quinta-feira, 5 de julho de 2018

Shiroma Matadora Ciborgue


Shiroma Matadora Ciborgue, Roberto de Sousa Causo. Introdução de Nelson de Oliveira. Capa de Vagner Vargas. 241 páginas. São Paulo: Devir, 2015.

     
Desde 2008 Roberto de Sousa Causo escreve uma série de histórias no chamado Universo Galaxy, com aventuras militares espaciais na melhor tradição da space opera, com aventuras, intrigas políticas e muita tecnologia. De início elas foram pensadas para serem protagonizadas pelo Capitão Jonas Peregrino, mas pouco depois foi incorporada também uma segunda personagem, Shiroma, uma ciborgue treinada para matar.
Tanto Peregrino como Shiroma lideram histórias próprias dentro deste universo ficcional, não tendo, pelo menos até o momento, interagido um com o outro de forma direta. Habitam um mesmo contexto, situado no século XXV, em que a humanidade está profundamente envolvida na expansão e colonização da Via Láctea, nas chamadas Zonas de Expansão, sendo a região da Esfera a maior e mais rica, embora contestada pelos Tadai, alienígenas misteriosos que não mostram o seu rosto.
O universo ficcional de Peregrino e Shiroma contraria, em parte, o futuro de consenso, uma das convenções da FC norte-americana, de que no futuro a humanidade explorará o cosmos politicamente unida. A referência mais popular ao conceito é a série de TV Jornada nas Estrelas (Star Trek). Em parte, porque a humanidade continuou dividida politicamente, entre a América Latina – ao qual pertence o militar e a assassina –, os Norte-Americanos, os Asiáticos e os Euro-Russos. É de se pensar que, para que quatro alianças na Terra tenham condições de se expandir pelo espaço de forma autônoma, o nível de afluência econômica e de produção científico-tecnológica seja mais alto do que jamais chegou antes o capitalismo em sua história. Se em termos políticos, de fato, pode fazer mais sentido a continuidade da competição e conflito entre diferentes povos da Terra, em termos econômicos, por outro lado, uma solução de consenso – de juntar forças – faria mais sentido. A construção do consenso é muito difícil, mas a escassez de recursos poderá, talvez, levar, senão a uma união, a parcerias estratégicas em torno de objetivos comuns.
Embora Causo tenha desenvolvido bastante as aventuras de Peregrino, numa série intitulada “As Lições do Matador”, publicando ao menos quatro contos e o romance Glória Sombria (2009), em termos cronológicos de publicação a primeira aventura é de Shiroma, com o conto “Rosas Brancas”, em 2008. Isso porque, como afirma Causo no posfácio, ele escreveu este conto para a série de revistas “Portal”, de Nelson de Oliveira, embora ainda não tivesse consciência de que poderia partilhar o mesmo universo ficcional de Peregrino. Foi com a sequência dos seis contos publicados na série que ele incorporou Shiroma ao Universo Galaxys, acrescentando, assim, uma segunda protagonista e, mais interessante, com uma segunda linha narrativa – e levada à frente por uma mulher.
Shiroma Matadora Ciborgue reúne onze histórias com a personagem, cinco delas publicadas pela primeira vez neste volume. Elas estão dispostas em ordem cronológica das aventuras e não, necessariamente, na sequência em que foram publicadas. Foi uma decisão acertada, pois o leitor pode acompanhar de forma mais coerente os diferentes momentos vividos pela personagem e seu próprio desenvolvimento, muito embora algumas situações anteriores sejam lembradas em cada uma das histórias. Pode também ser considerado um romance fix-up, ao reunir diversas histórias de um mesmo universo ficcional.
Shiroma, na verdade não é seu nome de batismo. Quando criança chamava-se Bella Nunes, e foi sequestrada por um misterioso casal de criminosos Tera e Tiago, que passou a criá-la para torná-la uma espiã e matadora, a serviço dos seus interesses. A criança despertou atenção e cobiça pelo fato de ser um protótipo de um ciborgue com sistemas biocibernéticos supereficientes e indetectáveis. Sua primeira história “Rosas Brancas”, mostra como foi desenvolvida por seu pai, e retirada de sua mãe, morta por Tera e Tiago. O que fica claro desde o início é que Bella Nunes foi uma criança que perdeu a sua liberdade, ou nunca a teve, pois cresceu para se tornar um instrumento de interesses escusos.
A cada missão a rebatizada Shiroma mostra-se extremamente eficiente em eliminar seus alvos, fazendo uso tanto de suas habilidades como lutadora, como também de suas vantagens cibernéticas. De certo modo conta a seu favor também o fato de ser uma garota recém-saída da adolescência, surpreendendo seus oponentes que se deixam enganar por seu sexo e aparência frágil. Pois vemos esta situação se repetir em várias histórias, embora com a sucessão das missões seus oponentes passem a ver Shiroma mais segura e consciente do que representa. Isso se torna mais claro em histórias como “Arribação Rubra”, “Tempestade Solar” e, sobretudo a última, “Renegada”.
O que torna Shiroma uma personagem interessante é que ela não se transformou apenas numa máquina assassina, tão sem caráter quanto os criminosos que a criaram. Mesmo sendo utilizada para atividades ilegais, ela se ressente desta condição e se questiona a todo o momento. Sabe que o que faz é errado, que o casal que a criou não presta, e imagina como poderá, em algum momento, se desvencilhar desta situação de submissão. Recuperar, de certo modo, seu futuro que foi desviado, após o assassinato de sua mãe. Simbólico deste objetivo é a relação que estabelece com uma concha do mar, achada num planeta anônimo, ainda bem jovem. Sempre nos momentos difíceis ou de reflexão ela imagina falar com sua mãe ou com a criança inocente que foi um dia, ao ouvir a concha junto ao ouvido. Por onde vai, em cada missão num diferente canto da galáxia, a concha é a sua referência poética e ética do que poderia ter sido. Uma esperança de que poderá se libertar das garras que a aprisionam, e expressar sua verdadeira identidade.
Estas situações ambíguas de ilegalidade e retidão, força e fragilidade, violência e sonho, é o que estrutura a sua personalidade e a torna tão complexa e interessante, mesmo que seja difícil compreender como pôde conviver por tanto tempo com atividades tão vis sem se tornar também parte desta engrenagem de criminalidade e maldade. Lendo as histórias fiquei com uma sensação de que ela poderia romper este vínculo, sendo tão forte e hábil, não precisando se submeter ao casal de criminosos. Pois assim como ela amadurece como lutadora, também mudará sua relação de dependência com o casal, deixando seu destino aberto a novas possibilidades, conforme mostra a noveleta que encerra o volume, “Renegada”.
Uma história particularmente interessante é “A Extração”, pois é contada do ponto de vista de uma investigação no interior de uma nave espacial, para se descobrir o assassinato de um general num planeta gelado. É como se a missão de Shiroma fosse invertida, isto é, não se mostrou sua ação em si, mas as consequências do seu ato. Ela fica incógnita no interior da nave e é descoberta pelo diplomata Silvano Vieira de Mello, que terá suas próprias razões para decidir o que fazer com ela. Ele é o personagem principal desta história, uma homenagem ao renomado diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, Alto Comissário dos Direitos Humanos da ONU, que estava cotado para se tornar Secretário-Geral, quando morreu num atentado da Al Qaeda no Iraque em 2003.
Numa comparação das duas linhas narrativas lideradas por Peregrino e Shiroma, constatamos que nas aventuras de Jonas Peregrino mostra-se mais o contexto macro, político, de disputa pelo poder e da ameaça representada pelos Tadais, que ameaçam a expansão humana. Neste cenário ele se coloca, muitas vezes, como se fosse uma espécie de referência ética involuntária, por força dos acontecimentos em que é envolvido, em meio às intrigas políticas e militares. Já com Shiroma temos o contexto mais miúdo das relações em sociedade, as culturas e o cotidiano dos lugares em que parte para realizar suas missões. Pois ela se insere num contexto marginal e criminoso, ao contrário do mais institucionalizado – embora não menos perverso – de Peregrino.
Na introdução Nelson de Oliveira disse que deseja ver Peregrino e Shiroma atuando juntos numa mesma história, e também compartilho desta possibilidade, muito embora acredite que Shiroma ainda tenha muito potencial próprio a desenvolver, talvez agora no formato de um romance, a partir do desfecho desta coletânea. Enfim, um ótimo exemplo de uma ficção científica espacial de primeira qualidade, pois para além do cenário espacial deslumbrante, ganha ainda mais relevo com as discussões éticas e políticas que dizem respeito, antes de mais nada, a nós mesmos.

– Marcello Simão Branco

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