sábado, 6 de fevereiro de 2016

Incidente no Caribe, Denise Reis

Incidente no Caribe, Denise Reis. Prefácio de André Valente. 128 páginas. Edição da autora, Rio de Janeiro, 2005.

Incidente no Caribe, de Denise Reis, é uma novela que se insere no tema da transmigração de um personagem contemporâneo para uma utopia tecnológica, uma tradição desde a proto-ficção científica que caracteriza boa parte dos primeiros exemplos da literatura do gênero e, principalmente, aquela feita no Brasil. Porém, Incidente no Caribe não é exatamente uma obra de ficção científica, mas uma fantasia esotérica.
Dr. Renato Di Cosmo é um renomado físico brasileiro em férias no Caribe. Ele mergulha sozinho no mar da Ilha de Bimíni e ali encontra submersas ruínas de uma construção antiga em ouro e cristal. No mesmo instante, é arremessado para uma outra realidade, na qual emerge nu e desorientado numa praia deserta com duas luas no céu. Depois dos primeiros momentos de pânico, começa a explorar a região e localiza água e alimento mais que suficientes para manter-se vivo.
Muito tempo depois, Renato encontra uma aldeia vivendo uma utopia de conforto e fartura. São cidadãos de Aztlan, uma grande metrópole insular que está em guerra contra um inimigo distante. Em breve, seus dirigentes vão acionar a arma suprema, recentemente desenvolvida, que derrotará para sempre todos os seus inimigos. Porém, Renato é alertado por um sábio resignado que alienígenas amistosos previram que o disparo dessa arma vai também arrasar o planeta e destruir a humanidade. Eles têm um plano de evacuação em suas espaçonaves para uns poucos escolhidos, mas o nome de Renato não está nessa lista. Sua única esperança de sobrevivência é encontrar o portal que o trouxe até ali e fazer o caminho inverso, retornando ao seu próprio tempo antes da catástrofe.
Este é o resumo da novela que parece ser o trabalho de estreia de Denise Reis no gênero. Nas orelhas da capa do volume descobrimos que a autora é engenheira e jornalista, ex-sócia da Editora Leviatã do Rio de Janeiro e se dedica a produção de eventos e webdesign.
O prefácio é assinado pelo linguista André Valente que comete uma gafe logo nas primeiras linhas, quando diz: "A autora extrapola os limites do romance de ficção científica e nos oferece um texto profundamente humanístico."  Não era necessário que, para elogiar a autora, o prefaciador tivesse que desqualificar todo o gênero em que a obra pretendia estar inserida. Certamente ele compartilha o preconceito contra a literatura de gênero, especialmente a ficção científica, para considerar que só extrapolando suas fronteiras uma obra possa atingir o humanismo. 
Denise Reis tem um texto leve que se lê com facilidade. Porém, seria desejável mais atenção aos instrumentos de suspensão da descrença do leitor, que contribuiria para um resultado melhor. Por exemplo, poderia ter enriquecido a introdução da história com o cenário do Caribe onde o personagem foi passar as férias, construindo assim uma esfera de realismo e empatia em torno do mesmo, entes de penetrar nos absurdos inerentes das histórias de fantasia. Algumas inconsistências também comprometem a plausibilidade do texto, como quando o protagonista fica semanas vagando pela orla marítima sem encontrar qualquer sinal de vida humana para, depois, descobrir-se numa ilha não muito grande na qual se instala uma metrópole tecnológica populosa e muito ativa. 
Um ponto valioso a favor da autora é que ela não utiliza vocabulário rebuscado nem pratica exercícios formais intrincados, narrando a história com simplicidade, o que é ótimo para qualquer tipo de literatura e muito desejável para atingir o público jovem. Este parece ser o melhor caminho para a autora dar sequência ao seu trabalho literário.

— Cesar Silva

2 comentários:

  1. Olá, César, obrigada pela resenha e pelos comentários. Adorei.
    Concordo com você que a parte inicial poderia ter sido mais desenvolvida.
    Quanto à ilha ser pequena, não era não, rs. Tinha dimensões continentais, na verdade, como descrito no mito em que a obra se baseia.
    Foi uma grata surpresa encontrar esses seus comentários tantos anos depois.
    Um grande abraço e parabéns pelo trabalho que vc. desenvolve.

    Denise Reis

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  2. Olá, César, obrigada pela resenha e pelos comentários. Adorei.
    Concordo com você que a parte inicial poderia ter sido mais desenvolvida.
    Quanto à ilha ser pequena, não era não, rs. Tinha dimensões continentais, na verdade, como descrito no mito em que a obra se baseia.
    Foi uma grata surpresa encontrar esses seus comentários tantos anos depois.
    Um grande abraço e parabéns pelo trabalho que vc. desenvolve.

    Denise Reis

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