quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Introdução ao estudo da “science fiction”, André Carneiro

Introdução ao estudo da “science fiction”, André Carneiro. 142 páginas. Imprensa Oficial do Estádio, São Paulo, 1967.

A publicação de ensaios tem sido um dos mais frequentados nichos editorais nos últimos anos no que se refere aos gêneros fantásticos no Brasil. Mas não foi sempre assim. Apesar de títulos importantes terem sido publicados ao longo do tempo, sua presença nas livrarias foi breve e espaçada.
A carência por literatura foi suprida, ao longo dos anos 1980 e 1990, principalmente pela atividade crítica dos muitos fanzines que surgiram nesse período. Essa atividade, porém, era pouco confiável, pois os textos não eram submetidos a um estudo apurado, não eram revisados e seu objetivo era apenas entreter os próprios fãs, nem sempre tão interessados no rigor do estudo. Entretanto, manteve-se nos trabalhos dos críticos-fãs o caráter diletante da atividade, pois era sabido por todos que se os fãs não fizessem sua própria crítica, ninguém a faria em seu lugar.
Com o cancelamento da maior parte dos fanzines no início do século, a prática da crítica migrou para os livros, agora com aspecto mais apurado, geralmente conseguido a partir de trabalhos de graduação universitários. Aos poucos, o aspecto acadêmico reaproximou a crítica dos atuais estudiosos de ficção científica no Brasil, daquela que era praticada nos anos 1960 e 1970, como pode ser percebido na leitura de um dos mais importantes ensaios da história da crítica de FC no Brasil: Introdução ao estudo da “science fiction”, de André Carneiro, publicado pela Imprensa Oficial do Estado em 1967, volume 53 da Coleção Ensaio.
O volume está dividido em cinco capítulos. Na “Introdução“, Carneiro experimenta definir o gênero, não sem alguma dificuldade, como todos que já o tentaram. Compara a FC à poesia (outro formato literário no qual Carneiro é fluente) e ressalta a interdependência da ficção literária no gênero e da ciência, e que a ficção tem que ser um pouco científica, enquanto a ciência tem que ser um pouco ficcional. Também fala sobre os preconceitos ao gênero como um todo, normalmente dirigidos a um certo tipo de ficção científica que de fato existe (e muitos afirmam ser dominante): a ficção científica de má qualidade, a qual Carneiro ousou nomear de space opera. Na opinião de Carneiro, a space opera é a fc de objetivo comercial, feita apenas para responder à necessidade de consumo, sem qualidade literária, quer de estilo, quer de conteúdo. Hoje, esse termo serve para designar um tipo específico de fantasia tecnológica, não necessariamente vazia de conteúdo, embora ainda seja o ramo preferido dos autores que não querem se comprometer para além dos resultados mercadológicos.
Ficção científica de má qualidade encontra-se aos montes em todos os subgêneros, não há nenhum deles que esteja blindado a falta de talento. Já se tentou criar outros termos para designar a ficção científica ruim e, por algum tempo, optou-se por usar o termo anglófono sci-fi, mas este também soa preconceituoso, uma vez que se refere a ficção científica praticada fora da literatura (cinema, tv, quadrinhos, teatro, etc), que tem seus próprios padrões de qualidade. Então, sem meias palavras, o melhor termo para se referir à ficção científica ruim é o puro e simples “lixo“.
No segundo capítulo, “Das raízes à s.f. atual”, o autor faz uma levantamento histórico do gênero, com exemplos de proto-fc, os fundadores do romance fantástico (principalmente a literatura gótica) e os primeiros autores que deram formato ao gênero. Carneiro não se furta a criticar a qualidade dos textos de Júlio Verne, em contraposição aos de H. G. Wells, que considera muito superior, finalizando com a evolução do pulp nos EUA e o desenvolvimento das revistas de ficção científica e fantasia, responsáveis pelo crescimento e popularização do gênero.
O terceiro capítulo, “A ciência na vida contemporânea”, avalia o impacto dos avanços da ciência no cotidiano e o reflexo desse fenômeno na ficção fantástica moderna. Carneiro divide o capítulo seguinte, “A moderna ficção científica”, em nove sub-categorias, comentadas e exemplificadas individualmente com a citação de diversos exemplos em resenhas curtas. O autor mostra aqui ser um leitor voraz e heterogêneo, citando leituras tanto de livros de outros autores brasileiros como de estrangeiros, traduzidos ou não do inglês, francês e outras línguas, um verdadeiro guia de leitura que aponta muitos dos mais expressivos títulos do gênero. Percebemos que Carneiro valoriza o trabalho da Editora GRD pois, entre suas citações, constam praticamente todos os livros publicados pela editora até aquela data.
 No capítulo final, “Valor e expansão da ficção científica”, Carneiro dá um passeio pela ficção científica não-literária, mais uma vez com riqueza de exemplos, destacando a presença do gênero no cinema – que considera o melhor veículo para ele depois da literatura. Relaciona uma lista de títulos, entre unanimidades e raridades pouco lembradas. Também dedica uma parte desse capítulo exclusivamente a ficção científica no Brasil, na qual se detém especialmente na análise feroz de O presidente negro, de Monteiro Lobato. Mas também registra livros de Orígenes Lessa, Jerônimo Monteiro, Menotti Del Picchia, Afonso Schmidt, Dinah Silveira de Queiróz, Fausto Cunha, Rubens Teixeira Scavone, Guido Wilmar Sassy, Levy Menezes, entre outros, além de uma grande relação de críticos que dedicaram atenção ao gênero, uma lista que merece ser pesquisada pois guarda ensaios desconhecidos pelos leitores de hoje.
Carneiro é, sem sombra de dúvida, o mais importante nome da ficção científica no Brasil, tendo assinado alguns dos trabalhos mais expressivos da bibliografia nacional, como os contos “A escuridão” (Diário da vave perdida, Edart, 1963) e “A espingarda” (O homem que adivinhava, Edart, 1966), além do excelente romance Piscina Livre (Editora Moderna, 1980).
Além de escritor talentoso, André Carneiro, foi um verdadeiro visionário. Introdução ao estudo da “science fiction” foi o primeiro estudo sério em língua portuguesa sobre a ficção científica, abrangendo o gênero de forma ampla, no seu aspecto nacional e internacional.
O que se observa na leitura de Introdução ao estudo da “Science Fiction” é como as opiniões de Carneiro são perfeitamente atuais, mesmo se considerando que sua publicação está mais de 40 anos no passado. São opiniões corajosas e contundentes, sem deixar de ser elegantes e apoiadas em posturas muito claras e objetivas. Leitura obrigatória a todos os interessados em ficção científica.
Cesar Silva

2 comentários:

  1. poxa achei muito interessante. onde posso encontra esse livro?

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    1. Trata-se de um dos livros mais raros da fc brasileira e está esgotado no momento. Depois da edição original, houve apenas uma edição amadora nos anos 1990, que também está esgotada. A edição a qual tive acesso pertence à Biblioteca Pública Nair Lacerda, de Santo André.

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