segunda-feira, 5 de julho de 2021

O Planeta dos Macacos

O Planeta dos Macacos (La Planète des Singes), Pierre Boulle. Tradução de André Telles. 205 páginas. Rio de Janeiro: Pocket Ouro/Agir Editora, 2005. Lançamento original em 1963.


Este é o tipo de livro que de tanto conhecermos a história por meio dos filmes no cinema, série de TV etc., desestimula a leitura, pois espera-se que, a despeito de algumas mudanças, o enredo e as sequências sejam basicamente as mesmas. Apesar disso sempre tive curiosidade em ler a obra original deste clássico do cinema de FC e, se, de fato demorei décadas a fazê-lo por causa desta sensação, achei por bem finalmente tirá-lo do fundo da estante e lê-lo.

Quando lançado, O Planeta dos Macacos causou sensação, tanto pela originalidade da proposta como pela moldura de FC e, principalmente, pelas questões importantes que discute com relação ao que nos faz humanos, de nossa relação com os animais e de uma provocação sobre a questão do racismo. Por tudo isso e pela forma competente como foi escrito, O Planeta dos Macacos é um clássico da ficção científica, embora eclipsado pelo estrondoso (e justo) sucesso do filme de 1968. Pierre Boulle (1912-1994) já era um autor mainstream bem-sucedido, que antes havia publicado outro best-seller A Ponte do Rio Kwai (Le Pont de la Rivière Kwai) (1952), que também se tornou um clássico do cinema sob a direção de David Lean, em 1957.

Ao iniciarmos a leitura, de saída há uma surpresa porque a história toda é um relato manuscrito lançado dentro de uma garrafa que vaga pelo espaço, e é resgatada por um casal que viaja num veleiro. É um recurso clichê, e soa ainda mais exótico e inverossímil neste caso: uma garrafa e um veleiro, como se estivéssemos diante de uma narrativa marítima e não na imensidão infinita do cosmo, embora a analogia entre o mar e o espaço sideral seja recorrente em muitas obras.

Uma missão espacial é lançada da Terra até a estrela Betelgeuse, a belíssima supergigante vermelha, visível a olho nu, como a alfa da Constelação de Órion, situada há aproximadamente 720 anos-luz da Terra – no livro a distância é cravada em 300 anos-luz. Devido aos efeitos de dilatação temporal, provocado pela proximidade da velocidade da luz, os três astronautas chegam ao seu destino como se poucos anos tivessem passado para eles, e três séculos para os habitantes do nosso planeta.

No filme, os astronautas são militares (três homens e uma mulher) e no livro, civis: um cientista, seu assistente e um jornalista. Por comparação, me parece mais plausível a mudança realizada na versão cinematográfica. Ao chegarem a um dos planetas de Betelgeuse, nomeado por eles de Soror (irmã em latim), são surpreendidos ao descobrirem uma linda mulher, Nova – tal qual no filme –, e sua tribo de humanos.

Basicamente, a partir deste encontro os principais acontecimentos são reproduzidos na adaptação para o cinema, embora neste caso, como é de se esperar, com algumas diferenças e mais ação: os humanos são selvagens e não falam; a nave é perdida; muitos humanos são mortos ou capturados por um pelotão de gorilas fortemente armados, e levados à cidade símia, onde são enjaulados para servirem em experiências biológicas. É aqui que Ulysse Mèrou, o jornalista – equivalente ao Capitão Taylor do filme –, também capturado, conhece o casal de chimpanzés Zira e Cornelius, cientistas com a mente mais aberta em relação aos humanos. E o destino dos seus companheiros é semelhante ao do filme: um morre no confronto com os gorilas e o outro é lobotimizado e se torna tão estúpido como os nativos.

Um ponto interessante do livro é a descrição mais apurada da sociedade símia, que no filme é mostrado de forma superficial. Os macacos racionais e civilizados dividem-se em três espécies, cada uma funções específicas no interior da organização social e política. Os orangotangos representam os políticos e os religiosos, ou seja, os setores mais conservadores, responsáveis também pela educação pública; os gorilas são aqueles que exercem as tarefas de segurança e trabalhos mais brutos; e os chimpanzés são os equivalentes aos cientistas e profissionais liberais, setores de classe média com uma visão mais liberal e progressista, e com menos poder de decisão frente aos orangotangos e gorilas. No passado distante, os gorilas governaram com mão de ferro, e houve uma guerra para a libertação da tirania. Com a paz, foi estabelecido este equilíbrio de poderes e funções que, até certo ponto, revelou-se bem-sucedido.



Ulysse é visto com curiosidade, perplexidade e, finalmente, como uma ameaça à civilização símia, especialmente depois de Cornelius descobrir as ruínas de uma cidade construída pelos humanos num passado de milhares de anos, e do nascimento de um menino, a partir de seu relacionamento com Nova.

Descobre-se ainda que houve um processo evolutivo invertido em Soror pois, assim como na Terra, a civilização dominante e única era a humana, que subjugava os macacos. Contudo, devido a uma espécie de doença chamada de “preguiça cerebral” (!) a humanidade foi perdendo sua resiliência e discernimento racional, ao mesmo tempo que os macacos aumentaram sua capacidade de imitar as caraterísticas humanas. Desta forma, houve uma inversão, com o macacos se tornando inteligentes, conscientes de si e racionais e os humanos decaindo para uma condição irracional, a ponto de perderem a linguagem e sua capacidade de comunicação. Ao que parece, Pierre Boulle está a defender uma tese aqui, mas o argumento é apresentado de forma muito ligeira e incompleta. Afinal o que aconteceu com a humanidade de Soror? Que espécie de apatia, torpor, “preguiça cerebral” é esta? Uma doença, por certo. Mas não ficou claro.

A explicação, como se sabe, virá com a série de cinco filmes realizados entre 1968 e 1973 (e uma segunda extrapolação na série revisionista nos quatro filmes entre 2001 e 2017), no qual, grosso modo, a inteligência dos macacos é revelada a partir da fuga de alguns macacos após a explosão da Terra. Eles voltam no tempo e, entre outras consequências, se estabelece o costume de usar os macacos para trabalhos braçais e animais de estimação, depois de uma praga exterminar os cães e gatos. Seguem-se guerras, até que os primatas antropoides assumem o poder sobre seus antigos senhores. Na primeira versão cinematográfica está presente também uma contribuição relevante, ausente no livro, a da chamada Zona Proibida, uma região inabitável por conter resíduos radioativos advindos de um holocausto nuclear. Os chimpanzés, como Cornelius, intuem o que poderia ter provocado esta situação, mas o domínio do saber e da tradição controlado pelos orangotangos, impede o reconhecimento e divulgação do conhecimento. Em todo este desdobramento da primeira série no cinema, há uma vinculação central entre o contexto da Guerra Fria e as possíveis consequências da corrida nuclear.

No primeiro filme, a preservação que o Dr. Zaius, o líder dos orangotangos, ministro da Ciência e da Fé, faz da verdadeira origem dos macacos a partir da queda dos humanos tem um forte componente religioso, enfatizando a dicotomia entre o dogma da crença e a busca livre do conhecimento, só possível através da ciência. Corolário aqui é a discussão entre uma tendência criacionista, da tradição, contra uma evolutiva, da mudança.

Outro aspecto com o qual a obra costuma ser interpretada é de uma metáfora com o imperialismo europeu e, além disso, com o racismo, em especial aqueles historicamente praticados contra os negros. Mostrando uma situação de inversão do domínio branco e ocidental, haveria uma crítica à exploração, discriminação e violência. Mas creio que estas visões tenham sido mais vinculadas à época em que o livro foi escrito e, especialmente, quando do lançamento do primeiro filme, pois vivia-se os últimos anos das disputas por emancipação de colônias na África e à vigorosa emergência da luta pelos direitos civis, em especial nos Estados Unidos. Não que o racismo tenha diminuído, mas é que me pareceu que a interpretação evolucionista tenha ficado mais evidente ao ler a obra, levando em conta também o aspecto do relacionamento abusivo com relação aos animais, em especial com os grandes macacos, nosso parente mais próximo.

O livro é narrado com fluidez e segurança, embora curto, poderia ser mais longo, mostrando o bom escritor que Boulle foi. Este clássico da FC rendeu duas edições no Brasil. Esta com o qual escrevi esta resenha e uma mais recente, da Editora Aleph, de 2015, caprichada, com a inclusão de entrevistas com o autor e artigo de Braulio Tavares – recebeu uma segunda edição em 2019. Mas antes, em Portugal, foram lançadas edições, como as das editoras Ulisseia, Círculo de Leitores e Livros Unibolso, nas décadas de 1960 e 1970. Verdadeiras raridades, das quais tenho a fortuna de ter uma delas, a da Ulisseia, publicada em 1974.

Se o livro e o filme tem estruturas semelhantes, o final difere bastante. No romance, Ulysse, Nova e seu filho Sirius conseguem, com a ajuda de Zira e Cornelius, voltar à Terra, enquanto o filme mostra que, na verdade, devido a uma falha de navegação na trajetória da nave, eles pousaram, sem saber, na própria Terra, milhares de anos depois, dominada por uma civilização de macacos. Nada supera o impacto da cena final do filme, com Charlton Heston (Taylor) descobrindo a verdade chocante ao encontrar a cabeça da Estátua da Liberdade. É um dos momentos mais icônicos e impactantes da história do cinema. Mas o livro, em si, por tudo que comentei, nada deve à adaptação – que inclusive contou com a colaboração no roteiro do próprio Boulle, assim como nos filmes posteriores dos anos 1970 –, e também reserva no final, ao seu modo, uma surpresa de causar espanto.

Marcello Simão Branco


sábado, 22 de maio de 2021

Crônicas da Estrela de Clarke

Crônicas da Estrela de Clarke, Geraldo Boz Junior. 264 páginas. Curitiba: Editora do Gera, 2020.



Num futuro distante a Terra envia sondas ao espaço para a colonização humana em algum planeta longínquo. Na verdade para vários deles, pois muitas sondas são lançadas, contendo embriões humanos para nascerem e viverem – por meio de mecanismos de engenharia nanorrobótica – em outros cantos do universo. Uma destas sondas, ao se aproximar da estrela Clarke, é abalroada por um meteorito e desvia sua rota – prevista para um planeta desabitado – e aterrissa num outro não previsto.

Esta é a premissa inicial do romance Crônicas da Estrela de Clarke, escrito pelo paranaense Geraldo Boz Junior. Mas, a partir da descida no planeta, que recebe o nome de Lukin – olho numa língua antiga da Terra – terá um desdobramento híbrido, digamos, em termos temáticos. Isso porque, conforme as duas inteligências artificiais (Ias) embutidas no interior da sonda – Marki e Alissa – descobrirão, Lukin já é habitado. Os seres são da espécie yampona, humanoides que construiram uma civilização semelhante à da Europa da Idade Média, com vários reinos e feudos, embora esteja ausente uma disputa entre poderes temporais e divinos, já que os povos não cultuam deuses, mas apenas uma ligação com algo semelhante ao sobrenatural, na condição de supostos poderes telepáticos. O detalhe fantástico é que eles convivem – de forma nada amistosa – com o principal predador do planeta, o dragão. O animal, contudo, não tem uma função assessoria na trama, mas, como o leitor constatará, se insere dentro do contexto político entre os reinos.

Com a descoberta da presença dos yampona, a missão de colonização humana fica em xeque, pois se efetivada certamente poderá mudar de forma irreversível o desenvolvimento e o destino dos nativos. Há uma forte controvérsia entre as duas Ias da sonda: Alissa contrária à colonização, e Mark a favor. Pouco a pouco, por meio do contato com Noah, um velho mercador perdido numa ilha distante, após ser raptado por um dragão, as duas Ias irão repensar seus argumentos sobre o que fazer.

O romance é muito movimentado, com uma prosa leve e bons diálogos, e os capítulos se alternam entre o contato de Mark e Alissa com Noah, e a guerra que ocorre entre os reinos de Mawan e Akkessilawa. O primeiro formado pelos boas-pessoas, pacíficos e com uma organização política anarquista, contrastados pelos cavaleiros do outro reino, guerreiros de uma ordem monárquica e ditatorial. São chamados de “parasitas” pelos boas-pessoas, pois eles não ocupam permanentemente os territórios que agridem, mas apenas saqueiam os pertences dos outros, principalmente os alimentos. Nima, neto de Noah, elabora um plano para expulsar os parasitas e, assim, se desenrola uma violenta guerra entre os reinos, no qual à força de um se contrapõe a estratégia do outro.

Como é inevitável em histórias deste tipo, em algum momento as duas narrativas irão convergir e se tornar uma só. Então, um romance que se anuncia como de FC hard acaba por se desenvolver como de fantasia heroica medieval. Em certo sentido, pode frustrar as expectativas de quem esperava uma história de colonização humana, mas o autor é competente em manter o interesse próprio do enredo, tornando esta mistura surpreendente, interessante.

Em todo caso, há uma clara inspiração em Arthur C. Clarke (1917-2008), a começar pelo nome do livro e, também por lembrar um de seus romances, A Canção da Terra Distante (The Songs of Distant Earth) (1986), em que também uma nave de gerações com milhares de pessoas chega num planeta há milhares de anos-luz da Terra, de forma inesperada e imprevista. Mas neste romance, o contexto é de FC o tempo todo, principalmente na dicotomia entre os valores da civilização terrestre e do povo nativo de Thalassa, enquanto que nas Crônicas da Estrela de Clarke, os conflitos são internos aos povos do próprio planeta Lukin.

As Crônicas da Estrela de Clarke é complementado por adendos, contendo explicações sobre os povos e reinos de Lukin, as características físicas e atmosféricas do planeta, da tecnologia de viagem espacial com inteligências artificiais, os aspectos culturais e linguísticos dos povos nativos, além de mapas com a geografia do planeta.

Recebi este livro por iniciativa do próprio autor, que o publicou com recursos próprios em formato digital. Já é o terceiro de sua carreira, os dois anteriores são A Virtuonírica Mundial, dividido em dois volumes: 1 – Origens e 2 – Entrementes – (2015), e Absolutos (2017) – também publicados com recursos próprios e vendidos em livrarias online. Ambos tem um conteúdo de FC mais explícito, o primeiro sobre os efeitos que uma tecnologia de comunicação onírica provoca, ao permitir a visualização e interação com os sonhos; e o segundo sobre a descoberta de um artefato misterioso na Lua.

Como se vê, Geraldo Boz Junior tem boas ideias e, em particular neste romance resenhado, demonstra capacidade de manter o interesse do leitor, com uma história criativa e cheia de surpresas, eivado ainda de situações de humor e com um senso naive que remonta às aventuras pulp das primeiras décadas da FC norte-americana do século passado. O que indica que este livro tem seu público leitor voltado, principalmente, ao segmento infanto-juvenil. Vale a pena ser conhecido, e sugiro ao autor que procure uma editora para publicar o livro de forma impressa. Vai chegar a mais leitores e valorizar a obra enquanto criação literária.

Marcello Simão Branco

sábado, 24 de abril de 2021

Lotófagos

Lotófagos (The Lotus Eaters), Stanley G. Weinbaum. Tradução de Ivan Carlos Regina. 18 páginas. Publicado originalmente em 1935.



Em uma discussão recente num grupo de leitores de FC no whatsapp surgiu o tema dos escritores talentosos, mas que andam esquecidos. Entre outros, foi citado o nome de Stanley G. Weinbaum (1902-1935), por meio da lembrança do escritor Ivan Carlos Regina. Depois que ele descobriu que ninguém havia lido a noveleta “Lotófagos”, Regina resolveu fazer uma tradução pessoal e colocar à disposição dos fãs. E é neste contexto que me surgiu a oportunidade de ler esta história.

Lotófagos” é uma sequência do conto “Parasite Planet” (1935), no qual são apresentados o engenheiro Hamilton “Ham” Hammond e a bióloga Patricia Burlingame. Mas é uma ligação tênue que não prejudica o interesse em ler a noveleta em questão. Depois de se casarem em Vênus, Ham e Patricia saem a explorar o lado oculto do planeta, já que teriam de esperar oito meses para que Vênus ficasse a uma distância mínima que permitisse a viagem para a Terra, onde iriam passar sua lua de mel.

Filha de um cientista famoso, ela seguiu as pesquisas do pai e o passeio se converteu numa exploração sobre as possibilidades de encontrar vida na parte escura de Vênus. Após se depararem com fungos, acham os triops noctivivans, uma espécie semelhante aos morcegos, muito agresssivos e que se alimentam de uma planta que se move e se refugia em cavernas de gelo. De modo surpreendente uma destas plantas responde a uma dúvida surgida numa conversa do casal que, perplexo, resolve estreitar conhecimentos com esta criatura inusitada.

Mas o mais desconcertante estava por vir, pois os lotófagos, como vegetais, embora capazes de pensamentos altamente complexos, não demonstram medo ou resistência diante de seus predadores, os triops noctivivans. A resignação diante do seu destino em servir de comida e ter, por fim, a espécie extinta, deixa o casal chocado, especialmente a bióloga.

Eles já haviam percebido que os lotófagos falam por todos, ou seja, ao falar com um, pode-se continuar a mesma conversa com outro, como se tivesse uma memória coletiva. Para facilitar, são chamados de Oscar e, aos poucos, além destes fatos, eles descobrem que não é bem por serem vegetais que os lotófagos não tem razão para reagir. Mas sim por causa dos efeitos do seu processo reprodutivo, por uma espécie de replicação do próprio corpo, do qual emana uma droga que os torna passivos e conformados. Isso não era um problema antes da chegada dos predadores a esta região do planeta, ocorrida há poucas décadas, sem dar tempo, portanto, para que houvesse um processo de adaptação evolutiva que os pudesse permitir lutar para sobreviver.

É uma noveleta extremamente bem narrada e elaborada em seus argumentos, basicamente racionais e dedutivos. Mostra uma outra forma de inteligência, soando mesmo como não humana em sua forma de pensar e exprimir compreensão da realidade. Este é, seguramente, um dos desafios mais difíceis de serem obtidos na FC: criar uma forma de inteligência alienígena que se pareça realmente alienígena, e não uma emulação ou variação da estrutura de pensamento e comportamento humano.

Lotófagos” é uma joia rara, publicada na edição de julho de 1935 da revista Astounding Science Fiction, e só reafirma a surpreendente maturidade temática e narrativa para um autor tão jovem. Esta história, na verdade, já foi publicada em Portugal na antologia Obras-Primas da Ficção Científica, Volume 2, organizada por Sam Moskowitz para a Galeria Panorama, no final dos anos 1960. E eu já conhecia sua obra através do seu ótimo romance O Novo Adão (The New Adam) publicado na mesma Panorama, em sua Coleção Antecipação no. 37 –, e a noveleta “A Odisseia Marciana” (“The Martian Odissey”, 1934) – publicada duas vezes no Brasil, a primeira na antologia … Para Onde Vamos? (Where do We Go rom Here?), organizada por Isaac Asimov, Editora Hemus, e na antologia Ficção de Polpa no. 2, organizada por Samir Machado de Machado, Não Editora, 2008. E também saiu no Brasil a noveleta A Pirata Espacial (“The Red Pery”; 1935), pela Editora M&C – Coleção Império, 1998.

O Novo Adão trata dos impactos do que ocorreria se surgisse um ser humano acima de nossa escala evolutiva, quase como um super homem. Weinbaum explora a premissa de forma realista, mostrando como sua inteligência superior não levaria, necessariamente, a uma vida melhor para ele e nem para os demais. Já A Odisseia Marciana é uma história pioneira por mostrar de forma verossímil um alienígena pacífico e inteligente, contrário do padrão imaginado nas histórias da época. É, talvez, o seu trabalho mais influente na ficção científica. Para completar o quarteto de histórias publicadas em língua portuguesa, A Pirata Espacial gira torno de uma misteriosa nave rebelde que rapina outras naves e planetas. Mas ao chegar a Plutão se depara com um desafio inesperado, ante a presença de um aventureiro destemido. O leitor deve ter reparado que suas histórias curtas se passam em planetas. Pois assim foi, já que ele escreveu contos em todos os planetas do Sistema Solar.

Com uma obra nem tão pequena em tão pouco tempo de vida: quatro romances e 16 contos e noveletas – e escritas em apenas dezoito meses –, Weinbaum aliou não só ideias ousadas e de subversão aos clichês, mas as desenvolveu com uma complexidade que impressiona ainda hoje. Seguramente, foi uma das maiores perdas para a história da FC, com sua morte precoce, aos 33 anos, de câncer no pulmão. Weinbaum despontava como um autor muito acima da média e é de se pensar o impacto que poderia ter causado no desenvolvimento posterior do gênero, caso tivesse vivido uma vida longa e produtiva.

Vários autores que têm entrado em domínio público estão sendo publicados (e republicados) nos últimos anos, com o avançar do século XXI. Mas um autor como Weinbaum, absolutamente original e precioso, precisa ser praticamente descoberto no Brasil. Fica a sugestão enfática para que alguma editora um pouco mais atenta e sensível, o publique novamente. Um autor com voz e ideias próprias que certamente faria a diferença na imaginação dos leitores.

Marcello Simão Branco


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Cowboy Bebop, um seriado diferente

Anuncia-se para 2021 uma versão cinematográfica em imagem real para Cowboy Bebop. Em princípio é uma boa notícia, considerando que a série original é extraordinária e deixou muitas pontas soltas, com um final até certo ponto decepcionante.
O seriado, dirigido por Shinishiro Watanabe (Estúdio Sunrise), consta de 26 episódios produzidos entre 1998 e 1999. Seguiu-se o mangá, desenhado por Hajime Yatate e que totalizou três volumes – saiu de 1999 a 2000. Finalmente, em 2001, Watanabe dirigiu um OVA de longa-metragem, Cowboy Bebop: Tengoku no tobira.
Infelizmente, o mangá e o filme longo apenas contam novos episódios avulsos, que nada acrescentam ao capítulo 26 do seriado, ou seja, não avançam com a saga ali bruscamente interrompida.
Os personagens são poucos e o argumento muito interessante. É como se fosse um faroeste cósmico: os “cowboys” são caçadores de recompensas, que procuram criminosos com a cabeça a prêmio. A Bebop é uma nave onde viajam três deles: Spike Spiegel (ex-gangster da máfia chinesa “Dragão Vermelho”), Jet Black (ex-policial, com um braço mecânico) e Faye Valentine (cujo passado é misterioso). Ainda aparecem na Bebop o cachorro Ein, que é muito inteligente, e a excêntrica “haker” Ed, de treze anos.
O nome “Ein”, por sinal, é uma abreviação de Einstein — para dar uma ideia da inteligência do cachorro. Quanto a Ed., a seu modo também é inteligentíssima, inigualável num computador, apesar de sua aparência desmazelada de “hyppie” e só andar descalça.
Sem embargo da comicidade de diversos episódios, a história tem uma raiz altamente dramática e um desfecho trágico. É uma história de crime, paixão e vingança, envolvendo um amor frustrado e um caso mal resolvido. Cínico, cético, Spike Spiegel já se considera morto e, por isso, liga pouco para a vida. Jet Black também tem um passado doloroso como policial, algo que lhe valeu a perda do braço. Quanto a Faye, que veio depois, é um caso curioso: atingida pelos cataclismos que vitimaram a Terra, planeta agora praticamente abandonado, foi levada em coma a Marte e permaneceu congelada por 54 anos, sendo resgatada sem ter envelhecido além dos 23 anos que tinha. Mas já foi acordada com o hospital cobrando os 54 anos de internação sem que ela pudesse pagar, tornando-se assim a pessoa mais endividada do Sistema Solar.
É uma série que vale a pena assistir por seu dinamismo e criatividade.

— Miguel Carqueija
Resenha iniciada em 7 de novembro de 2010 e somente completada em 12 de abril de 2021.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Conto: "O Capitão Barbosa e o Chimuti"

    Acompanhado por seu imediato Zé Peroba, o Capitão Barbosa caminhava célere por um dos corredores de Heliópolis, a estação interplanetária situada para além da nuvem de Oort e que era frequentada por diversas raças cósmicas.
    Barbosa estava apressado, pois queria ir numa feira de mangás e animês que funcionava no nível 6. Em poucas horas teria de retornar à Terra.
    De repente, pelo corredor em que ele seguia, vieram pela direção oposta dois sujeitos altos, escaniçados e ostentando antenas flexíveis. Eram dois chimutis, do planeta Chimutino, e por seus uniformes e insígnias dava para perceber que um deles era capitão e o outro imediato — portanto as mesmas categorias de Barbosa e Zé Peroba.
    Eles estacaram, todos os quatro, bem defronte uns dos outros.
    Surgiu um impasse: os terrestres seguiam pela direita, como é hábito na Terra; os chimutis, porém, como é hábito em seu planeta, seguiam pela esquerda.
    — Droga! Outra vez problemas entre a esquerda e a direita! — resmungou o Capitão Barbosa.
    — Choputiski Ypikusti! — falou o capitão chimuti, em tom bem arrogante.
    — Prezado senhor, a direita é minha — respondeu Barbosa com firmeza.
    — Mahulinski oritopis! Chopiltiski ypikasti, alolei matinsky!
    — Impossível! Pelas regras do meu planeta, nós temos direito à direita!
    — Prahatús pajutios! Hinski! Hinski!
    — Capitão — arriscou timidamente o Zé Peroba — o senhor está entendendo alguma coisa?
    — Bulufas! Mas não é por isso que eu vou entregar os pontos!
    O imediato chimuti segredou qualquer coisa ao seu capitão, que deu de ombros.
    — Prezado senhor — insistiu Barbosa — o senhor tem que nos ceder a direita.
    — Capitão — interveio o Zé Peroba, enquanto os outros dois confabulavam — todo mundo está contornando a gente, sem ligar...
    — Cala a boca, Zé Peroba! Quando eu precisar da sua opinião eu peço! E o senhor, comandante chimuti, não vai querer criar um incidente interplanetário! Além do mais eu não vou querer perder a feira de mangás e animês!
    — Abdul ormatininski paafraim! Yhikut! Ypahust!
    — Ypahust para você também! Faça o favor de nos ceder a direita!
    — Lebrankoviski bestakoviski! Lolabrapia nujolinski! Alalá! Alalá!
    — Não tem nada lá, não! Vamos resolver é aqui!
    — Capitão Barbosa — e o Zé Peroba ousou tocar-lhe o pulso — esse pessoal usa a esquerda, alguém vai ter que ceder!
    — Pois que não seja eu! A honra da Terra está em jogo!
    — Mas se nós demorarmos muito não teremos tempo para ir na feira dos mangás!
    Diante de argumento tão convincente, o Capitão Barbosa parou e refletiu por bem uns dois segundos.
    — Bem, bem... ora, para não dizerem que eu sou radical e intransigente, capaz até de causar um incidente interplanetário por causa de uma ninharia, abrirei mão do meu direito à direita e a pecha de intransigente ficará com esse nosso amigo. Peroba, como diz o leão da montanha, saída pela esquerda!
    Zé Peroba deu um suspiro de alívio. O que eles não perceberam foi que os dois alienígenas também haviam confabulado rapidamente, pois o motel aonde ia o capitão chimuti tinha hora para fechar, e ele por sua vez patrioticamente e também apressadamente por sua vez abriu mão da esquerda.
    Os quatro se chocaram.
— Miguel Carqueija 
Rio de Janeiro, 19 de julho a 4 de agosto de 2019.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Viajantes no Tempo

Viajantes no Tempo (Voyagers in Time), Robert Silverberg, org. Capa de Luís Campos. Tradução de Eduardo Saló. 193 páginas. Portugal, Alfragide (Damaia): Editorial Panorama, Coleção Antecipação/Antologia no. 2, sem data. Lançamento original em 1967.

Durante alguns anos esta foi, provavelmente, a mais importante antologia de contos sobre viagem no tempo publicada em língua portuguesa. Embora o tema seja dos mais populares no gênero, não foram muitos os volumes de contos publicados no Brasil e em Portugal especificamente sobre o assunto. Em 2016 saiu em nosso país pela Editora Jangada As Melhores Histórias de Viagens no Tempo: Os Contos dos Autores Mais Consagrados da Ficção Científica, organizada por Harry Turtledove e Martin H. Greenberg – ver a resenha aqui. O livro, portentoso em tamanho e variadade temática, buscou realizar uma síntese do que de melhor o subgênero publicou no século XX. Mas, a despeito de ser realmente representativa, curiosamente, não incluiu nenhum dos contos publicados na precursora Viajantes no Tempo.

Em princípio isso poderia sugerir que esta antologia não seja tão boa assim. Mas não. Estamos diante de uma seleta de histórias excepcional e, na média, com qualidade superior à antologia mais recente. Talvez questões como preferências dos organizadores ou dificuldadades de negociação de direitos autorais podem explicar a discrepância.

Viajantes no Tempo foi organizado por Robert Silverberg que, além de ser um dos grandes autores do gênero, é também um reconhecido antologista e colaborador importante no subgênero, tanto em romances como, por exemplo, “Estação dos Exilados” (“Hawksbill Station”) (1967) – primeiro publicado como novela também em 1967 –, como nas duas histórias publicadas em ambas as antologias. Nesta com “Absolutamente Inflexível” (“Absolutely Inflexible”) (1956) e na outra com “Rumo a Bizâncio” (“Sailing to Byzantium”) (1985).

Silverberg escolheu onze histórias entre as décadas de 1930 e 1960 e para concluir o livro um excerto dos dois capítulos finais do clássico A Máquina do Tempo (The Time Machine) (1895), de H. G. Wells (1866-1946), quando o viajante do tempo acelera a máquina em direção a um futuro longinquo, num dos momentos mais inspirados de toda a ficção científica. Puro sense of wonder.

Mas a história que abre a antologia também é das melhores. Trata-se de “As Areias do Tempo” (“The Sands of Time”) (1937), de P. Schuyler Miller (1912-1974), um autor muito promissor, mas que terminou por se destacar como crítico do gênero nos anos 1950 e 1960. Um físico mostra a um paleontólogo provas de que viajou 60 milhões de anos, no período Cretácio, e esteve com dinossauros. Cético a princípio, o paleontólogo descobre que Donovan, o físico, tem uma máquina do tempo – em forma de ovo – e pretende voltar novamente. Mas desta viagem acontecimentos fantásticos surgem. Donovan encontra seres humanoides, provavelmente de outro planeta, altamente avançados mas que, devido ao fato dele se recusar a se juntar a eles e se afeiçoar à mulher do grupo, passa a ser perseguido com ela. Só um pode embarcar na máquina, estabelecendo um dilema de difícil solução. É uma novela de extraordinária inventividade e força narrativa, com muitos detalhes sobre os dinossauros e os humanoides que encontra num passado remotíssimo. De certa forma lembra o romance A Descronização de Sam Magruder (The Dechronization of Sam Magruder, Science Fiction Roman), do palentólogo George G. Simpson (1902-1984) – embora menos fatalista – e está entre as melhores histórias de viagem no tempo envolvendo dinossauros.

O próximo conto já entrega o tema no título: “Encontro Consigo Próprio” (“… And It Comes Out Here”) (1950), de Lester del Rey (1915-1993). Há uma exploração minuciosa sobre o paradoxo do viajante no tempo que volta ao passado e encontra com seu eu 30 anos mais jovem, para depois voltar ao futuro e de novo ao passado. Como questiona o próprio personagem: “Quem construiu a máquina do tempo?”. Seu eu do passado ou o que veio do futuro? Conto interessante, bem no espírito da Golden Age, de priorizar a ação e o conceito, ao invés de um possível drama existencial sobre a condição do personagem.

De certa forma esta abordagem mais intimista está presente em “Projeto Brooklyn” (“Brooklyn Project”) (1948), de William Tenn (1920-2010). Numa época indefinida um experimento ultra-secreto de um governo envia, ao mesmo tempo, uma esfera metálica ao passado e outra ao futuro. Após uma primeira tentativa descobriu-se que a Terceira Lei de Newton (para a massa em movimento) também se aplica à viagem no tempo. Ou seja, ao enviar algo, por exemplo, ao passado, o local da experiência é arremessado a um futuro equivalente! Agora, os cientistas, ao que parece, organizaram a experiência – com fins militares – para evitar possíveis danos e efeitos inesperados. Estipulam que as esferas viajarão em 25 períodos do passado e seus respectivos futuros. Contudo, a cada retorno das esferas a realidade do presente é modificada, inclusive na constituição física e orgânica dos cientistas e jornalistas presentes! Ótimo conto, em que o autor explora mais uma vertente possível dos eventuais efeitos minúsculos que a presença de matéria em outras épocas poderia desencadear, modificando radicalmente o presente. E, ainda por cima, com uma boa dose de humor, que lhe é característico, tornando a narrativa ainda mais saborosa.

A história a seguir é uma das que mais estranhei a ausência na antologia citada acima, que se propõe a ser um cânone do subgênero, pois é das mais antologizadas. E ao contrário do que sugere o título “Os Assassinos de Maomé” (“The Men who Murdered Mohammed”) (1964), de Alfred Bester (1913-1987), não estamos diante de eventuais modificações na História em consequência da morte do criador do islamismo. Ele é apenas um dentre outros personagens históricos que são mortos para aplacar a fúria de um cientista ao ver sua esposa nos braços de outro homem. Isso porque ao matar inicialmente o avô da mulher, ele constata que nada mudou. Ela continua aos beijos com seu amante. Desesperado, procede então aos assassinatos de figuras conhecidas da História.

Em tom jocoso e irônico, Bester especula que cada indivíduo tem sua própria história particular, não adiantando interferir na linha temporal, em tese, comum a todos. De certo modo é como se cada ser vivente habitasse num espaço-tempo próprio, um universo só seu, mas que compartilharia as diversas experiências particulares com outros indivíduos. Que ideia desconcertante! Imagine se for possível uma realidade como esta. E em certo sentido não sabemos pois, afinal, ninguém voltou no tempo e nos contou como foi.

Já a próxima história aborda o tema da criogenia e é curioso, pois não estamos diante de uma história de viagem no tempo convencional, mas de um renascimento num futuro indefinido. É o que nos conta Poul Anderson (1926-2001) em “O Tempo Cura” (“Time Heals”) (1949). O período para despertar é quando a medicina tenha evoluído para a cura da doença, no caso o câncer. Em seus estágio finais da enfermidade Hart se submete à experiência. Entra num casulo hermeticamente fechado, é congelado e quase instantâneamente desperta. É informado pelo médico do futuro que está no ano 2941, novecentos anos à frente! Mas seu entusiamo aos poucos é desestimulado. Sim, é curado, mas após passar por uma série de exames e testes psicológicos, ele percebe que a sociedade desta época não sabe como integrá-lo socialmente. Não há mais liberdade individual, o controle é a norma. Vem menos do Estado – que formalmente não existe mais – mas do conceito de grupos sociais com as mesmas afinidades e aptidões. Tudo gira em torno do pertencimento a grupos que são quase auto-suficientes, pois não há mais família e formas de expressar a iniciativa e a consciência própria. Hart teve curada a sua doença orgânica, mas não tendo mais como se adaptar a um novo mundo, percebeu que, talvez, seu sonho tenha sido uma quimera. Excelente história de FC, em que o tom de crítica social sobre a identidade e as diferenças de valores chega a questionar até o nosso limite para que continuemos a nos considerar humanos.

Larry Niven é o autor da próxima história “Rua de Sentido Único” (“Wrong-Way Street”) (1965). Em 1985 foi descoberta uma base alienígena na Lua, permitindo a colonização. Atuando em pesquisas por lá, o físico Myke Capoferri aciona de forma acidental uma máquina e some, para descobrir que voltou ao passado. É um conto de teor fatalista, pois o personagem não sabe como voltar, já que não conhece como o artefato funciona. Mas a história ainda reserva uma revelação sobre os alienígenas. De certa forma, houve uma certa indefinição sobre o eixo principal, se é a viagem no tempo ou a civilização extraterrestre, o que enfraqueceu o conto.

A história seginte ocorre num contexto político bastante sombrio. É “Fluxo” (“Flux”) (1963), de Michael Moorcock. Num futuro próximo a Europa enfrenta uma crise econômica grave em decorrência da superpopulação. Um cientista é, então, enviado numa máquina do tempo para dez anos à frente, com o objetivo de trazer respostas ao problema que ameaça o Velho Mundo numa guerra civil. Ao chegar ao seu destino Max File encontra o continente sob as ruínas de uma guerra que queria evitar. Ao tentar regressar, o aparelho aparentemente acelera, pois File vai encontrar a Terra habitada por lagartos falantes e uma atmosfera tóxica. Contudo, não era bem isso, pois o tempo não segue um fluxo contínuo, mas sim aleatório, com vários caminhos e realidades possíveis. É uma ótima história, que dialoga com a de Alfred Bester, e talvez pudesse render mais se desenvolvida no tamanho de um romance, tais são as possibilidades abertas com premissa tão perturbadora.

Na sequência vem o conto “Alarme na Bolsa” (“Dominoes”) (1953), de Cyril M. Kornbluth (1923-1958). Um dos maiores financistas de Nova York encomenda a um cientista a construção de uma máquina do tempo. Não pretende subsidiar o conhecimento científico, tem um interesse puramente financeiro. Will Born, então, viaja dois anos no futuro para conhecer que ações estariam mais valorizadas e lucrar com isso em sua época. Mas os efeitos se revelam surpreendentes para os seus lucros e os negócios de toda a bolsa de valores. É um conto bem narrado sobre a velha máxima: “cuidado com o que você deseja, pois você pode conseguir”. Mas no caso em questão, os resultados não são compensadores.

O que de certa forma também ocorre com os resultados da experiência revelada no conto “Boletim do Conselho de Administração do Instituto de Pesquisas Avançadas, em Marmouth, Massachusets” (“A Bulletin from the Trustees of the Institute for the Advanced Research at Marmouth, Mass.”) (1964), de Wilma Shore (1913-2006). O conto se refere a uma gravação achada nos arquivos de um instituto de pesquisa, com uma entrevista realizada por um dos seus cientistas – recentemente falecido – com um homem do futuro. Então, por meio dela, os demais pesquisadores ficam a saber da experiência. Mas, assim como o Dr. Gerber – o cientista que fez a pesquisa – pouco se descobre sobre o futuro em 2061, porque o viajante trazido ao passado mostra-se estranhamente evasivo e alheio sobre as perguntas a respeito dos mais diferentes assuntos de sua época.

Depois destas histórias mais curiosas do que propriamente instigantes, o nível volta a subir com o conto “O Repouso do Viajante” (“Traveler´s Rest’), de David I. Masson (1915-2007). Um planeta vive sob uma guerra intensa há muitos anos. O soldado H é ferido numa batalha e recebe baixa. Recomeça a vida como civil, casa, tem filhos, abre um pequeno negócio bem-sucedido mas, anos depois, é reconvocado. Contado assim não sugere uma história de viagem no tempo, mas o caso é que o planeta existe com faixas variadas de tempo, de acordo com a latitude. Pode-se ir ou voltar, sentir contagens de tempo diferentes, mas, ao que parece, o caos é, de alguma forma, sublimado por causa da intensidade da guerra. Como o próprio protagonista vai intuir após voltar ao serviço ativo nem se sabe ao certo quem é o inimigo. Será mesmo que existe um? O conto tem muitas sutilezas – entre elas, a mudança do nome do personagem a cada mudança no curso do tempo –, que só lendo com atenção se apreende. Uma história notável, não por acaso incluída também na antologia World´s Best Science Fiction 1966, editada por Terry Carr e Donald A. Wolheim.

Robert Silverberg, o organizador do livro, comparece com “Absolutamente Inflexível” (“Absolutely Inflexible”) (1956). Eu já havia resenhado este conto quando escrevi o livro Os Mundos Abertos de Robert Silverberg (Edições Hiperespaço, 2004), e nesta nova leitura minha impressão não difere da primeira experiência. Assim sendo, reproduzo aqui o que escrevi na época.

No século XVIII os viajantes que sempre vem do passado são detidos e enviados para uma prisão perpétua na Lua. E a razão é que eles podem contaminar a população desta época, visto que há 200 anos todas as doenças acabaram eliminando a imunidade das pessoas. A narrativa se centra em Mahler, a figura responsável por encaminhar os viajantes. Até que aparece um deles que diz ter viajado numa máquina bidirecional, que viaja para o o futuro e o passado. A máquina fica em mãos de Mahler que resolve comprovar a veracidade do artefato. É o tipo de conto com boa premissa, mas que logo é percebida por um leitor mais atento, que advinha o que acontecerá com a história. Isso enfraquece o efeito, ainda que o desfecho seja dos mais instigantes.

Viajantes no Tempo foi o segundo volume publicado numa coleção voltada apenas a antologias, que a Editorial Panorama procurou publicar em paralelo com a coleção tradicional, Antecipação – esta com 67 edições. O número um foi Terrestres e Estranhos (Earthmen and Strangers), originalmente organizada também por Robert Silverberg, mas acrescida de contos de autores portugueses sob a organização de Lima Rodrigues, uma terceira, Obras-Primas da Ficção Científica (Masterpieces of Science Fition) organizada em dois volumes por Sam Moskowitz.1

Após a leitura destas histórias fica claro que o tema da viagem no tempo é quase que inesgotável em suas possibilidades de comentário social e exploração dos seus paradoxos. Talvez seja por estas razões que o subgênero seja tão popular entre os leitores e dos mais praticados entre os escritores. E neste livro em particular a seleção das histórias deixa isso muito claro. Pode ser difícil de achar em sebos, mas se o leitor ficou interessado vale a pena procurar. Terá em mãos uma amostra de alta qualidade sobre um tema tão fascinante

Marcello Simão Branco

1 Segundo Caio Luiz Cardoso Sampaio em sua coluna “Colecionando”, do fanzine Somnium, no. 36, dezembro de 1988, teriam sido publicadas mais quatro edições, mas sem confirmação. Mesmo uma pesquisa na internet não solucionou a dúvida.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Degelo em 2157

Degelo em 2157 (La Peur Géante), Stefan Wul. Tradução de André Varga. Capa de Lima de Freitas. 155 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 76, 1963. Lançado originalmente em 1957.


   Em 2157 um estranho fenômeno físico aparece. A água não congela mais a zero grau centígrado, mas cada vez a temperaturas mais negativas.

Bruno Daix, um engenheiro, é designado pelo chefe de uma empresa de refrigeradores em que trabalha, para ir até Paris investigar o caso com um eminente cientista. Mas este fenômeno foi apenas um prenúncio para a catástrofe que se seguiu. Toda a superfície da Terra foi invadida por maremotos gigantescos, provocados pelo derretimento súbito das calotas polares. Em especial o hemisfério norte ficou quase todo abaixo dos oceanos que subiram em ondas de quilômetros de altura.

Contudo, no século XXII, parte importante da afluência econômica se situa na África, principalmente do centro para o norte. É nesta região que se situa Afrança, um dos países mais poderosos, que é de onde Bruno Daix partiu, mais precisamente da capital In Salah.

No romance anterior de Wul, Missão em Sidar (Rayouns por Sidar) – resenhado aqui –, já havia sido mostrado que o personagem principal, Lorrain, também era um afrancês. E isso em 2023, quando a história acontece. Mas Wul não deu nenhuma explicação do que significava este prefixo junto à nacionalidade francesa. Pois bem. Afrança é a extensão do território francês pelo continente africano, tomando todo o Magreb e o Sahara, a partir da presença do país em sua colônia original, a Argélia. Wul sugere, então, que a presença imperialista francesa não apenas iria permanecer, mas se expandir, transformando a região numa das mais prósperas do planeta, em que triunfaria a francofonia. Assim, ao longo do livro, Wul expõe com detalhes este novo país de 500 milhões de habitantes, com cerca de dez vezes mais a população francesa dos anos 1950. Pelo exposto, portanto, Wul teria sido um defensor da manutenção da ocupação de seu país na Argélia, que tinha na época um vigoroso processo de resistência que, por fim, permitiu sua emancipação em 1962.

De volta a 2157 – aliás o título da Argonauta é bem melhor que o original, em português “medo gigante” –, em meio à catástrofe marítima Afrança se torna a nação que irá liderar um processo de recuperação econômica e militar, pois eis que surge no céu, logo após os tsunamis, dezenas de discos voadores ao redor do mundo.

Com isso, sai de cena a primeira hipótese de um colapso climático. A Terra teria sofrido uma invasão extraterrestre? Rapidamente se descobre que não, pois as naves vem, na verdade, do fundo dos mares. Sim, uma civilização aquática inteligente resolveu provocar a subida das águas para ocupar e dominar por inteiro o planeta, como reação radical à super exploração dos oceanos e redução dos habitats das espécies marinhas, pela caça, seca progressiva e poluição generalizada. De certa forma, há ecos do clássico A Guerra das Salamandras (War with the Newts) (1937), de Karel Capek.

Bruno Daix irá fazer parte dos esforços de reação militar – na condição de engenheiro e campeão de natação na juventude – adentrando num exército multinacional, que irá tentar revidar o ataque desfechado pelos torpedos, os seres aquáticos inteligentes, semelhantes às arraias.

Boa parte da história se move, então, nos preparativos para a reação bélica aos torpedos. Neste processo, alguns são capturados vivos e alguns linguistas são convocados para tentar decifrar alguma forma de comunicação com eles. Mas é Ki-Sien Tchei, a namorada de Daix, uma jornalista chinesa poliglota que descobrirá que os torpedos se comunicam por meio de impulsos magnéticos. Aqui é uma pena que o autor não desenvolveu mais a questão, pois não é feita nenhuma tentativa de diálogo com os seres.

Após o contato com os torpedos é mostrada uma cidade submarina, aos olhos de Bruno Daix, mas já com os torpedos mortos, pois a forma encontrada para derrotá-los não foi por meio de ações militares convencionais, mas sim pela criação de um vírus que foi inserido nas algas com as quais os inimigos se alimentavam.

Do conflito não se partiu para alguma forma de entendimento, ou troca de conhecimentos, uma perda para a humanidade e para a própria história, pois, como Wul mostra de forma superficial, os torpedos tinham uma tecnologia tão ou mais avançada que a espécie inteligente da superfície terrestre, com sua capacidade de mudar as características físicas da água, sua agricultura submarina cidades no fundo do mar e os próprios discos voadores. Mas a ênfase de Wul não se centrou nos detalhes de uma nova civilização, quase que tratando os torpedos como monstros marinhos.

De certa forma, esta opção mais superficial não surpreende, já que Wul se caracteriza por ser um escritor voltado essencialmente à imaginação e ao entretenimento. E, nesse sentido, sempre surpreende. Numa cena em que estão reunidos cientistas de todo o mundo para tentar entender o que são os torpedos, um deles diz que os colegas não deveriam estar tão surpresos porque há apenas alguns anos, haviam sido descobertos diplodocos nas florestas do Mato Grosso! Quando li isso, parei a leitura, pasmo com tal informação. Este é o Wul, que pode desconcertar o leitor a qualquer momento.

De qualquer forma há sim, embutida de forma indireta, uma crítica de Wul às consequências do estilo tecnológico e materialista, ao menos da sociedade ocidental, como já visto em livros anteriores como O Mundo dos Draags (Omns em Série) – resenha aqui – e Pré-História do Futuro (Niourk) – resenha aqui. No primeiro sobre a escravização dos humanos por uma espécie alienígena, e no segundo por causa de uma aniquilação nuclear. Em ambos, e também neste romance, a humanidade reage, como que para recuperar suas energias e valores vitais, que fizeram dela uma civilização, em algum momento, bem sucedida.

Degelo em 2157 é o quarto romance de Stefan Wul, o terceiro publicado na clássica coleção francesa de FC Fleuve Noir e o sexto a sair na coleção Argonauta, de Portugal. Ilustra mais um exemplo da prosa colorida e poderosa do mais pulp dos autores franceses e quicá, europeus, sem receio de apresentar ideias ousadas e desenvolvê-las com muita imaginação.

Marcello Simão Branco