Mostrando postagens com marcador 2010. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2010. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Além do Planeta Silencioso

Além do Planeta Silencioso (Out of the Silent Planet), C. S. Lewis. Tradução de Waldéa Barcellos. 220 páginas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. Lançamento original em 1938.

Há alguns meses vi na livraria do Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo, os três volumes da Trilogia Cósmica, ou Trilogia de Ransom, de C.S. Lewis: Além do Planeta Silencioso (1938), Perelandra (1943) e Aquela Força Medonha (1945). Lançamento de 2019, em edições bonitas, com capa dura, da editora de livros cristãos Thomas Nelson. Mas os preços estavam proibitivos.
O primeiro livro eu li quando tinha 19 anos, numa edição portuguesa da coleção Europa-América, no. 80, com título levemente diferente: Para Além do Planeta Silencioso, e seu impacto nunca de desfez. Assim, pensei: será que tantos anos depois valeria a pena ler de novo, agora incluindo os dois livros seguintes? É que tive um certo receio de não macular a memória afetiva do período da minha vida em que o li pela primeira vez. Mas, como disse, o livro me impressionou antes e, portanto, pela sua qualidade resolvi arriscar uma nova leitura. Por sorte, a editora Martins Fontes já havia publicado os três livros antes, entre 2010 e 2011, e os consegui por preços bem mais acessíveis.
Além do Planeta Silencioso é uma história de FC do subgênero planetary romance, em que acompanhamos a incrível aventura do linguista Elwin Ransom. Ele é raptado por dois cientistas e levado a Marte, com o intuito de ser oferecido a alienígenas em troca de ouro, abundante no planeta. Mas o livro revela-se muito mais do que este pobre pretexto. Ransom consegue fugir dos seus captores e perambula pelo planeta em busca de ajuda e sobrevivência. Com isso se depara com um mundo fantástico e desconcertante, em suas multicores, vegetação exuberante, seus rios e mares, planícies e montanhas. Por si só as descrições do mundo alienígena de Lewis valem a leitura e estão entre as mais belas e criativas de toda a ficção científica.
Ransom trava contato com uma civilização inteligente, os hrossa – semelhantes a focas –, que o abriga e inicia nos seus costumes e filosofia de vida poética e integrada à natureza. É um povo que extrai por meio da harmonia e simplicidade, uma postura tranquila e pacífica. Mas Ransom descobre que Marte – chamado de Malacandra por seus nativos –, inclui ainda mais duas espécies inteligentes: os sorns e os pfilfltriggi. Os sorns, grandes e semelhantes a pássaros, e os pfilfltriggi, os menores e parecidos com rãs. Linguista, Ransom aprende a se comunicar com as três espécies, aprendendo a língua dos hrossa que é comum a todos (apenas entre eles os sorns e os pfilfltriggi adotam linguagens próprias), e percebe que eles compõem o que chamam de hnau, os seres inteligentes que se respeitam e se complementam com estilos de vida e habilidade próprias. Os sorns mais empreendedores e os pfilfltriggi muito hábeis em construções e serviços manuais. Todos vivem em conexão íntima com o ecossistema do planeta, sem predação justificada por motivos políticos ou econômicos.
Os hanais dizem a Ransom que ele vem de Thulcandra, o planeta silencioso, e que deve ir ao encontro de Oyarsa, o governante e líder espiritual do planeta, que pertence a uma outra espécie, os eldil. Difíceis de serem descritos, por vezes se materializam, por vezes se manifestam com vozes ou sinais indiretos, numa indicação de serem seres etéreos ou sobrenaturais. Alguma semelhança com anjos não é coincidência.
O romance flui de forma leve, apesar de eivado de muitos simbolismos de ordem cristã. Há mesmo um frescor pulp na narrativa em geral – talvez efeito do tipo de ficção que se escrevia nos EUA na época –, o que só o torna mais atraente e prazeroso.
Ransom e seus dois captores descobrirão por que a Terra (Thulcandra) é chamado de o planeta silencioso, isolado de uma espécie de comunidade cósmica que interage pelos céus (e não pelo espaço em si), em busca de uma convivência mais virtuosa e cheia de confiança mútua.
Embora não seja explícita, a alegoria de Lewis é perceptível, no sentido de que a humanidade é uma espécie que decaiu em seus valores e costumes, perdeu-se no egoísmo, inveja, maldade e ganância, sendo mesmo orientada, sub-repticiamente, pelo Torto, como chamado por Oyarsa – um eldil que se bandeou para o mal. A alusão implícita aqui é com Lúcifer.
Além do Planeta Silencioso é um livro interessante e elegante, tanto em sua narrativa, que mistura aventura com descrições inspiradas da natureza, como na filosofia que prega, que longe de ser proselitista, se aproxima mais do que poderíamos chamar de uma visão de mundo pautada por uma ética humanista e cristã.
Em mais um aspecto de interesse o livro se revela metalinguístico, surgindo como um relato fictício de uma experiência verdadeira, através do qual Ransom – também um nome inventado –, achou mais adequado revelar à humanidade sua experiência e descobertas. Não dá para deixar de pensar que Ransom é um alter ego do próprio Lewis – que, depois de ateu na juventude, se tornou reverendo e professor de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge.
E esta literatura de ficção especulativa baseada em alegorias cristãs prosseguiu anos depois quando Lewis concebeu sua série As Crônicas de Nárnia (The Chronicles of Narnia), composta por sete livros, publicados entre 1950 e 1956. Também aqui, e de forma leve e implícita, as aventuras, agora de alta fantasia, são protagonizadas por crianças e animais falantes no Reino de Nárnia.
Aqui no Brasil o livro tem uma importância editorial histórica, pois inaugurou a mais importante coleção da ficção científica brasileira, a FC GRD, editada pelo editor Gumercindo Rocha Dorea, em 1958 - veja a capa acima à direita. A escolha do livro não foi um acaso, pois uniu a paixão de Dorea pela FC e sua vinculação estreita com o catolicismo. O livro ainda seria republicado em meados dos anos 1970, como Longe do Planeta Silencioso – tenho a segunda edição, de 1979 –, pela editora cristã Livros Co-Lab, de Umuarama, Paraná, numa tradução do Reverendo Amantino Adorno Vassão. Depois os três volumes foram publicados na coleção Europa-América, de Portugal, o já citado no. 80 (em 1984), Perelandra Viagem a Vênus, no. 179 (em 1991), e Aquela Força Medonha, nos. 185 e 186 (também em 1991). E voltou a ser publicado no Brasil em 2010 com a edição que usei para esta resenha, seguido em 2011 com a publicação inédita das duas sequências, todos pela WMF Martins Fontes, até a edição mais recente da editora Thomas Nelson, em 2019.
Escrito em 1938 é um livro que também discutiu a sua época, às vésperas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), como uma espécie de alegoria sobre a condição crítica da humanidade, à beira da barbárie absoluta. Mas seu interesse perene nos anos posteriores, inclusive aqui no Brasil, confirma o seu status de clássico, por equilibrar com rara elegância discussões filosóficas profundas e um sense of wonder dos mais belos.


Marcello Simão Branco

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A Sombra de Innsmouth


A Sombra de Innsmouth (The Shadow Over Innsmouth), H.P. Lovevraft. Organização e tradução de Guilherme da Silva Braga. Editora Hedra, São Paulo, 2010, 136 páginas.

Esta novela, escrita originalmente nos meses de novembro e dezembro de 1931, pertence ao ciclo principal do universo ficcional do autor, o dos “Mitos de Cthulhu”. É um dos seus trabalhos mais longos e que mais dificuldade encontrou em ser publicado nas pulp magazines, que publicaram a totalidade de sua obra, principalmente a Weird Tales. A alegação era de que era uma história muito longa e arrastada com relação aos acontecimentos, o que não se encaixava no perfil da revista, de histórias mais curtas e com ritmo mais movimentado. De fato, A Sombra de Innsmouth está entre seus textos mais longos, inferior apenas ao seu único romance, O Caso de Charles Dexter Ward (1927).
Como nos informa o tradutor do livro, Guilherme da Silva Braga na introdução da obra, Lovecraft já havia recebido outras recusas do editor de Weird Tales por causa destas características já vistas em outras histórias, e resolveu escrever esta novela sem nenhuma preocupação em vê-la algum dia publicada, mas apenas pelo prazer da criação. Desta forma ela só apareceu pela primeira vez em abril de 1936 como título próprio, num livreto que circulou no ambiente dos fãs, editado pela Visionary Publishing Company. A Weird Tales, finalmente a acabou publicando na edição de janeiro de 1942, quase cinco anos depois de sua morte.
Em todo caso, A Sombra de Innsmouth não traz grandes novidades com relação à maneira dele contar uma história. Está lá a narrativa introspectiva em primeira pessoa, a generosa adjetivação de situações, a construção de uma atmosfera de suspense absolutamente contagiante, tanto no impacto emocional, como na necessidade quase imperativa de virar a página, quase que sem possibilidade de abandonar a leitura de uma história contada de maneira fascinante, embora o conteúdo também seja dos mais instigantes.
Acompanhamos a história do narrador, um estudante que resolve fazer uma excursão de um dia na velha, decadente e sombria cidadezinha portuária de Innsmouth. Em tempos idos tinha sido uma próspera região comercial de pescados, mas depois da Guerra Civil (1861-1865), entrou num processo crescente de decadência econômica. O que inculca a cabeça do visitante e dos moradores das cidades vizinhas a ponto de lhes causar um misto de repugnância e pavor, foram alguns supostos acontecimentos inexplicáveis que teriam ocorrido anos depois. Um estranho culto, chamado de “Ordem Esotérica de Dagon” – uma referência a um outro conto do autor, chamado “Dagon” (1917) – teria sido criado em resposta a uma estranha comunhão entre os habitantes do vilarejo e inomináveis seres submarinos de aspectos monstruosos, que emergiriam do chamado Recife do Diabo, uma rocha próxima a uma das praias da cidade. Em troca do sacrifício de jovens, os habitantes de Innsmouth conheceram uma súbita prosperidade anos depois. O tempo passou, alguns eventos igualmente estranhos teriam levado a prosperidade embora, e ficaram apenas as histórias e lendas sobre o que teria realmente acontecido a Innsmouth e seus habitantes.
O estudante chega a Innsmouth e mistura a constatação da visível decadência socioeconômica com suas próprias noções de civilidade, com uma clara demonstração de preconceito e racismo a todos os que não são brancos e falantes da língua inglesa. Transparece aqui as próprias opiniões do autor, reconhecidamente xenófobo com relação a estrangeiros de todos os lugares que não o do seu mundo anglo-saxão.
Lá pelas tantas o estudante conhece um simpático e perturbado senhor de 96 anos que movido a aguardente, lhe conta em detalhes todas as supostas histórias horripilantes entre os habitantes de Innsmouth e os seres antigos, – pertencentes ao panteão de Cthulhu, os Grandes Antigos, que teriam vivido muito antes na Terra e caído em desgraça por praticar sinistros rituais pagãos, e que aguardavam o momento propício de retomar a posse do planeta e exterminar a humanidade. Ainda mais impressionado depois do relato, o estudante fica preso à noite na cidade, pois o ônibus subitamente para de funcionar. E daí em diante, num misto de sensações apavorantes, entre o real e o imaginário, o estudante procura fugir de perseguidores que não queriam que ele revelasse para o mundo exterior os segredos de Innsmouth.
A força da história é calcada na subjetividade e fatalidade dos eventos, no clima de suspense e num limite de terror sempre à espreita criado pelo autor. Contudo, o final da história é surpreendente, mesmo para aquele que já tem certa intimidade com as histórias do autor.
A primeira publicação de A Sombra de Innsmouth no país foi em 2000, como título próprio, na coleção da editora Campanário. A partir daí tornou-se presente em várias coletâneas em língua portuguesa. No Brasil: Dagon (Iluminuras, 2001), O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft (Clock Tower, 2013), Os Melhores Contos de H.P. Lovecraft (Hedra, 2014), Grandes Contos (Martin Claret, 2016), O Medo à Espreita e Outras Histórias (L&PM, 2016). Em Portugal: O Intruso (Fio da Navalha, 2004) e Os Melhores Contos de Howard Phillips Lovecraft (Saída de Emergência, 2005).
Esta edição da Hedra que resenhamos se destaca pelo artigo introdutório e tradução de boa qualidade, além do acréscimo interessante de uma carta de H.P. Lovecraft, “A Narração de Histórias, Uma Carta”, explicando seu método de criação, e uma curiosa árvore genealógica do estudante, explicando um pouco os fatos perturbadores do seu desfecho.
No contexto do ciclo de Cthulhu, A Sombra de Innsmouth é uma obra de boa qualidade ao lado de, entre outros, “O Chamado de Cthulhu” (1926), “A Cor que Caiu do Céu” (1927), “Um Sussurro nas Trevas” (1930) e “Nas Montanhas da Loucura” (1931). Apresenta todos os elementos característicos para se conhecer a prosa e o estilo único de H.P. Lovecraft, ao mesmo tempo, tão polêmico e influente.

– Marcello Simão Branco

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Doce Vingança (I Spit on Your Grave, EUA, 2010)


Doce Vingança” é uma refilmagem de um original de 1978 com o nome aqui no Brasil de “A Vingança de Jennifer”, escrito e dirigido por Meir Zarchi, e conhecido pelos títulos “Day of the Woman” ou “I Spit On Your Grave”. A nova versão tem direção de Steven R. Monroe, que enfatizou sua intenção em homenagear o filme antecessor da década de 1970 do século passado. Teve uma parte 2 lançada em 2013 pelo mesmo cineasta, porém não é uma continuação e a opção dos realizadores foi criar outra história dentro do mesmo tema. E em 2015 foi lançada a parte 3, com direção de R. D. Braunstein, essa sim é uma continuação direta com a mesma personagem Jennifer Hills e atriz Sarah Butler. Recebeu o nome nacional de “Doca Vingança 3: A Vingança é Minha” (I Spit on Your Grave 3: Vengeance is Mine).
Uma jovem e bela escritora, Jennifer Hills (Sarah Butler), decide ir para um chalé afastado e cercado por uma floresta, para ficar isolada e poder trabalhar em seu novo livro. Porém, ao chegar à cidade próxima ao local de seu refúgio na natureza, ela chama a atenção por sua beleza e características de uma garota da cidade grande. Ela então é visitada de forma inesperada por quatro homens, que se juntam ao desonesto xerife local, que se diz religioso e temente a Deus, mas na verdade tem um caráter desprezível. A jovem escritora torna-se vítima de crueldades indescritíveis, sendo estuprada violentamente na floresta. Porém, “a vingança é um prato que se come frio”, e ela consegue sobreviver para dar o troco em seus algozes através de atrocidades ainda piores.
Filme sangrento repleto de momentos de grande tensão, principalmente a tortura física e psicológica sofrida pela protagonista, fazendo-nos torcer por sua recuperação e sucesso no plano de vingança. O ser humano consegue ser tão desprezível com atitudes de crueldade, que muitas vezes é mais insignificante e rasteiro que os insetos que esmagamos sem perceber ao caminhar. E não é nenhum spoiler revelar que, para nossa total satisfação como apreciadores do cinema de horror, os estupradores são punidos de formas terrivelmente dolorosas, apesar de sabermos que as ações meticulosas e precisas da mulher vingadora são bem improváveis quando tentamos aproximar a história de algo mais real.
(Juvenatrix – 03/02/14)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

As Aventuras de Gulliver no Palco

Aventuras de Gulliver. Peça de teatro baseada no romance As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Escrita e dirigida por Dario Uzan, da Companhia Articularte, São Paulo. Lançada originalmente em 2010.

Lemuel Gulliver é um jovem destemido em busca de novas experiências e aventuras. Deixa a Inglaterra e singra os mares, mas não contava com os contratempos do destino. Em decorrência de uma forte tempestade, o navio naufraga e ele vai parar numa ilha desconhecida chamada Lilliput. Partindo desta premissa do clássico As Viagens de Gulliver (Gulliver´s Travels), do escritor irlandês Jonathan Swift, escrito em 1726, a Companhia Articularte de Teatro apresenta uma visão muito particular deste romance de viagens, que originalmente buscou satirizar os costumes políticos e científicos do século XVIII.
Gulliver descobre que Lilliput é habitada por pessoas muito pequenas, com apenas seis centímetros de altura!, e passa a conviver com os problemas da sociedade local, envolta em sérias divergências políticas. Gulliver resolve não tomar partido, procurando arbitrar os problemas entre os grupos rivais – no caso, a intenção do autor era criticar os ingleses e os franceses. A esta proposta séria do autor, a peça prioriza o aspecto lúdico, com Gulliver resolvendo problemas do cotidiano dos pequeninos. E é justamente neste contraste que a peça tem um dos seus grandes momentos de realização, ao contrapor o ator que protagoniza Gulliver com os vários bonecos que representam os habitantes da ilha. Este trecho impulsiona mesmo o interesse pelo restante da peça, por causa do bom resultado desta interação, complementado por uma cenografia agradável e criativa.
Como se sabe, o romance é dividido em quatro partes, mas a peça enfoca os dois primeiros, daí o motivo de chamar Aventuras de Gulliver. Na segunda parte, o herói deixa Lilliput, adentra o mar novamente, mas encontra uma nova ilha, chamada de Brobdingnag – o nome esquisito não é fortuito, pois serve apara acentuar outra realidade. Diferentemente do que viveu em Lilliput, agora Gulliver é que é um pequeno ser frente aos gigantescos habitantes da nova ilha. Ele é capturado e passa a viver numa família sob os cuidados de uma menina. Explorado por um pai malvado até a exaustão, é vendido para servir de atração junto às pessoas desta sociedade. Até que a rainha intercede ao seu favor e ele ganha o mar novamente, desta vez para voltar à sua casa – que, aliás, também é uma ilha!
Nesta segunda parte, o objetivo de Swift era ridicularizar a suposta “grandeza” de saber dos cientistas – que não trazia, em sua opinião, benefícios concretos à sociedade –, mas na peça a relação enfatiza um aspecto mais social, da exploração e humilhação de um estrangeiro em uma sociedade aparentemente mais poderosa. Claro que esta interpretação subjaz no subtexto da trama, pois em si ela mantém o aspecto prioritário do entretenimento e com isso, consegue agradar tanto as crianças pela diversão e imaginação, como ao adulto pela sugestão crítica embutida.
Vale ressaltar o estilo do texto, na adaptação feita pelo diretor, Dario Uzam. Muito saboroso, ao priorizar as rimas, os provérbios, os ditos populares, as advinhas e os limeriques, o texto confere um misto de encantamento e estranhamento, além de sublinhar um efeito de distanciamento imagético que torna mais verossímil a proposta, especialmente se encarada do ponto de vista infantil, teoricamente mais aberto à imaginação irrestrita.
Embora este romance de Swift seja muito conhecido, com várias adaptações na TV e no cinema, o olhar da Cia. Articularte tem seu mérito próprio, ao despertar um interesse diferenciado nos pais e nos filhos, cada um do seu ponto de vista. Além disso é um espetáculo teatral de entretenimento efetivo, seja pela qualidade do texto, seja pela boa dramaturgia posta em cena pelos atores e os muitos bonecos, cada um deles uma atração à parte no desenrolar da história.

– Marcello Simão Branco

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O Incrível Homem que Encolheu

O Incrível Homem que Encolheu (The Incredible Shrinking Man), Richard Matheson. 343 páginas. Tradução de Jacqueline Valpassos. Capa de Rodrigo Valpassos. Osasco: Editora Novo Século, 2010.


Nos últimos anos a editora Novo Século fez um ótimo trabalho ao publicar no país boa parte da obra de Richard Matheson. Primeiro republicou seu livro mais conhecido, o clássico Eu sou a Lenda (I am Legend, 1954), em 2007, no embalo do lançamento da terceira adaptação cinematográfica da história, acompanhado por vários dos seus melhores contos, num volume um tanto incomum, ao misturar um romance seguido por narrativas curtas. Já em 2009 lançou o inédito Hell House: A Casa Infernal (Hell House, 1971), romance impactante de horror, que também foi bem adaptado para o cinema, no início dos anos 1970. E em 2010 surgiu no Brasil outro texto clássico: O Incrível Homem que Encolheu, que também é seguido por vários dos seus notáveis contos de ficção científica, numa história por ele adaptada ao cinema. Sob a direção de Jack Arnold, é um dos melhores da safra gloriosa de filmes de FC da década de 1950.
Norte-americano nascido em 1926 e falecido em 2013 Richard Matheson foi um dos mais talentosos autores do gênero surgidos a partir dos anos 1950, ainda que não tenha ganhando tantos prêmios e popularidade como contemporâneos seus como, por exemplo, Philip K. Dick e Robert Silverberg. O autor, ao que parece, seguiu uma trajetória peculiar, semelhante à de Ray Bradbury, embora mais constante, de escrever textos excelentes em gêneros afins, como a ficção científica, a fantasia sombria e o horror, sendo que boa parte deles recebeu competentes adaptações para o cinema e a televisão, realizadas por ele mesmo. Não é à toa, por exemplo, que Matheson e Bradbury roteirizaram episódios para séries cultuadas como Além da Imaginação e Galeria do Terror, entre outras.
Este volume traz, além de O Incrível Homem que Encolheu, mais nove histórias curtas, entre contos e noveletas. Embora a motivação para esta resenha seja o romance, aproveitarei para analisar também as outras histórias.
Mesmo não sendo o seu primeiro romance publicado, O Incrível Homem que Encolheu (de 1956) tornou o autor mais conhecido, devido à versão para o cinema, em 1957. Mesmo assim, em termos de estrutura narrativa, é mais semelhante a um conto do que a um romance. Existe uma ideia principal que é explorada à exaustão: num belo dia, o infortunado Scott Carey recebe uma nuvem radioativa num passeio de barco e pouco depois começa a encolher inexoravelmente. Mesmo com esta estrutura talvez mais afeita a um texto mais enxuto, a extensão da história nos dá a chance de acompanhar de forma comovente os detalhes da profunda transformação da vida do personagem, em todos os aspectos: biológico, social, sentimental, existencial.
De seus 1m 82 cm, Scott Carey vai continuamente diminuindo de tamanho para espanto e assombro de sua esposa, de seu irmão, de sua filha e dos médicos que tentam curá-lo de todas as maneiras. Por fim, descobrem a causa de seu encolhimento, uma mistura entre pesticidadas e radiação numa combinação específica, mas mesmo retardá-la mostra-se uma tarefa frustrante e impossível.
Ao invés de contar a história de uma forma linear, como a realizada pela adaptação cinematográfica, o leitor é surpreendido com dois momentos: Dele já minúsculo, definhando dos centímetros para os milímetros e preso no interior de um agora gigantesco porão, e ao seu processo contínuo de diminuição em que aos poucos perde o emprego, tem seu feliz casamento destruído, torna-se vítima de toda sorte de infelicidades e crueldades, como quando tem de ser livrar de um pedófilo, de um grupo de adolescentes que o humilha e ao tornar-se atração do jornalismo sensacionalista. Desta maneira, Matheson deixou o drama mais intenso, além de enriquecer os dois momentos, num processo gradativo de aproximação entre um e outro.
Nesta história, Matheson retoma o tema do herói solitário e desafortunado que tem de lutar contra um mundo inteiro, tornando-se ele o diferente da norma. Mas se o Robert Neville, de Eu Sou a Lenda transforma-se um pária dentro de uma nova realidade, a Scott Carey nem isso é possível, pois ele é o único ser humano a conviver numa realidade cada vez mais macroscópica e hostil, numa dimensão de solidão e desamparo ainda maior.
Stephen King, que sempre o cita como uma de suas grandes influências, tentou realizar algo semelhante quando escreveu, sob o pseudônimo de Richard Bachman, o romance A Maldição do Cigano (Thinner, 1984), adaptado para a TV. Aqui com uma premissa de horror, um sujeito obeso atropela por acaso a mãe de um cigano e este o amaldiçoa com a perda inexorável de peso. Assim como Carey, Billy Halleck procura por todos os meios cessar o processo, primeiro com a ciência, depois com o sobrenatural. King adota uma narrativa linear, ao contrário de Matheson, mas a linha dramática da história é semelhante.
Por sua crueza e fatalismo, O Incrível Homem que Encolheu é mais triste e assustador, ainda que não seja depressivo. É que não há como deixar de se compadecer do drama e das agruras crescentes de Scott Carey em sobreviver nesta autêntica maldição que o acometeu. Se no ambiente externo, social e familiar, ele se torna uma aberração, encolhendo diariamente, tornando-se um anão e menos que isso, no porão tem de enfrentar dificuldades mais vitais, como alimentos, roupas e abrigo e meio a um ambiente selvagem e surpreendentemente inóspito. Sua grande batalha é com uma aranha viúva-negra que tenta arrastá-lo para a sua teia durante a maior parte da história. Por sinal, a capa da edição brasileira deixa de representar este combate mais importante para se fixar no gato da casa que não chega a representar uma grande ameaça a Carey. Ainda que a capa não seja ruim, acredito que não tenha sido a melhor decisão retirar a aranha da ilustração principal, conforme vista nas primeiras edições do romance e no cartaz do filme.
Já o texto é efetivo em sua simplicidade, fluência e exatidão descritiva, longe de perder-se numa autopiedade emocional e em grandes introspecções. Dentro deste contexto, há passagens dramáticas também belas, especialmente quando Carey conhece uma linda anã num circo e percebe que continua tendo os desejos de um homem além de, mais adiante, redescobrir outro sentido para a vida, depois de encolher a ponto de não ser mais visto a olho nu.
Scott Carey não se deixa abater – apesar de cogitar o suicídio algumas vezes –, e é em sua luta por sobrevivência que a narrativa adquire um grande alcance moral. Viver, continuar a despeito das maiores dificuldades e sofrimentos. Até que a sua nova e ínfima condição tenha uma justificativa própria, como ele mesmo atesta ao descobrir que o seu processo de diminuição não o torna menos inteligente e, sobretudo, menos humano. O Incrível Homem que Encolheu é um romance com premissa de ficção científica de dimensão metafísica e um desenvolvimento de pleno horror e superação, na jornada de Carey rumo ao desconhecido.

*
Depois de ler uma história tão forte o melhor teria sido colocar o livro de lado e deixar-se absorver por suas emoções e implicações despertadas. Pelo menos é isso o que costumo fazer após a leitura de um livro especialmente interessante, como este que contém O Incrível Homem que Encolheu. Porém, o livro continua com mais nove histórias e isso provoca uma sensação de estranheza e certo desconforto, pois queria reter a última impressão do volume após ler a história título.
É possível que a intenção da Novo Século tenha sido de economizar, pois deve ter comprado alguns volumes de contos junto com os romances e ficou com receio de lançar as coletâneas como títulos próprios. Pode fazer sentido, mas seria melhor para o leitor saber desde o início que teria em mãos uma coleção de histórias curtas e não um romance seguido delas. Se foi este o motivo, não deveria haver receio com um autor deste calibre.


Em todo caso, após o desconforto inicial, o prazer da leitura é reiniciado, pois as demais histórias mantém o ótimo nível. São contos e noveletas escritas nas décadas de 60 e 70, as mais produtivas de sua carreira. Algumas delas são mesmo chocantes ao explorar os limites da miséria humana como em “O Teste”, “O Distribuidor” e “A Caixa”. No primeiro, em um futuro próximo, devido a uma superpopulação de idosos eles começam a ser eliminados quando se mostram senis ou inúteis para a sociedade. A narração enfoca o tema a partir de um filho que vê seu pai prestes a passar pela sinistra prova. Já a segunda mostra a figura de um sujeito que muda para uma vizinhança e procura se mostrar simpático e prestativo demais, até que suas reais intenções começam a se revelar de forma insidiosa. É uma curiosa variação sobre a figura do diabo. E na terceira história um estranho pacote é deixado na porta da casa de um casal. Após descobrirem que podem lucrar com uma caixa contida no seu interior, nem que com isso provoquem a morte de estranhos, a mulher é vencida pela curiosidade com consequências surpreendentes. Este conto recebeu uma boa adaptação para o cinema em 2009, estrelado por Cameron Diaz.
A maioria destas histórias está mais próxima do horror, não necessariamente sobrenatural e sim mais psicológico, com situações extremas a que são colocados os personagens, em especial em “Encurralado”. Muito conhecida através da adaptação para a TV norte-americana realizada pelo então jovem desconhecido Steven Spielberg, o texto de Matheson mantém o suspense de tirar o fôlego, numa história arrepiante. Uma obra-prima.
Neste volume, Matheson mostra, invariavelmente, pessoas lidando com grandes adversidades, ou em alguns casos, sendo o agente dela. No fundo, o mundo é um lugar muito hostil e indiferente às necessidades e dramas humanos; mas também o homem pode, por vezes, agir neste mesmo mundo para torná-lo ainda mais cruel para as outras pessoas ou seres vivos.

Marcello Simão Branco

sábado, 20 de agosto de 2016

Visão Alienígena: Ensaios sobre Ficção Científica Brasileira

Visão alienígena: Ensaios sobre Ficção Científica Brasileira, M. Elisabeth Ginway. 210 páginas. Introdução de Andrew M. Gordon. Capa de Benson Chin. São Paulo: Devir Livraria, 2010.


Depois da publicação de Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro, em 2005, M. Elisabeth Ginway tornou-se, com justiça, a maior especialista em ficção científica brasileira. E não apenas para a comunidade literária internacional, mas também entre os brasileiros que acompanham de perto o gênero.
Cinco anos depois a mesma Devir que publicara seu livro pioneiro nos brinda com este Visão Alienígena: Ensaios sobre Ficção Científica Brasileira, que reúne os seus textos mais importantes escritos antes e depois de Ficção Científica Brasileira, vistos antes em revistas acadêmicas norte-americanas e nas edições de 2005 e 2009 do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.[1]
Neste segundo livro, temos uma amostra mais abrangente do trabalho e dos interesses de Ginway, mas no mesmo sentido de compreender a realidade social e cultural do Brasil pela perspectiva agora não apenas da ficção científica, mas também do fantástico literário e do horror.
O livro está dividido em cinco tópicos diferentes, cada um deles com artigos de temas semelhantes que estabelecem um profícuo diálogo temático e analítico.
O primeiro tópico é “O Gênero Ficção Científica no Contexto Brasileiro”, com o mais longo ensaio do livro “Um Modelo para Analisar a Ficção Científica do Terceiro Mundo: O Caso do Brasil”, o mais importante do livro. Ela propõe uma espécie de tipologia conceitual para compararmos as formas como o gênero é praticado tanto entre os países desenvolvidos como nos em desenvolvimento, do ponto de vista da análise de ícones básicos do gênero, como o robô e o alienígena, e temas recorrentes, como a ecologia e a presença feminina, estes dois últimos mais ligados às transformações modernizantes vividas pelos países em desenvolvimento, o Brasil em especial, a partir da década de 1960. Também são abordados temas de épocas mais recentes, a partir dos anos 1980 e sua Segunda Onda, como a ficção científica hard, o cyberpunk e as histórias alternativas, entre outros.
Nas palavras da autora: “A ficção científica escrita no Terceiro Mundo exige ferramentas críticas diferentes daquelas tipicamente aplicadas à ficção científica anglo-americana e europeia, pois a mudança de contexto muitas vezes determina uma reinterpretação das premissas básicas do gênero.” (página 17). Este argumento defende que o gênero não é primordialmente de “primeiro mundo”, mas um fenômeno multicultural e, como tal, se enriquece com a comparação de como diferentes culturas a praticam, expandindo o gênero, tornando-o mais rico, complexo e democrático. Em suas palavras, “a ficção científica no Brasil (e em outras nações em desenvolvimento) está modificando o gênero em aspectos que têm implicações a longo prazo.” (página 55).[2]
Na segunda parte da obra, três artigos distintos, mas inter-relacionados analisam ícones clássicos da ficção científica, como os robôs, os ciborgues e a terra devastada. O objetivo é vinculá-los com aspectos da sociedade brasileira, de como estes ícones são reinterpretados de acordo com aspectos ligados à sua compreensão de conceitos como raça, nacionalidade e perspectivas de desenvolvimento socioeconômico, a partir de uma postura crítica das histórias, embora como ela mostra em alguns casos, de certa resignação com uma posição subalterna do país em relação aos de Primeiro Mundo, em especial as histórias situadas nos anos 1960. Especialmente interessante é sua análise “Do Implantado ao Ciborgue: O Corpo Social na Ficção Científica Brasileira”, em que é mostrado, por meio da análise de algumas histórias, como os implantes passam a ser compreendidos menos como uma invasão com subtexto político, e mais como uma espécie de assimilação para uso local, brasileiro.
Na terceira parte, Ginway agrupa artigos que abordam gêneros diferentes, mas próximos, como a fantasia, as utopias e as histórias alternativas, além da ficção científica hard. Aqui a análise tem contornos menos comparativos com modelos estrangeiros e centra-se na compreensão das histórias a partir das alegorias possíveis com aspectos da realidade brasileira, como a do vampiro tropical como um agente do multiculturalismo e a reinterpretação crítica da história brasileira pela ótica da história alternativa que é, para ela, socialmente engajada e politicamente emancipatória na ficção de Gerson Lodi-Ribeiro. Outra análise é da ficção científica hard de Jorge Luiz Calife, por meio de uma ótica que ela chama de híbrida, entre a utopia da conquista espacial e do futuro de consenso super-tecnológico, com a distopia em sua crítica do período autoritário. Em suas palavras: “Os romances de Calife são os primeiros a combinar a escala épica do mito, sense of wonder, e a crença na tecnologia no Brasil. De muitas maneiras ele faz a ponte entre o otimismo tecnológico do início do século xx, e as preocupações quanto ao regime autoritário do Brasil, expressas pela ficção distópica posterior.” (página 144).
A próxima seção é dedicada às autoras na ficção científica brasileira, com três artigos, abordando Dinah Silveira de Queiroz, Finisia Fideli em textos específicos e outras autoras sobre temas mais gerais e recentes dentro do gênero no país. Vale destacar a sua observação sobre a inversão nas vozes dos protagonistas que, num primeiro momento são masculinos, para depois eles serem parodiados e finalmente as mulheres assumem o papel principal, talvez numa indicação da mudança e lenta emancipação feminina na sociedade brasileira, ainda que ainda distante de se constituir numa relação mais igualitária.
A última seção trata da ditadura militar sob a ótica da ficção científica e do fantástico, com um artigo mais geral bastante didático e dois sobre a literatura fantástica dos principais autores brasileiros neste segmento, José J. Veiga e Murilo Rubião. Em suma, a abordagem analisa as contradições do processo de modernização econômica do país sob uma direção política populista (nos anos 1950) e autoritária (nos anos 1960 e 1970). O que a análise de Ginway sugere é que os textos destes dois autores apontam mais os erros e os excessos que beiram o absurdo, do que a sinalização de possibilidades de integração social e desenvolvimento na sociedade brasileira. Talvez possamos dizer que o problema não é o processo de modernização em si, mas o déficit democrático, a falta de legitimidade, em que ele foi conduzido.
No conjunto o livro é muito rico e instigante, pois oferece uma grande variedade de análises e interpretações agudas e, por vezes, surpreendentes da realidade social e cultural brasileira, não apenas por ser do ângulo da ficção científica, mas por vir de uma observadora “alienígena”. Mas o grande mérito está situado mais na proposta bem-sucedida de compreender o Brasil pela perspectiva cultural da literatura de gênero do que pelo fato da analista ser uma estrangeira. Isso porque Ginway demonstra muita solidez em seus conceitos e amplo conhecimento sobre a ficção científica e literatura brasileira em geral.
Sua metodologia comparativa exercida, por vezes, através da análise dos efeitos da fábula e sobretudo pelas associações alegóricas,  distinguem este conjunto de artigos e sua primeira obra como um esforço notável para analisar a cultura brasileira, tanto do ponto de vista literário, como dos chamados estudos culturais, com uma coragem sem paralelo em relação aos seus colegas brasileiros em tempos recentes, ao reunir dezenas de autores e apresentando-os com sua visão particular e inovadora da literatura que praticam, não temendo as inevitáveis polêmicas ao analisar autores atuais.
Em resumo, o que Ginway mostra é a riqueza complexa da cultura brasileira através de sua trajetória histórica, pela luz de um gênero aberto a novas experiências temáticas e especulativas, como a ficção científica. Por este ângulo em particular é que este Visão Alienígena deve ser recomendado, pois demonstra as possibilidades de riqueza analítica da fc escritas por brasileiros em compreender a realidade social e cultural de seu país a partir de cada época.

Marcello Simão Branco




[1] Em 2005,  “O gênero fantasia no Brasil: Globalizando e abrasileirando O Senhor dos Anéis”, e em 2009 “Um garimpo no monte de sucata pós-moderno: O pós-humano na ficção científica brasileira contemporânea (2006-2009)”.
[2] De fato, os escritos multiculturais ganharam força com o processo de globalização; uma outra tendência, com possíveis implicações de longo prazo para o gênero, é a possível convergência entre o gênero e o mainstream.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira

Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, Lainister de Oliveira Esteves. 256 páginas. Editora Escrita Fina, Rio de Janeiro, 2010.

Muitas vezes, a diferença entre uma impressão e uma certeza pode ser mínima. E a impressão que a ficção especulativa sempre fez parte da literatura brasileira era uma convicção que eu tinha comigo. Mas sempre foi difícil argumentar com precisão quando se tratava de citar exemplos. Mas tenho que confessar que, afora alguns títulos e autores mais destacados que sempre são lembrados nesses momentos, dava até a mim mesmo a sensação que talvez estivesse forçando a tese para além do que ela poderia se sustentar.
A antipatia da crítica especializada pela ficção de gênero, que sempre desconsidera essa classificação para textos de autores canônicos, mantinha as referências à distância, sempre que possível. Parecia ser necessário um prolongado e exaustivo trabalho de pesquisa acadêmica para tirar esses trabalhos dos cofres da memória, esquecidos em livros obscuros e jornais antigos, como tem feito o pesquisador Braulio Tavares em diversas antologias recentes, como Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros (2003) e Páginas do futuro: Contos brasileiros de ficção científica (2011), ambos publicados pela editora Casa da Palavra.
A estes volumes junta-se agora Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, organizado por Lainister de Oliveira Esteves para a Editora Escrita Fina. Na verdade, este trabalho foi publicado em 2010, mas somente agora o descobri. Esteves é um pesquisador carioca, doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e especializado em História Cultural, e este trabalho ilustra muito bem o carinho que o organizador tem para com a literatura brasileira.
Como o nome já diz, a antologia é formada por treze textos de horror de autoria de nove escritores canônicos já em domínio público: Álvares de Azevedo (1931-1852), Bernardo Guimarães (1825-1884), Machado de Assis (1839-1908), Aluísio de Azevedo (1857-1913), Thomaz Lopes (1879-1913), João do Rio (1881-1921), Gonzaga Duque (1886-1911), Humberto de Campos (1886-1934) e Lima Barreto (1881-1922). Destes autores, quatro já são bastante conhecidos entre os leitores de ficção fantástica: Álvares de Azevedo, Aluísio de Azevedo, Machado de Assis e Lima Barreto, mas os demais são gratas novidades no arcabouço da ficção fantástica nacional.
O primeiro conto selecionado pelo organizador, que decidiu dar ao volume um tratamento mais ou menos cronológico, é "Bertram", uma das cinco sangrentas histórias que formam Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, o trabalho de horror mais conhecido das letras nacionais publicado originalmente em 1885. É justamente o texto mais forte do conjunto, com a história de um conquistador que vai até as últimas consequências por um rabo de saia. O estilo elegante de Azevedo reporta diretamente a Edgar Alan Poe.
"A dança dos ossos", de Bernardo Guimarães, publicado no livro Lendas e romances, de 1871, é uma sequência de três pequenos 'causos' de assombração, confrontando o racional e o irracional a partir de um assassinato brutal motivado por ciúmes.
Machado de Assis comparece com dois textos. Em "Sem olhos", publicado em 1876 no Jornal da Família, o narrador conta a história mórbida de seu vizinho de pensão, um homem incomum enlouquecido pela proximidade da morte. É curioso notar uma certa similaridade deste trabalho, em especial, às narrativas de H. P. Lovecraft, autor norte-americano que desenvolveu sua obra posteriormente, sem os componentes intolerantes deste, contudo. "A causa secreta", publicado 1875 na Gazeta de Notícias, é menos sobrenatural e, por isso mesmo, mais perturbador, pois trata de um distúrbio psicológico algo comum, o sadismo. A narrativa se resume a fatos simples, mas assustadores, que permeiam a vida de um casal e um amigo, num triângulo amoroso insuspeito.
Aluísio de Azevedo também comparece com dois textos. "O impenitente", publicado em 1898 na coletânea Pegadas, é uma narrativa clássico de horror gótico, em que um padre descontrolado pela paixão por uma mulher, tem uma experiência aterrorizante durante uma noite de insônia. O segundo texto do autor é o clássico "Demônios", a narrativa mais longa do volume, publicado em 1893 na coletânea de mesmo nome. É uma história surrealista, que flerta com a ficção científica, antecipando diversos temas do gênero. Conta a transformação por que passa o protagonista e toda a sua realidade a partir do momento em que as estrelas começam a se apagar.
"O defunto", publicado em 1907 por Thomaz Lopes, explora um tema recorrente no gênero: o enterrado vivo. Um homem desperta de seu sono cataléptico aprisionado em uma cripta de pedra e mármore. Ainda que tenha alguma liberdade para se deslocar, ar para respirar e a luz do sol que ilumina o lugar por uma pequena fresta, todos os seus esforços não permitem que ele saia dali. Conforme os dias passam, a fome e a sede ganham contornos cada vez mais mais desesperadores.
João do Rio era um autor que eu conhecia só de ouvir falar, e fiquei surpreso com a força dos dois textos de sua autoria que o organizador selecionou para esta antologia. Em "Dentro da noite", um homem conta aos companheiros de uma viagem de trem noturna, como sua vida desmoronou por causa de uma compulsão bizarra, e o excelente "O bebê de tartalana rosa", que conta a experiência desconcertante de um libertino durante a madrugada de uma quarta-feira de cinzas. Os dois trabalhos foram publicados respectivamente em 1906 e 1908 na Gazeta da Noite.
Gonzaga Duque é outra grata novidade, com o conto "Confirmação", uma história de fantasma com pendões de ficção científica, publicada originariamente em 1914 na coletânea Horto das mágoas. Conta o que acontece durante um experimento conduzido por um cientista em uma sessão de espiritismo.
Os dois textos de Humberto de Campos exploram a linha do terror, ou seja, o medo gerado a partir de um evento não sobrenatural, ambos publicados coletânea O monstro e outros contos, de 1932. "O juramento" acompanha ao relato de um bêbado louco que conta como sobreviveu a captura de uma tribo de índios antropófagos, e "Retirantes" mostra a dor e o desespero de uma velha matrona decadente cuja única escapatória à seca terrível que assola sua terra é ir embora dali. Mas, para isso, ela precisa de roupas.
Lima Barreto, autor que tem vários outros textos ligados a ficção fantástica, fecha a seleta com o conto "O cemitério", publicado em 1956 na coletânea Marginália, no qual um homem passando por um cemitério se encanta com a fotografia de uma jovem ali sepultada.
A antologia ainda conta com os ensaios "Uma literatura envolta em sombras", que contextualiza os contos selecionados, e "Sobre os autores", com biografias breves de cada autor apresentado, ambos assinados pelo organizador.
Percebe-se a evolução do gênero ao longo dos textos, que começam com o recorrente medo do morto e da morte, que também caracterizou as primeiras obras do gênero em outras culturas, avançando para questões psicológicas e patológicas conforme a morte se desmistificou, chegando até a especulações de ordem científica, o que demonstra que a literatura brasileira não esteve alheia ao gênero e fez uso dele de forma consistente. Percebe-se também que o exercício do gênero esteve intimamente vinculado a literatura popular publicada nos periódicos, que se define assim esse como o espaço "pulp" que a literatura nacional não experimentou plenamente.
Além de muito divertido, Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira é um volume valioso para aqueles que buscam entender o desenvolvimento da literatura de gênero no Brasil e seu valor dentro do cânone nacional.
Cesar Silva

quarta-feira, 18 de maio de 2016

As aventuras de Sir Charles Mogadom e do Conde Euphrates de Açafrão, Arthur, Rubens e Carlos Matuck


O livro ilustrado As aventuras de Sir Charles Mogadom e do Conde Euphrates de Açafrão é um trabalho coletivo que os irmãos Arthur, Rubens e Carlos Matuck produziram ao longo de praticamente toda a vida. 
Trata-se, à primeira vista, de um álbum de histórias em quadrinhos, mas uma observação mais atenta revela que é mais do que isso. Cada um dos quadros é uma obra de arte em si, delicadamente produzida em lápis de cor, num efeito belo e de muita personalidade. Não há balões, nem onomatopeias, nada que se sobreponha aos desenhos, com todo o texto composto abaixo dos quadros, como numa prancha de Príncipe Valente.
São apresentados dez episódios mais alguns fragmentos, comentados pelo jornalista Oscar D'Ambrósio, que ainda brinca com os personagens da narrativa, entrevistados na edição.
O texto, tal qual as ilustrações, é poético e delicado. A história se passa na imaginária cidade de Damar, onde os cientistas Sir Charles Mogadom e do Conde Euphrates de Açafrão desenvolvem pesquisas incomuns sobre a natureza das coisas. Damar esparrama-se à sombra de uma gigantesca árvore que, a certa altura, libera sementes voadoras que serão a inspiração de Alberto Santos Dumont para seus projetos voadores. A presença de Dumont abre um leque de possibilidades interessantes para o trabalho, pois de uma certa maneira o instala no gênero steampunk, muito popular entre os fãs de ficção científica, e mesmo numa possível história alternativa, uma vez que detalhes da vida real de Dumont são citados na aventura.
A história ainda faz referência a muitas personalidades ligadas aos quadrinhos, como Flavio Colin, Angelo Agostini, George Remi, Carl Barks, Hal Foster, Winsor McCay, Ub Iwerks, Floyd Gottfredson e Ziraldo.
O álbum, que é uma publicação da Editora Terceiro Nome, tem 160 páginas em cores, com capa dura e sobrecapa. Com certeza, uma das mais luxuosas e significativas publicações de 2010 tanto na área dos quadrinhos quando da fc&f brasileira.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

O Fim da Infância

O Fim da Infância (Childhood's End), de Arthur C. Clarke. Tradução de Carlos Angelo. Capa de Thiago Ventura e Luiza Franco. 319 páginas. Editora Aleph, São Paulo, 2010.

Arthur C. Clarke escreveu O Fim da infância entre fevereiro e dezembro de 1952, quando tinha 35 anos. Publicado um ano depois, mostrou ser a sua obra-prima, dentre outras de quilate semelhante que viriam posteriormente, como A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars; 1956) e Encontro com Rama (Rendezvous with Rama; 1973).
O Fim da Infância é uma das obras mais pungentes e influentes da ficção científica da segunda metade do século xx por tratar de um tema comum no gênero, a partir de uma perspectiva incomum – ao menos para a época: uma invasão de extraterrestres aparentemente benignos que ocultam da humanidade os reais propósitos da sua missão. Pode-se dizer que o romance estabeleceu um marco de qualidade superior para o tema, que tinha como principal referência o bélico e politicamente crítico A Guerra dos Mundos (The war of the worlds), do também britânico H.G. Wells, publicado em 1898. Tornou possível que as interações entre espécies e civilizações diferentes pudessem alcançar novos parâmetros de criação e interpretação, fugindo do maniqueísmo do bem contra o mal – ou do alienígena vilanizado –, então vigente, e inaugurou uma temática que seria recorrente na carreira de Clarke: a da vida humana justificada por sua evolução final para uma transcendência cósmica.
É este o livro que a Editora Aleph oferece ao leitor brasileiro, numa edição primorosa em todos os sentidos: solução instigante e perturbadora na ilustração de capa; boa tradução de Carlos Angelo; um prefácio do autor escrito em 2000; a apresentação de um primeiro capítulo alternativo escrito depois da Guerra Fria, mas depois sabiamente rejeitado pelo autor; e a publicação inédita do conto “Anjo da guarda” (1950), que inspirou a criação posterior da primeira parte do romance.
O Fim da Infância segue o projeto da Aleph de relançar livros notáveis da fc há algumas décadas fora de catálogo. Títulos anteriores incluem A Trilogia da Fundação (Foundation Trilogy), de Isaac Asimov, e A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness), de Ursula K. Le Guin. Este livro de Clarke apareceu primeiro em Portugal, ainda nos anos 1950, na lendária Coleção Argonauta, em seu número 26, com o título de A Era de Ouro. No Brasil, foi primeiramente lançado em 1979 pela editora Nova Fronteira, com o mesmo título de agora. Trinta anos depois, justifica-se um relançamento pela importância da obra e por colocar novamente nas livrarias um autor importante e com histórico de boas vendas no país.
Estamos nos anos 1970, em plena Guerra Fria e com americanos e soviéticos prestes a lançarem seus foguetes para a Lua. Sem aviso algum, gigantescas naves alienígenas surgem nos céus das principais cidades da Terra anunciando uma nova era. Os homens não mais iriam ao espaço; ao contrário, aqueles a quem buscávamos – uma civilização inteligente – vieram até nós. Para o leitor mais jovem ou ligado ao cinema, a vinculação imagética é quase imediata à de filmes como Independence Day (1996) e o mais recente Distrito 9 (2009). Mas a possível semelhança se encerra na imagem das naves pairando nos céus das metrópoles.
Os Senhores Supremos impõem um despotismo esclarecido à humanidade: obrigam todos a cessarem suas guerras e disputas nacionalistas. Em poucos anos é estabelecido um governo mundial que se reporta aos alienígenas. Toda a administração econômica e social é supervisionada por eles, que trazem um grau inédito de qualidade de vida e paz a todos os homens e seres vivos do planeta. Uma verdadeira utopia torna-se realidade, mas os novos governantes proíbem os terrestres de deixarem o planeta e agirem em qualquer ramo de conhecimento – ciência, religião e artes – sem que tenha a sua aprovação.
Os alienígenas não explicitam as razões de sua visita e do seu domínio incontestável que eliminou também a chance real de autodestruição com um holocausto nuclear. Escrito nos anos 1950, o livro ecoava os temas sensíveis da política internacional de então: a corrida armamentista entre americanos e soviéticos, e o consequente perigo iminente de um conflito catastrófico.
O livro discute em profundidade a questão da escolha moral entre uma situação permanente de segurança e prosperidade versus a de livre arbítrio, quando nossas escolhas encaminham o nosso destino. Se a utopia traz um bem estar jamais conhecido, também esmorece as inquietações humanas, tornando as sociedades e culturas mais indolentes e homogêneas: a busca do conhecimento e da criação artística perde ímpeto e sentido em meio à riqueza material e a resignação com a perda da liberdade.


Mas qual é mesmo o objetivo final dos Senhores Supremos? A resposta vem de forma chocante. Passados 50 anos, os Senhores Supremos mostram-se fisicamente pela primeira vez. E a imagem apavora, pois remete ao que existe de mais sinistro no imaginário religioso ocidental. Seriam eles o cumprimento às avessas de uma profecia? Uma possível interpretação místico-religiosa para o livro é inevitável, mas não é a única, embora possivelmente a mais perturbadora.
Senão vejamos. A analogia entre os Senhores Supremos e o que eles oferecem – ou melhor, impõem – à humanidade é clara: em troca da paz e prosperidade, levaremos por fim as suas “almas”, representadas neste caso pelas figuras puras e imaculadas das crianças. Só que aqui talvez o fato seja ainda mais sombrio, pois não foi – e nem poderia ser – dado a conhecer ao homem o verdadeiro propósito das intenções dos conquistadores extraterrestres.
Quando li este livro pela primeira vez, aos 17 anos, tive um grande impacto existencial: nem a busca pela felicidade, a luta pela liberdade ou por ideais, a crença em Deus ou a esperança num porvir fazia sentido nesta vida. A humanidade encontraria seu sentido na interação com forças desconhecidas do Cosmos. Mais propriamente, no romance, estava condenada, com uma última geração de crianças a sofrer súbitas mutações que as transformaram em seres com um propósito além do compreensível. Nesse esquema, mesmo os Senhores Supremos são apenas os guardiões de um processo controlado por uma espécie ainda superior a ela, que manifesta seu poder através da indução de mutações em outras espécies, que desenvolveriam incríveis poderes mentais rumo a uma união coletiva entre diferentes civilizações do Universo.
Relendo este livro agora, mais de trinta anos depois, fico com uma sensação de renovado estranhamento sobre as implicações existenciais, ainda que relativizada por outras experiências e formas de conhecimento. Clarke defende que o Universo não é para o homem, pois é um ambiente incognoscível à nossa capacidade de compreensão, e em relação com forças que muito nos superam. Tal argumento é estranho vindo dele, que se notabilizou em incentivar a exploração do espaço e os avanços da tecnologia, e ele mesmo sublinha esta aparente contradição no prefácio do livro. Talvez para se eximir, na edição original da obra, era antecedida pela frase: “As opiniões expressas neste livro não são as do autor.” Como observa David Pringle, em Science Fiction: The 100 Best Novels (1985), é possível que Clarke tenha feito um paralelo dos Senhores Supremos com o papel dos britânicos como colonizadores civilizadores da Índia e outros países do Sul da Ásia – que, no caso, seriam os terrestres no romance –, até cumprirem sua “missão” e os libertarem no final dos anos 1940, na mesma época em que Clarke escrevia O Fim da Infância.
Em todo caso, a linha de interpretação místico-religiosa, apesar de toda a moldura realista que Clarke procura construir no mundo criado pelos Senhores Supremos, dá também a medida de sua linha de pensamento e abordagem que viria a seguir, em obras como 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey, 1968) – livro e filme –, que, inclusive, é mais sutil a respeito dos impactos do relacionamento da humanidade com os mistérios do Universo. Nesse sentido, O Fim da Infância é mais contundente e explícito, mas não menos inquietante.
Se o título do romance nos remete ao encontro da humanidade com o fim de seus sonhos e ilusões, a obra mostra maturidade precoce do autor em abordar um tema polêmico e fascinante, ajudando a iluminar – possivelmente influenciado por sua convivência com as culturas hindu e budista –, eventuais explicações para a condição humana e sua relação com o Universo, que estará sempre a surpreender. Seja pelo encantamento, seja pelos mistérios que nos intriga.


Marcello Simão Branco

sábado, 30 de maio de 2015

Poe 200 anos: Contos inspirados em Edgar Allan Poe

Poe 200 anos: Contos inspirados em Edgar Allan Poe, Maurício Montenegro & Ademir Pascale, orgs. 140 páginas. Capa: Carlos Guimarães. São Paulo: All Print, 2010.

2009 marcou o duplo centenário do nascimento de Edgar Allan Poe, escritor americano que morreu na miséria, mas cuja obra influenciou toda a literatura moderna e é hoje muito respeitada.
Poe reuniu em si uma espécie de vórtice criativo, do qual emergiram as bases de toda a ficção fantástica, qual seja, a ficção científica, a fantasia e o terror, além do romance de mistério e investigação. Na edição referente a 2009, o Anuário prestou ao escritor os devidos tributos, com um artigo sobre sua vida e uma resenha de O relato de Arthur Gordon Pym, o único romance escrito pelo ele.
Como Poe tem um grande contingente de fãs, isso facilitou o trabalho de Maurício Montenegro e Ademir Pascale em reunir 22 textos de autores de todo o Brasil nesta antologia comemorativa que se pretendia fosse publicada em 2009, mas acabou saindo no ano seguinte.
O conhecido escritor carioca Miguel Carqueija, autor de Farei meu destino (Giz, 2008), assina o prefácio, em que apresenta a vida e a obra de Poe. Ele também participa com um conto, "O quarto caso de Dupim", um texto simples, elegante e divertido no qual o detetive criado por Poe ajuda a polícia francesa a encontrar um empresário americano desaparecido em Paris. Um ótimo contraponto ao clima predominantemente funesto da antologia.
O volume também traz trabalhos dos dois organizadores e de Alex Lopes, Alícia Azevedo, André Catarinacho Boschi, Deborah O'Lins de Barros, Dimitry Usiel, Duda Falcão, Frank Bacurau, Georgette Silen, Gil Piva, Jocir Prandi, Kathia Brienza, Luicana Fátima, M. D. Amado, Mariana Albuquerque, Márson Alquati, O. A. Secatto, Ronaldo Luiz Souza, Roseli Princhatto Arruda Nuzzi e Thiago Félix.
Além do texto de Carqueija, também se destacam os contos comentados a seguir, nos quais os autores encontraram uma forma pessoal de homenagear Poe.
"Relíquia", de autoria do professor universitário Duda Falcão, homenageia o conto "O gato preto", e narra a história de um menino curioso que visita uma espécie de show de aberrações literárias. Metalinguagem realizada com talento e sensibilidade poética, num estilo que  lembra mais a Ray Bradbury – outro grande mestre da ficção fantástica.
"Um homem afortunado", da funcionária pública e Mestre em Letras Kathia Brienza, embarca numa homenagem a "O barril de Amontillado", contando sobre um professor oportunista que progride na profissão às custas de trapaças. Ao ganhar um concurso de monografias acadêmicas roubando o trabalho de seu rival, sente que chegou ao ápice de sua carreira. Mas nem tudo vai ser sempre como ele deseja. Um ótimo trabalho, saboroso e bem realizado.
Mariana Albuquerque é um nome conhecido do fandom: médica veterinária, participou de vários fanzines e antologias, e publicou os livros Coração de demônio (Writers) e O pássaro e o rochedo (Nativa). Ela assina "A máscara de Vênus",  um texto muito curto que homenageia "A máscara da morte rubra", sendo a única ficção científica em todo o volume. Conta o que acontece ao que resta da civilização, refugiada na Antártida depois do fim do mundo. O conto que tem a melhor primeira frase da antologia: "No equador, os oceanos ferviam". Muito inspirador.
"Inferno no circo" é um conto simples e efetivo, dentro do que se pode esperar de uma homenagem a Poe, com a bem mais que emocionante estreia no circo do orangotango de "Os crimes da Rua Morgue". O autor, Jocir Prandi, é gaúcho de Vacaria e participou de várias antologias. Seu primeiro livro é Inspiração à beira do abismo (Evangraf).
"Louco, eu?", de Ademir Pascale, baseia-se no conto "O coração delator" e conta a história de um psicopata que acredita ver demônios e falar com animais. Apesar de previsível, é um trabalho bem redigido e tem um momento brilhante, quando o protagonista dialoga com fantasmas dos autores dos livros que lê.
Fecha a antologia o texto "Memórias póstumas de Edgar Allan Poe", de Roseli Princhatto Arruda Nuzzi, que não é exatamente um conto, mas uma biografia romanceada na qual um Poe desencarnado narra uma série de fatos de sua vida que podem ou não ser verdade, pois a credibilidade foi comprometida pela mistura com ficção.
Os demais trabalhos seguem uma narrativa algo recorrente, centrada na primeira pessoa e imitando, às vezes bem, o estilo de Poe, mas que resulta em histórias previsíveis e de pouco brilho próprio.
O livro é bem editado, com erros mínimos de revisão, e são homenageados vários outros contos do "Poeta Louco". É justamente esse diálogo com a obra maiúscula de Poe que "contamina" a antologia dando-lhe contornos nobres e clássicos.
Para quem conhece o trabalho de Edgar Allan Poe, a leitura de Poe 200 anos é bem divertida. Contudo, quem não o conhece deve ler os textos originais do autor antes de embarcar nesta verdadeira tietagem literária, senão a maior parte da graça será perdida.
Cesar Silva

Lua negra, Laura Elias

Lua negra, Laura Elias. 190 páginas. Capa: Altair Sampaio. Mythos Editora, São Paulo, 2010.

Lua negra é o segundo volume da série Red Kings, sequência de Crepúsculo vermelho, publicado em 2009 pela mesma editora. Mas a leitura deste volume prescinde daquele e o leitor não terá dificuldade em acompanhar a história sem ter lido o primeiro volume, como foi o meu caso.
A protagonista da série é Megan Grey, jovem de 17 anos de idade que mantém um relacionamento emocionalmente intenso com Bill Stone, líder da banda de sucesso The Red Kings of Dark Paradise e, não por acaso, também um descendente da linhagem dos rovdyr, raça inumana de caçadores de vampiros que sustentam uma guerra surda com poderosas e tradicionais famílias de sugadores. Envolvida na disputa, Megan foi mortalmente ferida no primeiro romance da série e sobreviveu graças ao sangue de Bill que lhe foi administrado.
A história de Lua negra inicia durante um inverno especialmente severo, que tornou branca a paisagem da pequena cidade de Red Leaves, onde Megan vive com sua família, enquanto Bill está fora em excursão com sua banda. Mas o rigor desse inverno não é natural: é decorrente do despertar de forças antigas e poderosas. Um exército feroz de monstros do Ártico está marchando para o sul, disposto a aniquilar tudo o que encontrar pelo caminho, e a onda de baixas temperaturas e tempestades violentíssimas é apenas seu cartão de visitas.
O risco de aniquilamento une vampiros e rovdyrs contra o inimigo comum, numa batalha sangrenta nos campos nevados de Red Leaves. Segredos de família, intrigas e fantasmas do passado vão tornar a relação de Megan e Bill uma montanha russa de acontecimentos trágicos, com muita ação e violência. Megan ainda enfrentará o despertar de estranhos poderes herdados do sangue rovdyr de Bill, que ela não entende e nem controla.
Laura Elias tem uma narrativa ágil, fluida e agradável, apesar do tema mórbido. A linha principal da história acompanha o ponto de vista da Megan mas salta, eventualmente, para plots paralelos. Há uma grande quantidade de personagens coadjuvantes orbitando a relação de Megan e Bill, que os mantém quase sempre afastados e levam a impetuosa Megan a meter-se em enrascadas mortais para ficar perto de seu amado.
Nem todos os mistérios apresentados na trama são explicados, uma vez que Lua negra não é uma conclusão e a história deve ter pelo menos mais um volume, provisoriamente intitulado Luz na noite, sem data de publicação definida*.
Laura Elias é fluminense de Barra Mansa, atualmente radicada em Santo André, no ABC paulista. Apesar de pouco conhecida, é uma autora experiente, com mais de 35 livros publicados sob diversos psedônimos, tais como Loreley Mackenzie, Sophie H. Jones, Suzy Stone, Laura Brightfield. A maior parte de sua obra é formada por romances de banca realistas, mas a autora também navega no fantástico – como nos livros da série Red Kings – e no infanto-juvenil, como no livro Tristin Mckey e o mistério do dragão dourado, assinado como Elizabeth Carrol, publicado em 2007 também pela Mythos Books. Sua produtividade autoral é invejável, e ela afirma com tranquilidade que consegue produzir um romance do porte de Lua negra em poucas semanas, pois esta é uma exigência comum no mercado em que ela atua.
A autora revelou, numa de suas muitas palestras e entrevistas, que o título e os nomes dos personagens de Crepúsculo vermelho foram definidos pelo editor, originalmente eram outros. Isso porque a Mythos não sabia se um romance de horror iria emplacar entre o seu público e Laura nunca havia trabalhado no gênero, embora sempre tivesse gostado dele. Quando Crepúsculo vermelho finalmente foi distribuído, em 2009, tornou-se o seu livro mais vendido, o que lhe deu maior liberdade em Lua negra.
Os livros da coleção Mythos Books seguem o padrão dos romances de banca tradicionais, como os das populares coleções Harlequim, Bianca e Sabrina, com capas envernizadas em papel mole e miolo em papel jornal impresso em rotativa. A produção é modesta, mas caprichada, com boa apresentação e revisão, e um preço ao consumidor bastante acessível.
Laura Elias é pioneira nos romances fantásticos brasileiros dirigidos às mulheres e distribuídos em banca. Antes dela, tivemos apenas livros de pequeno porte dirigidos aos leitores masculinos, como os da Coleção Mini Bolso, da Editora Opera Graphica, da Coleção Império, publicada pela Editora MC, e da série Pocket Suspense, da Editora Fittipaldi. O sucesso do trabalho da Laura Elias, somado ao expressivo crescimento de interesse dos leitores por textos do gênero, pode anunciar o início de um novo e promissor mercado para os autores nacionais de fc&f.
Cesar Silva

* O romance foi publicado em 2013 pela Editora Literata sob o título de A rainha vermelha.

Uma princesa de Marte, Edgar Rice Burroughs

Uma princesa de Marte (A princess of Mars), Edgar Rice Burroughs. 270 páginas. Tradução de Ricardo Giassetti. Capa: Retina 78. Editora Aleph, São Paulo, 2010.

O mercado editorial brasileiro tem um déficit gigantesco em relação a fc&f de todas as épocas. Os motivos disso são inúmeros e passam pela falta de investimento, falta de educação, falta de critérios, falta de competência, entre outros. Ainda hoje, muitos editores continuam a pautar os títulos que pretendem publicar a partir de apelos acessórios, como por exemplo se o dito cujo vai ganhar alguma adaptação no cinema ou se tornar uma série de tv, como se os leitores só se interessassem por livros com esses vínculos, o que não é verdade.
Isso fica muito evidente quando se fala em Edgard Rice Burroughs (1875-1950), escritor americano que construiu um grande império de entretenimento graças a uma resma de séries de aventuras que escreveu na primeira metade do século 20. No Brasil, a única coisa que vem a mente quando se fala no autor é a série Tarzan dos macacos, personagem de grande sucesso que teve boa atenção dos editores por algum tempo – hoje está imerecidamente esquecido, uma vez que já não ocupa mais na mídia o espaço de outros tempos.
O caso de Burroughs assemelha-se a de um seu contemporâneo, o também americano Robert E. Howard, conhecido como o autor de Conan, o bárbaro que, além dele, tem muitos outros personagens fabulosos que não receberam tradução no Brasil*. Da mesma forma, Burrougs não teve em sua carreira unicamente Tarzan. Ele foi um autor produtivo, que escreveu outros seriados interessantes e bem sucedidos, como Carson de Vênus, Pellucidar e John Carter de Marte que, inacreditavelmente, continuam inéditos em língua portuguesa. Ou estavam.
Pelo menos um desses personagens chegou enfim ao Brasil, traduzido pela editora Aleph. Uma princesa de Marte é o primeiro de uma série de onze livros da franquia Barsoom, publicado primeiramente em 1912 na forma de um seriado na revista All-Story Magazine. Trata-se de uma aventura que é, de muitas formas, o protótipo da pulp fiction que tanto sucesso fez em seu tempo. Trata-se de uma ficção científica com elementos de fantasia, chamada pelos teóricos do gênero como Ficção Planetária, pois toda a história gira em torno da descrição de um planeta alienígena, no caso Marte que, desde as declarações do astrônomo Percival Lowel, em 1895, sobre a possível habitabilidade do planeta vermelho, tornou-se alvo de interesse popular.
O romance foi influente em sua época e muitos escritores de ficção científica já declararam ter sido inspirados por ele. E não é por menos. A história é fabulosa, repleta de sense of wonder e até hoje impressiona.
Uma princesa de Marte conta o que acontece com John Carter, veterano da guerra civil americana que, depois de resgatar o corpo de um companheiro atacado por índios selvagens, abriga-se em uma caverna que é tabu entre os indígenas. Ali ele é alcançado por um gás que o adormece profundamente. Quando desperta, não está mais na caverna, mas num lugar absolutamente estranho, nu e incapaz de andar, próximo a uma estrutura repleta de ovos que ele logo vai descobrir, de uma forma bastante desagradável, ser uma incubadora dos tharks, raça de  grandes seres verdes de quatro braços. Escravizado pelos tharks, Carter aprende sua língua e os impressiona com sua coragem e força desproporcional, uma vez que a gravidade do lugar é muito menor que a da Terra. Adquire o estatus de guerreiro depois de matar um deles e, apesar de ser um prisioneiro, ganha alguma autonomia dentro da tribo, onde faz amigos como o guerreiro Tars Tarkas e a fêmea thark Zola, assim como muitos inimigos formidáveis.
Quando os tharks atacam uma frota de grandes carros a vela, Carter descobre que em Barsoom, a forma como os tharks chamam seu planeta, é habitado também por uma raça humana. Eles capturam Dejah Toris, princesa de Helium, um reino fortificado que está envolvido numa guerra terrível contra o reino de Zodanga.
Os habitantes de Barsoon, que Carter vai descobrir ser o planeta Marte, vivem em guerra constante, atacando-se mutuamente. A biosfera de Barsoon sofre um processo acentuado de decadência, os oceanos e rios secaram e a atmosfera só é mantida graças a uma usina de processamento de oxigênio que existe há tanto tempo que sua tecnologia não é mais conhecida pelos barsoonianos.
Além de homens e tharks, Barsoon é habitado por uma série de animais interessantíssimos, alguns muito perigosos, outros assustadores, como o pequeno Woola, uma espécie de cão de múltiplas pernas que se afeiçoa a Carter, o mais fiel amigo que ele faz em Barsoon.
De combate em combate, Carter conquista o coração da bela Dejah Thoris, ajuda Helium a derrotar seus inimigos e até salva o planeta da destruição iminente, mas acaba voltando à caverna na Terra, muitos anos depois de sua partida – o tempo em Barsoon progride mais lentamente que aqui - onde passa o restante de seus dias.
A aventura é relatada na forma de um diário, escrito pelo próprio John Carter nos anos em que passou na Terra e deixado como herança a um sobrinho que o revela ao leitor conforme o recebeu, após o desaparecimento do tio. O romance não especifica se Carter retornou à Barsoon, mas uma vez que este é apenas o primeiro livro de uma série, é bastante provável que a resposta seja positiva.
Contudo, não há nenhuma garantia que os demais livros da série Barsoon – ou das outras séries de Burroughs – sejam publicados no Brasil**. Ficamos um pouco menos desinformados do que antes, porém com apenas este único exemplo da divertida ficção científica deste precursor importante do gênero.
E não dá para deixar de lembrar que Uma princesa de Marte só chegou ao Brasil porque, em 2009, os estúdios Disney anunciaram a produção um filme com a história – lançado em 2012 –, além do cineasta James Cameron ter afirmado que esse romance foi parte da inspiração para fazer o seu blockbuster Avatar.
Ou seja, quanto mais as coisas mudam, mais continuam iguais.
Cesar Silva

*Em 2014, finalmente saíram no Brasil dois livros inéditos de Howard com outros personagens: Salomon Kane: A saga completa, e Rosto de caveira, Os filhos da noite e outros contos (Skull-face; The children of night and other tales), respectivamente, pelas editoras Évora e Martin Claret.
** A obra de Burroughs ainda não está efetivamente em domínio público, motivo pelo qual a editora brasileira descontinuou a série em 2012 depois de publicar mais dois títulos: Os deuses de Marte (The gods of Mars), e O comandante de Marte (The warlords of Mars).

domingo, 24 de maio de 2015

Guerra justa, Carlos Orsi

Guerra justa, Carlos Orsi. 150 páginas. Capa: Ericksama. Editora Draco, São Paulo, 2010.

Um dia, no futuro imaginado por Carlos Orsi, um grande meteoro vai se abater sobre a Terra Santa, transformando-a em pó e deixando uma enorme cratera onde antes havia as bases mais sagradas das religiões ocidentais, abalando a fé ao ponto de eliminar do mundo todas a religiões conhecidas. No vácuo desse cataclisma, emerge um novo profeta – o Pontífice – que funda uma religião apoiada na tecnologia de ponta, cujo santuário fica em órbita da Terra, numa estação espacial.
Essa nova teologia, chamada de Quinta Revelação, ganha poder no mundo graças a capacidade do Pontífice para prever o futuro. Sua igreja tornou-se, rapidamente, um governo mundial todo poderoso, um estado policial teocrata que literalmente controla a vida de todos através de implantes de alta tecnologia, decidindo os rumos da política internacional e determinando quem vive ou morre nas inevitáveis tragédias naturais.
Mas há pessoas que não concordam com o predomínio dessa força política e movem um plano secreto para desacreditá-la. Uma delas é Rebeca, infiltrada na estação espacial da Quinta Revelação. Ela rouba dados importantes do santuário e é morta durante a fuga, mas não antes de encaminhar esses dados ao seu destino, uma inteligência artificial chamada Ma Go que, com essa informação, adquire a mesma capacidade do Pontífice para antecipar acontecimentos futuros e estabelece um outro pólo de poder para confrontar a hegemonia da Quinta Revelação.
Rebeca tem uma irmã, Rafaela, pesquisadora de implantes de processamento a serviço da Quinta Revelação, que é abordada pelo grupo de dissidentes a qual sua irmã fazia parte. Ela é levada à Ma Go e lá confronta toda a verdade por trás da doutrina da Quinta Revelação e dos supostos poderes de seu lider espiritual. Ma Go pretende usar Rafaela para presentear o Pontífice com um poder ainda mais refinado, que pode colocar a igreja da Quinta Revelação num caminho menos impiedoso.
Carlos Orsi é um dos autores mais interessantes da Segunda Onda de Ficção Científica Brasileira. Seus contos estão entre os melhores que essa geração produziu, alguns deles publicados nas suas coletâneas Medo, mistério e morte (Didática Paulista, 1996) e Tempos de fúria (Novo Século, 2006). Guerra justa é seu primeiro romance, embora seja bastante curto. Pelo menos trinta de suas 150 páginas não têm texto, pois foram usadas como respiro entre os capítulos. Pelos padrões americanos, trata-se de uma novela, portanto. Mas esse tratamento gráfico deu ao romance uma leveza visual incomum e muito personalizada, usando inclusive o interessante recurso de páginas em negro, com texto vazado em branco.
Inteligências artificiais, pós-humanidade, manipulação da opinião pública e da informação a serviço de uma religião hegemônica revelam uma visão pessimista do autor com relação às religiões, que nada teriam a oferecer ao homem além de dor e sofrimento. Entrevistado no Anuário brasileiro de literatura fantástica - 2005, Orsi afirmou que acredita que, um dia, tudo o que existe será explicado pela ciência: Guerra justa é assim o seu libelo contra o misticismo religioso.
Apesar de ter apontado suas baterias às religiões, Orsi acabou acertando em outro alvo, qual seja, a absoluta incapacidade do ser humano para fazer o bem, pois nesse futuro distópico e violento, quem redime a humanidade é a inteligência artificial Ma Go. Orsi cria, assim, sua própria versão de Deus.
Contudo, algumas coisas não convencem no enredo, a começar da premissa algo exagerada de que todas as religiões desabariam caso as cidades sagradas dos cristãos, judeus e muçulmanos fossem destruídas por uma tragédia cósmica. Afinal, estas não são as únicas religiões do mundo e tanto o judaismo quanto o cristianismo já sobreviveram, em outras épocas, a destruição de seus templos mais sagrados.
O autor demostra habilidade ao emular o estilo de autores como Willian Gibson e Bruce Sterling – os mais populares fundadores do movimento cyberpunk – como, por exemplo, a forma episódica, com uma porção de personagens cujas histórias vinculam-se frouxamente, e uma espécie de globalização narrativa que lança a trama para os quatro cantos do mundo e até para fora dele, num mosaico expressionista em que a sensação vale mais que o enredo. A única personagem mais elaborada é Rafaela, que ancora levemente a trama mas não chega a causar identificação com o leitor. Seu destino, ainda que importante para o desfecho da história, é de somenos relevância damática.
Ainda que não esteja entre seus trabalhos mais expressivos, Guerra justa é um texto autoral interessante porque Orsi expõe nele algo de sua íntima convicção filosófica, indo além do simples exercício estético literário ou do entretenimento descomprometido que geralmente caracteriza a ficção científica brasileira. Um pouco de polêmica só pode fazer bem a um gênero que tem o talento histórico de discutir temas difíceis.
— Cesar Silva