terça-feira, 22 de setembro de 2020

A Verdadeira História da Ficção Científica

A Verdadeira História da Ficção Científica: Do Preconceito à Conquista das Massas (The History of Science Fiction), Adam Roberts. Tradução de Mário Molina. Apresentação de Sílvio Alexandre. Prefácio à edição brasileira de Braulio Tavares. Posfácio de Gilberto Schoereder. 703 páginas. São Paulo: Editora Seoman, 2018. Lançamento original de 2016.

 


Este é um livro monumental, a começar pelo tamanho. Mas isso é o de menos, porque é uma obra que discute a FC de forma arrojada, com ideias próprias, sem receio de questionar certas convenções estabelecidas no campo, seja por parte dos fãs ou dos críticos. No contexto anglo-americano poderia ser visto como mais um dentre tantos livros que já abordaram criticamente a história do gênero e suas características. Mas Adam Roberts demonstra que ainda há muito a ser pesquisado e, eventualmente, descoberto em um gênero tão rico e diversificado.

Roberts é um autor reconhecido da FC britânica, publicou, entre outros, Salt (2000) e Jack Glass (2012) – vencedor do British SF e do John W. Campbell Memorial – além de ser professor de Literatura do Século XIX na Universidade de Londres. Sua tese central em A Verdadeira História da Ficção Científica é que a FC, como gênero literário, surgiu durante o século XVII, como expressão artística da Reforma Protestante, movimento religioso e político que fez frente ao predomínio da Igreja Católica Romana, do século XVI. A reforma teria desencadeado forças criadoras inovadoras, ao apresentar uma visão de mundo dessacralizada, baseada numa compreensão mais materialista da vida e do universo. Desta forma houve uma separação, no contexto da então ficção fantástica, entre criações de caráter mágico-religioso e outras materiais-científicas nas histórias publicadas. O domínio do racional e de uma atitude mais individualista semeou a literatura, permitindo que as especulações no terreno do fantástico adquirissem, gradativa e continuamente, novas características que iria inaugurar um novo gênero, a ficção científica. Mesmo assim, esta tensão entre o mágico/religioso e o profano/científico nunca desapareceu do cerne da ficção científica, podendo ser identificada, embora de forma menos evidente, em realizações recentes.

Com isso, Roberts vai contra a corrente que, se do ponto de vista filosófico, não descarta por completo esta argumentação, a entende como secundária, pois situa a emergência da FC como resultado mais direto da Revolução Industrial, com seu extraordinário progresso material e inovações científico-tecnológicas, que mudou de forma radical as relações sociais. Contudo, creio que o autor é convincente, pois a própria emergência do capitalismo está associada a este processo de mudança de postura de longo prazo a respeito da condição humana, pois relaciona-se não só às ideias da Reforma, mas ao Renascimento antes e ao Iluminismo depois. Nesse sentido, esta permanência da dualidade entre o espiritual e o racional poderia ser identificada por esta base mais filosófica, que justificou sua emergência.

Desta forma, Roberts volta alguns séculos na identificação dos primórdios das histórias de FC. Ou seja, no século XVII, ao invés da tradicional consideração sobre o século XIX, com o romance Frankenstein (1818), de Mary Shelley e as figuras emblemáticas de Júlio Verne e H.G. Wells – estes dois, inclusive, com direito a um saboroso capítulo conjunto.

Contudo, a pesquisa histórica realizada pelo autor é o seu maior achado. Nos cinco primeiros capítulos ele defende extensamente sua tese por meio da apresentação e análise de dezenas de contos e romances, dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. Desvenda obras raras e obscuras, com detalhes impressionantes de quem leu – ou teve contato direto – com a maioria delas. Talvez nem fosse preciso justificá-las em torno de seu argumento. A simples exposição comentada das obras já é um ganho relevante e que desmonta a tese do início da FC no século XIX. A própria ideia de uma “proto-FC” deve ser bastante relativizada, mostrando que o gênero é bem mais antigo e presente na história da literatura.

Roberts narra uma história cronológica da FC, portanto, com 16 capítulos ao todo – dois a mais que a primeira edição de 2006 – percorrendo, após as eras precursoras o período que nos é contemporâneo, os séculos XX e XXI. É certo que outros – e ótimos livros – fizeram isso antes em língua inglesa, mas é a primeira vez que tal empreendimento é colocado à disposição do leitor brasileiro.[1] E o autor não se limita à FC como fenômeno literário. A partir do século XX inclui a discussão sobre o gênero no cinema, rádio, televisão, histórias em quadrinhos, artes visuais e plásticas, música e videogames. E tudo colocado em perspectiva, mostrando como cada uma das artes contribuíram para o desenvolvimento da FC. Outro trabalho notável por si só.

Mas talvez o núcleo duro do desenvolvimento contemporâneo do gênero esteja mesmo situado nas décadas de 1930 a 1970 do século passado. É o que mais define e identifica o que se tornou e ainda é a FC nos dias de hoje. Da era das pulp magazines nos EUA, depois de forma central na Golden Age dos anos 1940 e 1950, até o desdobramento com a New Wave, nos anos 1960 e 1970. Se com as revistas populares norte-americanas a FC conheceu sua primeira massificação, ela trouxe um certo rebaixamento no estilo literário, fazendo com que o gênero passasse a ser ligado a alguns símbolos estereotipados, como a nave espacial, a pistola de raios, o robô e o extraterrestre – além, é claro, com as mulheres seminuas nas capas das revistas, pois a prioridade era fisgar um leitor jovem, branco e masculino. Em todo caso, na Golden Age dos anos 1940 e 1950 haverá um aperfeiçoamento destas características com o surgimento de uma nova geração de autores, não desvinculados do pulp, mas com maior apuro literário e rigor científico nas histórias. Aqui creio que Roberts foi um pouco duro com estas fases, apontando mais suas limitações, como o conservadorismo político e as deficiências literárias, como se fossem uma norma generalizada. Faltou enfatizar mais a renovação temática vigorosa, com autores que, especialmente nos anos 1950, amadureceram para publicar obras maiúsculas, que se tornaram clássicas. Alguns exemplos: As Crônicas Marcianas (1950), de Ray Bradbury; O Fim da Infância (1953), de Arthur C. Clarke, e Mais que Humano (1953), de Theodore Sturgeon – este aliás, um autor não comentado no livro.

Isso porque Roberts não esconde sua maior afinidade intelectual com a New Wave, um movimento literário que mais que renovar, direcionou a FC para novos horizontes, em termos de qualidade literária e ousadia temática. Assim, o gênero se aproximou de experiências literárias do mainstream e provocou o campo com introdução de temas como o sexo, o feminismo, as drogas, a igualdade racial, o meio-ambiente, além de uma postura mais democrática, em si, mais condizente com a essência da FC. Um gênero literário movido pelo novo, aberto a novidades, crítico do status quo e sensível à alteridade, de outros povos, culturas e estilos de vida. Polemizou com as características mais bem comportadas da Golden Age, mas olhando de forma retrospectiva fica a impressão de que a causa principal do mal-estar tenha sido menos os temas tratados e mais as experimentações literárias, na forma como muitas narrativas foram desenvolvidas. O leitor tradicional do gênero não estava acostumado com isso.

A FC que veio depois reverberou mais os paradigmas da New Wave, com o surgimento do cyperpunk e de uma corrente mais humanista, a partir dos anos 1980, até chegar ao contexto pós-colonial e multicultural do século XXI. Aliás, não se pode deixar de lembrar que esta é uma história do gênero do ponto de vista do centro de sua produção, o mercado norte-americano e britânico. Para além dele é dada alguma atenção à FC francesa, alemã, russa e japonesa, nesta ordem. Talvez fosse pedir demais um novo esforço de pesquisa para locais menos pujantes como, por exemplo, a América Latina, mas é uma lacuna dentro do contexto maior.[2]

Outra ideia importante do livro é que a FC se tornou majoritariamente um fenômeno de expressão visual, a partir do filme Guerra nas Estrelas (1977), de George Lucas. Creio que isso seja difícil de contestar, pois nas décadas posteriores o cinema de FC tornou-se o mais popular e lucrativo de Hollywood. Aliás, não só o cinema pois, como demonstra o autor, a paisagem visual se tornou a marca mais identificável do gênero, ou seja, também na publicidade e nos videogames. Ao contrário do que postula o autor, entretanto, não entendo que este aspecto tenha assumido o lugar principal do gênero em si, mas sim como fenômeno cultural e de mercado. Isso não é pouco, é claro, mas o núcleo central de criação do gênero, continua sendo a literatura. É ela que mais inova, e mais estabelece novas tendências que, se bem sucedidas, transbordam para outras artes, de consumo mais rápido. A maior parte dos artistas com maior influência no campo prossegue sendo os escritores.

E se, ao menos para mim, é na literatura que a FC continua a apresentar as ideias mais relevantes para o desenvolvimento do gênero, a sua “conquista das massas” se dá em termos mais populares, não necessariamente em termos de reconhecimento crítico. É verdade que nos EUA e na Europa a FC goza de certa respeitabilidade – e a publicação de um livro como este ilustra isso –, mas aqui em nossas paragens tropicais a realidade é outra, como bem observa Gilberto Schoereder no posfácio. O subtítulo da obra para a edição brasileira capta bem o alcance do argumento de Roberts, uma massificação popular e crítica, mas o mesmo não ocorre na ficção científica brasileira, ainda a lutar por espaço nas grandes editoras, por mais financiamento de produções audiovisuais e mais respeitabilidade crítica por parte expressiva da academia e do jornalismo cultural.

Se no centro anglo-americano teme-se por uma “evaporação” da FC junto ao mainstream – numa citação de Roberts ao influente crítico Gary K. Wolfe –, aqui ainda paira uma marginalidade em relação ao centro da produção e reflexão cultural. Nesse sentido, A Verdadeira História da Ficção Científica é útil também para colocar em perspectiva a realidade da nossa FC junto ao centro de produção do gênero.

Em termos editoriais, vale uma observação. No início da obra é informado que os livros publicados no Brasil viriam com o título nacional primeiro, e o título original entre parênteses. Isso é seguido por todo o livro, mas de forma errática. Identifiquei algumas obras publicadas em nosso país – e em Portugal, com grande tradição de consumo por parte do fã brasileiro –, sem o título em português. O caso é que existe pesquisa bibliográfica sobre as obras publicadas no Brasil e em Portugal, como, por exemplo, os dois volumes de Quem é Quem na Ficção Científica, de R.C. Nascimento.[3] Tiveram uma tiragem pequena, mas de acesso possível por parte da editora, já que ela teve contato com algumas pessoas oriundas do fandom. Fica a sugestão, caso haja uma segunda edição.

Do ponto de vista pessoal, ler este livro foi uma experiência estimulante, pois pude compartilhar com o autor impressões e opiniões sobre várias obras e autores, especialmente os das décadas de 1940, 1950 e 1960, em que boa parte da FC estrangeira foi disponibilizada no Brasil e em Portugal. Nem sempre com opiniões convergentes, mas ainda assim interessantes, me fazendo relembrar e reavaliar sobre muitas obras e autores. Como se vê, portanto, é um livro de História e análise literária, e menos de divulgação sobre o gênero e suas características.

Nesse sentido, não deixa de ser curioso que nestes últimos anos, em que muita FC tem sido publicada no Brasil, poucas obras sobre o gênero apareceram. Ao contrário dos anos 1980, quando o mercado editorial era pequeno e bons livros, mais de divulgação, foram lançados. Seja como for, a publicação de A Verdadeira História da Ficção Científica deve ser celebrada, pois aumenta significativamente o grau de conhecimento sobre o gênero para os brasileiros, incentiva o debate e a reflexão, e abre possíveis campos de pesquisas que possam dar continuidade e problematizar as ideias corajosas deste livro excelente.

 – Marcello Simão Branco



[1] Na verdade, livros de FC de autores brasileiros também contaram a história do gênero, mas como capítulos da obra, não como seu aspecto principal.  Dentre eles o mais próximo neste contexto é Introdução a Uma História da Ficção Científica, de Léo Godoy Otero. São Paulo: Lua Nova, 1987.

[2] O Brasil é citado duas vezes no livro, mas sem mencionar o gênero em si como um movimento presente no país. Primeiro com o livro Páginas da História do Brasil Escrita no Ano 2000 (1868-1872), de Joaquim Felício dos Santos – sobre a difusão global da FC já no século XIX – e a refilmagem de Robocop (2014), do diretor brasileiro José Padilha.

[3] O primeiro é Quem é Quem na Ficção Científica – Volume 1: A Coleção Argonauta. Editora Scortecci, 1985. E o segundo é Quem é Quem na Ficção Científica – Volume II: Catálogo de Ficção Científica em Língua Portuguesa 1921-1993 (1994). Edição de autor. Nascimento publicou ainda Argonauta 500: Uma Edição Comemorativa. Clube de Leitores de Ficção Científica/Qanat Fantasia e Ficção Científica, 1999.

3 comentários:

  1. Excelente resenha. Um livro monumental não só em tamanho, mas em abrangência e pretensão.

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  2. Se a editora se arriscou num livro que não é atrelado a nenhum filme de sucesso, ainda mais um estudo de gênero. É porque sabe que há um público interessado. E com possível candidato a ser comprado pelo governo aos montes para suprir bibliotecas de escolas e faculdades.

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