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terça-feira, 16 de junho de 2015

Steampunk: Histórias de um passado extraordinário

Steampunk: Histórias de um passado extraordinário, Gianpaolo Celli, org. 182 páginas. Capa de Marcelo Tonidandel e Verena Peres. Tarja Editorial, São Paulo, 2009.

Os fãs gostam de estar na crista da onda, antenados com as ondas estrangeiras, especialmente dos EUA e Reino Unido. Assim também são autores-fãs, que acreditam que explorar novos ambientes e novos instrumentos narrativos é o atalho para a criação de algo novo, tendo esse novo valor suficiente por si mesmo. Antes mesmo da habilidade técnica, o autor-fã acredita na originalidade, e sobre ela costuma ser muito ciumento. Dessa forma, as ondas do cyberpunk, o new weird e, agora, o steampunk, chegaram aos fanzines muito mais rapidamente que a qualidade narrativa dos autores, reverenciadas como aspectos de uma originalidade mais que desejada. Essa falta de maturidade técnica acaba impedindo que a maior parte dos autores compreenda profundadamente o que esses movimentos significam em toda a sua amplitude, e acabam por adotar apenas seus aspectos mais óbvios, não raro criando um modelo que, ao fim e ao cabo, é mais cerceador que libertador.
Dessa forma, o cyberpunk foi emulado pelos fãs brasileiros apenas pela presença intensiva da virtualidade e uma linguagem forrada de jargões tecnológicos; o new weird transformou-se tão somente na mistura de gêneros estilo "tudo ao mesmo tempo agora". O steampunk, enfim, foi estigmatizado pelos cenários vitorianos com tecnologias imaginárias ou extrapoladas. E assim sendo, o steampunk sequer é novidade. Afinal, essas características já estavam presentes nos primórdios da ficção científica. Os cenários são os mesmos que vemos nos primeiros textos de ficção científica de Edgar Allan Poe, Júlio Verne, H. G. Wells e seus contemporâneos. Então, por que isso agora?
Desde os anos 1990, especialmente no Brasil, os leitores progressivamente desinteressaram-se pelas promessas do futuro e voltaram-se para o passado: romances históricos, fantasia medieval e horror gótico passaram a ser o tipo de leitura comercialmente melhor sucedida. A ficção científica acompanhou a tendência justamente com o steampunk, encampando o romance histórico a partir da história alternativa – que pode aproveitar personagens reais – e da ficção alternativa, na qual são emprestados os personagens de ficção em domínio público, como Sherlock Holmes, Allan Quartermain e Drácula.
A editora Tarja, gerenciada por jovens escritores de ficção fantástica, decidiu assumir o subgênro e reuniu nove trabalhos inéditos na que propôs ser a primeira antologia steampunk da ficção brasileira, organizada por Gianpaolo Celli sob o título de Steampunk: Histórias de um passado extraordinário. Ainda que seguindo o mesmo princípio derivativo que historicamente caracteriza a ficção científica brasileira, o livro logrou ser um dos melhores momentos do gênero em 2009. Autores experientes deram ao volume o estofo necessário para agradar aos leitores exigentes, e os autores estreantes revelaram uma qualidade acima da média das antologias publicadas.
O conto que abre a antologia é "O assalto ao trem pagador", assinado pelo organizador. Na virada do século XIX, três pesquisadores de aerostatos, cada um deles representante de uma sociedade secreta que manipula os destinos do mundo, criam um dirigível especial para roubar o carregamento de ouro de um trem superarmado. Apesar da boa narrativa, a moral da história é discutível e os personagens esquemáticos não evocam a simpatia do leitor.
Em seguida encontramos "Uma breve história da maquinidade", do experiente tradutor Fabio Fernandes que, em 2009, também publicou Os dias da peste, seu primeiro romance pela mesma Tarja Editorial. O autor mergulha na ficção alternativa, emprestando de Mary Shelley o Doutor Victor Frankenstein que, depois do fracasso com a criatura de carne, decide construir homens de metal. Associado a outros notáveis, cria uma fábrica de robôs e muda os caminhos da civilização do início do século XIX, colocando um serviçal robótico na casa de cada família. Com o passar dos anos, as máquinas ganham consciência e passam a reivindicar seus direitos civis, algo similar à clássica peça R.U.R., do escritor tcheco Karel Capec, não obtém contudo a mesma eficiência dramática.
"A flor de estrume" é a estreia do jornalista Antonio Luiz M. C. Costa como escritor. A história se passa em São Paulo, no início do século 20, em uma realidade em que os povos nativoamericanos não foram extintos e desenvolveram alta tecnologia. Um espião europeu tenta roubar do Instituto Butantã um produto recém-desenvolvido: a penicilina. O conto abusa de termos tupi-guaranis e investe no detalhamento dos cenários, construindo imagens pungentes que inserem o leitor nesse ambiente exótico com grande eficiência, mas abandona a história em si. O ambiente minucioso contrastado com um conflito ligeiro deixa impressão de uma história que terminou antes da hora, que pede para ser estendida.
"A música das esferas" também é estreia do autor Alexandre Lancaster. Um jovem prodígio em tecnologia envolve-se no que parece ser um caso de assassinato. Junto a um policial de técnicas pouco ortodoxas, enfrentam os riscos de uma descoberta científica muito perigosa. A primeira metade do conto é perfeita, com personagens bem montados e um mistério instigante a ser resolvido mas, na busca por uma narrativa intensa, a conclusão se vulgariza num show hollywoodiano de fogos de artifício. Ficou a sensação de ser o primeiro de uma série.
"O plano de Robida: Un voyage extraordinaire" é o texto mais longo do livro. Assinado pelo experiente Roberto de Sousa Causo que, em 2009, também publicou o romance Um anjo de dor, pela editora Devir Livraria, conta uma bem urdida aventura que mescla ficção e história alternativas. A bordo de um dirigível, um comando militar, acompanhado de um alternativo Alberto Santos Dumont, ataca forças terroristas internacionais acampadas na selva brasileira. Capturados, confrontam Robert Robida, o líder dos terroristas, que pretende tornar-se o senhor do mundo dominando tecnologias modernas e conhecimentos tão antigos quanto a civilização humana. O conto dialoga claramente com o romance Robur, o conquistador, de Júlio Verne, mas Causo mudou o nome do vilão provavelmente em homenagem ao importante ilustrador dos livros de Verne, Albert Robida (1848-1926). Também homenageia os romances de mundo perdido dos primórdios da ficção científica brasileira, como Amazônia misteriosa (1925) de Gastão Crulz e A cidade perdida (1948) de Jerônymo Monteiro. Uma verdadeira new weird, com dinamismo e conflitos em doses certas. A conclusão em aberto sugere uma sequência.
"O dobrão de prata", de Claudio Villa, escapa um tiquinho do formato geral dos demais contos da antologia, pois investe no terror sobrenatural ao invés da ficção científica. Um pesquisador acadêmico embarca numa aventura marítima em busca de um tesouro naufragado. Conto simples, que busca o estilo de H. P. Lovecraft.
A convencionalidade do conto de Villa valoriza ainda mais a sofisticação do texto seguinte, "Uma vida possível atrás das barricadas", de Jacques Barcia, o melhor texto do livro, candidato às listas de melhores contos da ficção científica brasileira. Um estranho casal – um robô e uma golem – foge para onde sabe que conseguirá ajuda para gerar um filho. Mas o local enfrenta uma revolução trabalhista e a guerra é um perigo contínuo. Uma história forte, com personagens interessantes e narrativa vigorosa e criativa. Contudo – e isso não é demérito algum – está mais para cyberpunk do que para steampunk, sem fazer uso das convencionalidades de nenhum dos dois subgêneros.
Em "Cidade phantástica", de Romeu Martins, o personagem principal é um super-edifício onde um delegado investiga os desdobramentos de um sequestro. As muitas citações podem agradar aos que gostam de caçar detalhes.
Flávio Medeiros fecha a seleta com "Por um fio", deliciosa homenagem à obra de Júlio Verne – sempre ele – contando o confronto de seus dois sociopatas favoritos, Nemo e Robur, cada qual em seu veículo de guerra característico num combate até a morte. Ecoa também A raposa do mar (The enemy bellow, 1957), longa metragem que narra uma dramática batalha entre um couraçado americano e um submarino alemão.
Numa avaliação geral, a qualidade da antologia está acima da média, equilibrada e bem editada. Peca apenas pela falta de originalidade, já que a proposta é, sem nenhum pudor, emular um subgênero que parece estar na moda. Já se vê por aí grupos de fãs fantasiados de Bat Masterson, de colete, polainas, bengala e chapéu coco, tentando implementar, tal como os fãs de Star Trek, um estilo de vida steampunk.
Não há nisso, portanto, muito mérito, pois não se percebeu empenho dos autores, exceção feita a Jacques Barcia, em fugir dos paradigmas do steampunk. A recorrência aos aerostatos e a Júlio Verne mostra que ou os autores tiveram dificuldade em visualizar alternativas para o ambiente ou simplesmente não se empenharam em desdobrar o modelo em algo mais original.
Mas talvez a editora Tarja pretenda dar sequência ao projeto com um segundo volume. Então, quem sabe, os novos valentes que se lançarem a tarefa dediquem-se um pouco mais e consigam escapar do beco sem saída de homenagens, citações e derivações com que a antologia apresentou o gênero.
Cesar Silva
* A editora Tarja encerrou suas atividades em 2013 sem efetivar a publicação de um prometido segundo volume da antologia, que chegou a ser anunciado em diversas fanpages ligadas ao tema. Contudo, lançou outros títulos que com ela dialogam, como a antologia Retrofuturismo, publicada em 2013 com contos de proposta algo mais ampla. A mais importante herança da antologia Steampunk, contudo, é a enorme quantidade de antologias similares que a ela se seguiram por várias outras editoras, que ainda repercutem no fandom brasileiro.

terça-feira, 3 de março de 2015

A bondade dos estranhos, João Barreiros

A bondade dos estranhos, João Barreiros. 210 páginas. Capa: Verena Peres, sobre ilustração de Marcelo Tonidandel. Adaptação para o português brasileiro por Luiz Marcos da Fonseca. Tarja Editorial, São Paulo, 2011.

Um dos mais bem-vindos fenômenos da Segunda Onda da ficção científica brasileira foi o intercâmbio com os autores portugueses, efetivado inicialmente através dos fanzines brasileiros e robustecida pela presença de representantes brasileiros nos congressos de fc&f realizados em Portugal, eventos estes em tudo mais sofisticados que seus correlatos brasileiros, uma vez que contavam com a presença de ilustres autores anglófonos e até com a publicação de raras antologias bilíngues nas quais alguns autores brasileiros lograram estampar trabalhos. Essa convivência exigiu a criação do termo “ficção lusófona” para se referir aos trabalhos de fc&f em língua portuguesa, não importando a nacionalidade do autor. Hoje, essa convivência já não é tão próxima quanto foi nos anos 1990, mas ainda se observa em algumas antologias nacionais recentes.
De forma geral, a relação só trouxe benefícios para a ficção científica no Brasil, uma vez que os autores portugueses demonstram habilidade e sensibilidade superiores em relação ao trato da língua e do gênero, sendo bons exemplos de criatividade e técnica.
Entre os autores lusitanos que desenvolveram uma relação mais íntima com o fandom brasileiro está João Manuel Barreiros, que teve diversos trabalhos aqui publicados, em fanzines como o Somnium, Megalon e Scarium, alguns deles premiados. Por isso tudo, é surpreendente que tenha demorado tanto tempo para que um editor brasileiro percebesse o valor do texto de Barreiros.
A bondade dos estranhos está com toda a certeza entre os melhores textos de fc já publicados no Brasil, com altas doses de ação, aventura, emoção e maravilhamento, sem esquecer do estilo arrojado característico do autor. O romance foi publicado em Portugal em 2007 pela Escritório Editora e promete ser o primeiro volume de uma trilogia.
A narrativa é voluptuosa e sensual, repleta de um fremir ansioso por mais e mais, numa orgia de violência e escatologia. Mas não há sexo em A bondade dos estranhos. O apelo é muito mais básico: a fome e a gula.
Num futuro em que a Terra foi definitivamente colonizada por diversas raças alienígenas, vive Joana Mendes, uma adolescente que, quando criança, foi selecionada para participar do projeto experimental Candy-Man, que lhe legou uma habilidade empática especial, mas deixou sequelas psicológicas graves. Os danos causados pelo despertar das habilidades de Joana são usados como instrumento de chantagem para convencê-la a cuidar, durante 24 horas, dos filhotes de um dos mais altos dignitários de uma das raças alienígenas que agora dominam o planeta. A tarefa seria fácil, não fossem eles de uma espécie predadora cuja agressividade se manifesta mais abertamente durante a juventude.
O cenário desse futuro também não é dos mais alvissareiros. A Terra está dividida entre três raças alienígenas invasoras que são concorrentes entre si: os angsts e os spleens, ambos absolutamente misteriosos para a percepção humana; e os spiertvick’kaps, um tipo de escorpião gigante, também chamados de helloweens por causa de sua cabeça em forma de abóbora. Apesar das evidentes diferenças físicas e culturais, é a raça alienígena mais identificada com a percepção e psicologia humanas. A presença dessas raças no planeta causa inúmeras e imprevisíveis alterações no ecossistema e na biologia terrestres, suas genéticas interagindo com animais e plantas nativos, transformando o planeta num ambiente em efervescente mutação.
Para não ser ainda mais responsabilizada pela misteriosa tragédia que aconteceu quando do despertar de suas habilidades, Joana aceita o “convite” da embaixadora spiertvick’kap Vielmina Spratzt, que vai ausentar-se para uma conferência e precisa que alguém tome conta de sua ninhada de nada menos que 500 filhotes. Joana vai contar com a orientação e supervisão de Mr. Jeeves, um mordomo robô tão formal quanto rigoroso. Para ele, a jovem humana nada mais é que um grande aborrecimento.
Joana tem que usar toda a sua capacidade empática para se impor frente aos vorazes filhotes, o que por si já não é tarefa fácil. Mas não é tão simples assim. No processo, Joana descobre que nos bastidores da propriedade de Vielmina Prazt prospera algum tipo de conspiração, cuja necessidade é que ela não saia de lá viva, mas Joana está resoluta a não colaborar com o esquema.
O romance tem características cyberpunks óbvias, mas também apresenta contornos New Weird, sendo exemplo bem acabado do que há de mais moderno na ficção científica internacional, um caldo de informações tão abundante e rico que o leitor brasileiro, acostumado a dietas mais leves, pode ficar perturbado.
Não é por acaso. João Barreiros é um especialista em fc, dono de uma biblioteca invejável que parece ter lido integralmente. Além de escritor, é tradutor, editor e crítico, formado em Filosofia pela Universidade de Lisboa. Ganhou dois Prêmios Nova e é autor de alguns dos mais festejados romances de fc em língua portuguesa, como Disney no céu entre os Dumbos (E-nigma Pro, 2001), A verdadeira invasão dos marcianos (Presença, 2004), e o volumoso Terrarium: Um romance em mosaicos (Caminho, 1996), em parceria com o escritor português Luís Filipe Silva. Também publicou as coletâneas O caçador de brinquedos e outras histórias (Caminho, 1994), Duas fábulas tecnocráticas (do autor, 1997) e Se acordar antes de morrer (Gailivro, 2010).
Por tudo isso, A bondade dos estranhos é leitura obrigatória a todos aqueles que querem ter uma verdadeira experiência literária gnóstica e gastronômica. Se é que você me entende.
Cesar Silva

domingo, 4 de janeiro de 2015

Apresentação do Anuário 2008

"Esta é a quinta edição do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, desta feita referente ao ano de 2008, a segunda editada de forma profissional. Este projeto tem realizado a cobertura noticiosa e crítica do panorama do fantástico brasileiro em suas três manifestações literárias principais, a ficção científica, a fantasia e o horror, além de contemplar também as criações híbridas entre estes gêneros e os chamados trabalhos de fronteira, isto é, o fantástico abordado a partir de uma perspectiva do mainstream literário. Nestas páginas encontram-se as listagens dos livros, revistas, sites e fanzines publicados em 2008, com as devidas análises do mercado de livros e periódicos e as críticas de algumas das obras mais significativas.
Nesta edição, contamos com a participação de Ramiro Giroldo, mestre em Estudos de Linguagens na área de Teoria Literária e Estudos Comparados pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), com um ensaio inspirado
em sua dissertação defendida em 2008, sobre o livro Amorquia, de André Carneiro, autor brasileiro que foi entrevistado no Anuário 2007. Também temos a presença do escritor paulista André Vianco, destacado como “Personalidade do Ano”, que nos cedeu uma extensa e reveladora entrevista. A ambos, os nossos mais sinceros agradecimentos pela atenção e o respeito com o qual nos atenderam.
O Anuário experimentou uma situação diferenciada ao longo de 2008. Toda a dinâmica amadora foi abandonada em favor da estrutura profissional, e o balanço dessas mudanças foi bastante positivo. O Anuário expandiu o seu alcance, atraindo a atenção de diversos setores culturais, como o SESC de Bauru, onde estivemos em dezembro de 2008 para um ciclo de palestras sobre FC&F. O Anuário também atraiu o interesse da imprensa, aparecendo na televisão virtual AllTV, numa entrevista que ainda pode ser conferida em www.hqcia.com.br.
Esta edição conclui um ciclo que nós, autores, aguardávamos com alguma ansiedade. Desde que começamos a redigir o primeiro Anuário, em meados de 2004, sabíamos que a edição referente ao ano de 2008 fecharia o calendário de efemérides da ficção fantástica no Brasil, um projeto vultoso que, a época, nos parecia muito difícil de concluir. Contudo, ao longo das cinco edições publicadas – contando com esta que está nas mãos do leitor – acreditamos ter formado o mais completo calendário sobre o tema que, futuramente, pretendemos consolidar em um único volume.
Uma ótima notícia é que as perspectivas de crescimento editorial da literatura fantástica continuaram favoráveis em 2008 e, pela primeira vez desde que iniciamos esse levantamento, as publicações de autores nacionais superaram as traduções, num ano que o mercado registrou boa evolução em todos os setores. A ficção fantástica está aparecendo no cenário cultural, sendo vista em ambientes em que até poucos anos era completamente invisível.
Gostamos de pensar que o Anuário tem alguma parcela de responsabilidade sobre esse panorama, e torcemos para que as próximas edições venham confirmar que esse fenômeno não foi apenas ocasional, mas um alicerce sólido e sustentável.
Boa leitura.
Os autores

Apresentação do Anuário 2007

"Boas novidades"
"Esta é a quarta edição do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. O primeiro número saiu em 2005, cobrindo o ano anterior. E assim tem sido desde então. Para o leitor que o está conhecendo agora, a novidade é quanto ao formato. As edições anteriores foram publicadas ora como formatinho, ora no tamanho A4, por meio de fotocópias e recursos mais modestos. A partir de agora cresce a tiragem também, o que aumenta o alcance de nosso trabalho e – esperamos – a sua repercussão.
Este projeto tem realizado a cobertura noticiosa e crítica do panorama do fantástico brasileiro em suas três manifestações literárias principais, a ficção científica, a fantasia e o horror, além de contemplar também as criações híbridas entre estes gêneros e os chamados trabalhos de fronteira, isto é, o fantástico abordado a partir de uma perspectiva do mainstream literário.
O ano de 2007 assistiu a dois movimentos interessantes no cenário nacional. O primeiro é com respeito ao relativo revigoramento da publicação de livros de ficção científica, em comparação com os anos anteriores e também com respeito aos outros gêneros do fantástico. Algumas editoras importantes voltaram a dar atenção à  ficção científica com algumas delas, inclusive, nomeando coleções e, mais importante, publicando autores brasileiros. Há anos não se via este entusiasmo entre os leitores e fãs que acompanham o gênero mais de perto. Compartilhamos deste sentimento, mas é bom um pouco de cautela, pois em termos históricos estas ‘bolhas’ têm crescido, inflado e implodido, para o retorno de uma situação de estagnação. Nesse sentido este Anuário espera, dentro do que se propõe, a servir como uma espécie de bússola crítica para que a bolha se expanda com segurança e, se não for pedir muito, permita que a qualidade dos livros cresça em proporção com a quantidade publicada.
O segundo movimento tem se verificado no ambiente dos fãs. De uns três anos para cá, mas de forma mais acentuada a partir de 2007, o chamado fandom tem mudado suas características, ficado cada vez mais voltado ao ambiente virtual, notadamente da internet e, mais especificamente, suas comunidades de relacionamento. Apesar do ambiente mais fragmentado e da desarticulação das instituições tradicionais – o que inclui a decadência dos clubes, a extinção da maioria dos fanzines e o rareamento dos encontros pessoais –, gente nova tem se apresentado como fãs de ficção científica e afins e isto é positivo pois, em tese, amplia o leque dos possíveis leitores a consumirem a produção realizada no país.
Há anos pedia-se por uma renovação e ela, ao que parece, se realiza ao menos no nível dos fãs. Falta ainda que se desenvolva com o surgimento de uma nova gama de autores, que se juntem aos que já escrevem há algumas décadas. Conforme o próprio Anuário vem mostrando em suas edições, eles estão surgindo – alguns até resenhados em nossas páginas – , mas ainda é cedo para apontar tendências mais seguras e o que eles podem trazer de inovador ao panorama da FC&F produzida no país.
Este Anuário traz um amplo painel do que de melhor se realizou em termos de literatura fantástica no Brasil em 2007 e a sua publicação neste formato profissional pode ser visto como mais um sinal do bom momento que o gênero – especialmente a ficção científica – voltou a vivenciar. Nestas páginas você encontrará as listagens dos livros, revistas, sites e fanzines publicados, seguidos da devida análise do mercado de livros e periódicos e as críticas de algumas das obras mais significativas. Também distinguimos a “Personalidade do Ano” – que inclui uma longa e substancial entrevista, a exemplo dos números anteriores –, assim como realizamos o trabalho de pesquisa e crítica histórica dos gêneros no país. Isso porque a reavaliação de nossa trajetória é fundamental para que tenhamos uma identidade e possamos nos situar em melhorar continuamente o que criamos em termos de FC&F."
Os autores