sábado, 3 de fevereiro de 2024

O Enigma de Andrômeda

 



O Enigma de Andrômeda (The Andromeda Strain), Michael Crichton. Tradução: Fábio Fernandes. 305 páginas. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Lançamento original em 1969.

 

Este romance é um clássico do sub-gênero tecnothriller, que procura trabalhar com enredo de ação e suspense em torno de um problema científico e/ou tecnológico na fronteira do conhecimento. O Enigma de Andrômeda se distingue, ainda, pela abordagem a partir de uma perspectiva médica/biológica. Há outros romances nesta linha, mas talvez nenhum com o impacto deste. E isso além do fato de que a maioria dos tecnothrillers trilhou o caminho do suspense político em meio ao contexto da Guerra Fria e novos armamentos e tecnologias.

Nos anos 1960, em plena disputa pela primazia espacial e militar, os EUA criam um projeto secreto para explorar a possibilidade, teórica, em princípio, de estudar e desenvolver alguma arma biológica a partir de supostos microorganismos situados no espaço próximo à Terra. Para isso lançam alguns satélites de exploração até que um deles choca-se com um meteoro e entra na atmosfera. Qual não é a surpresa e o choque quando se descobre que o Scoop-7 matou quase todos os habitantes de Piedmont, uma cidadezinha do estado do Arizona.

Com isso é reunida uma equipe de cientistas lideradas pelo prêmio Nobel de Medicina Jeremy Stone. Na verdade, ele é que havia proposto ao governo a criação deste projeto anos antes – chamado de Wildfire –, mas não com objetivos militares, e sim científicos. Ele e mais três especialistas (um microbiologista, um patologista e um cirurgião) são levados a uma instalação subterrânea ultrassecreta no interior do estado de Nevada, em uma corrida contra o tempo para descobrir o que ocorreu em Piedmont, a partir dos destroços do satélite e dos dois únicos sobreviventes: um homem idoso e um bebê. Foi mesmo causado por um microorganismo? De origem terrestre ou alienígena? Quais suas propriedades, como age no organismo humano, qual o grau de contaminação e letalidade?

Como o leitor já deve ter notado, Crichton faz uma crítica ao governo norte-americano por perverter uma iniciativa que teria interesses científicos. Esta crítica pode ser estendida a muitos outros países, e deixa implícita a hipótese de que um processo de doença epidemiológica de consequências catastróficas pode ter sido criada num laboratório. Estas situações são muito prováveis, principalmente na época em que houve a rivalidade entre norte-americanos e soviéticos. E a exploração dessa possibilidade se tornou comum em muitas teorias da conspiração, principalmente quando uma nova doença contagiosa é descoberta. Mais recentemente, as suspeitas, fundadas ou não, sobre o surgimento da Covid-19 também estão nesse contexto.

O romance se desenvolve como se fosse os cinco dias da maior crise científica da história dos EUA. Cada capítulo se passa num deles e progressivamente as pesquisas avançam, bem como seus desdobramentos. Crichton escreve de forma intensa e com muito realismo, tratando o assunto com o conhecimento científico da época. Assim, as páginas tem um aspecto semidocumental, com a apresentação de relatórios médicos, descrições de experimentos biológicos, gráficos, tabelas, infográficos e até uma bibliografia acadêmica ao fim da obra, para quem quiser estudar o assunto de forma mais profunda. Mas nada disso torna o livro chato. Ao contrário: reforça ainda mais o teor realista da obra, tornando-a mais impressionante para o leitor.

Dessa forma, todas as teorias de vida extraterrestre são apresentadas – pelo menos até a época em que o livro foi escrito –, e uma delas, justamente, é esta da chamada panspermia. De microorganismos de origem extraterrestre que adentram em nosso planeta. E no caso da “Variante Andrômeda” se mostrando uma bactéria de aspecto mortal. Com uma estrutura interna diferente das estruturas celulares da Terra, uma espécie de hexágono cristalino – mas sem DNA, RNA, proteínas ou aminoácidos –, é mortal aos seres vivos do nosso planeta ao provocar uma rápida coagulação no interior do organismo, solidificando o sangue, por assim dizer. Contudo, como irão descobrir os cientistas, pode haver alguma esperança, pois ela sofre contínuas mutações ao contato com o oxigênio presente na Terra.

Há um ponto especialmente interessante de O Enigma de Andrômeda que poderia ter sido mais explorado, mas talvez não o tenha porque poderia encaminhar a história para um sentido mais especulativo. É a Teoria da Bactéria Mensageira, ou seja, da possibilidade do envio de um microorganismo como meio de comunicação de uma espécie inteligente a outra. Isso mesmo: uma civilização extra-solar enviaria ao espaço profundo uma forma de vida que poderia estabelecer alguma comunicação com outra espécie inteligente. No livro ela teria sido apresentada por um engenheiro de comunicações, num congresso de Astronáutica no começo dos anos 1960. Talvez não por acaso, pois o romance surgiu no contexto da efervescência da corrida espacial da época, e Crichton explorou, justamente, esta perspectiva biológica. Factível ou não, a ideia é fascinante.

Na época, Michael Crichton (1942-2008) havia se formado em Medicina pela Universidade de Harvard, mas já havia dado os primeiros passos na carreira de escritor. Contudo, antes deste livro havia publicado apenas com pseudônimos, e O Enigma de Andrômeda foi o primeiro assinado com seu próprio nome. O sucesso imediato fez sua carreira de escritor decolar. De fato, o livro foi rapidamente adaptado ao cinema, num filme ótimo que se tornou também um clássico, homônimo de 1971, dirigido por Robert Wise (1914-2005). Anos depois, em 2008, no ano da morte de Crichton, Ridley Scott produziu uma minissérie baseada na história.

De fato, e como o leitor pode ter percebido ao ler o resumo do enredo acima, a obra tem muitas qualidades, que se tornariam uma marca de Crichton: uma prosa direta, com personagens interessantes e ativos, colocados quase sempre em situações limite, com muita tensão e suspense, em torno de temas e eventos na fronteira do conhecimento, na maior parte das vezes relacionados à FC. Muito prolífico, ele se tornou também roteirista e diretor de filmes competentes. Exemplos: Westworld: Onde Ninguém tem Alma (Westworld; 1974), O Homem Terminal (The Terminal Man; 1974), a adaptação de outro thriller médico Coma (1978), baseado no romance do também médico Robin Cook, entre outros. Sempre com uma visão crítica e por vezes irônica sobre os rumos da relação do ser humano com a tecnologia e a pesquisa científica.

Em termos populares Crichton, muito presente a partir dos anos 1970 até a sua morte precoce aos 66 anos, é mais conhecido como autor do romance Parque dos Dinossauros (Jurassic Park; 1990), de fato mais uma de suas obras muito boas – e que recebeu aqui no Brasil o Prêmio Nova em 1992. Mas, em termos de contribuição original à FC, acredito que O Enigma de Andrômeda ainda seja o mais interessante e influente. A editora Aleph relançou a obra em 2018, e ela continua, portanto, acessível aos leitores brasileiros.

Marcello Simão Branco

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