terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Prêmio Odisseia 2024

Criado em 2019, o Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica homenageia os favoritos de um júri composto por escritores convidados, dentre uma relação de obras publicadas no ano anterior especificamente inscritas para o certame. 
A edição 2024 anunciou seus vencedores durante a décima edição do congresso Odisseia de Literatura Fantástica, que aconteceu nos dias 30 de novembro e 1 de dezembro, no Espaço Força e Luz, em Porto Alegre. 
Os jurados do Prêmio em 2024 foram Guilherme Smee, Nathália Xavier Thomaz, Simone Saueressig, Camila B. Kaihatsu, Cesar Silva, Lucas Viapiana, Enéias Tavares, Roberto de Sousa Causo, Carolina Mancini, Adrianna Alberti e Duda Falcão.
Os vencedores são: 
Projeto gráfico: A noite do cordeiro, Daniel Gruber, O Grifo.
Quadrinho fantástico: As confissões da Bahia em quadrinhos; Alexey Dodsworth e Cristina Lasaitis, dos autores.
Narrativa longa juvenil: Anomalia, vol. 1, Marcelo Cassaro e Marlon Teske, Jambô.
Narrativa curta horror: Corpo de barro, João Mendes, Escambau.
Narrativa curta fantasia: A Feira do Troca-Troca onde um filhote de onça vale um rádio de pilha, Auryo Jotha, Motim.
Narrativa curta  ficção científica: Esperando o dono, André Cáceres, Caos & Letras. 
Narrativa longa  horror: Os que sobem à noite, Thunder Dellú, Avec.
Narrativa longa  fantasia:  Jornadas extraordinárias a vidas distantes, Camila Fernandes e David Hoffmann, Sisko .
Narrativa longa ficção científica: Um milhão de mim, Cirilo S. Lemos, Draco.
Artigo fantástico: "O estranhamento na ficção do antropoceno", George Amaral, Teorias e reflexões sobre o Estranhamento na Ficção, Bandeirola.
Conto inédito: "Poeira oceânica", Patrícia H. Aafantis.
Todos os contos participantes desta última categoria podem ser lidos no segundo número da Revista Odisseia de Literatura Fantástica, publicação exclusiva que foi distribuída aos presentes durante o evento.
A lista completa dos indicados pode ser lida aqui. Parabéns aos vencedores!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Viagem à Aurora do Mundo

 


Viagem à Aurora do Mundo, Érico Veríssimo. Capa: Danúbio Gonçalves. Ilustrações internas: autoria não divulgada. 325 páginas. 16a. edição. Rio de Janeiro: Globo, 1996. Lançamento original em 1939.

 

Este é um romance curioso em vários aspectos. Em termos temáticos podemos vinculá-lo à ficção científica, mas também à ficção infanto-juvenil, além de se prestar, talvez principalmente, à categoria de um livro didático. Mas é também uma obra diferente do conjunto da obra de Érico Veríssimo (1905-1975), um dos principais autores da literatura brasileira do século XX, muito identificado com uma ficção realista e regionalista.

Como se percebe, é um livro que pode ser analisado em vários ângulos, mas o que mais no interessa aqui é sua proximidade com a FC. Escrito em 1939, o gênero ainda não havia se estabelecido no Brasil como um corpo auto-identificado, ou seja, a FC era praticada, mas os autores, em sua maioria, ao menos, não nomeavam seus escritos como pertencentes a este gênero de ficção. Dentro deste contexto, não era totalmente incomum que autores do mainstream praticassem uma ficção especulativa e/ou fantástica, como o caso, por exemplo de Guimarães Rosa (1908-1967), que nos anos 1930 publicou alguns contos nessa seara, depois reunidos no livro Primeiras Histórias (1962).

Mas Veríssimo quase se desculpa por escrever Viagem à Aurora do Mundo, tomada como uma ficção “menos séria”, um “descanso” ao seu trabalho de ficcionista mais preocupado com os problemas da realidade brasileira. No Prefácio, ele afirma que em algum momento queria voltar a se sentir como criança, e esta obra permitiu que revivesse sensações e lembranças do primeiro período de sua vida.

Seja como for, trabalhou com a maior seriedade. Isso porque é um trabalho digno de elogios, já que mantém as qualidades de sua literatura: uma prosa simples, fluente e prazerosa, com personagens interessantes e complexos, e sem deixar de incluir, aqui e ali, observações críticas sobre a sociedade brasileira da época, as limitações e contradições da condição humana e a situação preocupante do cenário internacional, que estava à beira da Segunda Guerra Mundial. Mas o livro meio que se protege destes problemas e investe, de fato, numa verve de criatividade e imaginação muito inspirada, ainda que, não distante do conhecimento científico da época.

Depois de ser malhado pela crítica pelo livro “As Portas do Tempo”, uma história, justamente, de ficção científica com um viajante do tempo, o escritor Dagoberto Prata parte para uma viagem a uma pequena cidade do interior e após passar alguns dias num hotel, descobre a existência, nos arredores, de um casarão antigo, com o sugestivo nome de A Vila do Destino. Curioso, ele sai para saber o que seria este lugar, e acaba por conhecer não só a casa, como seus moradores. E ela reúne um conjunto de excêntricos, a maioria pertencentes a uma mesma família. Um físico, um naturalista, um filósofo, um músico, um empresário e uma religiosa, além de uma garota sobrinha deles, a bela Magnólia, por quem, é claro, Dagoberto se apaixona.

Depois que os moradores da casa ficam sabendo que Dagoberto é um “romancista”, como lhe chamam, ele é convidado a entrar para a trupe, com o objetivo de divulgar o invento que está sendo construído pelo professor Fabricius, o físico. De certa forma, a viagem no tempo volta a fazer parte da vida do escritor, já que o invento é, simplesmente, uma máquina de visualizar o passado. Por meio dela é possível observar o que se passou desde o surgimento da vida na Terra. Aqui, lembro do porviroscópio, da máquina de enxergar o futuro, criada por Monteiro Lobato (1882-1948), em seu polêmico romance de FC O Presidente Negro (1926). Ou seja, a máquina de Veríssimo – que, infelizmente não é nomeada – tem o mesmo princípio, mas voltada ao passado. E chama a atenção que, em ambos os casos, a viagem no tempo é indireta e passiva. Ao contrário, por sinal, do romance de Dagoberto, muito criticado por, justamente, apresentar um viajante do tempo.

Assim, quando a máquina fica pronta, todas as noites eles se reúnem para a exibição da história natural do planeta, com a devida narração e análise do Prof. Calamar, o naturalista do grupo. Desta forma, a FC serve como um elemento indireto para o que realmente se presta a obra, uma descrição vívida e criativa sobre as eras e períodos da paleontologia, dando destaque, principalmente, às figuras icônicas dos dinossauros.

 Na verdade, o que ocorre é uma história dentro da história, pois a partir do momento que a máquina fica pronta, a maior parte do livro acontece nas eras passadas, por meio das imagens e dos comentários. Pouco acontece fora das exibições, a não ser a dificuldade de Dagoberto em conseguir a mão de Magnólia, também pretendida por Jó, o empresário que financiou o invento, e a presença misteriosa de um fantasma, que surge, aqui e ali, nos espaços ermos do casarão às altas horas da noite.




Em termos de FC propriamente dita há pouco a acrescentar, pois é ela apenas um meio para a descrição da história natural da Terra. Mas o livro é interessante por este aspecto, principalmente pela apresentação detalhada dos animais. Veríssimo deve ter feito uma grande pesquisa, pois ele descreve com acuidade a evolução da fauna e da flora do planeta, e com muita leveza e sensibilidade. O livro é saboroso também por ilustrar a maioria dos animais retratados, e fiquei curioso em saber quem as fez, pois são muito realistas, conferindo ainda mais verossimilhança aos relatos científicos.

De forma surpreendente, este livro me trouxe várias lembranças de minha infância, já que o meu primeiro interesse intelectual foi a vida dos animais, dinossauros obviamente incluídos. Assim, por um certo tempo, visitar o zoológico de São Paulo foi um passeio da família, assim como ir ao cinema assistir documentários sobre o mundo animal. De tão interessado ganhei num dia de Natal, o Dicionário dos Animais do Brasil, volume 1 (1968), de Rodolpho von Ihering (1883-1939), um dos livros que eu mais li e reli durante minha infância e parte da adolescência. E que guardo com carinho. Assim, fico mesmo a pensar porque não enveredei por esse caminho em minha vida profissional, já que, até hoje, me interesso pelos animais e a natureza em geral.

Viagem à Aurora do Mundo é, em suma, um delicioso livro didático que usa do recurso de uma máquina para contar a história da evolução da vida em nosso planeta. Embora obviamente desatualizado, creio que poderia ser utilizado até hoje em aulas de biologia, comparando o conhecimento da época com o de hoje. Além do aspecto lúdico, ganhariam os alunos um sentido de compreensão de como se desenvolveu o processo de conhecimento científico nessa área e de forma geral.

Quando era adolescente, na escola eu tive a oportunidade de ler dois livros de Veríssimo. O drama romântico Olhai os Lírios do Campo (1938) e As Aventuras de Tibicuera (1937), outro romance que faz uso indireto de um recurso fantástico, a imortalidade do indígena. Dois livros muito bons e que jamais esqueci, mas fico pensando o efeito que poderia ter ocorrido comigo se tivesse lido Viagem à Aurora do Mundo nessa época, ao abordar de forma tão bonita um dos assuntos que mais me apaixonaram na infância.

Marcello Simão Branco


quinta-feira, 28 de novembro de 2024

VI Prêmio ABERST de Literatura - 2023

Criado em 2018, o Prêmio ABERST é uma promoção da Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror, e aponta os melhores trabalhos especificamente inscritos para o certame,  publicados pela primeira vez entre 1 de julho do ano anterior e 30 de junho do ano corrente. 
Os vencedores da edição de 2023 foram anunciados em cerimônia presencial transmitida pela internet, cujo vídeo pode ser assistido aqui. E os ganhadores são (detalhes editoriais não foram informados): 
Prêmio Sebastião Salgado – Projeto Gráfico: Rio nosso de cada dia, Fabiano Soares;
Prêmio Catacumba – Quadrinhos de Crime ou Terror: Terra roxa, Kiko Garcia;
Prêmio Lúcia Machado de Almeida – Narrativa curta de ficção de crime: Morte sem dor, Thais Messora;
Prêmio Stella Carr – Narrativa curta de suspense: A sexta vítima, Anne van den Bedum;
Prêmio Lygia Fagundes Telles – Narrativa curta de terror: A casa que pedia, Julia do Passo Ramalho;
Prêmio Maria Firmina dos Reis – Narrativa curta século XXI: A maldição do conhecimento, Vitor de Lerbo;
Prêmio Marcos Rey – Narrativa infanto-juvenil – Jovem adulto: Sofia Santos e o mistério da sereia vermelha, Lara Dezan & Lucas Camillo;
Prêmio Rubem Fonseca – Narrativa longa de ficção de crime: O homem de palha, Pablo Zorzi;
Prêmio Cláudia Lemes – Narrativa longa de suspense: O maníaco de Salga Odorenga, Ana Nahas;
Prêmio Rubens Lucchetti – Narrativa longa de terror: Sina, Márcio Benjamim;
Prêmio Eliana Alves Cruz – Narrativa longa século XXI: Dias de chuva, Carolina Mancini;
Prêmio revelação 2023: Thiago Barrozo;
Prêmio Grand ABERST: Carolina Mancini.
Está disponível aqui a relação completa dos finalistas, menções honrosas e destaques de cada categoria. Parabéns a todos.

Prêmio Jabuti 2024

O Prêmio Jabuti é a mais prestigiosa premiação do ambiente editorial brasileiro. Promovido pela Câmara Brasileira do Livro, inaugurou em 2020 a categoria: "Romance de Entretenimento", que contempla livros de  ficção científica, fantasia e horror, entre outros gêneros. Os finalistas de cada categoria são escolhidos por um juri de três especialistas na área, dentre uma lista de inscritos para o certame. 
Além do vencedor, vale a pena citar também todos os finalistas da categoria, pois o reconhecimento da CBL é por si muito significativo. Os vencedores e os demais finalistas de 2024 são:
Romance de Entretenimento
Vencedor: O crime do bom nazista, Samir Machado de Machado, Todavia.
Finalistas: A noite do cordeiro, Daniel Gruber, O Grifo; Mariposa vermelha, Fernanda Castro, Suma; O homem da Patagônia, Paulo Stucchi, Jangada; Os canibais da Rua do Arvoredo, Tailor Diniz, Citadel.
A relação completa dos vencedores de todas as categorias do 66º Prêmio Jabuti pode ser conferida aqui.

Prêmio Jabuti 2023

Completando 65 anos em 2023, o Jabuti é a mais prestigiosa premiação do ambiente editorial brasileiro. Desde 2020, a Câmara Brasileira do Livro, promotora do evento, introduziu a categoria "Romance de Entretenimento", que contempla livros de  ficção científica, fantasia e horror, entre outros gêneros. Os finalistas de cada categoria são escolhidos por um juri de três especialistas na área, dentre uma lista de inscritos para o certame. 
Além do vencedor, vale a pena citar também todos os finalistas da categoria, pois o reconhecimento da CBL é por si muito significativo. Os vencedores e os demais finalistas de 2023 são:

Romance de Entretenimento
Vencedor: Dentro do nosso silêncio, Karine Asth, Bestiário.
Demais finalistas:
12321: O amor é um palíndromo, Marina Kon, Penalux;
A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê, Ian Fraser, Intrínseca;
O luto da baleia, Solange Cianni, edição de autor;
Selvagem, Marília Passos, Labrador;
Cores e pesadelos: Cenas de um crime, Ricardo Carvalhaes Fraga, Autografia;
Mata-mata (versão estendida), Zé Wellington, Draco;
Negrilin, Maria Luiza Vargas Ramos, Alternativa;
Sente-se comigo, Luciana Chardelli, 7Letras;
Viralizou, Igor Verde, Juan Jullian, Galera Record.
A relação completa dos vencedores de todas as categorias do 65º Prêmio Jabuti pode ser conferida aqui.

sábado, 23 de novembro de 2024

O homem do futuro

O homem do futuro
, Cláudio Torres, 106 min. Globo Filmes, 2011. 

O homem do futuro é um longa metragem de autoria e direção de Claudio Torres, produzido em 2011 pela Globo Filmes. 
Conta a história de João, físico brilhante mas extremamente frustrado com o rumo que sua vida tomou após a formatura na universidade, vinte anos antes: no baile de graduação, sua vida sentimental desmoronou quando Helena, sua namorada, o trocou por outro. Ao esbarrar sem querer na mais importante descoberta da humanidade – a máquina do tempo – João acredita que talvez seja possível voltar para aquela noite fatídica e corrigir o rumo de sua vida infeliz. O problema é que suas interferências no passado acabam por criar uma realidade alternativa ainda pior e João terá de se desdobrar para corrigir tudo antes que sua própria linha temporal desapareça. 
A ideia não é muito original. Por essa breve sinopse fica evidente a influência da série De volta para o futuro, que por si também não era muito inovadora: desde que  H. G. Wells publicou o romance A máquina do tempo, em 1895, os paradoxos temporais têm sido tão explorados que já formam um gênero a parte na literatura de ficção científica – sob o singelo nome de ucronias – tanto que hoje é muito difícil encontrar uma ideia nova dentro do tema. Mesmo na filmografia nacional, temos o curta metragem Barbosa (1988, Ana Luiza Azevedo, Jorge Furtado), que se insere exatamente na mesma linha. 
Resta aos autores recriarem e recombinarem o que já foi feito, torçendo para não desandar na receita, o que quase sempre acontece. O caminho de segurança é simplesmente alterar pontos de vista, inovar no contexto cultural e na estrutura dramática, que é justamente onde estão os méritos de O homem do futuro.
A produção é honesta, com efeitos especiais competentes e um design elegante e sofisticado, que convence plenamente na medida em que, mais que uma ficção científica, o filme é mesmo uma comédia romântica na bem sucedida linha hollywoodiana: João ama Helena que ama Ricardo que não ama ninguém. Por trás de toda a parafernália pesudotecnológica, o que existe de fato é um drama de amor bem contado e competentemente representado por um elenco de experientes artistas globais: Wagner Moura, Alinne Moraes, Maria Luísa Mendonça, Gabriel Braga Nunes, Fernando Ceylão, Daniel Uemura, além de participações especiais de Jean Pierre Noher, Rodolfo Bottino e Gregório Duvivier, entre outros.
Com locações em Paulínia, Campinas e Rio de Janeiro, o filme teve um orçamento de R$ 8 milhões e arrecadou mais de R$11 milhões, superando um milhão de expectadores nas salas de cinema do Brasil. Um sucesso que contribuiu de forma decisiva para a abertura do mercado nacional a outras produções do gênero. E esse é sem dúvida um mérito que é necessário exaltar. 
Cesar Silva

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Os Imortais

 



Os Imortais (The Immortals), James Gunn. Tradução: Teresa Curvelo. Capa: autoria não identificada. 205 páginas. Rio Maior: Galeria Panorama, série Antecipação, n. 42, Portugal, sem data. Publicação original de 1962.

 

Às vezes chegamos a um livro da forma mais inesperada. Na edição 261 do fanzine Juvenatrix (agosto de 2024), o editor Renato Rosatti publicou um bom artigo sobre a série de telefilmes produzida pela rede de TV norte-americana ABC, entre 1969 e 1975, a “ABC Movie of the Weeks”. Curioso, fiz uma pesquisa posterior e descobri o telefilme The Immortals (1969), que me chamou a atenção por ser um piloto de uma série com 15 episódios, baseado no romance homônimo de James Gunn (1923-2020), prestigiado escritor e acadêmico norte-americano.

O filme está disponível no Youtube, com acesso a legendas em português – assim como, aliás, boa parte dos 264 filmes da série da ABC. Vi, gostei e fiquei a pensar se a obra não teria sido publicada em língua portuguesa. Ora, não só foi, em Portugal, como eu tinha o livro! Um caso típico de serendipity, expressão inglesa para achados fortuitos e inesperados.

Os Imortais aborda um mundo futuro em que, de maneira também fortuita, se descobre a possibilidade da vida eterna. Após um bilionário idoso receber uma transfusão de sangue, ele não só se recupera, mas também rejuvenesce. Perplexo, o doutor Russell Pearce, procura saber quem foi o doador. E após examiná-lo, constata que Marshall Cartwright possui uma substância no sangue, a globulina gama, que tem a capacidade de resistir a qualquer doença. O corpo dele produz anticorpos contra a própria morte. O seu sistema circulatório é constantemente renovado, permitindo que as células não morram jamais. Através de uma simples transfusão, o corpo de uma pessoa doente pode ser curado. Mas o período na receptora é de apenas 30 dias, de forma que ela tem de receber novas transfusões ao fim de cerca de um mês.

No filme, o bilionário descobre Cartwright, o aprisiona, mas este foge e é perseguido pelos brutamontes do bilionário. Ao que consta, o seriado, que durou apenas uma temporada, mas foi indicado a um Prêmio Emmy em 1970, segue a mesma linha. Pois é baseado, justamente, na primeira das quatro noveletas que formam o romance fix-up, isto é, o que os norte-americanos chamam para um conjunto de histórias em sequência, baseadas num mesmo universo ficcional.

A primeira é “Novo Sangue” (New Blood), publicada em Astounding Science Fiction, em outubro de 1955. Narra, basicamente, o mesmo enredo do seriado citado acima, apenas que Cartwright não se deixa aprisionar, e nem foge, simplesmente desaparece ao descobrir que tem o dom da imortalidade, a não ser que sofra algum acidente grave. Cinquenta anos depois se passa a segunda história “Doador” (Donor), vista primeiro em Fantastic Stories of Imagination (novembro de 1960). Num Instituto Nacional de Pesquisa, se gasta bilhões de dólares para descobrir o paradeiro de Cartwright e seus possíveis filhos, bem como uma maneira de sintetizar a substância sanguínea que produz o rejuvenescimento. Mas tudo é mantido em segredo, até que um dos pesquisadores descobre o paradeiro de uma possível herdeira do imortal original. No início ele procura barganhar, mas depois escapa à procura de Bobs, a garota imortal. Esta é talvez a melhor história, com mais ritmo e suspense, bem como com os personagens mais interessantes. E assim, é de se lamentar que com o final, fique em aberto o destino do pesquisador e da garota.

Situadas décadas à frente, as duas últimas novelas enveredam por um caminho sombrio, ao mostrar as consequências da descoberta da imortalidade na sociedade como um todo. Em “Médico” (No So Great on Enemy/Medic), publicada originalmente em Venture Science Fiction (julho de 1957), acompanhamos um médico residente que é chamado para socorrer um paciente num edifício abandonado. Lá, ele o encontra sob os cuidados de uma garota cega, e vem a saber que, na verdade, o doente é ninguém menos que o doutor Russell, que mesmo sem receber o elixir atingiu uma idade bem avançada. A história mistura o atendimento em si com as reflexões do jovem médico sobre o mundo em que vive. Sua angústia é em saber se receberá o dom da imortalidade, possível de ser obtido por médicos que alcancem sucesso em sua carreira. Mas isto não passa apenas por ser um bom profissional, mas de participar do esquema de poder que permite privilégios ao estamento dos ricos e poderosos, os que se beneficiam com a imortalidade.

Na última novela, “O Imortal” (The Immortal), vista primeiro em Star Science Fiction Stories (n. 4, 1958), o mundo se consolidou numa distopia. Os centros das grandes cidades estão abandonados e em ruínas, apenas habitados por operários que mantém a produção de alimentos e remédios para os poderosos, que vivem nos subúrbios em fortalezas fortemente armadas, os imortais. Eles investem sua fortuna para manter a produção sintética da substância sanguínea milagrosa, e apenas alguns profissionais de saúde e o entorno dos que os mantém em segurança também se beneficiam. A enorme maioria restante vive em condições deploráveis, em meio à sujeira, doenças e violência, e recorrem a um gigantesco hospital para manterem sua precária condição de saúde e servirem de doadores de órgãos, num lucrativo mercado, tanto legal como ilegal de tráfico para transplantes.

Nesta história, acompanhamos a missão do médico Harry Elliot para levar uma mensagem urgente ao governador. Numa travessia muito perigosa, sujeita à violência de caçadores de pessoas para extração de órgãos, e doenças derivadas da condição de sujeira e miséria, ele é acompanhado de um médico cego – o doutor Russell que doou seus olhos para a filha, da história anterior –, um jovem que vem a ser o seu neto e uma adolescente, que trará uma revelação importante que mudará o destino da missão.

É interessante notar que paira entre os Cartwrights espalhados pelo país afora uma situação inversa da de um vampiro. Pois este precisa do sangue das pessoas para sobreviver eternamente. No livro, são as pessoas que precisam do sangue mutante para alcançar a vida eterna. O diferente é perseguido e não persegue, como o vampiro, mas ambos tem de viver de maneira oculta, como numa maldição.

Contudo, é toda a sociedade que sofre. A possibilidade de alcançar a vida eterna degenera as relações sociais, exacerbando o individualismo e o egoísmo, instaurando a lógica do poder de quem pode mais em pagar pelo benefício. Assim, todo o sistema econômico passa a girar em torno desse interesse, instaurando uma clivagem entre idosos ricos e sedentários e o restante da população, que se torna doente devido às condições insalubres em que vive, e no qual mal pode pagar pelos serviços médicos, inteiramente voltados à manutenção do privilégio dos velhos que os mantém.

Apesar de ser um livro que junta histórias previamente autônomas, o romance é bem estruturado, tornando-se progressivamente complexo, mais em termos coletivos do que individuais. No fundo, Gunn faz uma reflexão perturbadora dos possíveis efeitos que uma descoberta como essa poderia trazer para a humanidade, com instigantes observações sobre a ética médica em meio a um verdadeiro sistema econômico anarco-capitalista, que desumaniza as pessoas, reduzindo tudo à lógica utilitária do lucro. A anomia total da sociedade brutaliza as relações humanas, e a falência do Estado, completamente reduzido a uma condição de prestador de serviço à casta dos endinheirados, reprime a todos que ousem questionar ou lutar contra esta distopia.

A imortalidade é um dos temas mais recorrentes da FC, uma das inspirações básicas do pensamento especulativo, o elixir da vida, da saúde perfeita e da juventude. Mas, como mostra a maioria das obras, nem isso é perfeito, tanto no plano individual (a falta de objetivos e perspectivas numa vida sem destino), como no coletivo (com a provável apropriação do recurso como fonte de poder e discriminação). Lembro, rapidamente, de obras como o monumental Amor Sem Limites (Time Enough for Love; 1973), de Robert Heinlein; o instigante Regresso à Vida (Recalled to Life; 1962), de Robert Silverberg, bem como sua novela premiada “Born with the Dead” (1974); o clássico Estação de Trânsito (Way Station; 1963), de Clifford Simak, e o brasileiro Padrões de Contato (1985), de Jorge Luiz Calife, com a heroína Angela Duncan tornada imortal por ação da Tríade, uma superinteligência extraterrena. Além disso, o romance Horizonte Perdido (Lost Horizon; 1933), de James Hilton, duas vezes adaptado ao cinema (1937 e 1973), e o filme Zardoz (1974).

Já conhecia Gunn de outro romance fix-up bem crítico, Os Vendedores de Felicidade (The Joy Makers; 1961) – sobre uma sociedade hedonista estimulada por drogas (leia a resenha aqui e este Os Imortais segue na mesma toada, sendo, provavelmente, a mais pessimista obra sobre as prováveis consequências sobre um dos maiores desejos do ser humano.

Na prática, é crível pensar que, de fato, a imortalidade seria para poucos, e a maioria teria uma condição de vida piorada e mortal. O que poderia ser uma benção se revelaria uma maldição que condenaria a todos, inclusive os privilegiados, restritos a uma vida isolada e cheia de limitações. Para se atingir eventualmente a imortalidade, seria preciso antes mudar o sistema de valores dos seres humanos, com mais fraternidade, solidariedade, amor. Conceitos vinculados à igualdade plena, tanto em termos materiais, como filosóficos. Mas à parte esta idealização, tememos a finitude porque a vida é tudo o que temos, e não sabemos como será – se é que será – quando ela deixar de existir. Em meio ao desejo e à esperança, talvez trocássemos o medo da morte, por uma eternidade vivida entre a angústia e o vazio existencial.

Marcello Simão Branco