terça-feira, 15 de agosto de 2023

O dilema de Utterson

Quando terminou de ler os dois relatos — o do amigo Dr. Lanyon e o do Dr. Henry Jekyll — o advogado Utterson estava suando frio, tomado de um pavor que nunca antes sentira em sua vida.

Jamais poderia ter imaginado a verdade: que o misterioso Edward Hyde era o mesmíssimo Dr. Jekyll, num desdobramento de personalidades que incluía a mudança da aparência corporal. Portanto, se Hyde morreu, Utterson também estava morto e o seu corpo jamais seria encontrado, pois o que restava era o corpo de Hyde.

Mas como podia ser isso? E os átomos, ou as células, a mais ou a menos?

As dificuldades científicas para acreditar naquilo tudo esbarravam, é claro, na lógica dos dois relatos, que desvendavam o mistério da relação Jekyll-Hyde. Porém, tudo isso ia para segundo plano diante do fator que se lhe afigurava mais grave daquele imbróglio. Ao se retirar, pelas dez da noite, da residência do Dr. Jekyll, o advogado prometera ao mordomo Poole que retornaria pela meia-noite, para então chamarem a polícia. Afinal, o dono da casa achava-se desaparecido e havia o cadáver de um suicida no laboratório.

O problema era justamente esse.

Em primeiro lugar a polícia é racionalista demais para acreditar que um ser humano se transforme em outra pessoa. Isso é coisa de contos de fadas, não da vida real. Por consequência os dois relatos não seriam aceitos mesmo se mostrados e examinados. Nenhum tribunal tampouco iria aceitar que Jekyll se transformasse em Hyde e vice-versa. Acreditar em coisas fantásticas é tabu.

Nem a imprensa daria crédito.

Assim, Utterson só conseguia enxergar um resultado para aquela tragédia: ele e Poole seriam responsabilizados criminalmente pelo desaparecimento e possível morte do Dr. Henry Jekyll. E poderiam ambos acabar no patíbulo.

Não adiantava fugir. O pesadelo estava apenas começando e só lhe restava erguer-se e retornar à residência de seu falecido amigo.

Cobrindo o rosto com as mãos, em desespero de causa, Utterson murmurou:

— O que eu faço agora, meu Deus?

— Miguel Carqueija

Rio de Janeiro, 11 a 19 de agosto de 2022.

 

NOTA: Reli recentemente O médico e o monstro, ou, na tradução do original, O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson. E uma coisa que me intriga é a maneira inconclusa com que o romance termina, apenas com as transcrições dos dois documentos — do Dr. Lanyon e do Dr. Jekyll — esclarecendo o mistério. Fica em suspenso, portanto, a atitude posterior do Dr. Utterson, pois caberia a ele informar à polícia do suicídio do Sr. Hyde e desaparecimento do Dr. Jekyll. Mas aqui ocorre um terrível impasse, omitido por Stevenson e que eu me limito a mostrar sem buscar uma solução. Como explicar à polícia algo que a polícia não iria aceitar, mesmo com provas?

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Conto de Fadas

 



Conto de Fadas (Fairy Tale), Stephen King. Tradução: Regiane Winarski. Capa: Will Staehle. Ilustrações internas: Gabriel Rodriguez (capítulos ímpares e epílogo) e Nicolas Delort (capítulos pares). 623 páginas. Rio de Janeiro: Suma, 2022.

 

Talvez este seja o primeiro livro de Stephen King que eu comprei e li quase ao mesmo tempo do seu lançamento nos EUA. Isso porque a Suma, selo da Editora Schwarcz, foi mais rápida do que o habitual e o lançou no Brasil praticamente junto com o lançamento norte-americano. Outra curiosidade, que também talvez não interesse a você, leitor dessa resenha, é que esse foi o último livro que eu comprei na finada Livraria Cultura, em sua sede da capital paulista, duas semanas antes de sua falência. E por acaso, pois o livro, de forma estranha, estava esquecido num canto numa seção de livros usados da livraria, e com a metade do seu verdadeiro preço de capa.

Mas eu compraria o livro pelo valor que fosse. Afinal, é de Stephen King, um dos meus autores favoritos e do qual acompanho praticamente toda a sua carreira, desde meados dos anos 1970. E não preciso dizer que, claro, gostei demais da leitura, como pretendo comentar a seguir.

Conto de Fadas não é uma história de horror tradicional, de cunho mais sobrenatural, como na primeira fase de sua carreira, ou no estilo dark fantasy, que o tem caracterizado desde, pelos menos, o fim dos anos 1990. Contudo, o sobrenatural é explorado da perspectiva da magia. Sim, é um romance mais próximo de ser identificado com o gênero fantasia, embora de uma forma bem peculiar em se tratando de King.

Após a morte súbita e violenta da mãe, a vida do adolescente Charles Reade entra em crise. Não apenas pelo fato óbvio da perda, mas porque o pai se torna um alcoólatra. Charles meio que se perde, cometendo várias pequenas maldades, ao lado de um amigo de infância, de caráter bem questionável. Como, por exemplo, roubar as muletas de um idoso, deixando-o sem ter como andar. Em desespero pelo pai estar desempregado e cheio de dívidas, Charles faz uma promessa pessoal “ao seu Deus”, de que se ele se redimisse, seu pai reencontraria um rumo na vida.

Então, de forma fortuita, certo dia Charles ouve os latidos de uma velha cadela, ao passar pela casa mais estranha da pequena cidade de Sycamore, em Illinois, e ao pular o portão, vê que o dono, o solitário Sr. Bowditch caíra da escada e quebrara a perna. Charles o socorre e, conforme os dias passam, não só visita o ancião no hospital, como se envolve cada vez mais com ele, passando a ser o seu cuidador, depois do seu retorno à casa. Ao mesmo tempo seu pai faz terapia nos Alcóolicos Anônimos – graças à ajuda de um amigo –, arruma um emprego e, um pouco depois, abre seu próprio negócio. Ao que parece, o garoto Charles havia realizado sua promessa ao cuidar de Bowditch e se afeiçoar intensamente à Radar, a pastora alemã dele. Mas a verdadeira virada em sua vida ocorre quando ele descobre a fonte da boa vida de Bowditch: um cofre lotado com pequenas bolas de ouro. De onde teriam vindo?

Bowditch hesita em contar, e só o faz por meio de uma gravação, pouco antes de sofrer um ataque cardíaco e morrer. Mas Charles já desconfiava de onde vinham, pois nos fundos da casa havia um barracão com barulhos estranhos. Ele resolve investigar e descobre a entrada de um outro mundo. Do barracão se desce uma longa escada em espiral até chegar a um lugar com estrelas no céu e duas luas. Fascinado e assustado, Charles vai lá uma vez e resolve ocultar o segredo, mas por causa da Radar decide voltar para tentar salvá-la de suas muitas doenças que poderiam levá-la à morte. Aqui é interessante notar que King usa do recurso tradicional da fantasia de portas ou passagens que se escondem em ambientes familiares. O próprio autor já havia usado esse recurso antes – numa história de ficção científica – no seu monumental Novembro de 1963, quando o protagonista descobre uma porta numa lanchonete que o leva de volta aos anos 1960, em meio ao contexto que levou ao assassinato do presidente John Kennedy.

Charles e Radar, então, adentram no mundo chamado de Empis. Um reino movido por magia e não tecnologia e habitado por pessoas e animais fantásticos. Mas Empis é um mundo danado. A vegetação é rala e tomada por pragas, os animais são deficientes ou de tamanho exagerado, e a maioria das pessoas têm a pele cinzenta e deformações horríveis pelo corpo. Mas Charles conhece algumas pessoas adoráveis, como Dora, a consertadora de sapatos, e membros de uma antiga família real que foi destronada. Ele quer apenas cumprir sua missão e encontrar o relógio do sol, que vai permitir que Radar não só seja curada, mas rejuvenescida, seguindo a orientação do velho Bowditch que, ao passar por ele, viveu mais de um século, além de ter conseguido sua fortuna em ouro. Mas no caminho, a jornada de Charles vai se tornando muito perigosa, pois ele descobre que as noites são tomadas por temíveis lobos e os chamados soldados noturnos, zumbis que emitem raios de suas armas, entre outras monstruosidades deste mundo amaldiçoado.

Charles cumpre sua missão original, mas ao ser aprisionado na cidade real de Lilimar irá viver sua verdadeira aventura por sua vida e a própria segurança de nosso mundo, já que ele descobre, em meio a torturas e prisão num calabouço há centenas de metros abaixo da superfície, que o que causou o Mal a Empis foi a traição de Elder, o filho mais novo da família real de Gallien, após se aliar com o demônio que habita o Poço Profundo, que lhe concedeu poderes que o tornaram o novo rei, nem que com isso, matasse a maior parte da nobreza e levasse mortes e destruição a um mundo antes belo e próspero.

Como o leitor já deve ter notado, estamos diante de um enredo de conto de fadas, subgênero da fantasia, que trabalha certas características, como a jornada de um herói improvável, um reino em desgraça, seres míticos, poderes sobrenaturais e muita magia. King trabalha todos esses elementos com muita destreza, utilizando várias referências sobre histórias parecidas, e apresentando ao longo da narrativa várias associações com clássicos de fundo infantil, como João e o Pé de Feijão (1807), de Benjamin Tabart, e adultos, como Algo Sinistro Vem Por Aí (1962), de Ray Bradbury, além da vinculação com os Antigos de H.P. Lovecraft, na figura de Gogmagog, o monstro supremo que estaria por trás do mal liberado sobre Empis.

Nesse sentido, e pela própria autoconsciência do protagonista, King faz um experimento literário que poderia chamar de metaficcional. Ou seja, uma ficção própria, mas que dialoga e se referencia com outras, mas sem deixar de ter uma voz própria, dada a sua intensidade e habilidade narrativa. E este diálogo também ocorre por meio da problematização do próprio conteúdo do subgênero, ao recolocá-lo numa vertente mais horrorífica, como originalmente as histórias deste filão se desenvolviam, até serem modificadas para serem lidas por crianças num ambiente familiar, um movimento de revisionismo literário que tomou a cena no final do século XIX.

A jornada de Charles Reade, mesmo contada de forma retrospectiva e em primeira pessoa, não faz com que deixemos de sentir aflição e temor por seu destino e de Radar. A cada página virada, ambos se veem em situações de perigo e, ao mesmo tempo, estranhos encantamentos. No fundo é uma história de expiação, mais que de redenção, num adolescente que foi obrigado a amadurecer mais rápido do que deveria, em virtude dos infortúnios súbitos de sua vida.

Conto de Fadas é uma das histórias mais à vontade de King. Mas isso não a torna menos impactante. O sentimento é talvez de emoção, mais pela aventura do que pelo terror, embora, como dito, a trama seja norteada pelo malefício causado ao mundo de Empis. Que, afinal, o que seria? Um mundo paralelo ao nosso? Um portal que leva a outro ponto do Universo? King não explora muito essas premissas, se concentrando mais na construção do mundo em si e suas próprias regras e valores.

Em suma, esta é a história de conto de fadas particular de King, e em que ele trabalha e explora vários dos conceitos do subgênero. Mas que, sobretudo, proporciona ao leitor, uma das experiências de entretenimento mais marcantes de redenção e arrebatamento. Que livro estranho e fascinante.

Marcello Simão Branco


terça-feira, 18 de julho de 2023

Prêmio Le Blanc 2023

No dia 14 de julho, em evento presencial no Sesc São João de Meriti, no Rio de Janeiro, foram anunciados os vencedores da edição de 2023 do Prêmio Le Blanc, voltado a apontar os melhores do ano anterior em animação, jogos, histórias em quadrinhos e literatura fantástica. 
A apuração foi realizada em duas etapas: uma consulta popular pela internet indicou três finalistas em cada categoria, dentre os quais o ganhador foi definido por um juri de especialistas. 
Os vencedores de 2023 são:
Romance: A roda de Deus, Leonel Caldela, Jambô.
Coletânea: Assombros, Zé Wellington, Draco.
História em quadrinhos independente: Ovelha negra, Carlos Felipe Figueiras & B. Horn, Tapas.
História em quadrinhos: Sussurros do caos rastejante, Fábio Yabu & Fred Rubim, Jambô.
Série de tiras: Edifício Celeste, Thiago Krening.
Série de animação: Turma da Mônica, Cartoon Network, Mauricio de Sousa Produções & Split Studio.
Curta animado: Coelhitos e gambazitas, Thomas Larson.
Curta animado independente: Eu nunca contei a ninguém, Douglas Duan.
Longa animado: A lasanha assassina, Ale McHaddo.
Animação publicitária: Abertura de novela Cara e Coragem, Leonardo Fleury & Luciana Jordão.
Game eletrônico: Fobia – St. Dinfna hotel, Pulsatrix Studios.
RPG: O cordel do reino do sol encantado, Pedro Borges, New Order.
Criado em 2018, o Prêmio Le Blanc é organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Mídias Criativas (PPGMC) da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pela Universidade Veiga de Almeida (UVA), pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e pela Universidade Federal Fluminense (UFF). 
O nome é uma homenagem à André LeBlanc (1921-1998), haitiano radicado no Brasil com uma extensa e importante obra no campo da ilustração editorial.
A relação com todos os finalistas de cada categoria pode ser conferida aqui.

domingo, 16 de julho de 2023

Território Lovecraft, Matt Ruff

Território Lovecraft
(Lovecraft country), Matt Ruff. Tradução de Thais Paiva, 354 páginas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

Há algum tempo, mais exatamente em 2017, o escritor e tradutor Fábio Fernandes, em seu podcast Terra Incógnita, publicou uma série de episódios sobre uma onda neolovecraftiana na fc&f americana, e um dos títulos que destacou foi justamente Lovecraft country. Foi a primeira vez em que ouvi falar do livro e de Matt Ruff, seu autor. Fernandes teceu efusivos elogios à obra e recomendou que os editores brasileiros dessem uma chance a ele.
É claro que não foi o singelo podcast que Fernandes, ainda que se considere a significativa influência de seu editor no fandom, que levou a editora Intrínseca a publicar o livro no Brasil. Isso só aconteceu quando a HBO Max anunciou a produção de uma série inspirada no livro, o que é um apelo irresistível aos editores brasileiros quando se trata de livros de fc&f. Por isso, não foi surpresa quando o livro apareceu nas lojas virtuais, em edição de luxo e capa dura. Não que o título não mereça: provavelmente foi o melhor livro de fc&f publicado no país em 2020 e certamente um dos cinco melhores da segunda década deste século.
O mais interessante é que não se trata de um livro lovecraftiano, como seria de se imaginar. Os escritores profissionais sabem muito bem que qualquer autor fã saberia imitar o estilo démodé de Lovecraft. Trata-se de um texto enxuto e potente, mas a leitura é sofrida por conta do tema; o estilo é bastante contemporâneo, ainda que toda a ação esteja localizada em algum momento dos anos 1950. Trata-se de um romance fix-up, formado por contos e novelas autônomos possivelmente publicados em separado, reunidos por um arco geral que lhes dá unidade dramática.
Conta a história de uma família de homens e mulheres pretos num Estados Unidos da América em que o racismo e a segregação racial são praticados com anuência do poder público. Um dos veteranos, chamado de George, mantém a publicação de uma espécie de fanzine turístico, o Guia de Viagem do Negro Precavido, para que as pessoas pretas possam transitar pelo país com alguma segurança. Para isso, viaja continuamente e enfrenta os perigos de caminhos ainda não experimentados, de modo a registrar os lugares em que o povo preto pode se alimentar e se hospedar sem o risco de ser assassinado. Oito história e um epílogo compõem o volume, cada uma focaliza um dos membro da família, embora os demais também participem com maior ou menor significado.
"Território Lovecraft" é a novela que abre o volume. Cumpre com louvor a apresentação dos personagens e do ambiente geral. Nela, acompanhamos Atticus, um jovem que retorna sua cidade natal e encontra Montrose, a quem chama de pai, desaparecido. Acompanhado de George e da jovem Letitia, embarcam no velho woody da família com destino ao condado de Ardhan, em pelo "Território Lovecraft", uma região perigosa para os negros. Lá, se depararam com Caleb Braithwhite, jovem branco muito misterioso, além de um grupo de homens brancos que praticam uma espécie de culto, a qual chamam de "Filosofia Natural", cujo ritual exige a participação de um dos nossos ousados viajantes e influirá no futuro de toda a família.
"A casa assombrada dos sonhos" focaliza as irmãs Letitia e Ruby, que compram por uma bagatela um antigo casarão no qual pretendem implantar uma pousada para negros. O problema é que o casarão está localizado em um bairro majoritariamente habitado por brancos racistas. E não só: a mansão era, no passado, residência de Hiran Winthrop, figurão da Filosofia Natural cujo fantasma nada amistoso assombra o lugar.
"O livro de Abdulah" é uma espetacular aventura ao estilo de Indiana Jones. Caleb Braithwhite está de posse do Livro dos Dias, que registra a vida dos membros da família durante o período da escravidão e é um documento importante para que eles possam obter uma polpuda indenização. Mas Caleb só o devolverá em troca do Livro dos Nomes, compêndio mágico que está escondido no subterrâneo do Museu de História Natural. Atticus, George, Montrose e alguns amigos embarcam nessa perigosa missão sobrenatural para garantir a devolução do tesouro roubado da família.
"Hyppolita perturba o universo" é a melhor história do volume, na minha opinião. E isso é um mérito enorme porque todas as histórias do livro são excelentes. Hippolita, a mãe de Letitia e Ruby, é uma mulher de vida agitada e de muita personalidade. É astrônoma, viaja sozinha e é colaboradora do Guia. Seu passatempo favorito é visitar observatórios astronômicos pelos EUA, principalmente aqueles em que não poderia entrar. E o observatório que ela quer invadir desta vez fica numa propriedade particular pertencente a Hiran Winthrop (sim, o fantasma da mansão de Letitia). Ela vai descobrir, da maneira mais surpreendente possível, que aquele não é um observatório como os demais, pois ele mostra as estrelas "bem" de perto.
"No ano-novo, Ruby acordou branca". Esta é a frase que abre o conto "Jekil em Hyde Park", no qual Ruby consegue realizar seu maior desejo, que é arrumar emprego numa loja de departamentos muito elegante. Mas ela só consegue isso graças a um feitiço que o sedutor Caleb Braithwhite lhe ensina.
"A casa Narrow" é uma história de viagem no tempo nada convencional, na qual Montrose é convencido por Braithwhite a recuperar cadernos antigos com anotações de Hiran Winthrop que aparentemente já foram destruídos. Para isso, ele terá de fazer uma pequena viagem a casa de um certo Sr. Narrow.
"Horace e o boneco do diabo" é de longe o texto mais assustador do volume, no qual Horace, o membro mais caçula da família, tem de enfrentar uma maldição mortal que Braithwhite lança sobre ele.
"A marca de Caim" apresenta o desfecho emocionante do combate entre os nossos protagonistas e o aparentemente invencível Braithwhite e seus asseclas, com muita ação, violência, tiroteios e magia negra, é claro.
O texto está repleto de referências e citações ao universo nerd, a literatura fantástica e até aos jogos de RPG, que não são gratuitas nem derrubam a suspensão da incredibilidade como geralmente ocorre nesses casos. Pelo contrário, em Território Lovecraft, todas as citações são elementos fundamentais das histórias, que não poderiam ser contadas da mesma forma sem elas.
Comparando-se o texto original com a adaptação produzida pela HBO Max, é possível dizer que esta é bastante fiel ao romance mas está longe de ter a mesma qualidade. O livro de Ruff é muito superior à versão audiovisual, que tomou liberdades para outra conclusão, alterou personagens, fundiu histórias, ignorou outras e inventou coisas que nem estão no livro. Algumas das melhores narrativas do original ficaram de fora, outras foram tão alteradas que mal é possível reconhecê-las, além de colocar o pobre Atticus numa situação ambígua e frágil que nada tem a ver com o personagem original. Sem falar na limagem das deliciosas citações, bem como da relevante questão metalinguística, proposta logo às primeiras páginas, sobre o modo contraditório como uma pessoa preta se relaciona com a ficção científica, gênero de tradição evidentemente racista.
Recomendo a leitura do texto original de Ruff. Quem só viu o seriado não recebeu o melhor de Território Lovecraft.
Cesar Silva

segunda-feira, 3 de julho de 2023

O Beijo Antes do Sono

 


O Beijo Antes do Sono, Fausto Cunha. Capa: Salvio Negreiros. 119 páginas. São Paulo: Artenova, 1974.

 

Fausto Cunha (1923-2004) foi uma figura importante da literatura brasileira, nas décadas de 1960 e 1970, e se estendermos sua contribuição à FC, também à década de 1980, aqui na figura de editor. Mais conhecido entre a comunidade de FCB como um dos principais autores da Primeira Onda, nomeada por ele de “Geração GRD”, transitou entre a crítica literária, a ficção e a edição, com talento e marcas próprias, a partir de uma perspectiva humanista e intimista. Aliás, uma tendência característica dos autores desse período.

Publicou de sua lavra quatro livros de FC, as coletâneas Noites Marcianas (1960) e O Dia da Nuvem (1980), a novela infanto-juvenil O Lobo do Espaço (1977) e este O Beijo Antes do Sono, seu único romance.

Num período contemporâneo, mas indefinido, duas amigas de infância vão passar alguns dias numa fazenda da família de uma delas. Ambas estão em crise com seus casamentos, mas aguardam a chegada dos maridos para breve. Brígida é mais bonita e expansiva, ainda que com períodos de certa confusão e melancolia. Débora, parece ser mais racional e prática, mas não resiste muito quando confrontada aos seus problemas, principalmente emocionais e sexuais. O que as duas compartilham de mais valioso é a intimidade, como se o verdadeiro casal fosse o delas. Apesar de terem personalidades distintas, compartilham sonhos e segredos, embora estejam ambas num momento incerto de suas vidas.

Neste livro estes dramas interiores são potencializados pelo contato com a força vital da natureza: as estrelas à noite, a terra, os animais domesticados, a água – com rios e chuvas –, as árvores, plantas e pássaros. O intimismo meio que se entremeia, em momentos inspirados da narrativa, com motivos e eventos da natureza.

Mas em meio a este contexto existencial e primal, há um elemento de desestabilização sobre a vida das duas: Phom. Um ser indefinido que surge, ora para Brígida – que parece ser sua preferida –, ora para Débora. O contato e relação dele com as duas é incerto e intenso e avança para o crescente erotismo e a consumação sexual. O estranho é que quando ele não está presente, ambas se entregam aos seus problemas conjugais e psicológicos como se Phom não existisse. Mas mesmo quando ele surge – voando, se materializando, quase sempre à noite –, soa como estranho, quase como inexplicável para aquela que não está a ter o contato com ele. Vira uma espécie de segredo oculto entre as duas. Mas quem seria Phom?

Um anjo, um ser sobrenatural da natureza, uma espécie de vampiro, um extraterrestre? Mas Phom não é uma criação totalmente nova do autor, pois é possível estabelecer conexão com ao menos dois contos que ele publicou na coletânea Noites Marcianas: “Chamavam-me de Monstro” e “61 Cygni”. No primeiro, temos o alienígena Blixt, um ser do planeta Ghrh, que se apossa e se transforma em qualquer outra forma material, orgânica ou inorgânica. E em “61 Cygni”, uma mulher solitária tem contato com uma criatura simbionte, semelhante a Blixt. Ora, os dois elementos estão presentes: o alienígena e uma mulher! Desta forma, Phom deveria ser uma extensão do desenvolvimento do conceito. Mas, infelizmente, Cunha não se interessa em esclarecer, ou ao menos explorar um pouco mais sobre o elemento que é, afinal, o condutor de maior interesse da narrativa. E em certo ponto dela, ocorre o que poderia ser chamado de uma ruptura, pois o comportamento de ambas se torna psicologicamente e fisicamente muito alterado. Passam a ter ideias insanas e assassinas, desejos sexuais insólitos e engordam demais. Muito provavelmente grávidas do ser misterioso?




O Beijo Antes do Sono foi adaptado ao cinema como Amor Voraz (1984), pelo prestigioso diretor Walter Hugo Khouri (1929-2003). Ele é conhecido por seus filmes existencialistas e intimistas, que procura desvendar mistérios e obsessões da psique humana, talvez principalmente a masculina, como no seu personagem infeliz e solitário Marcelo, que se sucede em vários filmes. Mas em Amor Voraz o foco são as nuances e as complexidades femininas, um gênero humano, diria, mais misterioso. Afinal, a mulher teria uma relação mais sutil com os âmagos da realidade, por ser capaz de gerar uma vida, podendo, assim, talvez ser mais afeita à capacidade de lutar pela sobrevivência e transmitir o amor. Enfim, estou a divagar, mas é que tudo isso fica mais evidente no filme do que no livro. Neste, após a tal da ruptura a história perde mesmo seu rumo, com uma parte final em que os eventos perdem inteligibilidade, concluindo com uma estranha discussão teológica descolada do que parecia ser a proposta inicial da obra.

Mas talvez o mais curioso é que não o romance, mas o filme é claramente identificado com a FC, pois a personagem, interpretada por Vera Fisher – que seria a Brígida –, se comunica com Phom por telepatia, e fica a saber que ele vem de um planeta distante muitos anos-luz da Terra, e que ele germinou sob a água, após milhares de anos. Adquiriu a forma humana e deve voltar ao seu lar – numa viagem de luz – para comunicar se o nosso planeta é adequado à vida deles. Ora, há mesmo semelhanças aqui com outros filmes de FC como, por exemplo, ET, o Extraterrestre (1982) e Star Man: O Homem das Estrelas (1984). Ora, é irônico que um autor de FC escreve uma obra que insinua, mas não assume ser do gênero, e um diretor que nunca teve ligação alguma com ele, produz uma obra do tipo. E bem interessante.

O Beijo Antes do Sono, ganhou uma edição em Portugal, pela editora Bertrand, em 1976, mas, de fato, quase nunca é lembrado entre aqueles poucos que leem e pesquisam sobre a nossa FC. De Fausto Cunha se fala principalmente de As Noites Marcianas, de fato seu melhor livro. É um romance interessante, embora não desenvolva plenamente as potencialidades temáticas que seriam afeitas ao gênero, tornando-se desequilibrado em seu final. Mesmo assim, vale a pena ser conhecido.

Marcello Simão Branco


quinta-feira, 15 de junho de 2023

Spectros

Spectros, série de tv em sete episódios. Roteiro e direção Douglas Petrie. São Paulo: Moonshot Pictures, 2020. 


A grande contribuição dos serviços de televisionamento por streaming foi a abertura de espaços mais generosos à produção local independente, antes só acessível a produtoras calçadas por grandes corporações econômicas, como as redes de tv aberta, por exemplo. 
Desde que o canal Netflix exibiu, em 2016, a primeira temporada da série de ficção científica 3%, mais e mais produções nacionais têm chegado ao público, muitas vezes com relativo sucesso. Foi nessa mesma plataforma que estreou, em 2020, a série de horror sobrenatural Spectros, criação do roteirista e diretor Douglas Petrie, produzida pela Moonshot Pictures. 
Conta a história de duas estudantes adolescentes que se envolvem com um marginal justamente na noite em que ele pretende roubar o templo de uma bruxa no bairro paulistano da Liberdade. As coisas complicam quando um homem em chamas surge e derruba uma velha boneca japonesa, objeto que parece ter o poder de reduzir as fortes dores de cabeça que há tempos torturam uma das garotas. Na fuga, num automóvel roubado, o grupo atropela e mata o tocha humana e todos acabam presos pela polícia. Mas há muitos segredos obscuros por trás daquela singela boneca e praticamente tudo o que circula pela Liberdade naquela noite concorre para complicar ainda mais a chances dos jovens chegarem vivos ao próximo nascer do Sol. 
Fantasmas, mortos-vivos, maldições ancestrais e necromantes psicopatas são ingredientes que alteram a percepção do delicado ambiente da Liberdade, bairro tão conhecido e querido dos paulistanos.
A série de sete episódios tem um elenco baseado em atores jovens, como Danilo Mesquita (Pardal), Claudia Okuno (Mila), Mariana Sena (Carla), Enzo Barone (Zeca) e Drop Dashi/Pedro Carvalho (Zeca), além de atores veteranos como Carlos Takeshi (Celso), Miwa Yanagizawa (Zenóbia), Norival Rizzo (o pipoqueiro Mário) e Daniel Rocha (o detetive Ricardo). 
A narrativa é movimentada, com muita correria e variação cenográfica, que vai de prédios abandonados e comunidades carentes, até construções históricas e cemitérios antigos. Mas exagera na amplitude geográfica do bairro, sugerindo uma extensão territorial muito acima da real: para aproveitar a cenografia da Rua da Glória, o grupo de jovens circula por ela continuamente de automóvel, num bairro que se atravessa a pé em meia hora, se muito. Talvez quem não conheça a Liberdade não perceba, mas isso prejudica a narrativa, alongando uma história que ficaria bem melhor em três ou quatro episódios.
Deixando tais detalhes de lado, Spectros engrossa a tendência da produção fantástica nacional inspirada em mitologia e folclore, que está fortemente presente na literatura de ficção e agora também na teledramaturgia, que já conta com outras séries nos canais de streaming como Cidade invisível (2021, Netflix), Desalma (2020, HBO Max), A todo vapor (2020, Amazon Prime) e Vale dos esquecidos (2022, HBO Max). Não deixa de ser interessante, afinal, tais iniciativas vinculam-se mais fortemente à cultura nacional e exploram aspectos raramente tratados por obras estrangeiras do segmento, mas é preciso muito cuidado para não se apropriar de culturas alheias e até em tratar crenças ainda vivas como se folclore fossem. Spectros, contudo, escapa bem desse risco, na medida que incorpora um elenco variado com predomínio de atores japoneses. 
Como produção, Spectros entretém e traz para o debate uma série de temas significativos, como a tortura, a intolerância e o racismo, bem como a diversidade étnica e cultural do povo brasileiro. Os efeitos visuais são muito bons e todos os atores funcionam bem em seus papéis. Vale a pena assistir, desde que se tenha em mente que não se trata de um seriado americano: o ritmo é bem mais lento, mas o prazer de reconhecer os espaços e a realidade ali representados garante uma boa diversão.

Cesar Silva

quarta-feira, 7 de junho de 2023

No Limiar de Novos Mundos

 



No Limiar de Novos Mundos (The Shores of Another Sea), Chad Oliver. Tradução: José Sanz. Capa: Vera Duarte. 164 páginas. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971. Lançado originalmente no mesmo ano.

 

Chad Oliver (1928-1993) notabilizou-se como um escritor de FC que abordou, como poucos, o tema do contato entre humanos e extraterrestres, tomando como base sua formação e atuação como professor de Antropologia, no qual fez longa carreira na Universidade do Texas. No Limiar de Novos Mundos não é diferente, é apenas mais sutil e com um nível de complexidade interessante, que ajuda a não tornar o romance só mais um neste subgênero dos mais explorados no campo.

Numa reserva na selva do Quenia, babuínos são capturados e enviados para os EUA. Royce Crawford a lidera junto a um disciplinado grupo de funcionários nativos, e convive com sua esposa e duas filhas pequenas. Tudo segue uma rotina aparentemente previsível, embora não sem a excitação do convívio com a natureza selvagem, até que Royce se espanta ao avistar uma estranha luz no céu. Mas isso seria apenas o prenúncio do que viria a seguir, quando alguns babuínos capturados somem das jaulas. Ao procurar respostas para estes mistérios, Royce e os demais irão se deparar com eventos ainda mais perturbadores, tais como novos comportamentos por parte dos babuínos – mais violentos e solitários (eles são primatas que vivem e agem coletivamente) –, que, eventualmente, os levará à conectá-los com a estranha luz que, vez por outra, se insinua como um farol na escuridão da selva.

Como disse antes, é uma história sutil, pois Royce descobrirá que a mudança de atitude dos babuínos se relaciona com uma manipulação do qual foram vítimas por parte de seres extraterrestres. A tal luz é, na verdade, a nave que aterrissou. Mas por todo o romance não se sabe quem são eles, porque vieram, o que querem e nem como eles são. A certeza do protagonista virá da forma mais dramática, quando uma de suas filhas é raptada pelos babuínos modificados e levada até o interior da nave. Tal mistério é intrigante e desafia a imaginação do leitor, e difere bastante dos outros dois romances de Oliver publicados no Brasil, que tratam do mesmo tema.

Primeiro em Vultos Sobre o Sol (Shadows in the Sun;1954), o romance de estreia do autor, o contato se dá por meio da descoberta da presença de alienígenas numa cidadezinha do interior dos EUA. Eles assumem a forma humana e criam colônias de ocupação planeta afora, até serem descobertos por um jovem antropólogo – mais detalhes aqui. Já em Os Senhores do Sonho (Unearthly Neighbors; 1960), somos nós da Terra que descobrimos um mundo com vida inteligente e para lá partirmos para estabelecermos contato – ler a resenha aqui.

Pois a sutiliza de No Limiar de Novos Mundos se dá não apenas pelo fato dos aliens não se mostrarem, mas pela própria história ocorrer numa parte do mundo ainda não plenamente civilizada, a selva africana. É como se o próprio cenário fosse um lugar alienígena, pois não plenamente dominado e civilizado pelo branco ocidental. Como deixa escapar o próprio Royce, ele estaria vivendo a última geração de uma região prestes a desaparecer. Além disso, e principalmente, está embutida uma ironia, pois o ocidental, que domina os nativos e faz experiências científicas com os babuínos, passa a ser ele mesmo objeto de experiências por visitantes extraterrestres. No fundo, é uma reflexão instigante sobre o imperialismo e nosso comportamento predador e abusivo com outras espécies, com seus diferentes níveis de senciência e consciência de si próprias, no caso os primatas, não por acaso os mais próximos do ser humano.

Em certa passagem do livro, Royce faz uma reflexão interessante sobre os motivos para se aventurar pelo espaço e travar contato com seres de outros mundos. Na verdade, expressa o raciocínio de Chad Oliver e pode servir de base para um pensamento racional sobre o assunto:

 

Suponhamos que um dia o homem pouse num planeta distante. Por que teria ele de ir, que impulso o levaria a viajar através da escuridão e de anos-luz? Poderia ele explicar e mesmo tentar? Se estivesse preparado para explorar aquele mundo apavorante, se aprisionasse alguns espécimes, que faria se fosse atacado por seres monstruosos, aos quais não podia entender? Pararia, os deixaria em paz? (página 140).

 

Outro aspecto de interesse do livro é sua abordagem, digamos, culturalista, na caracterização dos personagens quenianos e do funcionamento de uma reserva. Tudo é muito realista, longe dos estereótipos relacionados com os povos que ali vivem. O autor também apresenta uma abordagem narrativa que soa quase que nostálgica, entre um mundo de vida mais simples e despojado com a natureza, e o outro que invade e o modifica gradativa, mas inexoravelmente com os valores e modos mais refinados da civilização. Para Oliver é como se o ser humano tivesse perdido algo de sua essência ao romper de forma tão drástica com sua ancestralidade. Como se percebe, é uma história rica, pois pode ser interpretada através de várias camadas.

Contudo, o que não deixou de me causar incômodo foi a maneira como a premissa de que a alteração do comportamento dos babuínos fosse causada pela interferência de seres de fora da Terra. É que ela é mal desenvolvida, pois nem é considerada a hipótese de que os eventos pudessem ter sido provocados por algum projeto militar e científico secreto de um governo do nosso planeta. Ainda mais no contexto polarizado da Guerra Fria, quando, sabe-se, várias experiências exóticas e eticamente questionáveis foram realizadas por alguns países.

Mas tal aspecto não chega a comprometer a força da história e a riqueza de suas discussões, só possíveis porque escritas por um dos maiores especialistas na FC nos assuntos relacionados com os contatos e diferenças entre culturas. Pois se a paranoia ganhou o primeiro plano em Vultos Sobre o Sol e o reconhecimento da alteridade tem relevância em Os Senhores do Sonho, neste No Limiar de Novos Mundos, o que sobressaiu foi a relativização crítica e irônica das muitas formas de imposição cultural , que, no fim das contas, como que se desmancha no ar, em meio a possíveis situações desestabilizadoras e incontroláveis, que só mostram a insignificância humana no contexto do universo.

Marcello Simão Branco