terça-feira, 21 de julho de 2026

Portal de Capricórnio, Ursulla Mackenzie

Portal de Capricórnio
, Ursulla Mackenzie. 218 páginas. 2.a edição. São Paulo: UICLAP, 2019. Edição original: Anadarco, 2012. 

Romance de estreia da escritora paulista Ursulla Mackenzie, originalmente publicado em 2012, quando a autora ainda assinava M. R. Olivieri. O exemplar a que tive acesso foi publicado em 2019 através da plataforma de edição por demanda UICLAP. Trata-se de uma mistura de romance planetário, ucronia e transmigração, mas podemos simplificar as coisas e classificá-lo como fantasia. 
Conta a história de Dru Ruver, uma jovem que durante as férias no litoral descobre um livro com mapas e ilustrações intrigantes que parecem sugerir a existência de um portal através do qual se poderia acesar um outro mundo, em tese, a própria Terra vinte mil anos no passado. Um grupo de cientistas se forma para uma missão de exploração desse portal, que fica no interior de uma casa no litoral de São Paulo. As informações do livro se revelam verdadeiras e o grupo é transportado para um deserto repleto de monstros e armadilhas. O grupo se desmantela e cada membro vai ter de enfrentar sozinho os perigos desse mundo estranho e surpreendente. Mas eles não estão realmente sozinhos ali. Um empreendimento político-militar já se instalou naquele lugar e seu sucesso vai trazer riscos para os dois mundos. 
Mackenzie afirma que a inspiração para a história veio do maravilhamento que experimentou durante uma viagem à Praia de Santa Rita, em Ubatuba/SP, onde a casa descrita no romance realmente existe, sem o portal do tempo, provavelmente. O título Portal de Capricórnio faz referência ao Trópico de Capricórnio, que passa exatamente pela cidade. O estilo da história é weird, na linha de Edgar Rice Burrougs em Uma princesa de Marte e Pellucidar, com toques de O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien. 
O livro esta dividido em duas partes bem evidentes. A primeira narra a expedição ao passado até o retorno ao presente e traz maior quantidade de mistérios e surpresas, com uma introdução realista que reforça o estranhamento da história. A segunda parte conta sobre a volta dos protagonistas para uma segunda viagem ao passado que, por ser uma repetição, já não causa tanto impacto, mas é tecnicamente mais consistente que o trecho inicial. 
A opção pela viagem no tempo é tímida pois, fica evidente que não se trata de uma ucronia. Vinte mil anos não seria tempo o bastante para determinar as profundas mudanças descritas como, por exemplo, os contornos dos continentes que, nessa época, já eram iguais aos de hoje. Além disso, a maior parte das criaturas que surgem na história nunca existiu na Terra, sugerindo uma viagem a outro mundo ou, melhor ainda, a outra realidade, que traria significados mais profundos à trama.
Significativa também é a forma literária adotada, que não faz uso de recuos nos parágrafos nem de travessões nos diálogos. Nada que cause grandes dificuldades à leitura, que é leve, agradável e dá prazer. Várias pontas soltas deixam a sensação de ganchos para uma sequência futura, embora já tenham se passado muitos anos e a autora não deu sinal de pretender publicar alguma coisa nesse sentido. Mas, se vier, vou querer ler.
Cesar Silva

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Os Dias do Cometa

 



   Os Dias do Cometa (In the Days of the Comet), H.G. Wells. Tradução: Marcos Santarrita. Capa: autoria não creditada. Orelha: Fausto Cunha. 251 páginas. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, coleção Mestres do Horror e da Fantasia, 1984. Publicação original de 1906.

 

     Neste ano de 2026 completa-se 40 anos da última aparição do Cometa de Halley nos céus da Terra. Em 1986 o evento astronômico foi cercado de muita expectativa, mas, infelizmente, o resultado foi decepcionante. Conto mais sobre isso logo antes desta resenha no meu "Diário e Observações" que escrevi sobre a passagem do astro  leia aqui.

     Já o romance Os Dias do Cometa, de H.G. Wells (1866-1946) foi escrito em 1906, prognosticando a volta do Halley em 1910. Como se sabe, neste ano a aparição foi espetacular, o que aumentou ainda mais as profecias místicas e pseudocientíficas sobre suas possíveis consequências. Nenhuma delas ocorreu, é claro, mas, de certa forma, Wells trabalhou seu livro neste contexto. Mas de uma forma bem peculiar.

     Nos primeiros anos do século XX, Wells já era um escritor conhecido e popular principalmente por seus romances de ficção científica. Livros que, efetivamente, se tornaram clássicos e pelo qual o autor continua sendo lido e interpretado até hoje. Para citar apenas duas destas obras-primas, A Máquina do Tempo (The Time Machine; 1895) e A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau; 1896).

     Mas após esta do que podemos chamar de uma primeira fase de sua obra, ele inicia uma segunda, no qual os aspectos sociológicos e reformistas se sobressaem diante da criatividade da ficção científica – embora também na primeira fase sua crítica e sensibilidade social já estivessem presentes.

     Em Os Dias do Cometa encontramos um homem já idoso repassando as memórias de sua vida através de um diário pessoal. Escrevendo no alto de uma torre, ele recebe a visita inesperada de um jovem que passa, então, a ler os escritos, e dessa forma a história é contada.

    No caso, Willie Leadford relata o que foi o mundo antes e depois da Grande Mudança. Antes, ele mistura sua trajetória pessoal com a realidade social da Inglaterra. Morando com a mãe de aluguel num quarto e cozinha, trabalha numa fábrica de cerâmica onde passa a maior parte do tempo, ganha muito mal, e namora Nettie, uma garota socialmente mais bem posicionada. Mas, apesar de se gostarem, sua dificuldade financeira e seus valores diferentes terminam por afastá-los, embora ele lute desesperadamente para continuar com ela. Principalmente quando ela o troca por um jovem filho de um empresário. Justamente tudo o que ele mais abominava, ao enxergar como o mundo era socialmente desigual e injusto.

     Através da revolta do personagem, nesta primeira parte, Wells descreve com minúcias a miséria da classe trabalhadora fabril da época. Mas a um comentário socialmente crítico pungente, mais importante é sua sensibilidade ao mostrar o sofrimento dessas pessoas e o desprezo que sentia pela classe dominante. Assim, o jovem Willie, de certa forma, seria o próprio Wells, ambos militantes socialistas e participantes de reivindicações por melhores condições de trabalho e relações humanas mais solidárias.

     Mas onde está o cometa? Sim, pois em meio a esta juventude atribulada e explorada surge o cometa nos céus. A cada noite ele se torna maior, e não são poucos os que especulam sobre o fim dos tempos. Por sinal, as descrições sobre o cometa e suas características são especialmente bonitas. Mas Willie se irrita com a presença do astro, pois estaria desviando a atenção das pessoas dos seus verdadeiros problemas. Que se intensificam com um movimento grevista fortemente reprimido e o início de uma guerra com a Alemanha. Teria alguma coisa a ver com a presença do cometa? Sim, mas de uma forma totalmente diferente.

     Pois o principal da autobiografia de Willie aborda a mudança que aconteceu depois que o cometa atingiu sua máxima aproximação da Terra. Pois o astro soltou uma quantidade maciça de gases esverdeados que se misturou à atmosfera e mudou completamente a personalidade das pessoas depois de respirarem o novo ar. No caso, o nitrogênio se tornou respirável e, como se sabe, ocupa quase 80% da atmosfera terrestre.

   Pois com a Grande Mudança, todo individualismo, cobiça, inveja e valorização desmedida por interesses materiais se esvaiu. As pessoas se tornaram mais abertas a novidades, compreensivas, bem-humoradas e dispostas a construir uma nova sociedade, baseada em valores como a solidariedade, a igualdade e a fraternidade.

     Ou seja, a luta por um mundo melhor foi provocada pelos efeitos do cometa! É de se pensar que a humanidade tenha entrado numa espécie de transe, sob efeitos artificiais e que, de alguma forma poderia haver efeitos colaterais não planejados ou que o processo fosse passageiro. Mas não é o que acontece e, antes de mais nada Willie conta como os vapores verdes do cometa mudaram sua própria maneira de encarar a vida. Mais disposto, otimista e feliz.

     De certa forma uma espécie de deux ex machina surge e resolve a luta política em torno de um mundo mais justo. Mas isso poderia ser realmente argumentado se estivéssemos diante de um escritor menos capaz. Pois, através do recurso de um fenômeno natural externo, Wells narra em detalhes a construção desta nova sociedade, que ele imagina como a ideal. O sistema econômico capitalista é abolido, bem como a propriedade privada convencional. As pessoas trabalham juntas, em projetos coletivos de interesse social, dissipando as diferenças de classe antigas. Prevalece as cooperativas de produção nos mais diferentes setores da economia: agricultura, energia, transportes, comunicação, educação, saúde etc. Para organizar tudo isso são criados conselhos setoriais – coordenado por um governo central – onde os novos objetivos são traçados e as pessoas endereçadas de acordo com seus conhecimentos e aptidões.

     Wells não propunha um socialismo ao estilo marxista, mas sim o chamado socialismo fabiano, que defendia uma transição gradual e pacífica ao socialismo. Uma via reformista ao invés de revolucionária. Foi extremamente influente no Reino Unido entre o final do século XIX e as primeiras décadas de XX se misturando, com o tempo, com o movimento trabalhista.

     No livro Wells propõe uma reestruturação urbanística e arquitetônica radical com a destruição da maior parte das casas, prédios e demais instalações do antigo regime. Isso sem falar nas curiosas e algo sombrias cerimônias públicas de queima de objetos pessoais considerados inúteis e que lembram a velha ordem. Neste particular, Wells exagera, com o incêndio coletivo de milhares de livros "velhos e empoeirados" que retratavam valores que deveriam ser superados.

     Se esta parte revela a radicalidade do que propunha o reformador social, no plano das relações pessoais Wells também ousa, ao criticar a família nuclear e a relação monogâmica entre homem e mulher. Propõe, no lugar, o que chama de famílias sociais e o amor livre e poligâmico. Fico a imaginar como foram recebidas tais ideias na Inglaterra pós-vitoriana do início do século XX!

    O final da obra, de certa forma, me pareceu estranho pois o leitor da biografia se mostra surpreso com o mundo retratado. Mas por que se ele nasceu nesta realidade anos depois? Talvez o desconcerto esteja relacionado ao mundo de antes do cometa. Mas, até onde me parece, não ficou bem resolvido.

    Como dito acima, Os Dias do Cometa se insere no início da fase derradeira da carreira de Wells, no qual a crítica e a reforma social se tornam mais importantes que a criação literária em si. No final da vida, o autor se ressentiu de que as obras que mais vendiam eram as da primeira fase. Queria ser reconhecido pelas obras de cunho socializante por entender que teriam mais a contribuir para a transformação de uma nova sociedade. De fato, embora elas demonstrem o vigor de sua crítica e sensibilidade antes às mazelas do capitalismo, é como escritor de ficção científica que Wells continua celebrado como um dos nomes mais importantes do gênero, pois o comentário social estava embutido em enredos inventivos e com inegável senso de aventura e de maravilhamento, tornando estas obras, antes de mais nada, prazerosas e estimulantes.

    Escrito poucos anos antes da chegada do Halley, Os Dias do Cometa se situa no contexto de outras obras que abordaram o fenômeno em sua época como, por exemplo, Der Rote Komet (1909), de Robert Heymann – que ecoa o cenário de Wells de forma quase direta, embora mais ameaçador, pois ao gás é contraposto uma forte luz vermelha que circunda a Terra ante a possível colisão de um cometa. E anos antes com Hector Servadac: Viagens e Aventuras pelo Mundo Solar (Hector Servadac: Voyages et Adventures à travers le Mondo Solaire; 1877), de Julio Verne, e ainda antes Edgar Allan Poe com o conto "A Conversa de Eiros e Charmion" (The Conversation of Eiros and Charmion; 1839). Mas o livro de Wells, mesmo não estando entre suas principais obras, é talvez o mais significativo com sua proposta de utopia e amor livre.

Marcello Simão Branco


40 Anos da Vinda do Cometa de Halley

 

Imagem do Cometa de Halley obtida pela sonda soviética Vega 1 em 6 de março de 1986


Diário e Observações sobre o Cometa de Halley em 1986

 

Marcello Simão Branco

 

Quando o cometa de Halley reapareceu nas noites do planeta Terra há 40 anos eu, aos 18 anos, exercia uma atividade informal e entusiasmada de leitor de astronomia e observador do céu noturno. Para me incentivar ainda mais, meu saudoso pai comprou uma pequena luneta de cor branca para que eu pudesse acompanhar a chegada do cometa.

O relato que segue registra minhas impressões sobre a presença do astro no céu da cidade de São Paulo, misturando precisão de observação, as impressões pessoais de um jovem no início de sua vida adulta e parte dos resultados sobre a vinda do cometa.

Escrevi originalmente em manuscrito no anexo do livro A Volta do Cometa de Halley, do astrônomo brasileiro Eugênio Scalise Júnior, lançado na época, e que trazia seis páginas finais para que o próprio leitor deixasse suas impressões, uma a cada mês, entre dez de setembro de 1985 e dez de maio de 1986 mas, como se verá, antecipei minha última observação. É um diário que ficou inédito por quatro décadas e decidi publicar agora em virtude da efeméride que, aliás, passou quase despercebida.

 

Diário & observações (páginas 91 a 96), Marcello Simão Branco, como anexo do livro A Volta do Cometa de Halley, Eugênio Scalise Júnior. São Paulo: Diagrama & Texto, 96 páginas, 1985.

 



= 10 de setembro de 1985

O Halley ainda não é visto no céu noturno, encontrando-se a aproximadamente 2,98 Unidade Astronômica (UA) da Terra e 2,73 UA do Sol (dados exatos de 1º. de setembro).

O que ocorre é simplesmente a cada dia que passa uma crescente expectativa da sua aparição, que deverá ocorrer no fim de outubro e começo de novembro, em meio às Três Marias, na constelação de Órion (1º. a 30 de novembro).

 

= 10 de outubro de 1985

Apesar do Halley ainda não ser observado facilmente, a chuva de meteoros associados ao Halley já será uma amostra do que será sua passagem.

A Epsilon Orionidis (depois corrigi para Epsilon Orionis) ocorrerá de 15 a 31 deste mês, com máxima atividade em 21 de outubro.

Registra-se aqui a descoberta de astrônomos chineses a respeito do cometa Giacobini-Zinner que cruzou próximo ao Cometa de Halley no último dia 15 de setembro a 18 do mesmo mês, num encontro que ocorre somente a cada mil anos.

 

= 10 de novembro de 1985

Infelizmente não pude observar a chuva de meteoros relacionada ao Halley ocorrida no mês passado devido às constantes chuvas, e à poluição de São Paulo.

O cometa desde o dia primeiro deste mês já pode ser observado, mas com luneta ou binóculo. Até agora não consegui observar com minha luneta, pois a poluição de São Paulo é muito grande. Mas vou continuar tentando, pois, a partir do dia 18 deste mês, haverá melhores condições de observá-lo pois a Terra estará exatamente entre o Sol e o cometa.

 

= 10 de dezembro de 1985

Mais um mês passou e eu não observei o cometa, devido a poluição e a chuvas que vem ocorrendo.

Ver no bloco de anotações que a 23/11/1985 ocorreram duas descobertas a respeito do Halley. Assim como no começo do mês foi detectada a molécula de HCN no núcleo do cometa. (Eu escrevia num bloquinho as notícias curiosas sobre astronomia que lia em livros, jornais e revistas. Tenho comigo até hoje).

 

= 10 de janeiro de 1986

Com cuidado e muita paciência o cometa já é visto a olho nu como se fosse uma nuvem muito tênue. Eu ainda não o observei, mas o aguardo com expectativa. O Halley a 2 de janeiro cruzou a órbita da Terra, e se encontra atualmente na Constelação de Pegasus (de difícil observação).

 

= 10 de fevereiro de 1986

Por duas vezes no mês de janeiro, quase tive a certeza de observá-lo, mas não posso afirmar categoricamente que o observei, pois, o Halley ainda não é o fascinante espetáculo visual que todos esperam.

Atravessou a órbita de Vênus em 21 de janeiro, e no dia 9 deste mês às 12h 52 min, chegou ao periélio depois de 76 anos.

 

= 10 de março de 1986

Estou decepcionado, pois vejo agora que a passagem do Halley foi um grande lance de propaganda, tão forte que abafou o que muitos astrônomos afirmavam antes: que a passagem de 1986 seria uma das piores de todas. Apesar disso continuo com muita esperança de avistá-lo, especialmente no mês que vem, quando ocorrerá sua máxima aproximação da Terra.

 

= 10 de abril de 1986

Muitos conhecidos meus, parentes, etc. afirmam tê-lo visto, mas não sei se acredito, pois, a maioria confunde um cometa, com Sírius por exemplo. Quanto a mim, amanhã dia 11 concentro minhas últimas esperanças...

 

= 11 de abril de 1986

Aconteceu! Nem sombra do que foi anunciado, mas na noite de sexta-feira, dia 11 de abril, entre 1 e 2h 45 min da madrugada, eu o avistei e o contemplei a noroeste da Constelação de Centauro, como uma fascinante, pequena bola ofuscada e nevoenta (com binóculo) e maior e menos densa vista com minha luneta. Meu pai, irmão e minha mãe também o avistaram comigo no quintal e em frente à nossa casa. Primeiro, olhei a olho nu, e depois obtive a maravilhosa confirmação com os instrumentos. Nos dias 12 e 13 também o vi e depois ficou difícil a localização e não tenho certeza de vê-lo outra vez, ficando apenas a lembrança de tê-lo visto.