segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O 3o. Planeta, Levy Menezes

O 3º Planeta, Levy Menezes. 124 páginas. Prefácio de Antonio Olinto. Capa de Juarez Paraiso e ilustrações internas de Levy Menezes. Edições GRD – Coleção Ficção Científica GRD, n. 18, Rio de Janeiro, GB. Lançamento original em 1965.

O 3º. Planeta foi o antepenúltimo livro lançado pela clássica coleção do editor Gumercindo Rocha Dorea e o sexto e último de um autor exclusivamente brasileiro. O niteroiense Levy Menezes (1922-1991), um conhecido artista plástico e arquiteto, foi apresentado a Dorea por ninguém menos do que Antonio Olinto, escritor e, sobretudo, crítico literário de muito prestígio na época e que mais tarde seria imortalizado na Academia Brasileira de Letras. Se a indicação foi de peso, a responsabilidade sobre a obra também seria equivalente. Foi nutrindo esta expectativa que comecei a leitura desta coletânea de onze contos.
Se a maioria das coletâneas costuma trazer o título de uma das histórias para nomear o livro, o que se nota é que este não é o caso do livro de Menezes. A proposta não muito comum é que temos em mãos uma coletânea temática. Sim, porque os contos fazem referência a situações dramáticas do passado ou futuro da humanidade e do planeta Terra. Este diferencial torna a obra de saída interessante.
O livro ecoa os sentimentos e assuntos candentes dos anos 1960, na chave da ficção científica pura, isto é, com tons assumidamente legados da Golden Age, embora com uma reflexão crítica e humanista que podemos caracterizar como do autor e de uma tendência semelhante seguida por outros autores brasileiros que praticaram FC na época, como André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz e Rubens Teixeira Scavone, entre outros. A transformação da sociedade agrária exportadora em complexos urbano-industriais recebe uma visão desencantada, pouco entusiasmada e mesmo desconfiada, tanto quanto à eficácia dos avanços, como de sua extensão para a maior parte da sociedade.
Em alguns contos visitantes extraterrestres sondam a Terra e não são bem-sucedidos em seu contato com os terráqueos, que são ou caipiras do interior do Brasil, como no divertido “Ukk”, ou no passado muito distante, com homens que vivem em tribos e cavernas, mas que nutrem uma dureza crua que ameaça a sofisticação tecnológica de seres fisicamente frágeis do espaço, como na pungente narrativa de “Ugulú”. Estes dois contos, inclusive, estão entre os melhores do livro.
Por outro lado, Menezes assume um caráter crítico sobre a responsabilidade humana não só a respeito dos recursos naturais da Terra, como de outros mundos, como os casos de “Floralis” e “Pax Circense”, histórias de predação da vida nativa em respectivamente Vênus e Marte. Nesse aspecto, Menezes demonstra uma preocupação ambiental precoce dentro do panorama brasileiro da FC, já nos anos 1960. E com uma sensibilidade crítica aguda.
A conquista espacial estava na ordem do dia e não poderia faltar uma história sobre a chegada à Lua, como “Projeto ´Olho Lunar´”, em que uma equipe de cientistas instala um supertelescópio no satélite natural da Terra mas em sua primeira missão tem de desviá-lo para objetivos militares, dentro da lógica da Guerra Fria. Os cientistas rebelam-se e ganham apoio da opinião pública internacional, mudando mesmo o curso da disputa política. Narrado com vigor, talvez um exercício idealista, mas obviamente ingênuo e implausível.
Experiências científicas em seres humanos, como em “O Estranho Caso do Dr. Lebenthal” e no relacionamento entre homens e máquinas, mostrado na boa noveleta “Terra Prometida” dão um outro viés de reflexão sobre a condição humana em seu planeta natal. O primeiro, eivado de um humor que não se leva a sério, os humanos passam a ter uma cauda, com todas as consequências sociais e fisiológicas imagináveis. E em “Terra Prometida”, uma civilização de robôs ovóides terraformiza a Terra para torná-la totalmente metalizada, até que um grupo de androides se rebela e parte em busca de seus antepassados, chamados de “divinos”, os humanos que vivem em Marte depois da Terra ter se tornado inútil devido a um holocausto nuclear. Com mais desenvolvimento poderia render um bom romance.
Este volume contém ainda aquele que pode ser considerado o melhor conto de Levy Menezes, “O Último Artilheiro”. Também no contexto de fim de mundo, um solitário sobrevivente de uma praga radioativa acha um canhão poderoso junto a uma casa abandonada. Angustiado e só, ironicamente ele aprende a armar e atirar com o artefato, como se quisesse devolver ao mundo insano a violência dirigida contra ele e seus semelhantes que pereceram. Narrada em contagem regressiva e com sarcasmo e amargura, não há esperança para o sobrevivente e para a humanidade como um todo. Este conto foi selecionado por Roberto de Sousa Causo na sua celebrada antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (Devir, 2007), uma importante referência para o gênero no país.
Como em todo livro de contos há certa irregularidade na qualidade, mas no conjunto temos em mãos um livro que agrada e mantém alguma atualidade em temas que são atemporais, como o destino do planeta e da humanidade que o habita. Com relação à prosa, por vezes é meio truncada, endurecida quanto à construção de frases e com um encadeamento confuso de situações. Por outras vezes demonstra leveza e despojamento, principalmente quando insere humor e certo coloquialismo provincial, diria mesmo carioca.
Dentro do contexto dos anos 1960 e da “Geração GRD”, Levy Menezes tem uma voz própria e mereceria ser mais lido, conhecido e debatido. É certo que talvez seja prematuro analisar o autor por um único livro, mas ele demonstra ser um autor interessante, criativo quanto às ideias – o livro é bem diversificado a despeito de partir de uma premissa comum –, e criticamente especulativo com relação ao comportamento do homo sapiens, sempre girando em torno do conflito entre atitudes egoístas e dilemas morais.

– Marcello Simão Branco

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