terça-feira, 15 de outubro de 2024

Bacurau

Bacurau
, Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles. 132 min. França/Brasil, 2019. 

O cinema é uma arte praticada no Brasil desde seus primeiros tempos. Mas, como todas as demais linguagens artísticas, o cinema brasileiro passou por muitos altos e baixos, com períodos produtivos historicamente localizados entre grandes espaços de menor atividade. Tais flutuações têm vários motivos, desde questões políticas como a censura, dificuldades com a distribuição e, principalmente, problemas financeiros, uma vez que fazer um filme nunca foi barato. A indústria do cinema, na verdade, nunca se instalou solidamente no país e em muitos períodos a produção nacional foi iminentemente diletante, não raro com os cineastas financiando seus filmes com dinheiro do próprio bolso. 
Mas o cinema fantástico sofre ainda mais, pois a todas essas dificuldades estruturais soma-se ainda um grande preconceito dos próprios artistas, pois o gênero acabou associado ao cinemão norte americano, de matizes comerciais e, não raro, proselitistas. Fazer ficção fantástica no Brasil é, em muias esferas, sinônimo de entreguismo cultural. Por isso, a produção cinematográfica nacional de fc&f é pequena e pouco desenvolvida. Mas, ainda assim, têm seus clássicos, como Os cosmonautas (Victor Lima, 1962), Brasil Ano 2000 (Walter Lima Jr., 1969), Quem é Beta? (Nelson Pereira dos Santos, 1972), Parada 88: Limite de alerta (José de Anchieta, 1977) e Abrigo nuclear (Roberto Pires, 1981), entre outros raros exemplos.
Contudo, a radical redução de custos de produção devido ao surgimento das filmadoras digitais, e a possibilidade de exibição dos filmes pela internet contribuiram para o surgimento de uma nova geração de produtores audiovisuais que tem se exercitado nos ambientes não comerciais e ganhado reconhecimento em festivais nacionais e internacionais. A criação da Ancine, em 2001, foi outro grande impulsionador da produção audiovisual no país pois contribuiu valiosamente para uma produção estável que ganhou ainda mais sustentação com o advento da tv a cabo e, mais recentemente, dos serviços de streaming, que resolveram de vez os insolúveis problemas de distribuição. Por contraditório que seja, o fim do cinema como sistema de exibição em salas exclusivas foi justamente o que permitiu a produção nacional finalmente desabrochar. E esse ambiente favorável alcançou também a ficção fantástica. 
Muitos filmes bons começaram a surgir nos últimos vinte anos, e Bacurau, longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é o melhor exemplo do que é possível fazer com a ficção científica quando a oportunidade e a qualidade criativa se encontram. A dupla é responsável pelos grandes sucessos recentes, os premiados Um som ao redor (2013) e Aquarius (2016).
O filme conta a história de um pequeno vilarejo localizado em algum lugar no sertão de Pernambuco, habitado por gente simples e endurecida pelas dificuldades da vida e pela natureza áspera. O povo humilde é politicamente dominado pelo prefeito da cidade, que não o valoriza e só se lembra dele quando precisa de votos. Quando uma família de agricultores é chacinada, revela-se um tenebroso projeto comercial promovido pelos gestores da cidade: oferecer os habitantes de Bacurau como alvos para turistas estrangeiros psicopatas, mas cheios de dinheiro, darem vasão aos seus mais baixos instintos. É então que a "docilidade" dos homens e mulheres sertanejos vai se revelar em toda a sua glória. 
O elenco, em sua maioria, é composto de atores pouco conhecidos, como Bárbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Thardelly Lima, Rubens Santos, Wilson Rabelo, Carlos Francisco, Luciana Souza, Karine Teles e Julia Marie Peterson, entre outros. Mas conta também com dois nomes de peso: a brasileira Sonia Braga, que interpreta a médica Domingas – uma das pessoas mais proeminente da sociedade bacurauense –, e o ator alemão Udo Kier – que interpeta Michael, o líder da legião de assassinos –, cuja fisionomia dura é bastante conhecida dos filmes americanos de terror. 
A cenografia é um dos pontos altos da produção, que retrata com felicidade um panorama muito familiar aos brasileiros: mata de caatinga, casarios antigos e grandes obras de infraestrutura em ruínas, talvez nunca inauguradas, que servem como esconderijo para outsiders; criminosos, talvez, mas, mais que isso, sobreviventes de uma realidade em tudo pós-apocalíptica. As filmagens usaram como locação os municípios de Parelhas e Acari, no estado do Rio Grande do Norte. 
Bacurau teve um custo de R$ 7,7 milhões e arrecadou mais que o dobro disso. E ainda ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, onde teve sua primeira exibição em 15 de maio de 2019. No Brasil, a fita estreou algumas semanas depois, no dia 29 de agosto. 
Alguns podem argumentar que Bacurau não é um efetivamente um filme de fc, visto que o único detalhe evidente do gênero é um drone em forma de disco voador que é usado pelos assassinos para rastrear suas "presas". Mas é claro que não é só isso. O que faz de Bacurau uma boa e legítima história de ficção científica são seus aspectos sociológicos e antropológicos, algo que nem sempre é percebido como especulação científica porque não se tratam de ciências duras. Muito mais que discos voadores, interessa aqui a exploração de corpos brasileiros como atração turística. Ficção? Nem tanto. Basta lembrar das crianças prostituídas por todo o país. Se ainda não temos caçadas humanas como atrações turísticas no Brasil, não falta muito para isso. Também a maneira debochada e cruel com que o poder público trata o eleitor, algo que não está nada distante da realidade. E, enfim, a maneira natural com que os sertanejos lidam com a tecnologia, todos muito a vontade com seus aparelhos celulares, ainda que um tanto ultrapassados em comparação com os dispositivos futuristas usados pelos estrangeiros. 
Também é preciso reconhecer que não há coitadismo no tratamento dado ao sertanejo. O habitante de Bacurau é – como diria Euclides da Cunha – "antes de tudo, um forte". Como os seguidores de Antônio Conselheiro em Canudos, os bacurauenses podem ser simplórios, mas tolos certamente não são. 
Cesar Silva

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Um Dia Vamos Rir Disso Tudo

 



Um Dia Vamos Rir Disso Tudo, Maria Alice Barroso. Capa: Rolf Gunther Braun. Orelha: Maria Helena Giordiani. 173 páginas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.

 

Em 1990, o Brasil vive sob um regime autoritário. Menos pela repressão direta, os meios de controle são mais sutis e indiretos, mas não menos, ou talvez, mais eficientes. A sociedade funciona a partir de regras altamente burocráticas e organizadas por recursos tecnológicos: Sociedade Altamente Tecnológica. Censura, mensagens subliminares, consumo de rações alimentares que inibem a atividade sexual, massificação do consumo e das artes, estas influenciadas e gerenciadas por computadores – artificialmente inteligentes. Aos revoltosos, os expedientes costumeiros: recolhimento compulsório a “centros de reeducação”, e para os casos mais graves, o “desaparecimento”.

Este é o contexto sinistro do romance Um Dia Vamos Rir Disso Tudo, uma história dentro de uma história, porque é contado a partir de um romance escrito pela protagonista, no qual ao repassar seus anos de juventude, nos revolucionários anos 1960, realiza o contraste com sua velhice, vivendo sozinha em meio a um mundo distópico.

Assim, a jornalista Maria repassa sua vida no Rio de Janeiro, em meio ao início da carreira de jornalista, com a liberdade (e a reprovação machista) de uma mulher do interior vivendo sozinha numa metrópole, o convívio com seus amigos intelectuais e o romance com um boxeador. O primeiro contraste de sua vida, neste momento de ordem pessoal. Isso porque Kid Monte é em tudo antítese do que ela é e aspira para sua vida: um sujeito prático, que cultua o corpo e a natureza e com uma postura ingênua e arredia à arte e ao pensamento mais elaborado. Como ela vai finalmente notar ao escrever suas memórias, no fundo, se o boxeador lhe proporcionou os maiores prazeres e alegrias, sua ausência na maturidade também simboliza sua solidão e desesperança em meio a um mundo, de fato, embrutecido e desumanizado, com quase total ausência de espontaneidade e individualidade.

Em alguns trechos da obra, Maria, a personagem que escreve suas memórias, reflete, com um misto de surpresa e perplexidade, sobre o que aconteceu à sociedade e as próprias pessoas:

 

... não acredito que as pessoas cheguem a dizer algo que não estivesse programado antes pelo Governo, através do SPECIT (Secretaria do Pensamento Científico e Tecnológico) ou da FUCRIUM (Fundação de Utilização da Criatividade Humana). Devido a um cerco muito sutil (nada do que se faz a partir da revolução tecnológica foi implantado com violência: e aí descobrimos que a morte por asfixia pode ser aplicada suavemente, muito suavemente), atingimos este ano de 1990 com as pessoas, no mundo inteiro, muito comodamente padronizadas, servindo docilmente aos desígnios dos Governos, sem questionar se vale a pena obedecer ou não (como se a finalidade da vida de cada um de nós fosse chupar caramelos e carregar bolas de gás nos passeios na calçada. Tudo isso me desgosta, por vários motivos, mas o mais forte deles é que conseguiram retirar do ser humano aquilo que poderíamos chamar de ´a touch of God´, ou seja, o imponderável existente em cada um, que fazia com que as pessoas não se repetissem e se interessassem umas pelas outras. (pgs. 13-14).

 

    Pouco a pouco fomos cedendo terreno para eles: o pior é que se me pedissem, no passado, para que eu definisse o que era eles, juro que não saberia. Eles estavam atrás de cada porção de individualidade que nós perdíamos, nas crescentes conquistas da massificação, e quanto mais nossa liberdade se restringia, mais seguros e tranquilos eles se achavam. Quando olhei em torno me vi cercada de pessoas de borracha, que apenas se assemelhavam aos seres humanos, nada mais. (pg. 159).

 

Parece que não houve uma tomada de poder frontal, mas sim um processo gradativo e irreversível em direção ao autoritarismo. A autora constrói esse contexto para abordar o regime político mais por seus efeitos indiretos, evitando a disputa política tradicional. Assim, se mostra como uma eficiente alegoria sobre a ditatura militar, especialmente na sua fase de distensão em meados dos anos 1970 – no governo do general Ernesto Geisel (1974-1979) –, quando passou a descontruir o grosso do aparato mais repressivo em meio a uma tendência de maior estatização econômica e burocratização do Estado – que ganhou até o neologismo de tecnocracia. E que não deixou de ser surpreendente, principalmente para aqueles que golpearam a democracia em nome do capitalismo.

Da mesma forma, não fica claro como é que o mundo em geral também se tornou uma ditadura – pois em certo momento é citado um governo intercontinental –, mas toda a situação é colocada como relacionada à ruptura vivida pela própria protagonista, quando se separa de Monte e de seus amigos, após um evento traumático numa festa que levou à morte de um deles. Na verdade, todo o grupo se dissolve, e ela pouco fica sabendo dos seus destinos, agora num contexto sócio-político totalmente desfavorável, três décadas depois.

Um Dia Vamos Rir Disso Tudo discute, sobretudo, os efeitos do autoritarismo e do processo de modernização conservadora a ele relacionado, do ponto de vista das relações sociais. Faz parte das chamadas ficções distópicas da ficção científica brasileira, dos anos 1970, entre a primeira e a segunda onda do gênero, ao refletir sobre os anos de chumbo. Claro que esta classificação é feita a partir da perspectiva do gênero, pois o fato é que o romance foi escrito dentro do contexto do mainstream, aliás, como as outras obras do período. Mas isso é o de menos, o que vale é, por um aspecto, sua contribuição à compreensão das caraterísticas da ditadura e seus efeitos na sociedade brasileira da época, e por outro, da validade da FC como meio de expressão dos possíveis efeitos de um contexto distópico.

Tanto é assim, que a pesquisadora norte-americana Mary Elisabeth Ginway, em Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (2005) – uma das principais análises já realizadas sobre a FCB – além de reconhecer a importância da obra, a situa a partir da perspectiva da condição feminina, ainda no rescaldo dos contestadores anos 1960 que, embora menos, também tiveram impacto num país de capitalismo periférico como o Brasil.

Assim, não é casual que este romance distópico seja escrito por uma mulher que projeta sua própria figura numa autobiografia escrita no porvir. De como reflete sobre sua vida e seu destino em meio a um mundo que perdeu sua humanidade, tornando-se extremamente alienado, massificado e politicamente controlado. Assim, ela, uma mulher idosa aos 63 anos, vive isolada numa chácara no interior de Minas, e que foi motivada a relembrar sua vida, ao achar casualmente as luvas de Monte dentro de uma mala. Mas ela se angustia porque receia que não irá publicá-lo, pois se tiver essa ousadia, provavelmente será censurado e ela, por suas ideias fora da ordem, porque contestadoras, poderá ser ´desaparecida´ pelo Estado.

Até onde eu sei, Maria Alice Barroso (1926-2012) fez em Um Dia Vamos Rir Disso Tudo sua única incursão na ficção especulativa e que, curiosamente, não deixa de citar a própria FC, como o tipo de literatura que sobreviveu na distopia, pois o que as pessoas querem ler (os poucos que ainda o fazem) são narrativas de “realidades tecnológicas romanceadas”. Ela foi uma figura presente na literatura brasileira com certo destaque a partir de 1955, quando estreia com o romance Os Posseiros até sua última obra, a novela infanto-juvenil de cunho futebolístico Bola no Pé, em 2010. Vencedora de prêmios como o Jabuti em 1989, refletiu, em grande medida, sobre a condição dolorida, mas de necessária emancipação da mulher numa sociedade em processo de transformação, em especial a nossa. E, nesse cenário, incluiu a especulação sensível e arguta sobre, provavelmente, o momento mais difícil de sua vida em sociedade, quando publicou Um Dia Vamos Rir Disso Tudo. Um título que, inclusive, traz embutida uma amarga ironia, como a própria personagem sugere ao fim de suas memórias.

Marcello Simão Branco