturizado e enviado para o interior do corpo de Benal. As páginas da preparação da cirurgia e da aventura dos médicos é puro sense of wonder. Impossível não lembrar do clássico filme Viagem Fantástica (Fantastic Voyage, 1966), dirigido por Richard Fleisher, e não especular de que possa ter sido inspirado no livro de Wul, escrito dez anos antes.
Pode até parecer estranho que tudo isso aconteça quando o tema principal é a disputa entre a Terra e a Lua pois, de fato, a missão de Benal só começa a ser efetivamente cumprida após estes interregnos iniciais, mas eles são os momentos mais inspirados do livro.
Benal é instalado com todas as condições para continuar seu trabalho de cientista, pois o governo lunar o quer como um aliado no desenvolvimento de suas armas para atacar a Terra. Até lhe entregam para viver em sua companhia uma linda loira, obviamente para amaciá-lo ainda mais.
O que Benal ignora é que o governo lunar sabe que ele é um espião, e quer saber até onde ele pretende ir com seus objetivos. Nira Slid, sua mulher, se apaixona por ele, e acaba por lhe contar tudo. Mas Benal não sabe mais como viver sem ela, e assim a toma como aliada para cumprir sua missão.
Primeiro ele procura Kam, cirurgião-chefe que o operou e um amante da paz para se aliar à sua causa, e buscar uma solução diplomática. Quando esta opção se revela infrutífera Benal parte para uma série de atos de sabotagem às instalações militares com o intuito de enfraquecer os objetivos bélicos dos selenitas.
O tema do uso da Lua como rival da Terra não é incomum no gênero, e certamente o romance mais conhecido é Revolta na Lua (The Moon of a Harsh Mistress, 1966), de Robert A. Heinlein (1907-1988), onde os lunares lutam por sua independência frente ao governo centralizador da Terra. Mas este Regresso a Zero segue uma linha mais despretensiosa, no qual o próprio título da obra só adquire significado no último capítulo por meio do desfecho da rivalidade entre terráqueos e selenitas.
Como um primeiro livro de uma carreira Regresso a Zero apresentou várias ideias interessantes que seriam desenvolvidas posteriormente, à exceção da cirurgia por miniaturização, uma verdadeira pérola de criatividade de realização narrativa. Assim, surge no livro temas como problemas ambientais na Terra, exploração do espaço, alteração da órbita de um corpo celeste, instrumentos de anti-gravidade, espécies alienígenas, colonização de um novo planeta e criação de uma nova civilização.
Embora trate de um tema sério de conflito político, suas possibilidades dramáticas nunca chegam a ser muito exploradas, pois o que conta mesmo é a criatividade e leveza da narrativa, mais preocupada em entreter, sem que isso possa significar, necessariamente, a diminuição de sua qualidade como obra literária. É que o foco é na aventura e no entretenimento, e nisso Wul se mostra exemplar.

– Marcello Simão Branco

sábado, 10 de março de 2018

Stefan Wul, um Pulp Europeu

por Marcello Simão Branco

Na terra consagrada a autores clássicos como Rousseau, Dumas, Proust e Sartre, entre outros igualmente ilustres, houve espaço também para a ficção científica. Sim, o nome facilmente lembrado é o de Julio Verne, um mestre da antecipação. Mas quero me referir a um autor pouco celebrado, talvez mesmo entre os franceses. Estou falando de um sujeito que nasceu com o nome de Pierre Pairault, mas que se popularizou entre os fãs europeus de ficção científica como Stefan Wul.
A minha primeira experiência literária com Wul foi uma das mais curiosas e marcantes. Para começar, nunca tinha ouvido falar ou lido qualquer coisa a respeito dele. Era janeiro de 1989, estava em férias em Joinville com minha família. De forma surpreendente descobri um sebo na cidade e lá tinha dezenas de livros da Coleção Argonauta, de Portugal. Comprei alguns e na viagem de volta a São Paulo, de forma aleatória, escolhi um livrinho despretensioso com o nome de O Templo do Passado
Era um livro de Wul e o li de uma só sentada, durante as sete horas de viagem. Um enredo que abordava o destino de dois viajantes espaciais, que em visita a um planeta eram engolidos por um gigantesco monstro marinho, que era cultuado como um Deus por uma raça de lagartos inteligentes. Narrado em um ritmo ágil, com muita ação e suspense, além de imagens vívidas e coloridas, traz uma revelação em seu final, daquelas de “cair o queixo”, como se costuma dizer. 
Nascido em 27 de março de 1922 em Paris Stefan Wul morreu em 26 de novembro de 2003, aos 81 anos. Sua carreira literária foi curta e intensa: publicou 11 de seus 12 livros entre 1956 e 1959. Cirurgião dentista por profissão, Wul tinha uma imaginação poderosa, era um competente contador de histórias, no qual a aventura, as situações pulp e sense of wonders eram a tônica, rivalizando com o que de melhor fizeram os americanos nos anos 1930 e 1940 neste tipo de história.


Assim como o norte-americano Robert Silverberg, Wul também é um escritor que teve uma produção impressionantemente concentrada em alguns anos e depois parou de produzir por vários anos. Em dois momentos posteriores o autor retornou ao campo. Primeiro em 1977, ao publicar o romance Noo. E, justificando sua inserção bissexta, reaparece no cenário vinte anos depois, em 1997, com a republicação inteira de sua obra, provavelmente para recuperá-lo entre leitores de uma nova geração e como uma espécie de reconhecimento de sua obra, no contexto da ficção de gênero francesa (e mesmo européia) contemporânea. Para se ter uma idéia de como Wul está circunscrito no continente europeu, apenas um livro seu foi publicado em inglês, justamente o que eu li, Le Temple du Pase (como The Temple of the Past, em 1973). 
Wul é um resultado direto de uma renovação editorial surgida na França no início dos anos 1950. A coleção Antecipation, da editora Fleuve Noir, que foi responsável por uma das coleções mais longevas e importantes da ficção científica europeia. Com 2001 títulos de 1951 a 1997, publicou principalmente autores franceses, descobrindo vários novos talentos, como, entre outros, Pierre Barbet, Maurice Limat, Gerard Klein, Jimmy Guieu, F. Richard-Bessière, e um dos mais populares, Stefan Wul.
 Duas de suas obras foram adaptadas para desenho animado na França. Oms en Serie (O Mundo dos Draags, em português da Argonauta), como Fantastic Planet, de 1973, e L'Orphellin de Perdide (O Vagabundo das Estrelas em português), como Les Maîtres du Temps, em 1982, com desenhos de Moebius. 
Nós que lemos língua portuguesa, contudo e de forma surpreendente, somos privilegiados, pois nove dos seus 12 livros foram publicados em nossa língua, por meio da Coleção Argonauta – ou seja, uma coleção portuguesa, dentro da Europa. E, de certa forma faz sentido porque a Argonauta cumpriu em Portugal um papel semelhante à Antecipation, a não ser pelo fato de que jamais publicou um autor português, mas só estrangeiros.
Os livros publicados na Argonauta foram: Regresso a Zero (no.54), Pré-História do Futuro (56), O Vagabundo das Estrelas (60), O Mundo dos Draags (64), Missão em Sidar (72), Degelo em 2157 (76), O Templo do Passado (85), Armadilha em Zarkass (90) e O Império do Mutantes (107), que serviu de inspiração para o nome do grupo de rock brasileiro Os Mutantes, com Rita Lee, ao final dos anos 1960. Aliás, aqui no Brasil este livro também foi publicado, como A Cadeia das 7 – coleção Tecnoprint –, e outro foi Cativeiro Humano (O Mundo dos Draags, pela Argonauta) – coleção Tridente.


O crítico francês Lorris Murail, em Los Maîtres de la Science-Fiction (1993), tentou explicar as razões que fizeram-no interromper sua carreira quando já se tornara um escritor de entretenimento conhecido em sua pátria. Stefan Wul era um autor que escrevia motivado por uma espécie de “impulso irresistível” e não no sentido de construir intencionalmente uma carreira ou pertencer a um gênero ou a uma corrente determinada. Assim, quando as idéias cessaram após a dezena de pequenos romances que escreveu em fins dos anos 1950, ele se voltou para uma profissão “séria” e “segura”. 
Wul foi o típico autor popular esnobado por uma certa inteligentsia literária, que por ter qualidade, surpreende aos que o leem e acaba sendo adotado por esta mesma elite como um autor cultuado. Mas antes disso – e fundamentalmente –, ele é um autor pulp, com as virtudes e limites inerentes a esta autêntica forma de expressão literária: uma literatura de entretenimento, recheada de boas ideias. 
 Desta forma, se em suas rondas por sebos, você por acaso encontrar livrinhos com capas coloridas, títulos chamativos e de autoria de um certo Stefan Wul, deixe suas prevenções de lado e experimente. Primeiro porque, afinal de contas, o livro deverá ser baratinho. E depois e, mais importante, aposto que você irá gostar, ou no mínimo se surpreender com um tipo de narrativa muito imaginativa, mesmo dentro dos padrões da ficção científica.

Livros de Stefan Wul

Número
Título original (ano)
Em português (ano)
Editora/Coleção – País
1
Retour à “0” (1956)
Regresso a Zero (1959)/Regresso a “0” (1977)
Livros do Brasil/Argonauta 54/Clube do Livro/Nova Era – Portugal
2
Niourk (1957)
Pré-História do Futuro (1960)
Livros do Brasil/Argonauta 56 – Portugal
3
Le Temple du Passé (1957)
O Templo do Passado (1964)
Livros do Brasil/Argonauta 85 – Portugal
4
Oms em Série (1957)
O Mundo dos Draags (1961)/Cativeiro Humano (1970)
Livros do Brasil/Argonauta 64 – Portugal/Tridente Edições e Artes Gráficas/Ficção Científica 5 – Brasil
5
Rayons Pour Sidar (1957)
Missão em Sidar (1963)
Livros do Brasil/Argonauta 72 – Portugal
6
La Peur Géante (1957)
Degelo em 2157 (1963)
Livros do Brasil/Argonauta 76 – Portugal
7
L’Orphellin de Perdide (1958)
O Vagabundo das Estrelas (1960)
Livros do Brasil/Argonauta 60 – Portugal
8
La Mort Vivant (1958)
O Império dos Mutantes (1966)/A Cadeia das 7 (?)
Livros do Brasil/Argonauta 107 – Portugal/Editora Tecnoprint/Futurâmica 4 – Brasil
9
Piège sur Zarkass (1958)
Armadilha em Zarkass (1964)
Livros do Brasil/Argonauta 90 – Portugal
10
Terminus (1959)
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11
Odyssée sous Contrôle (1959)
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12
Noô (1977)
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