sábado, 7 de fevereiro de 2015

As pelejas de Ojuara, Nei Leandro de Castro

As pelejas de Ojuara, Nei Leandro de Castro. Edição original: Editora Nova Fronteira, 1986. Edição utilizada: Editora Arx, 2006. 272 páginas.

As pelejas de Ojuara foi originalmente publicado em 1986, com o subtítulo A história verdadeira do homem que virou bicho. É um livro incomum, que responde a maior parte das propostas modernistas para a literatura brasileira e, portanto, também ao histórico Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, embora não seja um romance de ficção científica. Trata-se de uma fantasia regionalista, instalada no sertão nordestino, especialmente na região do Seridó, no Rio Grande do Norte, repleta de referências mitológicas que dão um ambiente épico às aventuras deste herói de cores e formas tipicamente brasileiras. Apesar do regionalismo, os conceitos são amplos e ecoam em todas as regiões do país.
Ojuara é o herói, homem valente, forte, destemido, bom de briga, de garfo, de copo e de cama, "sem lei e sem rei", faz seu próprio caminho. Tornou-se lenda cantada em prosa e verso, com direito a estudos acadêmicos de diversos estudiosos, inclusive Câmara Cascudo, citado diversas vezes no romance. É claro que tudo isso não passa de ficção, mas é divertidíssima a maneira como o autor manobra as referências e as imprime elegantemente no universo de Ojuara, inclusive com um capítulo inteiro dedicado a discussão acadêmica das origens do personagem, dos lugares em que passou e dos nomes de seus cavalos.
Mas não foi sempre assim. A primeira parte do romance conta como Ojuara Abaporojucaiba nasceu aos 28 anos, depois que seu antecessor, o jovem e inseguro Zé Araújo, depois de passar por uma humilhação suprema na cidade em que morava, ergueu-se em sua fúria, deu uma surra homérica na esposa histérica e no sogro prepotente e saiu para o mundo em busca de aventuras e felicidade.
Seu caminho passa por terras mágicas, como São Saruê, onde a água brota em flores, as rochas são de rapadura e correm rios de leite e mel. Lá, Ojuara encontra Edmundo e sua máquina voadora, o Pavão Misterioso, com quem pega boleia. Logo depois, Ojuara dá de cara com um grupo de velhos estranhos, Chico Rabelê, Miguel Sá e Pedro Bala, que na verdade pertencem a uma casta de demônios. Os quatro passam a noite contando histórias assustadoras ao redor de uma fogueirinha de casca de ovos e, ao raiar do dia, Rabelê dá conselhos obscuros a Ojuara, além de uma belíssima sela encantada. As histórias da noite dão ideias a Ojuara, que parte em busca de novas valentias pelo mundo, que ora parece focar na realidade para, em seguida, mergulhar na fantasia, numa mistura de Lampião com Pedro Malazartes, ao ritmo de literatura de cordel. Em muitos momentos, o texto realmente assume a musicalidade da poesia cordelista, colorindo a narrativa de uma maneira toda própria, que poucas vezes se viu na literatura fantástica brasileira.
As lutas de Ojuara vão ser muitas e variadas. Ele enfrentará monstros, animais furiosos e adversários de valor, mas suas pelejas serão definidas muitos anos depois quando ele enfrenta o próprio diabo depois de se apropriar de uma moeda que não lhe pertencia.
Os parâmetros mais próximos a referenciar a obra de Leandro de Castro são os romances de José J. Veiga e os clássicos Macunaíma, de Mário de Andrade e Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Mas As pelejas de Ojuara tem uma deliciosa veia humorística que lhe acrescenta vigor e personalidade modernos.
O livro foi adaptado para o cinema em 2007, sob o título de O homem que desafiou o diabo, dirigido de Moacyr Góes com Marcos Palmeira no papel principal. O escritor Braulio Tavares participou da montagem do roteiro e, por algum tempo, esteve disponível na internet um jogo online baseado no filme.
Nei Leandro de Castro é um escritor potiguar, nascido em Caicó em 1940. Formado em Direito, trabalhou como publicitário e mudou-se para o Rio de Janeiro em 1968, onde colaborou com O Pasquim sob o pseudônimo de Neil de Castro. Sua obra literária está mais associada à poesia, arte com a qual tem mais de dez livros publicados, mas também desenvolve um trabalho consistente em romances. Além de As pelejas de Ojuara, publicou O dia das moscas (1983), As dunas vermelhas (2004) e A fortaleza dos vencidos (2009).
As pelejas de Ojuara é um livro que deve ser observado atentamente pelos autores que buscam por identidade para a ficção fantástica brasileira. Afinal, o Brasil é muito mais sertão que metrópole e nossa literatura deveria, em tese, refletir essa realidade. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido pelos autores brasileiros antes que consigam superar o complexo de viralatas que os obriga a evitar os temas nacionais, especialmente os regionalistas. Ainda bem que Nei Leandro de Castro superou e nos deu esta obra-prima.
Cesar Silva

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