sábado, 28 de agosto de 2021

Tripulação de Esqueletos

 

Tripulação de Esqueletos (Skeleton Crew), Stephen King. Tradução: Louisa Ibañez. Capa: Silvana Mattievich. 854 páginas. Rio de Janeiro: coleção Ponto de Leitura/Objetiva, 2011. Lançamento original em 1985.



Esta é a terceira coletânea de histórias publicada por Stephen King. A primeira foi Sombras da Noite (Night Shift; 1978) e a segunda foi Quatro Estações (Different Seasons; 1982). Em relação a elas, Tripulação de Esqueletos é muito maior no número de páginas e também na quantidade de histórias. E é também mais variada em termos temáticos e de experimentação de estilo. Temos 22 histórias, a maioria de horror, mas há também algumas de ficção científica e outras em que os gêneros se misturam, uma característica que se afirmaria ao longo de sua carreira. King apresenta, ainda, dois poemas, um deles, “Para Owen” (1985), dedicado a um de seus filhos.

A história que abre o livro é uma de suas mais conhecidas e impactantes, “O Nevoeiro” (1980), originalmente publicada na antologia Dark Forces. É difícil crer que algum leitor do gênero fantástico não a conheça, até porque recebeu uma ótima adaptação ao cinema em 2007, dirigida por Frank Darabont e virou uma minissérie em 2017.

Após uma forte tempestade uma localidade litorânea no Maine fica completamente devastada. Queda de árvores, destruição parcial de casas e carros, ruas e estradas interditadas e colapso da energia elétrica e nas comunicações. David Drayton, sua esposa e seu filho pequeno tentam se achar em meio ao caos em sua residência, quando avistam, de súbito, uma névoa estranha se aproximando no horizonte. Estranha porque ela é perfeitamente perpendicular e, aparentemente, se aproxima de maneira uniforme. David, seu filho e um vizinho partem para o centro da cidade, Bridgton, para comprar comida e suprimentos. Mas, depois de entrarem no supermercado, não conseguem mais sair, pois o nevoeiro tomou conta de toda a paisagem. Pois a questão não é a névoa em si, mas o que ela traz em seu interior.

Estranhos e terríveis monstros habitam o interior da neblina, e aqueles que deixam o supermercado são devorados quase que instantaneamente. Há seres semelhantes a aranhas enormes, polvos, ptrossauros e outros cada um mais aterrorizante que o outro. David, seu filho e as demais pessoas do supermercado vivem a fase da descrença, da resistência e, finalmente, do desespero. Como a energia e as comunicações estão cortadas, eles estão, literalmente, isolados dentro do local e cercados por forças apavorantes. Alguns se evadem do local e morrem, outros cometem suicídio, um outro grupo segue a Sra. Carmody, uma fanática religiosa que relaciona o fenômeno a uma vingança divina contra os pecadores. No meio desta confusão, David, seu filho e alguns outros tentam resistir ao perigo interno e externo. A violência pode explodir entre as pessoas e o mercado pode ser invadido a qualquer momento pelos monstros. O que fazer? O desespero e, por fim, um sentimento de fatalidade se instala. Mesmo assim, David lidera um grupo que tentará sair do local em busca de ajuda e explicação para um horror insólito como este. Esta história impõe um suspense dos mais intensos que já li. E ele é assim também porque conforme os acontecimentos irão se desenrolando participamos do horror dos personagens, pois fica claro que não haverá escapatória para ninguém. Contudo, David e seu grupo saem do mercado em direção à cidade de Hartford, pois ele teria ouvido uma voz do outro lado da linha de um telefone ainda no mercado. Mas King deixa o desfecho sem solução, o que, de certa forma, me angustiou ainda mais.

Depois de uma história como esta dificilmente o livro, por melhor que fosse, poderia manter o nível e, talvez, a decisão mais correta seria colocar “O Nevoeiro” como a última da coletânea. Tal é seu impacto que tive que dar um tempo para voltar ao livro, pois os efeitos ficaram reverberando sem que eu conseguisse me concentrar novamente. E isso mesmo já tendo conhecido previamente a história por meio do filme.

Em todo caso, como estamos diante de Stephen King, o nível médio da coletânea manteve-se mais do que adequado. Seguem-se mais 19 peças de ficção e dois poemas. E a maioria das histórias são noveletas, maiores do que um conto e menores que uma novela, como “O Nevoeiro”.

O perfil das histórias do livro está distribuído de forma aleatória, então o leitor não sabe previamente que tipo de tema virá a seguir. Isso, permite uma experiência estimulante e, por vezes, surpreendente, embora soe também meio desequilibrado, como se as histórias tivessem sido juntadas de qualquer forma.

Entre as narrativas de horror mais explícito há algumas realmente poderosas e até indigestas. Como, por exemplo, “Sobrevivente” (1982). Um cirurgião sobrevive a um naufrágio e vai parar numa ilha deserta. Não há comida disponível e, então, ele se utiliza do seu próprio corpo para se manter vivo por mais tempo. Deu para perceber do que estou a falar? É uma narrativa difícil de ler até o final, pois vai ficando insuportável. Até King chegou a dizer que havia sido demais mesmo para ele.

Outra história de horror surpreendente e fatalista é “A Balsa” (1982). Um grupo de adolescentes vai até uma praia deserta e, após subir num pequeno bote é cercado por uma estranha mancha escura que surge de repente. A princípio pensam que se trata de um óleo vazado de algum lugar, mas quando ela os ataca eles percebem que estão diante de um horror desesperador. De novo, King não alivia para os personagens e o leitor. E talvez por isso seja uma das melhores histórias da coletânea.

O Macaco” (1980) remete àquele tipo de horror relacionado com símbolos e objetos da infância. É um relato sobre um macaco de brinquedo sobrenatural, que provoca a morte dos entes queridos de Hal Shelburn, quando ele era criança. Muitos anos depois, o macaco reaparece, assombrando sua vida de novo. História sinistra.

Também sinistra é a noveleta “Vovó” (1984). Relato de um menino que se vê sozinho em casa com a avó muito doente. Chama a atenção pelo seu alto grau de detalhismo das situações e do medo que se instala na criança. Pois, para além de eventualmente ter de lidar com a situação de ter de socorrê-la, ou dela morrer, há um histórico estranho e mal contado da avó, que, através da manipulação de livros obscuros, teria conseguido engravidar, após seguidos insucessos. Paira mesmo na família um sentimento de temor e desconforto por ela. Para completar, o desfecho sai do horror psicológico e adentra o sobrenatural. Grande história.

Como disse acima, há três narrativas de FC: “A Excursão” (1981), “O Atalho da Sra. Todd” (1984), e “Um Mundo de Praia” (1984). Todas muito boas, embora o eixo condutor da narrativa esteja voltado ao suspense e ao horror. A primeira delas aborda um tema hard, o do teletransporte. Às vésperas de embarcarem para Marte, um pai conta a seu filho como aconteceu descoberta tão revolucionária. Depois de várias tentativas frustradas com ratos, o inventor descobre que para que dê certo, é preciso estar inconsciente. Caso contrário, as consequências podem ser muito desagradáveis. Fascinado, o menino resolve tirar a prova. “O Atalho da Sra, Todd” é uma história agradável e surpreendente, sobre o tema do universo paralelo. No caso, é o da personagem do título que desaparece subitamente, ao procurar o atalho perfeito pelas estradas vicinais do estado do Maine. King disse ter se inspirado em sua esposa, que também sempre procura por atalhos na mesma região em que vivem. E a terceira, “ Um Mundo de Praia” volta a flertar com o horror. Uma pequena nave cai num planeta desconhecido e os dois tripulantes sobreviventes percebem que só há areia em toda sua superfície. A premissa é ótima e o desenvolvimento não menos que perturbador. Como se vê, ela dialoga com “O Sobrevivente”, comentado antes.

Um recurso recorrente neste livro é o das histórias dentro de histórias. Ou seja, o personagem principal conta aos outros algum fato ou experiência que ele mesmo viveu e, desta, forma, é a história pretérita a verdadeira trama apresentada. Vale a pena comentar, especialmente duas: “O Homem que Não Apertava Mãos” (1981) e “A Balada do Projeto Flexível” (1984). Na primeira temos o triste relato de um homem assombrado por uma praga, proferida pelo pai de um menino que ele, acidentalmente, matou num acidente de carro. O que se discute é o quanto pode estar sozinho um homem? E como lidar com uma maldição?

Já “A Balada do Projétil Flexível”, a segunda história mais longa do livro, trata do tema da loucura e do suicídio de escritores. Talvez seja uma das primeiras abordagens de King sobre o estado mental e a condição do seu próprio ofício, que teria pelos anos posteriores algumas histórias que se tornariam clássicas como, por exemplo, Angústia (Misery; 1987), A Metade Negra (The Dark Half; 1989) e Janela Secreta, Jardim Secreto (Secret Window, Secret Garden; 1990).

Em A Balada...” um editor conta a história de um jovem escritor de sucesso que cometeu suicídio, após acreditar que haveria uma conspiração no mundo contra ele e seus seres imaginários, os fornits, que seriam os verdadeiros autores dos textos que ele escrevia. Seres minúsculos que movimentariam as teclas da máquina de escrever. Na tentativa de ajudar o autor a superar seus horrores internos, o próprio editor, em crise pessoal e profissional, também acabou embarcando na loucura. Bom, se ele está a contar a história ele não morreu. Mas seu preço também foi muito alto. É um relato desconcertante sobre como uma desordem mental pode se instalar na mente de uma pessoa e tornar sua vida um inferno. Esta novela foi capa da edição de junho de 1984 de The Magazine of Fantasy & Science Fiction – veja a capa acima.

Outras narrativas do livro adotam um tom marcadamente intimista, quase mainstream, em que o fantástico é apenas um leve fio condutor, como em “Nona” (1978), “Festa de Casamento” (1980) e “O Braço de Mar” (1981). Mas todas impressionam pelo vigor narrativo e a habilidade de construção das tramas e personagens, uma das principais qualidades do autor.

A edição de Tripulação de Esqueletos que li é a segunda lançada no Brasil, décadas depois da primeira, de 1987, pela Francisco Alves Editora, em sua célebre coleção Mestres do Horror e da Fantasia. Esta foi uma das pouquíssimas edições do King desta coleção que não tive a chance de comprar, e acabei por ler uma edição de bolso. Ruim de manusear, devido ao peso e o volume gigantesco de páginas. Em todo caso, com as facilidades de pesquisa permitidas pela internet creio que acabarei por encontrar a edição para completar a coleção.

Numa prova de seu impacto e qualidade Tripulação de Esqueletos venceu o Prêmio Locus e foi finalista do World Fantasy em 1986, ajudando a consolidar a reputação de King na época. Isso só ilustra o fato de que a coletânea apresenta ao leitor um cardápio dos mais variados, servindo como uma introdução segura aos principais temas e interesses do mestre contemporâneo do horror. Mas mesmo para os leitores mais experientes de sua vasta obra, há sempre algo novo a se descobrir num autor tão talentoso e que sempre pode nos surpreender e desestabilizar.

Marcello Simão Branco


terça-feira, 3 de agosto de 2021

O Vagabundo das Estrelas

O Vagabundo das Estrelas (L´Orphelin de Perdide), de Stefan Wul. Tradução de Mário Henrique Leiria. Capa de Lima de Freitas. 154 páginas. Lisboa: Editora Livros do Brasil, Coleção Argonauta, n. 60, 1960. Lançamento original de 1958.

 

Este pequeno romance é o sétimo dos doze da carreira de Stefan Wul. E talvez aquele que escreveu mais rápido, em apenas três semanas. Como os demais, também foi primeiramente publicado na clássica coleção francesa de FC, Fleuve Noir.

O popular contrabandista e viajante espacial Max, a bordo de sua nave, Grande Max, recebe uma mensagem de um amigo antigo, vindo do planeta Perdide. Desesperado, Claude pede ajuda para resgatar seu filho pequeno, após ele e sua mulher sofrerem um ataque de vespas gigantes. Este início é o melhor da história, o momento mais dramático. O suspense em torno da fuga do pai e seu filho é impactante, ainda mais quando só o menino sobrevive, tendo como meio de comunicação um aparelho chamado de micro, uma espécie de drone ovóide, capaz de vencer as barreiras do espaço para estabelecer uma conversa imediata. Uma espécie de ansível antes do recurso tecnológico ser melhor desenvolvido pela escritora norte-americana Ursula K. le Guin (1929-1918).

E é por meio do aparelho que Max passa a orientar a criança e decide partir até Perdide para salvá-lo. Mas não será tão simples, já que ele estava em viagem transportando um casal (Martin e Belle) para o planeda Sidoine. Mas em nome da amizade ele muda a rota para Perdide, com a promessa de depois levá-los ao seu destino, ainda que sob protestos de Martin, um sujeito egoísta e com ciúmes de sua bela esposa, mesmo que Max não demonstre maior interesse nela. Aliás, é curioso também como Wul se debruça em descrever fisicamente Max em várias páginas, como um negro bonito, alto e musculoso que anda seminu em sua nave.

Perdide é muito longe e para encurtar a viagem de 85 dias numa velocidade crescente em direção à da luz, Max resolve utilizar o recurso de pegar carona gravitacional em outros corpos celestes. Assim, a Grande Max chega ao paradisíaco planeta Devil-Ball, cheio de belezas naturais, onde encontra outro velho amigo, Silbad. Este, tocado pelo drama, resolve acompanhá-los na tentativa de resgatar o menino. Mas, antes ainda param em Gama 10, onde Martin foge, após ser flagrado tentando orientar o menino a entrar num lago para se afogar. Na tentativa de capturar o infeliz, Max e Silbad são raptados por uma horda nativa, que é liderada por um sujeito chamado de Mestre, que conserva o seu poder ao manter cativa uma fera monstruosa que se alimenta, entre outras coisas, de carne humana. Quem o desobedece vira comida do bicho. Eventualmente, eles conseguem escapar e retomar sua rota original.

Como se percebe, há uma quebra de expectativas, pois ao leitor é sugerido que o objetivo imediato da história é a tentativa de resgate do menino e suas consequências. Mas uma série de situações novas e arriscadas acontecem sem que se perca, contudo, o fio condutor do enredo. É que com este recurso, é mostrado o estilo de vida despojado de Max, conhecido quase que como uma lenda pela galáxia.

Mas Wul ainda reserva uma surpresa no final do livro, pois ao finalmente chegarem a Perdide são surpreendidos por uma frota espacial em órbita. Eles descobrem que o planeta está amplamente habitado e urbanizado, ao contrário do que conheciam dele. Não encontram mais o menino, pois percebem estupefatos que foram vítimas de uma dilatação temporal que produziu um atraso de um século em sua jornada. Mas Wul deixa tudo mais ou menos no ar, sem dar detalhes dos motivos da ocorrência do paradoxo temporal, o que enfraquece o efeito.

Esta aventura destoa do restante de sua obra, pois o contexto é mais assumidamente juvenil, com uma space opera explícita. Não há o desenvolvimento de um enredo em torno de um evento coletivo dramático ou complexo, e com um subtexto político mais ou menos evidente, por meio do qual os personagens se movem, entremeados por soluções criativas e surpreendentes. Ora, características todas vistas nos seus seis livros anteriores – ver as resenhas aqui. Pois O Vagabundo das Estrelas é todo pulp, mas num sentido fraco, pois o próprio final pode ser vislumbrado por um leitor mais atento ou experiente.

Este livro também foi adaptado para o cinema de animação, com o nome de Time Masters (1982), por René Laloux, o mesmo realizador de Fantastic Planet (1973) – adaptação de O Mundo dos Draags (Oms em Série; 1957), premiado no Festival de Cannes. Isso é uma mostra do fascínio que Wul provocou na ficção científica francesa da segunda metade do século passado, e não sem razão, embora o diretor tenha escolhido talvez a sua história menos inspirada.

Marcello Simão Branco


segunda-feira, 5 de julho de 2021

O Planeta dos Macacos

O Planeta dos Macacos (La Planète des Singes), Pierre Boulle. Tradução de André Telles. 205 páginas. Rio de Janeiro: Pocket Ouro/Agir Editora, 2005. Lançamento original em 1963.


Este é o tipo de livro que de tanto conhecermos a história por meio dos filmes no cinema, série de TV etc., desestimula a leitura, pois espera-se que, a despeito de algumas mudanças, o enredo e as sequências sejam basicamente as mesmas. Apesar disso sempre tive curiosidade em ler a obra original deste clássico do cinema de FC e, se, de fato demorei décadas a fazê-lo por causa desta sensação, achei por bem finalmente tirá-lo do fundo da estante e lê-lo.

Quando lançado, O Planeta dos Macacos causou sensação, tanto pela originalidade da proposta como pela moldura de FC e, principalmente, pelas questões importantes que discute com relação ao que nos faz humanos, de nossa relação com os animais e de uma provocação sobre a questão do racismo. Por tudo isso e pela forma competente como foi escrito, O Planeta dos Macacos é um clássico da ficção científica, embora eclipsado pelo estrondoso (e justo) sucesso do filme de 1968. Pierre Boulle (1912-1994) já era um autor mainstream bem-sucedido, que antes havia publicado outro best-seller A Ponte do Rio Kwai (Le Pont de la Rivière Kwai) (1952), que também se tornou um clássico do cinema sob a direção de David Lean, em 1957.

Ao iniciarmos a leitura, de saída há uma surpresa porque a história toda é um relato manuscrito lançado dentro de uma garrafa que vaga pelo espaço, e é resgatada por um casal que viaja num veleiro. É um recurso clichê, e soa ainda mais exótico e inverossímil neste caso: uma garrafa e um veleiro, como se estivéssemos diante de uma narrativa marítima e não na imensidão infinita do cosmo, embora a analogia entre o mar e o espaço sideral seja recorrente em muitas obras.

Uma missão espacial é lançada da Terra até a estrela Betelgeuse, a belíssima supergigante vermelha, visível a olho nu, como a alfa da Constelação de Órion, situada há aproximadamente 720 anos-luz da Terra – no livro a distância é cravada em 300 anos-luz. Devido aos efeitos de dilatação temporal, provocado pela proximidade da velocidade da luz, os três astronautas chegam ao seu destino como se poucos anos tivessem passado para eles, e três séculos para os habitantes do nosso planeta.

No filme, os astronautas são militares (três homens e uma mulher) e no livro, civis: um cientista, seu assistente e um jornalista. Por comparação, me parece mais plausível a mudança realizada na versão cinematográfica. Ao chegarem a um dos planetas de Betelgeuse, nomeado por eles de Soror (irmã em latim), são surpreendidos ao descobrirem uma linda mulher, Nova – tal qual no filme –, e sua tribo de humanos.

Basicamente, a partir deste encontro os principais acontecimentos são reproduzidos na adaptação para o cinema, embora neste caso, como é de se esperar, com algumas diferenças e mais ação: os humanos são selvagens e não falam; a nave é perdida; muitos humanos são mortos ou capturados por um pelotão de gorilas fortemente armados, e levados à cidade símia, onde são enjaulados para servirem em experiências biológicas. É aqui que Ulysse Mèrou, o jornalista – equivalente ao Capitão Taylor do filme –, também capturado, conhece o casal de chimpanzés Zira e Cornelius, cientistas com a mente mais aberta em relação aos humanos. E o destino dos seus companheiros é semelhante ao do filme: um morre no confronto com os gorilas e o outro é lobotimizado e se torna tão estúpido como os nativos.

Um ponto interessante do livro é a descrição mais apurada da sociedade símia, que no filme é mostrado de forma superficial. Os macacos racionais e civilizados dividem-se em três espécies, cada uma funções específicas no interior da organização social e política. Os orangotangos representam os políticos e os religiosos, ou seja, os setores mais conservadores, responsáveis também pela educação pública; os gorilas são aqueles que exercem as tarefas de segurança e trabalhos mais brutos; e os chimpanzés são os equivalentes aos cientistas e profissionais liberais, setores de classe média com uma visão mais liberal e progressista, e com menos poder de decisão frente aos orangotangos e gorilas. No passado distante, os gorilas governaram com mão de ferro, e houve uma guerra para a libertação da tirania. Com a paz, foi estabelecido este equilíbrio de poderes e funções que, até certo ponto, revelou-se bem-sucedido.



Ulysse é visto com curiosidade, perplexidade e, finalmente, como uma ameaça à civilização símia, especialmente depois de Cornelius descobrir as ruínas de uma cidade construída pelos humanos num passado de milhares de anos, e do nascimento de um menino, a partir de seu relacionamento com Nova.

Descobre-se ainda que houve um processo evolutivo invertido em Soror pois, assim como na Terra, a civilização dominante e única era a humana, que subjugava os macacos. Contudo, devido a uma espécie de doença chamada de “preguiça cerebral” (!) a humanidade foi perdendo sua resiliência e discernimento racional, ao mesmo tempo que os macacos aumentaram sua capacidade de imitar as caraterísticas humanas. Desta forma, houve uma inversão, com o macacos se tornando inteligentes, conscientes de si e racionais e os humanos decaindo para uma condição irracional, a ponto de perderem a linguagem e sua capacidade de comunicação. Ao que parece, Pierre Boulle está a defender uma tese aqui, mas o argumento é apresentado de forma muito ligeira e incompleta. Afinal o que aconteceu com a humanidade de Soror? Que espécie de apatia, torpor, “preguiça cerebral” é esta? Uma doença, por certo. Mas não ficou claro.

A explicação, como se sabe, virá com a série de cinco filmes realizados entre 1968 e 1973 (e uma segunda extrapolação na série revisionista nos quatro filmes entre 2001 e 2017), no qual, grosso modo, a inteligência dos macacos é revelada a partir da fuga de alguns macacos após a explosão da Terra. Eles voltam no tempo e, entre outras consequências, se estabelece o costume de usar os macacos para trabalhos braçais e animais de estimação, depois de uma praga exterminar os cães e gatos. Seguem-se guerras, até que os primatas antropoides assumem o poder sobre seus antigos senhores. Na primeira versão cinematográfica está presente também uma contribuição relevante, ausente no livro, a da chamada Zona Proibida, uma região inabitável por conter resíduos radioativos advindos de um holocausto nuclear. Os chimpanzés, como Cornelius, intuem o que poderia ter provocado esta situação, mas o domínio do saber e da tradição controlado pelos orangotangos, impede o reconhecimento e divulgação do conhecimento. Em todo este desdobramento da primeira série no cinema, há uma vinculação central entre o contexto da Guerra Fria e as possíveis consequências da corrida nuclear.

No primeiro filme, a preservação que o Dr. Zaius, o líder dos orangotangos, ministro da Ciência e da Fé, faz da verdadeira origem dos macacos a partir da queda dos humanos tem um forte componente religioso, enfatizando a dicotomia entre o dogma da crença e a busca livre do conhecimento, só possível através da ciência. Corolário aqui é a discussão entre uma tendência criacionista, da tradição, contra uma evolutiva, da mudança.

Outro aspecto com o qual a obra costuma ser interpretada é de uma metáfora com o imperialismo europeu e, além disso, com o racismo, em especial aqueles historicamente praticados contra os negros. Mostrando uma situação de inversão do domínio branco e ocidental, haveria uma crítica à exploração, discriminação e violência. Mas creio que estas visões tenham sido mais vinculadas à época em que o livro foi escrito e, especialmente, quando do lançamento do primeiro filme, pois vivia-se os últimos anos das disputas por emancipação de colônias na África e à vigorosa emergência da luta pelos direitos civis, em especial nos Estados Unidos. Não que o racismo tenha diminuído, mas é que me pareceu que a interpretação evolucionista tenha ficado mais evidente ao ler a obra, levando em conta também o aspecto do relacionamento abusivo com relação aos animais, em especial com os grandes macacos, nosso parente mais próximo.

O livro é narrado com fluidez e segurança, embora curto, poderia ser mais longo, mostrando o bom escritor que Boulle foi. Este clássico da FC rendeu duas edições no Brasil. Esta com o qual escrevi esta resenha e uma mais recente, da Editora Aleph, de 2015, caprichada, com a inclusão de entrevistas com o autor e artigo de Braulio Tavares – recebeu uma segunda edição em 2019. Mas antes, em Portugal, foram lançadas edições, como as das editoras Ulisseia, Círculo de Leitores e Livros Unibolso, nas décadas de 1960 e 1970. Verdadeiras raridades, das quais tenho a fortuna de ter uma delas, a da Ulisseia, publicada em 1974.

Se o livro e o filme tem estruturas semelhantes, o final difere bastante. No romance, Ulysse, Nova e seu filho Sirius conseguem, com a ajuda de Zira e Cornelius, voltar à Terra, enquanto o filme mostra que, na verdade, devido a uma falha de navegação na trajetória da nave, eles pousaram, sem saber, na própria Terra, milhares de anos depois, dominada por uma civilização de macacos. Nada supera o impacto da cena final do filme, com Charlton Heston (Taylor) descobrindo a verdade chocante ao encontrar a cabeça da Estátua da Liberdade. É um dos momentos mais icônicos e impactantes da história do cinema. Mas o livro, em si, por tudo que comentei, nada deve à adaptação – que inclusive contou com a colaboração no roteiro do próprio Boulle, assim como nos filmes posteriores dos anos 1970 –, e também reserva no final, ao seu modo, uma surpresa de causar espanto.

Marcello Simão Branco


sábado, 22 de maio de 2021

Crônicas da Estrela de Clarke

Crônicas da Estrela de Clarke, Geraldo Boz Junior. 264 páginas. Curitiba: Editora do Gera, 2020.



Num futuro distante a Terra envia sondas ao espaço para a colonização humana em algum planeta longínquo. Na verdade para vários deles, pois muitas sondas são lançadas, contendo embriões humanos para nascerem e viverem – por meio de mecanismos de engenharia nanorrobótica – em outros cantos do universo. Uma destas sondas, ao se aproximar da estrela Clarke, é abalroada por um meteorito e desvia sua rota – prevista para um planeta desabitado – e aterrissa num outro não previsto.

Esta é a premissa inicial do romance Crônicas da Estrela de Clarke, escrito pelo paranaense Geraldo Boz Junior. Mas, a partir da descida no planeta, que recebe o nome de Lukin – olho numa língua antiga da Terra – terá um desdobramento híbrido, digamos, em termos temáticos. Isso porque, conforme as duas inteligências artificiais (Ias) embutidas no interior da sonda – Marki e Alissa – descobrirão, Lukin já é habitado. Os seres são da espécie yampona, humanoides que construiram uma civilização semelhante à da Europa da Idade Média, com vários reinos e feudos, embora esteja ausente uma disputa entre poderes temporais e divinos, já que os povos não cultuam deuses, mas apenas uma ligação com algo semelhante ao sobrenatural, na condição de supostos poderes telepáticos. O detalhe fantástico é que eles convivem – de forma nada amistosa – com o principal predador do planeta, o dragão. O animal, contudo, não tem uma função assessoria na trama, mas, como o leitor constatará, se insere dentro do contexto político entre os reinos.

Com a descoberta da presença dos yampona, a missão de colonização humana fica em xeque, pois se efetivada certamente poderá mudar de forma irreversível o desenvolvimento e o destino dos nativos. Há uma forte controvérsia entre as duas Ias da sonda: Alissa contrária à colonização, e Mark a favor. Pouco a pouco, por meio do contato com Noah, um velho mercador perdido numa ilha distante, após ser raptado por um dragão, as duas Ias irão repensar seus argumentos sobre o que fazer.

O romance é muito movimentado, com uma prosa leve e bons diálogos, e os capítulos se alternam entre o contato de Mark e Alissa com Noah, e a guerra que ocorre entre os reinos de Mawan e Akkessilawa. O primeiro formado pelos boas-pessoas, pacíficos e com uma organização política anarquista, contrastados pelos cavaleiros do outro reino, guerreiros de uma ordem monárquica e ditatorial. São chamados de “parasitas” pelos boas-pessoas, pois eles não ocupam permanentemente os territórios que agridem, mas apenas saqueiam os pertences dos outros, principalmente os alimentos. Nima, neto de Noah, elabora um plano para expulsar os parasitas e, assim, se desenrola uma violenta guerra entre os reinos, no qual à força de um se contrapõe a estratégia do outro.

Como é inevitável em histórias deste tipo, em algum momento as duas narrativas irão convergir e se tornar uma só. Então, um romance que se anuncia como de FC hard acaba por se desenvolver como de fantasia heroica medieval. Em certo sentido, pode frustrar as expectativas de quem esperava uma história de colonização humana, mas o autor é competente em manter o interesse próprio do enredo, tornando esta mistura surpreendente, interessante.

Em todo caso, há uma clara inspiração em Arthur C. Clarke (1917-2008), a começar pelo nome do livro e, também por lembrar um de seus romances, A Canção da Terra Distante (The Songs of Distant Earth) (1986), em que também uma nave de gerações com milhares de pessoas chega num planeta há milhares de anos-luz da Terra, de forma inesperada e imprevista. Mas neste romance, o contexto é de FC o tempo todo, principalmente na dicotomia entre os valores da civilização terrestre e do povo nativo de Thalassa, enquanto que nas Crônicas da Estrela de Clarke, os conflitos são internos aos povos do próprio planeta Lukin.

As Crônicas da Estrela de Clarke é complementado por adendos, contendo explicações sobre os povos e reinos de Lukin, as características físicas e atmosféricas do planeta, da tecnologia de viagem espacial com inteligências artificiais, os aspectos culturais e linguísticos dos povos nativos, além de mapas com a geografia do planeta.

Recebi este livro por iniciativa do próprio autor, que o publicou com recursos próprios em formato digital. Já é o terceiro de sua carreira, os dois anteriores são A Virtuonírica Mundial, dividido em dois volumes: 1 – Origens e 2 – Entrementes – (2015), e Absolutos (2017) – também publicados com recursos próprios e vendidos em livrarias online. Ambos tem um conteúdo de FC mais explícito, o primeiro sobre os efeitos que uma tecnologia de comunicação onírica provoca, ao permitir a visualização e interação com os sonhos; e o segundo sobre a descoberta de um artefato misterioso na Lua.

Como se vê, Geraldo Boz Junior tem boas ideias e, em particular neste romance resenhado, demonstra capacidade de manter o interesse do leitor, com uma história criativa e cheia de surpresas, eivado ainda de situações de humor e com um senso naive que remonta às aventuras pulp das primeiras décadas da FC norte-americana do século passado. O que indica que este livro tem seu público leitor voltado, principalmente, ao segmento infanto-juvenil. Vale a pena ser conhecido, e sugiro ao autor que procure uma editora para publicar o livro de forma impressa. Vai chegar a mais leitores e valorizar a obra enquanto criação literária.

Marcello Simão Branco

sábado, 24 de abril de 2021

Lotófagos

Lotófagos (The Lotus Eaters), Stanley G. Weinbaum. Tradução de Ivan Carlos Regina. 18 páginas. Publicado originalmente em 1935.



Em uma discussão recente num grupo de leitores de FC no whatsapp surgiu o tema dos escritores talentosos, mas que andam esquecidos. Entre outros, foi citado o nome de Stanley G. Weinbaum (1902-1935), por meio da lembrança do escritor Ivan Carlos Regina. Depois que ele descobriu que ninguém havia lido a noveleta “Lotófagos”, Regina resolveu fazer uma tradução pessoal e colocar à disposição dos fãs. E é neste contexto que me surgiu a oportunidade de ler esta história.

Lotófagos” é uma sequência do conto “Parasite Planet” (1935), no qual são apresentados o engenheiro Hamilton “Ham” Hammond e a bióloga Patricia Burlingame. Mas é uma ligação tênue que não prejudica o interesse em ler a noveleta em questão. Depois de se casarem em Vênus, Ham e Patricia saem a explorar o lado oculto do planeta, já que teriam de esperar oito meses para que Vênus ficasse a uma distância mínima que permitisse a viagem para a Terra, onde iriam passar sua lua de mel.

Filha de um cientista famoso, ela seguiu as pesquisas do pai e o passeio se converteu numa exploração sobre as possibilidades de encontrar vida na parte escura de Vênus. Após se depararem com fungos, acham os triops noctivivans, uma espécie semelhante aos morcegos, muito agresssivos e que se alimentam de uma planta que se move e se refugia em cavernas de gelo. De modo surpreendente uma destas plantas responde a uma dúvida surgida numa conversa do casal que, perplexo, resolve estreitar conhecimentos com esta criatura inusitada.

Mas o mais desconcertante estava por vir, pois os lotófagos, como vegetais, embora capazes de pensamentos altamente complexos, não demonstram medo ou resistência diante de seus predadores, os triops noctivivans. A resignação diante do seu destino em servir de comida e ter, por fim, a espécie extinta, deixa o casal chocado, especialmente a bióloga.

Eles já haviam percebido que os lotófagos falam por todos, ou seja, ao falar com um, pode-se continuar a mesma conversa com outro, como se tivesse uma memória coletiva. Para facilitar, são chamados de Oscar e, aos poucos, além destes fatos, eles descobrem que não é bem por serem vegetais que os lotófagos não tem razão para reagir. Mas sim por causa dos efeitos do seu processo reprodutivo, por uma espécie de replicação do próprio corpo, do qual emana uma droga que os torna passivos e conformados. Isso não era um problema antes da chegada dos predadores a esta região do planeta, ocorrida há poucas décadas, sem dar tempo, portanto, para que houvesse um processo de adaptação evolutiva que os pudesse permitir lutar para sobreviver.

É uma noveleta extremamente bem narrada e elaborada em seus argumentos, basicamente racionais e dedutivos. Mostra uma outra forma de inteligência, soando mesmo como não humana em sua forma de pensar e exprimir compreensão da realidade. Este é, seguramente, um dos desafios mais difíceis de serem obtidos na FC: criar uma forma de inteligência alienígena que se pareça realmente alienígena, e não uma emulação ou variação da estrutura de pensamento e comportamento humano.

Lotófagos” é uma joia rara, publicada na edição de julho de 1935 da revista Astounding Science Fiction, e só reafirma a surpreendente maturidade temática e narrativa para um autor tão jovem. Esta história, na verdade, já foi publicada em Portugal na antologia Obras-Primas da Ficção Científica, Volume 2, organizada por Sam Moskowitz para a Galeria Panorama, no final dos anos 1960. E eu já conhecia sua obra através do seu ótimo romance O Novo Adão (The New Adam) publicado na mesma Panorama, em sua Coleção Antecipação no. 37 –, e a noveleta “A Odisseia Marciana” (“The Martian Odissey”, 1934) – publicada duas vezes no Brasil, a primeira na antologia … Para Onde Vamos? (Where do We Go rom Here?), organizada por Isaac Asimov, Editora Hemus, e na antologia Ficção de Polpa no. 2, organizada por Samir Machado de Machado, Não Editora, 2008. E também saiu no Brasil a noveleta A Pirata Espacial (“The Red Pery”; 1935), pela Editora M&C – Coleção Império, 1998.

O Novo Adão trata dos impactos do que ocorreria se surgisse um ser humano acima de nossa escala evolutiva, quase como um super homem. Weinbaum explora a premissa de forma realista, mostrando como sua inteligência superior não levaria, necessariamente, a uma vida melhor para ele e nem para os demais. Já A Odisseia Marciana é uma história pioneira por mostrar de forma verossímil um alienígena pacífico e inteligente, contrário do padrão imaginado nas histórias da época. É, talvez, o seu trabalho mais influente na ficção científica. Para completar o quarteto de histórias publicadas em língua portuguesa, A Pirata Espacial gira torno de uma misteriosa nave rebelde que rapina outras naves e planetas. Mas ao chegar a Plutão se depara com um desafio inesperado, ante a presença de um aventureiro destemido. O leitor deve ter reparado que suas histórias curtas se passam em planetas. Pois assim foi, já que ele escreveu contos em todos os planetas do Sistema Solar.

Com uma obra nem tão pequena em tão pouco tempo de vida: quatro romances e 16 contos e noveletas – e escritas em apenas dezoito meses –, Weinbaum aliou não só ideias ousadas e de subversão aos clichês, mas as desenvolveu com uma complexidade que impressiona ainda hoje. Seguramente, foi uma das maiores perdas para a história da FC, com sua morte precoce, aos 33 anos, de câncer no pulmão. Weinbaum despontava como um autor muito acima da média e é de se pensar o impacto que poderia ter causado no desenvolvimento posterior do gênero, caso tivesse vivido uma vida longa e produtiva.

Vários autores que têm entrado em domínio público estão sendo publicados (e republicados) nos últimos anos, com o avançar do século XXI. Mas um autor como Weinbaum, absolutamente original e precioso, precisa ser praticamente descoberto no Brasil. Fica a sugestão enfática para que alguma editora um pouco mais atenta e sensível, o publique novamente. Um autor com voz e ideias próprias que certamente faria a diferença na imaginação dos leitores.

Marcello Simão Branco


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Cowboy Bebop, um seriado diferente

Anuncia-se para 2021 uma versão cinematográfica em imagem real para Cowboy Bebop. Em princípio é uma boa notícia, considerando que a série original é extraordinária e deixou muitas pontas soltas, com um final até certo ponto decepcionante.
O seriado, dirigido por Shinishiro Watanabe (Estúdio Sunrise), consta de 26 episódios produzidos entre 1998 e 1999. Seguiu-se o mangá, desenhado por Hajime Yatate e que totalizou três volumes – saiu de 1999 a 2000. Finalmente, em 2001, Watanabe dirigiu um OVA de longa-metragem, Cowboy Bebop: Tengoku no tobira.
Infelizmente, o mangá e o filme longo apenas contam novos episódios avulsos, que nada acrescentam ao capítulo 26 do seriado, ou seja, não avançam com a saga ali bruscamente interrompida.
Os personagens são poucos e o argumento muito interessante. É como se fosse um faroeste cósmico: os “cowboys” são caçadores de recompensas, que procuram criminosos com a cabeça a prêmio. A Bebop é uma nave onde viajam três deles: Spike Spiegel (ex-gangster da máfia chinesa “Dragão Vermelho”), Jet Black (ex-policial, com um braço mecânico) e Faye Valentine (cujo passado é misterioso). Ainda aparecem na Bebop o cachorro Ein, que é muito inteligente, e a excêntrica “haker” Ed, de treze anos.
O nome “Ein”, por sinal, é uma abreviação de Einstein — para dar uma ideia da inteligência do cachorro. Quanto a Ed., a seu modo também é inteligentíssima, inigualável num computador, apesar de sua aparência desmazelada de “hyppie” e só andar descalça.
Sem embargo da comicidade de diversos episódios, a história tem uma raiz altamente dramática e um desfecho trágico. É uma história de crime, paixão e vingança, envolvendo um amor frustrado e um caso mal resolvido. Cínico, cético, Spike Spiegel já se considera morto e, por isso, liga pouco para a vida. Jet Black também tem um passado doloroso como policial, algo que lhe valeu a perda do braço. Quanto a Faye, que veio depois, é um caso curioso: atingida pelos cataclismos que vitimaram a Terra, planeta agora praticamente abandonado, foi levada em coma a Marte e permaneceu congelada por 54 anos, sendo resgatada sem ter envelhecido além dos 23 anos que tinha. Mas já foi acordada com o hospital cobrando os 54 anos de internação sem que ela pudesse pagar, tornando-se assim a pessoa mais endividada do Sistema Solar.
É uma série que vale a pena assistir por seu dinamismo e criatividade.

— Miguel Carqueija
Resenha iniciada em 7 de novembro de 2010 e somente completada em 12 de abril de 2021.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Conto: "O Capitão Barbosa e o Chimuti"

    Acompanhado por seu imediato Zé Peroba, o Capitão Barbosa caminhava célere por um dos corredores de Heliópolis, a estação interplanetária situada para além da nuvem de Oort e que era frequentada por diversas raças cósmicas.
    Barbosa estava apressado, pois queria ir numa feira de mangás e animês que funcionava no nível 6. Em poucas horas teria de retornar à Terra.
    De repente, pelo corredor em que ele seguia, vieram pela direção oposta dois sujeitos altos, escaniçados e ostentando antenas flexíveis. Eram dois chimutis, do planeta Chimutino, e por seus uniformes e insígnias dava para perceber que um deles era capitão e o outro imediato — portanto as mesmas categorias de Barbosa e Zé Peroba.
    Eles estacaram, todos os quatro, bem defronte uns dos outros.
    Surgiu um impasse: os terrestres seguiam pela direita, como é hábito na Terra; os chimutis, porém, como é hábito em seu planeta, seguiam pela esquerda.
    — Droga! Outra vez problemas entre a esquerda e a direita! — resmungou o Capitão Barbosa.
    — Choputiski Ypikusti! — falou o capitão chimuti, em tom bem arrogante.
    — Prezado senhor, a direita é minha — respondeu Barbosa com firmeza.
    — Mahulinski oritopis! Chopiltiski ypikasti, alolei matinsky!
    — Impossível! Pelas regras do meu planeta, nós temos direito à direita!
    — Prahatús pajutios! Hinski! Hinski!
    — Capitão — arriscou timidamente o Zé Peroba — o senhor está entendendo alguma coisa?
    — Bulufas! Mas não é por isso que eu vou entregar os pontos!
    O imediato chimuti segredou qualquer coisa ao seu capitão, que deu de ombros.
    — Prezado senhor — insistiu Barbosa — o senhor tem que nos ceder a direita.
    — Capitão — interveio o Zé Peroba, enquanto os outros dois confabulavam — todo mundo está contornando a gente, sem ligar...
    — Cala a boca, Zé Peroba! Quando eu precisar da sua opinião eu peço! E o senhor, comandante chimuti, não vai querer criar um incidente interplanetário! Além do mais eu não vou querer perder a feira de mangás e animês!
    — Abdul ormatininski paafraim! Yhikut! Ypahust!
    — Ypahust para você também! Faça o favor de nos ceder a direita!
    — Lebrankoviski bestakoviski! Lolabrapia nujolinski! Alalá! Alalá!
    — Não tem nada lá, não! Vamos resolver é aqui!
    — Capitão Barbosa — e o Zé Peroba ousou tocar-lhe o pulso — esse pessoal usa a esquerda, alguém vai ter que ceder!
    — Pois que não seja eu! A honra da Terra está em jogo!
    — Mas se nós demorarmos muito não teremos tempo para ir na feira dos mangás!
    Diante de argumento tão convincente, o Capitão Barbosa parou e refletiu por bem uns dois segundos.
    — Bem, bem... ora, para não dizerem que eu sou radical e intransigente, capaz até de causar um incidente interplanetário por causa de uma ninharia, abrirei mão do meu direito à direita e a pecha de intransigente ficará com esse nosso amigo. Peroba, como diz o leão da montanha, saída pela esquerda!
    Zé Peroba deu um suspiro de alívio. O que eles não perceberam foi que os dois alienígenas também haviam confabulado rapidamente, pois o motel aonde ia o capitão chimuti tinha hora para fechar, e ele por sua vez patrioticamente e também apressadamente por sua vez abriu mão da esquerda.
    Os quatro se chocaram.
— Miguel Carqueija 
Rio de Janeiro, 19 de julho a 4 de agosto de 2019.