domingo, 29 de novembro de 2020

Memória da Água

Memória da Água (Teemestarin Kirja – original finlandês; Memory of Water – da tradução em inglês para a edição brasileira), Emmi Itäranta. Tradução de Liliana Negrello e Christian Schwartz. Capa de Túlio Cerquize. 286 páginas. Rio de Janeiro: Galera/Record, 2015. Lançamento original de 2012.

 

Em um futuro não definido, mas aparentemente não muito distante, o aquecimento global provocou o colapso da civilização como a conhecemos. O aumento da temperatura derreteu os polos, os oceanos e mares invadiram as superfícies, mudando toda a geografia do planeta.

A água se tornou o bem mais valioso e disputado. Por pessoas, comunidades e países. Restaram pouquíssimas fontes de água potável e a maior parte do que é consumido ocorre por meio de enormes usinas de dessalinização da água dos oceanos.

Em consequência deste novo contexto guerras são travadas há décadas em busca de fontes de energia – houve, inclusive, uma “guerra do petróleo” –, e a China invadiu e governa o que restou da Europa. O território da Escandinávia passou a ser chamado de Novo Qian, vivendo sob uma rígida ditadura militar.

Mas a esta conjuntura política não é dada grande profundidade. Mas sim a uma família peculiar que preserva a arte milenar do ritual do chá. Nela, o velho mestre ensina seus saberes à sua única filha, Noria, a quem se espera levar adiante a tradição da família. É uma arte quase perdida e valorizada por poucos, especialmente os chineses e seus descendentes. Para preparar o ritual e servir o melhor chá, os mestres retiram a água de nascentes naturais. Assim era, e como Noria descobrirá, seu pai detém o segredo de uma nascente oculta.

Após a morte dele, Noria se torna a nova mestre do chá, mas não será fácil manter as aparências e o segredo, ainda mais com a chegada de um novo comandante ao local, que passa a investigar sistematicamente todas as famílias – punindo algumas com a sombria inscrição de um círculo azul na porta de suas casas. Sinal para todos de que cometeram o crime de conseguir água de forma ilegal, e serão punidos com a morte.

Memória da Água é um romance inusitado e interessante. Nos apresenta a cultura do cultivo e preparo do chá, de forma detalhada e respeitosa. Soube mesmo de leitores que se interessaram pelo livro por esse aspecto, mais do que ao contexto distópico em si. O vínculo com a FC ocorre pela história se passar no futuro e extrapolar de forma dramática problemas já graves que vivemos hoje, com respeito às alterações climáticas no planeta.

Mas a força dramática da narrativa se dá no plano mais pessoal em meio a este contexto desfavorável. Faz todo o sentido, portanto, a conexão entre a excelência do chá e um mundo carente de água. E, afinal, é colocado para a própria Noria: até que ponto é ético ter água em abundância para manter o seu negócio enquanto a população passa necessidade?

A autora é muito hábil e sensível também na analogia que traça entre a água como elemento da natureza que nos traz a vida e, quando se esvai, nos leva à morte. Assim, a arte do preparo do chá está morrendo, a civilização também e, finalmente, cada uma das pessoas, pela ausência dramática da água no mundo. Neste sentido, o título faz a sutil alusão à memória da água enquanto o ritual do chá continuar existindo. Assim, Noria toma a consciência do legado do seu pai, de manter a nascente em segredo como forma de preservar não o chá em si, mas o vínculo com o que o mundo foi um dia e, eventualmente, possa vir a ser de novo. Mas, como disse, ela enfrentará problemas concretos que a levarão a ser pressionada a rever tal simbologia.

Noria é uma garota de dezessete anos e, a despeito da grande responsabilidade que lhe foi transferida pelo pai, também sonha em escapar desta realidade, e procurar água potável com sua amiga de infância Sanja. Principalmente depois delas descobrirem algumas fitas VHS num lixão abandonado. Depois de descobrirem o que eram as fitas, conseguem reproduzir ao menos o áudio das gravações. E, chocadas, ficam sabendo que décadas antes, um grupo de cientistas dissidentes descobriu uma região à leste da Finlândia, chamada de Terras Perdidas, onde haveria água potável em boa quantidade. O que elas deduzem é que, a maior parte da água é consumida pela elite dirigente, e através da censura, repressão e controle do acesso à água, a população vive na ignorância sobre a situação concreta.

Elas, então, organizam uma expedição, mas acabam surpreendidas com o cerco dos militares e os problemas das pessoas do vilarejo, cada mais sedentas de água e comida. Noria e Sanja, assim, tem não só seus objetivos e descobertas alterados, mas seus próprios destinos.

Este é o primeiro romance da escritora finlandesa Emmi Itäranta, jornalista que se tornou crítica de teatro, e daí passou para a literatura. Traduzido para vários idiomas, na versão em inglês foi indicado a dois dos principais prêmios da FC: o Arthur C. Clarke Award (para o melhor romance publicado no Reino Unido no ano) e o norte-americano Philip K. Dick Award (para o melhor romance publicado nos EUA no ano em formato popular). Além disso, recebeu “menção honrosa” no James Tiptree Jr Award, conferido ao melhor romance de FC escrito por uma mulher no ano em língua inglesa. Ela escreveu um segundo romance em 2015, também num futuro indefinido e distópico, e com a mesma boa recepção de crítica e público, em especial na Finlândia. Foi traduzido para os EUA e Canadá como The Weaver e no Reino Unido como The City of Woven Streets.

Além da qualidade de uma prosa limpa e fluente, e da originalidade da história, chama a atenção a força da voz feminina neste cenário multicultural em que se transformou a FC no século XXI. Cada vez mais obras de culturas espalhadas pelo mundo tem se tornado relevantes, diversificando e enriquecendo o próprio gênero. E a perspectiva feminina é uma das que mais têm ganhado relevo neste contexto.

Pois em Memória da Água a condição feminina ilustra tanto a condição sensível à preservação dos saberes do chá, quanto a do seu próprio gênero: mais oprimido e secundário num mundo regido por regras estritamente masculinas. Ainda mais se governado por uma cultura política e filosófica tradicionalmente machista e de desvalorização da condição da mulher.

O romance, portanto, pode ser interpretado em diferentes níveis: o das consequências desastrosas de um mundo em guerra, da disputa desesperada por um bem que hoje ainda dispomos em quantidade razoável – a água –, e de como um de seus simbolismos – o cultivo e preparo ritualístico do chá –  pode nos conduzir entre uma linha que vai da fartura à escassez, da vida à morte, até, finalmente, no plano de visão destes temas, a partir da perspectiva mais sensível da mulher. E, talvez por isso, o primeiro romance da autora priorize o intimismo em meio ao contexto macro (masculino), que, via de regra, se apresenta como organizador e, neste caso, extremamente opressor. Um belo livro de uma autora que merece ser acompanhada.

– Marcello Simão Branco

 

sábado, 7 de novembro de 2020

Tudo é Eventual

 

Tudo é Eventual (Everything is Eventual), Stephen King. Tradução de Myriam Campello. 467 páginas. Rio de Janeiro: Editora Objetiva/Suma de Letras, 2003. Lançamento original em 2002.



Apesar de ter se notabilizado principalmente por seus volumosos romances, King nunca abandonou a forma original com a qual iniciou sua carreira: o conto. Assim é que, no prefácio “Em Busca da Arte (Quase) Perdida”, ele faz uma reflexão sobre esta forma narrativa. Com a exceção do romance, outras manifestações como o conto, a poesia, o modelo teatral shakespeareano e as peças de rádio, estariam todas em processo de extinção. O momento seria de transição para outras formas narrativas, mais visuais e mesmo virtuais, como ele mesmo experimentou com histórias publicadas na internet há alguns anos, como The Plant – um romance publicado em e-book, de 2000 – e “Andando na Bala” – esta última presente neste livro.

Para King o conto ainda não é uma arte perdida, mas com o encolhimento do mercado editorial para esta forma narrativa, sua sobrevivência estaria ameaçada. Revistas populares voltadas à forma curta e a baixa vendagem de coletâneas e antologias, justificariam, do ponto de vista econômico, a presença cada vez mais esparsa do conto na produção de escritores importantes.

O irônico é que por gerações a principal porta de entrada de escritores iniciantes para a carreira literária foi o conto. O próprio King é um destes casos. E retomar a forma curta e até usar de seu prestígio para publicar é uma maneira de manter a arte viva. Além de, antes de mais nada, mantê-la viva no seu próprio ofício. Pois para o autor de O Cemitério (1983):

Se alguém quer escrever contos, não basta pensar em escrevê-los. Não é como andar de bicicleta. É mais como exercitar-se numa academia: a opção é usar o corpo ou perdê-lo. (...) [Pois] continuei a escrever contos ao longo dos anos em parte porque as ideias ainda me ocorrem de tempos em tempos e, em parte, porque é o modo de confirmar, ao menos para mim mesmo, que não me ‘vendi’, pouco importa o que pensem os críticos menos amáveis”.

Temos, então, dois motivos para o exercício do conto, por parte de Stephen King. 1) O prazer de escrevê-los e, desta forma, manter viva sua própria capacidade de executá-los, e 2) Uma espécie de intenção militante, em busca de um ideal para que esta forma narrativa continue viva.

E o que se pode dizer após a leitura desta enorme coletânea, é que King não perdeu o viço e continua a produzir algumas histórias absolutamente arrebatadoras, tanto pela história em si, como por ser criada dentro da forma específica do conto, que procura combinar de forma virtuosa, drama e síntese.

O livro contém 14 histórias, todas com algum elemento de horror, seja mais explícito ou de cunho psicológico. Embora King tenha escrito um prefácio contundente em defesa do exercício e publicação do conto e um livro com histórias curtas, se formos rigorosos, há muitos poucos contos no livro. A maioria das histórias são noveletas, um conto longo demais para a forma curta e curto demais para uma novela. Talvez, no fim, King tenha mesmo perdido um pouco da arte de sintetizar ideias ou ações dramáticas em uma forma eminentemente curta. Em todo caso, o que vale mesmo é o conteúdo, o que podemos tirar de prazer da leitura das histórias, independentemente de sua classificação formal ou editorial.

A história de abertura é “Sala de Autópsia 4”, no qual um homem dado como morto está prestes a ser autopsiado, após sofrer uma picada de uma cobra venenosa. Por mais da metade do texto, acompanhamos os preparativos para uma operação post mortem. Tanto do ponto de vista dos procedimentos médicos, como do próprio comportamento dos profissionais. Isso soa de uma forma muito crua, realista. Chega a incomodar, mas a intenção é provocar este efeito mesmo. Só que as coisas não são exatamente como pareciam no início, dando uma completa reviravolta no desenrolar da trama.1

Se a primeira história é boa, a segunda é das melhores do livro. “O Homem de Terno Preto” é narrado por um velho, que conta um fato que lhe ocorreu na infância e jamais o abandonou. É uma história simples e muito pessoal, que poderia perfeitamente ter acontecido com qualquer pessoa. A não ser pelo elemento sobrenatural inserido com maestria pelo autor e que provoca arrepio e angústia com o desfecho da história. King disse que o conto é uma espécie de homenagem a um semelhante, de Nathaniel Hawtorne. Neste e no de King, para sermos claros, estamos falando da presença súbita e terrível do Diabo. Que surge, se mostra simpático e depois, de forma dissimulada, procura cercar e destruir sua vítima. No fundo, o que marca esta noveleta é a discussão subjacente de alguns daqueles medos que temos na infância. Crescemos, viramos adultos. Mas no fundo de nossa intimidade, estes mesmos medos não nos abandonaram. King cria uma atmosfera de terror no velho-menino absolutamente convincente e, por isso mesmo, apavorante.

A seguir, somos apresentados a um representante comercial em profunda depressão. Está em um motel de beira de estrada no interior dos Estados Unidos, prestes a cometer suicídio. “Tudo o que Você Ama lhe será Arrebatado”, é uma história daquelas cotidianas, que acontecem todos os dias e depois lemos nas páginas da seção cotidiana do jornal. Alfie era um cara relativamente bem-sucedido, casado e com filhos. Mas chegando à meia-idade, sem perspectiva de mudança em sua vida. Intui-se que este quadro seja o motivador da ação, mas o mais curioso é que não ficamos sabendo exatamente a razão de Alfie querer dar cabo de sua própria vida. E o final acentua ainda mais a dúvida, pois King deixa em aberto o destino do infortunado personagem.

O conto seguinte é “A Morte de Jack Hamilton”, e King escreve um segundo conto no estilo de homenagem. Aqui não a um autor em especial, mas às histórias policiais pulps dos anos 1930, recheadas de foras-da-lei muito carismáticos e bem mais interessantes que os comportados homens-da-lei. Este conto mostra a fuga da gangue de Jack Hamilton, num texto que consegue ir um pouco além da mera homenagem, devido as qualidades de King, principalmente com relação à construção de personagens. Algo que ele sabe melhor do que a maioria dos escritores.

Já a “Câmara da Morte” é uma história curiosa: uma narrativa política situada em algum lugar do Caribe. Um opositor é preso e torturado em um país que vive em uma ditadura. Isso não é familiar? Na maior parte do conto somos expostos ao interrogatório e às torturas em si. Ou seja: não é propriamente agradável embora, infelizmente, bastante familiar a qualquer brasileiro acima dos 50 anos. Mas, o texto apela para uma solução absolutamente inverossímil para o destino do prisioneiro. Mas King assume isso, quando diz no comentário que fez ao final do conto que,

Em tais histórias, o interrogado geralmente termina cuspindo tudo e depois sendo morto (ou) enlouquecendo). Quis escrever uma com final feliz, por mais irreal que fosse. E aí está.”

Pois é. Mas não convence. Se quisesse mesmo uma solução deste tipo – que é totalmente legítima –, deveria se esforçar mais, criar situações mais convincentes e não forçadas só para chegar ao seu desejo intencional.

A história seguinte volta a elevar muito a qualidade do livro. Refiro-me a “As Irmãzinhas de Eluria”. É uma espécie de variação sobre um tema, no caso o universo ficcional de A Torre Negra. Isso porque esta história foi escrita fora cronologia da série, por encomenda a uma antologia de fantasia. King resolveu, então, explorar um aspecto particular da série, no caso uma passagem da vida de um dos protagonistas, Roland. E o melhor é que não é necessário um conhecimento prévio da série. Esta história vale por si mesma. É das coisas de terror mais intensas que acompanhei nos últimos anos. Em um mundo desolado, o viajante solitário Roland chega a uma cidade deserta, abandonada, fantasma. E é surpreendido por uns mutantes estranhos, esverdeados. Ele é capturado e levado até um hospital onde é cuidado por enfermeiras. Até aí, nada de muito aterrador. Mas o fato é que os doentes lá hospedados somem misteriosamente, um a um. E Roland percebe do que se trata o lugar, e que na verdade estas enfermeiras são malignas, cruéis, enfermeiras da morte.

Morte também está presente na próxima história, a que dá título ao livro, “Tudo é Eventual”. Um rapaz descobre, meio por acaso, que tem poderes especiais. Tem a capacidade de influir na vida alheia, seja de uma pessoa ou de um animal. Basta que mentalize ou realize alguma tarefa indireta para que seu desejo se cumpra por completo ou em parte. Também de forma misteriosa ele, sem saber ao certo, é recrutado por uma organização secreta. Reúne ‘talentos’ com maneiras incomuns de influir na vida alheia, em benefício de um grupo oculto que os sustenta financeiramente.

Esta é uma narrativa com uma premissa interessante, sombria, que me provocou duas sensações: 1) um desconforto pelo personagem principal, que não me empolgou, e 2) fiquei com a impressão que a história terminou de forma precipitada, pois as situações ficaram abertas, não há uma conclusão clara. E o tal ‘tudo é eventual’, passa aqui como uma ironia. Que trágicas ‘ironias’, ou eventualidades marcam coisas ruins, estúpidas, inexplicáveis na vida de pessoas (ou animais) – geralmente aquelas que consideramos como boas. Enfim, King nos coloca diante de uma explicação nada eventual sobre a razão de coisas absurdas e más acontecerem o tempo todo. Há uma explicação mas, curiosamente, procura desconstruir exatamente a noção de que ‘tudo é eventual’, como se houvesse um conserto oculto, maligno, conspiratório permeando a vida de cada um. Sinistro, sim, mas sem grande sustentação racional, mesmo para os parâmetros obviamente fantasiosos que a história postula. E de qualquer forma, a sucessão de que tudo é eventual, sem qualquer conotação oculta ou fantástica, é a mais desconcertante e perturbadora. A que provavelmente rege o universo em que vivemos.

Na próxima história somos confrontados novamente sobre porque algumas coisas horríveis acontecem. Em “A Teoria de L.T. sobre Animais de Estimação”, uma mulher abandona o marido e leva junto o cachorro de estimação. O cara passa boa parte da história remoendo a razão do abandono e sai à sua procura. É uma noveleta de emoções e surpresas, pois ela começa em um tom cômico e vai, gradativamente, mudando em direção ao terror e à tristeza.

O relato seguinte é batido no horror como um todo, e recorrente também na carreira de King. O tema do quadro que muda, a cada nova olhada de um observador. Neste “O Vírus da Estrada vai para o Norte”, contudo, o autor está inspirado e somos levados a acompanhar a história de um escritor que ao voltar de uma conferência literária, depara com um quadro de aspecto estranho, em uma daquelas liquidações, família vende tudo. Aqui nota-se outra recorrência de King: o terror que ronda a atividade de um escritor, já visto em vários contos e romances como, por exemplo, Angústia (1987), A Metade Negra (1989) e “Janela Secreta, Secreto Jardim” (1989). A sucessão de mudanças no quadro é muito bem narrada. King imprime um ritmo forte e convincente. Espera-se que, no fim das contas, tudo seja alguma paranoia ou algum truque. Mas só posso adiantar que a intensidade da solução assusta pelo seu vigor.

O que já não é o caso de “Almoço no Café Gotham”. Um casal em litígio marca um almoço num restaurante, no qual acertam, na presença dos seus respectivos advogados, um processo de separação amigável, depois do abandono da mulher. Aqui temos a segunda abordagem de King neste livro sobre este assunto. Contudo, o que surpreende é a presença de um mâitre psicótico, que começa a cortar e matar sem piedade com uma grande faca – sem motivo aparente – os fregueses do local. E o casal é surpreendido e tem de procurar se defender para poder sobreviver à sangrenta loucura estabelecida.

em “Você só Pode Dizer o Nome daquela Sensação em Francês”, estamos falando no deja vù. Quando ao vivenciarmos um fato, temos a nítida impressão de já o termos vivenciado, mas sem saber como nem porquê. O conto é ainda narrado de uma maneira estranha, ao transmitir a sensação de que os acontecimentos não são claramente percebidos, não parecem reais. Mas eles se insinuam e, mais que isso, se repetem, condenando o casal da história a fazer a mesma coisa de forma repetida. Como se presos a um inferno, como define o próprio King, em seus comentários sobre o conto. Um dos grandes momentos do livro.

Assim como a história seguinte, o aterrador “1.408”. Segundo King, a sua versão de uma ‘sala fantasma em um hotel’. Um escritor quer passar uma noite em um hotel de Nova York que está fechado há décadas por ter fama de mal assombrado. Pessoas teriam sido queimadas, outras enlouquecido, e cometido suicídio e assassinato no tal quarto 1.408. O gerente do hotel tenta de todas as formas possíveis, dissuadir o escritor a levar à frente seu intento. Mas ele é irredutível e terá a sua noite no 1.408. É uma história excelente de cômodo assombrado. Lembra o clássico O Iluminado (1977), na relação do hotel com o escritor Jack Torrance. E é bom lembrar que aqui King retoma a questão sob o prisma dos escritores. Talvez para extravasar seus próprios sentimentos ao lidar com temas tão incomuns e perturbadores, como o desta história puramente de horror.2

Andando na Bala” vem a seguir. A badalada história que teve sucesso comercial ao ser publicada na internet, e fez King virar capa da Time. No prefácio ele se disse desapontado, porque tanto a revista como a maioria das pessoas só lhe perguntavam o quanto estava ganhando com a história. Não lhe contavam o que tinham achado da história. Talvez porque não a tenham lido. Ou porque tenham lido e não gostado. Ou então porque a história, embora muito boa, toque em um tema muito sensível, ao qual as pessoas não gostam de falar: a morte de entes queridos. Fico com a primeira hipótese. Mas “Andando na Bala” é uma história de emoções muito fortes e humanas. Se insere no terreno de sua autobiografia, conforme ele mesmo anuncia no pequeno prefácio que escreve à história. Temos aqui King em seu melhor momento, equilibrando de forma virtuosa, os mistérios da realidade e da imaginação. Ao final deste relato tocante, dá para entender porque King ficou tão contrariado por só elogiarem o êxito financeiro da história. Ele estava contando uma história dele, muito íntima. Quando nos expomos desta maneira, queremos, de uma forma ou de outra, alguma espécie de solidariedade.

Depois destas três histórias de alto nível, o livro termina de forma meio sem graça, com um conto que poderia ter sido limado. Refiro-me à “A Moeda da Sorte”. Uma variação sobre a tentação perigosa e gananciosa do jogo. Nada mais do que uma fantasia simpática – porque, afinal, a intenção da mãe era louvável, pois tinha um filho doente –, mas com um desfecho um tanto moralista, o que acaba por destoar do ambiente geral do livro.

Reza a sabedoria convencional que numa coletânea – ou antologia – temos histórias boas e ruins. Não é possível agradar a todos. O que dizer deste Tudo é Eventual? Tudo bem, há histórias menos boas sim, mas temos algumas excepcionais, o que perfaz um conjunto altamente positivo e encorajador. Stephen King mostra que, embora esteja escrevendo romances cada vez mais volumosos, não perdeu o jeito para textos mais curtos – embora não muito curtos, como já frisado –, uma preocupação que ele mesmo demonstrava em seu prefácio. Pois como ele afirma em certa passagem do livro, ao comentar uma das histórias, os “contos são como artefatos: não coisas feitas, criadas por nós (e pelas quais possamos receber créditos), mas objetos preexistentes que desencavamos”. Esta declaração até pode ser verdadeira do ponto de vista dele. E para, alguns de seus pares escritores. Mas o fato é que nem todos tem essa capacidade ‘preexistente’, um tipo de, digamos, instinto natural. Não só para conceber uma ideia mas, principalmente, torná-la interessante, fazê-la ganhar vida como uma história bem contada. Talento que King desenvolve como poucos.

Marcello Simão Branco

1 A noveleta me lembrou do conto “G.C.P.A.” (1920), de Gastão Cruls, em que o clima de uma sala de autópsia chega a ser nauseante. Foi publicado na antologia O Conto Trágico, organizada por Jeronymo Monteiro para a Civilização Brasileira, em 1960.

2Ganhou uma boa versão para o cinema em 2007, com o mesmo título.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Joyland

Joyland (Joyland), Stephen King. Tradução de Regiane Winarski. 239 páginas. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2015. Lançado originalmente em 2013.

 


No verão de 1973 o jovem Devin Jones vive uma experiência que muda para sempre sua vida. Mas não é o fora que leva da namorada por quem era perdidamente apaixonado. Mas sim ter ido trabalhar num parque de diversões, Joyland, às margens da praia da cidadezinha de Heaven´s Bay, na Carolina do Norte.

King conta a sua versão do tema do parque de diversões, uma das tradições do gênero fantástico e do horror. Mas ao contrário de Ray Bradbury (1920-2012), por exemplo, em seu fabuloso romance Algo Sinistro Vem Por Aí (1962), o parque não é itinerante e, mais importante, há um só elemento sobrenatural na trama. Mas é o suficiente para que o leitor fique ao mesmo tempo fascinado e desconcertado.

Pois em Joyland, como descobre Devin logo em seu primeiro dia de trabalho, há um boato de que uma linda garota foi assassinada no Horror House, em pleno trem fantasma, e vaga por lá, sendo vista por algumas pessoas que fazem a manutenção do lugar. Ela é Linda Gray, com a garganta cortada por um serial killer, que conseguiu escapar da polícia. Esta na maioria das vezes preguiçosa ou burocrática demais em suas investigações.

Mas a este plano mais sombrio King nos apresenta Joyland e a tudo o que compõe a rotina de um parque de diversões de uma cidade do interior: seus trabalhadores, alguns com ´alma de parque´ – pois vocacionados para esta profissão –, com uma rotina dura de trabalho para manter tudo limpo e seguro. O show em si, com os visitantes – chamados pejorativamente de Bobs, pelos funcionários do parque, algo como os nossos caipiras –, e os brinquedos encantadores, em que eu mesmo não pude deixar de lembrar de momentos da minha própria infância quando estive em parques como estes. É incrível como se tornam memórias vívidas e marcantes por toda a vida.

Devin aprende logo seus afazeres, ganha a estima e confiança dos colegas de trabalho, além de fazer novas amizades, como os outros jovens que foram trabalhar no parque durante as férias, Tom Kennedy e Erin Brook, esta uma das Garotas de Hollywood, responsáveis por tirar fotos com os visitantes – e que, inclusive, estampa lindamente a ilustração de capa do livro. Mesmo mal por causa do amor perdido, Devin decide ficar após as férias, trancando a faculdade na Universidade de New Hampshire. Menos por causa de Wendy Keegan, sua ex-namorada que o traiu, mas sim pela curiosidade em descobrir o que de fato aconteceu com Linda Gray. Principalmente a chance de vê-la, após isso ter ocorrido com o descrente Tom.

Hospedado numa pensão Devin vai a pé todos os dias a Joyland e avista uma casa à beira da praia com uma mãe, um menino numa cadeira de rodas e um cachorro. Após certo tempo os conhece, e descobre que Myke Ross, cheio de sonhos, está com os dias contados. Se envolve com os dois, e ambos terão uma presença decisiva no destino de Linda Gray e, principalmente, em sua própria vida, no alto de uma roda gigante em plena madrugada chuvosa.

O romance dialoga também com a ficção de crime, no processo de investigação, suas descobertas, reviravoltas e suspense que se acentua ao longo da história. Narrado de forma retrospectiva por um adulto que recorda estes acontecimentos quando tinha os seus 21 anos, Stephen King cria um cenário melancólico e nostálgico neste romance curto – para os seus padrões –, mas igualmente humano e triste.

Pois, como é seu costume, sabe criar o clima para nos adentrar no mundo de personagens extremamente críveis, contextualizar com a cultura contemporânea da época da história, e nos mostrar como o mal está sempre à espreita e se manifesta quando e onde menos esperamos. E, o mais terrível: não poupa as pessoas boas em relação às más. Seja com elementos sobrenaturais ou não. O craque de sempre em nos contar (e emocionar) com suas histórias.


Esta resenha é em memória de Sérgio Roberto Lins da Costa (1955-2020), grande fã de Stephen King.

Marcello Simão Branco

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

O Rato Humano (Quella villa in fondo al parco / The Rat Man, Itália, 1988)

 


Os italianos sempre gostaram de fazer filmes de horror e ficção científica bagaceiros com personagens americanos e ambientação na América Central ou do Sul. Em 1988 foi lançado “O Rato Humano” (Quella villa in fondo al parco / The Rat Man), dirigido por Giuliano Carnimeo (sob o pseudônimo Anthony Ascot), e com Nelson de la Rosa, de apenas 72 cm de altura, no papel da criatura assassina híbrida de macaco e rato.

O roteiro de Dardano Sacchetti (sob o pseudônimo David Parker Jr.), o mesmo autor de “Demons – Os Filhos das Trevas” (1985), é extremamente ruim e cheio de furos, falhas e situações absurdas e convenientes apenas para facilitar o trabalho de direção e produção. Uma história tão simples e patética que não deve ser considerada, e o que vale a pena no filme garantindo a diversão hilária são os ataques sangrentos do rato mutante.

O “cientista louco” americano Dr. Olman (Pepito Guerra) está trabalhando numa experiência genética numa vila remota de uma ilha do Caribe, criando um ser híbrido juntando o instinto do rato com a inteligência do macaco (Nelson de la Rosa), esperando apresenta-lo para a comunidade científica internacional e ganhar fama e dinheiro com a descoberta. Porém, a criatura foge da gaiola e começa a atacar violentamente as pessoas que cruzam seu caminho.

Entre os candidatos acéfalos para virar comida do rato com feições humanas está uma equipe americana formada pelo fotógrafo Mark (Werner Pochath), sua assistente Monique (Ana Silvia Gruyllon) e as modelos Peggy (Luisa Menon) e Marilyn (Eva Grimaldi), além do escritor de histórias de mistérios Fred Williams (David Warbeck), que foi para o Caribe pesquisar materiais para seus livros, e Terry (Janet Agren), que veio dos Estados Unidos procurar sua irmã Marilyn para tentar uma reaproximação.

Enquanto ocorrem mortes misteriosas na região, com as vítimas apresentando escoriações e ferimentos bizarros, um incompetente inspetor da polícia local, Lopez (Franklin Dominguez), tenta descobrir a autoria dos assassinatos.

“O Rato Humano” é uma daquelas tranqueiras de horror onde se consegue alguma diversão nas cenas com o monstro pequenino (literalmente), que salta sobre suas vítimas, com grunhidos estridentes, rasgando suas carnes com os dentes e garras venenosas afiadas. E o mais bizarro é que a criatura não é obtida artificialmente com algum efeito tosco, uma fantasia de borracha ou boneco animatrônico, e sim com a atuação de um ator real de apenas 72 cm de altura, que ganhou também uma maquiagem para ajudar na concepção da criatura carnívora. Aliás, Nelson de la Rosa (que nasceu na República Dominicana) também participou do filme “A Ilha do Dr. Moreau” (1996), ao lado de Marlon Brando e Val Kilmer, e faleceu aos 38 anos em 2006.

Como o entretenimento está quase que totalmente associado apenas aos momentos em cena do pequeno monstro, é uma pena que ele aparece pouco, e seus ataques mortais deveriam ser mais intensos e constantes, uma vez que a história não desperta grande interesse e a narrativa é arrastada em boa parte do filme.

É curioso notar como era a tecnologia disponível na época (sem fotos digitais e celulares), e vemos que o escritor utiliza uma máquina de datilografia, que o fotógrafo precisa revelar suas fotos e é uma dificuldade imensa encontrar um telefone disponível nos arredores da vila perdida no Caribe.

O filme também recebeu o manjado e totalmente sem criatividade título alternativo original “Terror House”, numa distribuição em DVD alemão, que foi a cópia que vi legendada no “Youtube”.   

 

(Juvenatrix – 09/10/20)





terça-feira, 6 de outubro de 2020

A Noite do Terror / A Noite dos Mortos-Vivos (Le Notti del Terrore / Nights of Terror, Itália, 1981)

 


“A terra irá tremer... covas serão abertas... eles virão até os vivos como mensageiros da morte e haverá as noites de terror...”

 

O cinema fantástico italiano é muito divertido e sangrento. A lista de filmes é imensa, assim como os diretores que associaram seus nomes e eternizaram suas obras na história do horror bagaceiro. Em 1981, o cineasta Andrea Bianchi lançou uma pérola do horror explorando o sub-gênero dos zumbis, “Le Notti Del Terrore”. O filme recebeu vários títulos no Brasil, como sempre apenas para confundir e atrapalhar um eventual trabalho de catalogação e organização dos colecionadores e apreciadores.

A Noite do Terror” foi o nome no lançamento em VHS pela “Century Video” (com uma capa péssima, sem relação com o filme). “A Noite dos Mortos-Vivos” no lançamento em VHS pela “Poderosa Filmes” (aliás, confundindo o nome com o clássico de George Romero, de 1968). Completando a bagunça, também recebeu o título “Noites de Terror” quando foi lançado em DVD pela “Versátil”, no box “Zumbis no Cinema – Volume 2”. Para o mercado internacional recebeu também os nomes “Nights of Terror” e “Burial Ground”, entre outros.

 

O filme tem apenas um fiapo de história, “mortos-vivos despertados que atacam um grupo de pessoas presas numa mansão isolada, com o único objetivo de rasgar seus corpos e devorar suas carnes”. Mas, o que interessa mesmo e sendo o motivo da diversão, é precariedade geral da produção, com a exagerada violência sangrenta dos ataques (e se ainda impressiona atualmente, imagine no distante ano de 1981...), além da maquiagem e efeitos toscos dos zumbis.

Um veterano pesquisador de ciências ocultas (Renato Barbieri) descobre um segredo misterioso na inscrição de uma pedra antiga retirada de uma escavação arqueológica, despertando acidentalmente uma legião de ancestrais etruscos mortos-vivos, que o atacam violentamente ao sair de seus túmulos frios de pedra e covas podres sob a terra.

Os zumbis então vão até uma mansão isolada próxima para atacar um grupo de pessoas convidadas pelo professor historiador. No grupo, temos dois empregados da mansão, Nicholas (Claudio Zucchett) e Kathryn (Anna Valente), e três casais, George (Roberto Caporali), Evelyn (Maria Angela Giordan) e seu filho Michael (Peter Bark), além de Janet (Karin Well) e Mark (Gian Luigi Chririzzi), e James (Simone Matiolli) e Leslie (Antonietta Antinori).

Com o caos instaurado, resta somente ao grupo sitiado no imenso casarão com estilo gótico, lutar desesperadamente por suas vidas, se defendendo dos mortos-vivos asquerosos que querem saciar a sede de sangue e fome de suas carnes.

 

“A Noite do Terror” é uma preciosidade do cinema tranqueira de horror, extremamente divertido não pela história simples, rasa e quase inexistente, com personagens acéfalos que estão ali apenas para servir de vítimas dos zumbis e que merecem mortes dolorosas, mas pelos excessos de violência, sangue e cenas gráficas de mortes. Seguindo a escola tradicional dos zumbis lentos, eles comem a carne humana, são destruídos apenas com ferimentos na cabeça e as vítimas retornam também como mortos-vivos. Um diferencial é que os zumbis até evidenciam um certo grau de inteligência, quando organizam ações em grupos e portam armas como machados e foices para seus ataques.

O filme tem decapitação, cabeças esmagadas, zumbis em chamas (nesse caso em cenas bem produzidas e convincentes) e tripas dilaceradas num banquete de sangue. Um destaque certamente é o trabalho tosco de maquiagem dos zumbis, com vermes saindo das cavidades dos olhos, e os efeitos das mortes violentas, tudo sem a artificialidade da computação gráfica, garantindo os momentos de entretenimento.

Apesar de ter “noite” no nome, a primeira parte dos ataques dos zumbis é toda realizada em plena luz do dia. O ator Peter Bark, que interpreta o garoto Michael, tinha na verdade 26 anos na época, e realmente não parecia uma criança, mas como tem algumas cenas bizarras no relacionamento dele com a mãe, é fácil entender porque escolheram um adulto com estatura menor para esse papel. Como a quantidade de zumbis em cena é grande, é até compreensível por questões de orçamento que parte deles nem estejam maquiados adequadamente, pois em algumas cenas podemos ver os rostos dos atores apenas pintados de verde, sem a maquiagem de mortos putrefatos.

Curiosamente, a primeira vez que vi o filme foi por volta de 1988, numa fita VHS com o nome “A Noite dos Mortos-Vivos”, alugada de uma locadora de bairro. Até hoje, sempre que passo perto do local onde ela ficava lembro-me desse filme e do aluguel da fita. É um momento nostálgico que ficou eternamente gravado na memória.          

 

(Juvenatrix – 05/10/20)








sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Ecos do Além (Stir of Echoes, EUA, 1999)

 


(Texto escrito em Fevereiro de 2004 e publicado originalmente no fanzine Juvenatrix # 83 versão impressa)


“Em toda mente existe uma porta que não deveria nunca ser aberta”


O período que compreendeu o final dos anos 90 do século passado pode ser bem lembrado pelos apreciadores do cinema de horror, devido à produção de alguns ótimos filmes com temáticas similares explorando histórias de fantasmas, suspense sobrenatural e comunicações com mortos. O pódio resultante da mistura desses atraentes elementos do cinema fantástico é formado principalmente por “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense, 1999), de M. Night Shyamalan e com Bruce Willis, “Revelação” (What Lies Beneath, 2000), de Robert Zemeckis e com Harrison Ford e Michelle Pfeiffer, e finalmente por “Ecos do Além” (Stir of Echoes, 1999), de David Koepp e com Kevin Bacon, esse último baseado num livro do especialista Richard Matheson. Todos os três filmes, a propósito, possuem um nível de qualidade muito próximo, apresentando histórias interessantes e bem narradas, garantindo bons momentos de entretenimento.


Em “Ecos do Além”, a história apresenta uma típica família americana formada por Tom Witzky (Kevin Bacon), um técnico da companhia telefônica meio cansado de sua vida “comum”, casado com Maggie (Kathryn Erbe), que está grávida novamente, e pelo pequeno filho do casal, Jake (Zachary David Cope), de apenas cinco anos de idade. Eles se mudam para uma casa alugada num bairro operário de Chicago e a rotina de suas vidas estava seguindo seu rumo normal até que numa festa com os amigos, a cunhada de Tom, Lisa (Illeana Douglas), faz comentários sobre suas atividades com hipnose. Uma vez incrédulo sobre o assunto, Tom aceita um desafio de ser hipnotizado por ela. Como “em toda mente existe uma porta que não deveria nunca ser aberta”, como anuncia sabiamente a “tagline” promocional do filme, Tom faz uma viagem pelos desconhecidos caminhos de sua mente, e ao retornar da transe hipnótica, uma porta ficou aberta permitindo uma comunicação com “o outro lado”.

Tom descobre que seu filho Jake é também um garoto com poderes especiais, sendo considerado uma espécie de “receptor”, e eles passam a partir daí a viverem uma experiência sobrenatural envolvendo comunicação com mortos, pesadelos assombrosos, previsão de eventos trágicos, a aparição de um atormentado fantasma de uma garota chamada Samantha Kozac (Jennifer Morrison), e um terrível mistério relacionando a casa, seus vizinhos, entre eles, Frank McCarthy (Kevin Dunn) e Harry Damon (Conor O’Farrell), e uma jovem adolescente desaparecida há seis meses no bairro. Agora, a somatória desses eventos “fora do comum” poderia colocar em perigo a segurança de sua família.      


“Ecos do Além” é uma bem contada história de fantasmas, apesar de inevitavelmente apresentar alguns elementos já vistos anteriormente pelo cinema fantástico. Sua idéia básica mostra um fantasma atormentado com o desejo de que o mundo saiba de seu assassinato e que seu corpo escondido seja localizado. Um pouco antes, em 1998, algo similar foi apresentado no filme japonês “Ringu”, com a temível Sadako Yamamura (e que foi refilmado nos Estados Unidos em 2002 com a vingativa Samara Morgan). 

Mas é importante salientar que muitas pessoas se confundem e pensam que o “Ecos do Além” é uma cópia inferior de “O Sexto Sentido”. A verdade é que ambos os filmes foram produzidos coincidentemente no mesmo período, utilizando elementos similares em suas tramas. Devemos lembrar que “Ecos do Além” foi baseado num livro de Richard Matheson escrito em 1958 e consequentemente muito antes do livro de Kôji Suzuki publicado em 1989 e que inspirou “Ringu”, e também muito antes de M. Night Shyamalan escrever o roteiro de seu sucesso de bilheterias “O Sexto Sentido”.  


No filme de David Koepp não existem cenas fortes de violência e excesso de sangue em profusão, pois a história procurou se concentrar mais em elementos sobrenaturais com um suspense psicológico e horror sutil que conseguem envolver a atenção do espectador.  Mas duas cenas em especial se destacam, que apesar de pouca carga de violência e intensidade, conseguem transmitir um sentimento perturbador e doloroso, mesmo sendo atitudes mais simples e de pouco sangue, quando comparadas a uma infinidade de atrocidades vistas em outros filmes. Primeiro é uma seqüência onde num momento de alucinação e confusão mental, o protagonista Tom Witzky está olhando para seu reflexo num espelho no banheiro e começa a arrancar lentamente com as mãos um de seus dentes frontais, num processo agonizante para quem está testemunhando, como nós, a estranha atitude de auto flagelo (a qual mais tarde seria justificada numa importante revelação). Outra cena perturbadora é quando a jovem Samantha Kozac está tentando se defender de um estupro e ao pressionar sua mão contra o chão, lentamente vemos uma das unhas se desprendendo do dedo até a separação total, se constituindo certamente num ato carregado de muita dor.   


Em várias produções de ficção científica e horror podemos observar cenas onde os personagens estão lendo livros ou vendo filmes na televisão ou cinema, e essas oportunidades são aproveitadas pelos cineastas para homenagear outros escritores e diretores colocando-os em evidência. Por exemplo, em “Ecos do Além”, houveram algumas homenagens interessantes, como numa cena onde a babá Debbie Kozac (Liza Weil) está aproveitando sabiamente seu tempo livre enquanto o garoto Jake Witzky está em seu quarto, para ler um livro do próprio Richard Matheson (autor da história que serviu de base para o roteiro de David Koepp). A obra escolhida foi “The Shrinking Man”, que já foi filmada em 1957 como “O Incrível Homem Que Encolheu”, e que terá uma refilmagem com previsão de lançamento em 2005. Outras homenagens foram quando o garoto Jake está em seu quarto assistindo TV e aparecem cenas de um filme antigo sobre múmias e também do eterno clássico de zumbis “A Noite dos Mortos Vivos” (68), de George Romero.


O nome original do filme é “Stir of Echoes”, que traduzido do inglês significaria algo como “Tumulto de Ecos”, e até que a escolha do nome nacional foi boa como sendo “Ecos do Além”, se situando dentro da proposta da história que tem em seu argumento básico uma interação entre o nosso mundo real e um universo habitado por fantasmas.


O americano David Koepp nasceu em 1964 em Wisconsin. Seu currículo como diretor é pequeno, sendo mais conhecido como roteirista, tendo participado de filmes importantes como “Parque dos Dinossauros” (93) e a seqüência “O Mundo Perdido” (97), ambos de Steven Spielberg, “O Pagamento Final” (93), com Al Pacino, e “Missão: Impossível” (96), com Tom Cruise, ambos de Brian De Palma, “O Quarto do Pânico” (2002), com Jodie Foster, e “Homem-Aranha” (2002), de Sam Raimi. Atualmente, ele está envolvido nos projetos de “Secret Window”, baseado em obra literária de Stephen King, e na seqüência “Homem-Aranha II”.

O escritor Richard Matheson nasceu em 1926 em New Jersey e em sua consagrada carreira literária figuram várias obras que serviram de base para o cinema fantástico em filmes como por exemplo “Mortos Que Matam” (64) e “A Última Esperança da Terra” (71), produzidos a partir de seu livro de vampiros “Eu Sou a Lenda”, ou ainda “Em Algum Lugar do Passado” (80), baseado na novela “Bid Time Return”. Sem contar sua ativa participação como roteirista como na série de filmes baseada na obra de Edgar Allan Poe e dirigida por Roger Corman, composta por “O Solar Maldito” (60), “A Mansão do Terror” (61), “Muralhas do Pavor” (62) e “O Corvo” (63), além de “Robur, o Conquistador do Mundo” (61), “Farsa Trágica” (64), “As Bodas de Satã” (68, Hammer), “Encurralado” (71, de Steven Spielberg), “A Casa da Noite Eterna” (73), “Drácula” (73), entre outros. Sua participação em séries de televisão é igualmente marcante tendo escrito vários episódios de “Além da Imaginação” (59/64), “Thriller” (60/62), “Jornada nas Estrelas” (66/69), “Galeria do Terror” (70) e “Histórias Fantásticas” (85/87).      

O principal nome do elenco de “Ecos do Além” é o americano Kevin Bacon, nascido na Pennsylvania em 1958. Curiosamente, ele é um daqueles poucos atores que conseguiram destaque e projeção em suas carreiras artísticas tendo praticamente começado como um dos jovens assassinados em “Sexta-Feira 13” (80), filme que deu origem à extensa franquia do psicopata Jason Voorhees, sendo que a maioria dos seus colegas do mesmo período acabaram sumindo no anonimato. Outro ator com histórico semelhante é o talentoso Johnny Depp, que começou sua brilhante carreira numa ponta em “A Hora do Pesadelo” (84). Kevin Bacon tem uma carreira que inclui mais de 50 filmes e algumas outras produções em que participou dentro do gênero fantástico são “O Caso do Demônio Assassino” (83), “O Ataque dos Vermes Malditos” (90), “Linha Mortal” (90), “Garotas Selvagens” (98), “O Homem Sem Sombra” (2000) e “Encurralada” (2002).


Observação: Em 2007, foi lançado “Ecos do Além 2” (Stir of Echoes: The Homecoming), uma produção para a televisão, escrita e dirigida por Ernie Barbarash e com Rob Lowe  Um soldado americano é ferido gravemente numa guerra no Iraque após se envolver num incidente com vítimas queimadas e violentamente mortas. Ao retornar para casa e despertar do estado de coma, ele passa a ter visões de um fantasma perturbado, que quer se comunicar em busca de vingança.


Ecos do Além (Stir of Echoes, Estados Unidos, 1999). Artisan Entertainment. Duração: 99 minutos. Direção de David Koepp. Roteiro de David Koepp, baseado no livro “A Stir of Echoes”, de Richard Matheson. Produção de Judy Hofflund e Gavin Polone. Produção Executiva de Michele Weisler. Música de James Newton Howard. Fotografia de Fred Murphy. Edição de Jill Savitt. Elenco: Kevin Bacon (Tom Witzky), Kathryn Erbe (Maggie Witzky), Illeana Douglas (Lisa), Zachary David Cope (Jake Witzky), Kevin Dunn (Frank McCarthy), Conor O’Farrell (Harry Damon), Liza Weil (Debbie Kozac), Lusia Strus (Sheila McCarthy), Stephen Eugene Walker (Bobby), Mary Kay Cook (Vanessa), Larry Neumann Jr. (Lenny), Jennifer Morrison (Samantha Kozac). 


(Juvenatrix - Fevereiro de 2004)

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A Vingança do Monstro (Tobor the Great, EUA, 1954, PB)

 


Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, com a turbulência política polarizada entre as duas grandes potências da época, Estados Unidos e antiga União Soviética, iniciou-se uma guerra fria com desconfiança mútua e que trouxe ao mundo uma paranoia do apocalipse nuclear, um medo terrível que a humanidade aniquilasse o próprio planeta.

Surgiram a partir daí muitos filmes de ficção científica e eventualmente com elementos de horror, explorando o medo de uma guerra com bombas atômicas e a necessidade de uma corrida armamentista e conquista espacial.

Em 1954, a “Republic”, uma distribuidora de filmes com orçamentos reduzidos, lançou “A Vingança do Monstro” (Tobor the Great), com fotografia em preto e branco, duração curta de apenas 76 minutos e direção de Lee Sholem, apresentando uma história com um enorme robô (o “Tobor” do título original, que na verdade é “robot” soletrado de trás para frente), que foi criado para pilotar o primeiro foguete americano rumo ao espaço.

 

Os cientistas Prof. Arnold Nordstrom (Taylor Holmes) e Dr. Ralph Harrison (Charles Drake) estão trabalhando no programa espacial americano, no desenvolvimento de foguetes nucleares. Eles concordam que é muito perigoso a utilização de astronautas humanos nos testes dos voos espaciais, arriscando suas vidas em protótipos de foguetes experimentais. Como solução alternativa, o Prof. Nordstrom constrói um robô enorme ou um simulador elétrico do Homem, como ele definiu, uma espécie de ser sensitivo com instinto sintético, comandado pela percepção extra-sensorial do seu criador.

Brian Roberts (Billy Chapin), o inteligente neto de apenas onze anos do Prof. Nordstrom, acaba criando uma relação de amizade com o robô, sempre supervisionado pelo avô e acompanhado à distância pela mãe viúva do rapaz, Janice Roberts (Karin Booth). Porém, logo o extraordinário robô desperta a atenção de espiões estrangeiros infiltrados nos Estados Unidos, interessados em sua tecnologia voltada para fins militares, a criação de um exército de robôs com estímulos destrutivos, e na disputa da corrida espacial da guerra fria, devido suas habilidades na pilotagem de foguetes.

 

“A Vingança do Monstro” (título nacional mal escolhido e apelativo) é mais uma daquelas preciosidades do cinema fantástico antigo de baixo orçamento. Sim, o roteiro é simples, previsível e ingênuo, o elenco é apenas esforçado, os efeitos são toscos, mas a soma disso tudo é diversão garantida, principalmente pelas cenas com Tobor (uma em especial é hilária, quando ele está dirigindo um jipe). Ele  também é um dos robôs que ficaram eternizados, apesar de bem menos conhecido. Mesmo num patamar menor, certamente está figurando ao lado de outros mais populares e clássicos como “Maria” (“Metropolis”, 1926), “Gort” (“O Dia Em Que a Terra Parou”, 1951), “Robby” (“Planeta Proibido”, 1956) e “B-9” (série de TV “Perdidos no Espaço”, 1965-1968).

A casa do Prof. Nordstrom, onde em seu laboratório subterrâneo ele inventou o robô piloto espacial, é repleta de aparelhos e dispositivos tecnológicos altamente impressionáveis na época, com sistemas sofisticados de alarme e monitoramento por telas, e que certamente soam comuns e antiquados para nosso tempo. Mas, são justamente características como essas que despertam a curiosidade dos apreciadores do cinema bagaceiro. 

Curiosamente, numa jogada de marketing muito utilizada na época com filmes similares, os cartazes de divulgação mostram o robô Tobor segurando em seus braços uma bela mulher, o que não acontece no filme. Na verdade, ele apenas carrega nos braços o neto do cientista, o garoto com quem cria um laço de afeição.

 

(Juvenatrix – 30/09/20)