As
Melhores Histórias de Viagens no Tempo: Os Contos dos Autores Mais
Consagrados da Ficção Científica
(The Best Time Travel Stories of the 20th Century), Harry Turtledove
e Martin H. Greenberg, organizadores. Tradução de Gilson César
Cardoso de Sousa. 462 páginas. São Paulo: Editora Jangada, 2016.
Edição original de 2005.

O
tema da viagem no tempo é um dos mais duradouros e clássicos da
ficção científica. Uma de suas primeiras manifestações e a mais
importante, data de 1895 quando H.G. Wells (1866-1946) publicou A
Máquina do Tempo
(The
Time Machine),
talvez seu livro mais influente e que estabeleceu os parâmetros para
uma viagem no tempo a partir de uma ideia científica, conforme
indicada no próprio nome do romance.
Viajamos
no tempo a todo o momento, segundo a segundo, ou à velocidade de 24
horas por dia, como dizia Arthur C. Clarke (1917-2008). Mas num
sentido mais ortodoxo o conceito de viagem no tempo sempre foi
problemático para aqueles que entendem que a ficção científica
deve extrapolar uma possibilidade de desenvolvimento do que é
cientificamente possível. Mas, como mostram estudos teóricos nas
fronteiras do conhecimento, a ideia de se movimentar fora do contínuo
linear de uma seta que vai sempre para frente vem sendo questionado.
Em
todo caso isso nunca atrapalhou aqueles que abordaram o subgênero,
que atravessou todo o século XX apresentando verdadeiras maravilhas
de criatividade e encantamento, especialmente na literatura. Romances
como, entre outros, The
Legion of Time
(1938), de Jack Williamson (1908-2006); A
Luz e as Trevas
(Lest
Darkness Fall)
(1939), de L. Sprague de Camp (1907-2000)
– resenha aqui;
O
Fim da Eternidade
(The
End of Eternity) (1955),
de Isaac Asimov (1920-1992); A
Porta para o Verão
(The
Door into Summer) (1956),
de Robert H. Heinlein (1907-1988), e Tempestade
no Tempo
(Time
Storm)
(1977), de Gordon R. Dickson (1923-2001). Mas também em outras
formas de arte como, por exemplo, no cinema. É só lembrarmos de
filmes seminais como A
Máquina do Tempo
(The
Time Machine) (1960),
adaptação do romance de Wells, dirigida por George Pal (1908-1980);
a série de cinco filmes de O
Planeta dos Macacos
(The
Planet of the Apes) (1968-1973);
Um
Século em 43 Minutos
(Time,
After Time) (1979),
de Nicholas Meyer, e Os
Doze Macacos
(The
Twelve Monkeys) (1996),
de Terry Gillian.
Como
indicado no título da antologia os organizadores pretenderam
oferecer as melhores histórias curtas do gênero escritas durante o
século XX. Tem uma intenção canônica, portanto, de estabelecer as
histórias mais influentes e representativas do subgênero. De fato,
conforme veremos a seguir, temos, senão todas as melhores histórias,
muitas delas. Desta forma, mesmo que algumas tenham ficado de fora,
isso não desmerece o objetivo dos organizadores, porque as histórias
selecionadas são todas muito boas, algumas realmente excepcionais.
O
livro contém 18 relatos, apresentados em ordem cronológica de
publicação. Começa em 1941 e chega até 1989. Percorre, portanto,
o miolo do século XX, não ele inteiro. Por serem textos curtos
foram publicados, em sua grande maioria, nas tradicionais revistas de
FC norte-americanas, de Astounding
Science Fiction até a
Issac Asimov´s Science
Fiction Magazine.
Mesmo assim, a grande maioria não é um conto, mas sim noveletas e
novelas, e conforme os anos avançam as histórias tendem a ficar
mais longas. Talvez uma característica mais de mudanças nos estilos
e gostos literários, do que com o desenvolvimento da temática em
si.
Por
causa da importância da proposta da antologia, ao contrário do que
tenho feito habitualmente, irei resenhar cada uma das histórias. A
intenção é conferir se a proposta dos antologistas é
bem-sucedida, na seleção e representatividade das histórias e dos
autores.
A
primeira história é de Theodore Sturgeon (1918-1985), a noveleta
“Ontem Foi Segunda-Feira” (“Yesterday was Monday”), publicada
na Astounding Science
Fiction, em junho de
1941. Harry Wright, um simples mecânico, acorda numa quarta-feira de
manhã,
mas não se recorda da terça-feira. Poderia apenas ser um lapso
passageiro de memória – talvez fruto de stress
ou de uma ressaca –, mas conforme vai perceber poucas horas depois
ele despertou numa realidade diferente. As pessoas trabalham na
construção de cenários de uma peça de teatro. E cada cenário
corresponde a um dia diferente. Absolutamente desconcertado ele
procura por alguma explicação racional,
mas quanto mais busca, mais sobressai a dúvida e a estranheza. No
fundo, ao que parece, ele acordou antes da hora e se viu num cenário
(dia) diferente. Uma história intrigante e aberta a outras
interpretações.
A
história seguinte é a noveleta “O Armário do Tempo” (“Time
Locker”), de Henry Kuttner (1915-1958). Outra história publicada
na Astounding Science
Fiction, na edição
de janeiro de 1943. É uma aventura divertida e inusitada sobre um
armário que some com os objetos lá colocados, pois vão parar num
futuro desconhecido. Narrado com humor e com a presença de dois
personagens nada honestos, que procuram dar um golpe um no outro,
reflete sobre o espaço e suas possíveis transformações no tempo.
Uma joia.
Arthur
C. Clarke comparece com “A Seta do Tempo” (“Time´s Arrow”),
conto publicado pela primeira vez na Science-Fantasy,
edição de verão em 1950. E já conhecida do leitor brasileiro e
português, pois vista antes nas coletâneas Encontro
com Futuro (Editora
Pallas), Em Busca do
Futuro (Edições 70,
Portugal) e Dinossauros!
(Editora Aleph). A publicação nesta última já indica que é um
conto de viagem no tempo com dinossauros. Mas o retorno ao passado de
dezenas de milhões de anos surge como uma imagem sutil, porém
poderosa e reveladora. É uma aventura hard
instigante, por explorar o conceito de entropia negativa (seta do
tempo) num contexto paleontológico surpreendente. É uma história
boa, mas há um outro conto ainda melhor de Clarke no subgênero:
“Todo o Tempo do Mundo” (“All the Time in the World”), visto
pela primeira vez em 1952 na edição de julho de Startling
Stories – e
publicada no Brasil nas antologias O
Outro Lado do Céu e
Sobre o Tempo e as
Estrelas, ambas da
Editora Nova Fronteira. Conta a história de Robert Ashton, um ladrão
que é contratado por uma mulher misteriosa, na verdade um alienígena
vindo cem mil anos do futuro. Sua decisão de ajudar ou não o
alienígena a roubar alguns objetos do Museu Britânico pode levar ao
fim do mundo, pois um dos objetos é uma ogiva nuclear que pode ser
ativada. Tem um final de impacto inesquecível.
Na
sequência temos um conto de Jack Finney (1911-1995) intitulado
“Estou com Medo” (I´m Scared”), publicado em 1951 na revista
mainstream
Collier´s.
A história relata uma série de incidentes inexplicáveis, na linha
do saudoso programa de TV “Acredite se Quiser”. Dá conta de
pessoas que vivem experiências de lapso de tempo, seja no
desaparecimento de alguém, numa foto que registra o que ainda não
ocorreu ou a audição no rádio de um programa ao vivo, mas de
alguém que já morreu – neste caso poderia ser uma gravação, mas
parece que o autor não imaginou tal recurso, talvez porque não
existia na época em que escreveu. A história não especula,
mas seriam, talvez, portais que se abririam na estrutura do
espaço-tempo. O personagem principal vai entrevistando pessoas que
viveram estas experiências, são interessantes por si, mas talvez
fosse melhor se apenas um (ou dois) relatos fosse contado em
detalhes. No Brasil Finney é mais conhecido pelo romance Vampiros
de Almas (The
Body Snathers) (1955)
– uma metáfora do anticomunismo através de uma invasão
alienígena –, mas ele também foi um especialista no sub-gênero
de viagem no tempo escrevendo vários contos e publicando um dos
livros mais celebrados Time
and Again (1970). O
livro narra um programa ultrassecreto do governo americano que
recruta um jovem para voltar no tempo. Quando ele se apaixona por uma
mulher do século XIX, deve escolher entre o passado e o presente.
Recebeu uma sequência, From
Time to Time, em 1995.
Ray
Bradbury (1920-2012) é presença obrigatória num livro como este.
Afinal escreveu “Um Som do Trovão” (“A Sound of Thunder”),
um dos contos mais importantes sobre viagens no tempo, e o segundo no
volume a abordar uma viagem ao passado com dinossauros. Visto pela
primeira vez na edição de junho de 1952 da Collier´s
inaugurou uma premissa própria que se tornou influente dentro e fora
da FC, o tal “efeito borboleta”. Uma mudança insignificante no
passado provocaria uma cadeia de eventos novos, que poderia alterar
de modo irreversível o futuro. Toda uma nova história evolutiva
e/ou social poderia acontecer. Com seu talento habitual Bradbury
imprime um sentido de tragédia à morte acidental da borboleta e,
mais que isso, de um ponto de não retorno para a realidade antes
existente. Já conhecido do leitor brasileiro pela publicação nas
coletâneas Os Frutos
Dourados do Sol (The
Golden Apples of the Sun,
da Francisco Alves Editora), F
de Foguete (R
is Rocket, da Hemus) e
Contos de Dinossauros
(Dinossaurs Tales,
da Editora Artes & Ofícios), entre outras, é um clássico da
ficção científica.
Assim
como “Nave da Morte” (“Dead Ship”), de Richard Matheson
(1926-2013). Publicada primeiramente na edição de março de 1953 de
Fantastic Story
Magazine, é uma
história surpreendente e perturbadora, que flerta com o horror. Três
astronautas encontram num planeta sua própria nave destruída com
eles mesmos mortos. Como explicar isso? Teriam vistos eles no futuro?
Seria uma alucinação induzida pelos eventuais habitantes do
planeta? Para provar esta hipótese, após decolarem, o capitão
decide voltar. Mas eles perceberão que não havia alucinação
alguma. Era a pura e mortal realidade. Autor também do ótimo
romance de viagem no tempo Em
Algum Lugar do Passado
(Somewhere in Time)
(1975), “Nave da Morte” recebeu uma ótima adaptação escrita
pelo próprio Matheson para o seriado Além
da Imaginação
(Twilight Zone)
(1963).
Uma
terceira história sobre dinossauros é “Arma para Dinossauros”
(“A Gun for Dinossaur”), escrita por L. Sprague de Camp.
Publicada originalmente na edição de março de 1956 de Galaxy
Science Fiction,
apareceu antes no Brasil, na já citada antologia Dinossauros!
organizada por Gardner Dozois (1947-2018) e Jack Dann. Camp escreve
com inspiração e humor a aventura de um safári de dinossauros,
mostrando com riqueza de detalhes o processo de caça e as
particularidades envolvidas para se abater animais enormes e ferozes.
De quebra dialoga com “Um Som de Trovão”, de Bradbury – outra
história de safári com dinossauros –, ao resolver a questão do
efeito cumulativo desastroso de uma ínfima mudança no passado: 1)
viagens para no mínimo 100 mil anos atrás, de modo a diluir
eventuais mudanças na história humana, e 2) a impossibilidade de
ver a si mesmo – evitando o paradoxo – com um mecanismo
espaço-temporal natural que evita isso, trazendo de volta de forma
abrupta ao presente àquele que tenta, como um tipo de ricochete ou
efeito bumerangue.
Poul
Anderson (1926-2001) também é uma referência no subgênero, autor
da coletânea Os
Guardiões do Tempo
(The Time Patrol)
(1955), que apresentou os patrulheiros do tempo, uma polícia
temporal que tenta evitar abusos e punir os que burlam as leis que
regem as viagens no tempo – serviu de inspiração ao universo
ficcional da Intempol,
criado por Octávio Aragão. Inclusive, talvez fosse mais
representativo selecionar a noveleta “A Patrulha do Tempo” (“Time
Patrol”) (1955), mas Harry Turtledove e Martin H. Greenberg
(1941-2011) optaram pela noveleta “O Homem que Chegou Cedo” (The
Man who Came Early”), vista pela primeira vez na edição de junho
de 1956 de The Magazine
of Fantasy and Science Fiction.
É
uma novela intrigante sobre um soldado americano lotado numa base
militar na Islândia, em 1967 que, devido a uma forte tempestade, vai
parar mil anos no passado. Narrada com energia e com personagens
atuantes, chama a atenção por ser contada do ponto de vista de quem
recebe o viajante do tempo – normalmente é o oposto –, e de
mostrar com riqueza de detalhes o modo de vida rústico dos aldeões
medievais e a extrema inadaptabilidade do sujeito do século XX, em
especial nas atividades práticas, quase só o que havia naquela
época.
O
conto a seguir é “Rainbird” (idem), do estilista e fantasista
R.A. Lafferty (1914-2002). Publicado pela primeira vez na edição de
dezembro de 1961 de Galaxy
Science Fiction
trabalha com a ideia do paradoxo embutido na volta ao passado para se
encontrar com si mesmo. Higgston Rainbird foi um inventor talentoso,
mas em cada retorno ao passado, um novo mundo tinha de ser construído
de novo.
Um
dos mestres da FC hard
Larry Niven foi selecionado com o conto “Leviatã” (“Leviatan”),
primeiramente publicado na edição de agosto de 1970 da Playboy
– e aqui no Brasil
na primeira versão da revista, chamada Homem
no. 27, de outubro de 1977. Temos aqui a quarta história sobre
viagem no tempo com dinossauros – e a terceira para caçá-los. O
diferencial é a volta a um fluxo temporal de uma outra realidade,
muito interessante, mas faltou elaborar mais o conceito, tornando a
narrativa mais clara e atraente.
Joel
Haldeman também está presente, com a noveleta “Projeto de
Aniversário” (“Anniversary Project”) (1975), publicado na
Analog,
de outubro de 1975. Lembra um pouco o espetacular romance Vênus
mais X (Venus
plus X) (1960), de
Theodore Sturgeon, no qual um homem do século XX é levado a um
futuro distante em que a sociedade é igualitária, e as pessoas são
sexualmente ambíguas. Temos aqui com a noveleta de Haldeman,
portanto, a primeira narrativa do livro a abordar o futuro. E muito
distante. Um jovem casal é subitamente levado por um ´raio do
tempo´ à Terra de daqui há milhares de anos. As pessoas são
andróginas, telepatas, vivem cerca de mil anos e socialmente
isoladas devido à extinção do oxigênio da atmosfera. Trouxeram o
casal porque depois de conhecerem a literatura do passado, querem
saber mais sobre a cultura e os costumes dos seres humanos de tempos
remotos. Mas um acontecimento inesperado faz com que o casal volte no
tempo do fim de suas vidas até o início do seu relacionamento.
História brilhante, mas um pouco resumida. Renderia ainda mais como
uma novela ou mesmo como romance. De qualquer forma, um dos pontos
mais altos da antologia.
O
já citado Jack Dann também
comparece com o conto “Inversão do Tempo” (“Timetipping”)
(1975), visto primeiro na antologia Epoch,
editada por Robert Silverberg e Roger Wood. Parte de uma premissa
desconcertante: tempos passados e futuros que se misturam, e provocam
um caos na vida das pessoas, tornando quase impossível uma
convivência em sociedade. Nesse sentido, lembra um pouco o já
citado Tempestade no
Tempo, de Gordon R.
Dickson, embora muito longe da qualidade deste clássico. Entre
outras razões porque Dann opta por uma linha de ação religiosa
para a narrativa, através da vida do único personagem que não
muda. Uma pena, porque soa pouco inspirado e cansativo,
principalmente para quem não é familiarizado com o judaísmo.
As
seis últimas histórias são as mais longas do livro – à exceção
da de John Kessel –, e foram todas publicadas nos anos 1980 na
premiada revista Isaac
Asimov´s Science Fiction Magazine,
sob a edição de Gardner Dozois, e tem em comum uma apurada
perspectiva humanista e socialmente crítica. A primeira delas é
“Vigia de Incêndio” (“Fire Watch”), de Connie Willis, vista
primeiro na Asimov´s
de fevereiro de 1982.
Premiada com o Hugo e o Nebula, a novela é precedida pela epígrafe
do pirata e poeta Walter Raleigh (1552-1618): “A história triunfou
sobre o tempo, que antes só sucumbira diante da eternidade”, e
indica o tema a ser tratado.
Os
historiadores fazem pesquisas de campo visitando o passado para
conhecer in
loco
seus objetos de estudo. De certa forma, a História, um campo de
conhecimento dedutivo e de interpretações ad
hoc,
transformou-se em experimental. Connie Willis explora a fundo esta
possibilidade na figura de um jovem pesquisador que retorna à
Londres em 1940 para, de forma disfarçada, é claro, atuar como
vigia de incêndio da Catedral de Saint Paul. Seu trabalho é tentar
impedir que ela seja destruída pelos seguidos bombardeios nazistas,
que arrasavam a cidade naquela época. Com personagens densos e
humanos e uma reconstituição histórica que impressiona – dá a
impressão visual de estarmos lá –, é uma FC histórica não
menos que notável. E que ainda serve como a narrativa que antecedeu
o premiado romance O
Dia do Juízo Final
(The
Doomsday Book)
(1992), em que Willis utiliza uma das personagens da novela para
viajar à Idade Média, em plena Peste Negra – resenha aqui.
A
história seguinte é “Rumo a Bizâncio” (“Sailing to
Byzantium”), de Robert Silverberg. Outra novela de cunho histórico,
uma característica já vista no autor quando publicou o romance Os
Correios do Tempo (Up
the Line, 1969), em
que as viagens ao passado são um negócio lucrativo através de
agências de turismo. E também na ótima novela “Estação dos
Exilados” (“Hawksbill Station”) (1967) – depois expandida
para o romance de mesmo nome no ano seguinte – em que presos
políticos são deportados para uma prisão no passado distante. Além
também de uma variação do tema com o romance Os
Intemporais (The
Time Hoopers) (1967),
em que a motivação para despachar pessoas para o passado é a
superpopulação. Como se vê, Silverberg tem currículo
no assunto.

Primeiro
publicado na edição de fevereiro de 1985 na Asimov´s
– veja a capa acima –, “Rumo a Bizâncio” é o texto
ficcional mais fascinante da antologia, premiado com o Nebula e
finalista do Hugo. No século L (cinquenta) a Terra é povoada por
cidadãos que passam o tempo viajando entre as cinco cidades de todo
o planeta. São reconstruções quase perfeitas de metrópoles do
passado, que após um certo tempo são desfeitas para que novas sejam
construídas. Neste futuro estranhíssimo, Charles Williams é um
sujeito do século XX, chamado de visitante, que viaja também, e ao
lado da bela Gioia, uma das cidadãs. Mas o que Charles irá
descobrir é como veio parar lá, quem realmente ele é, e que função
desempenha neste futuro exótico e extraordinário. Esta novela de
Silverberg é mais que uma ficção científica histórica, e sim uma
complexa e sensível alegoria do que realmente significa ser humano.
Uma obra-prima.
Em
“O Produto Puro” (“The Pure Product”), de John Kessel
publicada na Asimov´s
de março de 1986, um viajante vindo do futuro perambula pelos EUA no
final do século XX. Sem objetivos ou destino, rouba um carro, transa
com uma jovem desconhecida, ateia fogo num pedestre, aplica golpes
com cheques sem fundo, e compara os costumes das pessoas desta época
com a de figuras históricas que conheceu no passado distante. A
noveleta é lida com fluência e leveza, mas não há maior empatia
ou envolvimento com a história e, menos ainda, com o protagonista.
O
nível volta a subir com a ótima novela “Trapalanda” (idem), de
Charles Sheffield (1935-2002). Vista pela primeira vez na edição de
junho de 1987 da Asimov´s,
é uma noveleta instigante sobre a busca pela mítica cidade perdida
de Trapalanda, que estaria situada em algum lugar remoto da
Patagônia. Uma expedição financiada por um magnata é liderada por
Klaus Jacobi, um alpinista que viveu anos na região. O que eles
descobrirão é que há sim algo revelador e incrível sobre o a
lenda de Trapalanda. Simplesmente um portal espaço-temporal deixado
lá por alguma inteligência extraterrestre. O elemento de viagem do
tempo da história ocorre porque ao voltar de seu tênue contato com
o portal Jacobi envelhece algumas décadas. A narração fluente e os
personagens verossímeis são características conhecidas do autor,
um competente contador de histórias.
A
história a seguir “O Preço das Laranjas” (“The Price of
Oranges”), de Nancy Kress, finalista do Hugo. Já era conhecida do
leitor brasileiro, pois foi publicada na Isaac
Asimov Magazine no. 3,
em julho de 1990. Vista antes nos EUA na Asimov´s
em abril de 1989, lembro que foi uma das histórias mais marcantes
que li na versão brasileira. Relendo agora a impressão não é
diferente, embora tenha, em princípio, prestado mais atenção ao
desenvolvimento do tema da viagem no tempo. Ora, mas ele é
secundário, pois o que realmente importa é o humanismo da história
em si. Um avô usa uma abertura temporal encontrada casualmente em
seu guarda-roupa e volta a 1937 em busca de um jovem que possa tirar
sua neta – uma escritora talentosa – da amargura e solidão. Mas,
pelos meandros tortuosos da vida, mal pode imaginar como o jovem irá
contribuir para a felicidade da neta. Comovente.
Para
fechar a antologia Turtledove e Greenberg capricharam. Escolheram
ninguém menos que Ursula K. Le Guin (1929-2018), e uma de suas
muitas histórias excelentes. A novela “Outra História ou um
Pescador do Mar Interior” (“Another Story or a Fisherman of
Inland Sea”), primeiro publicada na Asimov´s
em agosto de 1994. Situada em seu tradicional universo ficcional de
Hainish, conta a história de Hideo, do mundo de O, sua vida em
família e a partida dolorida para o planeta Hain, pois sabe que não
verá mais a sua família devido à distância de dezenas de
anos-luz. Hideo se junta a uma equipe de físicos que desenvolvem
pesquisas sobre o teletransporte instantâneo a qualquer distância,
a Teoria de Churten, uma espécie de variação do conceito do
ansible, o recurso tecnológico por meio do qual foi possível
estabelecer uma comunicação instantânea independentemente das
distâncias cósmicas. Ao realizar uma das primeiras experiências
Hideo é surpreendido com um problema, pois ao invés do teleporte
espacial, se vê num temporal, voltando dez anos ao seu planeta
natal, antes que a descoberta tivesse sido feita. Afora o fato em si,
que mudou sua vida para sempre, a história é muito rica na
elaboração dos costumes do povo de O e na densidade psicológica
dos personagens. Uma novela excepcional.
Podemos
afirmar que As Melhores
Histórias de Viagens no Tempo
cumpre sua intenção ambiciosa de servir como um livro de referência
sobre um dos subgêneros mais populares da FC? Em parte sim pois, de
fato, é possível perceber um claro desenvolvimento na abordagem do
tema ao longo de cinco décadas do século passado, indo da Golden
Age, passando bem rápido, é verdade, pela New Wave e chegando com
força nos anos 1980 e 1990 numa linha mais histórica e humanista.
Contudo, podemos ponderar que houve um viés demasiado às histórias
com viagens ao passado, e muito poucas com relatos do futuro. Na
verdade, quando houve foi de viajantes do presente que foram levados
ao futuro de forma involuntária. Não há nenhuma história com
viajantes do presente indo deliberadamente ao futuro para conhecê-lo.
É quase que um contrassenso, já que a FC é um gênero
intrinsecamente identificado por explorar justamente os possíveis
mundos e realidades do amanhã. De certa forma, os textos
selecionados, ao abordarem mais o passado se inseriram numa linha de
FC especulativa histórica, ao invés de apresentar também uma linha
de abordagem de uma FC, diria, mais sociológica, caso mais viagens
ao futuro tivessem aparecido.
Em
todo caso esta antologia pode ser colocada no mesmo patamar de outra
que se tornou referência aqui no Brasil: Máquinas
de Pensam: Obras-Primas da Ficção Científica
(Machines that Think)
(1984), organizada por Isaac Asimov, Patricia S. Warrick e Martin H.
Greenberg, uma monumental antologia com 28 histórias sobre robôs,
computadores e inteligência artificial, publicado pela L&PM em
1985 – e relançada como Histórias
de Robôs, em dois
volumes em 2005.
Alguém
pode observar que outras boas antologias sobre viagem no tempo já
foram publicadas no Brasil. Não é verdade, são bem poucas, e
talvez a mais expressiva delas a rara Viajantes
no Tempo (Voyagers
in Time), organizada
por Robert Silberberg, foi publicada pela Editorial Panorama, de
Portugal, no distante 1967. O que temos são muitos romances, e as
histórias curtas foram vistas em coletâneas de autores e antologias
com temas variados. Nunca um volume inteiro com quase 500 páginas só
sobre o tema. Portanto, ainda que não esgote o assunto e não tenha
incluído algumas histórias importantes, é uma antologia que cumpre
uma lacuna, contribuindo para a divulgação do tema junto aos
leitores e fãs brasileiros de ficção científica.
– Marcello
Simão Branco