domingo, 20 de agosto de 2017

Graça infinita

Graça infinita (Infinite jest), David Foster Wallace. Tradução de Caetano W. Galindo. 1136 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

Leitores de ficção científica são muito desconfiados. Traumatizados por décadas de críticas nada favoráveis a suas histórias preferidas, aprenderam a desconfiar de toda e qualquer opinião, especialmente quando vem do mainstream e ainda mais quando é unânime. Os leitores de fc têm na ponta da língua uma ampla coleção de frases feitas usadas pelos críticos, entre as quais se destaca a máxima "Se é bom, certamente não é ficção científica". O trauma é tão intenso que, quando a crítica é favorável, a desconfiança é ainda maior. Porque, afinal, quem nunca entendeu absolutamente nada de fc certamente deve estar enganado. Fica valendo outro velho jargão: "Não li e não gostei" e o preconceito pela crítica acaba por tornar os fãs de fc igualmente preconceituosos. Deve ser por isso que Graça infinita, obra monumental do escritor novaiorquino David Foster Wallace (1962-2008) extremamente bem avaliada pela crítica, não despertou entusiasmo no meio dos fãs de fc quando de sua publicação no Brasil, ainda em 2014 pela Editora Companhia das Letras. O que é uma enorme e inaceitável injustiça porque, neste caso, as boas palavras da crítica em relação ao livro estão cobertas de razão. E o livro é mesmo ficção científica sem nenhuma sombra de dúvida. Mais do que isso: é muito provável que seja o melhor livro de fc já escrito. Mas aí já é o meu entusiasmo pessoal falando.
Graça infinita é um romance massivo de cerca de 600 mil palavras, publicado originalmente em 1996 nos EUA, considerado pela crítica americana como o último grande romance do século 20. Em termos de extensão, não é nenhuma novidade. Há dezenas de livros que têm essa dimensão e alguns são até maiores. Portanto, não é o tamanho do livro que conta aqui, embora ele seja ótimo também por isso. O que torna Graça infinita memorável é que se trata de uma literatura de alta octanagem, repleta de todo tipo de gadgets que a literatura pós-moderna já ousou aproveitar: citações, experiências formais, discursos descontrutivistas, solilóquios em fluxo de pensamento, linguagem não convencional, sexo, drogas, rock'n'roll e violência próprias da cultura popular deste início de século. Mas não só isso.
Há uma história em Graça infinita. Só não dá para saber com muita certeza quem é o protagonista porque a narrativa é de tal forma fragmentada e são tantos os personagens que algumas vezes parece que estamos lendo, de fato, uma coletânea de contos decapitados, passados todos no mesmo universo. Digo decapitados porque a maior parte dessas histórias não tem início e muitas delas também não têm fim.
De forma geral, o livro acompanha a vida dos três irmãos da família Incandenza: Orin, Hal e Mario. Orin, o mais velho, é  atleta profissional, jogador de futebol americano com sérios problemas para dormir. Hal é um gênio viciado em maconha que estuda no ATE, colégio voltado à formação de jogadores de tênis de alto desempenho; e o caçula, Mario, é um adolescente mentalmente deficiente e com um defeito congênito (sua cabeça é desproporcional ao corpo). O pai, James Incandenza – chamado pelos filhos de "Sipróprio" –, também ele um gênio da tecnologia ótica, fundador do ETA e cineasta experimental com uma extensa filmografia, suicidou-se alguns anos antes, mas sua herança maldita ecoa fortemente na vida dos filhos e da esposa, que os meninos chamam de "Mães". A família Incandenza vive em Boston, num futuro impreciso no qual a contagem dos anos é patrocinada por grandes corporações (no caso, estamos em AFGD que, por extenso, significa Ano da Fralda Geriátrica Depend) e os países da América do Norte foram politicamente unificados na Organização das Nações da América do Norte – Onan, para os íntimos – que passa por uma situação de instabilidade política com diversas comunidades terroristas lutando pela separação, como os violentos grupos canadenses Assassinos Cadeirantes e Frente de Libertação de Quebec, entre outros. Os grupos disputam a posse de uma arma chamada por eles de O Entretenimento, que nada mais é que uma das diversas versões de Graça infinita, filme produzido por James Incandenza que tem um nível de mesmerização tão potente que leva seus expectadores à morte. Cópias remetidas anonimamente já causaram baixas em cargos importantes do governo e uma exibição em rede do filme – essa sociedade futura é tão viciada em audiovisuais quanto a nossa – pode ser o ato que permitirá resultados efetivos na luta separatista. A curiosa apresentação gráfica do livro, que não tem nada escrito em sua capa, remete justamente ao cartucho de O Entretenimento.
Wallace elabora o cenário desse futuro com uma riqueza de detalhes que beira a de uma enciclopédia e torna o improvável extremamente convincente. Para coroar o capricho do autor, o livro contém um caderno de mais de 130 páginas, em corpo reduzido, com notas tão bem elaboradas que são peças literárias em si, como por exemplo o verbete que detalha a filmografia de James Incandenza, divertidíssima para quem aprecia boa ficção científica.
A obra de Wallace – que se suicidou em 2008 – dialoga com as de outros dois autores associados à literatura pós-moderna: Thomas Pynchon e China Miéville, que também trafegam pela ficção científica e o experimentalismo formal. A diferença entre eles é que Graça Infinita não é uma obra hermética e cifrada. Apesar das ousadas propostas formais e estilísticas, o texto é claro e acessível, focado em dramas explicitamente humanos: não é necessário ser um iniciado em fc ou em literatura pós-moderna para entender o que o autor diz. Talvez seja isso que tenha deixado os fãs de fc tão aborrecidos... azar deles.
Cesar Silva

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