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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

O Circo dos Vampiros / O Vampiro e a Cigana (The Vampire Circus, Inglaterra, 1972)

 


“Os vampiros só existem nas lendas.” – Dr. Kersh.

 

No currículo da produtora inglesa “Hammer” existem muitos filmes explorando o tema do vampirismo, incluindo uma longa série com Drácula e a dupla Christopher Lee e Peter Cushing. Mas, o famoso estúdio, muito conhecido por suas histórias com ambientação gótica, também lançou outros filmes de vampiros sem esses atores ícones da história do cinema de Horror e sem o famoso personagem criado pelo escritor Bram Stoker. Um deles é “O Circo dos Vampiros” (The Vampire Circus, 1972), também conhecido como “O Vampiro e a Cigana”, dirigido por Robert Young em sua estreia como cineasta.

 

O vampiro Conde Mitterhaus (Robert Tayman) está aterrorizando um vilarejo sérvio no interior da Europa chamado Schtetell, no início do século XIX. Os aldeões supersticiosos e revoltados com o sumiço de suas crianças, decidem atacá-lo invadindo seu castelo e cravando uma estaca de madeira no peito. Mas, antes de morrer, o vampiro jura vingança contra seus algozes e pede para sua amante Ann Mueller (Domini Blythe), que é a esposa de um dos moradores, o Prof. Albert Mueller (Laurence Payne), para encontrar seu primo Emil (Anthony Corlan), que ajudaria a ressuscitar através do sangue de crianças, filhos de seus agressores.

Quinze anos depois, o vilarejo está tomado por uma doença contagiosa e enquanto o Dr. Kersh (Richard Owens) tenta encontrar uma cura com remédios, os demais aldeões, entre eles o burgomestre (Thorley Walters), Albert Hauser (Robin Hunter) e Schilt (John Bown), acreditam numa maldição sobrenatural.

Em paralelo, um circo bizarro itinerante chega ao vilarejo, comandado por uma misteriosa cigana (Adrienne Corri). Ela conta com um grupo de pessoas estranhas, om anão palhaço sinistro Michael (Skip Martin), um homem forte que não fala nada (interpretado por David Prowse, que ficou mais conhecido por vestir a armadura do vilão “Darth Vader” da primeira trilogia de “Star Wars”), um casal de gêmeos acrobatas, Helga (Lalla Ward) e Heinrich (Robin Sachs), e o enigmático Emil, que se transforma em pantera negra.

Enquanto o “Circo das Noites” está supostamente entretendo os moradores do vilarejo com suas atrações exóticas como os acrobatas que se transformam em morcegos e a misteriosa sala dos espelhos, pessoas e crianças estão desaparecendo, com mortes violentas na região. O jovem Anton Kersh (John Moulder-Brown), filho do médico da vila, tenta impedir o triunfo do “circo dos vampiros”, e defender sua namorada Dora Mueller (Lynne Frederick), filha do professor e alvo na conspiração para reviver o Conde Mitterhaus.       

 

Mesmo sem a presença da dupla Lee & Cushing, e numa época de decadência da “Hammer” a partir do início da década de 1970, “O Circo dos Vampiros” ainda mantém o interesse através dos elementos característicos das produções góticas do estúdio, como um castelo macabro e um vilarejo assustado com lendas de vampiros. Geralmente sendo considerado subestimado e pouco lembrado quando em comparação com os filmes da série com Drácula, sua história é bem ousada acrescentando uma dose elevada de mortes sangrentas (principalmente para a época), crianças assassinadas, e explorando a sensualidade de belas mulheres, com destaque para a dança erótica de uma mulher-tigresa (Serena).   

 

“O Circo dos Vampiros” foi lançado em DVD no Brasil pela “Works / Dark Side / London”, sem material extra, encartado na revista “Dark Side DVD” ano 2 número 10 (Julho de 2005). A revista, com distribuição nas bancas, tem vários interessantes textos sobre o filme em questão, além de “Monstros” (Freaks, 1932), uma filmografia comentada dos filmes de vampiros da “Hammer”, e o perfil da atriz Adrienne Corri (que interpretou a cigana).

Anteriormente, na época das fitas de vídeo VHS, o filme foi lançado pela “FJ Lucas” com o título “O Vampiro e a Cigana”.

 

(Juvenatrix – 18/10/21)





quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Expresso do Horror (Horror Express, Espanha, 1972)

 

“O seguinte relatório à Royal Geological Society pelo abaixo-assinado, Alexander Saxton, é um relato verdadeiro e fiel dos eventos que aconteceram à expedição da Sociedade na Manchúria. Como líder da expedição, devo aceitar a responsabilidade por seu término em desastre, mas deixo ao critério dos honoráveis ​​membros da Sociedade a decisão de onde reside a culpa pela catástrofe.”

– Professor Alexander Saxton.

 

Essa é a introdução narrada de “Expresso do Horror” (Horror Express, 1972), um clássico espanhol do cinema fantástico bagaceiro, exibido à exaustão na televisão brasileira, geralmente nas divertidas madrugadas com monstros toscos e roteiros exagerados na fantasia.

Foi dirigido por Eugenio Martin e estrelado pela famosa dupla dinâmica do Horror, os ícones ingleses Christopher Lee e Peter Cushing, além de uma pequena participação de Telly Savalas (o detetive Kojak da série homônima da TV da década de 1970).

 

Ambientado em 1906, o arqueólogo inglês Prof. Sir Alexander Saxton (Christopher Lee) é o líder de uma expedição científica nas regiões geladas da China à procura de ossos e fósseis. Ele descobre uma misteriosa criatura presa na geleira, um macaco pré-histórico de dois milhões de anos. Com o objetivo de transportá-la para a Europa Ocidental, ele utiliza um trem transiberiano que viaja por longas distâncias.

Uma vez a bordo do “expresso do horror”, ele encontra o rival Dr. Wells (Peter Cushing), acompanhado pela assistente veterana, a bacterióloga Srta. Jones (Alice Reinheart). Carismático e curioso, o cientista não mede esforços para descobrir o que está dentro de uma grande caixa de madeira lacrada com correntes.

Porém, depois que a criatura (interpretada por Juan Olaguibel) desperta e escapa da caixa, vários assassinatos violentos começam a ocorrer no trem, com as vítimas ficando cegas e com suas memórias e conhecimentos drenados dos cérebros, chamando a atenção para uma investigação policial liderada pelo Inspetor Mirov (Julio Peña).

Entre outros passageiros ilustres ou misteriosos candidatos a vítimas fazendo parte do exército de zumbis controlados pelo monstro devorador de mentes, estão o Conde polonês Maryan Petrovski (George Rigaud) e sua esposa Condessa Irina (Silvia Tortosa), o padre fanático e não confiável Pujardov (Alberto de Mendoza) e a espiã internacional Natasha (Helga Line), além do tirano cossaco Capitão Kazan (Telly Savalas), que interceptou o trem no caminho para tentar colocar ordem no pânico entre os passageiros.

 

“Expresso do Horror”, como todos os filmes do cinema bagaceiro de horror e ficção científica, tem alguns momentos equivocados com situações pouco convincentes e eventuais furos no roteiro, mas certamente o que garante a diversão são os ataques sangrentos do monstro ancestral tosco que se alimenta das informações dos cérebros de suas vítimas. E também a presença de Christopher Lee e Peter Cushing, que sempre possuem uma química incrível em cena, nos diversos filmes que fizeram juntos num período que vai principalmente do final da década de 1950 a meados dos anos 1970. Dessa vez trabalhando mais em cooperação contra uma ameaça comum, sendo que na maioria de seus filmes eles estão em lados opostos. Tanto Lee (falecido em 2015) quanto Cushing (morreu em 1994), ao lado de Vincent Price, Boris Karloff e Bela Lugosi, entre outros, estão imortalizados na história do cinema de horror, com seus nomes eternamente associados ao gênero.

 O filme foi lançado no Brasil em VHS pela “Videocast” e em DVD pela “Dark Side”. É conhecido também pelo título original espanhol “Pánico en el Transiberiano”. Apesar de não creditado, é considerado o segundo filme adaptado da história de ficção científica “Who Goes There?”, de John W. Campbell Jr., sobre uma criatura alienígena congelada que desperta e sobrevive em hospedeiros, e que já tinha virado filme em 1951 com “O Monstro do Ártico” (The Thing From Another World), que recebeu outras duas versões, “O Enigma de Outro Mundo” (1982) e “A Coisa” (2011).

 

(Juvenatrix – 22/09/21)






sábado, 27 de junho de 2020

O Monstro de Duas Cabeças (The Thing With Two Heads, EUA, 1972)



     Filme bagaceiro de “cientista louco” do início dos anos 70 do século passado.

   Um famoso e bem sucedido cirurgião médico, Maxwell Kirshner (Ray Milland), está doente terminal e vê num ousado plano de transplante de sua cabeça e cérebro brilhante no corpo de outra pessoa, como a única forma de manter a sobrevivência. Porém, extremamente racista, com a piora rápida de sua saúde, ele não imaginaria que a única opção disponível era um homem negro presidiário no corredor da morte e que alega inocência, Jack Moss (Rosey Grier, primo da bem mais conhecida Pam Grier). A ideia após o transplante é adaptar o corpo para a nova cabeça e depois eliminar a original. A cirurgia tem sucesso e um “monstro de duas cabeças” foi criado, causando uma série de transtornos após fugir do hospital, sendo perseguido pelos médicos que realizaram a operação e pela polícia incompetente.

     Divertida tranqueira com elementos de horror e ficção científica e um roteiro tão absurdo que seus realizadores tiveram que flertar com o humor em diversas situações para não ficar tão ridículo, devido às cenas inevitavelmente hilárias. O excelente ator Ray Milland é conhecido por estrelar preciosidades do cinema fantástico como “Obsessão Macabra” (1962), “Pânico no Ano Zero” (1962), “O Homem dos Olhos de Raio-X” (1963), “A Invasão das Rãs” (1972) e “Galáctica – Astronave de Combate” (1978), entre outras.

     Destaque para uma enorme sequência de perseguição de quatorze carros da polícia contra a “coisa de duas cabeças” fugindo pilotando uma moto numa área descampada fora da cidade.

     Curiosamente, o famoso técnico em maquiagem Rick Baker (de “Nasce um Monstro”, “O Incrível Homem Que Derreteu”, “Grito de Horror”, “Pague Para Entrar, Reze Para Sair”, “Um Lobisomem Americano em Londres” e “Videodrome – A Síndrome do Vídeo”, entre outros), faz uma ponta vestindo a roupa de um gorila que serviu de cobaia para um transplante de cabeça. Mais uma curiosidade é que um ano antes, em 1971, tivemos outro filme com temática similar, “O Incrível Transplante de Duas Cabeças” (The Incredibre Two-Headed Transplant), com Bruce Dern e Pat Priest.

(Juvenatrix – 01/12/13)



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Il Coltello di Ghiaccio (Knife of Ice, Itália / Espanha, 1972)


O sub-gênero do cinema italiano que aborda histórias de assassinos em série ficou conhecido como “Giallo”, que significa “amarelo” em italiano, numa referência às capas amarelas das revistas populares de suspense e romance policial, com assassinatos sendo investigados por detetives. Esses tipos de filmes tiveram seu ápice entre as décadas de 70 e 80 do século passado, apresentando as ações de assassinos usando luvas pretas, com as vítimas na maioria das vezes sendo mulheres, e com a investigação policial tentando descobrir o mistério por trás das mortes, com a solução apenas no final e reservando surpresas.
Com o título original italiano “Il Coltello di Ghiaccio”, o espanhol “Detrás del Silencio” e o inglês “Knife of Ice”, o filme foi lançado em 1972 e dirigido por Umberto Lenzi, um cineasta italiano conhecido por outros significativos trabalhos dentro do Horror como os violentos “Os Vivos Serão Devorados” (80) e “Canibal Ferox” (81), sobre canibais, e “Nightmare City” (80), sobre zumbis.
Na história, Martha Caldwell (Carroll Baker) é uma mulher que perdeu a capacidade de falar após um evento traumático ocorrido quando era adolescente, através de um acidente ferroviário que matou seus pais num incêndio. Ela mora com seu tio inglês Ralph (George Rigaud) numa casa ao lado de um cemitério, localizada numa pequena cidade espanhola próxima de Barcelona. Ela recebe a visita de sua prima Jenny Ascot (Ida Galli, atuando sob o pseudônimo de Evelyn Stuart), uma cantora bem sucedida. Porém, mortes misteriosas começam a ocorrer na casa e proximidades, colocando pessoas do círculo de amigos e empregados da família numa lista de suspeitos, como o sinistro motorista Marcos (Eduardo Fajardo) e o médico Dr. Laurent (Alan Scott), além do próprio proprietário da casa, o idoso Ralph, um estudioso de ocultismo. Outro suspeito dos crimes é um jovem hippie viciado em morfina e simpatizante de cultos satânicos. Entre as candidatas a tornarem-se vítimas do misterioso assassino, temos a governanta Sra. Annie Britton (Silvia Monelli) e a adolescente Christina (Rosa-Maria Rodrigues), filha adotiva de um padre local, Martin (José Marco). E para tentar desvendar a autoria dos crimes e impedir mais mortes, o Inspetor Duran (Franco Fantasia) está na liderança das investigações.
O filme é um “Giallo” com as tradicionais características desse sub-gênero, tentando manipular o espectador no mistério que envolve os assassinatos, com pistas falsas, elementos de satanismo e investigação policial. Não é muito empolgante e as cenas com as poucas mortes são filmadas “off screen”, reduzindo a intensidade de violência. Mas, ainda assim, a história até desperta algum interesse, principalmente pela surpresa no final, com a esperada revelação da identidade e motivações do assassino.
Entre as curiosidades, podemos citar que o diretor Umberto Lenzi procurou mostrar muitas cenas evidenciando os olhos dos personagens, uma característica que ficou mais conhecida e associada com outro diretor italiano de filmes de horror, o cultuado Lucio Fulci. E, em determinado momento, a jovem Jenny recém chegada de viagem, presenteia seu tio Ralph, apreciador de ciências ocultas, com livros sobre feitiçaria, zumbis e demônios, e informa que são materiais raros comprados no Brasil. O cineasta Lenzi, que também participa do roteiro, talvez quisesse apenas citar nosso país como uma breve homenagem, mas com um resultado estranho, uma vez que não somos conhecidos por esses tipos de livros com temáticas não convencionais, principalmente sendo raros.          
(Juvenatrix - 03/04/15)

sábado, 14 de março de 2015

Sombras de Reis Barbudos, José J. Veiga

Sombras de Reis Barbudos, José J. Veiga. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 136 páginas. Texto da orelha de Mário da Silva Brito. Lançado originalmente em 1972.

Numa pequena cidade do interior do Brasil, como milhares delas, aliás, as pessoas vivem suas vidas dentro de uma estável e confortadora rotina. Até que o parente de uma das famílias chega com pompa e cerimônia com suas belas roupas e um carrão anunciando as modernidades da cidade grande. Cercado de mimos e interesses traz a novidade: a chegada da Companhia. Mas o que é a Companhia?
     Está montado o cenário deste romance perturbador que à maneira peculiar do autor, através do talento recorrente pela fluência narrativa e à sensível construção de tipos humanos, nos insere no terror da opressão e do incompreensível.
     Sim, Sombra de Reis Barbudos foi escrito no auge da ditadura militar brasileira e não é possível que nos furtemos a interpretá-lo como uma extrapolação crítica deste período histórico sombrio. Assim como em outras de suas obras, mais notavelmente em A Hora dos Ruminantes (1966), o realismo extremo da opressão política-econômica escapa, por assim dizer, para o terreno do bizarro e do absurdo.
     A Companhia muda de forma radical a vida das pessoas da cidadezinha. Quase todos trabalham para ela, direta ou indiretamente. Elas têm de seguir suas regras e regulamentos que, pela presença onipresente de fiscais, passa a ter força de lei. Começam as proibições pelo consumo, depois pelas opiniões, e por fim nos costumes e no comportamento individual. Ou seja: estabelece-se um contexto de controle quase absoluto na vida de cada pessoa.
     Para dificultar a comunicação e a mobilidade, a Companhia cerca as ruas e casas de muros, para tempos depois cercar toda a cidade. A cada construção opressiva há uma insólita “resposta” dos céus. Aos muros surgem urubus aos milhares; às cercas surgem pessoas voando. Em princípio sem saber de onde, e depois com gente da própria cidade ganhando os céus. Sem dúvida temos no primeiro caso, uma anunciação de tempos tenebrosos, e no segundo caso um desejo desesperado por liberdade.
     A narrativa se concentra na família de tio Baltazar, o figurão que anuncia a chegada da Companhia. Seu Horário, cunhado do recém-chegado adere à Companhia, lá prospera, mas depois se demite e é “sumido” em desgraça. Mesmo Baltazar depois de ser um dos líderes da Companhia, é levado embora da cidade e adoece gravemente. Ao que parece o cerco à família de Lucas, o menino que conta a história, é um micro-cosmo do que acontece com a cidade inteira sob o julgo das regras e normas da Companhia.
     Numa tentativa de respondermos o que é esta instituição que controla de forma opressiva a vida das pessoas podemos nos indagar: onde está o Estado nesta cidade que permite que uma empresa (ou melhor, uma organização), assuma o controle de tudo, até de funções públicas? Neste caso como ficariam as leis e as ligações externas da cidade com o restante do país? Embora possa parecer algo incoerente, até mesmo neste plano é possível compreendermos a Companhia como uma destas mega-empresas que assumem as atividades econômicas de tal forma que toda a sociedade gira em torno dela, capturando, inclusive, o poder público. Historicamente existiram muitos destes enclaves estrangeiros no Brasil e, principalmente, na América Latina.
     Por outro lado é possível também uma leitura mais política, do ponto de vista metafórico: a Companhia nada mais é que a instauração de uma nova ordem: a ditadura, seja ela militar ou civil. Neste plano a crítica de Veiga seria ao regime autoritário, então em vigência no Brasil.
     Com sua habitual sensibilidade Veiga trabalha a opressão nos pequenos espaços, nas individualidades e não no plano macro. Por isso a interpretação das causas e efeitos da nova ordem é esmiuçada no interior da família de Lucas. Para criticar uma nova ordem sócio-política de caráter autocrático, Veiga mostra o terror causado no plano individual e subjetivo básico das pessoas: a incompreensão, o medo, a desconfiança e a solidão. Por outro lado resvala ao fantástico ao mostrar que o terror do realismo e do controle extremo meio que vaza para o terreno do inexplicável. Talvez porque uma situação de opressão total seja em si mesma uma aberração difícil de suportar.
     Seriam os tais reis barbudos vislumbrados durante e no fim do livro os donos da Companhia? Nada se explica porque não há explicações possíveis quando as pessoas são arbitrariamente oprimidas e caladas. Como afirma o cientista político Guillermo O´Donnell, ao comentar sobre o clima de terror que viveu durante a ditadura militar argentina nos anos 1970, talvez tão apavorante quanto a violência física é a capacidade das ditaduras de estabelecer o medo absoluto que nos leva ao silêncio. De boca fechada correríamos menos riscos, pois não exteriorizaríamos verbalmente às pessoas ou ao mundo o que pensamos. Mas de outra parte esta interiorização forçada de sentimentos nos humilharia porque não expressaríamos muito do que nos torna humanos. Esta dimensão está presente em Sombra de Reis Barbudos, embora a válvula de escape, se assim posso colocar, se insere na dimensão do fantástico: dos urubus, da chuva incessante, do mágico que todos viram mas ninguém lembra e, acima de tudo, pelas pessoas que voam. Uma eloquente imagem do desejo visceral de liberdade.
     Este romance dialoga e critica os tempos sinistros que vigoraram na história brasileira, mas não está datado porque se presta a múltiplas leituras interpretativas. Na mais óbvia para nos alertar sobre os horrores sempre possíveis da volta de uma opressão política; em outra, digamos mais contemporânea, sobre as eventuais armadilhas de uma sociedade que, embora pluralmente aberta, está excessivamente voltada a uma esfera individual de interesses  podendo, com isso, gerar posturas intolerantes e desejos de ordem, voltando-se contra ela mesma. Por tudo isso, além do encanto inegável de sua prosa e suas imagens surpreendentes, é que Veiga, o grande fantasista brasileiro, possui um alcance universal.
Marcello Simão Branco