Nebulosa,
André Cáceres. Capa e projeto gráfico: Matéria-Prima Editorial. 330 páginas.
São Paulo: Editora Patuá, coleção Futuro Infinito, 2021.
Num futuro distante e indefinido a
humanidade está espalhada pela galáxia ao habitar 108 mundos. Sim, mais de uma
centena. E todos eles governados, pelo menos formalmente, por um deles, o
centro político do Império, chamado de Nebulosa. Em meio a este universo de
trilhões de seres humanos, um deles descobre uma maneira de prever
estatisticamente eventos futuros. Esta é a mola propulsora que dá início a esta
aventura de space-opera.
Talvez um leitor mais experiente de FC já
tenha intuído que estamos diante de uma estrutura bem parecida ao da série
“Fundação”, de Isaac Asimov (1920-1992). De fato, poderia dizer que é um
romance bem asimoviano, ainda que não se limite a isso. Quem descobre um meio
de prever o futuro através de equações matemáticas é Dédalo, um jovem aprendiz
de uma universidade no distante planeta de Agro-IV. Ora, Dédalo seria uma
espécie de Hari Seldon mais jovem – o cientista de Asimov –, e a nova ciência
que cria, a cliodinâmica, uma versão menos ambiciosa da psico-história. Pois esta
prevê a queda do império e elabora, em segredo, um plano para reconstruí-lo. Já
a cliodinâmica é mais sutil e modesta: prevê apenas que o imperador Ninrod II
sofrerá um atentado.
Dédalo é levado até o líder político, e
vira uma espécie de amuleto para servir de oráculo ou trunfo a ser utilizado
pelo imperador, ou por quem tomar posse do garoto. Isso porque, no fundo, não
seria preciso prever matematicamente a possibilidade do imperador sofrer um
atentado, já que o regime imperial carece de legitimidade e impõe-se pelo
terror em vários dos planetas, provocando, assim, reações de guerrilhas e
planos conspiratórios para enfraquecê-lo ou derrubá-lo.
Talvez para explicar as várias fontes de
contestação é que o romance tem sua ação intercalada em cenários diferentes,
liderados por personagens específicos. Além de Dédalo, temos a guerreira
Aurora, do planeta Opel-A; Ícaro, filho rebelde do imperador, e Leon Suçuaruna,
outro filho de líder político, este do mundo de Riverão, que outrora liderava o
império, mas foi politicamente destronado e mantém sua nobreza apenas na
aparência, totalmente endividado e dependente dos favores de outras realezas e
grupos mercenários.
Ao longo de dezenas de capítulos curtos,
os planos e aventuras destes e outros vários personagens se sobrepõe de forma
gradativa, como é comum nesta estrutura de romance em mosaico. E o que
sobressai é menos o caráter subjetivo dos personagens, e mais as estratégias para
obtenção de poder. É principalmente uma história de conspirações palacianas,
mas movimentadas o suficiente para prender o interesse, ainda que algumas
situações e reviravoltas ocorram de forma repentina e superficial.
A base asimoviana do livro pode ser
identificada também na vinculação de Nebulosa com o planeta de Trantor, centro
do império de “Fundação”. Além disso, pelo fato da humanidade ter se expandido
Via-Láctea afora e perdido a noção de sua própria origem, considerada uma
lenda. Mas também como, em algum momento, Asimov recorra a uma explicação para
isso, em Nebulosa haverá um contexto favorável ao encontro da origem inicial da
humanidade. Mas também como em “Fundação”, a humanidade estaria só no universo.
Ou ao menos haveria um segredo com relação a uma possibilidade em contrário.
Embora Cáceres não seja o primeiro a se
inspirar em Asimov para construir seu universo ficcional, chama a atenção, pois
o Bom Doutor nunca teve uma influência importante nos escritores brasileiros de
FC, historicamente mais próximos de Bradbury, Clarke e Lovecraft.
Em Nebulosa,
o conhecimento científico é desqualificado e tido como potencialmente
subversivo. Os cientistas são vistos como bruxos e perseguidos como se fizessem
parte de uma seita. O que predomina é a forma de conhecimento mágico ou
místico, ainda que isso não seja muito explorado e não fique claro como que uma
civilização toda baseada na tecnologia de viagens espaciais com velocidade de
dobra – inspirada aqui na série Jornada
nas Estrelas (Star Trek) – possa
desconsiderar o conhecimento que possibilita isso.
Outra questão subjacente se relaciona à
questão do limite ou mesmo existência do livre-arbítrio – também colocada em
questão na psico-história de “Fundação”. Embora pouco desenvolvida no contexto das
tramas palacianas, receberá uma explicação probabilística que segue o Bom
Doutor, no que diz respeito à maior precisão da previsão sobre o comportamento
de agrupamentos coletivos do que na vida particular de um indivíduo.
Ainda que, em si, quase estejamos diante
de um romance de homenagem, esta abordagem respeitosa de fã, não torna a
leitura desinteressante, porque Cáceres escreve bem, os diálogos e as situações
são ágeis e, o principal: suas descrições dos vários planetas são belas e
inspiradas. Provavelmente, ele teve ter pesquisado bastante, não apenas em
histórias de FC, mas na já farta literatura astronômica sobre os exóticos e
surpreendentes exoplanetas.
Este não é o primeiro livro do jornalista
André Cáceres, que já havia publicado a distopia Cela 108 (2015), além de alguns outros textos esparsos, mas talvez
seja seu trabalho mais ambicioso, mesmo tendo por base um outro autor, um
clássico da FC. Embora Nebulosa
entretenha, acredito que o autor pode mais, principalmente se tiver uma voz
mais própria, como demonstrou no conto “Esperando o Dono”, vencedor do prêmio
Odisseia de Literatura Fantástica 2024.
—Marcello Simão Branco