Desta Terra Nada Vai
Sobrar, a não ser o Vento que Sopra Sobre Ela, Ignácio de
Loyola Brandão. Capa: Thomaz Souto Corrêa. 376 páginas. São Paulo: Global,
2018.
Um romance inédito de
Loyola Brandão, e depois de 12 anos é um acontecimento literário no cenário
brasileiro. O último foi A Altura e a Largura do Nada (2006) – na
verdade uma coleção de crônicas e contos interligados, uma espécie de fix-up
–, e neste Desta Terra... o autor volta a um universo ficcional
fantástico, de ficção científica, mas, sobretudo, de delírio absurdista.
A história se passa num
futuro indeterminado, mas institivamente próximo de nossa realidade, já que faz
várias referências a acontecimentos políticos, sociais e ambientais do Brasil
dos anos 2010. Período de seguidas crises políticas, com crescente polarização,
e ameaça à democracia, em meio a um contexto de recessão econômica e desastres
industriais vultosos, com enormes impactos ambientais.
Neste Brasil, todas as
pessoas já nascem com tornozeleiras eletrônicas (!), e são vigiados por câmeras
o tempo todo, em praticamente todos os lugares possíveis. A corrupção
estrutural se transformou numa epidemia que corroeu completamente a classe
política e as instituições, mas isto, no fundo foi um sintoma, de práticas e
valores antiéticos e imorais espalhados e entranhados, antes de mais nada, nas
relações sociais e interpessoais.
Os mandatos presidenciais
duram, em média um mês, já que se banalizou o expediente do impeachment,
que de exceção, se tornou a regra. A quantidade de partidos explodiu,
ultrapassando o número 1000, onde, na verdade, cada parlamentar pertence a uma
legenda individual para chamar de sua, tal o quadro de fragmentação a que se
chegou, no qual o interesse público desapareceu para dar lugar ao interesse
individualizado e ultraprivatizado. Tal o grau de degradação do político, que
ele ganhou nova nomeação: astuto, uma referência cínica às suas
intenções e comportamentos. Vale tudo para se atingir um objetivo,
principalmente se for para o interesse pessoal e dos seus.
Neste contexto caótico, o
país sobrevive não se sabe como do ponto de vista econômico, pois o fracasso
material se estabilizou, se refletindo numa pequena elite altamente abastada e
massas de diferentes pessoas e segmentos sociais que lutam apenas para existir.
Partes do país, inclusive, se tornaram inviáveis, ora por causa da violência
descontrolada de grandes centros urbanos – como São Paulo e Rio de Janeiro, este
do qual pouco sobrou –, ora pelo quase total abandono de regiões nos rincões do
país, que, no fundo nunca foram plenamente integradas no processo de
desenvolvimento capitalista nacional.
Nesta sociedade que
praticamente se desmanchou e viceja, sobretudo, a violência e a corrupção como
forma de sobrevivência, acompanhamos a crise no relacionamento entre Felipe e
Clara, que em tempos anteriores, eram um casal apaixonado e bem sucedidos em
suas carreiras numa agência de publicidade. Desiludida com o egoísmo e falta de
comprometimento do namorado, Clara o deixa e parte para sua cidade natal, a
misteriosa Morgado de Mateus, situada no meio de um nada pelo interior profundo
de Minas Gerais. Lá ela tentará se refugiar junto à irmã Lena, uma
ex-professora angustiada com o sumiço de seu filho e tendo de cuidar do marido
inválido. Mas Felipe também resolveu abandonar sua casa e o que poderia restar
de sua carreira, e, com sentimento persecutório, passa a se movimentar de
ônibus pelo país afora, vivendo um pouco em cada rodoviária, até um novo
destino incerto. Até que, sem querer, vislumbra uma mulher na janela de um
ônibus e resolve segui-la para descobrir se é Clara.
Nas grandes cidades, trens
urbanos levam corpos em vagões, depois de terem sido deixados nas ruas e estradas.
Os idosos, se chegarem aos 67 anos e não terem condições de se manterem ou de
serem mantidos, tem de se apresentar na chamada autoeutanásia, onde cometem
suicídio em lugares altos e ermos, como pontes e montanhas. Movimentos
reacionários, alguns de inspiração religiosa, atacam o que chamam de “arte
degenerada”, vandalizando ou destruindo museus, exposições de arte, além de
matarem bailarinos por se apresentarem nus. As escolas não existem mais. Não há
ensino institucionalizado, nem público e nem particular. Ninguém lê ou se
importa com qualquer forma de produção impressa. Todos se informam por meio de
seus celulares e antigos aparelhos de TV, os que restaram.
Em meio a este caos,
talvez o sinal mais eloquente da barbárie é que as horas e os dias não são mais
contados. Na verdade, para quem se importa é, mas no cotidiano da vida
particular de cada um, deixou de ter qualquer significado.
Felipe leva consigo uma
dúvida existencial: se Deus criou o universo, como era antes, quando ele vivia
no escuro? De onde ele teria vindo? O que o teria motivado? Lendo o volumoso
ensaio póstumo Passagens (1982), do filósofo Walter Benjamin
(1892-1940), ele busca a inspiração para desvendar este mistério
existencial-teológico insolúvel, dado que nem os padres e freiras que ele
consultou conseguiram dar qualquer resposta à questão.
Pois Felipe chega
finalmente a Morgado de Mateus, uma cidadezinha que guarda segredos lendários,
como a presença de senador Altivo Ferraz, outrora muito poderoso, mas que
condenado por corrupção, teria se refugiado numa fortaleza da qual ninguém sabe
se ele de fato está lá, onde guardaria um exemplar original de Os Lusíadas
(1572), de Luís de Camões (? – 1580). Município tão fora de sintonia que nem se
reconhece mais como parte do Brasil, que é um antes ou depois. Aliás, um depois
que ninguém sabe no que vai dar.
A expectativa fica na
possibilidade do reencontro do casal, mas várias situações cada vez mais
bizarras passam a ocorrer tornando isso difícil, e encaminham a narrativa para
um crescente absurdo, onde, por exemplo, todos os políticos do Congresso
derretem literalmente numa sessão, quando se descobre dentro Areópago Supremo –
referência sarcástica ao Supremo Tribunal Federal – juízes mortos há muito
tempo, com decisões judiciais tendo sido tomadas, na verdade, por avatares de
inteligências artificiais.
Como o próprio Brandão
afirmou, escreveu este livro por “medo”, a mesma motivação de quando escreveu seus
dois livros principais Zero (1974) e Não Verás País Nenhum
(1981), em que imaginou uma distopia baseada na ditadura militar brasileira e
seus rumos. Para ser preciso uma trilogia, com Zero sobre a instauração
do regime e seus mecanismos de repressão, a coletânea Cadeiras Proibidas
(1977), sobre as injustiças e absurdos do cotidiano e Não Verás... sobre
possíveis horizontes com a abertura, que, no caso do livro, se mostraram um
fracasso político e ambiental em seu futuro. Pois Desta Terra... poderia
ser visto como um avanço especulativo posterior, no qual a democracia se
afirmou, mas em bases que se mostraram muito frágeis em seus valores, levando à
crise política que ainda hoje nos assola, e com prognósticos que não dão razão
para muito otimismo.
Um trecho representativo
da reflexão especulativa de Brandão sobre o Brasil revela uma angústia de certa
forma compartilhada por aqueles que pensaram sobre o país hoje e no passado:
Que
mundo é este? As coisas não se encaixam, há um Brasil e dentro dele outro,
diferente, um que comanda, outro que vive anestesiado/calado, sem fazer nada,
algemado. Algemado, não, com tornozeleira. Quem é o brasileiro? Aqueles
cientistas que vieram estudar não entenderam. Ninguém nunca conseguiu definir
este povo. Uma gente que tem medo da violência e a pratica. Há em alguma parte
um país verdadeiro, a ser desvendado. (pg. 321).
Assim, o livro é uma espécie de desabafo meio
desesperado da crise vivida pelo Brasil de 2013 em diante. De um país que
aparentemente havia viabilizado o que poderíamos chamar de um contrato social
da democratização, mas se viu imerso num contexto de crescente radicalização – uma
reação dos setores historicamente privilegiados contra os êxitos do processo de
redução da desigualdade e empoderamento de minorias –, e que esteve a ponto de
destruir a própria democracia, especialmente quando teve na Presidência uma
figura que a atacou e tentou subvertê-la, após não ser reeleito. Mesmo assim, em
comparação, embora contribua com esta nova visão especulativa e futurista do
Brasil de seu tempo, não tem o mesmo vigor criativo de sua obra-prima, Não
Verás País Nenhum, mas nem por isso deixa de ser um livro importante a
refletir sobre este novo momento do Brasil e do que pode vir daí.
Ignácio de Loyola Brandão
é um dos autores com os melhores títulos de livros, e Desta Terra Nada Vai
Sobrar, a não ser o Vento que Sopra Sobre Ela não é exceção, tomando como
inspiração uma frase da peça Do Pobre B.B. (1921), do dramaturgo alemão
Bertold Brecht (1898-1956), e que, no ambiente da FC me fez lembrar do
igualmente emblemático Só a Terra Permanece (Earth Abides; 1948),
de George R. Stewart (1895-1980), clássico do gênero sobre um mundo que se
torna uma terra de ninguém por causa de uma praga biológica. Pensando bem,
talvez o romance de Brandão seja mais do que uma amarga e por vezes
desagradável distopia, por causa de sua intensidade corrosiva e niilista, e
esteja mais próxima de um Brasil pós-apocalíptico, do que praticamente há de
restar.
Que esta visão pessimista
nem se aproxime de se tornar verdade, embora os problemas e sintomas estejam
bem caracterizados em termos metafóricos e especulativos, podendo servir como
um poderoso indicador do que podemos fazer, como sociedade brasileira e
civilização, para impedir que eventualmente ocorra.
—Marcello Simão Branco
