segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Por universos nunca dantes navegados

Por universos nunca dantes navegados, Luís Filipe Silva & Jorge Candeias, orgs. 262 páginas. Edição dos autores, Lisboa, 2007.

Lançamento aguardado com expectativa no fandom lusófono, desde o princípio organizado através da internet, com amplo chamamento dos dois lados do Atlântico, calçado na credibilidade de seus organizadores, Jorge Candeias, editor da revista eletrônica E-Nigma, e Luís Felipe Silva, veterano no fandom português, autor premiado e responsável pelo site de referência Tecnofantasia.
Depois de um longo período reunindo e avaliando os mais de 70 trabalhos recebidos, os editores escolheram 14 obras, sendo sete de autores portugueses e sete de brasileiros. Não parece ter sido coincidência que a antologia tenha sido assim dividida, provavelmente foi parte do projeto desde o princípio.
O volume apresenta uma característica muito positiva: a qualidade dos contos é bastante homogênea. Não há nenhum conto demasiadamente mau, embora nenhum deles se destaque.
Apresentarei, a princípio, uma rápida sinopse dos trabalhos portugueses que formam o volume, detendo-me a seguir nos trabalhos brasileiros. A ordem de entrada dos contos é a mesma aqui representada, sendo que os contos brasileiros estão intercalados aos portugueses, também na mesma ordem.
Contos portugueses:
“Resíduos sólidos urbanos”, de João Ventura: numa sociedade futura, as pessoas derrotadas são simplesmente jogadas no lixo. Mas há regras. Somente os realmente derrotados podem ser descartados, e instala-se uma crise política quando uma família resolve desfazer-se, ilegalmente, de um vovozinho ainda operacional.
“Fome de pássaro”, de Yves Robert: jovem irrefreável apaixona-se por garota desconhecida que parece ter algo a ver com a aparição fantasmagórica que flutua sobre os telhados, comandando uma revoada de pássaros.
“Littleton”, de Jorge Candeias: turista entra numa simulação virtual da época do faroeste, na qual representa um ladrão de bancos. Porém, as coisas não caminham conforme o roteiro: estranhos equipados com armas de verdade causam pânico entre os avatares do jogo, que dizem ao turista que eles são perigosos criminosos fugitivos refugiados na simulação, e que ele terá de se aguentar enquanto não se resolve um problema técnico que, durante um certo tempo, impede que ele saia do jogo em segurança.
“O pico de Hubert”, de Telmo Marçal: os destinos do assassino perfeito e da acólita de uma seita integralista cruzam-se no último refúgio da civilização depois da queda, não por acaso, uma comunidade corrupta e violenta, dominada por um chefão do crime.
“Assassinos de sobreiros”, de João Ventura: grupo paramilitar extremamente bem equipado invade uma empresa de pesquisas genéticas para assassinar árvores mutantes, mas tem de enfrentar também a equipe de segurança da empresa.
“O nevoeiro que desvendou realidades”, Sofia Vilarigues: numa ilha turística mora uma velha senhora que é uma das últimas falantes de uma língua antiga. Com ela vive seu neto, que aprende os rudimentos dessa língua, que permite dialogar com a natureza. Uma neblina misteriosa leva o jovem a se perder na mata, enquanto uma família num jeep se acidenta em algum lugar selvagem da ilha.
“Deus das Gaivotas”, Antonio e Jorge Candeias: administrador de um pesqueiro passa os dias de baixa temporada em devaneios eróticos com gaivotas. Mas essa é apenas uma história dentro de outra, na qual o autor irritado com a teimosia de seu personagem, o materializa para uma discussão cara a cara.
Contos brasileiros:
“Oberon”, de Walmir Alcântara: garotinha e sua jovem mãe separada de um marido violento, mudam-se para um apartamento de um prédio antigo. As duas são influenciadas por uma presença misteriosa que habita um dos apartamentos superiores e apenas sua vizinha, uma matrona que perdeu a filha, poderá ajudá-las a entender e aceitar seu destino. O conto é doce e simpático, mas soa como algo já lido, refletindo nitidamente as influências do autor. O final feliz arremata o conto de forma previsível.
“Para tudo se acabar na quarta-feira”, de Octavio Aragão: episódio no universo Intempol, criado pelo autor. Desta vez, os agentes da polícia do tempo estão às voltas com um grupo de traficantes do Rio de Janeiro durante o carnaval. O líder da quadrilha – plantado desde criança nessa linha temporal por uma concorrente da Intempol, com o objetivo de desenvolver agressividade e falta de caráter –, depois de um entrevero com outra gangue, vê a namorada, destaque de escola de samba, ser baleada durante o desfile. Sua busca por vingança vai revelar até onde a estratégia de treinamento deu certo. As cenas de ação são  descritas com a crueza costumeira do autor, porém a história em si não chega a parte alguma. Os personagens são todos desprezíveis e não favorecem identificação com o leitor. A história não chega a ter uma conclusão, parecendo ser introdução a uma obra maior. Há uma grande quantidade de referências e citações ao universo intempoliano, que dificulta ainda mais a interpretação dos leitores não iniciados nesse ambiente.
“Digital Éden”, de Gabriel Boz: jovem entrega-se ao vício depois que a consciência de sua namorada desapareceu num computador ilegal conhecido como Digital Éden. Acusado pela polícia de fazer parte dos contraventores e ser responsável pela morte dela, o jovem passa o tempo tomando de drogas pesadas. Sua única esperança é, um dia, poder seguir sua amada. História de desfecho pessimista que não logra ser tão dramática: o personagem inexpressivo não atrai a simpatia do leitor.
“Disse a profetisa”, Carlos Orsi.
Num futuro decadente, uma sociedade teocrática cuja religião está apoiada no corpo congelado de uma viajante do passado, dois jovens irmãos conseguem manter diálogo com a consciência dessa viajante, por meio de um dispositivo eletrônico bem a propósito, que passou centenas de anos sem ter sido descoberto. A conversa abala as bases da religião oficial e acaba por derrubá-la, instalando outra no lugar. Um conto que poderia conter muitos significados, mas que não vai muito longe porque teve um tratamento demasiadamente superficial.
“A irmandade”, de Carlos Patati: várias pessoas têm seu destino modificado pela aquisição, geralmente em condições misteriosas, de um medalhão que lhes dá a capacidade de escutar vozes do presente, passado e futuro. Um a delas usa a capacidade para impedir crimes, antecipando as ações dos criminosos. Mas as coisas não saem de acordo quando ela segue um animado casalzinho numa favela, para impedir que aquele jovem traficante perpetre a maldade que pretende. Conto interessante com boa proposta temática e uma questão moral a ser interpretada pelo leitor. Entretanto, carece de uma estrutura que permita ao leitor memorizar os personagens e compreender o que está acontecendo, principalmente na primeira metade do conto que, de qualquer forma, é curto demais para abrigar a discussão que propõe.
“Ponte frágil sobre o nada”, de Maria Helena Bandeira: mulher vive com o filho cego numa sociedade teocrática que aboliu a linguagem oral (exceto entre os cegos). Repentinamente, a realidade dessa mãe começa a se confundir com outra, na qual homens falantes tentam convencê-la que toda a sua vida é uma ilusão criada pelos sacerdotes. A consciência da mulher salta de uma realidade para outra, sem que ela consiga decidir qual delas é a verdadeira, ganhando contornos ainda mais dramáticos por conta do destino da criança cega, que passa a ter a sua existência questionada. A introdução do conto é interessante, mas  tem desenvolvimento previsível e um desfecho inconclusivo.
“Xochiquetzal  em Cuzco: Uma princesa asteca no reino dos incas”, de Gerson Lodi-Ribeiro, ssinando como Carla Cristina Pereira: sequência às narrativas da princesa asteca Xochiquetzal, casada com o navegante português Vasco da Gama numa realidade em que as civilizações nativo-americanos não foram dizimados pelos espanhóis e tornaram-se vassalas de um grande império intercontinental sob o domínio de Portugal. Depois de arrasar a cidade de Calicute, a esquadra de Vasco da Gama parte em direção à América para arrasar outras paragens. Invencível e cruel, a frota lusitana só conhece um meio de negociação: o bombardeio de saturação. Assim, depois de descobrir um novo caminho entre o Pacífico e o Atlântico, ao sul da África, e de batalhar rapidamente contra uma frota espanhola, Vasco e seus almirantes vão à Cuzco bombardear as forças de um novo imperador que, acredita-se, não pretende manter o império inca alinhado à Portugal. A história não tem um estilo narrativo coerente. As vezes, assume o formato de romance, com diálogos voluptuosos, noutras adota o formato de relato de viagem, o que é mais natural uma vez que trata-se de um testemunhal. Porém, a relatora fictícia demonstra um distanciamento displicente dos fatos, como no relato da façanha de dobrar o Cabo das Tormentas, por exemplo. Num momento, com a frota ainda ao largo das ruínas fumegantes de Calicute, os almirantes debatem os grandes riscos de se aventurarem através de um caminho desconhecido que já tirou a vida de muitos navegantes audazes. No momento seguinte, a frota já está no Atlântico, sem maiores delongas. Como personagem, a relatora é praticamente imaterial, sem qualquer função dramática. Lodi-Ribeiro propõe que os atos fictícios de Vasco da Gama seriam mais honrosos que os de Pizarro na história real pois, apesar de igualmente cruéis e violentíssimos, não assumem o caráter genocida que caracterizou as ações civilizatórias sob responsabilidade dos espanhóis. Mesmo não sendo exatamente uma ficção longa, é a maior peça da antologia, com 38 páginas. Mas parece bem mais, pois sua legibilidade é cansativa e incômoda, por conta da grande volume de palavras ilegíveis retiradas das línguas nativo-americanas, tão invasivas que distanciam o leitor. Pelo menos no meu caso, tive de desistir de ler esses termos exóticos para conseguir chegar ao final do conto.
Como é possível perceber, os autores não se incomodaram em seguir a sugestão implícita no título Por mares nunca dantes navegados (que pode até ter sido criado depois de montado o volume): vários contos são sequências de histórias já vistas em outras antologias e mesmo os mais originais entre eles têm um certo ar de já visto. A promessa do título não é, portanto, cumprida. Mas isso não invalida o meritório esforço dos editores que, movidos tão somente pelo prazer da realização, viabilizaram mais uma das raras antologias lusófonas editadas em Portugal, belamente produzida pela lulu.com, um serviço internacional de tiragens por demanda.
Cesar Silva

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