quarta-feira, 2 de abril de 2025

Nebulosa

 



Nebulosa, André Cáceres. Capa e projeto gráfico: Matéria-Prima Editorial. 330 páginas. São Paulo: Editora Patuá, coleção Futuro Infinito, 2021.

 

Num futuro distante e indefinido a humanidade está espalhada pela galáxia ao habitar 108 mundos. Sim, mais de uma centena. E todos eles governados, pelo menos formalmente, por um deles, o centro político do Império, chamado de Nebulosa. Em meio a este universo de trilhões de seres humanos, um deles descobre uma maneira de prever estatisticamente eventos futuros. Esta é a mola propulsora que dá início a esta aventura de space-opera.

Talvez um leitor mais experiente de FC já tenha intuído que estamos diante de uma estrutura bem parecida ao da série “Fundação”, de Isaac Asimov (1920-1992). De fato, poderia dizer que é um romance bem asimoviano, ainda que não se limite a isso. Quem descobre um meio de prever o futuro através de equações matemáticas é Dédalo, um jovem aprendiz de uma universidade no distante planeta de Agro-IV. Ora, Dédalo seria uma espécie de Hari Seldon mais jovem – o cientista de Asimov –, e a nova ciência que cria, a cliodinâmica, uma versão menos ambiciosa da psico-história. Pois esta prevê a queda do império e elabora, em segredo, um plano para reconstruí-lo. Já a cliodinâmica é mais sutil e modesta: prevê apenas que o imperador Ninrod II sofrerá um atentado.

Dédalo é levado até o líder político, e vira uma espécie de amuleto para servir de oráculo ou trunfo a ser utilizado pelo imperador, ou por quem tomar posse do garoto. Isso porque, no fundo, não seria preciso prever matematicamente a possibilidade do imperador sofrer um atentado, já que o regime imperial carece de legitimidade e impõe-se pelo terror em vários dos planetas, provocando, assim, reações de guerrilhas e planos conspiratórios para enfraquecê-lo ou derrubá-lo.

Talvez para explicar as várias fontes de contestação é que o romance tem sua ação intercalada em cenários diferentes, liderados por personagens específicos. Além de Dédalo, temos a guerreira Aurora, do planeta Opel-A; Ícaro, filho rebelde do imperador, e Leon Suçuaruna, outro filho de líder político, este do mundo de Riverão, que outrora liderava o império, mas foi politicamente destronado e mantém sua nobreza apenas na aparência, totalmente endividado e dependente dos favores de outras realezas e grupos mercenários.

Ao longo de dezenas de capítulos curtos, os planos e aventuras destes e outros vários personagens se sobrepõe de forma gradativa, como é comum nesta estrutura de romance em mosaico. E o que sobressai é menos o caráter subjetivo dos personagens, e mais as estratégias para obtenção de poder. É principalmente uma história de conspirações palacianas, mas movimentadas o suficiente para prender o interesse, ainda que algumas situações e reviravoltas ocorram de forma repentina e superficial.

A base asimoviana do livro pode ser identificada também na vinculação de Nebulosa com o planeta de Trantor, centro do império de “Fundação”. Além disso, pelo fato da humanidade ter se expandido Via-Láctea afora e perdido a noção de sua própria origem, considerada uma lenda. Mas também como, em algum momento, Asimov recorra a uma explicação para isso, em Nebulosa haverá um contexto favorável ao encontro da origem inicial da humanidade. Mas também como em “Fundação”, a humanidade estaria só no universo. Ou ao menos haveria um segredo com relação a uma possibilidade em contrário.

Embora Cáceres não seja o primeiro a se inspirar em Asimov para construir seu universo ficcional, chama a atenção, pois o Bom Doutor nunca teve uma influência importante nos escritores brasileiros de FC, historicamente mais próximos de Bradbury, Clarke e Lovecraft.

Em Nebulosa, o conhecimento científico é desqualificado e tido como potencialmente subversivo. Os cientistas são vistos como bruxos e perseguidos como se fizessem parte de uma seita. O que predomina é a forma de conhecimento mágico ou místico, ainda que isso não seja muito explorado e não fique claro como que uma civilização toda baseada na tecnologia de viagens espaciais com velocidade de dobra – inspirada aqui na série Jornada nas Estrelas (Star Trek) – possa desconsiderar o conhecimento que possibilita isso.

Outra questão subjacente se relaciona à questão do limite ou mesmo existência do livre-arbítrio – também colocada em questão na psico-história de “Fundação”. Embora pouco desenvolvida no contexto das tramas palacianas, receberá uma explicação probabilística que segue o Bom Doutor, no que diz respeito à maior precisão da previsão sobre o comportamento de agrupamentos coletivos do que na vida particular de um indivíduo.

Ainda que, em si, quase estejamos diante de um romance de homenagem, esta abordagem respeitosa de fã, não torna a leitura desinteressante, porque Cáceres escreve bem, os diálogos e as situações são ágeis e, o principal: suas descrições dos vários planetas são belas e inspiradas. Provavelmente, ele teve ter pesquisado bastante, não apenas em histórias de FC, mas na já farta literatura astronômica sobre os exóticos e surpreendentes exoplanetas.

Este não é o primeiro livro do jornalista André Cáceres, que já havia publicado a distopia Cela 108 (2015), além de alguns outros textos esparsos, mas talvez seja seu trabalho mais ambicioso, mesmo tendo por base um outro autor, um clássico da FC. Embora Nebulosa entretenha, acredito que o autor pode mais, principalmente se tiver uma voz mais própria, como demonstrou no conto “Esperando o Dono”, vencedor do prêmio Odisseia de Literatura Fantástica 2024.

Marcello Simão Branco