segunda-feira, 23 de março de 2015

Kaori e o samurai sem braço, Giulia Moon

Kaori e o samurai sem braço, Giulia Moon. 200 páginas. Ilustrações de Giulia Moon. Capa de Natalli Tami. Giz Editorial, São Paulo, 2012.

Kaori está se tornando rapidamente um ícone no ambiente da dark fantasy brasileira. Isso porque, depois de aparecer com regularidade em antologias e coletâneas, chega em pouco tempo ao seu terceiro romance, com boa aceitação de público e crítica - os dois primeiros são Kaori: Perfume de vampira (2009) e Kaori 2: Coração de vampira (2011), ambos da Giz Editorial. Não é para menos, Giulia Moon é sem dúvida uma das mais gratas revelações recentes da literatura fantástica nacional que, além de um texto enxuto, suave e envolvente, domina muito bem os protocolos do gênero.
Kaori é uma vampira secular, originária do Japão feudal que, por capricho do destino, veio habitar em São Paulo. Ela é linda, sensual, imortal e feroz, e sua presença exala um perfume irresistível tanto aos homens quanto às mulheres. A maior parte de suas histórias se passa nos dias atuais, mas a autora decidiu inovar desta vez.
Kaori e o Ssamurai sem braço é o que muita gente gosta de chamar de "prequela", anglicismo pavoroso que significa uma aventura que, cronologicamente, se passa antes da primeira história de uma série. Contudo, o romance inicia nos dias de hoje, com a sensual vampira fazendo uma visita a Takezo, um velho amigo de "profissão". Conversa vai, conversa vem, Kaori conta ao amigo uma história de sua juventude no Japão, quando ainda era ainda uma kyuketsuki (vampira, em japonês) selvagem e inexperiente. Ela lembra de como foi surpreendida por um terremoto violento e ficou presa sob os escombros de uma residência, e de como foi salva, praticamente destroçada, por um estranho e destemido vagabundo e sua acompanhante. Protegida e alimentada, ela recupera pouco a pouco sua consciência e vigor, para se ver enredada numa situação da qual não tinha como sair. Seu salvador era Kuroshima Kitarô, o lendário samurai maneta caçador de monstros, e sua serviçal mágica Omitsu, uma kistune, um ser da natureza misto de mulher e raposa. Kitarô tinha uma proposta irrecusável: ele quer que ela o ajude, durante um ano, a localizar um monstro muito pior, Shinku, um demônio transmorfo que matou sua família. Em troca, ele não acaba com a existência da vampira. Findo o acordo, Kitarô promete libertar Kaori. E se ela não aceitasse, morreria ali mesmo.
Enfraquecida e sem alternativa, Kaori aceita o acordo, mas o início da relação é tenso. Conforme o trio persegue o rastro de Shinku e enfrenta outros monstros pelo caminho, Kaori recupera suas forças, mas também percebe que Kitarô é honrado e a confiança começa a se estabelecer entre eles. No final, será preciso todo o habilidade, coragem e confiança destes três improváveis aliados para confrontar o poderoso e astuto Shiku.
O romance se desenvolve em forma episódica, com os trio de guerreiros enfrentando diversos demônios e monstros antes do confronto final com Shinku. Essas histórias funcionam como um espaço de desenvolvimento dos personagens e das relações de confiança e amor que vão se formando entre eles, mas nem por isso deixam de ser divertidas e, por muito pouco, não roubam o espetáculo, tal o carinho com que Giulia tratou cada uma delas. O romance, com certeza, não ficaria melhor sem elas.
Outro grande mérito de Kaori e o samurai sem braço é a cuidadosa pesquisa que a autora realizou sobre o ambiente japonês do século 18, seus cenários naturais, arquitetura e costumes, bem como os termos originais, devidamente explicados em notas de pé-de-página, que não deixam nada sem o devido esclarecimento, uma verdadeira viagem de Giulia Moon às suas origens étnica e cultural.
Além disso, o livro é decorado com belíssimas ilustrações realizadas pela própria autora, que é designer profissional e demonstra aqui toda a qualidade de sua arte, valorizada pela elegante produção gráfica do volume.
Posso afirmar que, sem dúvida alguma, ninguém está fazendo mais e melhor que Giulia Moon no que se refere à dark fantasy no Brasil. E, se tivermos sorte, podemos esperar muito mais de Kaori e de Giulia Moon nos próximos anos.
— Cesar Silva

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