segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Onde Ninguém Mais Esteve


Onde Ninguém Mais Esteve: O Legado de Jornada nas Estrelas para a Televisão, a Cultura Popular e o Mundo, Saulo Adami e Eduardo Torelli, organizadores. Capa: Pete Wallbank e ilustrações internas de Graham Hill. Prefácio: Sandro Moser. 230 páginas. Curitiba: Estrada de Papel, 2021.



A literatura de referência sobre a série Jornada nas Estrelas (Star Trek) com o qual o fã brasileiro teve contato ao longo de décadas era toda estrangeira, obras vindas dos Estados Unidos. Assim, embora não tenha sido o primeiro dos livros traduzidos no Brasil, lembro o espanto que foi quando o clássico Star Trek Compendium (1981), de Allan Asherman ganhou uma edição como Jornada nas Estrelas Compendium, em 1999. Alguns outros livros foram traduzidos desde então, mas nenhum com o impacto e importância deste no imaginário trekker. Em todo caso, a maior parte dos brasileiros nunca teve dificuldades em ler as edições originais em inglês. Menos pela dificuldade com o idioma, e mais pelo entusiasmo sobre o assunto. Posso dizer que no meu caso, inclusive, a leitura destes livros ajudou meu aprendizado com a língua.

Mas a boa novidade é que nesta última década, alguns dos maiores especialistas e fãs brasileiros da série começaram a publicar seus livros sobre Jornada. Entre outros, o pioneiro Almanaque Jornada nas Estrelas (2009), de Salvador Nogueira e Susana Alexandria – ver a resenha aqui –, e um estudo acadêmico interessante, Star Trek: Utopia e Crítica Social, do historiador Eduardo Pacheco Freitas (2019). Ao menos duas razões, talvez, possam explicar esta mudança. Primeiro, por causa do estágio da carreira dos autores – que publicaram antes outros livros ou alcançaram um título acadêmico reconhecido – mas também devido ao impacto do seriado em suas várias versões na cultura popular de uma maneira geral. E renovada com a comemoração dos 50 anos em 2016, a recriação com novos filmes no cinema e algumas novas séries em anos recentes.

Neste contexto, o livro Onde Ninguém Mais Esteve: O Legado de Jornada nas Estrelas para a Televisão, a Cultura Popular e o Mundo é o mais democrático e representativo, pois amplia esta abertura à publicação de escritos de brasileiros sobre a série. A começar pela organização da obra, a cargo de dois especialistas em cinema e TV. Saulo Adami é o mais conhecido fã e estudioso sobre a franquia Planeta dos Macacos (Planet of the Apes) – com dois livros sobre o assunto – e Eduardo Torelli escreveu, entre outros temas, um livro sobre a cinessérie James Bond. Além disso, como mostram em seus próprios capítulos, também cresceram vendo e apreciando as missões espaciais de Kirk, Spock e companhia.

Pois este volume é a primeira reunião de vários fãs e especialistas brasileiros e ilustra o esforço de admiração, reflexão e pesquisa sobre a criação de Gene Roddenberry (1921-1991). Isso porque o tom do livro é exatamente uma mistura de memórias pessoais, elogios sobre a série e muitos argumentos sobre os motivos que a tornaram tão especial na vida de cada um, na ficção científica e na cultura popular em geral.

Temos, assim, as presenças de nomes como Paulo Gustavo Pereira, Paulo Maffia, Maurício Muniz, Renato da Silva, Roberto de Sousa Causo, Ben Santana, Fábio Fernandes, Gilson Cunha, e eu mesmo. É um grupo heterogêneo, com jornalistas, professores, escritores e cientistas, mas que tem como ponto em comum a adoração à celebrada série de TV. Além disso, há um capítulo escrito pelo jornalista norte-americano Edward Gross. Ele é uma presença especialmente ilustre, pois talvez tenha sido quem assinou a maior parte das reportagens sobre a série, principalmente na saudosa revista Starlog que, nas décadas de 1970 a 1990, foi a principal referência de informações mensais sobre o universo da série. Além disso, Gross teve traduzido no Brasil Jornada nas Estrelas: A História Completa, Não Autorizada e Sem Censura – Volume 1 (2016), em coautoria com Marc A. Altman. Uma pesquisa de fôlego e reveladora sobre os bastidores e o universo de criação da série original.

E se ainda não ficou claro, esta antologia é sobre a série clássica, aliás como a própria bela ilustração de capa e as internas deixam transparecer. Isso torna o livro mais robusto do ponto de vista temático, reforçando as bases de compreensão sobre aspectos do desenvolvimento e estruturação das várias séries posteriores. Temos, assim, 16 capítulos, abordando de tudo um pouco: a vinculação de Star Trek com o subgênero da FC chamada de “space opera”, a criação e os bastidores da série, um sempre bem-vindo guia de episódios, com a ficha técnica e uma boa sinopse de cada um dos 79 episódios, um artigo sobre a série animada que sucedeu a clássica, entre 1973 e 1974, um capítulo sobre os filmes no cinema com os personagens da série original, um capítulo sobre as adaptações literárias e outro sobre as histórias em quadrinhos – em ambos aqui faltou uma pesquisa mais apurada sobre os títulos publicados no Brasil, listas das obras cairiam bem –, dois capítulos sobre a trajetória, as características e a presença dos fã-clubes brasileiros, mostrando que Jornada nas Estrelas é um fenômeno antigo e de alcance nacional, além de outros capítulos valiosos também por equilibrarem impressões pessoais com análises sobre algumas características temáticas que foram responsáveis pelo seu sucesso e influência perene. Tive a sorte de ser o autor com mais textos publicados, numa mostra do meu entusiasmo pelo projeto e amor ao seriado.

Onde Ninguém Mais Esteve não é apenas uma bonita seleta de homenagem mas, mais importante, uma amostra do vigor de reflexão e pesquisa, deixando claro que os fãs e especialistas brasileiros têm ainda muito o que dizer sobre a série, justificando assim, os livros nacionais que têm sido publicados nestes últimos anos. Que outros venham e consolidem uma literatura de referência com característica brasileira sobre a mais cultuada série de ficção científica.

—Marcello Simão Branco


sábado, 22 de janeiro de 2022

O Império dos Mutantes

O Império dos Mutantes (La Mort Vivante), de Stefan Wul. Tradução: Amadeu Lopes Sabino. Capa: Lima de Freitas. 172 páginas. Lisboa: Editora Livros do Brasil, Coleção Argonauta, n. 107, 1966. Lançamento original de 1958.

 


Stefan Wul é um autor que pensa grande. Uma das qualidades de seus livros é a dimensão quase metafísica que confere à condição humana, sua evolução e destino, principalmente do ponto de vista biológico. E este romance é aquele em que vai mais longe na exploração desses conceitos.

Num futuro distante e indefinido a Terra está praticamente desabitada. Os mares tomaram toda a superfície, restando apenas túneis subterrâneos e castelos no alto de montanhas. O ar é irrespirável tomado por uma radioatividade mortal.

Mas a humanidade sobreviveu. A maioria partiu para as estrelas distantes, construindo o que chamam de ‘planetas paraíso’. Talvez emulações intencionais ou não da própria Terra? Mas há também os que colonizaram os vizinhos Vênus e Marte.

Pois é em Vênus que nos é apresentado Joaquim, um velho biólogo que luta para manter suas pesquisas científicas contra uma rígida censura religiosa. Sim, a sociedade humana em Vênus é governada por uma ditadura que subjuga todos os aspectos comportamentais à sua doutrina. Uma teocracia mergulhada na ignorância e barbárie, a despeito de defender os valores de Deus.

Todo este contexto é mostrado logo nas primeiras páginas, conferindo um efeito altamente impactante. Poderia mesmo servir como uma ótima vinheta ou miniconto, e já seria incrível. Wul mostra como, de saída, fisgar o leitor de maneira incontornável.

Após Joaquim comprar um livro proibido de medicina de um contrabandista, este o leva para a Terra, apesar dos protestos do cientista. Na verdade, reclamações hesitantes, pois lhe é oferecida a chance de pesquisar livremente, sem censuras e humilhações. Chegando à Terra, ele é conduzido a um castelo no alto dos Montes Pirineus – cadeia de montanhas que fica na fronteira entre a França e a Espanha –, onde é apresentado a Martha, uma linda e misteriosa mulher, que comanda uma rede de contrabandos entre os dois planetas.

Ela deseja que o biólogo cure sua filha gravemente doente. Mas durante a viagem a menina morre, e então a missão de Joaquim terá de ser mais complexa: trazer novamente Lisa à vida. Mas como assim? O próprio Joaquim se mostra incrédulo. Mas Martha lhe mostra uma biblioteca com livros antigos, no qual haveria o conhecimento para se trazer uma pessoa morta novamente à vida. Ressurreição? Não, na verdade a técnica é a da clonagem, mas é curioso que esta palavra não é usada no livro, dando uma ideia errada do que seja reviver uma pessoa. Mas, no fundo, a própria Martha compreende que não é exatamente a filha que perdeu que deseja de volta, mas sim uma cópia dela.

Mas não se quer apenas uma nova Lisa, mas sete! Sim, por receio de que a experiência não desse certo, a mãe desesperada replicou mais células que o necessário, e sem dizer nada a Joaquim. Contudo, rapidamente, os setes clones mostram um desenvolvimento incomum. Crescem rápido e falam após poucos meses de vida. Da felicidade se resvala para o desespero e o descontrole, quando as gêmeas passam a desafiar a autoridade de Martha e Joaquim.

Para além do exagero das sete crianças, um erro grave foi cometido na própria clonagem, pois Joaquim descobre que a Lisa original havia sido envenenada pela mordida de um lagarto. E o efeito do estranho veneno teria desencadeado este desenvolvimento físico e mental incomum dos clones que, passam a engravidar e gerar novas Lisas, num processo de partenogênese. Centenas delas agora tomam as dependências do castelo e seus túneis subterrâneos. E, ainda além, elas se unem num único organismo que de humano já não tem quase nada, adquirindo um apetite insaciável por alimentação animal e vegetal. Percebe o leitor que a partir da clonagem se desenvolve várias mutações que transformam inteiramente os seres vivos originais? Tal narrativa é mostrada pelos olhos surpresos e aterrorizados de Joaquim e Martha, que se tornam vítimas de um monstro incontrolável.

 


O Império dos Mutantes é uma história de extrapolação científica em estado puro, no qual Wul demonstra o seu conhecimento científico ligado às ciências biológicas – ele era dentista de profissão – e uma imaginação das mais delirantes. Neste caso específico de puro pesadelo e horror.

Este é o único livro de Wul publicado no Brasil, com o título de A Cadeia das Sete, pela Tecnoprint Editora, série Futurâmica, n. 4, em algum momento dos anos 1970. Tenho esta edição, mas para escrever esta resenha li a edição portuguesa mesmo, de forma a seguir o padrão de leitura dos outros livros dele publicados pela Argonauta. Em 2019, uma editora online chamada Ala dos Livros anunciou a publicação de uma adaptação em quadrinhos do livro, publicada originalmente na França em 2018, com texto de Olivier Vatine e desenhos de Alberto Varranda, mas, ao que parece, o projeto ainda não veio a lume.

Outra curiosidade é que esta FC de puro sense of wonder inspirou o nome do grupo de rock brasileiro Os Mutantes (1966-1978; 2006), de Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias – além de participações de Liminha e Dinho Leme –, que marcou época na música popular brasileira. A sugestão do título da banda foi do cantor Ronnie Von, no seu programa de TV na Record, já que até então o nome era Os Bruxos. Talvez a feliz sugestão tenha se relacionado com o caráter ambíguo e em transformação dos temas e comportamento dos integrantes da banda, que transitavam entre a Jovem Guarda e a psicodelia da Tropicália, numa pioneira experimentação de um rock and roll à brasileira.

O Império dos Mutantes reflete sobre a relação problemática entre dogma e conhecimento, teocracia e ciência, mas, curiosamente, é como se a experiência tivesse dado alguma razão aos religiosos. Isso não fica explicitamente evidenciado na história – embora Joaquim se angustie muito com o resultado de seu experimento –, mas passa essa sensação. Um romance poderoso e que deixa um forte impacto no decorrer dos acontecimentos, como que se superando, um capítulo após o outro, até um desfecho não menos que incrível. Este é um dos melhores livros de Wul, com um pulp dos mais acentuados, embora numa chave inversa – não muito comum em livros deste tipo –, com o contexto mais pessimista e desdobramento mais sombrio de sua obra.

 

—Marcello Simão Branco

 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Chung Li: A Agonia do Verde

Chung-Li: A Agonia do Verde (The Death of Grass), John Christopher. Tradução: Luiz Horário da Mata. Capa: Raul Rangel. 199 páginas. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, Coleção Mundos da Ficção Científica n. 19, 1980. Lançamento original de 1956.



Desde 2020 estamos imersos na pandemia da covid-19, nome científico para um vírus gripal que já dizimou cerca de 5 milhões e 200 mil pessoas em todo o mundo, quando escrevo, em dezembro de 2021. Apesar do avanço da vacinação já ter produzido bons resultados, a desigualdade no acesso a elas e o surgimento de novas cepas tem ameaçado a retomada da vida, ao menos próxima, da que existia antes deste evento trágico.

Pois este romance também aborda a tragédia e as consequências do surgimento de um vírus. É Chung-Li, e recebeu este nome porque, justamente, surgiu na China. Mas, em vez de ameaçar a vida humana diretamente, ele é extremamente letal contra todas as formas de gramíneas, incluindo arroz e trigo, as mais consumidas.

A praga se espalha rapidamente no Sudeste Asiático provocando o colapso da economia e a fome generalizada. Os países desenvolvidos enviam ajuda, mas quando o vírus chega às suas fazendas e plantações, tudo muda. Chung-Li destrói todas as formas de grama e, rapidamente, falta alimentos de todos os tipos e a fome se torna crônica.

O romance é narrado a partir de John Custance, um engenheiro que, após ser informado que Londres seria bloqueada para a saída, foge com sua família, a de seu amigo Roger Buckley e, inesperadamente, do vendedor de armas Pirrie e sua esposa. O objetivo do grupo é chegar a Westmorland, onde está situada a fazenda do seu irmão David.

A história acompanha o drama do grupo e, no caminho, eles se dão conta de que terão de deixar de lado seus valores morais, lutando para sobreviver matando sempre que possível. Assim, John se torna o líder e não deixa de ser chocante constatar como ele se transforma de um cidadão responsável e de personalidade amigável, em um líder frio e resoluto, o que não deixa de espantar seu amigo Roger e, principalmente, sua esposa Ann.

A fuga súbita e desesperada do grupo foi motivada, contudo, menos pela possibilidade de ficarem presos na capital britânica, mas pelo vazamento da informação de que o governo jogaria nas principais cidades do país bombas de hidrogênio para eliminar aproximadamente metade da população, cerca de 25 milhões de pessoas. Segundo este plano sinistro, metade do problema da fome estaria ´resolvido´. Esta decisão chocante e inverossímil causou grande polêmica entre os leitores quando da publicação da obra, em capítulos no The Saturday Evening Post. De fato, mesmo numa situação extrema como esta de colapso alimentar seria muito improvável que tal atitude fosse tomada, ainda mais num país de sólida tradição democrática. Ora, poderia ser declarado um Estado de sítio, com a suspensão das garantias constitucionais: restrição rígida de mobilidade, bloqueio de cidades e vias de acesso, toque de recolher, isolamento social, distribuição de pontos de racionamento de alimentos, mobilização das Forças Armadas para ocupar e policiar o território, fechamento de fronteiras etc. Como nada disso foi colocado em prática, o governo foi derrubado e um comitê civil improvisado assumiu o poder. É curioso que em nenhum momento Christopher faz alusão à família real e o que poderia ter acontecido com ela.

Como se percebe, o livro é contado dentro da realidade do Reino Unido, embora, em certo momento, o grupo ouve por um rádio que os Estados Unidos e a Austrália, ao que parece, eram os únicos lugares do mundo em que a civilização se mantinha precariamente em pé, com a adoção do pacote de medidas autoritárias citadas acima. Mas não só a Inglaterra, mas toda a Europa regrediu inexorável e rapidamente à barbárie da anarquia e luta crua pela sobrevivência: sem leis, sem Estado, sem energia e sem comida.

Esta história de pós-apocalipse ambiental aborda o tema de uma praga viral e é comparável com o clássico Só a Terra Permanece (Earth Abides; 1948), de George R. Stewart (1895-1980). Se neste, o vírus quase exterminou os seres humanos, aqui o efeito é indireto, mas não menos catastrófico.

Numa época em que a maior parte dos romances de pós-apocalipse abordava o pesadelo de um holocausto nuclear, Chung Li: A Agonia do Verde apresenta uma variação interessante e chocante do tema, ao lembrar que podemos estar sujeitos a uma situação deste tipo. E a pandemia do novocoronavírus, em certo sentido, mostra isso. Afinal, uma das possibilidades aventadas para o seu surgimento está relacionado com os intensos métodos de produção industrial da agricultura e da pecuária que, produzidos em escala maciça e padronizada, reduziriam a heterogeneidade genética, tornando grãos, vegetais e animais mais suscetíveis e fragilizados diante do surgimento de um novo vírus. Além disso, e não menos importante, os cada vez mais sofisticados pesticidas também contribuiriam com o problema. De fato, no próprio romance é justamente o desenvolvimento de um novo agrotóxico para combater a quinta cepa do vírus é que acaba, ao contrário, tornando a praga definitivamente mortal.

Ao que parece, iremos conviver com novas variantes da covid-19 e outros vírus que virão, em parte como consequência do modelo consumista e predatório de civilização capitalista que a humanidade vem praticando em escala global. Nesse sentido, este romance competente de John Christopher mantém-se, de forma perturbadora, muito atual e espero que não seja presciente do que virá.

John Christopher é, na verdade, um dos vários pseudônimos usados pelo escritor Sam Youd (1922-2012), que variou sua obra entre romances de FC com forte crítica social e aventuras infanto-juvenis. E o que torna Chung-Li: A Agonia do Verde – aliás, que belo título escolheram para a versão da obra entre nós –, tão efetivo é também a sua prosa limpa, econômica, objetiva. O que não reduz a construção densa e verossímil dos personagens e as situações dramáticas mostradas na história.

O romance recebeu uma adaptação para o cinema com o título de A Mais Cruel Batalha (No Blade of Grass; 1970), dirigida por Cornel Wilde, lançada no Brasil mas raríssimo de ser vista, e é o único livro do autor publicado em nosso país. Em Portugal recebeu o título de A Última Fome, na Coleção FC Europa-América n. 4. Além disso esta coleção publicou Os Dias do Cometa (The Year of the Comet; 1955) (n. 14) e Os Possessores (The Possessors; 1964) (n. 8). Já outra editora lusa, a Presença, publicou em sua coleção Volta ao Mundo, As Montanhas Brancas (The White Mountains; 1967) (n. 7), A Cidade de Ouro e Chumbo (The City of Gold and Lead; 1967) (n. 8) e O Poço de Fogo (The Poll of Fire; 1968) (n. 9), livros que compõe a série de FC infanto-juvenil “The Tripods”. Vale a pena procurar e ler estes também.

John Christopher mostra que há escritores de FC interessantes e necessários, entre os não muito conhecidos. E isso fica claro especialmente com Chung Li: A Agonia do Verde, pois é o tipo de obra que ecoa perfeitamente o argumento de Ray Bradbury (1920-2012), de que a melhor FC é aquela que nos alerta sobre problemas que podem ocorrer. Para que possamos, ao menos, tentar evitá-los.

—Marcello Simão Branco



quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Os Sete Dedos da Morte


 Os Sete Dedos da Morte (The Jewel of Seven Stars), de Bram Stoker. Tradução: Stefania A. Lago. Capa: Anderson Junqueira. 261 páginas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021. Lançamento original em 1903.

 

Quando este romance foi publicado Bram Stoker (1847-1912) já era um escritor reconhecido no Reino Unido, após seu sucesso com Drácula (1897). Em Os Sete Dedos da Morte, o autor prossegue em sua linha de explorar o horror sobrenatural num teor culturalista, diria não ocidental. Pois se em Drácula, o contexto em que surge o protagonista é a pouco conhecida Europa Oriental, neste toda a história é trabalhada a partir da perspectiva da cultura e mitologia do Egito antigo.

Sim, estamos diante de um livro sobre a múmia. Mas não se trata de uma história sobre a monstruosidade em si, mas sim dos possíveis efeitos do conhecimento e seus poderes ocultos a partir dela. Nesse sentido, se em Drácula o foco se concentra mais nas ações do protagonista – um estranho que desestabiliza a sociedade londrina do fim do século XIX – em Os Sete Dedos da Morte, o enredo se desenvolve através dos mistérios em torno da cultura egípcia.

O arqueólogo Abel Trelawny é encontrado ferido e inconsciente por sua filha dentro do seu quarto. Abalada, ela chama a polícia londrina e Malcom Ross, um advogado que ela conhecera recentemente e que se revelara seu amigo. Trelawny tem ferimentos nas mãos e na cabeça e jaz deitado no chão perto de um cofre. Em princípio, a história se move em torno deste mistério e várias hipóteses de investigação são postuladas para se descobrir o que poderia ter acontecido.

Narrado em primeira pessoa por Ross, temos uma perspectiva externa ao drama do pai e sua filha, Margaret Trelawny que, como logo deixa claro o personagem, está apaixonado por ela, daí seu verdadeiro interesse em ajudá-la, embora ela ainda não saiba disso. Ross praticamente muda para a casa dos Trelawny e se envolve completamente em seu duplo objetivo: descobrir o que aconteceu com o arqueólogo e, principalmente, conquistar Margaret.

O romance começa a adquirir uma conotação mais interessante quando, mesmo sob vigília de Ross, Margaret e outras pessoas, o evento se repete. Todos ficam inconscientes e quando despertam, o arqueólogo é visto no chão e cheio de machucados. A partir deste momento, a polícia e os demais passam a associar o mistério à atividade de Trelawny. Ou seja, de algum modo, haveria uma influência de pessoas ou elementos sobrenaturais no desencadeamento do evento. A casa toda, de estilo gótico, está cheia de peças trazidas do Egito: enfeites, pedras, ornamentos, um cofre, e as múmias de uma mão, de um gato e, descobre-se depois, um sarcófago contendo, simplesmente, a múmia da rainha Tera, que havia governado há cinco mil anos.

Contudo, a história assume diretamente seu caráter de horror ou fantástico quando Abel Trelawny desperta do seu coma que, vem a se saber foi, de fato, provocado, por suas experiências relacionadas à Tera. Pois ele e seu parceiro, o também arqueólogo Corbeck, estiveram várias vezes no Egito, e de lá trouxeram todas as peças que faziam da residência um autêntico museu. Segundo o que eles descobriram, a múmia teria um plano para reviver e, de alguma forma, eles teriam interferido. De qualquer forma, ao modo dos dois pesquisadores, a intenção era a mesma: testar a possibilidade de ressuscitar a rainha Tera e, com isso, eventualmente, descobrir segredos perdidos que poderiam trazer novos conhecimentos – ou ameaças, mas valia correr o risco – para a humanidade.

Como se percebe o livro trabalha o confronto entre a cultura ocidental – mostrada como mais “civilizada” – e uma cultura oriental, no momento decadente e subjugada, mas, que no passado teria experimentado um desenvolvimento e esplendor ainda não atingido pelos europeus. A história mostra o fascínio dos personagens diante de um desconhecido que pode trazer poder e destruição. No fundo, mais uma vez, estamos diante, da crença de que em momentos longínquos e controversos a humanidade teria tido conhecimentos que, por razões misteriosas, se perderam. Assim, os europeus estariam na missão de reconstruir estes saberes e, desta forma, haveria uma justificativa para explorar a fundo seus mistérios. Nem que com isso, violassem e destruíssem as instalações de culturas antigas, no caso em questão, a dos egípcios.

Claro que é preciso levar em consideração o contexto histórico, mas não deixa de incomodar o desplante com que Trelawny e Corbeck furtam descaradamente os templos sagrados dos egípcios, como se tivessem algum direito sobre isso. Não só violam a câmara funerária de uma antiga governante, mas a levam embora para Londres! E para uma residência particular! Tudo isso, mostrado com a maior naturalidade, revela a postura imperialista dos britânicos naquele período histórico. No contexto contemporâneo seria impensável e injustificável ações como as realizadas durante a narrativa.

Para realizar a experiência, aos dois arqueólogos se unem Malcom Ross, Margareth e o doutor Winchester, que havia cuidado de Abel, numa casa afastada na região litorânea da Cornualha. A esta altura, também, a narrativa quase se equilibra entre o objetivo fantástico da missão e a paixão do advogado, cada vez mais preocupado com a transformação na personalidade de sua amada: de uma mulher tímida e insegura, para uma entusiasmada pelo mistério da missão, e ora carinhosa, ora distante. Pois como se percebe, há uma estranha e cada vez mais evidente coincidência entre a suposta personalidade de Tera e a da filha do arqueólogo.

Para além da ação competente, há no romance descrições profundas e contextualizadas do conhecimento da arqueologia da época sobre o Egito antigo. Pode-se dizer, talvez, que Stoker era um apaixonado pelas culturas orientais, e pesquisou bastante, o que traz um grau de realismo e verossimilhança que chega a impressionar. Mas sem tirar o viés fantástico da trama que tem o seu desfecho após uma longa preparação de todos.

De saída, talvez o leitor tenha estranhado que o título nacional guarda pouca relação com o original: de A Joia das Sete Estrelas se chamou Os Sete Dedos da Morte. Mas ambos são válidos. No primeiro se valorizou o rubi que daria poderes ao renascimento da múmia, e no segundo ao estranho fato de que a rainha tinha sete dedos em uma de suas mãos – justamente a decepada e separada do corpo. Talvez a intenção tenha sido a de sugerir um romance mais voltado ao horror. Mas ao ler a história, embora seja um texto do gênero, ele segue uma linha fantástica, até óbvia por abordar eventos sobrenaturais a partir de uma cultura misteriosa.

Os Sete Dedos da Morte têm dois finais diferentes. Na edição original de 1903 há um capítulo a mais do que a versão de 1912, esta que foi traduzida aqui no Brasil. Houve certa polêmica na época pelo fato de Stoker ter relançado a obra com um final menos chocante ao leitor médio. De fato, o final da história se revela pacífico para os participantes da experiência, embora deixe no ar uma interessante ambiguidade com relação à nova personalidade assumida por Margareth Trelawny e o destino da rainha Tera.

Todas estas possibilidades foram, de qualquer forma, trabalhadas nas várias adaptações audiovisuais da obra. Entre outras, talvez a melhor tenha sido a primeira: Sangue no Sarcófago da Múmia, da produtora inglesa Hammer, em 1971. Outras que vale a pena conhecer são: O Despertar (1980), A Tumba (1986) e A Lenda da Múmia de Bram Stoker (1998). Programas de TV e de rádio também a adaptaram, mostrando que a obra é uma das principais referências no subgênero da múmia.

Este livro faz parte da “Coleção Mistério e Suspense”, da editora Nova Fronteira e tem sido vendida em bancas de jornais, onde eu comprei meu exemplar. Outros autores interessantes na coleção já publicados são Henry James (A Outra Volta do Parafuso), H.P. Lovecraft (O Sussurro nas Trevas), Joseph Conrad (O Coração das Trevas), Gaston Leroux (O Fantasma da Ópera), Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro), H.G. Wells (O Homem Invisível), Mary Shelley (Frankenstein), e além de Os Sete Dedos da Morte, mais dois de Bram Stoker: Drácula (em dois volumes) e a coletânea O Hóspede de Drácula e Outros Contos Estranhos. Embora sejam todos livros já publicados anteriormente – talvez com a exceção da coletânea de Stoker – vale a pena ler, reler ou colecionar, a depender do grau de interesse de cada um. E adicionado pelo fato das edições terem uma diagramação muito bonita. A conferir se outros títulos serão lançados.

 

—Marcello Simão Branco


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A Virgem e os Mortos (A Virgin Among the Living Dead, França, 1973)

 


“Gosto de noites escuras. Lembre-se, os abutres sobrevoam os locais de morte. Eu quase ouço o barulho de suas asas.”

 

O cineasta espanhol Jesús Franco (1930 / 2013) tem um currículo imenso como diretor e roteirista, principalmente de filmes bagaceiros de horror com qualidade questionável e orçamentos reduzidos. Vários deles em parceria com o ator suíço Howard Vernon, como “A Virgem e os Mortos” (A Virgin Among the Living Dead (França, 1973).

 

 A jovem Christina Benton (Christina von Blanc) recebe a notícia da morte misteriosa de seu pai, Ernesto (Paul Muller), que não conhecia pessoalmente, e vai para o sinistro e isolado castelo de sua família num local remoto para participar da leitura do testamento. Chegando lá, ela conhece seu tio Howard (Howard Vernon) e outros parentes como a tia (Rosa Palomar) e a bela Carmencé (a portuguesa Carmen Yazalde, creditada como Britt Nichols), além do tosco empregado Basilio (muito bem interpretado pelo diretor Jesús Franco), que fala com dificuldade e tem um comportamento estranho, e da jovem Linda, uma misteriosa garota cega (Linda Hastreiter). Christina sofre com pesadelos terríveis e mistura o tempo todo a realidade com devaneios onde mensagens de seu pai falecido, alertando-a dos perigos que rondam o castelo e a estranha família.

 

“A Virgem e os Mortos” é um título que já é “spoiler” ao revelar o drama da mocinha atormentada pelos mortos-vivos do castelo. É um daqueles filmes “exploitation” bagaceiros cujos cartazes promocionais chamativos despertam a curiosidade (é só ver a bela capa do DVD nacional), além de uma história com elementos interessantes envolvendo o mistério de uma família bizarra num castelo gótico com atmosfera onírica perturbadora. Só que o filme entrega um pouco menos do que se espera pelas boas premissas. O ritmo narrativo é algumas vezes excessivamente lento e a confusão constante entre realidade e pesadelo atrapalha o entendimento da história.

Por outro lado, temos uma boa dose de cenas de nudez das belas atrizes, especialmente Christina von Blanc, que é muito bonita, mas que teve uma carreira bem curta. E além do desfecho pessimista e carregado com uma atmosfera macabra, existe um desconfortável sentimento de morte e horror na maior parte do tempo, acentuado pelas boas atuações dos experientes atores Howard Vernon e Paul Muller, que interpretaram respectivamente o tio misterioso e o pai suicida da protagonista Christina.

Vale a pena registrar duas cenas em especial, que se destacam de forma convincente na construção de um clima de horror, ambas com o ator Paul Muller fazendo aparições fantasmagóricas ao se comunicar com a filha em suas visões. A primeira ocorre na floresta que cerca o castelo, onde ele com uma bizarra corda no pescoço se movimenta para trás como um cadáver flutuando em meio às árvores, e a outra cena é quando ele está sentado numa cadeira e é arrastado para a escuridão pela sinistra “Rainha da Noite” (Anne Libert), se ocultando no limbo das sombras.

 

O filme foi lançado em DVD no Brasil pela “Vinny Filmes” em Janeiro de 2012, na coleção “Clássicos do Terror”, sem material extra, numa versão reduzida com 75 minutos de duração. Existe outra versão com cenas adicionais dirigidas pelo francês Jean Rollin.

 

(Juvenatrix – 03/11/21)





segunda-feira, 25 de outubro de 2021

As Filhas de Drácula (Twins of Evil, Inglaterra, 1971)

 


“Nós andamos na Terra, mas só existimos no inferno.” – Condessa Mircalla.


O livro “Carmilla”, do irlandês Sheridan Le Fanu (1814 / 1873), apresentando vampiras sensuais e sedutoras, serviu de inspiração para a “trilogia Karnstein”, produzida pelo estúdio inglês “Hammer” no início da década de 1970. A trinca de filmes é formada por “Camilla, a Vampira de Karnstein” (The Vampire Lovers), de Roy Ward Baker e com Peter Cushing e Ingrid Pitt, “Luxúria de Vampiros” (Lust For a Vampire), de Jimmy Sangster e com Yutte Stensgaard, e “As Filhas de Drácula” (Twins of Evil), de John Hough e com as gêmeas Madeleine e Mary Collinson, além de novamente Cushing, como um caçador de bruxas.


Num típico vilarejo europeu com aldeões supersticiosos existe um grupo de vigilantes liderados pelo fanático religioso Gustav Weil (Peter Cushing), que persegue jovens mulheres acusadas sem provas de bruxaria, e que são executadas queimadas vivas em fogueiras. Nesse cenário de medo e tensão, chegam as gêmeas órfãs Maria e Frieda Gellhorn (Mary e Madeleine Collinson), sobrinhas de Weil e que vão morar com ele e a tia Katy (Kathleen Byron).

Uma das gêmeas é mais ousada e determinada (Frieda), e se interessa pelo Conde Karnstein (Damien Thomas), adorador do diabo e que gosta de rituais satânicos em seu castelo. A outra é mais pacata e insegura (Mary), que tenta alertar a irmã dos perigos ao sair escondida à noite procurando aventuras com o sinistro conde, que por sua vez, se transforma em vampiro após invocar a Condessa Mircalla (Katya Wyeth) de seu túmulo através de um ritual sangrento com sacrifício humano.

Depois que ocorrem mortes misteriosas no vilarejo, com as vítimas sem sangue e com marcas de mordidas no pescoço, os justiceiros liderados por Weil e um jovem professor de música, Anton Hoffer (David Warbeck), mesmo em lados opostos, se unem para invadir o castelo e salvar a inocente Maria das garras do vampiro.   


“As Filhas de Drácula” encerra a “trilogia Karnstein”, e assim como nos filmes anteriores, aposta na beleza e sensualidade de belíssimas mulheres jovens transformadas em vampiras sedentas de sangue. Contando com os tradicionais elementos dos filmes góticos de horror como o sinistro castelo, as execuções de mulheres inocentes na fogueira, os rituais satânicos, a atmosfera fantasmagórica das florestas envoltas em névoas, e o respeito com a mitologia tradicional dos vampiros: aversão aos crucifixos, inexistência de reflexo nos espelhos e morte apenas com estaca no coração ou decapitação.

As gêmeas Mary e Madeleine Collinson são mulheres lindas e fizeram um bom trabalho ao interpretarem irmãs com personalidades opostas. Elas tiveram carreiras muito curtas no cinema e foram escolhidas para a capa da revista “Playboy” em 1970. 

Peter Cushing sempre agrega muito valor aos filmes que participa, deixando de lado dessa vez o papel de cientista louco ou do incansável caçador de Drácula, para interpretar um religioso cego pelo fanatismo, que é o responsável pela morte violenta de mulheres inocentes acusadas de bruxaria.   

O título nacional foi mal escolhido, o que não é novidade, num tratamento oportunista citando Drácula, quando na verdade o filme é inspirado no vampirismo do universo ficcional de “Karnstein”.  

Curiosamente, o ator Dennis Price faz aqui o papel de Dietrich, um fornecedor de diversão para o Conde Karnstein, como trazer jovens camponesas para os rituais demoníacos no castelo. Um papel similar que ele fez também no anterior “O Horror de Frankenstein” (1970), onde foi um ladrão de cadáveres para as experiências macabras do cientista na criação de vida artificial.  


O filme foi lançado em DVD no Brasil pela “Works / Dark Side / London”, sem material extra, encartado na revista “Dark Side DVD” ano 2, número 11 (Agosto de 2005). A revista, com distribuição nas bancas, tem vários interessantes textos sobre o filme em questão, além da “Trilogia Karnstein”, um artigo caprichado sobre as belas atrizes de filmes de horror que posaram nuas para a revista “Playboy”, e um perfil do cineasta John Hough, que dirigiu também o cultuado filme de fantasmas “A Casa da Noite Eterna” (The Legend of Hell House, 1973).


(Juvenatrix – 25/10/21)






Interestelar

Interestelar (Idem), Greg Keyes. Baseado no roteiro de Jonathan Nolan e Christopher Nolan. Tradução: Vera Whately. Capa: Gabinete das Artes. 266 páginas. Rio de Janeiro: Gryphus Editora/Coleção Gryphus Geek, 2016. Lançamento original de 2014.

 


Quando lançado no cinema o filme Interestelar foi cercado de muita expectativa. Seus realizadores, os irmãos Christopher e Jonathan Nolan já haviam se estabelecido como dois dos artistas mais talentosos e inovadores do cinema norte-americano no século XXI. São deles, por exemplo, o perturbador Amnésia (Memento; 2000), a instigante e misteriosa FC A Origem (Inception; 2010) – este só de Christopher –, e a renovação da franquia do Batman, com três novos filmes. Talvez seja possível dizer que eles fizeram no cinema o que Frank Miller havia feito com o personagem nos quadrinhos.

Me recordo que quando vi Interestelar na tela grande fiquei perplexo e fascinado. Primeiro por um filme tão classudo de FC, como há muito não via em tela grande. E em segundo, e mais importante, pelo roteiro e desenvolvimento ser tão interessantes, ao explorar um tema de fronteira da Física teórica em uma perspectiva cósmica.

Interestelar é um dos melhores filmes de FC do século XXI, ao lado de Filhos da Esperança (Children of Men; 2006), Gravidade (Gravity; 2013) – ambos de Alfonso Cuarón – e Lunar (Moon; 2009), de Duncan Jones. Mas talvez seja o mais ambicioso deles, pois coloca em nível épico a exploração do espaço como nosso destino final, caso queiramos sobreviver a longo prazo como espécie.

Talvez por isso tenha me interessado em ler a novelização anos depois, pois costumo evitar obras derivadas por crer que, em essência, nada acrescentam à original. Mas tive uma surpresa. O livro é muito bom. Segue passo a passo o filme, justamente por ser uma obra originada por um roteiro e não o inverso, quando costuma ocorrer mais liberdades em relação ao livro original. Mesmo para quem não viu o filme é uma obra interessante e competente por si mesma.

Tinha a expectativa de que o livro pudesse aprofundar algumas questões do filme como, por exemplo, o que teria causado o colapso climático da Terra. Mas a novelização é igual ao roteiro e esta questão de fundo fica num plano superficial. É um ponto de partida, não se detalha o que poderia ter inviabilizado a continuidade da vida no planeta. Como se, de certa forma, neste momento, já estivéssemos vivendo o início do problema. Assim sendo, não fica claro em que época a história se passa, mas se deduz que seja em algum momento do século XXI. Isso porque as memórias do mundo de hoje ainda estão presentes na nostalgia daqueles que viveram antes da catástrofe. O que poderia ser mais explorado, ao menos, é as causas do obscurantismo científico que se seguiu. Embora, seja intrigante que estejamos vivendo retrocessos semelhantes nesta altura da primeira metade do século. Além da crise climática que só piora, estamos envoltos numa tragédia mundial no curto prazo, a pandemia do novocoronavírus, a pior já vivida pela humanidade em número absoluto de mortos.

Com uma praga que está matando todos os vegetais, a vida na Terra está com seus dias contados.  Tempestades maciças de poeira são rotineiras e as fontes de alimentação se tornam escassas, aumentando a fome e a violência. A civilização regrediu em seus valores e hábitos, e repudia qualquer gasto que não seja para preservar o que sobrou. Assim, é chocante que até a História é ´recontada´, deturpando ou negando os avanços científico-tecnológicos de antes da crise. Ensina-se nas escolas, por exemplo, que o homem não pousou na Lua. Tudo não passou de propaganda política do governo. Ora, não há uma minoria que crê nesta bobagem atualmente? Isso sem falar no criacionismo e no terraplanismo. O analfabetismo científico, se não combatido, poderá nos conduzir a uma nova era de ignorância, autoritarismo e queda nos valores humanos.

Cooper é um ex-astronauta que teve de aprender a ser fazendeiro nesta nova realidade. Viúvo, cuida dos filhos (Tom e Murph) e é ajudado por seu sogro, Donald. Após uma tempestade de poeira, ele e Murph testemunham um fenômeno estranho no quarto dela, que os conduz até um local onde está instalada no subterrâneo o que restou da Nasa. Pois prepara-se, secretamente, o envio de uma missão ao espaço para poder colonizar outros planetas.

Após ser convidado, Cooper lidera a missão em direção a três planetas que orbitam um buraco negro, numa outra galáxia, numa distância de milhares ou milhões de anos-luz. Os planetas receberam visitas prévias de astronautas para informar se são viáveis à vida humana. Mas como chegaram lá? Por meio do recurso do buraco de minhoca, uma teoria especulativa relativística, que faz aproximar pontos distantes no espaço sem ser preciso percorrê-los de forma contínua. Uma espécie de túnel dimensional na estrutura do espaço-tempo. Tal ideia proposta no filme teve a consultoria do prestigioso físico Kip Thorne e já havia sido apresentada antes numa FC mais popular, no romance Contato (Contact; 1985), de Carl Sagan (1934-1996) e depois levado às telas num ótimo filme dirigido por Robert Zemeckis, em 1997, – curiosamente com o ator que interpreta Cooper em Interestelar, Matthew McConauguey, como um padre.

Contudo, a decisão de Cooper é muito difícil e marcará todo o restante de sua vida, embora se ele não a aceitasse não teria sido possível uma chance de esperança para a humanidade. Isso porque, é ele que envia as informações possíveis, no estranho fenômeno no quarto de Murph, que permite que a missão seja bem-sucedida. Tudo por causa dos efeitos da força da gravidade, que torna possível ir além das três dimensões e contornar o próprio tempo. Pois a história se sustenta num campo de especulação científica que, embora sólida, guarda uma relação muito próxima com os delírios imaginativos da própria FC. Sense of wonder!

Poucas vezes vi um filme de FC tão instigante e que desafia a inteligência do espectador. As soluções apresentadas são elegantes e didáticas e, tão importante quanto, equilibradas com o drama humano, no relacionamento especial e sofrido entre um pai e sua filha. Em resumo, o livro é bom, mas não acrescenta algo novo ao filme. Contudo, torna-se um prazer renovado ler a novelização e tomar, de uma outra perspectiva, um novo contato com esta obra-prima da FC.

                                                                                             —Marcello Simão Branco