O
Planeta Fantasma (A Wreath of Stars), Bob Shaw. Tradução:
Eurico Fonseca. Capa: A. Pedro. 187 páginas. Lisboa: Edição Livros do Brasil,
coleção Argonauta, n. 362, 1987. Publicado originalmente em 1976.
Este romance curto de FC aborda de forma
inventiva e despojada o tema do universo paralelo ao nosso. Há muitas obras
sobre este assunto e, rapidamente, me recordo do clássico O Despertar dos Deuses (The
Gods Themselves; 1973), de Isaac Asimov (1920-1992). Mas se neste o contato
entre os universos foi resultado de uma experiência científica, em O Planeta Fantasma ele ocorre como
desdobramento de um evento cósmico, per si, já bastante espetacular.
Em 1993, Clyde Thornton, um astrônomo
amador, descobre que um planeta errante está a se aproximar da Terra. Estudos
posteriores revelam que o agora batizado Planeta de Thornton passará através do
nosso planeta, pois é um astro de antineutrino. Com a notícia, o pânico se
instaura e muitos anunciam que o apocalipse chegou. Mas, os cientistas afirmam
que não há motivo para isso, pois passaria desapercebido, se não tivesse sido
descoberto por causa da lente especial chamada magnilux. Os óculos com esta lente se tornam populares, e a visão
de Thornton passando pela Terra não deixa de ser impressionante. O planeta
errante acaba capturado pela órbita do Sol e deverá visitar novamente a Terra
dentro de 92 anos. Mas, no fim das contas, o pânico se esvai e o interesse
permanece apenas na comunidade científica.
Pelo menos até os mineiros no interior de
uma caverna de Barandi – um novo país africano saído de uma guerra de
libertação –, ao usarem os óculos especiais avistarem seres estranhos,
translúcidos e azulados por entre as rochas. Quem seriam eles? Seres
sobrenaturais? Alucinações?
A investigação passa a ser comandada pelo
engenheiro Gilbert Snook, um dos responsáveis pelos trabalhos na mina, apesar
da resistência do governo que acredita que tudo não passe de crendices e
superstições. Snook é esperto e divulga a notícia na imprensa estrangeira,
ajudando a impedir que os trabalhadores fossem punidos por se recusarem a
continuar no trabalho e não houvesse investigação alguma.
A partir daí, junta-se ao engenheiro um
astrônomo, uma funcionária da ONU e um jornalista que – amparados pela
repercussão internacional do caso – tentam desvendar o mistério. Ainda mais que
é constatado que tal fenômeno também tem se repetido em outros lugares do
planeta, todos situados na linha do equador. O norte do Brasil, inclusive, é um
desses locais.
Pois os tais seres não são fantasmas, como
foram inicialmente chamados, mas seres de um universo paralelo ao nosso. O
mundo deles recebe o nome de Avernus, numa referência a um dos deuses da
mitologia grega que vive nas profundezas. Isso porque, os avernianos se situam,
paralelamente, ao interior da Terra. Mundos concêntricos, mas não simétricos, e
em constante movimento de um em relação ao outro.
Snook é quem faz os contatos com os seres,
principalmente com um deles, Felleth. A comunicação entre ambos é de caráter
telepático, por meio das habilidades mentais dos avernianos. E uma das
constatações interessantes é que, ao compartilhar por milhões de anos em
biosferas concêntricas, teria ocorrido uma transferência de saberes. Desta
forma poderiam ser explicadas as várias crenças de há muito tempo sobre a
existência de sociedades e um mundo sob a superfície da Terra.
Os avernianos – que se referem a si mesmos
como a Gente – são mamíferos, bissexuais, vegetarianos e com uma expectativa de
vida centenária. Como dito, se comunicam, principalmente, por meio de telepatia
e tem uma organização social patriarcal, mas com estruturas de poder informais,
regidas por um conselho de especialistas. Além disso, Avernus é um mundo com
uma superfície quase totalmente aquática, com várias pequenas ilhas em sua
faixa equatorial e o céu é sempre nublado. Tanto é que uma das descobertas mais
chocantes a partir do contato com a Terra é a existência das estrelas. Nunca
viram o céu noturno.
Mas a este contexto instigante, há o
imbróglio político. Isso porque não há um consenso entre o presidente e o líder
militar de Barandi sobre o que fazer com a descoberta e interferência dos
estrangeiros, pois poderia colocar em risco o destino político da jovem nação.
O presidente querendo legitimidade através do reconhecimento da ONU e o líder
militar através da força. Em meio à discussão, digamos, mais científica, Bob
Shaw caracteriza muito bem a situação política, numa interessante reflexão
sobre os rumos políticos possíveis em nações pobres que obtém a independência.
Certamente uma alusão às várias nações africanas que viveram processos de
emancipação política na segunda metade do século XX, a maioria delas,
inclusive, libertadas do julgo britânico, nação de origem do próprio autor.
Pelo que foi comentado, o leitor percebe
que estamos diante de um romance que se desenvolve em várias camadas. A das
descobertas científicas, mais ligadas ao lúdico e ao maravilhoso, e a que se
assenta no realismo da situação política do mundo à época. Mas isso não faz com
que a história tenha se tornado datada, pois Shaw é habilidoso em não reforçar
estereótipos e preconceitos.
Aliás, chama a atenção, além da
inteligência e criatividade, o bom senso e respeito no tratamento dos
personagens e culturas diferentes, o que sobressai também no choque cultural
com a nova civilização paralela à nossa. É como se houvesse dois planos de equivalência
comparativa: do ocidente imperialista para as nações descolonizadas e do nosso
mundo e seus valores em relação a um outro com características bem diferentes,
pelo exposto, menos materialista e mais aberto à diversidade.
Bob Shaw (1931-1996) escreve tão bem que
quase não se percebe que estamos diante de uma tradução portuguesa. Tem uma
prosa fluente, personagens interessantes e contraditórios, e move o
desenvolvimento do enredo de forma a surpreender o leitor até o final. Escritor
norte-irlandês com uma carreira sólida na FC britânica, Shaw tinha a habilidade
de escrever de forma a atrair mesmo leitores não habituados à FC. Um aspecto
reconhecido por críticos e por ele mesmo.
O
Planeta Fantasma não está entre seus livros mais
lembrados, mas pode ser situado entre os melhores, por todas as qualidades que
já externei nesta resenha. Entre o final dos anos 1970 e na década de 1980
escreveu dois romances premiados com o British Science Fiction Award e que estabeleceram
seu prestígio: Orbitsville (1975) e Os Balonautas (The Ragged Astronauts;1986) – Argonauta 408 e 409 – e que renderam
mais dois livros cada um. Mas antes ele já havia chamado a atenção pela criação
do conceito do ´vidro lento´: um recurso tecnológico que permitiria enxergar o
passado, conforme exposto em outro de seus livros notáveis, Outros Dias, Outros Olhos (Light of Other Days; 1966), publicado
pela Argonauta em seu número 457. Esta coleção, inclusive, publicou mais sete
livros dele, e no Brasil saíram dois: a coletânea A Invasão Silenciosa (Tomorrow
Lies; 1973) e o romance Crime no
Tempo B (Dagger of the Mind;
1979), ambos pela coleção Fantastic,
da Tecnoprint, nos anos 1980. Há muito o que ler dele, portanto.
Se Shaw não está entre os escritores de
primeira linha na FC, se situa muito bem entre aqueles que valem ser conhecidos
por terem uma voz própria e se consolidarem no gênero por alguns dos seus aspectos
mais valiosos: uma engenhosidade criativa quase juvenil equilibrada com uma
perspectiva crítica da realidade. Isso está longe de ser trivial.
—Marcello Simão Branco

Nenhum comentário:
Postar um comentário