O
Beijo Antes do Sono, Fausto Cunha. Capa: Salvio Negreiros.
119 páginas. São Paulo: Artenova, 1974.
Fausto Cunha (1923-2004)
foi uma figura importante da literatura brasileira, nas décadas de 1960 e 1970,
e se estendermos sua contribuição à FC, também à década de 1980, aqui na figura
de editor. Mais conhecido entre a comunidade de FCB como um dos principais
autores da Primeira Onda, nomeada por ele de “Geração GRD”, transitou entre a
crítica literária, a ficção e a edição, com talento e marcas próprias, a partir
de uma perspectiva humanista e intimista. Aliás, uma tendência característica
dos autores desse período.
Publicou de sua lavra
quatro livros de FC, as coletâneas Noites
Marcianas (1960) e O Dia da Nuvem
(1980), a novela infanto-juvenil O Lobo
do Espaço (1977) e este O Beijo Antes
do Sono, seu único romance.
Num período contemporâneo,
mas indefinido, duas amigas de infância vão passar alguns dias numa fazenda da
família de uma delas. Ambas estão em crise com seus casamentos, mas aguardam a
chegada dos maridos para breve. Brígida é mais bonita e expansiva, ainda que
com períodos de certa confusão e melancolia. Débora, parece ser mais racional e
prática, mas não resiste muito quando confrontada aos seus problemas,
principalmente emocionais e sexuais. O que as duas compartilham de mais valioso
é a intimidade, como se o verdadeiro casal fosse o delas. Apesar de terem
personalidades distintas, compartilham sonhos e segredos, embora estejam ambas
num momento incerto de suas vidas.
Neste livro estes dramas interiores
são potencializados pelo contato com a força vital da natureza: as estrelas à
noite, a terra, os animais domesticados, a água – com rios e chuvas –, as
árvores, plantas e pássaros. O intimismo meio que se entremeia, em momentos
inspirados da narrativa, com motivos e eventos da natureza.
Mas em meio a este
contexto existencial e primal, há um elemento de desestabilização sobre a vida
das duas: Phom. Um ser indefinido que surge, ora para Brígida – que parece ser
sua preferida –, ora para Débora. O contato e relação dele com as duas é incerto e
intenso e avança para o crescente erotismo e a consumação sexual. O estranho é
que quando ele não está presente, ambas se entregam aos seus problemas
conjugais e psicológicos como se Phom não existisse. Mas mesmo quando ele surge
– voando, se materializando, quase sempre à noite –, soa como estranho, quase
como inexplicável para aquela que não está a ter o contato com ele. Vira uma
espécie de segredo oculto entre as duas. Mas quem seria Phom?
Um anjo, um ser sobrenatural
da natureza, uma espécie de vampiro, um extraterrestre? Mas Phom não é uma
criação totalmente nova do autor, pois é possível estabelecer conexão com ao
menos dois contos que ele publicou na coletânea Noites Marcianas: “Chamavam-me de Monstro” e “61 Cygni”. No
primeiro, temos o alienígena Blixt, um ser do planeta Ghrh, que se apossa e se
transforma em qualquer outra forma material, orgânica ou inorgânica. E em “61
Cygni”, uma mulher solitária tem contato com uma criatura simbionte, semelhante
a Blixt. Ora, os dois elementos estão presentes: o alienígena e uma mulher! Desta
forma, Phom deveria ser uma extensão do desenvolvimento do conceito. Mas,
infelizmente, Cunha não se interessa em esclarecer, ou ao menos explorar um
pouco mais sobre o elemento que é, afinal, o condutor de maior interesse da
narrativa. E em certo ponto dela, ocorre o que poderia ser chamado de uma
ruptura, pois o comportamento de ambas se torna psicologicamente e fisicamente muito
alterado. Passam a ter ideias insanas e assassinas, desejos sexuais insólitos e
engordam demais. Muito provavelmente grávidas do ser misterioso?

O
Beijo Antes do Sono foi adaptado ao cinema como Amor Voraz (1984), pelo prestigioso
diretor Walter Hugo Khouri (1929-2003). Ele é conhecido por seus filmes
existencialistas e intimistas, que procura desvendar mistérios e obsessões da
psique humana, talvez principalmente a masculina, como no seu personagem infeliz
e solitário Marcelo, que se sucede em vários filmes. Mas em Amor Voraz o foco são as nuances e as
complexidades femininas, um gênero humano, diria, mais misterioso. Afinal, a
mulher teria uma relação mais sutil com os âmagos da realidade, por ser capaz
de gerar uma vida, podendo, assim, talvez ser mais afeita à capacidade de lutar
pela sobrevivência e transmitir o amor. Enfim, estou a divagar, mas é que tudo
isso fica mais evidente no filme do que no livro. Neste, após a tal da ruptura
a história perde mesmo seu rumo, com uma parte final em que os eventos perdem
inteligibilidade, concluindo com uma estranha discussão teológica descolada do
que parecia ser a proposta inicial da obra.
Mas talvez o mais curioso
é que não o romance, mas o filme é claramente identificado com a FC, pois a
personagem, interpretada por Vera Fisher – que seria a Brígida –, se comunica
com Phom por telepatia, e fica a saber que ele vem de um planeta distante
muitos anos-luz da Terra, e que ele germinou sob a água, após milhares de anos.
Adquiriu a forma humana e deve voltar ao seu lar – numa viagem de luz – para
comunicar se o nosso planeta é adequado à vida deles. Ora, há mesmo semelhanças
aqui com outros filmes de FC como, por exemplo, ET, o Extraterrestre (1982) e Star
Man: O Homem das Estrelas (1984). Ora, é irônico que um autor de FC escreve
uma obra que insinua, mas não assume ser do gênero, e um diretor que nunca teve
ligação alguma com ele, produz uma obra do tipo. E bem interessante.
O
Beijo Antes do Sono, ganhou uma edição em Portugal, pela
editora Bertrand, em 1976, mas, de fato, quase nunca é lembrado entre aqueles poucos
que leem e pesquisam sobre a nossa FC. De Fausto Cunha se fala principalmente
de As Noites Marcianas, de fato seu
melhor livro. É um romance interessante, embora não desenvolva plenamente as
potencialidades temáticas que seriam afeitas ao gênero, tornando-se
desequilibrado em seu final. Mesmo assim, vale a pena ser conhecido.
—Marcello
Simão Branco