segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Demónio

 



Demónio (Demon), John Varley. Volumes 1 e 2. Tradução: Sophie Penberthy Vinga. Capas: autorias não identificadas. 200 e 245 páginas, respectivamente. Publicações Europa-América, coleção Ficção Científica nos. 118 e 119, 1986. Lançamento original em 1984.

 

Neste romance que conclui a Trilogia de Gaia, formada além de Demónio, por Titã (1979) ler resenha aqui -, e Feiticeira (1980) - resenha aqui -, os eventos são retomados 20 anos depois de a feiticeira Cirocco Jones – que originalmente havia sido a capitã da nave terrestre Ringmaster –, haver se insurgido contra uma das versões da deusa governante do mundo artificial, Gaia, para tentar recuperar a viabilidade de um mundo com risco de destruição.

Mas a divindade ressurge e agora de forma totalmente over: uma Marilyn Monroe de 15 metros de altura – imagine isso! –, procurando dominar pela sedução e um poder sobre-humano. Pois nessa nova encarnação, Gaia se esquivou de qualquer limite ou bom-senso, voltada totalmente para sua megalomania em que procura transformar seu próprio mundo num estúdio de cinema. Ela vê e revê compulsivamente filmes e mais filmes norte-americanos, num festival de cinema ininterrupto e itinerante no interior de uma fortaleza chamada Pandemonium, onde também existe um exército poderoso a seu dispor.

Com isso, reencontramos Cirocco, a heroína que pensava ter dado cabo das loucuras e crueldades de Gaia, mas que é chamada novamente à ação para liderar uma nova e mais dramática resistência aos caprichos e arbítrios da governante da roda artificial que orbita Saturno. Cirocco é acompanhada nesta nova missão por alguns dos seus mais fiéis companheiros, como os formidáveis titânides, seres centauróides criados por Gaia e postos sob a responsabilidade de sua reprodução a cargo de Cirocco. O que se tornou um encargo pesado demais para ela, numa espécie de maldição lançada por Gaia por ela a ter desafiado. Além dos titãnides, velhos parceiros, como Chris e Robin, além de novos com destaque, como Nova, filha de Robin e Conal, que se torna uma espécie de guarda particular de Cirocco. Mas para além da resistência em si, está em jogo a sobrevivência dos titânidades como espécie e a chance de libertação de Cirocco: descobre-se que o pequeno Adam, o caçula de Robin tem o poder necessário para garantir a sobrevivência dos titânidades. Mas não só: eis que ressurge também a antiga tripulante e amante de Cirocco, Gaby Plauget, com misteriosas aparições aparentemente sobrenaturais para pessoas determinadas, principalmente, é claro, Cirocco, onde ela passa informações valiosas sobre os passos de Gaia e como derrotá-la. Como se verá, o próprio destino da trilogia estará conectado não só ao embate entre Cirocco e Gaia, mas também ao que representará Gaby neste contexto.

Em sua loucura, ou verdadeira intenção de poder desmedido, a deusa governante de Titã fomenta uma guerra nuclear na Terra. Assim de amiga da humanidade torna-se a sua maior inimiga. Os humanos sobreviventes, desesperados, emigram para o mundo dela, tornando-se explorados de todas as maneiras. Passam a sobreviver na maior metrópole de Titã, Bellinzona, onde reina o caos e a violência. Dividida em guetos, e sem lei definida, toda a sorte de injustiças e iniquidades são cometidas, num autêntico embrutecimento da condição humana. A ponto de bebês serem comercializados e carne humana ser vendida no mercado central da cidade.

Pois este lugar se tornará estratégico para a causa da resistência, quando é literalmente invadido e resgatado do caos estimulado por Gaia. Cirocco, com uma força expedicionária de dezenas de titãnides assume o poder, e restaura a lei, a ordem e um mínimo de decência e humanidade. Por trás dessa ação está a intenção de formar um poderoso Exército de centenas de milhares de homens para marchar em direção ao Pandemônio e derrotar definitivamente Gaia e libertar o pequeno Adam, raptado pela divindade.

Alguns aspectos, em particular, chamam a atenção neste livro: primeiro a ausência da nomeação do mundo como Titã. Neste terceiro livro se menciona Gaia, como a deusa e como o próprio mundo, como este fosse uma extensão da divindade. Me pareceu confuso, mas certamente Gaia aprovaria. Em segundo lugar, Varley desenvolve alguns temas candentes como paralelos ao contexto principal, mas os larga meio que pelo caminho, como se fossem pontas soltas. Exemplos temos em relacionamentos promissores, mas sem continuidades, e principalmente o pós-holocausto nuclear terrestre que tornaria a história ainda mais dramática se fosse mais integrado à trama geral. Teria pensado o autor em desenvolvê-los posteriormente, como novos episódios, transformando a trilogia numa série? Só ele mesmo poderia responder, mas o fato é que ficaram pelo caminho no prosseguimento de sua obra. E me incomodou a vinculação cultural de Gaia à cultura cinematográfica norte-americana, como se representasse toda a Terra. Todas as citações e referências são de estúdios, filmes e artistas do seu próprio país, num chauvinismo que destoa do contexto que se mostrou tão arrojado em outras áreas, como a da liberdade de comportamento, sexual, principalmente, como poucas vezes visto na FC.




Como nota o leitor, Demónio – com acento circunflexo, pois foi assim que foi grafado na edição lusitana –, é uma história extremamente movimentada, a que oferece mais sequências de ação e conflitos em toda a trilogia. Mas, de certa forma, este plano maior do enredo se mostra muito previsível – ao contrário, principalmente de Feiticeira, talvez o mais surpreendente deles –, como se quase suas 400 e poucas páginas se justificassem para o inevitável embate final entre Cirocco e Gaia. Nesse sentido, os dramas pessoais, mais particulares, vistos nos dois primeiros livros, não recebem o mesmo tratamento dramático, tornando a conclusão da saga menos intimista, ainda que reserve um belo sentimento de libertação.

Em seu devido contexto, contudo, A Trilogia de Gaia se constitui numa das iniciativas de construção de mundo mais interessantes e complexas da ficção científica, que talvez não receba mais reconhecimento por não haver obtido a mesma continuidade de publicação e popularidade de obras semelhantes como, por exemplo, a portentosa série Duna (1965-1985), de Frank Herbert (1920-1986), levada ao cinema e depois à TV e que foi trabalhada pelo autor por 20 anos, enquanto Varley abordou o seu universo ficcional por apenas cinco. Em todo caso, é possível encontrar na internet sites e blogs de fãs apaixonados pela trilogia, a ponto de reproduzir mapas de Titã – o que senti falta num mundo descrito com tantas minúcias – e da própria estrutura da roda giratória. Sensacional.

Os três livros foram publicados em Portugal, na saudosa coleção FC Europa-América, mais ou menos nos mesmos anos dos lançamentos originais, e merecem ser lançados de forma inédita aqui no Brasil. Como nos últimos anos têm ocorrido uma certa recuperação do tempo perdido, com o lançamento de obras inéditas dos anos 1970 e 1980, se algum editor mais engajado estiver a ler esta resenha, considere seriamente a possibilidade de trazer ao nosso país estes três livros fascinantes.

Pois John Varley, seu criador, é um dos mais inteligentes e provocativos autores surgidos no cenário da FC nas últimas décadas do século passado, com um hábil equilíbrio entre a aventura e momentos de sense of wonder, rigor científico e ricas especulações sobre o destino da humanidade, a partir de uma visão mais aberta e contestadora dos valores tradicionais, em especial do mundo ocidental.

Marcello Simão Branco


domingo, 25 de agosto de 2024

3%

3%
, Pedro Aguilera.  Série de tv com 33 episódios. Produção Boutique Filmes/Netflix, 2016-2020.

A indústria audiovisual é o grande fetiche dos autores de ficção fantástica. Mal escrevem os primeiros textos, já pensam em quais seriam os atores mais indicados para representarem os seus personagens, quase sempre artistas de Hollywood porque, afinal, sonhar não custa nada. Muitas vezes vezes essa mania é movida apenas pelo sentimento de veneração ao estrangeiro, mas não devemos nos enganar: chegar a indústria audiovisual ainda é o melhor caminho para se obter reconhecimento, fama e algum dinheiro extra. Pelo menos, é assim que funciona nos EUA: os autores geralmente ganham muito mais pelo licenciamento de direitos para cinema e para a tv do que com a venda direta dos seus escritos. Portanto, se é assim que funciona na matriz, deve funcionar aqui também. 
A internet, especialmente após o advento da banda larga, pareceu ser o canal que todos estavam esperando para a distribuição de obras audiovisuais, uma vez que prescinde das salas exibidoras e de um sistema de transmissão televisiva para fazer chegar o conteúdo ao expectador. Mas, infelizmente, não emergiram projetos bem sucedidos assim, embora tenham existido tentativas, como a série Animal, produzida em 2014 para a tv a cabo. Alguma coisa ainda faltava e parece que, finalmente, temos o caminho das pedras: o serviço de conteúdo por streaming
O primeiro seriado brasileiro de fc&f a despontar nesse ambiente foi 3%, distopia futurista original criada por Pedro Aguilera, cujo episódio piloto foi lançado no Youtube em 2011. Adquirida pela Netflix em 2016, tornou-se a primeira série brasileira na plataforma, com quatro temporadas e um total de 33 episódios produzidos. Na direção, revezam-se César Charlone, Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema.
Trata-se de uma produção sofisticada, com um elenco enorme que conta com atores conhecidos da teledramaturgia brasileira: João Miguel, Bianca Comparato, Zezé Mota, Michel Gomes, Rodolfo Valente, Vaneza Oliveira, Rafael Lozano, Viviane Porto, Samuel de Assis, Cynthia Senek, Laila Garin, Bruno Fagundes, Thais Lago, Fernando Rubro e Amanda Magalhães – até Ney Matogrosso faz uma participação especial – além de uma infinidade de coadjuvantes e figurantes que formam a população de uma favela miserável chamada Continente, que parece ser a única coisa que sobrou do Brasil num futuro pós holocausto, cuja explicação não é fornecida. 
Porém, há um lugar chamado Maralto onde uma elite vive em luxo e abundância. Uma vez por ano, ao longo dos últimos cem anos, o governo (que tem contornos corporativos) promove o Processo, uma espécie de "vestibular" cujo objetivo é selecionar, entre os jovens do Continente com vinte anos completos, os novos cidadãos para Maralto. Os testes são severos, em muitos casos, mortais, e valorizam aspectos físicos, intelectuais, morais e psicológicos dos candidatos. Apenas três por cento dos inscritos serão aprovados. A concorrência é feroz e trapacear é permitido. Na verdade, uma personalidade trapaceira é até valorizada, como vamos descobrir ao longo do extenuante processo, que também vai revelar a personalidade e a motivação de cada um dos candidatos. Também vamos descobrir que há um movimento revolucionário subterrâneo, pesadamente reprimido pela administração, cujo objetivo é acabar com o Processo. Mas não são apenas os candidatos que escondem esqueletos no armário: entre aqueles que estão "do lado de lá" também há segredos comprometedores, além de intrigas e traições veladas. Ninguém está plenamente seguro, nem mesmo em Maralto.
A cenografia é elegante, com uma estética futurista econômica. Muitas sequências foram gravadas nas dependências da Arena Corinthians, em Itaquera (SP). Também foram usados como locações o Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), e a comunidade Heliópolis, em São Paulo (SP). Os efeitos especiais são competentes, assim como o desenho de produção. O roteiro tem bons diálogos, e uma narrativa tensa, que fica ainda mais perturbadora pela lentidão com que o Processo avança.
A série está disponível em 190 países e é elogiada no exterior, com uma avaliação muito boa no saite de resenhas Rotten Tomatoes: 85% de aprovação na primeira temporada. Também é muito inclusiva, com atores de todas as etnias, além de um cadeirante entre os personagens principais. 
O sucesso de 3% foi efeivamente convincente. Depois dele, o campo se abriu para a produção brasileira: O escolhido (2019, Netflix), Onisciente (2020, Netflix) Spectros (2020, Netflix), Desalma (2020, Globlo Play), A todo vapor (2020, Prime) e Cidade invisível (2021, Netflix) são alguns dos exemplos que se seguiram e a tendência não arrefeceu nem durante a pandemia. Isso já é, por si, um grande mérito para 3%, que merece ser lembrado como o ponto de virada da fc&f na indústria audiovisual brasileira.
— Cesar Silva

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Feiticeira

 



Feiticeira (Wizard), John Varley. Volumes 1 e 2. Tradução: Maria Nóvoa. Capas: Tim White. 162 e 164 páginas, respectivamente. Publicações Europa-América, coleção Ficção Científica nos. 87 e 89, 1984 (vol.1) e 1985 (vol. 2). Lançamento original em 1980.

 

Este é o segundo romance da Trilogia de Gaia, iniciada com Titã (1979) - ver resenha aqui - livro que causou um grande impacto na FC norte-americana do final da década de 1970, pela verossimilhança da narrativa, rigor nos conceitos científicos, muita criatividade na construção de um mundo, e uma postura de comportamento dos personagens bastante ousada para os padrões do gênero até então – e mesmo hoje.

Pois Feiticeira além de não ficar atrás em tudo isso, explora com mais detalhes estes aspectos, em especial os relacionamentos entre os personagens e as consequências entre os poderes da deusa e seus súditos. A história ocorre em 2100, exatos 75 anos após a chegada dos humanos à estrutura de Titã, um mundo artificial criado e controlado por uma entidade viva, a Gaia, na órbita de Saturno. A protagonista da primeira história, a ex-capitã da nave Ringmaster Cirocco Jones foi nomeada por Gaia como a feiticeira, isto é, uma espécie de zeladora do mundo, com poderes especiais e responsável em torná-lo viável e harmonioso do ponto de vista do relacionamento com os chamados cérebros regionais, entidades criadas por Gaia responsáveis por cada região.

Encontramos Cirocco ainda jovem, como parte dos poderes concedidos por Gaia, para que ela exerça a função por muito tempo, mas submersa, por assim dizer, em crises existenciais, que dificultam o exercício de seus deveres. Também presente está Gaby Plauget, antiga astrônoma da Ringmaster e amante de Cirocco que, embora meio afastada dela, ainda exerce funções auxiliares importantes, ainda mais por causa da debilidade psicológica de Cirocco.

Titã – por meio de Gaia – estabelece relações diplomáticas com a Terra, inclusive com embaixada na Suíça e membro das Nações Unidas, e recebe milhares de humanos todos os anos, de forma temporária ou permanente. Nesse contexto, chega a Titã Chris e Robin, dois jovens com problemas neurológicos. Chris tem crises de ausência e amnésia temporária e Robin epilepsia. Ambos esperam ser curados de seus problemas através da intervenção de Gaia, que oferta essa possibilidade aos que a procuram. De certa forma, é uma contrapartida da entidade para que os humanos a respeitem e não se voltem, eventualmente, contra ela e seu mundo. Mas para que os enfermos possam ser curados têm de provar seu “heroísmo”, através de atos ou realizações que recebam a aprovação da deusa. Para esta, no fundo, tudo se trata de jogos: na criação de espécies e na aferição de provas e missões aos humanos, de forma a vencer seu tédio de uma existência de milhares de anos e manter o interesse e temor por parte dos nativos e humanos.

Chris e Robin conhecem Gaby, que lhes apresenta Cirocco. As duas ex-astronautas devem partir numa missão de contato com os cérebros regionais e convidam os dois jovens a partirem com eles, mesmo sem saber exatamente como ou em quais circunstâncias possam provar algum valor a Gaia. Aos humanos se juntam alguns titânides, a adorável espécie nativa mostrada no primeiro volume, seres semelhantes a centauros, de feição feminina, mas hermafroditas, já que exercem papeis sexuais tanto masculinos como femininos. Em Titã, eles viviam uma guerra fratricida com os anjos, seres alados que moravam na parte mais alta da estrutura toroidal. Cirocco intervém como mediadora junto a Gaia e como efeito do processo de pacificação, a humana torna-se responsável pela sobrevivência reprodutiva dos titânides. Somente sua saliva pode ativar os óvulos que eles produzem para que sejam implantados em uma mãe hospedeira para crescer. Mas é responsabilidade em demasia para Cirocco e este é o motivo pelo qual recorre com frequência ao alcoolismo.

A maior parte da história se passa nessa peregrinação pelo mundo, eivada de muitos perigos, mortais para alguns personagens. Isso porque, para além dos riscos inerentes à própria travessia de um mundo inóspito e traiçoeiro, ocorre uma reação não declarada da deusa, por intuir um possível plano de Cirocco e Gaby para destroná-la, insatisfeitas que estão com as vaidades e caprichos – por vezes cruéis – da criadora com relação às suas criaturas, vistas como mero joguetes com motivações fúteis. Com isso, o romance ganha em suspense e dramaticidade e o destino de todos é posto em risco praticamente a cada página virada. Isso torna Feiticeira um romance mais vibrante que Titã, no qual a apresentação do mundo em si se constituía como um um dos objetivos principais.




Merece destaque também o relacionamento de Chris com a titânide Valiha. Ela se apaixona pelo humano e o seduz sexualmente, principalmente quando ele não responde por si. Primeiramente chocado, aos poucos, ele vai cedendo aos seus preconceitos e se entrega ao sexo e amor pela titânide. Aqui está outro aspecto particularmente interessante nesta trilogia: a liberdade sexual dos personagens, e de como todas as formas de amor são igualmente válidas, desde que verdadeiras para os que a vivem.

Feiticeira não segue o padrão das histórias do meio de uma série de três livros: a de recheio de algo que apenas prepara o clímax da história final. Pois, como já deve ter se tornado claro, explora com mais desenvoltura as potencialidades do mundo de Titã e desenvolve ainda mais os personagens apresentados na primeira aventura. No fundo, esta trilogia e Feiticeira em especial, discute questões valiosas como o valor e o ônus do livre arbítrio, além da insubmissão a regras e normas que reprimem a expressão mais livre das pessoas. Sejam elas humanas ou alienígenas.

Nesse sentido, chama a atenção a reflexão de Varley sobre as possíveis consequências da existência e convívio mais próximo entre um deus (no caso Gaia, uma deusa) e suas criaturas. De como seria muito complicado este relacionamento, pois os humanos em especial, teriam como julgar os atos divinos, se bons ou maus; se justos ou injustos etc. Ao passo que na possibilidade de existência de um Deus abstrato, não visível e atingível (como o das religiões terrestres, judaico-cristão em especial) seria mais tolerável conviver com o imponderável, já que estaria no plano da indiferença do universo.

Mas mesmo com a eventual existência do Deus de inspiração religiosa da Terra, Gaia não seria parte de seu panteão. Até porque, mesmo poderosa como era, tinha uma existência física no plano natural e, como visto em Titã, ela seria parte de uma espécie alienígena presente em outras partes da galáxia, inclusive numa das luas de Urano. Ou seja, seria uma divindade na capacidade de criar vida, sobretudo, mas, ainda assim, presente no plano natural e, em tese, mortal ou finita. Contudo, talvez seja contraditório que mesmo postulando uma concepção não teísta – de uma divindade sobrenatural – Varley admite a necessidade de que exista um ser que governe Titã. Ora, por que não deixar que a estrutura orbital cheia de atmosfera e vida tome seu próprio rumo?

Por esta e outras questões Feiticeira recebeu uma boa acolhida dos leitores e críticos dos EUA, tornando-se um dos finalistas do Prêmio Hugo de 1981 – assim como já havia acontecido com Titã, um ano antes. O melhor é que seja lido depois do primeiro, mas por sua riqueza narrativa e instigantes questões culturais e existenciais que aborda – e deixa em aberto para Demônio (Demon; 1984), o livro que irá concluir a trilogia –, vale por si. Grande livro.

Marcello Simão Branco


terça-feira, 23 de julho de 2024

Os poucos & amaldiçoados: Os corvos de Mana'Olana; Felipe Cagno & Fabiano Neves

Os poucos & amaldiçoados: Os corvos de Mana'Olana; Felipe Cagno & Fabiano Neves; minissérie em 6 edições, 204 páginas. Timberwolf, 2020.

Desde que o mercado brasileiro de quadrinhos entrou em colapso, com a quebra de distribuidoras, bancas e livrarias, não restou aos artistas nenhum outro caminho que não o da produção independente através de financiamento direto, também chamado de crowdfunding, modalidade de comercialização antecipada que se assemelha a prosaica "vaquinha" entre amigos. Várias plataformas na internet oferecem o serviço, sendo a mais popular o Cartarse, que promove campanhas para todo tipo de proposta, desde livros e quadrinhos, até jogos, brinquedos e projetos sociais. Qualquer pessoa pode propor um projeto e também apoiar os projetos ofertados. E isso parece que tem dado muito certo para os artistas, pois há ótimos trabalhos sendo publicados assim, como nunca antes se viu. Infelizmente, as tiragens são bastante limitadas, pois são voltadas apenas para atender ao conjunto específico de apoiadores que o projeto conquistou na campanha. O material não entra em circulação, portanto, e sai das mãos dos autores diretamente para seus leitores. Uma vez esgotada a tiragem, é preciso propor uma nova ação de financiamento para reimprimir o material. 
Este é o caso de Os poucos & amaldiçoados: Os corvos de Mana'Olana, série de ficção científica criada pelo roteirista Felipe Cagno e o ilustrador Fabiano Neves, ambos profissonais experientes. Cagno é cineasta, formado pela FAAP, agraciado em 2015 com o Prêmio Angelo Agostini, da AQC-SP. Neves atua desde 2000 como ilustrador nos quadrinhos estrangeiros, tendo trabalhado com personagens como Red Sonja, Xena Princess Warrior, Marvel Zoombies e outros. A eles se uniram vários outos artistas, principalmente coloristas e letristas, para viabilizar o projeto proposto em seis episódios financiados individulamente entre 2019 e 2020, com cerca de mil apoiadores por edição e metas superadas em até quinhentos por cento.
A história é um faroeste futurista, que recebe influências evidentes de Apenas um peregrino, de Garth Ennis e Carlos Ezquerra, publicado no Brasil no início do século pela Devir Livraria, e também da série de romances A Torre Negra, de Stephen King – especialmente o volume Os lobos de Calla –, bem como a sua adaptação em quadrinhos publicada no Brasil pela Panini. Mas com uma importante diferença: o protagonista de Os corvos de Mana'Olana é uma mulher. Trata-se de uma pistoleira sem nome, chamada por todos de "Ruiva" devido a cor dos cabelos. Ela caça monstros num futuro em que os oceanos da Terra desapareceram e abundam feras sobrenaturais que ameaçam os poucos sobreviventes que herdaram o interminável  deserto em que o planeta se tornou. Dentre outras abominações, a Ruiva está a caça de uns corvos gigantes que sequestram crianças, e ela vai encontrá-los em Mana'Olana – região que antes era conhecida como o Havaí –, não sem ter que superar muitos contratempos no caminho, entre os quais se inclui alguma traição. 
Curiosamente, o futuro de Os poucos & amaldiçoados é em tudo similar a estética do velho oeste americano, com pistoleiros cavalgando pelos desertos em busca de riqueza e aventura, passando por vilarejos de mineiros e colonos mexicanos com seus saloons e prostíbulos, ruas de terra e nenhuma lei, mas com navios abandonados aqui e ali. Até as armas que a Ruiva usa são Colts Paterson. Explica-se: o momento em que o mundo "foi adiante", como diria Stephen King, foi no século XIX. Mas, de qualquer forma, uma história de ficção científica pós-apocaliptica que ainda tem demônios e assombrações, a última coisa que se pode exigir é verossimilhança. Isso fica a cargo da capacidade do autor em construir um ambiente que sustente a suspensão de incredulidade do leitor, no que ele consegue ser razoavelmente bem sucedido. 
Cada um dos cinco primeiros episódios tem trinta e duas páginas, e o último tem quarenta e quatro. Além da história em si, cada edição traz diversas pinups da Ruiva realizadas por artistas variados. As revistas têm ilustrações em cores impressas em papel cuchê e capas cartonadas com laminação brilhante. Quando foi lançada a sexta edição, o projeto ofereceu a opção de adquirir todos os seis volumes juntos em uma caixa especial. Mais tarde, o trabalho também foi ofertado em um único volume encadernado reunindo todas as edições. 
Os corvos de Mana'Olana foi apenas o primeiro arco de histórias do universo de Os poucos & amaldiçoados. Os autores promoveram campanhas para outras história no mesmo universo, como as edições encadernadas Nação sombria (2020) e Ambição sem volta (2021), e Dilúvio, segunda minissérie com a Ruiva, ainda em publicação.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Titã




 Titã (Titan), John Varley. Volumes 1 e 2. Tradução: Maria Nóvoa. Capa do volume 1: Ron Walotsky. Capa do volume 2: Tim White. 164 e 159 páginas, respectivamente. Publicações Europa-América, coleção Ficção Científica nos. 92 e 95, 1985. Lançamento original em 1979.

 

John Varley surgiu como um dos talentos mais promissores da FC norte-americana em meados dos anos 1970. Estreou em 1974 com o conto “Picnic on Nearside”, em The Magazine of Fantasy and Science Fiction e obteve grande prestigio com seu romance de estreia, Ofiúco, o Aviso (The Ophiucchi Hotline; 1977) – publicado pela coleção FC Europa-América, número 15. Com eles sobressaiu qualidades, como a habilidade na renovação de conceitos tradicionais do gênero (como as viagens interestelares e a colonização humana do espaço), sem parecer repetitivo e bem informado sobre o estado da arte do conhecimento científico em áreas diversas, como a clonagem e a inteligência artificial, além de apresentar personagens com valores e comportamentos não convencionais. Tudo isso transparece em Titã, romance de ficção científica hard, mas que usa o modelo para extrapolá-lo num sentido ousado e transformador.

Quando a DSV Ringmaster, uma nave tripulada chega nos arredores de Saturno para uma missão científica de exploração de algumas de suas luas, descobre um satélite novo, mas que, na verdade, não é natural. Os tripulantes, comandados por Cirocco “Rocky” Jones constatam que é semelhante a uma roda, com cabos em direção a um centro. Assim, não se trata da lua Titã, mas de um corpo novo que é nomeado provisoriamente de Themis, justamente um dos titãs da mitologia grega, que também nomeia várias outras luas de Saturno.

Ao se aproximar da estrutura, a nave terrestre é subitamente atraída e destruída, e os astronautas são como que tragados para o subsolo do satélite. Isso porque Themis, posteriormente renomeado de Gaia – a edição lusitana traduziu como “Geia”, mas adoto aqui o nome mais conhecido do conceito –, apesar de ter uma estrutura toroidal é inteiramente preenchido por densas florestas, montanhas, rios e vales. A denominação faz sentido, pois o satélite é uma estrutura alienígena concebida para comportar vida, criada a partir de um ser muito poderoso, quase um Deus, embora como ele mesmo reconhecerá, gerado a partir do que chamou de “os construtores”. Uma espécie alienígena ainda mais antiga e poderosa que, segundo ele, desapareceu da galáxia.

A comandante Jones e os demais tripulantes, como a astrônoma Gaby Plauget, as físicas clones April e Agosto, o piloto Eugene Springfield, o médico Calvin Greene e o engenheiro Bill, reaparecem em pontos distantes de Gaia com a sensação de terem sido devorados e regurgitados para a superfície, cada um deles com sentimentos próprios e apavorantes do que passaram. Jones, em particular, é uma das que menos sofreu transformações dessa experiência traumática. Isso porque, os demais saem com suas personalidades muito alteradas, alguns de maneira irrecuperável.

Jones reencontra Gaby e a seguir Calvin, que reaparece a bordo de um ser gigantesco semelhante a um dirigível, chamado de Assobio, porque se comunica através de sons sibilantes com outros seres de Gaia, que ele conduz em troca de alimentos trazidos pelos outros habitantes. Pois Calvin é capaz de se comunicar com Assobio, torna-se parte do modo de vida do ser, e decide abandonar a missão, para contrariedade de Jones.




Em sua jornada por respostas, Jones, Gaby e Bill – que perdeu parte de sua memória –, encontram uma espécie parecida com centauros, chamada de titânides, no qual todos têm a forma feminina, embora alguns com órgão sexual masculino. Eles conseguem entender os humanos, mas se comunicam por meio de cantos. Jones e os demais, têm de se esforçar para cantar para se comunicar com eles. Mas após certa estranheza e dificuldade inicial, se adaptam. Assim, ficam sabendo que os seres vivem em guerra com outros alados chamados de anjos. Que surgem do alto e os atacam de forma inesperada, razão pela qual estão sempre alertas.

Muito impactada após um ataque devastador dos anjos à vila dos titânides, Jones promete ao seu líder arbitrar um possível acordo de paz. Mas na verdade, o que a comandante busca é a fonte de poder deste mundo, já que os titânides lhe revelaram que existe a entidade central citada acima, que lhes deu a vida e conduz este mundo, chamado por eles, justamente, de Gaia. Assim, Jones, Gaby e Gene abandonam a vila e partem em busca de respostas e possível ajuda para voltar à Terra.  Contudo, nessa jornada de cerca de 600 quilômetros de altura, escalando árvores e montanhas, em meios a súbitas mudanças de temperatura – do calor ao frio extremo – novos desafios e transformações estarão adiante das duas – Gene se perde no meio do caminho, após atacar sexualmente a ambas, numa fúria em parte provocada pelas transformações pelo qual passou quando tragado sob a superfície –, até o eventual contato com a entidade que criou as formas de vida nesta estrutura orbital.

Como se vê, Varley constrói um mundo extremamente imaginativo e cheio de energia. A cada capítulo, o leitor tem diante de si, uma aventura intensa e repleta de surpresas. Tanto no nível macro, do enredo, como do comportamento dos próprios personagens, em parte também sob o impacto deste mundo incrível. Neste sentido, chama a atenção a liberalidade sexual dos personagens, com Cirocco Jones e Gaby se tornando amantes, além da comandante também se envolver com Bill, e as irmãs Agosto e Abril viverem uma relação incestuosa, aqui já antes da chegada às cercanias de Saturno. Num certo momento da narrativa, também há o consumo de cocaína, tudo isso muito provocativo no cenário conservador da FC norte-americana, mesmo com Varley surgindo no contexto pós-new wave e dos contestadores anos 1960. Outro aspecto interessante que foge do padrão é o protagonismo feminino, com a história sendo conduzida de fato por mulheres, além do próprio mundo ter, de uma certa forma, uma dimensão feminina, como na exposição de duas de suas espécies, os titânides e os anjos, além da própria entidade que governa o mundo toroidal.

E os leitores e os críticos norte-americanos gostaram, pois Titã venceu o Prêmio Locus de 1980 e foi finalista dos dois principais prêmios da FC norte-americana, o Nebula em 1979 e o Hugo em 1980. É de fato seu livro mais popular e, conforme o final já sugeria com o destino surpreendente da comandante Cirocco Jones, deu ensejo a mais duas sequências: Feiticeira (Wizard; 1980) – coleção FC Europa-América, números 87 e 89 – e Demônio (Demon; 1984) – coleção FC Europa-América 118 e 119 – constituindo a chamada Trilogia de Gaia.

Para quem gosta de uma FC com uma estrutura hard competente, personagens vivos e atuantes, e um sentido de aventura apurado, Titã é uma das melhores pedidas, e ainda permeado por momentos de sense of wonder na melhor tradição do gênero. Grande livro.

Marcello Simão Branco

 

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação, Felipe Castilho

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação,
 Volume 1, Felipe Castilho. 448 páginas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

No ano de 2017 já era possível antecer as sombras que se infiltravam no cenário brasileiro. Golpe de estado em 2016, crise econômica, perda de direitos trabalhistas, fake news em profusão nas redes sociais e o crescimento de um discurso de intolerância que sabemos bem para onde nos levou. Associado a tudo isso, desenvolvia-se uma profunda crise editorial que iria abater o mercado de publicações em sua base. Grandes editoras e redes de livrarias internacionais estavam abandonando o país enquanto as locais rolavam dívidas cada vez maiores, afigurando o calote que viria. 
Mas ainda havia fôlego para investir, pois o golpe prometera novos tempos para a economia nacional, combalida por anos de uma campanha de desmoralização política e econômica. Talvez seja o que animou a publicação do ousado romance de fantasia Ordem Vermelha: Filhos da Degradação, numa parceria da editora carioca Intrínseca com o evento midiático ComiCon Experience-CCXP, realizado em São Paulo no final de 2017. Foi promovida uma gigantesca campanha de divulgação do lançamento do volume, com cartazes enormes espalhados pela cidade, e a CCXP daquele ano foi uma grande vitrine para ele. A ousada estratégia, nunca antes vista para um autor nacional de ficção fantástica – arrisco dizer que nem para qualquer outro autor de qualquer gênero – funcionou muito bem, até porque a CCXP é toda projetada para vender, haja vista o entusiasmo consumista de seu público. 
Ordem Vermelha: Filhos da Degradação é assinado pelo escritor paulistano Felipe Castilho (autor da série de fantasia juvenil O legado folclórico). Apesar de não estarem creditados na capa, a autoria é dividida com Rodrigo Bastos Didier e Victor Hugo Sousa, ambos artistas do ambiente de games eletrônicos e RPG. Didier, ilustrador, e Sousa, animador, contribuíram de forma importante para a construção do ambiente e dos personagens do romance, bem como na construção do enredo. De fato, Castilho foi contratado para dar forma textual à história que, ao que tudo indica, é propriedade da própria CCXP. O plano original prevê mais volumes pois a página de rosto estampa a expressão "Volume 1".*
O formato do romance tem cacoetes de um jogo de RPG e talvez seja mesmo resultado de algo do gênero. O ambiente emula o modelo cosmológico de O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien, e de As crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, no qual a magia é a "tecnologia" corrente e diversas raças míticas convivem em equilíbrio instável de intolerância e violência. No romance de Castilho há humanos e anões, e também sinfos e kaorshs, que são correlatos de duendes e elfos, além de uma miríade de animais fantásticos, como os betouros (amálgama de besouros com touros) e outras feras.
A história se passa em Untherak, cidadela medieval muralhada que se acredita ser o último refúgio da civilização assolada pela Degradação, decadência ambiental que tornou o mundo um lugar desértico e pouco hospitaleiro. Untherak é governada por uma monarquia teocrática de castas, controlada pelo culto à deusa imortal Una, e por uma poderosa polícia estatal cujo comandante supremo é o General Proghon, um tipo que em tudo lembra o personagem Darth Vader, da fanquia Star wars. A liderança científica é exercida pelo cruel Centípede, feiticeiro cuja consciência se espalha em uma legião de indivíduos. O poder da deusa Una é mantido pelo medo e pela violência, com o povo escravizado por uma elite administrativa chamada de "Autoridades", que vive segregada em bairros nobres enquanto o povo sofre em condições de miséria. 
Nessa situação praticamente sem esperanças acontece o Festival da Morte, competição de artes marciais na qual é prometida a liberdade ao derradeiro sobrevivente. A kaorsh Raazy decide participar dele, para ter a chance de, vitoriosa, aproximar-se de Una na cerimônia de premiação. Seu objetivo é matá-la,  provar que Una não é imortal e levar Untherak a uma insurreição. O plano funciona parcialmente, mas Raazy acaba morta por Proghon e a revolta é abafada. 
Inspirado por um mítico rebelde conhecido como Aparição, um grupo de paladinos formado pela korsh Yanisha, viúva de Raazy, o sinfo Ziggy e o falcoeiro Aelian, um escavo humano que também viu seu pai ser morto na arena do Festival da Morte, tenta o que parece impossível: derrubar a tirania da deusa Una. No processo, eles terão o apoio pouco confiável do anão negro Harun, que é um Autoridade, mas cujo objetivo de vida é localizar e recuperar a armadura sagrada de seu povo, que esté escondida em algum lugar de Untherak. Juntos, eles lutarão pela libertação do povo oprimido pelo governo de Una e seus generais. Contarão ainda com a ajuda da própria Aparição, cuja identidade é o segredo mais bem guardado de Untherak.
O livro é dividido em três partes principais: "O Miolo", que introduz o ambiente de Untherak e os principais atores da trama, "O coração de todo o medo", em que a revolta é planejada, e "O fio da espada", que conta a ação dos rebeldes e a batalha do povo contra as hostes de Proghon. Cada um dos capítulos é antecedido por trechos de um epílogo, impresso em negativo, que narra a volta da Aparição à Untherak após anos de exílio. Ainda que criativo, a estrutura descontextualiza os trechos e confunde o entendimento da história, tornando a leitura truncada e quase incompreensível. Recomendo que o leitor deixe para ler as páginas negras após a leitura do romance inteiro, que funciona muito melhor. 
Há uma grande quantidade de personagens e, apesar de estarem bem integrados à história, alguns deles são bastante esquemáticos. O romance tem bons momentos e a leitura entretém. Temas como o protagonismo feminino e a diversidade de gênero são evidenciados e contribuem para a formação de um conceito mais contemporâneo para ficção fantástica brasileira, quase sempre preconceituosa e misógena. Há um comprometedor "deus ex machina" no confronto entre os rebeldes e o Centípede mas, excluindo-se esse problema, o texto de Castilho é limpo e agradável, com boas cenas de ação e descrições vívidas da topografia e da arquitetura de Untherak. Um mapa impresso em papel diferenciado, encartado no meio do volume, ajuda a visualização geral da cidadela. 
A apresentação do livro é sofisticada, com impressão em papel pólen levemente amarelado; a capa tem laminação fosca com reserva de verniz no título e uma bela ilustração de Rodrigo Bastos Didier. O livro é dedicado ao escritor Max Mallmann (1968-2016) e Lucas S. Souza (este sem maiores referências).
Talvez Ordem Vermelha: Filhos da Degradação tenha sido um romance um tanto superestimado, notadamente pela desproporcional campanha publicitária que se fez, mas não é um trabalho nada desprezível e revela que, desde que exista disposição e capital, é possível levar a literatura fantástica a um patamar mais profissonal e popular. À fc&f brasileira nunca faltou bons autores e boas ideias, temos dúzias deles. O que nos falta mesmo é, e sempre foi, o mercado, que se faz com editoras e pontos de venda. Algo que está a cada dia mais em falta, infelizmente.

*Ordem Vermelha: Crianças do silêncio é o segundo volume da série, lançado em 2023 pela Intrínseca. 

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Destino manifesto


O meu destino eu não nego,

com Tóquio na minha frente;

a minha vida eu entrego

pelo bem de toda gente!



Destino incompreensível

mas que eu tive de abraçar:

uma garota sensível

guiada pelo luar!


Com Luna, minha gatinha,

não sinto medo nenhum:

se eu antes era bobinha

agora sou Sailor Moon!


Sailor Moon criada em 1991 no Japão por Naoko Takeuchi; 
a duologia Sailor Moon Cosmos (2023) chega ao Brasil em 22 de agosto próximo, pela plataforma Netflix.