Feiticeira
(Wizard), John Varley. Volumes 1 e 2. Tradução: Maria Nóvoa. Capas: Tim White.
162 e 164 páginas, respectivamente. Publicações Europa-América, coleção Ficção
Científica nos. 87 e 89, 1984 (vol.1) e 1985 (vol. 2). Lançamento original em 1980.
Este é o segundo romance da Trilogia de
Gaia, iniciada com Titã (1979) - ver resenha aqui - livro
que causou um grande impacto na FC norte-americana do final da década de 1970,
pela verossimilhança da narrativa, rigor nos conceitos científicos, muita
criatividade na construção de um mundo, e uma postura de comportamento dos
personagens bastante ousada para os padrões do gênero até então – e mesmo hoje.
Pois Feiticeira
além de não ficar atrás em tudo isso, explora com mais detalhes estes aspectos,
em especial os relacionamentos entre os personagens e as consequências entre os
poderes da deusa e seus súditos. A história ocorre em 2100, exatos 75 anos após
a chegada dos humanos à estrutura de Titã, um mundo artificial criado e
controlado por uma entidade viva, a Gaia, na órbita de Saturno. A protagonista
da primeira história, a ex-capitã da nave Ringmaster
Cirocco Jones foi nomeada por Gaia como a feiticeira, isto é, uma espécie de
zeladora do mundo, com poderes especiais e responsável em torná-lo viável e
harmonioso do ponto de vista do relacionamento com os chamados cérebros
regionais, entidades criadas por Gaia responsáveis por cada região.
Encontramos Cirocco ainda jovem, como
parte dos poderes concedidos por Gaia, para que ela exerça a função por muito
tempo, mas submersa, por assim dizer, em crises existenciais, que dificultam o
exercício de seus deveres. Também presente está Gaby Plauget, antiga astrônoma
da Ringmaster e amante de Cirocco
que, embora meio afastada dela, ainda exerce funções auxiliares importantes,
ainda mais por causa da debilidade psicológica de Cirocco.
Titã – por meio de Gaia – estabelece
relações diplomáticas com a Terra, inclusive com embaixada na Suíça e membro
das Nações Unidas, e recebe milhares de humanos todos os anos, de forma
temporária ou permanente. Nesse contexto, chega a Titã Chris e Robin, dois
jovens com problemas neurológicos. Chris tem crises de ausência e amnésia
temporária e Robin epilepsia. Ambos esperam ser curados de seus problemas
através da intervenção de Gaia, que oferta essa possibilidade aos que a
procuram. De certa forma, é uma contrapartida da entidade para que os humanos a
respeitem e não se voltem, eventualmente, contra ela e seu mundo. Mas para que
os enfermos possam ser curados têm de provar seu “heroísmo”, através de atos ou
realizações que recebam a aprovação da deusa. Para esta, no fundo, tudo se
trata de jogos: na criação de espécies e na aferição de provas e missões aos
humanos, de forma a vencer seu tédio de uma existência de milhares de anos e
manter o interesse e temor por parte dos nativos e humanos.
Chris e Robin conhecem Gaby, que lhes
apresenta Cirocco. As duas ex-astronautas devem partir numa missão de contato
com os cérebros regionais e convidam os dois jovens a partirem com eles, mesmo
sem saber exatamente como ou em quais circunstâncias possam provar algum valor
a Gaia. Aos humanos se juntam alguns titânides, a adorável espécie nativa
mostrada no primeiro volume, seres semelhantes a centauros, de feição feminina,
mas hermafroditas, já que exercem papeis sexuais tanto masculinos como
femininos. Em Titã, eles viviam uma
guerra fratricida com os anjos, seres alados que moravam na parte mais alta da
estrutura toroidal. Cirocco intervém como mediadora junto a Gaia e como efeito
do processo de pacificação, a humana torna-se responsável pela sobrevivência
reprodutiva dos titânides. Somente sua saliva pode ativar os óvulos que eles
produzem para que sejam implantados em uma mãe hospedeira para crescer. Mas é
responsabilidade em demasia para Cirocco e este é o motivo pelo qual recorre
com frequência ao alcoolismo.
A maior parte da história se passa nessa
peregrinação pelo mundo, eivada de muitos perigos, mortais para alguns
personagens. Isso porque, para além dos riscos inerentes à própria travessia de
um mundo inóspito e traiçoeiro, ocorre uma reação não declarada da deusa, por
intuir um possível plano de Cirocco e Gaby para destroná-la, insatisfeitas que
estão com as vaidades e caprichos – por vezes cruéis – da criadora com relação
às suas criaturas, vistas como mero joguetes com motivações fúteis. Com isso, o
romance ganha em suspense e dramaticidade e o destino de todos é posto em risco
praticamente a cada página virada. Isso torna Feiticeira um romance mais vibrante que Titã, no qual a apresentação do mundo em si se constituía como um
um dos objetivos principais.

Merece destaque também o relacionamento de
Chris com a titânide Valiha. Ela se apaixona pelo humano e o seduz sexualmente,
principalmente quando ele não responde por si. Primeiramente chocado, aos
poucos, ele vai cedendo aos seus preconceitos e se entrega ao sexo e amor pela
titânide. Aqui está outro aspecto particularmente interessante nesta trilogia:
a liberdade sexual dos personagens, e de como todas as formas de amor são
igualmente válidas, desde que verdadeiras para os que a vivem.
Feiticeira
não segue o padrão das histórias do meio de uma série de três livros: a de
recheio de algo que apenas prepara o clímax da história final. Pois, como já
deve ter se tornado claro, explora com mais desenvoltura as potencialidades do
mundo de Titã e desenvolve ainda mais os personagens apresentados na primeira
aventura. No fundo, esta trilogia e Feiticeira
em especial, discute questões valiosas como o valor e o ônus do livre arbítrio,
além da insubmissão a regras e normas que reprimem a expressão mais livre das
pessoas. Sejam elas humanas ou alienígenas.
Nesse sentido, chama a atenção a reflexão
de Varley sobre as possíveis consequências da existência e convívio mais
próximo entre um deus (no caso Gaia, uma deusa) e suas criaturas. De como seria
muito complicado este relacionamento, pois os humanos em especial, teriam como
julgar os atos divinos, se bons ou maus; se justos ou injustos etc. Ao passo
que na possibilidade de existência de um Deus abstrato, não visível e atingível
(como o das religiões terrestres, judaico-cristão em especial) seria mais
tolerável conviver com o imponderável, já que estaria no plano da indiferença
do universo.
Mas mesmo com a eventual existência do
Deus de inspiração religiosa da Terra, Gaia não seria parte de seu panteão. Até
porque, mesmo poderosa como era, tinha uma existência física no plano natural
e, como visto em Titã, ela seria parte de uma espécie alienígena presente em
outras partes da galáxia, inclusive numa das luas de Urano. Ou seja, seria uma
divindade na capacidade de criar vida, sobretudo, mas, ainda assim, presente no
plano natural e, em tese, mortal ou finita. Contudo, talvez seja contraditório
que mesmo postulando uma concepção não teísta – de uma divindade sobrenatural –
Varley admite a necessidade de que exista um ser que governe Titã. Ora, por que
não deixar que a estrutura orbital cheia de atmosfera e vida tome seu próprio
rumo?
Por esta e outras questões Feiticeira recebeu uma boa acolhida dos
leitores e críticos dos EUA, tornando-se um dos finalistas do Prêmio Hugo de
1981 – assim como já havia acontecido com Titã,
um ano antes. O melhor é que seja lido depois do primeiro, mas por sua riqueza
narrativa e instigantes questões culturais e existenciais que aborda – e deixa
em aberto para Demônio (Demon; 1984), o livro que irá concluir a
trilogia –, vale por si. Grande livro.
—Marcello Simão Branco