quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Noite na taverna, Álvares de Azevedo

Noite na taverna, Álvares de Azevedo. Publicado originalmente em 1855. Edição utilizada: Editora Ediouro, Coleção Biblioteca Folha, 1997. 73 páginas. Apresentação de Adonias Filho. Capa: Lúcia Brandão.

Parafraseando Fausto Cunha, a literatura fantástica brasileira pode até ser um planeta quase desabitado, contudo, aqueles que o habitam são gigantes. E no passado, eram ainda maiores.
Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852) é um desses titãs lendários, autor paulista que nada publicou em vida, pois morreu cedo, aos 21 anos, de complicações advindas de uma queda de cavalo. Azevedo pertencia à escola ultra romântica — chamada de Mal do Século — e desenvolveu um curto mas expressivo trabalho como dramaturgo, poeta, ensaísta e contista.
Entre seus textos está Noite na taverna, uma espécie de romance fix-up que completou 150 anos de publicação em 2010. A identificação com a literatura de Edgard Alan Poe é imediata, embora o texto de Azevedo seja muito mais lírico, de inspiração byroniana. Poe dava explicações científicas para seus dramas de horror, já Azevedo prefere apresentar o macabro de suas histórias através da maldade, ganância e torpeza humanas.
Noite na taverna é formado por cinco narrativas, cada uma delas feita por um personagem de um grupo de amigos, enquanto se embriagam e contam vantagens numa taverna. As narrativas são amarradas por uma introdução, chamada "Uma noite do século" e um epílogo, chamado "Último beijo de amor", que contextualizam a dinâmica.
Quem inicia a rodada é "Solfieri", com a história de sua paixão por uma estranha dama em Roma, que o torna insatisfeito com todas as demais mulheres do mundo, até finalmente reencontrar aquela que mais amou e cuja obsessão ainda traz ao pescoço.
"Bertram" vem a seguir com história mais macabra da noite, vangloriando-se das mulheres cujas vidas arruinou e sua definitiva aventura amorosa com a linda esposa do capitão de um navio e do terrível modo como logrou sobreviver ao seu naufrágio.
É então a vez de "Genaro", pintor aprendiz que atraiçoou seu mestre e o levou à loucura, depois de, por sua imensurável covardia, ter contribuído para a morte de suas esposa e filha.
"Claudius Hermman" narra então o que fez com uma linda senhora da nobreza londrina, raptando-a na pretensão de que ela pudesse amá-lo. Mantendo-a sedada, aprisionou-a num lugar secreto e lá se revelou então, para ser completamente por ela rejeitado. E, em sua loucura, destruiu-lhe a vida, a de seu marido e certamente até a de si mesmo.
"Johann" conta então aquela que é a história mais conhecida deste volume, na qual depois de derrotar um adversário valoroso num duelo de morte, encontrou a completa desgraça moral ao desonrar uma promessa de feita ao moribundo.
O epílogo dramático coroa a noite de excessos, com fantasmas retornando para cobrar o preço das infâmias sofridas pelos convivas adormecidos pelo chão da taverna.
Dessa forma, em pouco mais de 50 páginas, Azevedo construiu um dos mais perturbadores livros de ficção fantástica já escritos; ousado e turbulento, sem edulcorar os detalhes mais sórdidos. Até Poe talvez se surpreendesse com a agressividade de Azevedo que, mesmo sem usar uma única licença realmente sobrenatural, monta um mosaico de terror e perversão que poucos outro autores ousaram, mesmo na ficção fantástica moderna.
Apesar da juventude do autor, Noite na taverna é uma obra adulta e angustiante que, por sua força, tem muito a contribuir para com a identidade da fc&f brasileira.
Um detalhe curioso é que Noite na taverna está entre os títulos de leitura obrigatória no ensino médio. Os estudantes são apresentados à Azevedo sem qualquer contextualização, enquanto os livros do ciclo do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato, volta e meia são revisionados. Com certeza, alguns assuntos são mais sensíveis do que outros. Melhor para Azevedo e para a ficção de horror.
Cesar Silva

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