sábado, 2 de maio de 2026

Matacão, uma Lenda Tropical

 



Matacão, uma Lenda Tropical (Through the Arc of the Rain Forest), Karen Tei Yamashita. Tradução: Cristina Maria Teixeira Stevens e Carolina Berard. Capa: Ronaldo Lopes de Oliveira. 254 páginas. São Paulo: Zipango, 2003. Lançamento original de 1990.

 

Este é um romance muito pouco conhecido, mesmo entre os especialistas da ficção científica brasileira. Foi publicado no início do século por uma editora pequena e que, salvo engano, nem existe mais. Especializada em autores japoneses radicados no exterior, lançou entre nós a autora nipo-americana Karen Tei Yamashita, que viveu uma década no Brasil, antes de voltar aos Estados Unidos.

A história de Matacão se passa em algum momento do futuro próximo, com o surgimento de uma enorme superfície de plástico, de alguns milhares de hectares, numa fazenda no interior da Amazônia. Ela teria surgido em decorrência da deterioração da natureza, no qual os resíduos industriais teriam sido canalizados através de rios subterrâneos até a grande floresta, e surgindo finalmente à luz do dia como resultado de décadas de devastação.

A aparição do Matacão muda a vida de uma série de personagens, que terminam por convergir suas vidas para a grande estrutura. A começar pelo imigrante japonês Kazumasa Ishimaru, que vem morar em São Paulo por conhecer um primo que já vivia na metrópole paulista. Ele é acompanhado por uma bola do tamanho de uma de tênis, que orbita sua cabeça. Perto de Kazumasa mora o casal Batista, que se tornam os maiores especialistas e criadores de pombos do país, inaugurando uma verdadeira febre de culto aos pássaros. Assim como Chico Paco, um garoto caiçara do Nordeste que se torna peregrino após uma de suas promessas ter se tornado realidade, e também Mané Pena, o dono do local onde surgiu o Matacão, que atua como um curandeiro especializado nos supostos poderes terapêuticos da pena dos pombos. Para completar o quadro, há o executivo norte-americano Jonathan B. Tweep, que, com seus três braços, depois de revolucionar a empresa GGG, vem ao Matacão para explorar suas possibilidades comerciais, tornando-se rapidamente um dos homens mais ricos do mundo.

Como se vê, à estrutura surpreendente do Matacão soma-se outras figuras tão mais bizarras e improváveis, cada qual à sua maneira com suas vidas alteradas por causa de suas habilidades excepcionais e que meio que se completam quando passam a viver na Amazônia.

A história tem um tom que mistura a sátira e o sarcasmo, com as trajetórias e acontecimentos dos personagens sendo narrados em primeira pessoa pela bola que convive com Kazumasa. Assim, ela é livre para observações das mais espirituosas sobre os humanos e suas idiossincrasias, ainda mais que impulsionados por estas pessoas diferentes da norma e em meio à descoberta de uma superfície de plástico no interior da floresta verde. Mas a um contexto que, em princípio poderia nos encaminhar para a FC – o que não deixa de ser também –, a ênfase e o desenvolvimento ocorrem, em termos temáticos, para o absurdismo e o realismo fantástico, estabelecendo um diálogo com obras deste subgênero tão praticado na América Latina.

Assim, há um tom marcadamente delirante e irreal em quase tudo o que ocorre, com uma tendência para os eventos se tornarem uma corrente irresistível de desdobramentos. Por exemplo, todos querem ter um pombo, todos passam a usar penas para tudo, a sociedade é quase que tomada por um frenesi de promessas e missões religiosas, e assim por diante. Há uma espécie de maximização dos atributos indiretos dos personagens, e é o norte-americano que trabalha de forma incansável para lucrar com tudo isso. Ele transforma a GGG num faz tudo, ao ponto de mudar sua sede principal para o Matacão, com o intuito de pesquisá-lo e, claro, obter o maior dividendo possível dessa nova ´dádiva´. A própria estrutura se torna um local de turismo e peregrinação, sendo rapidamente ocupada com todo tipo de gente em busca não se sabe bem o quê.

Lendo história me veio à lembrança o clássico Além do Humano (More Than Human; 1953), de Theodore Sturgeon (1918-1985), com seus personagens marginalizados da sociedade, mas que, unindo suas habilidades especiais – principalmente mentais – se afirmam coletivamente como uma nova etapa da evolução humana, a gestalt. Mas se no livro de Sturgeon viceja o preconceito em termos individuais, o mesmo não ocorre no Matacão. Antes há um sentimento de estranhamento e fascínio com alguém que tem uma bola envolta da cabeça, ou um executivo de três braços que se casa com uma mulher com três seios. E se em Além do Humano há uma convergência coletiva, em Matacão os rumos dos personagens seguem um processo individualizado.

Talvez isso ajude a explicar porque, apesar dos sucessos materiais dos personagens, eles se sintam solitários e saudosos de quando tinham uma vida mais simples e anônima. A autora explora bem estes sentimentos contraditórios, numa reflexão sobre os desdobramentos que o sucesso pode trazer na vida das pessoas. Mais reconhecimento e admiração, mas também mais solidão e responsabilidade.

Mas haverá um limite para este novo mundo permeado pelo uso do plástico amazônico. Em decorrência do uso generalizado do produto em quase todos os setores da vida social e econômica, surge uma epidemia de tifo, inicialmente nos pombos, que passa para os humanos, causando uma verdadeira tragédia humana e colapso econômico. Aqui, Yamashita reverte o que, em certo sentido, dava o tom da narrativa: uma exaltação da livre iniciativa e das maravilhas do capitalismo, com sua prosperidade e realização pessoal. Pois tudo, no fim das contas, se revela uma quimera, com os sucessos individuais e a riqueza coletiva se voltando contra a sociedade como um todo. O preço será muito alto, inclusive para a maioria dos personagens.

Se como disseram Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista (1848), "tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que era sagrado é profanado, e as pessoas serão forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas", o romance de Yamashita direciona este célebre pensamento menos nas contradições da sociedade e da economia, e sim da economia para com o meio-ambiente. Pois, mesmo o Matacão chegará ao seu termo, deixando um sentimento amargo no leitor, pois, ao que parece, da maneira como as pessoas agiram, haverá um retorno, aqui no caso da própria natureza, esgotada em seus recursos devido a exploração desmedida potencializada pelo sistema capitalista.

Yamashita publicou outro livro tendo o Brasil como cenário, Brazil-Maru (1992), leciona literatura asiático-americana na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, e deveria ser redescoberta, talvez até com a republicação de Matacão que, por sinal, nesta edição da obscura Zipango recebeu uma edição muito caprichada, na capa dura, na ótima orelha, no projeto gráfico e na ilustração de capa. Tornou-se um livro raro, mas, como disse, é atual e cada vez mais necessário, como uma obra de arte que reflete e denuncia, com a chave do fantástico e do multiculturalismo, a crise climática que já se tornou uma ameaçadora realidade.

Marcello Simão Branco


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