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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A ilha do Dr. Shultz, Ataide Tartari

A ilha do Dr. Shultz
(Tropical shade), Ataide Tartari. 193 páginas. Santos: Do autor, 2013.

Em meados dos anos 1980, um achado movimentou a imprensa internacional. Foram encontrados, no Brasil, os restos mortais de Josef Menguele, o anjo da morte de Aushwitz que, desde o final da Segunda Grande Guerra, em 1945, vinha sendo procurado por todo mundo pelos caçadores de nazistas. É em torno desse fato histórico que o escritor paulistano Ataíde Tartari constrói o enredo de A ilha do Dr. Shultz
A história acompanha as trajetórias de dois homens negros no Brasil recém redemocratizado. O primeiro, judeu africano, é uma espécie de agente secreto a soldo de uma instituição norte-americana que, a partir da descoberta do restos de Meguele, busca por pistas de outros nazistas escondidos no Brasil. O outro é um norte-americano afrodescendente que, farto da vida miserável que levava em seu país, vem ao Brasil em busca de um tratamento especial que prometia tornar branca a sua pele. Os caminhos desses dois homens, ambos em busca de redenção, vão se cruzar numa ilhota no litoral do Rio de Janeiro, conhecida como Ilha dos Negros Aço, onde vive um cientista que parece deter técnicas efetivas de branqueamento da pele negra. 
A história não é exatamente fantástica apesar da premissa de ficção científica; é quase realista para dizer a verdade. Não tem viradas dramáticas a cada capítulo, apenas segue em frente, sem barrigas. É um texto preciso e enxuto, que envolve e faz o leitor se importar com os personagens. 
A ilha do Dr. Shultz é surpreendente mesmo para os altos padrões do autor. É incrível sua capacidade em arredondar personagens usando poucos parágrafos, construir ambientes e manipular as tensões. O domínio sobre o enredo é preciso, com uma reconstrução histórica competente da São Paulo dos anos 1980. Possivelmente, este seja tecnicamente o melhor texto do autor. 
Tartari é um autor formado na Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, com diversos contos excelentes publicados nos fanzines. Seu primeiro livro foi o romance de ficção científica EEUU 2076 (1987, Edicon), publicado sob o pseudônimo de A. A. Smith. Também publicou a novela Sideral no buraco sem fundo de Parnarama (2012, Nova Espiral) e as coletâneas O triângulo de Einstein (2012, Nova Espiral), 17 histórias alternativas, cômicas e futuristas (2013, Virtual) e Veja seu futuro (2017, do autor), além dos romances originalmente escritos em inglês Amazon (
2001, iUniverse) e o próprio Tropical shade (2003, iUniverse), título original de A ilha do Dr. Shultz, traduzido pelo próprio Tartari.
Vale a pena buscar pelos textos do autor, muitos dos quais seguem disponíveis, como este A ilha do Dr. Shultz, aqui.
Cesar Silva

sábado, 24 de fevereiro de 2024

O homem fragmentado, Tibor Moricz

O homem fragmentado
, Tibor Moricz. 214 páginas. São Paulo: Terracota, 2013.

Um dos temas que tem sido mais utilizados pela mídia recente nas séries e filmes de fc&f é o dos mundos ou realidades paralelas. Basicamente, não há muita diferença: são realidades geralmente similares, mas com pequenas alterações que foram consequência de alguma sutil decisão passada. Mas pode haver também grandes alterações, que tornam uma realidade absolutamente irreconhecível diante da original. Essas ideias foram exploradas primeiro pelos escritores de ficção científica, como por exemplo no conhecido O homem no castelo alto, de Philip K. Dick, recentemente adaptado para uma série de tv pelo canal de streaming Amazon Prime, em que duas realidades paralelas distintas acabam por interagir de alguma forma. Vimos isso também na série de tv Fringe, e no romance pós-modeno A cidade e a cidade, de China Miéville.
Tais especulações renderam até um gênero a parte, o da história alternativa, que consite em dramas históricos nos quais alguma alteração no passado mudou os rumos da história, como por exemplo em A máquina diferencial, de Bruce Sterling e Willian Gibson, obra fundadora do movimento steampunk. Também podemos recordar do subgênero da ficção alternativa, que propõe obras alternativas de uma outra, como O outro diário de Phileas Fogg, de Philip José Farmer, e Frankenstein unbound, de Brian Aldiss. Ou ainda, na mistura de ficção alternativa e história alternativa, como em Anno Dracula, de Kim Newman. 
Enfim, há inúmeras variações sobre o tema. Seria surpreendente que os autores brasileiros apaixonados por ficção científica nunca tivessem enveredado por esses caminhos. A maior parte deles preferiu, contudo, seguir os caminhos da história alternativa, da ficção alternativa e do steampunk. São raros os exemplos de uma história sobre realidades paralelas. E é justamente este o caso do romance O homem fragmentado, do escritor paulistano Tibor Moricz.
Conta a história de um escritor que, sofrendo de culpa pela morte acidental de seu único filho, num momento de depressão intensa decide dar cabo da própria vida com um tiro de revólver na cabeça. Ao acionar o gatilho, porém, nada acontece: a arma parece ter falhado. Mas ao abrir os olhos adepois da grande tolice que havia intentado, dá de cara com a expressão assustada de seu filho não mais morto. 
É claro que a arma funcionou e, na sua realidade original, ele estourou os miolos. Mas sua consciência escapou da morte e passou a saltar entre as múltiplas realidades. A partir daí, a realidade desse homem infeliz vai se tornar um turbilhão de jornadas alucinantes por diversas realidades paralelas nas quais as coisas são cada vez mais bizarras. A certa altura, quando as coisas já pareciam totalmente fora de controle, ele encontra uma outra viajante entre as realidades, que vai ajudá-lo a entender e aceitar o novo modelo da sua vida, no qual a morte é apenas um episódio como outro qualquer.
Moricz é um dos nomes mais destacados da fase inicial da terceira onda da ficção científica brasileira, ainda na primeira década do século XXI. Seu romance de estreia foi Síndrome de Cérbero (2007), seguido de Fome (2009) e O peregrino (2011). Mais recentemente, o autor estabeleceu sua base editorial na internet, publicando exclusivamente em ebooks, inclusive reeditando os seus primeiros trabalhos no formato digital, mas O homem fragmentado segue existindo apenas no formato impresso. O autor sempre se mostrou ousado nas temáticas de seus textos e, apesar de ter iniciado já com boa técnica, ganhou maturidade ao longo do tempo. O homem fragmentado é certamente seu livro mais maduro e intimista, aquele com o qual ficou mais a vontade como autor. A história é intrigante e tem mistério suficiente para motivar o leitor a continuar lendo, mesmo nas situações mais absurdas nas quais lança o protagonista. 
Infelizmente, Moricz parece ter reduzido o ritmo: seu romance  mais recente, a ficção científica planetária Dunya, foi publicada em 2017, há já quatro anos. Talvez esse lapso tenha a ver com a crise editorial que desmotiva a publicação de livros no país, ou porque o Brasil pareça cada vez mais com os cenários absurdistas que o protagonista de O homem fragmentado tem que lidar. O que é uma pena, pois a ficção de Tibor Moricz é cada vez mais necessária no Brasil. 
Cesar Silva

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Filmes do Fim do Mundo


Filmes do Fim do Mundo: Ficção Científica e Guerra Fria (1951-1964), Igor Carastan Noboa. 189 páginas. São Paulo: LCTE Editora/Fapesp, 2013.


    
No cenário da ficção científica brasileira este é um livro incomum. Isso porque é dos poucos a tratar da ficção científica com um tema específico. Normalmente, os livros sobre o gênero o abordam de uma forma genérica. Mas Igor Carastan Noboa se propõe
a um desafio instigante: analisar os filmes norte-americanos de FC que tratam, direta ou indiretamente, da Guerra Fria (1945-1991).

Este momento histórico marcou a segunda metade do século XX. É como o mundo se organizou politica e militarmente como resultado da Segunda Guerra Mundial, no qual sob os espojos da derrota nazista e da decadência dos países imperialistas (Reino Unido e França), emergiu duas superpotências que passaram a liderar e dividir a geopolítica em duas vertentes opostas: Os Estados Unidos, com capitalismo e democracia liberal; e a União Soviética, com socialismo e totalitarismo político. Mas como vai mostrar Noboa em seu trabalho, o que mais acentuou o clima de rivalidade entre norte-americanos e soviéticos foi a possibilidade de uma guerra nuclear. Mas se ocorresse teria sido, muito provavelmente, o último dos grandes conflitos bélicos da humanidade.

O livro é consequência de uma dissertação de mestrado defendida pelo autor no curso de História Social, na Universidade de São Paulo, em 2010. Lembro que em algum momento de 2009 o autor me procurou para consultar sobre uma lista de filmes básicos do cinema norte-americano de FC. Me enviou uma ótima lista que mantenho até hoje. Assim, quando em 2014 soube que sua pesquisa tinha sido publicada, não tive dúvidas e fui atrás da obra, literalmente “caçando” o livro pela internet. Tive até de ligar para a obscura editora LCTE dizendo do meu interesse pelo livro. Ao que parece, até eles estavam surpresos pelo contato. Não deveriam porque o livro é ótimo. E uma prova institucional disso é o financiamento parcial que recebeu da Fapesp. Um selo de qualidade na publicação de obras acadêmicas.

Após uma boa introdução sobre o contexto de desenvolvimento da bomba atômica, o cenário inicial da Guerra Fria e as mudanças pelo qual passou o cinema de Hollywood nos anos 1950, o autor parte para uma discussão sobre alguns conceitos que caracterizam a ficção científica, sua relação com o fantástico e, mais especificamente, o modo como evoluiu o cinema de FC nos EUA. Aqui, para chegar propriamente ao tema do livro: como o cinema do gênero abordou a problemática política da disputa ideológica entre o Ocidente e a chamada Cortina de Ferro.

Ao invés de ir pela solução mais comum, de comentar vários filmes, Noboa optou por enfatizar apenas quatro deles: O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still;1951), Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers; 1956), A Bolha (The Blob; 1958) e Limite de Segurança (Fail Safe; 1964). Talvez do ponto de vista didático teria sido mais interessante a primeira opção, mas o enfoque em quatro filmes representativos, vistos em conjunto, tornou o trabalho mais profundo na análise e sólido em suas considerações.

O Dia em que a Terra Parou, dirigido por Robert Wise (1914-2005) é, dos quatro, o mais importante para a FC. Baseado na noveleta “Adeus ao Mestre” (“Farewell to the Master”; 1940), de Harry Bates,1 subverte o clichê do alienígena hostil. Ao invés, ele vem à Terra para impor a paz entre a nações, cessando a corrida armamentista que poderia levar a uma guerra e ameaçar a segurança, até mesmo, das outras civilizações próximas no universo. Como pontua Noboa chama a atenção a forma como o processo de conhecimento e convencimento do alienígena Klaatu sai pelas margens, ou seja, depois de ser mal sucedido em contatar as autoridades, busca ajuda no povo comum e, posteriormente, na comunidade científica. É como se a chance de solução do problema tivesse de ser buscada na sociedade, pois a esfera da política estaria contaminada com a rivalidade e paranóia em relação ao inimigo. Neste filme não há uma vinculação direta com o comunismo em si, mas com a ameaça que representa o então recente desenvolvimento das armas nucleares, de parte a parte. Assim sendo, o filme serve como um interessante indicativo para as possíveis consequências que estariam por vir, anos à frente, quando, justamente, o mundo viveria sob o risco de um confronto nuclear. Klaatu envia sua mensagem de paz, mas na forma de um ultimato. De fato, talvez para cessar a corrida armamentista naquele momento, só seria possível um poder externo e superior.

Do enfoque das possíveis consequências da rivalidade em si, o filme a seguir é o que discute o aspecto ideológico de forma mais profunda. Como se sabe, Vampiros de Almas trata de uma invasão extraterrestre numa pequena cidade, em que vagens se transformam em copias perfeitas, assumindo a identidade e existências das pessoas. Dirigido por Don Siegel (1912-1991) e baseado no romance de mesmo nome de Jack Finney (1911-1995), foi interpretado, principalmente, como um alerta contra o possível avanço do comunismo na sociedade norte-americana. As novas pessoas não teriam emoções, seriam todas disciplinadas e sem livre-arbítrio, como se seguissem algum comando. O filme é extremamente efetivo em trabalhar a forma como as pessoas vão mudando seu comportamento, e a luta de um casal para evitar a situação e denunciar este estado de coisas. Mas esta é a análise mais conhecida. O que Noboa acrescenta na obra são outras três possíveis: o alienígena como ameaça às mudanças políticas e liberdades constitucionais, a radiação como invasora de corpos e a ameaça alienígena aos valores patriarcais do homem branco. Na primeira, inverte-se a paranóia anticomunista. É o discurso machartista que persegue o indivíduo e sua liberdade de pensar e agir; no segundo, há uma denúncia dos experimentos científicos e militares em torno da tecnologia nuclear2 e na terceira, uma crítica ao conservadorismo machista da sociedade norte-americana. Todas são interessantes mas creio que as duas primeiras tem mais a dizer sobre a proposta da obra, tanto o romance, como o filme. Pois se a interpretação mais comum é aquela do anti-comunismo, ao meu ver, a segunda é a mais reveladora, pois mostraria como a sociedade tinha se tornado paranóica e desta forma – e não pelos supostos valores igualitários do comunismo –, é que o modo de vida americano e sua democracia, estavam sendo corroídos.

Por uma outra via, mas também nesta linha, é que Noboa selecionou A Bolha como o terceiro filme a ser analisado. Dirigido por Irvin Yeaworth (1926-2004), é mais identificado como um filme B e para adolescentes, de fato, não foi tão levado a sério à época, mas ganhou relevância e o status de cult décadas depois. Isso porque, como mostra o autor do livro, A Bolha insinua suas relações com o tema da Guerra Fria de uma forma diferente. Interna aos valores em mudança da sociedade norte-americana, da grande prosperidade do país no pós-guerra, mas que aprofundou também várias contradições, como a desigualdade social, as relações entre homens e mulheres, a luta dos negros por seus direitos civis e políticos e o conflito de gerações entre pais e filhos. Nesse sentido é o filme menos diretamente relacionado com a Guerra Fria enquanto fenômeno político-ideológico da época, mas como os EUA lidavam com suas próprias tensões neste contexto. Assim, o elemento catalizador é a queda de um meteoro, que trará a chegada da bolha, uma criatura assassina vinda do espaço. Pois parte destas contradições sociais ficarão expostas no enfrentamento do problema maior, que é a destruição da bolha. Interessante que, assim como nos dois filmes anteriores, o plano de ação principal para a resolução do drama se situa na sociedade e não no ambiente político dos governos ou dos militares. Estaria aí, de certa forma, a recorrência de uma crítica à incapacidade do ambiente institucional de se aproximar dos problemas ao nível dos cidadãos, para de fato protegê-los de ameaças concretas, e não de questões fora de suas realidades cotidianas, aquelas vinculadas à disputa macro entre os países e suas supostas razões de Estado, para garantir a tal da “segurança nacional”.

Desta forma, o contraponto é justamente o último filme analisado, Limite de Segurança, dirigido por Sidney Lumet (1924-2011) e, assim como o filme de Wise e o de Siegel, também baseado numa história previamente publicada. Neste, a ação se passa inteiramente no ambiente político e militar, no qual, devido a um erro técnico, caças norte-americanos armados com armas nucleares se dirigem para destruir Moscou. Embora a premissa possa ser questionada como pouco verossímil, na verdade o filme realiza uma crítica contundente à tecnologia e ameaça de que decisões humanas sejam entregues a máquinas, por mais sofisticadas que sejam. Ainda mais numa questão sensível como esta. De fato, o filme explora de forma intensa o drama para evitar uma guerra, e dos quatro é o mais realista, o que dialoga de forma mais próxima com a situação da época. A narrativa realmente incomoda pelo alto nível de suspense embutido e surpreende com o desfecho. Como aponta Noboa, contra as convenções do cinema comercial norte-americano.

Após analisar de forma exaustiva os quatro filmes, Noboa ainda apresenta no capítulo final instigantes discussões sobre as relações entre os filmes, onde torna mais claras as diferentes críticas e perspectivas que cada filme adota sobre os temas do militarismo, tecnicismo e conformismo, que permeiam as obras e o contexto geral, principalmente nos EUA dos anos da Guerra Fria, em especial nas décadas de 1950 e 1960.

Neste trabalho acadêmico está bem ilustrado os dois temas mais caros ao autor, que os discute por meio do cinema: a ficção científica e a sociedade norte-americana. O pano de fundo para as extensas discussões sobre os filmes, mais que à Guerra Fria e suas consequências em si, é sobre as características e rumos dos EUA naquela época histórica. Tanto é assim que ele continuou nesta seara em sua tese de doutorado, defendida na mesma USP em 2019. Com o título de O Futuro e o Passado estão Além da Imaginação: A Viagem no Tempo e os EUA no Contexto do Segundo Pós-Guerra, ele mantém o mesmo tema geral, mas com um novo enfoque: a viagem no tempo (no lugar da ficção científica em geral) e da série de TV Além da Imaginação (no lugar do cinema). Ou seja, mergulha num subgênero da FC e numa série de TV. Tive um contato apenas breve com a obra, que pode ser baixada no site www.teses.usp, mas sugere que o autor explora, de forma mais abrangente, os valores culturais dos EUA, ao associar o tema da viagem no tempo – por meio dos episódios da série –, com a relação de tradição versus modernidade, conservadorismo versus radicalismo, numa sociedade que cada vez mais expunha suas contradições, que se tornariam mais agudas e dramáticas nos anos 1960.

Igor Carastan Noboa é professor de História da rede municipal em São Paulo e do Centro Universitário Sumaré, e faço votos para que esta tese de doutorado também seja publicada. É um pesquisador e crítico talentoso, e que mostra o potencial da ficção científica como meio privilegiado de interpretação da realidade social e histórica. E vem a se juntar a outros bons pesquisadores que nesta última década tem apresentado trabalhos acadêmicos, tendo o gênero como campo de pesquisa. Que esta tendência se consolide e que os melhores trabalhos – como este resenhado aqui – possam ser publicados e colocados à disposição dos leitores em geral.


Marcello Simão Branco

1Publicado na antologia Máquinas que Pensam: Obras-Primas da Ficção Científica (Machines that Think: The Best Science Fiction Stories about Robots and Computers), organizado por Isaac Asimov, Patricia S. Warrick e Martin H. Greenberg, publicado pela editora L&PM em 1985, e como Histórias de Robôs, em três volumes, 2005.

2A meu ver o filme mais impactante a abordar este aspecto nos anos 1950 foi O Incrível Homem que Encolheu (The Incredible Shrinking Man, 1957), de Jack Arnold (1916-1992), em que um homem, sob o efeito de um gás radioativo, diminui inexoravelmente de tamanho. Foi baseado num romance homônimo de Richard Matheson (1926-2013).

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Joyland

Joyland (Joyland), Stephen King. Tradução de Regiane Winarski. 239 páginas. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2015. Lançado originalmente em 2013.

 


No verão de 1973 o jovem Devin Jones vive uma experiência que muda para sempre sua vida. Mas não é o fora que leva da namorada por quem era perdidamente apaixonado. Mas sim ter ido trabalhar num parque de diversões, Joyland, às margens da praia da cidadezinha de Heaven´s Bay, na Carolina do Norte.

King conta a sua versão do tema do parque de diversões, uma das tradições do gênero fantástico e do horror. Mas ao contrário de Ray Bradbury (1920-2012), por exemplo, em seu fabuloso romance Algo Sinistro Vem Por Aí (1962), o parque não é itinerante e, mais importante, há um só elemento sobrenatural na trama. Mas é o suficiente para que o leitor fique ao mesmo tempo fascinado e desconcertado.

Pois em Joyland, como descobre Devin logo em seu primeiro dia de trabalho, há um boato de que uma linda garota foi assassinada no Horror House, em pleno trem fantasma, e vaga por lá, sendo vista por algumas pessoas que fazem a manutenção do lugar. Ela é Linda Gray, com a garganta cortada por um serial killer, que conseguiu escapar da polícia. Esta na maioria das vezes preguiçosa ou burocrática demais em suas investigações.

Mas a este plano mais sombrio King nos apresenta Joyland e a tudo o que compõe a rotina de um parque de diversões de uma cidade do interior: seus trabalhadores, alguns com ´alma de parque´ – pois vocacionados para esta profissão –, com uma rotina dura de trabalho para manter tudo limpo e seguro. O show em si, com os visitantes – chamados pejorativamente de Bobs, pelos funcionários do parque, algo como os nossos caipiras –, e os brinquedos encantadores, em que eu mesmo não pude deixar de lembrar de momentos da minha própria infância quando estive em parques como estes. É incrível como se tornam memórias vívidas e marcantes por toda a vida.

Devin aprende logo seus afazeres, ganha a estima e confiança dos colegas de trabalho, além de fazer novas amizades, como os outros jovens que foram trabalhar no parque durante as férias, Tom Kennedy e Erin Brook, esta uma das Garotas de Hollywood, responsáveis por tirar fotos com os visitantes – e que, inclusive, estampa lindamente a ilustração de capa do livro. Mesmo mal por causa do amor perdido, Devin decide ficar após as férias, trancando a faculdade na Universidade de New Hampshire. Menos por causa de Wendy Keegan, sua ex-namorada que o traiu, mas sim pela curiosidade em descobrir o que de fato aconteceu com Linda Gray. Principalmente a chance de vê-la, após isso ter ocorrido com o descrente Tom.

Hospedado numa pensão Devin vai a pé todos os dias a Joyland e avista uma casa à beira da praia com uma mãe, um menino numa cadeira de rodas e um cachorro. Após certo tempo os conhece, e descobre que Myke Ross, cheio de sonhos, está com os dias contados. Se envolve com os dois, e ambos terão uma presença decisiva no destino de Linda Gray e, principalmente, em sua própria vida, no alto de uma roda gigante em plena madrugada chuvosa.

O romance dialoga também com a ficção de crime, no processo de investigação, suas descobertas, reviravoltas e suspense que se acentua ao longo da história. Narrado de forma retrospectiva por um adulto que recorda estes acontecimentos quando tinha os seus 21 anos, Stephen King cria um cenário melancólico e nostálgico neste romance curto – para os seus padrões –, mas igualmente humano e triste.

Pois, como é seu costume, sabe criar o clima para nos adentrar no mundo de personagens extremamente críveis, contextualizar com a cultura contemporânea da época da história, e nos mostrar como o mal está sempre à espreita e se manifesta quando e onde menos esperamos. E, o mais terrível: não poupa as pessoas boas em relação às más. Seja com elementos sobrenaturais ou não. O craque de sempre em nos contar (e emocionar) com suas histórias.


Esta resenha é em memória de Sérgio Roberto Lins da Costa (1955-2020), grande fã de Stephen King.

Marcello Simão Branco

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Lista de filmes de horror, suspense, ficção científica e fantasia lançados nos cinemas brasileiros em 2013

Confiram uma lista sugerida de filmes de horror, suspense, ficção científica e fantasia lançados nos cinemas brasileiros durante o ano de 2013

A lista abaixo pode não estar completa, mas serve como uma interessante referência dos filmes com elementos fantásticos (Horror, Ficção Científica, Suspense, Fantasia) que entraram em cartaz no circuito comercial dos cinemas brasileiros no ano de 2013, num total de 48 filmes.


1º semestre
* A Viagem (Cloud Atlas, EUA / Alemanha / Hong Kong / Singapura, 2012) – estreou em 11/01/13 (aventura com elementos de ficção científica)
* João e Maria: Caçadores de Bruxas (Hansel & Gretel: Witch Hunters, EUA / Alemanha, 2013) – estreou em 25/01/13 (ação com elementos de fantasia e horror)
* Inatividade Paranormal (A Haunted House, EUA, 2013) – estreou em 01/02/13 (comédia com elementos de horror)
* Meu Namorado é Um Zumbi (Warm Bodies, EUA, 2013) – estreou em 08/02/13 (comédia com elementos de horror)
* Dezesseis Luas (Beautiful Creatures, EUA, 2013) – estreou em 01/03/13 (drama com elementos de horror)
* Hitchcock (EUA, 2012) – estreou em 01/03/13 (biografia do cineasta Alfred Hitchcock e bastidores do filme “Psicose”, 1960)
* Killer Joe – Matador de Aluguel (Killer Joe, EUA, 2011) – estreou em 08/03/13 (thriller)
* Oz: Mágico e Poderoso (Oz the Great and Powerful, EUA, 2013) – estreou em 08/03/13 (aventura com elementos de fantasia)
* A Hospedeira (The Host, EUA, 2013) – estreou em 29/03/13 (drama com elementos de ficção científica)
* Jack – O Caçador de Gigantes (Jack the Giant Slayer, EUA, 2013) – estreou em 29/03/13 (ação com elementos de fantasia e horror)
* Uma História de Amor e Fúria (Brasil, 2013) animação – estreou em 05/04/13 (drama com elementos de ficção científica)
* Mama (Mama, Espanha / Canadá, 2013) – estreou em 05/04/13 (horror)
* Oblivion (Oblivion, EUA, 2013) – estreou em 12/04/13 (ficção científica)
* A Morte do Demônio (Evil Dead, EUA, 2013) – estreou em 19/04/13 (horror)
* Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, EUA / China, 2013) – estreou em 26/04/13 (ação com elementos de ficção científica)
* O Último Exorcismo – Parte 2 (The Last Exorcism – Part II, EUA, 2013) – estreou em 10/05/13 (horror)
* O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua (Texas Chainsaw 3D, EUA, 2013) – estreou em 17/05/13 (horror)
* A Fuga do Planeta Terra (Escape From Planet Earth, EUA / Canadá, 2013) – estreou em 30/05/13 (animação com elementos de ficção científica)
* Depois da Terra (After Earth, EUA, 2013) – estreou em 07/06/13 (ficção científica)
* Além da Escuridão – Star Trek (Star Trek Into Darkness, EUA, 2013) – estreou em 14/06/13 (ficção científica)
* Segredos de Sangue (Stoker, EUA / Inglaterra, 2013) – estreou em 14/06/13 (thriller)
* Universidade Monstros (Monsters University, EUA, 2013) – estreou em 21/06/13 (animação com elementos de horror)
* Todo Mundo em Pânico 5 (Scary Movie 5, EUA, 2013) – estreou em 28/06/13 (comédia com elementos de horror)
* Guerra Mundial Z (World War Z, EUA, 2013) – estreou em 28/06/13 (horror)


2º semestre
* O Homem de Aço (Man of Steel, EUA / Canadá / Inglaterra, 2013) – estreou em 12/07/13 (ficção científica)
* Wolverine: Imortal (The Wolverine, EUA, 2013) – estreou em 26/07/13 (ação com elementos fantásticos)
* Os Escolhidos (Dark Skies, EUA, 2013) – estreou em 09/08/13 (horror com elementos de ficção científica)
* Círculo de Fogo (Pacific Rim, EUA, 2013) – estreou em 09/08/13 (ficção científica)
* Percy Jackson e o Mar de Monstros (Percy Jackson: Sea of Monsters, EUA, 2013) – estreou em 16/08/13 (aventura com elementos de horror)
* Os Instrumentos Mortais – Cidade dos Ossos (The Mortal Instruments: City of Bones, EUA / Alemanha, 2013) – estreou em 23/08/13 (ação com elementos de horror)
* Invocação do Mal (The Conjuring, EUA, 2013) – estreou em 13/09/13 (horror)
* Elysium (Elysium, EUA, 2013) – estreou em 20/09/13 (ficção científica)
* R.I.P.D. – Agentes do Além (R.I.P.D., EUA, 2013) – estreou em 27/09/13 (comédia de ação com elementos de horror)
* Silent Hill: Revelação (Silent Hill: Revelation, França / EUA / Canadá, 2012) – estreou em 11/10/13 (horror)
* Dragon Ball Z: A Batalha dos Deuses (Dragon Ball Z: Battle of Gods, Japão, 2013) – estreou em 11/10/13 (animação com elementos de fantasia)
* Gravidade (Gravity, EUA, 2013) – estreou em 11/10/13 (ficção científica)
* Riddick 3 (Riddick, EUA / Inglaterra, 2013) – estreou em 11/10/13 (ficção científica com elementos de horror)
* É o Fim (This is the End, EUA, 2013) – estreou em 11/10/13 (comédia com elementos de horror)
* Thor: O Mundo Sombrio (Thor: The Dark World, EUA, 2013) – estreou em 01/11/13 (aventura com elementos de fantasia)
* Uma Noite de Crime (The Purge, EUA / França, 2013) – estreou em 01/11/13 (thriller com elementos de horror e FC)
* Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, EUA, 2013) – estreou em 15/11/13 (ficção científica com elementos de horror)
* Sobrenatural – Capítulo 2 (Insidious – Chapter 2, EUA, 2013) – estreou em 22/11/13 (horror)
* Infectados (Stranded, Inglaterra / Canadá, 2013) – estreou em 29/11/13 (ficção científica com elementos de horror)
* Carrie, a Estranha (Carrie, EUA, 2013) – estreou em 06/12/13 (horror)
* O Hobbit: A Desolação de Smaug (The Hobbit: The Desolation of Smaug, EUA / Nova Zelândia, 2013) – estreou em 13/12/13 (aventura com elementos de fantasia e horror)
* Somos o Que Somos (We Are What We Are, EUA, 2013) – estreou em 13/12/13 (thriller com elementos de horror)
* Ender´s Game: O Jogo do Exterminador (Ender´s Game, EUA, 2013) – estreou em 20/12/13 (ficção científica)
* A Vida Secreta de Walter Mitty (The Secret Life of Walter Mitty, EUA, 2013) – estreou em 20/12/13 (aventura com elementos de fantasia)



(Juvenatrix)

sábado, 11 de abril de 2020

Aranhas (Spiders 3D, EUA, 2013)


As aranhas são muita exploradas como tema para filmes com elementos de ficção científica e horror, principalmente quando são transformadas em criaturas gigantes e ainda mais ameaçadoras.
Com produção americana e filmagens em Sofia, capital da Bulgária, para baratear os custos, o filme “Aranhas” (Spiders 3D) foi lançado em 2013, com o propósito de mostrar em três dimensões os ataques desses aracnídeos que geralmente povoam os pesadelos das pessoas.
É mais um daqueles típicos filmes que costumo situar dentro do cinema bagaceiro de horror do século XXI, com monstros gerados por computador e história cheia de clichês e ideias recicladas. Porém, devido essas mesmas características talvez até possa um dia no futuro ser lembrado como uma tranqueira que não agrega, mas poderia divertir, mesmo que apenas um pouco. Num paralelo com os filmes antigos bagaceiros de roteiros absurdos e efeitos toscos produzidos dezenas de anos atrás, e que agora são cultuados e garantem uma diversão hilária.
Uma chuva de meteoros atinge uma estação espacial da antiga União Soviética e destroços caem em direção à Terra, atingindo uma estação de metrô no centro da cidade de New York. Esses detritos espaciais trazem também aranhas que logo se espalham pelos túneis escuros de obras abandonadas do metrô. O controlador de tráfego Jason Cole (Patrick Muldoon, de “Tropas Estelares”) e sua esposa Rachel (Christa Campbell), que trabalha no Departamento de Saúde, tentam investigar a queda do objeto e descobrem a invasão das aranhas, que procuram hospedeiros para depositar seus ovos, crescem de tamanho descomunal e são disciplinadas para proteger a rainha, que se transforma num monstro gigantesco.
Em paralelo, uma conspiração governamental liderada pelo inescrupuloso Coronel Jenkins (William Hope), está por trás de uma obscura pesquisa com as aranhas geneticamente modificadas, para através dos estudos do cientista russo Dr. Darnoff (Pete Lee-Wilson), desenvolver uma couraça super resistente para fins miliares. Cabe então ao casal de heróis tentar evitar a proliferação das aranhas mutantes, proteger sua filha pequena Emily (Sydney Sweeney), e impedir o caos na cidade. 
A direção de “Aranhas” é do húngaro Tibor Takacs, que tem em seu currículo títulos como “984 – Prisioneiro do Futuro” (1982), “O Portão” (1987) e “MosquitoMan” (2005). A história não tem elementos muito atrativos, explorando clichês cansativos com a velha ideia de objeto que cai do espaço trazendo alguma ameaça aterradora para a humanidade, nesse caso aranhas mutantes que crescem e gostam da carne humana no cardápio. Temos o militar arrogante com propósitos obscuros, o “cientista louco” com um interesse bizarro nas aranhas, e o casal típico de heróis que tenta combater a ameaça e salvar a cidade. Tem correrias, perseguições, tiroteios, ação desenfreada, ataques, corpos despedaçados, sangue jorrado e aranhas de CGI com dois metros de comprimento, sem contar a rainha colossal que arremessa carros como se fossem bolas de tênis (e estampa o pôster promocional do filme numa jogada de marketing como sempre exagerada).
“Aranhas” diverte um pouco nas cenas violentas de confrontos, mas como filme bagaceiro de horror, ainda prefiro as tranqueiras mais antigas, com seus monstros de borracha e maquetes.    

(Juvenatrix – 10/04/20)



sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Atmosfera Rarefeita


Atmosfera Rarefeita: A Ficção Científica no Cinema Brasileiro, Alfredo Suppia. 400 páginas. São Paulo: Devir Livraria, Coleção Enciclopédia Galáctica, 2013.


Há certos livros que de saída chamam a atenção pelo tema. Pois este é o caso de Atmosfera Rarefeita: A Ficção Científica no Cinema Brasileiro. O assunto, à primeira vista, pode causar estranheza a um leitor desavisado ou não familiarizado com a ficção científica, mesmo entre aqueles da área de cinema. Mas mais importante do que isso é que este trabalho – fruto da tese de doutorado do autor, defendida em 2007 – desmistifica lugares comuns e abre a possibilidade de um novo e instigante campo de pesquisa. Para o cinema brasileiro, para a ficção científica, e para os estudos culturais brasileiros.
Alfredo Suppia, que é professor do Instituto de Artes da Unicamp, inicialmente apresenta algumas considerações de ordem teórica, de como compreende o que caracterizaria a FC, baseando-se nos conceitos de intertextualidade e do novum – este desenvolvido pelo acadêmico croata Darko Suvin. Grosso modo, o primeiro relacionado às apropriações e intersecções possíveis entre diferentes assuntos dentro de um mesmo gênero temático de histórias, ou a elas associadas. Já o segundo se refere ao elemento decisivo que torna possível caracterizar uma história como sendo de FC, que a diferenciaria do mundo tal qual lidamos e conhecemos. Tem equivalência na ideia do estranhamento cognitivo, mas talvez seja mais incisiva para pontuar o que pertence ou não ao campo da FC. Estas considerações serão importantes ao longo dos capítulos, principalmente ao analisar ênfases diferentes dos filmes brasileiros vinculados ao gênero.
Depois de apresentar um breve histórico sobre a trajetória da literatura brasileira de FC – que também servirá de substrato para discussões posteriores – Suppia parte para o núcleo duro de sua pesquisa. Nos capítulos três e quatro ele expõe uma extensa e detalhada resenha de dezenas de filmes brasileiros de FC, de longa e curta metragem. Realiza esta façanha de forma cronológica. Primeiro num capítulo sobre os longas-metragens e depois noutro com os curtas-metragens, mostrando com riqueza de detalhes o desenvolvimento do cinema de FC brasileiro, suas fases, características, padrões recorrentes, virtudes e limites.
Assim, são comentados 95 filmes longa-metragem e 63 curtas-metragens. De 1908 a 2013, quando foi publicado o livro. Praticamente um século de análise! Dentro deste longo percurso foi identificado alguns temas mais recorrentes em determinada época, e outros que tem se tornado padrão, se estabelecendo como um tema tradicional do cinema de FC do país. Numa primeira vertente, filmes que satirizam, por meio de elementos ou iconografia, aspectos da sociedade brasileira. Com o passar das décadas esta tendência foi se enfraquecendo, sendo especialmente presente até, pelo menos o final da década de 1950. A esta tendência emergiu outra que relaciona a FC com o humor e a paródia, seja de temas da sociedade, seja do próprio gênero em si, com adaptações que se inspiraram em clássicos do gênero, característica presente principalmente nos filmes do grupo Os Trapalhões, entre os anos 1960 e 1980. Filmes como, por exemplo, Os Trapalhões no Planalto dos Macacos (1976) e Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (1978). A intenção destes filmes, fora o óbvio entretenimento e grande apelo popular, seria o de estabelecer uma reflexão do quanto somos subdesenvolvidos, tanto em termos sócio-econômicos, como em termos tecnológicos – da ciência e do cinema em si. Outros filmes marcantes se inserem nesta perspectiva, ainda que com nuances um pouco mais matizadas, como Carnaval em Marte (1954), O Homem do Sputnik (1959) e Os Cosmonautas (1962), que partem do modelo consagrado da chanchada para inserir temas de ficção científica.
 A partir dos anos 1960 uma nova perspectiva começa a ser vislumbrada, a de filmes mais centrados em temas sociais e políticos, como O Quinto Poder (1962), O Homem que Comprou o Mundo (1968), Brasil Ano 2000 (1969), entre alguns outros poucos que não firmaram uma tendência para as décadas posteriores, embora não tenham desaparecido completamente, como pode ser visto em filmes como O Efeito Ilha (1994) e nos mais recentes Branco Sai, Preto Fica (2015) e Bacurau (2019).
Contudo, a perspectiva crítica mais interessante do cinema brasileiro de FC tem sido a abordagem dos temas ambientais, o que faz todo o sentido num país de dimensões continentais, em processo de desenvolvimento econômico e com a maior floresta tropical do planeta e a maior biodiversidade. Como conciliar o desafio de construir uma nação material e socialmente desenvolvida com esta base ecossistêmica? Pergunta que tem desafiado gerações de ambientalistas, economistas, políticos e formuladores de políticas públicas recebeu diversas interpretações, ao longo da trajetória do nosso cinema. Filmes representativos nesta seara são Quem é Beta? (1973), Parada 88: Limite de Alerta (1978), Abrigo Nuclear (1981), Por Incrível que Pareça (1986), Oceano Atlantis (1993) e Acquaria (2004).
Nos últimos anos têm surgido alguns filmes estrelados por atores conhecidos que, mesmo não se assumindo como FC, pertencem ao gênero e podem servir, se esta tendência se mantiver por alguns anos, para um processo de popularização do gênero entre público e crítica. Exemplos como Redentor (2004), A Máquina (2005), Nosso Lar (2010) – este no subgênero espírita, de grande apelo –, O Homem do Futuro (2011) e o já citado Bacurau (2019).
Num primeiro momento ler sobre centenas de filmes pode parecer um pouco cansativo, afinal estes dois capítulos vão da página 29 até a página 236, mas creio que num trabalho pioneiro como este é mais que justificado. Antes de mais nada, vale registrar aqui o volume impressionante de informações que ele levanta – com o mérito adicional de entrevistar vários dos diretores dos filmes – mostrando ser um pesquisador dedicado e apaixonado. Mas a leitura das quase duzentas páginas destes dois capítulos é das mais divertidas. Eu, pelo menos, fiquei com muita vontade em ver filmes absolutamente raros e obscuros, e ao mesmo tempo, frustrado porque a imensa maioria deles não se encontra à disposição, seja na internet e muito menos no mercado de DVDs ou blu-rays. Ainda mais do que na literatura brasileira de FC, há um campo enorme a ser descoberto por parte de fãs, críticos e público interessado sobre o que já foi feito (e se faz) em termos de cinema do gênero.
Mas se estes dois capítulos em si já seriam uma contribuição mais do que suficiente para tornar o livro uma referência tanto para o cinema quanto para a FC no Brasil, Suppia parte para uma discussão mais analítica sobre porque o cinema brasileiro de FC se desenvolveu destas formas, suas possíveis ligações com o realismo mágico e das dificuldades de reconhecimento que a FC encontra tanto no cinema, como na literatura para se tornar uma forma de expressão artística vista como relevante por si enquanto criação, e também enquanto caminhos para refletir sobre problemas da realidade brasileira.
Inicialmente ele procura relativizar a noção de que o cinema brasileiro – e o de FC em particular – deve ter como parâmetro de comparação e qualidade apenas Hollywood. Assim, compara a produção brasileira como a de países com condição social e tecnológica semelhante, como o México, Argentina e o Leste Europeu. Novamente por meio da resenha de alguns filmes importantes de cada país, ele mostra que a questão geográfica nem sempre é a mais adequada para se identificar similaridade entre a produção dos países, mas sim suas conexões e afinidades culturais. Neste sentido, o cinema mexicano se assemelha mais ao brasileiro – principalmente no que diz respeito a não se levar muito a sério e de se reconhecer como tecnologicamente inferior –, do que ao do seu vizinho rico do norte, e o argentino ao da Europa Ocidental, em seu caráter mais sério e socialmente crítico.
O cinema brasileiro de FC tem dificuldades de afirmação e reconhecimento – especialmente no formato longa-metragem –, porque ainda reina um senso comum de que estamos tecnologicamente atrasados com relação aos EUA, e o gênero ser considerado como de pouca relevância num país com tantos problemas históricos e sociais. O livro mostra de forma convincente que o primeiro argumento não se sustenta. Se é fato de que não há condições de se produzir no Brasil filmes com efeitos visuais como os de Hollywood – apesar de novas tecnologias digitais terem reduzido esta distância nos últimos anos –, por outro, isto não é tão importante assim, pois é possível contar boas histórias concentrando-se mais nos roteiros e interpretações. Ou seja, no aspecto mais dramático e de conteúdo do cinema.
Tomando como inspiração o artigo clássico de Fausto Cunha, “FC no Brasil, um Planeta Quase Desabitado”[1], Suppia nomeia o cinema brasileiro como de “atmosfera rarefeita”, mas não invisível dada a quantidade nada desprezível, resistente e contínua da prática de produções cinematográficas brasileiras de FC, mesmo que boa parte delas, em especial nos longas-metragens, tenham sido realizados sem a consciência ou intenção de serem identificados com o gênero. O fato é que o cinema enfrentaria uma dificuldade ainda maior do que a literatura de ser reconhecido e praticado, dado os custos altos exigidos pela arte cinematográfica, mesmo aquela realizada com orçamentos modestos.
Atmosfera Rarefeita, publicado em 2013, é uma obra de referência de qualidade inegável e coloca-se no mesmo patamar que Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil, 1875-1950 (2003), de Roberto de Sousa Causo, tem para os estudos históricos e pesquisas sobre a literatura de FC brasileira.
O livro é ainda completado por dezesseis páginas coloridas de rico e raro material visual de produções brasileiras de FC, mas ficou incompleto pela ausência de uma listagem dos filmes citados e analisados, além de um índice remissivo, que seria de grande utilidade numa obra desenvolvida com tantas minúcias de informações, especialmente sobre filmes e realizadores.

– Marcello Simão Branco


[1] Publicado como capítulo extra do livro No Mundo da Ficção Científica (Science Fiction Reader´s Guide), de L. David Allen. Summus Editorial, 1975.

domingo, 15 de setembro de 2019

Prêmio Codex de Ouro 2013

Segunda edição do prêmio criado pelo escritor Roberto Laaf e organizado pelo blog Ponto do Autor. Reconhece os melhores trabalhos em diversas categorias da literatura de gênero escritos em língua portuguesa em 2012 e 2013.
O evento de entrega aos vencedores ocorreu durante um coquetel no dia 7 de dezembro de 2013, no Rio de Janeiro.
Os vencedores:
Romance: A bandeja: Qual pecado te seduz, Lycia Barros, Atitude.
Chicklit: Ser Clara, Janaina Rico, Underworld.
Juvenil: Minha vida fora de série, Paula Pimenta, Gutenberg.
Terror: O caso Laura, André Vianco, Rocco.
Fantasia: Dragões de éter: Círculos de chuva, Raphael Draccon, Leya.
Policial: Jardim de escuridão, Bianca Carvalho, Era Eclipse.
Antologia: A batalha dos deuses, Juliano Sasseron, org., Novo Século.
Design de capa: A arte da invisibilidade, Allan Pitz, Dracaena.
Booktrailer: Palladinum: Pesadelo perpétuo, Marcelo Amaral, Llyr Editorial.
Publicidade: O preço de uma lição, Federico Devito e Rogério Mendonça, Novo Conceito.
Resenhista: Tatiana Jiménez, Leitora Viciada.
Blog: Uma Conversa sobre Livros.
Revista: Fantástica.
Editora: Novo Século.
Autor: André Vianco.
Autora: Tammy Luciano
Prêmio Especial Inspiratio Codex: Felipe Pena.
Prêmio Especial Honoris Codex: Lygia Bojunga.
Prêmio Especial Vox Populi – Autor: Eduardo Spohr.
Prêmio Especial Vox Populi – Título: A arma escarlate, Renata Ventura, Novo Século.
Cesar Silva

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Prêmio Argos 2014

Organizado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica. Reconhece os melhores trabalhos em romance e história curta de ficção científica, fantasia e horror escritos em língua portuguesa em 2013, por meio de votação dos seus sócios. O evento de entrega aos vencedores ocorreu durante Jedicon RJ, no dia 18 de outubro de 2014, na cidade do Rio de Janeiro.
Na categoria Romance, o vencedor foi Filhos do fim do mundo, Fábio M. Barreto, publicado pela Editora Fantasy. Na categoria Conto, venceu "Viragem", de Octávio Aragão, publicado na antologia Caçadores de bruxas, da Editora Buriti.
Também foi entregue um prêmio especial ao escritor paulista André Vianco pelo conjunto de sua obra.
Cesar Silva

Prêmio Argos 2013

Organizado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica. Reconhece os melhores trabalhos em romance e história curta de ficção científica, fantasia e horror escritos em língua portuguesa em 2012, por meio de votação dos seus sócios. O evento de entrega aos vencedores ocorreu durante o Fantasticon: Simpósio de Literatura Fantástica, no dia 22 de setembro de 2013, na biblioteca municipal Viriato Corrêa, em São Paulo.
Na categoria Romance, o vencedor foi Kaori e o samurai sem braço, de Giulia Moon, publicado pela editora Giz. Na categoria Conto, venceu "No vácuo você pode ouvir o espaço gritar", de Carlos Orsi, visto na antologia Space Opera II, da Editora Draco.
O escritor paraibano Bráulio Tavares foi homenageado com um prêmio pelo conjunto de sua relevante obra dentro da literatura fantástica.
Cesar Silva

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Doce Vingança 2 (I Spit on Your Grave 2, EUA, 2013)


Com direção novamente de Steven R. Monroe, do filme homônimo de 2010 (que por sua vez é uma refilmagem de “A Vingança de Jennifer”, de 1978), “Doce Vingança 2” não é uma continuação, e sim apenas a variação de história similar com outra ambientação.
Uma jovem e bela garota americana, Katie (Jemma Dallender), decide fazer uma sessão de fotos para tentar a difícil carreira de modelo, porém um dos homens do estúdio fotográfico invade seu apartamento e a estupra. Os irmãos do criminoso são chamados para ajudá-lo e levam a garota para a Bulgária. Lá, ela é novamente violentada de forma brutal, além de sofrer torturas terríveis e enterrada viva. Mas, ela sobrevive e coloca em prática um sangrento plano de vingança.
Sem novidades em relação ao primeiro filme, é apenas mais uma jogada oportunista do diretor para tentar arrecadar algum lucro com o tema batido de violência e vingança. Dessa vez a ambientação saiu de uma floresta e pequena cidade americana, indo para um cenário urbano do leste europeu. Continuamos com várias situações mal explicadas para facilitar o trabalho do roteirista, como a viagem para a Bulgária, a fuga da garota enterrada para morrer, e a sucessão de situações inverossímeis no plano de vingança centrado na dor e tortura das vítimas. A violência, sem não for igual ao filme antecessor, é até maior e mais gráfica.
Continuando a franquia, em 2015 foi lançada a parte 3, com direção de R. D. Braunstein, que é uma continuação direta do primeiro filme, com a mesma personagem Jennifer Hills e atriz Sarah Butler. O nome nacional é “Doca Vingança 3: A Vingança é Minha” (I Spit on Your Grave 3: Vengeance is Mine).
(Juvenatrix – 09/02/14)

sábado, 6 de agosto de 2016

O Perigo Vem do Lago (Beneath, EUA, 2013)


Exibido pelo canal de TV a cabo “SyFy”, “O Perigo Vem do Lago” (Beneath) parece tratar-se num primeiro momento de apenas mais um filme bagaceiro com tubarões. É até compreensível a comparação, pois ao invés de um tubarão assassino temos um imenso peixe carnívoro que ataca um grupo de jovens num barco à deriva num lago. Porém, a história traz elementos interessantes, ao contrário das incontáveis tranqueiras com roteiros completamente desprovidos de conteúdo. Nesse filme dirigido por Larry Fessenden (que também é ator e produtor com muitos trabalhos no currículo), o foco é evidenciar a fragilidade da amizade entre os jovens, que em situações perigosas com ameaças reais de morte, permite que venha à tona a verdadeira face da natureza humana. Outro diferencial é a troca dos efeitos vagabundos de CGI que tornam tudo muito artificial por um monstro mecânico de borracha que devora suas vítimas, lembrando aquelas preciosas bagaceiras dos anos 1950 que faziam do cinema fantástico de baixo orçamento uma grande opção de diversão sem compromisso.
Em “O Perigo Vem do Lago”, seis estudantes que acabaram de se formar decidem se reunir pela última vez para comemorar a amizade da escola, antes de cada um deles tomar seus próprios rumos em novos desafios. O grupo é formado por quatro homens e duas mulheres. Eles decidem passear de barco num lago localizado numa região rural próxima à propriedade do avô de Johnny (Daniel Zovatto), e que parece esconder um segredo mortal em suas águas. O grupo de amigos é ainda formado pelo nerd Zeke (Griffin Newman), que gosta de filmar tudo que acontece, além da morena Deb (Mackenzie Rosman), os irmãos Matt (Chris Conroy) e Simon (Jonny Orsini), e a loira Kitty (Bonnie Dennison), que é a namorada de Matt, o líder do grupo.
A diversão com direito a nadar no lago e beber cerveja logo é interrompida quando um enorme peixe com dentes pontiagudos ataca o grupo e começa a colecionar vítimas, degustando o sangue e carne humanos. A partir daí, sem remos e com rachaduras no casco do barco, eles não conseguem voltar para a segurança da margem do lago, E precisam lutar por suas vidas combatendo o monstro e também uns aos outros, depois que os laços de amizade que pareciam fortes se rompem facilmente com conflitos. Onde cada um deles passa a defender seus próprios interesses, não hesitando em colocar em prática e hipocrisia da raça humana com traição e exposição do rancor que todos carregam dentro de si.
No final das contas, o filme é simples e não tem nada de especial, utilizando uma ideia básica com clichês já muito explorados. Mas, o fato dos realizadores optarem em não utilizar ridículos efeitos de computação gráfica para o monstro aquático e contar uma história destacando o conflito entre os personagens num ambiente ameaçador de morte com desfecho pessimista, já o torna diferente da infinidade de produções do mesmo tema, as quais priorizam CGI vagabundo com histórias fúteis e dispensáveis.
(Juvenatrix – 05/08/16)

quinta-feira, 17 de março de 2016

Dracano (Dracano / Dragon Apocalypse, EUA / Canadá, 2013)


Dracano” ou “Dragon Apocalypse” é mais um daqueles típicos filmes ruins exibidos no canal de TV a cabo “SyFy”, com um roteiro péssimo, elenco inexpressivo e efeitos especiais em CGI vagabundo, que são as características principais do que costumo chamar de “cinema fantástico bagaceiro do século XXI”.
Na história, um casal de cientistas, Simon Lowell (Corin Nemec) e a namorada Carla Simms (Victoria Pratt), trabalham juntos numa faculdade com um projeto intitulado “Kronos”, estudando as atividades de vulcões com uma tecnologia experimental instalada no Monte Baker, no Estado americano de Washington. Entre os objetivos estão a detecção prévia de erupções, minimizando a ação de desastres, e a conversão da lava vulcânica em energia limpa. Ainda tem a adolescente Heather Lowell (Mia Faith), filha do cientista, que está sempre acompanhando o trabalho do pai. Porém, um acidente faz com que a faculdade cancele o apoio e os cientistas tornam-se alvos de perseguição, tentando provar que o projeto não tem responsabilidade numa erupção que dizimou muitas pessoas. Em paralelo, ficamos sabendo que os vulcões escondem por séculos casulos em seu interior que abrigam criaturas aladas carnívoras, um fato que já é de conhecimento do governo americano há muito tempo e que tem sido mantido oculto da população, numa típica conspiração, por não saberem como combater a ameaça. Depois que uma infestação de dragões invade os céus em busca de alimento, com os humanos no cardápio, o exército, com as ações lideradas pelo austero General Hodges (Troy Evans), auxiliado pelo Coronel Maxwell (Robert Newman), localiza o cientista Lowell para tentarem utilizar seus conhecimentos como especialista em vulcanologia e o projeto “Kronos” e impedir o apocalipse dos dragões.
  O mais importante em qualquer filme é contar uma boa história. Se o roteiro for interessante, a diversão já é garantida, e o restante, como efeitos especiais e a produção em geral, tornam-se apenas complementos de importância menor. Mas, se a história é ruim, cheia de clichês e absurdos, é muito difícil criar uma empatia, por menor que seja, com o filme.
Em “Dracano”, dirigido por Kevin O´Neill (cujo currículo é maior na área de efeitos especiais), a história é patética, com personagens fúteis, piadas ridículas, monstros artificiais em péssima computação gráfica que não convence, e um desfecho previsível e extremamente banal. Tem o cientista injustiçado que salva o mundo, a adolescente acéfala que torcemos inutilmente para virar comida dos monstros, e os militares calculistas metidos a heróis e que acham que a solução é destruir o inimigo com violência não se importando em explodir a ameaça com uma bomba nuclear.
A única pergunta que fica é como os produtores e toda a equipe envolvida, de técnicos aos atores, conseguem encontrar um mínimo de motivação para fazerem um filme tão descartável e que cujo lugar é o inevitável limbo eterno das produções esquecidas. 
(Juvenatrix – 15/03/16)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Tempestade Solar (Exploding Sun, Canadá, 2013)


O canal de TV a cabo “SyFy” é conhecido pela exibição de filmes de ação com elementos de ficção científica e histórias de catástrofes globais abordando a destruição de nosso planeta. São tantos filmes similares com os mesmos clichês exaustivos, que dá pena da Terra sendo tão maltratada pelos roteiristas sem imaginação e preguiçosos em tentar desenvolver alguma ideia no mínimo razoável. Em “Tempestade Solar”, uma produção canadense dirigida pelo inexpressivo Michael Robison e roteiro patético de Jeff Schechter, que não tem nenhuma importância para o cinema fantástico, a única diferença para a imensidão de outros filmes ruins do mesmo estilo e temática, é que sua duração tem quase três horas, com a exibição dividida em dois filmes, dobrando o sofrimento do espectador. Depois que termina a péssima primeira parte ainda vem em seguida a continuação ainda pior.
Apesar da duração enorme do filme, é plenamente possível resumir a sinopse em poucas linhas de tão ruim e sem interesse que é a história. Uma empresa privada está anunciando a primeira viagem espacial civil, com um avião projetado especialmente para dar a volta na Lua e retornar em poucas horas, graças à capacidade de viajar numa velocidade extremamente alta. Porém, um defeito ocorre com os motores após uma tempestade solar com explosão de raios cósmicos e a nave perde o controle rumando para uma colisão com o Sol. Após o trágico acidente, a Terra passa a ser terrivelmente ameaçada com uma imensa descarga de raios solares que se dirige ao planeta. Para evitar o apocalipse final, o destino do mundo fica nas mãos do cientista Craig Bakus (Anthony Lemke) e do astronauta Don Wincroft (David James Elliott), que partem rumo ao Sol numa nave similar da agência espacial americana, para tentar criar um evento que anule os efeitos destrutivos dos raios solares.
A primeira parte é centrada na nave “Roebling Clipper” com seus seis passageiros, entre tripulação e civis, apresentando os personagens e mostrando a aventura do vôo espacial inaugural para a Lua. Perde-se tempo demais com personagens que não despertam interesse, com uma overdose de clichês e cenas carregadas de pieguice. Onde o ápice do tédio gira em torno de um triângulo amoroso entre os protagonistas que tentam salvar o mundo e a conselheira científica do presidente americano, Cheryl Wincroft (Natalie Brown), ex-esposa de um deles e atual mulher do rival.
Na segunda parte de noventa minutos, a ação se volta, depois da tragédia da nave civil que se chocou com o Sol, para a tentativa banal de evitar o fim do mundo. Com a utilização de outra nave, pertencente à NASA e copiada e melhorada a partir da primeira, para reverter o processo da tempesatde solar que acabaria com a vida na Terra.
É difícil dizer qual das duas partes é a pior. Imagine dois filmes péssimos que se complementam, com o roteirista inventando uma série de tramas paralelas para conseguir preencher o total de três horas do filme. São cenas envolvendo personagens secundários que só contribuem para o sono do espectador. Temos vários momentos descartáveis com o presidente americano Mathany (Frank Schorpion), sua filha adolescente Lara (Charlotte Legault) e a primeira dama Simone (Jane Wheeler), que era uma das passageiras da nave que foi para a Lua, contribuindo para promover a viagem. Temos também cenas tediosas com Joan Elias (Julia Ormond), a responsável de um acampamento humanitário no Afeganistão, esposa de Alan (John Mclaren), outro passageiro do primeiro vôo espacial civil. E a pior de todas as subtramas está reservada para uma pequena cidade americana onde vive Marta Hernandez (Cristina Rosato), esposa de outro passageiro, que ganhou a vaga numa loteria e tem medo de avião.
Se eu fosse enumerar e descrever a imensa quantidade de erros, furos de roteiro, situações inverossímeis e cenas patéticas, provavelmente não conseguiria terminar esse texto. Então, prefiro parar por aqui e finalizar com um pequeno alerta de um apreciador de cinema fantástico bagaceiro: “Tempestade Solar” é um completo desperdício de um longo tempo de três horas que poderia ser melhor aproveitado com outros filmes ruins, mas que pelo menos divertem.
(Juvenatrix – 08/02/16)