segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Revista Ficções


Ficções – Revista de Contos. Organização e edição de Dorva Rezende. Ano VIII, número 15, julho de 2006, 112 páginas. Rio de Janeiro: Editora Sete Letras, 2006.

De tempos em tempos a ficção científica brasileira deixa a sua tradicional invisibilidade. Ganha algum destaque na grande imprensa, por meio de uma ou outra editora que publica alguma obra relevante ou ainda em uma publicação especializada do mainstream, com uma crítica positiva ou um volume de contos. Pois este último caso é o desta bem-vinda edição da revista Ficções, da editora carioca Sete Letras, que dedicou um número inteiro sobre a ficção científica brasileira, no penúltimo número da revista. Descontinuada pouco depois como todas as da história do mercado editorial brasileiro, foi um acontecimento que surpreendeu não só a comunidade brasileira voltada ao gênero, como o próprio leitor que habitualmente comprava esta revista, ou seja, do mainstream. Com pouco ou nenhum conhecimento sobre a ficção científica escrita no Brasil.
Mas a edição é meritória não apenas por sua intenção. É principalmente pelo conteúdo do volume. É que o jornalista Dorva Rezende, organizou uma verdadeira antologia do gênero no país. E das melhores já montadas.
Ficções reúne sete dos mais representativos autores brasileiros da Segunda Onda (1982 a 2004), a maioria deles em momentos especialmente felizes de suas obras. Como em toda coleção de histórias curtas de autores diferentes, há narrativas melhores e outras piores. Mas chama a atenção a média elevada de trabalhos de boa qualidade. Talvez para isso tenha contribuído a quantidade pequena de histórias o que, em tese, diminui a possibilidade de mais irregularidade entre os trabalhos. Mas também é possível afirmar que o equilíbrio virtuoso seja consequência da boa escolha de autores, todos já com uma carreira com trabalhos profissionais publicados.
A revista abre com um bom artigo do próprio editor, discutindo as razões pelas quais o gênero praticado no país continua pouco considerado por boa parte da comunidade literária. Aponta uma invisibilidade que teima em se fazer aparecer e fornece alguns exemplos históricos de bons autores que o gênero já tem no país. Mesmo usando uma linguagem um pouco afetada, com uma verborragia excessiva em termos de referências eruditas – talvez devido ao público alvo preferencial do volume, ou seja, não leitores de ficção científica –, o texto é inteligente e serve para instigar a leitura dos contos a seguir.
O primeiro dos contos publicados é também o melhor da edição e provavelmente a melhor história brasileira de 2006. Estou me referindo ao texto “A propósito da difração quântica nas regiões periféricas da consciência”, de Braulio Tavares. É uma história surpreendente e sofisticada, que mostra como seria um ser humano com a visão de outros universos paralelos, embasados na concepção quântica do princípio da incerteza. A ideia básica é simples, mas provocadora: para existir é preciso ser visto. Como se nota, estamos diante de uma premissa fascinante e polêmica, pois abre outras maneiras de enxergar a realidade, relativizando-a, abrindo a mente e a postura para outras experiências não convencionais da vida.
O recurso do personagem estar sob efeito de uma droga, só acentua o possível nexo causal que pode existir entre o cérebro e as estruturas físicas que compõem a Natureza. Como se houvesse uma oportunidade de atravessar àquela ao qual estamos ‘presos’ em direção a concepções mentais e físicas outras. É Braulio Tavares novamente em um momento brilhante.
Na sequência vem “Um dia perfeito para um piquenique”, de Simone Saueressig. Uma boa escolha, pois a autora gaúcha é talentosa e mantém o nível do conto precedente. E também não deixa de ser uma surpresa agradável constatar que uma autora mais voltada à fantasia e ao horror, escreve uma história de ficção científica tradicional com competência.
Em uma missão brasileira em Marte, um astronauta descobre uma fenda no solo que dá em um túnel subterrâneo. Em sua missão ele está à procura do Porto 31 que, acredita-se, seja uma estrutura metálica sob a superfície. De fato, ela se confirma. Mas o astronauta jamais poderia imaginar que era sua própria nave há milhares de anos. Embora seja possível descobrir o rumo da história no início, a autora narra com segurança, mantendo o suspense e o interesse em sabermos o que acontecerá com o desafortunado astronauta. 
A terceira história é de Jorge Luiz Calife, o autor símbolo da ficção científica hard brasileira. O seu “Mergulho nas Bahamas” apresenta Patrícia, uma jovem fotógrafa da vida selvagem. Ela está em missão nas águas do Caribe, quando é surpreendida por uma lula gigante. O animal a leva para a escuridão do fundo do oceano. E ela desperta a 680 anos-luz da Terra, em um planeta oceânico, mantido como um zoológico de espécies marítimas raras por uma civilização extraterrestre. Pois ela foi confundida com uma sereia, que os alienígenas julgam existir, seguindo as lendas terrestres que encontraram.
Obviamente um engano e Patrícia procura se utilizar da crença alienígena para tentar voltar à Terra. A maneira como ela os convence pode parecer pouco crível, mas é divertido e faz sentido, pois se os aliens acreditam mesmo que ela seja uma sereia, nada mais lógico que continuassem ingenuamente em seu engano. O conto é uma variação das lendas sobre os misteriosos desaparecimentos nesta região do planeta, narrado com desprendimento e segurança, com as conhecidas belas imagens da natureza, uma marca do autor. Uma história bem-vinda, pois foge da mesmice de seu universo ficcional de “Padrões de Contato”, mostrando que o autor pode escrever contos interessantes como este. Por fim, é de se perguntar por que esta história não foi publicada na sua coletânea As Sereias do Espaço (2001). Teria sido uma das melhores do livro. A não ser que tenha sido escrita mais recentemente.
“Bárbaros nos portões” é a contribuição de Gerson Lodi-Ribeiro à antologia. Como já é comum em sua obra, esta é mais uma história de especulação política sobre o futuro próximo do Brasil. Em 2043 o contexto internacional vive uma nova Guerra Fria, desta vez entre a Aliança Ocidental – liderada pelos Estados Unidos – e a União Sulina – que inclui o Brasil. Ao que parece o conflito não é mais Leste-Oeste, mas Norte-Sul.
São construídas cidadelas subterrâneas para abrigar as autoridades no caso de uma guerra nuclear. Floresta é uma delas, próxima a Brasília. Na iminência da guerra, os políticos e militares correm para os portões da cidadela. Só que os residentes, cientistas em sua maioria, não deixam que os ‘bárbaros’ entrem. Isso porque parte da população fixa teria de ser retirada para dar lugar às autoridades. A guerra ocorre e Floresta torna-se líder no mundo, entre as poucas que sobrevivem. A história é interessante, mas a parte final diminui o impacto, quando o autor resolve explicar o que veio depois do conflito. Sai a narrativa e entra o documento. Perde uma força dramática bem conseguida até então.
Questionável também o argumento de considerar os políticos como bárbaros e corruptos e os cientistas como virtuosos e idealistas. Será que é um desabafo com os escândalos recentes na política brasileira? Ademais, como é que as cidadelas não estavam preparadas para receber as autoridades, na eventualidade de um conflito?
Sobre a dicotomia em si, ela não faz sentido em um Estado que, pelo que é sugerido, é democrático. No fundo, os bárbaros são os que impedem a entrada dos governantes, representantes do povo. Impedidos de entrar em uma instituição que é pública e não dos que nela residem. Um autêntico golpe de Estado!
O texto é curioso também pelas referências a personalidades do fandom por meio de personagens, como Silvio Gonçalves (tradutor), Fábio Fernandes (escritor) e um certo general Souza Castro, uma referência indireta ao escritor Roberto de Sousa Causo.
E é exatamente de Causo a próxima história. Coincidência ou não, outra história de futuro próximo com o Brasil em guerra. “Brasa 2000” foi primeiramente publicada no fanzine Somnium no. 79, mas esta nova versão é modificada. O conflito é com a Argentina. São Paulo é severamente bombardeada, sobrando pouco mais do que ruínas do Centro da cidade. O drama enfoca o soldado Exequiel, único sobrevivente de seu grupo. Ele tenta se desvencilhar de drones altamente sensíveis e mortíferos, quando encontra um velho civil ferido em escombros. Procura ajudá-lo e uma curta e estranha relação ocorre entre os dois, sem que o soldado compreenda o significado. O velho fala por parábolas existencialistas. Demais para um soldado, ou qualquer pessoa numa situação vital, que quer apenas sobreviver.
Causo imprime uma boa dramaticidade, além de – como já lhe é habitual –, narrar de maneira convincente os detalhes das batalhas, mesmo sem perder o cacoete – ainda mais recorrente – , de descrever com detalhes os armamentos e como funcionam. Se no conjunto é um bom conto, principalmente por causa da sensação iminente de morte dos personagens, por outro soa incompleto. Como se fosse o fragmento intenso de uma história maior, o que deixa uma sensação de certo desconforto ao final. De uma narrativa que poderia render mais.
A próxima história é de Carlos Orsi Martinho, com o seu “O Colosso de Bering”. Um sujeito morre e vai parar em outro universo, no fim do século XIX bem no meio de uma guerra entre russos e japoneses. É verdade que esta guerra existiu em nosso universo. A diferença é que são estes dois países as potências dominantes da época. Pois da mesma forma que lá foi parar ele retorna ao que acredita ser o ‘seu’ mundo. Procura um amigo, que se tornou escritor de mistérios para lhe ajudar a decifrar o seu próprio.
Resumido desta forma, talvez o leitor não ache muito interessante. Mas o que vale é ler a história, contada com bom ritmo e um suspense intrigante. Um conto que prende a leitura até o desfecho que, por sinal, ainda consegue ser provocador.
A última história é de Fábio Fernandes. Para exemplificar, permitam-me uma indiscrição. Na dedicatória que o autor escreveu ao meu exemplar ele afirma que “Às vezes escrevo hoje em dia, mas quando escrevo é ficção científica”. Parece que de lá para cá a situação não mudou.
“Charlotte Sometimes” não é um conto facilmente digerível – o que, aliás, é comum no autor –, mas é sutil em suas consequências. Explicá-lo é um pouco difícil, pois perde-se as suas nuances e seu jogo de aparências, sempre volvendo, como se no próximo parágrafo uma nova e diferente sentença se apresentasse. Toda esta estrutura subjetiva se dá na experiência onírica de um sujeito que não sabe mais o limite entre o sonho e a realidade. Até ser confrontado com duas descobertas: Sua finitude e sua vivência através de alguém que lhe perdeu.
Após os contos ainda há um bônus, com uma boa entrevista com Braulio Tavares, realizada por Dorva Rezende e Manoel Ricardo de Lima. Ele fala sobre as razões de não mais escrever ficção – na época –, das dificuldades do gênero crescer no Brasil, de Guimarães Rosa e Jorge Luís Borges, além de citar algumas obras da ficção científica brasileira que considera dignas de serem conhecidas.
Esta edição número 15 da revista Ficções merece alguns reparos, contudo, pois faltou uma boa revisão, além do fato das biografias da maioria dos autores estarem com dados incorretos. É curioso também que esta revista tenha uma distribuição precária, encontrada para compra apenas na própria editora (!), conforme me revelou uma de suas publishers. É irônico que uma publicação que visa a divulgar a ficção científica brasileira seja ela também de acesso difícil.
Mas estes problemas são laterais. O principal é que os leitores do mainstream e do próprio gênero que conseguirem comprar a edição serão brindados com um momento feliz da ficção científica brasileira. Isso não é pouca coisa, principalmente para a comunidade que se dedica ao gênero, pois sugere boas perspectivas para seu reconhecimento no país.

– Marcello Simão Branco

sábado, 28 de julho de 2018

The War in Space / Battle in Outer Space 2 (Japão, 1977)



“The War in Space” é o título americano dessa bagaceira de FC japonesa produzida pela “Toho” em 1977, aproveitando o lançamento de “Star Wars” para tentar lucrar com as histórias de guerras no espaço. O filme também é conhecido como “Battle in Outer Space 2”, numa referência como algum tipo de sequência para “Os Bárbaros Invadem a Terra” (The Mysterians, 1957) e “Mundos em Guerra” (Battle in Outer Space, 1959), ambos dirigidos por Ishirô Honda.
A história é ambientada em 1988, um futuro para a época da produção e um passado já distante para os tempos atuais, 30 anos depois. A Terra está sendo atacada por alienígenas de um planeta muito distante que está em processo de extinção, e que procuram outro lugar para viverem, um dos clichês mais saturados desse sub-gênero da FC. Eles estabelecem uma base em Vênus e promovem um ataque destrutivo nas principais cidades do nosso mundo. Para combatê-los, um renomado cientista japonês, Professor Takigawa (Ryô Ikebe, que esteve também no anterior “Mundos em Guerra”), projetou a nave de guerra “Gothen”, que é utilizada como representante da humanidade e da “Federação Espacial das Nações Unidas” para deter a invasão alienígena.
A “Gothen” tem uma broca perfuradora gigante localizada na parte frontal e com suas armas de raios laser e um sistema de lançamento de aviões similar ao disparo de projéteis de um revólver, vai até Vênus para destruir a base inimiga. A bela filha do cientista, June (Yûko Asano), é sequestrada pelo líder dos vilões e seu antigo namorado, Miyoshi (Kensaku Morita), tenta resgatá-la, respondendo um pedido do atual noivo da moça, o piloto Morrei (Masaya Oki), formando um tradicional e clichê triângulo amoroso. Trava-se então uma guerra no espaço longínquo, no distante planeta Vênus, entre os humanos e os alienígenas invasores, com sua imensa nave na forma de um galeão típico de navegação em nossos oceanos, com suas esferas voadoras que soltam raios laser.
“The War in Space” ou “Wakusei Daisenso” (no original japonês) é um filme bagaceiro de ficção científica dirigido por Jun Fukuda, com uma história típica das exageradas batalhas espaciais entre os humanos e invasores alienígenas, pela defesa de nosso planeta tão cobiçado. A única característica realmente interessante, para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro, são as esperadas maquetes e miniaturas de naves e aviões de guerra, os cenários coloridos tanto das bases terrestre como a alienígena, os computadores gigantes imaginados pelas mentes dos roteiristas da época, e o vilão estranho, aqui representado pelo líder tirano Comandante Supremo do Império da Galáxia, de pele verde e usando um capacete e vestuário hilários. As naves são barulhentas e a “Gohten” até solta fumaça, “poluindo” o espaço.
Porém, de resto, o filme é muito ruim. A interpretação dos atores é sofrível, sendo impossível estabelecer alguma empatia com os personagens e seus destinos. O inexpressivo ator David Perin, que faz o papel do piloto Jimmy, tem uma cena patética onde tenta esboçar alguma emoção ao saber da morte da família num ataque alienígena. Mas, ele falha de forma desastrosa na tentativa. O roteiro é extremamente superficial, explorando os mesmos elementos de dezenas de filmes similares sobre invasão alienígena pela posse da Terra.
Curiosamente, em outra cena patética, temos um clone pobre do “Chewbacca”,o “Wookiee” que se tornou um ícone popular pela cultuada saga “Star Wars”. Só que a cópia japonesa tem chifres bizarros e é um simples guarda que aterroriza a mocinha presa pelo vilão. Porém, ao contrário do famoso guerreiro original, esse é tão incompetente que dá pena.
(Juvenatrix – 26/07/18)



sexta-feira, 27 de julho de 2018

De jogos e festas, José J. Veiga

De jogos e festas, José J. Veiga. 190 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2016.

Desde 2015, quando se comemorou o centenário do nascimento do fantasista goiano José J. Veiga (1915-1999), e o catálogo do autor passou a integrar o acervo da Companhia das Letras, que iniciou a republicação de suas obras em uma coleção dedicada ao autor. Foram publicados em 2015 a coletânea Os cavalinhos do Platiplanto e os romances A hora dos ruminantes e Sombras de reis barbudos. Depois de um pequeno hiato, a coleção seguiu em frente em 2016 com o lançamento da coletânea De jogos e festas, publicada originalmente em 1980. O acabamento segue o padrão da coleção, com a capa ilustrada por Deco Frakas, mas sem capas duras desta vez.
Trata-se de uma seleta com apenas três textos, sendo duas novelas e um conto, além de um posfácio assinado por José Castello, em que comenta curiosidades sobre o autor e sua obra, principalmente a amizade com o também escritor João Guimarães Rosa.
Em respeito a opinião do autor, o volume não tem prefácio – o que é explicado por Castello –, e entra de cara na novela que dá nome ao livro e toma quase a metade de suas páginas. Esta é uma história de contornos realistas, em torno do mistério da morte de Vicente, cuja solução passa a ser o obsessão de seu irmão mais novo, Mário, que retornou à cidade natal depois de um período de afastamento. Há uma série de detalhes que o autor tece em torno desse mistério e de suas consequências familiares e sociais, mistérios estes que vão alterando a percepção e o comportamento de Mário que, aos poucos, vai assumindo a personalidade do irmão para tentar entender os motivos e o causador de sua morte, envolvendo-se com seus amigos, e demais pessoas de sue passado. A narrativa tem momentos oníricos característicos das obras de Veiga, mas sem a proposital indefinição do tempo da ação: desta vez, quando é sonho, sabemos que é.
Bem no centro do livro, temos o conto curto "Quando a Terra era redonda", o texto mais fantástico do volume. É escrito em forma de um artigo, como se fosse um texto de estudo acadêmico. Nele, o estudioso comenta, em algum momento do futuro distante, sobre as característica do mundo no tempo em que a Terra era redonda, pois em sua época ela não é mais: tornou-se chata assim com o tudo o que antes era arredondado. Assim, discute como, no passado, deveria ser a percepção de um mundo redondo, algo quase incompreensível para os habitantes do futuro. O texto é divertidíssimo, e dialoga com o clássico da ficção científica Planolâdia, do escritor britânico Edwin A. Abbott (1838-1926).
A segunda metade do volume é ocupada pela novela "O trono no morro", uma espécie de versão veiguiana a Grande Sertão: Veredas, de seu grande amigo Guimarães Rosa. O início do texto tem um tom de fantasia medieval, que vai se justificar ao final da leitura. A história é sobre Quintino que, quando jovem, foi "recrutado" pelo bando de Gumercindo Frade, cangaceiro violento que o inicia na arte da bala. Quintino sonha em voltar a vida pacífica e previsível de agricultor da qual foi sequestrado, mas seu talento com as armas acaba por torná-lo uma referência no grupo cangaceiro. Até o dia em que, depois de uma tocaia à traição que dizimou o bando, Quintino consegue escapar e se torna um pacato comerciante numa cidadezinha esquecida. O rumo da história muda radicalmente, saindo das correrias e tiroteios para uma relação social estável com a comunidade, onde Quintino vai encontrar o amor e a realização pessoal, bem como as tragédias da vida ordinária, que são tão ou mais dolorosas que aquelas enfrentadas no cangaço. Resta a Quintino a fuga para dentro de si mesmo.
Veiga nunca decepciona seus leitores. Trata-se de um verdadeiro gigante da narrativa, que faz emergir o maravilhoso das situações mais corriqueiras. Porque, afinal, a vida é por si só um milagre e cada detalhe dela é, em si, um fato tão fantástico quanto improvável, conforme o ponto de vista. Ponto de vista este que Veiga, como um experiente fotógrafo, é mestre em focalizar.
— Cesar Silva

sábado, 21 de julho de 2018

O Templo do Passado


O Templo do Passado (Le Temple du Pasè), Stefan Wul. Tradução de André Varga. Capa de Lima de Freitas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta no. 85, 1964. 149 páginas. Lançado originalmente em 1957.

Tenho uma história curiosa com este livro. Estava de férias com a família no interior de Santa Catarina. Era 19 de janeiro de 1989 e voltávamos para casa. Meu pai parou num posto de gasolina na saída de Joinville para abastecer o carro. Da janela da parte de trás eu vi um sebo. Sim, um sebo! Saí do carro e fui até lá, sob protestos dos meus acompanhantes. E foi aí que achei O Templo do Passado e mais uns dez outros livrinhos da Argonauta. Foi o momento mais feliz das férias e, até hoje, a única coisa que lembro dela.
Escolhi a esmo um dos livros. Era O Templo do Passado, que li durante todo o tempo da viagem de sete horas até São Paulo. Valeu muito a pena, pois o livro é sensacional. FC pulp da melhor cepa, e minha estreia com a ficção incrivelmente imaginativa de Stefan Wul.
Este pequeno romance é o quinto da carreira de Pierre Pairault (1922-2003), que escreveu toda a sua obra de ficção científica sob o pseudônimo de Stefan Wul. Foi publicado pela primeira vez na célebre coleção francesa Fleuve Noir, no. 106, em 1957, e é o quinto publicado na igualmente célebre Coleção Argonauta, de Portugal, em seu número 85, no ano de 1964.
Durante uma viagem espacial a nave sobre um acidente e entra velozmente na atmosfera de um planeta desconhecido. Foi tudo muito rápido, e com o choque a maioria da tripulação morreu instantaneamente. Inicialmente, quatro sobreviveram mas, em parte por causa dos ferimentos, apenas dois permaneceram vivos: o piloto Massir e o médico Jolt.
A nave foi seriamente avariada e eles percebiam que ela balançava de um lado para outro, subia de cima para baixo ou vice-versa. Para solucionar o mistério Massir sai da nave e adentra num ambiente surpreendente: o interior de uma gigantesca baleia! Mas como foram parar dentro dela? Não há como ter certeza mas, provavelmente, em sua queda a nave penetrou, tal como uma bala, no corpo do cetáceo. Desta forma, além de estarem dentro de um ser vivo, ainda se encontravam no fundo do mar.
Esta é uma típica história identificada com o que os americanos chamam de problem story, na qual os personagens são colocados em perigo e, para sair desta situação, tem de buscar soluções científicas ou tecnológicas. Pois, então,  depois de vencerem a estupefação e o desespero puseram-se a trabalhar com o que tinham à mão dentro da nave. Primeiro, retirá-la do interior do estômago da baleia e depois consertar a nave para decolarem novamente. Duas tarefas extremamente difíceis e improváveis. Mas eles conseguem injetar algumas substâncias moleculares no metabolismo da baleia, para provocar mutações que a fizessem deixar o mar e passasse a viver, gradativamente, na superfície.
Após algumas experiências frustradas Massir e Jolt finalmente conseguem o seu intento, pois a baleia desenvolve patas dianteiras e traseiras, que a permitem deixar a água e viver em terra. Nunca deixa de ser aquático, contudo, transformando-se num anfíbio, mas que passa a maior parte do tempo num ambiente intermediário: um enorme pântano, que lhe dá muito prazer! (As passagens em que a baleia assume a narrativa são encantadoras e nos fazem ter simpatia por ela).
Assim, quando ambos percebem que, na verdade, estavam numa situação ainda mais complicada, decidem sacrificar a baleia, apesar dos protestos de Jolt. Conseguem, depois, retirar a nave do interior do enorme corpo, que acabou por se liquefazer diante de poderosos compostos ácidos presentes na própria atmosfera do planeta, à base de ácidos clorídricos.
É interessante observar que em O Templo do Passado, Wul explora mais profundamente a aventura de uma missão no interior de um organismo, vista pela primeira vez em seu primeiro romance, Regresso a Zero (Retour à “0”), de 1956, quando uma equipe de cirurgiões operou um astronauta acidentado. Outro aspecto interessante é que Wul faz uso do seu conhecimento científico, pois era dentista de formação e profissão. Ele faz um largo e detalhado processo descritivo de como Jolt desenvolve os mecanismos possíveis para uma rápida mutação, além de também usar do próprio organismo da baleia para produzir oxigênio para eles. Nesse sentido é uma FC pulp com pendor hard bastante apurado.
Após a morte da baleia eles descobrem dezenas de ovos. Ela estava grávida e acaba gerando alguns bebês mutantes, anfíbios que, depois de adultos e se reproduzirem, produzem répteis, lagartos de vários tipos que passam a povoar a superfície do planeta. Passam-se anos, mas os dois não desistem de seu objetivo de consertar a nave e voltar para a Terra. Mas ao perceberem que os lagartos os adoram e são telepatas, acabam por se atrapalhar em seu objetivo, ficando, por fim, presos ao planeta desconhecido.
Mas a que se refere o templo do passado do título? Após ficar sozinho no planeta, Massir, fazendo uso de seus conhecimentos técnicos, constrói uma câmara à base de gelo cristalizado, onde hiberna na esperança de ser resgatado num futuro distante. O tal templo é finalmente descoberto alguns milhares de anos depois por uma expedição vinda exatamente da Terra. E o final do livro ainda reserva uma surpresa de cair o queixo. É um daqueles livros com um final extremamente impactante, que fica na memória por anos. Nesse sentido, relutei em voltar a ler o livrinho décadas depois. Mas redescobri o prazer da prosa fluente e direta, de personagens ativos e pragmáticos, e de uma imaginação pulpesca com raro paralelo dentro do campo da ficção científica, deste que é, possivelmente, o melhor livro de Stefan Wul.

– Marcello Simão Branco

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Shiroma Matadora Ciborgue


Shiroma Matadora Ciborgue, Roberto de Sousa Causo. Introdução de Nelson de Oliveira. Capa de Vagner Vargas. 241 páginas. São Paulo: Devir, 2015.

     
Desde 2008 Roberto de Sousa Causo escreve uma série de histórias no chamado Universo Galaxy, com aventuras militares espaciais na melhor tradição da space opera, com aventuras, intrigas políticas e muita tecnologia. De início elas foram pensadas para serem protagonizadas pelo Capitão Jonas Peregrino, mas pouco depois foi incorporada também uma segunda personagem, Shiroma, uma ciborgue treinada para matar.
Tanto Peregrino como Shiroma lideram histórias próprias dentro deste universo ficcional, não tendo, pelo menos até o momento, interagido um com o outro de forma direta. Habitam um mesmo contexto, situado no século XXV, em que a humanidade está profundamente envolvida na expansão e colonização da Via Láctea, nas chamadas Zonas de Expansão, sendo a região da Esfera a maior e mais rica, embora contestada pelos Tadai, alienígenas misteriosos que não mostram o seu rosto.
O universo ficcional de Peregrino e Shiroma contraria, em parte, o futuro de consenso, uma das convenções da FC norte-americana, de que no futuro a humanidade explorará o cosmos politicamente unida. A referência mais popular ao conceito é a série de TV Jornada nas Estrelas (Star Trek). Em parte, porque a humanidade continuou dividida politicamente, entre a América Latina – ao qual pertence o militar e a assassina –, os Norte-Americanos, os Asiáticos e os Euro-Russos. É de se pensar que, para que quatro alianças na Terra tenham condições de se expandir pelo espaço de forma autônoma, o nível de afluência econômica e de produção científico-tecnológica seja mais alto do que jamais chegou antes o capitalismo em sua história. Se em termos políticos, de fato, pode fazer mais sentido a continuidade da competição e conflito entre diferentes povos da Terra, em termos econômicos, por outro lado, uma solução de consenso – de juntar forças – faria mais sentido. A construção do consenso é muito difícil, mas a escassez de recursos poderá, talvez, levar, senão a uma união, a parcerias estratégicas em torno de objetivos comuns.
Embora Causo tenha desenvolvido bastante as aventuras de Peregrino, numa série intitulada “As Lições do Matador”, publicando ao menos quatro contos e o romance Glória Sombria (2009), em termos cronológicos de publicação a primeira aventura é de Shiroma, com o conto “Rosas Brancas”, em 2008. Isso porque, como afirma Causo no posfácio, ele escreveu este conto para a série de revistas “Portal”, de Nelson de Oliveira, embora ainda não tivesse consciência de que poderia partilhar o mesmo universo ficcional de Peregrino. Foi com a sequência dos seis contos publicados na série que ele incorporou Shiroma ao Universo Galaxys, acrescentando, assim, uma segunda protagonista e, mais interessante, com uma segunda linha narrativa – e levada à frente por uma mulher.
Shiroma Matadora Ciborgue reúne onze histórias com a personagem, cinco delas publicadas pela primeira vez neste volume. Elas estão dispostas em ordem cronológica das aventuras e não, necessariamente, na sequência em que foram publicadas. Foi uma decisão acertada, pois o leitor pode acompanhar de forma mais coerente os diferentes momentos vividos pela personagem e seu próprio desenvolvimento, muito embora algumas situações anteriores sejam lembradas em cada uma das histórias. Pode também ser considerado um romance fix-up, ao reunir diversas histórias de um mesmo universo ficcional.
Shiroma, na verdade não é seu nome de batismo. Quando criança chamava-se Bella Nunes, e foi sequestrada por um misterioso casal de criminosos Tera e Tiago, que passou a criá-la para torná-la uma espiã e matadora, a serviço dos seus interesses. A criança despertou atenção e cobiça pelo fato de ser um protótipo de um ciborgue com sistemas biocibernéticos supereficientes e indetectáveis. Sua primeira história “Rosas Brancas”, mostra como foi desenvolvida por seu pai, e retirada de sua mãe, morta por Tera e Tiago. O que fica claro desde o início é que Bella Nunes foi uma criança que perdeu a sua liberdade, ou nunca a teve, pois cresceu para se tornar um instrumento de interesses escusos.
A cada missão a rebatizada Shiroma mostra-se extremamente eficiente em eliminar seus alvos, fazendo uso tanto de suas habilidades como lutadora, como também de suas vantagens cibernéticas. De certo modo conta a seu favor também o fato de ser uma garota recém-saída da adolescência, surpreendendo seus oponentes que se deixam enganar por seu sexo e aparência frágil. Pois vemos esta situação se repetir em várias histórias, embora com a sucessão das missões seus oponentes passem a ver Shiroma mais segura e consciente do que representa. Isso se torna mais claro em histórias como “Arribação Rubra”, “Tempestade Solar” e, sobretudo a última, “Renegada”.
O que torna Shiroma uma personagem interessante é que ela não se transformou apenas numa máquina assassina, tão sem caráter quanto os criminosos que a criaram. Mesmo sendo utilizada para atividades ilegais, ela se ressente desta condição e se questiona a todo o momento. Sabe que o que faz é errado, que o casal que a criou não presta, e imagina como poderá, em algum momento, se desvencilhar desta situação de submissão. Recuperar, de certo modo, seu futuro que foi desviado, após o assassinato de sua mãe. Simbólico deste objetivo é a relação que estabelece com uma concha do mar, achada num planeta anônimo, ainda bem jovem. Sempre nos momentos difíceis ou de reflexão ela imagina falar com sua mãe ou com a criança inocente que foi um dia, ao ouvir a concha junto ao ouvido. Por onde vai, em cada missão num diferente canto da galáxia, a concha é a sua referência poética e ética do que poderia ter sido. Uma esperança de que poderá se libertar das garras que a aprisionam, e expressar sua verdadeira identidade.
Estas situações ambíguas de ilegalidade e retidão, força e fragilidade, violência e sonho, é o que estrutura a sua personalidade e a torna tão complexa e interessante, mesmo que seja difícil compreender como pôde conviver por tanto tempo com atividades tão vis sem se tornar também parte desta engrenagem de criminalidade e maldade. Lendo as histórias fiquei com uma sensação de que ela poderia romper este vínculo, sendo tão forte e hábil, não precisando se submeter ao casal de criminosos. Pois assim como ela amadurece como lutadora, também mudará sua relação de dependência com o casal, deixando seu destino aberto a novas possibilidades, conforme mostra a noveleta que encerra o volume, “Renegada”.
Uma história particularmente interessante é “A Extração”, pois é contada do ponto de vista de uma investigação no interior de uma nave espacial, para se descobrir o assassinato de um general num planeta gelado. É como se a missão de Shiroma fosse invertida, isto é, não se mostrou sua ação em si, mas as consequências do seu ato. Ela fica incógnita no interior da nave e é descoberta pelo diplomata Silvano Vieira de Mello, que terá suas próprias razões para decidir o que fazer com ela. Ele é o personagem principal desta história, uma homenagem ao renomado diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, Alto Comissário dos Direitos Humanos da ONU, que estava cotado para se tornar Secretário-Geral, quando morreu num atentado da Al Qaeda no Iraque em 2003.
Numa comparação das duas linhas narrativas lideradas por Peregrino e Shiroma, constatamos que nas aventuras de Jonas Peregrino mostra-se mais o contexto macro, político, de disputa pelo poder e da ameaça representada pelos Tadais, que ameaçam a expansão humana. Neste cenário ele se coloca, muitas vezes, como se fosse uma espécie de referência ética involuntária, por força dos acontecimentos em que é envolvido, em meio às intrigas políticas e militares. Já com Shiroma temos o contexto mais miúdo das relações em sociedade, as culturas e o cotidiano dos lugares em que parte para realizar suas missões. Pois ela se insere num contexto marginal e criminoso, ao contrário do mais institucionalizado – embora não menos perverso – de Peregrino.
Na introdução Nelson de Oliveira disse que deseja ver Peregrino e Shiroma atuando juntos numa mesma história, e também compartilho desta possibilidade, muito embora acredite que Shiroma ainda tenha muito potencial próprio a desenvolver, talvez agora no formato de um romance, a partir do desfecho desta coletânea. Enfim, um ótimo exemplo de uma ficção científica espacial de primeira qualidade, pois para além do cenário espacial deslumbrante, ganha ainda mais relevo com as discussões éticas e políticas que dizem respeito, antes de mais nada, a nós mesmos.

– Marcello Simão Branco

domingo, 24 de junho de 2018

O caminho do Louco, Alex Mandarino

Guerras do Tarot, Volume 1: O caminho do Louco, Alex Mandarino. 296 páginas. Avec Editora, Porto Alegre, 2016.

Um tema bastante explorado pela ficção de mistério são as sociedades secretas. Elas têm um carisma irresistível tanto entre autores quanto entre leitores, que fantasiam sobre o que acontece por trás das portas fechadas e das cortinas cerradas. Sinais secretos, roupas exóticas, divindades bizarras, rituais macabros, poderes insuspeitos e por aí vai. Uma aventura de James Bond não seria a mesma sem uma sociedade secreta.
Em O caminho do Louco, primeiro volume da série Guerras do Tarot, publicado em 2016 pela Avec Editora, o jornalista e tradutor carioca Alexandre Mandarino apresenta o conflito entre duas dessas sociedades, cada qual dotada de poderes sobrenaturais através dos quais pretendem controlar o mundo.
A história gira em torno de um documento misterioso, cuja simples leitura atrai a atenção de uma horda de assassinos sem alma que perseguem sem descanso o desavisado leitor, até matá-lo. Esses assassinos tenebrosos são tão ferozes quanto invisíveis, pois têm uma aparência de tal forma comum que passam despercebidos da atenção pública. Logo nas primeiras páginas, testemunhamos a ação de um deles quando encontra a sua presa, um padre que leu o que não devia. Mas o documento não estava mais com ele pois, minutos antes de ser atacado numa estação de trem na França, o encaminhara por correio a um importante bispo seu conhecido que, sem saber, vai se tornar o próximo alvo da horda assassina.
Enquanto um casal de ladrões com equipamentos de alta tecnologia invade uma empresa em Munique em busca de um certo documento, e um grupo de homens dotados de poderes sobre humanos rouba uma fortuna em ouro do banco do Vaticano, André Moire, jornalista brasileiro em crise existencial, abandona sua vida regrada e segura para embarcar num mochilão sem destino. Ele não sabe, mas está dando os primeiros passos no Caminho do Louco, que se insinua a ele em sonhos e visões enquanto caminha pelos sertões América. O mistério começa a se revelar quando André é finalmente confrontado, na cidade do México, por um agente do Tarot, sociedade secreta de objetivos incertos que afirma ser ele o novo Louco, o representante vivo desse arcano no baralho adivinhatório. Contudo, para ganhar seus poderes e assumir seu lugar na grande malha que sustenta a realidade, ele terá de cumprir uma peregrinação mística, visitando os avatares de cada um dos demais vinte e um arcanos maiores do Tarot espalhados pelo mundo. Ao longo de uma jornada sem muita convicção, instruído pelos arcanos O Mago, A Sacerdotisa, A Imperatriz e O Imperador, o Louco toma contato com os primeiros segredos dessa sociedade e tentar entender por que ele é tão importante nos planos dela.
Não faltam à história muitas cenas de ação com enfrentamentos violentos, incluindo lutas mortais com mestres em kung fu, parkour nos telhados de Paris e até perseguições de carros a quinhentos quilômetros por hora, tudo temperado com pitadas de super heróis e conspirações religiosas.
Mandarino, que atua como autor de contos desde os anos 1990, ficou mais conhecido no fandom a partir de suas contribuições à franquia Intempol, sendo que seu texto “O rabo da serpente” obteve boa classificação no Prêmio Argos de 2003. Mais recentemente, publicou nas antologias Sherlock Holmes: Aventuras secretas (2012, Draco) e Caminhos do fantástico (2012, Terracota), conto com o qual foi finalista no Argos 2013. Mandarino também foi editor da sofisticada revista eletrônica literária Hyperpulp, publicada entre 2011 e 2012. A redação de O caminho do Louco consumiu muitos anos de trabalho, pois Mandarino revelou que os primeiros esboços da história foram redigidos em 2001.
O autor demonstra grande domínio sobre as cenas de ação, com descrições vívidas e impactantes, próprias de quem vê a narrativa como um filme de cinema, com muitas explosões, correrias e lutas sangrentas, e os capítulos curtos dão bom ritmo à leitura. Há um grande número de personagens em diversas narrativas paralelas, que colabora para uma ampla percepção do mundo criado pelo autor. Contudo, o final do livro é inconclusivo pois, desde o princípio, fica clara a intenção do autor em escrever uma série. Para o bem ou para o mal, fica a garantia ao leitor ser impossível dar spoilers nesta resenha.
— Cesar Silva

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Algo Sinistro vem por Aí


Algo Sinistro vem por Aí (Something Wicked this Way Comes), Ray Bradbury. 293 páginas. Tradução de Jorge Luiz Calife. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.


Entre os principais livros de Ray Bradbury (1920-2012) Something Wicked this Way Comes foi o mais tardio a ser publicado no Brasil. E o mestre nos insere mais uma vez em uma pequena cidade do interior americano neste seu romance, publicado originalmente no já distante ano de 1962.
Romances, por sinal, são minoria na obra deste contista por excelência. Além deste escreveu Fahrenheit 451, um libelo a favor da liberdade e da civilização, publicado em 1953 – um livro, aliás, cada vez mais valorizado. Aqui no Brasil, desde 2017, inspira o nome de uma ótima revista de resenhas, a 451; nos EUA recebe em 2018 uma nova adaptação audiovisual, numa minissérie da HBO.
Alguém pode lembrar-se do celebrado As Crônicas Marcianas (1950), mas em verdade este livro é o que se costuma chamar de fix-up – um romance com pequenas histórias interligadas – e não propriamente uma única história longa, como o caso deste Algo Sinistro Vem por Aí, uma de suas obras mais longas – pelo menos no fantástico.
Esta história tem ecos diretos de sua obra-prima O País de Outubro (1955), uma das mais belas coletâneas já escritas, pois também acontece em um certo outubro. Bradbury começa o livro situando este mês em relação aos outros porque, para ele, seria tão especial e diferente, que poderia ser interpretado à luz do fantástico. As aulas já recomeçaram há um mês, já deu tempo dos jovens se reencontrarem e se acostumarem com a situação, estamos em pleno outono no hemisfério norte, e o desfecho promete uma inesquecível noite de Halloween.
Nesta cidadezinha não identificada, tão igual a centenas pelo interior profundo dos Estados Unidos, mas que poderia ser em qualquer país, o tal Halloween chegou antes no ano em questão. É a súbita chegada de um parque de diversões. Especialmente na vida de dois garotos, Will Halloway e James Nightshade, que ficam imediatamente fascinados. Verão pouco depois que a vida deles e de outros habitantes nunca mais será a mesma.
Não tarda para que eles adentrem ao parque e tomem contato com situações muito além de uma simples diversão para uma cidadezinha sem graça do interior. Coisas insólitas acontecem, primeiro com pessoas próximas a eles, como a professora Foley e o vendedor de para-raios. Mas sobretudo depois da experiência do carrossel, ao verem um homem girar para trás e rejuvenescer, eles estão como que tomados por um outro mundo, como num caminho sem volta.
Não é um parque normal, se é que algum é, mas possui poderes e modifica as pessoas, realizando, de alguma forma, seus desejos inconfessáveis. Os artistas e seres bizarros do parque disso se aproveitam para atrair, seduzir e, finalmente, capturar aqueles mais curiosos ou sensíveis às suas tentações.
O homem ilustrado – que já havia protagonizado um belo romance fix-up, Uma Sombra Passou por Aqui (1951) –, retorna neste livro como o mestre de cerimônias do parque, também chamado de Senhor Dark. Suas inúmeras ilustrações móveis pelo corpo fascinam a todos e ele como que hipnotiza os que dele se aproximam. Há ainda o Esqueleto, a Bruxa, o Anão, e o Senhor Cooger, que depois de ir para frente no carrossel quase morre de tão velho e numa sequencia fantástica – presenciada pelos garotos –, é ressuscitado em uma cadeira elétrica.
O romance é dividido em três partes: chegadas, buscas e partidas. A primeira fala basicamente do parque de diversão e o que desperta em alguns dos personagens. Desta forma, ele não é apresentado em termos narrativos, com suas atrações e personagens numa sequencia linear. Estes surgem por meio da interação com os habitantes da cidade, o que torna o relato mais intimista e particularizado, isto é, a partir do sentimento e ponto de vista de cada um que interage com, por exemplo, a sala dos espelhos, o carrossel, a bruxa ou o temível homem ilustrado.
As “Buscas” da segunda parte são realizadas pelos seres, que saem do parque pelas altas horas da noite, em perseguição aos dois garotos. É que eles perceberam o que este parque de fato representa, muito mais do que uma simples e inocente diversão. Os seres querem as pessoas, recrutá-las como suas possíveis novas atrações, seduzindo-as com os poderes que oferece, como o mais irresistível deles, a fonte da juventude.
Will e Jim contam com a ajuda de Charles, o pai de Will, um solitário zelador da biblioteca pública da cidade. Pesquisando nos jornais antigos eles descobrem que o parque já esteve outras vezes por lá, e que retorna em média a cada 50 ou 60 anos. Quase depois de uma geração inteira de vida da própria cidade. Com a memória coletiva esmaecida o parque retorna, captura alguns poucos dos seus habitantes, mantém para os demais a fachada de um parque de diversões como os outros e parte para outras paragens da mesma forma que chegou neste, para depois de anos retornar ao mesmo local.
Charles, Will e Jim se defrontam com os seres da noite, tanto no interior da biblioteca, nas ruas escuras da cidade e, principalmente, no interior do parque para onde são fatalmente levados. Em “Partidas” temos uma viagem de autodescoberta sobre os valores importantes da vida: humildade, desprendimento, solidariedade, confiança e, sobretudo, alegria. Pois como os três descobrem, a única arma de que dispõe é a alegria, é o bem-estar, pois o Senhor Dark e seus seguidores são fortes e quase imortais porque se alimentam da inveja, do egoísmo, da vaidade e da maldade humana.
É uma história rica em significados que, por si mesma, já evoca imagens fortes no imaginário das pessoas. A atração por um parque de diversão – ou de um circo – é como uma abertura para que entremos em um mundo de fantasia, de realização de sonhos e anseios impossíveis de se alcançar na vida cotidiana, tão modorrenta e cheia de responsabilidades.
A escolha de uma dupla de garotos de 14 anos é oportuna, ainda mais por eles estarem na adolescência, aquela fase da vida onde somos invadidos por várias dúvidas, curiosidades, angústias e possibilidades. Remete à ideia de que a iminência da vida adulta é cheia de riscos e de que é hora de caminhar sozinho. Também por aí se pode interpretar que a chegada de uma atração estranha a uma cidade pequena e de hábitos previsíveis, representa um risco de desestruturação da ordem.
Por este aspecto, também o ato do tal parque ser do mal poderia ser interpretado de uma forma conservadora, no sentido de que não devemos ir muito longe em nossas fantasias, porque elas nos tiram do eixo e nos levam para caminhos errados ou que não mais controlamos. Dizendo de outra forma, tornar-se adulto ou ir embora com o parque. Mas com Bradbury tal viés não se dá, porque os próprios seres de outono são carentes, solitários e contraditórios. Pois se alimentam de nossas fraquezas e isso é o que está subjacente na obra: a valorização da amizade, da confiança e, principalmente, o sentimento de alegria. Para muito além de regras e códigos do que é socialmente visto como “certo”.
O posfácio é interessante porque Bradbury revela a razão de dedicar o livro ao ator e dançarino Gene Kelly (1912-1996). É que o autor escreveu um roteiro para Kelly dirigir. Mas este não encontrou nenhum produtor que se interessasse, fazendo com que Bradbury transformasse o roteiro em um romance. Posteriormente, em 1983, foi produzido o longa-metragem, dirigido por Jack Clayton (1921-1995).
 Embora Algo Sinistro Vem por Aí tenha como protagonistas uma dupla de garotos e o pai de um deles conserve um espírito jovial, é um romance para um público adulto. Pode ser classificado como um dark fantasy (ou fantasia sombria, se preferir), com fortes elementos sobrenaturais. E narrada por um escritor tão naturalmente talentoso, que pode agradar a qualquer tipo de leitor. Seja o aficcionado pelo gênero, ou pelo autor, ou simplesmente por uma narrativa bem escrita e bem contada.

– Marcello Simão Branco