quarta-feira, 20 de maio de 2015

A Invasão, José Antonio Severo

A Invasão, José Antonio Severo. 225 páginas. Capa de Uberti. Editora L&PM, Porto Alegre, RS, 1979.  

 A década de 1970 foi pródiga na publicação de livros de ficção distópica, para usar o termo empregado pela brasilianista Mary Elisabeth Ginway, em seu livro Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (2005). Histórias do Brasil no futuro de um ponto de vista político, antiutópico, a maior parte delas através da fábula ou da metáfora. Era uma ficção engajada politicamente, claro, numa tentativa importante de crítica e conscientização sobre os destinos possíveis do país, sob o regime militar.
Dentro desta linha tivemos livros como, por exemplo, Adaptação do Funcionário Ruam, de Mauro Chaves (1975) – despersonalização do indivíduo –, O Fruto do Vosso Ventre (1976), de Herberto Salles – crítica à burocracia autoritária – e Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981), uma distopia ecológica sob uma ditadura que nunca terminou.
Se o tom destes livros todos é de desalento e pessimismo quanto ao futuro do país, o romance de estréia do jornalista gaúcho José Antonio Severo vai, aparentemente, por outra linha.[1] Escrito em 1979, quando estávamos no chamado processo de “abertura lenta, gradual e segura”, na definição do presidente Ernesto Geisel (1974-1979), que comandou esta liberalização, o Brasil é assinalado como uma “potência emergente”: um país que aprofundou a sua industrialização e tornou-se temido em termos militares por seus vizinhos. Ora, estas eram as duas principais bandeiras dos militares-governantes – após o combate sem tréguas aos comunistas no início dos anos 70 –, que este romance contempla.
De fato, ao final dos anos 1970 o Brasil tinha estas duas características. Estava entre as dez principais economias do mundo e havia desenvolvido uma indústria bélica importante, que colocou o país como um dos principais exportadores do setor no mundo. Havia também se distanciado dos Estados Unidos, ao procurar uma relação de aliado especial não reconhecida, ao enfrentar uma crítica severa para afrouxar seu desrespeito aos direitos humanos e, sobretudo, assinado um acordo de cooperação nuclear com a Alemanha Ocidental, que desagradara também aos seus vizinhos sul-americanos.
Todo este contexto transparece em A Invasão, que retrata a aventura militar brasileira em invadir a Angola, um país do sul da África sob ocupação de tropas cubanas e de outros países socialistas. Após sua independência de Portugal em 1974, o país viveu sob guerra civil entre os líderes da libertação, de três tendências opostas, um deles a favor do comunismo e dois deles apoiados pelos norte-americanos e sul-africanos. No romance quem está no poder é um presidente comunista, daí a presença de apoio de tropas de países com a mesma orientação ideológica. Mas os angolanos estão perdendo o controle do país para os cubanos, com um expressivo contingente militar na luta contra as forças pró-Ocidente. Por isso eles propõem que o Brasil invada o país e expulse os cubanos. Em troca, os angolanos prometem relações econômicas preferências, a mais importante delas os diamantes e petróleo que o país possui. Os angolanos apelam também para uma “solidariedade histórica cultural”, já que os dois países falam a mesma língua e o Brasil tem uma presença expressiva de descendentes africanos em sua população. Se nos ativermos apenas a estes argumentos eles podem soar como insuficientes para justificar uma empreitada arriscada como esta mas, de fato, o Brasil durante os anos 70 tornou-se uma voz de liderança da África em vários fóruns internacionais, em defesa de um projeto de desenvolvimento econômico a favor dos países subdesenvolvidos.
Acontece que o governo de Angola no romance é comunista, presidido pelo presidente Agostinho Neto – que morreria no mundo real em setembro de 1979. Acho que o leitor já intuiu estas perguntas: 1) como que um governo conservador e anticomunista como o brasileiro vai ajudar um país governado por forças pró-Moscou? Seria mais lógico que apoiasse as guerrilhas de direita, que lutavam pelo domínio de Angola. 2) ao assumir que está perdendo o controle sobre seus aliados ideológicos, o governo angolano não estaria justificando a guerrilha de direita que o combate? Talvez só mesmo o autor possa explicar o motivo de optar por uma aliança tão irreal, mesmo tendo a chance de construir a história sob uma base mais sólida.
Inverossimilhanças à parte, o leitor pode encontrar bons momentos pelo menos até a metade do livro, quando as negociações entre os dois governos são feitas, os preparativos dos militares são mostrados, os planos de invasão, o recrutamento e a logística da ação são expostos com competência e realismo. Percebe-se que Severo tem intimidade com o assunto, pois na nota biográfica ao final do livro informa-se que ele fez a cobertura para o jornal Gazeta Mercantil, de São Paulo, da sucessão do presidente Geisel e tornou-se próximo de diplomatas e militares graúdos do regime. Talvez esta seja mais uma sinalização de que esse romance de ficção científica política sobre o período da ditadura tenha um viés de certo apoio ao regime. Será? Vejamos.
A invasão brasileira acontece em 1986, e o país ainda se encontra sob o domínio dos militares. De uma forma curiosa, o autor elabora uma coalizão de poder em que estão presentes os militares e os cinco principais partidos políticos do país. Líderes democráticos nossa história, como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Pedro Simon surgem confabulando com os militares sobre a necessidade de manter o equilíbrio de forças para manter a democracia no país. Como? Esta falta de clareza conceitual sobre o que é uma ditadura ou uma democracia talvez tenha ocorrido ao autor por causa do contexto incerto do regime militar brasileiro quando ele escreveu o romance. Mas isso incomoda na busca por uma especulação mais refinada sobre o momento político em que a história é narrada.
O Brasil invade Angola com toda a sua força. Mas enfrenta uma boa resistência dos cubanos e dos alemães orientais. Contamos com o apoio de dois terços das Forças Armadas angolanas. Mas, depois de narrar com vividez e realismo duas boas batalhas em solo angolano, de uma forma surpreendente e decepcionante, o autor abandona o conflito que dá razão à história e conduz a narrativa para outro rumo. Severo tenta mostrar as consequências políticas no interior do Brasil e no mundo. Sem dúvida que esta linha narrativa é válida e merece ser enfatizada. O problema é como isto é realizado. O texto deixa seu tom sério e descai para uma espécie de deboche – mas não assumido, apenas implícito. Situações absurdas se sucedem sem maiores explicações ou desdobramentos coerentes.
Os norte-americanos são surpreendidos, repreendem o Brasil, são pressionados pelos soviéticos e despacham, simplesmente, o presidente Jimmy Carter para Brasília. Ele chega de madrugada, se hospeda num hotel e fica por aí. Não se tem mais notícia dele pelo resto do livro![2] Uma tempestade assola a cidade do Rio de Janeiro e a ponte Rio-Niterói desaba. Isso mesmo! O presidente brasileiro renuncia subitamente, sem explicação alguma e em plena guerra. Na calada da noite, nos bastidores de Brasília, o alto comando militar e os líderes políticos dão um novo golpe ao decidir pela não posse do vice-presidente – por ser um homem por demais ligado à esquerda... –, na figura de Paulo Brossard, que viria a ser ministro da Justiça do governo Sarney. Mas ainda mais insólito que o golpe é a decisão de restaurar a monarquia no Brasil.
Após esta sucessão de nonsenses, o romance termina por mostrar uma invasão coordenada de vários países da América Latina ao Brasil, sob o argumento de que estavam ameaçados pela força imperialista e monarquista que o país tinha se tornado.
O que transparece é que Severo procurou abordar algumas questões da época histórica em que o livro foi escrito. Mas se a invasão de Angola foi mostrada em detalhes, depois disso o conflito foi abandonado e as demais questões foram mostradas de forma sarcástica, talvez procurando ridicularizar tanto os militares, quanto a classe política que lutava pela redemocratização do país. O fato é que como romance, obra de ficção, o livro deixa muito a desejar; é uma decepção por sua inverossimilhança e descuido com a continuidade narrativa. Talvez o seu legado esteja nas consequências desastrosas da aventura militar em Angola e nas decisões precipitadas dos donos do poder. Ou seja, Severo não se posiciona claramente contra a ditadura, mas contra o sistema de poder como um todo. O que pode ser visto tanto a partir de uma postura mais cética, niilista, como também de ficar ‘em cima do muro’, não se definir por nenhum dos lados.

– Marcello Simão Branco


[1] Severo é um jornalista político experiente, com carreira sólida, em jornais como Gazeta Mercantil (SP), Correio do Povo (RS), Folha de S. Paulo, revistas Veja e Exame, além da Rede Globo de Televisão. Também escreveu, entre outros, o romance distópico A Guerra dos Cachorros (1983) e o romance histórico Senhores da Guerra (2000), todos por uma linha política com ênfase militar.
[2] Outra situação de descontinuidade é a do jornalista que divulga a notícia da invasão com exclusividade. Ele aparece com destaque no começo da história, mas depois some. Até ocorre uma sequência da cobertura jornalística, mas tímida e sem importância alguma para a história. 

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