Operação Salvaguarda,
Roberto Causo. Capa: Isabela Guerra. 172 páginas. Campinas: Flyve, 2026.
Depois de oito anos Roberto de Sousa Causo volta a
lançar um novo livro situado no universo ficcional Galaxis. O último havia sido
o romance Mestre das Marés, pela Devir Livraria, em 2018 – resenha aqui. Tanto tempo,
de certa forma, se relaciona com a mudança no rumo da editora, que encerrou
suas coleções de FC, fantasia e horror após a morte do editor Douglas Quinta
Reis em 2017.
Operação Salvaguarda pertence à série “As Lições do Matador”, protagonizada por Jonas Peregrino. Em Galaxis surgiu depois uma outra série, “Shiroma, a Matadora Ciborgue”, protagonizada por Shiroma, uma ciborgue programada para matar e que também ganhou um livro próprio: Shiroma Matadora Ciborgue (Devir Livraria, 2015) - resenha aqui.
Mas mesmo com o hiato destes anos Causo publicou
contos sobre os dois personagens principais em revistas e coletâneas evitando
que o intervalo fosse mais sentido. Assim, em Operação Salvaguarda reencontramos
o soldado Jonas Peregrino – que a cada nova leitura se revela para mim como um
alter-ego de Causo que, inclusive, serviu no Exército –, agora em ação às
voltas com uma guerra civil no planeta Atacama, colonizado pela aliança latino-americana.
Conforme mostrado em aventuras anteriores, estamos no
século XXV com a humanidade espalhada por uma parte da Via-Láctea –
principalmente na região conhecida como a Esfera – subdividida em quatro zonas
de expansão, onde a aliança da América Latina compartilha espaço e disputa
poder com a dos Norte-Americanos, dos Asiáticos e os Euro-Russos. Fica claro,
portanto, que a despeito da humanidade não ter se unificado politicamente num
só estado conseguiu colonizar parte da galáxia. E a perspectiva das histórias é
a latino-americana, para ressaltar a luta e inserção desta região menos
afluente e poderosa nos jogos de poder com as outras alianças.
Nesta nova aventura, Jonas Peregrino tem a patente de
tenente, cronologicamente antes, portanto, do primeiro romance Glória
Sombria (2007) – ver resenha aqui – e de Mestre das Marés (2018), onde já é capitão.
Neste sentido é interessante acompanhar parte do processo de desenvolvimento do
soldado, que demonstra muita habilidade com os armamentos, determinação em suas
ações e um sentido ético e de justiça rigorosos, o que o distingue em suas
atitudes, tanto para resolver as missões em que se envolve como em, por vezes,
contrariar decisões e interesses de seus superiores e de políticos por vezes
envolvidos.
Como os que ocorrem nos eventos que provocaram a
guerra civil na colônia de Atacama. Designado para coordenar a evacuação dos
civis dos locais de conflito, o tenente Peregrino recebe uma missão adicional
de levar até um general uma mensagem que pode levar ao fim das hostilidades.
Mas isso é só o começo porque quase nada é o que parece, pois militares graúdos
e o líder de uma das facções em guerra teriam, na verdade, motivos ocultos para
provocar um conflito armado. No caso, as duas facções em disputa são os
bolivarianos – liderados por Orlando Madero Paz – e os extramaduranos. É que os
dois grupos não chegaram a um acordo em como gerenciar recursos naturais
valiosos, como minerais raros, essenciais para dispositivos eletrônicos de uso
civil e militar. E que podem render uma fortuna e tornar a colônia de Atacama
importante nos esquemas estratégicos entre os blocos políticos humanos. Os
bolivarianos – de Paz – são contra a exploração comercial em larga escala e os
extramaduranos a favor.
Contudo, conforme Peregrino irá amargamente descobrir
esta polarização é superficial, pois, na verdade, existe uma conspiração entre
políticos e militares em associação com um grupo criminoso de origem asiática para
se aproveitar dos recursos de forma escusa, nem que para isso milhares de
pessoas sejam mortas.
A novela retoma o tema da corrupção, vista antes em
outras histórias e ao problematizá-la num contexto futurista, expõe possíveis
problemas econômicos e geopolíticos que podem se acentuar nos dias de hoje a
partir da necessidade crescente das terras raras e minerais críticos. E no
qual, vejam só, o Brasil tem a segunda reserva mundial. Soma-se, assim, aos
tantos recursos naturais mais este fazendo do nosso país uma peça estratégica
chave nos jogos de poder mundiais. Só espero que estejamos à altura de mais
este desafio.
Operação Salvaguarda
tem muita ação de combate, talvez mais do que os anteriores, no qual Peregrino
tem sua vida colocada em risco iminente de página a página. Este ritmo de ação
intenso torna a leitura também tensa, prendendo o leitor, por assim dizer, à
leitura. O romance anterior Mestre das Marés também teve este perfil,
mas por ser maior, pôde reduzir um pouco esta sensação, onde tiroteios e
explosões são quase uma constante. A este panorama mais bélico é contraposto os
valores éticos de Peregrino, tanto em sua atuação como soldado, como pelas
descobertas que vai encontrando, com uma decepção com políticos e militares que
só faz crescer, tornando-o se não cínico, ávido em contribuir para reparar as
injustiças e punir os culpados.
Nesta novela, em particular, a narrativa não é linear.
Vai e volta em torno dos acontecimentos, o que exige uma dose a mais de
concentração do leitor. Se num primeiro momento pode soar um pouco confusa,
também por causa da grande quantidade de informações sobre armas e
equipamentos, devido à força da história esta estrutura narrativa termina por
se justificar, estabelecendo uma espécie de mosaico que, em si, dialoga com as
tramoias corruptas que emergirão no desenrolar. Um detalhe curioso é que alguns
personagens e equipamentos militares foram nomeados em referências a pessoas do
fandom. Esta prática não é incomum na FC em geral, embora pouco
praticada na nossa, e serve como uma espécie de homenagem ou piada interna
quase cifrada, que poucos perceberão. Mas é divertido.
Importante é que embora Operação Salvaguarda
anteceda histórias já publicadas, pode ser lida de forma autônoma, porque é uma
aventura com interesse específico e no qual questões candentes de nossa própria
realidade atual – como já dito – são discutidas em chave de space opera
militar.
Causo tem se debruçado por praticamente duas décadas
no universo Galaxis, colocando em perspectiva especulações relevantes sobre a
conquista do espaço e o futuro político da humanidade. E a partir disso de suas
relações com os recursos naturais e com a ameaça eventual de novas formas de
vida na galáxia, como a misteriosa civilização dos tadais e seus temíveis soldados
robôs, que são apenas citados brevemente nesta aventura, mas se tornarão
centrais em histórias posteriores. E em todas elas, a figura íntegra de Jonas
Peregrino serve de norte para a reflexão, principalmente, sobre os valores da
justiça, do meio-ambiente e do que realmente pode dar sentido a uma vida mais
decente, menos gananciosa e mais humana.
—Marcello Simão Branco

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