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sábado, 23 de março de 2019

O Terror


O Terror (The Terror: A Novel), Dan Simmons. Tradução de Alexandre Martins. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2017. 751 páginas. Lançamento original em 2007.


Em 1845 partiram da Inglaterra os navios HMS Erebus e o Terror da Marinha real com o objetivo de descobrir e atravessar a Passagem Noroeste, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico através do Círculo Polar Ártico, situada no extremo norte do Canadá.
A chamada Expedição Franklin, nome dado por causa do comando do capitão Sir John Franklin, do Erebus, contava com uma tripulação de mais de cem homens, equipamentos modernos e provisões para cerca de três anos. Estavam, portanto, preparados para a travessia e a viagem pelo Pacífico adentro. Mas tiveram o infortúnio de serem surpreendidos por um inverno rigoroso fazendo com que os dois barcos ficassem encalhados em meio a massas de gelo colossais e temperaturas dezenas de graus abaixo de zero.
O enorme romance, de mais de 700 páginas que retrata um dos acontecimentos históricos mais dramáticos da Marinha real britânica, é narrado de forma não linear, entremeando os capítulos num vai e vem, entre o início da expedição e o drama que passam a viver quando os navios encalham. Apenas mais ou menos da metade em diante a história assume uma linha narrativa mais convencional, embora sempre abordada do ponto de vista de um personagem, que recebe o nome do capítulo. E é por meio deste recurso que a história é contada principalmente através do capitão Francis Crozier, do Terror, que é quem de fato assume o comando da expedição após a morte do capitão Franklin, em meados de 1847. Outro personagem interessante é o Dr. Goodsir, que relata em um diário tudo aquilo que sente e testemunha, principalmente do ponto de vista médico. Assim, o nível dos detalhes dos problemas que enfrenta, como doenças e cirurgias são bastante detalhados e às vezes indigestos para quem não está acostumado a lidar com situações deste tipo. Esta escolha do autor dá ao livro uma perspectiva mais particular do drama geral, ganhando em verossimilhança das situações e intimidade com os personagens, tornando-os quase como confidentes junto ao leitor.
Chama a atenção também o grau profundo e bem documentado com que Simmons narra o drama naval, com muitas informações e detalhes sobre a rotina dos navios, suas características de trabalho e funcionamento, bem como das funções de cada tripulante. Mas, acima de tudo, do clima atmosférico tenebroso – sim, esta é a melhor palavra que encontro – que se instaura na vida dos cento e poucos homens. Frio extremo, escuridão que dura meses, alimentos de má qualidade e estragados, ferimentos e doenças em profusão, racionamento do carvão que mantém os navios minimamente aquecidos, e uma moral cada vez mais baixa entre os tripulantes, o que só torna o convívio mais tenso e perigoso, inclusive para a linha de comando.
Este drama durou três invernos e com a perda do Erebus, que afundou parcialmente, e a constatação de que o Terror teria poucas chances de voltar a navegar mesmo com um degelo, as tripulações dos dois navios partem rumo ao sul (arrastando sobre a neve trenós e pequenos barcos), para tentar encontrar uma saída para sobreviverem.
Como já dá para perceber este drama já é, por si, terror. E ainda mais pungente quando sabemos que tudo isso ocorreu de verdade. Mas a este contexto o autor acrescenta seu toque ficcional, tornando a história algo mais do que um romance histórico competente. Pois os homens são também aterrorizados pela presença de um monstro, quase invisível, pois é branco como a neve, e que fica à espreita e só aparece no momento final do ataque, quando é tarde demais. Descomunal, tem quatro metros de altura e por ser muito parecido com um urso polar, confunde ainda mais suas vítimas.
A fera, que surgiu não se sabe de onde, circunda os navios e costuma atacar quando os tripulantes têm de sair deles por alguma razão. Mas aos poucos também começa a atacar as embarcações, matando com muita facilidade e devorando suas vítimas. Sim, ela adora carne humana.
Embora não afirme nos “Agradecimentos” é possível aludir que Simmons se inspirou no conto clássico “Quem Anda Aí?[1] (“Who Goes There?”, 1938), de John W. Campbell, Jr., adaptado três vezes ao cinema, como O Monstro do Ártico (The Thing, 1951), O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), e A Coisa (The Thing, 2011). Mas ele chega, ao menos, a incluir entre àqueles que dedica o livro, o diretor Christian Nyby e o produtor Howard Hawks, da primeira versão para o cinema. Nas duas primeiras versões o monstro é um alienígena predador que ficou congelado por milhares de anos até ser despertado, inadvertidamente, por uma expedição no Ártico. Na terceira é encontrado numa nave espacial sob o gelo num planeta – um pouco semelhante ao clássico Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, 1979), de Ridley Scott.
Mas ao invés, Simmons investe numa perspectiva sobrenatural para justificar a existência do monstro, chamado de Tuunbaq pelos nativos inuits da região, remetido à mitologia de criação do mundo deles. E isso fica exemplificado quando o capitão Crozier, depois de ferido em uma emboscada por um grupo de tripulantes amotinados, é salvo por Lady Silêncio, uma esquimó que havia sido adotada pela expedição após perder seu companheiro, e que recebeu este nome porque, misteriosamente, não tinha língua. Pois ela não é atacada pela fera, ao contrário, interage amistosamente. De acordo com a mitologia, os ataques aos homens brancos, forasteiros, seria uma forma do monstro proteger a cultura e a vida dos inuit.
Embora longo o livro não decai em interesse, e é mesmo notável como Simmons não enrola, pois em todos os capítulos, não só aspectos particulares são contados, mas também novas e dramáticas situações surgem. Há sempre um sentimento de apreensão sobre o que virá, e o livro está repleto de cenas visualmente poderosas, difíceis de esquecer. Os ataques furtivos e cruéis de Tuunbaq, as descrições do inverno escuro e rigoroso, as tempestades de raios, a aurora boreal, os sonhos premonitórios do capitão Crozier – ele mesmo com tendências à paranormalidade –, o encontro inesperado do tripulante John Irving com um grupo de esquimós, o destino cruel de vários personagens. Neste último caso, inclusive, chega-se a um ponto em que a leitura fica penosa, pois vários personagens morrem, um a um, seja de doenças, de frio, de fome, dos assassinatos ou pelas garras da fera sobrenatural.
Há também certa ambiguidade com o título do livro. Afinal, de que terror mesmo se refere? A do navio que curiosa e estranhamente chama terror? Do frio terrível que inviabiliza tragicamente a expedição? – como aconteceu na vida real –, ou do monstro assassino, não por acaso, apelidado pelos tripulantes de O Terror?
O romance foi finalista do British Fantasy Award em 2008 e recebeu uma adaptação na TV – que foi o que motivou a Editora Rocco a traduzir o livro, como informa, inclusive, na capa. Produzido por Steven Spielberg e Ridley Scott a série de mesmo nome foi ao ar em 2018 pelo canal fechado AMC, com oito episódios. Não vi o seriado, mas o livro já me bastou para considerar Dan Simmons como um dos mais talentosos contadores de história especulativa das últimas décadas. Autor da premiada série de FC espacial Hiperyon (1989), dele antes havia lido o forte e sofrido A Canção de Kali (Song of Kali, 1985), publicado em Portugal pela Editora Saída de Emergência, em 2009.
O que fica da leitura de mais de um mês de O Terror é que Simmons, para além da narrativa clara e fluente que prende o leitor, dos personagens vivos e complexos – semelhantes aos dos craques Stephen King e Peter Straub –, tem como maior virtude a capacidade de nos tornar próximos, cúmplices mesmo dos personagens, seus sonhos, medos, dramas, esperanças, e nos fazer sentir tudo isso com eles. Sobretudo por isso, O Terror não é apenas um livro grande, mas um grande livro.

– Marcello Simão Branco



[1] Publicado na antologia O que Será o Futuro? (The Future in Question), organizada por Isaac Asimov, Coleção Argonauta no. 327, Portugal, 1984.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Diário da Guerra de São Paulo

Diário da guerra de São Paulo, Fernando Bonassi. Fotos de João Wainer. 104 páginas. São Paulo: Publifolha. Lançado em 2007.

De forma involuntária e inesperada tive a fortuna de achar este Diário da Guerra de São Paulo, na livraria Temos Livros, ponto tradicional dos antigos fãs de ficção científica, no Centro da capital paulista, em 2007. E só lá, não vi em mais nenhum outro ponto de venda.
Logo no início o autor alerta: “Aviso aos chatos. Livros como este são escritos para que histórias como estas não aconteçam.” É um tipo de desculpa aos seus leitores e convivas pela ousadia de escrever uma história de ficção científica? Seja como for, anuncia sua premissa de como encara o gênero, numa linha que segue os passos de Ray Bradbury, para quem cabe ao gênero evitar os nossos possíveis erros no futuro.
Como anuncia o título a novela trata de São Paulo, aqui chamada de “ex-cidade”. Num futuro incerto, mas não muito distante lemos o diário de um adolescente, um “neutro” que ainda não tomou partido entre os adultos ou as crianças, a grande clivagem social deste mundo. É que em uma cidade sitiada e em ruínas, existem várias guerrilhas de crianças abandonadas, fortemente armadas e com um apetite voraz em matar – e eventualmente também comer – os adultos, a quem culpam por abortarem os seus futuros.
São Paulo, metrópole que virou uma “ex-cidade” nas palavras do nosso confessor sem nome, é um caos completo, sem sistema de transporte, com boa parte de suas ruas e pontes destruídas e com comunicações apenas clandestinas feitas por grupos particulares. Há extrema falta de alimentos, roupas e remédios. E talvez o mais dramático seja as variações de temperatura, que se situam entre 72o C de dia a -112o C à noite. Uma amplitude térmica semelhante à encontrada em Marte. Chove frequentemente também, mas cai mais ácido do que água. E quando há um tempo aberto, o perigo é a da radiação solar. Colocar os pés na rua é um risco de morte iminente, em meio a tiroteios inesperados, assaltos, sequestros e  balas perdidas.
Nos arredores do que sobrou de São Paulo, existem cidades que ainda são minimamente viáveis. Só que elas construíram barreiras para impedir o acesso dos refugiados. Muitos tentam entrar e são rechaçados ou então se alojam em barracas em suas cercanias. Para entrar numa dessas cidades e ser aceito é preciso que seja convidado por alguém que já mora em uma delas. Os pais do narrador temtam, desesperadamente, contactar um parente para poder sair do inferno paulistano.
É curioso que também os nomes dos bairros, avenidas, praças etc de São Paulo não são nomeados, mas apenas como uma referência indireta é que se sabe que o “Centro Exato” é a Praça da Sé e o “Planalto” é a região da Avenida Paulista, por exemplo. No fim do livro, inclusive, há uma mapa em duas páginas que dão uma idéia do que como foi renomeada a “ex-cidade”.
Um trecho do clima angustiante da história e a citação de uma das partes conhecidas da cidade é ilustrado neste trecho:

“Na região dos túneis soterrados sob a grande artéria oeste-centro, o asfalto derretido avança sobre as calçadas esburacadas, formando esculturas de ondas secas. Entulho e sucata cobrem o passeio, bloqueando a passagem pelo meio dele, me obrigando a abandonar as marquises, ziguezagueando pelas carcaças dos veículos abandonados amontoados, me expondo às ‘brincadeiras’ dos atiradores drogados ou apenas malucos nas janelas dos edifícios.
“Rajadas de balas me seguiram a maior parte do tempo.
“Pausa para descanso. Dois tabletes químicos de leite e meio litro de água filtrada.” (página 69).

A esta altura o adolescente está à procura de Ana C. uma garota por que está apaixonado. Ela é de fato a única luz que brilha em sua vida e por meio da união dos dois irá frutificar uma esperança ao final da história.
É uma história interessante e que vale ser conhecida pelos leitores de ficção científica. Claro que para quem está acostumado com o tema, talvez não acrescente muito. Mas o que importa é a perspectiva de acompanhar uma São Paulo devastada que, ao que parece, caiu sozinha numa espécie de guerra civil. Não fica claro, pois Bonassi não revela o que teria acontecido, o que faz sentido se pensarmos que quem narra os acontecimentos é, afinal, alguém que está imerso neste mundo e, só conheceu ele, já que quando nasceu o mundo já era deste jeito.
Este é mais um exemplo de uma ficção científica com pendor de crítica social. Parte de um viés infanto-juvenil, ilustrado pelo discurso final em que o adolescente justifica aos pais porque não quer ir morar com eles e deseja ficar com sua garota. Mas este aspecto é secundário, vale é o desenvolvimento do tema e a reflexão sobre as mazelas que vivemos nos dias de hoje e que pode, eventualmente, nos levar a uma situação no mínimo próxima ao relatado pelo diário. Para dar uma carga realista ainda maior o texto é ilustrado com excelentes fotos de página inteira em preto e branco, de João Wainer. Algumas se encaixam bem, inclusive, com os trechos da narrativa, trazendo mais impacto ao drama relatado.
Fernando Bonassi, um conhecido e prestigioso escritor de prosas urbanas, na literatura, no teatro e também no cinema, escreve com desenvoltura, com estilo ora seco, ora com floreios poéticos. Não há espaço para um tom dramático, num ritmo veloz e objetivo, como num relato mesmo de um diário. Algumas opções me estranharam, como escrever “um” como “1”, com o número mesmo. O que é isso? Uma referência a um jeito adolescente de escrever nestes tempos de internet? Se em termos de ficção científica o melhor que podemos dizer é que a opção pela forma é a sua maior virtude, a história não desagrada e ainda provoca a reflexão sobre o que pode vir a acontecer mas, mais importante, sobre problemas que vivemos já, nos dias de hoje, como a desigualdade social e a inviabilidade estrutural de uma metrópole.
– Marcello Simão Branco

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Bokurano


Bokurano (Bukurano), Hiroyuki Morita. Gonzo, Japão, 2007.

Um grupo de estudantes em férias, oito meninos e sete meninas, encontram uma caverna na praia. Dentro dela, um programador de computadores meio louco propõe a eles uma boa diversão: participar de um novo jogo que ele criou, para o qual são necessários exatamente quinze jogadores. Como as crianças estão entediadas, decidem aceitar. Para isso são levadas a "assinar" um contrato, colocando a palma da mão numa espécie de leitor ótico.
Depois disso, as crianças desmaiam e acordam na praia, achando que tudo não passou de um sonho. Até que começa a aparecer no mar um robô gigantesco e todas as crianças são teletransportadas para seu interior. Lá, reencontram o programador e ficam sabendo que uma das regras do jogo é que cada um deles pilote o robô em uma luta mortal contra um outro robô gigante. E que, como o robô usa a energia do piloto, este morre depois da luta.
Mas há segredos ainda mais tenebrosos por detrás do jogo, que envolvem inclusive a existência de todo o universo.
Bokurano é uma história de ficção científica de dimensões cósmicas, criada por Mohiro Kitoh, publicada originalmente no Japão em uma série de história em quadrinhos entre 2003 e 2009. Chegou ao Brasil na forma de uma série de desenhos animados exibida pela extinta emissora a cabo Animax, em 24 episódios semanais.
Apesar da aparência de uma aventura infanto juvenil, Bokurano é uma história dramática e realista, sendo que o único ponto de fantasia é a existência dos tais robôs gigantes, que são realmente enormes. Com centenas de metros de altura, destroem cidades inteiras durante os combates.
A escolha do piloto é aleatória e ninguém sabe quem será escolhido para o sacrifício: a criança só sabe que será a próxima a ocupar o posto de piloto quando uma estranha tatuagem surge em sua pele, uma expectativa de horror na vida todas delas. Enquanto o governo tenta descobrir o que está acontecendo, o que é aquele monstro e o que as crianças têm a ver com ele, elas tentam administrar suas vidas, cada qual com seus próprios problemas pessoais e familiares.
Mas, afinal, o que é o jogo? É real ou apenas uma simulação? De onde vêm os robôs? E por que eles lutam? As respostas serão dadas aos poucos por um bizarro avatar de nome Koyemshi que, apesar da aparência simpática, é um cretino de marca maior.
O seriado está disponível online no saite Crunchyroll, aqui.
Cesar Silva

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Ficção de Polpa - Volume 1

Ficção de polpa – Volume 1, Samir Machado de Machado, organizador. 132 páginas. Editora Fósforo. Porto Alegre: Editora Fósforo, 2007.

Este lançamento foi a maior surpresa no mercado editorial brasileiro em 2007, com relação aos autores nacionais. Menos pelo conteúdo e mais pela proposta. A começar é, fundamentalmente, um livro que procura resgatar um espírito pulp para a literatura nacional que, como lembra o organizador, nunca existiu da maneira como nos Estados Unidos aqui no Brasil. E a proposta vai fundo no que se propõe, pois a própria edição é em formato das revistas pulps americanas, a não ser pelo tamanho, que era maior. A ilustração de capa de Gisele Oliveira, com uma linda loura acorrentada prestes a ser atacada por um maníaco, era a norma destas revistas. Abrindo as páginas, vemos que os textos estão divididos em duas colunas, como também ocorria nas revistas, há ilustrações internas para alguns contos e por aí vai. Se não por qualquer outro motivo, a iniciativa já seria elogiosa, pela criatividade e competência em recriar uma típica pulp magazine. Mas vamos ao principal, o conteúdo.
O organizador situa a proposta e os temas a serem apresentados na antologia e já observa que “a maior parte dos textos pendeu para o lado do horror, mesmo que dentro de um contexto fantástico ou de ficção científica”.  Esta informação ajuda também a situar melhor a qual gênero as 16 histórias pertencem, pois pela capa os três gêneros eram igualmente anunciados.
O primeiro conto pertence ao organizador e chama-se “O homem que criava fábulas”. É a história de um sujeito que vai passar um fim de semana numa fazenda de uma amiga de sua falecida vó. Lá ele conhece animais produzidos por manipulação genética, inspirados na fantasia e mitologia universal, como o unicórnio e o pégaso. Mas as coisas começam a dar errado um dos animais ataca o marido da amiga da avó. A prosa é fluente e o texto mantém o interesse, sendo mais efetivo por isso do que tema, mais uma variação sobre os monstros do Doutor Moreau de H.G. Wells.
O segundo conto é “Carne”, de Guiherme Smee. Um sujeito acorda com fome e dor de cabeça. Logo percebe que não conhece o lugar onde está. Além disso, tudo ao seu redor está desarrumado e destruído. A forme e o mal estar só aumentam e ele precisa de carne. Aos poucos e de maneira convincente percebe-se que o autor subverte o ponto de vista das histórias de mortos-vivos. O mundo foi devastado e a história é contada de um ângulo diverso do convencional. Muito bom, intenso e ousado.
O próximo é “Lingüista”, de Rodrigo Rosp. História de gosto duvidoso sobre um casal que tem um sexo intenso, especialmente com o uso da língua. A sensação de desconforto não é pelas cenas de sexo, mas do que passa a ocorrer quando ele resolve deixá-la por sentir-se submisso nas relações sexuais. Basta dizer que ela estudava e, literalmente, colecionava línguas mortas.
Um conto na linha absurdista é “Cosmologia ou de como uma simples coceita pode mudar a vida de alguém”, de Marcelo Juchem. Um sujeito tem uma coceira na orelha, vai coçando, mas ela só aumenta. Desesperado, nota que algo grande e inexplicável vai saindo do seu ouvido.
Mais um conto que trabalha com uma situação estranha e inusitada é “Os estranhos”, de Gustavo Faraon. Um menino é o último a aguardar a chegada da mãe na saída da escola. Como ela demora, resolve ir ao banheiro e se depara com pessoas estranhas – vestidos como médicos – que fazem exames nele e em outras crianças. Os aprovados são liberados e os reprovados ficam retidos dentro da escola. Quando percebe já é dia e ele tem de ir para a sala de aula, como se nada tivesse acontecido. Ele ouve sons estranhos de uma construção na escola, mas sabe que são daqueles que ficaram presos. É um conto com uma atmosfera angustiante, que trabalha na questão da imaginação de uma criança, não ficando claro se tudo aconteceu mesmo ou não.
Já “Dias de fome, noite de cão”, de Sérgio Napp é uma história aparentemente convencional na figura de um sujeito que vem à cidade grande em busca de emprego, não encontra e vive faminto pelas ruas. A certa altura entra em uma casa aparentemente desabitada e encontra o horror absoluto na forma de um enorme cão preto.
Rafael Spinelli assina “O homem dos ratos”. Um sujeito não consegue se desfazer de nada. Acumula tudo e isso vira um problema grave para sua mulher, em meio a lixo e bugigangas pela casa toda. Embora soe como loucura, vez por outra são noticiados casos semelhantes. Mas talvez não com o desfecho deste conto.
O próximo é uma eficaz cena de terror psicológico. “Tempestade em Coney Island”, de Rafael Kasper narra uma fortíssima tempestade e os efeitos que provoca em uma mulher enquanto o marido sai para comprar cerveja. Tão bem narrado que fica no limite entre o suspense e o horror quase sobrenatural.
Na seqüência temos “Ventre”, de Roberta Lorini. Um filho mal cuidado por seus pais, mata a mãe, retirando-lhe o útero. E assim prossegue tornando-se um psicopata. Ao mesmo tempo, o texto é intercalado por um delegado solitário e bem-sucedido, disposto a não só prender, mas matar o criminoso. Uma história curta e bem narrada, em que mesmo o final surpresa encaixa-se bem dentro do contexto.
“Fungui”, de Luciana Thomé segue a tendência, com uma situação bizarra acontecendo e invertendo o próprio sentido do terror. Cogumelos nascem por toda casa, deixando uma mulher primeiro sedenta e depois tomada de puro desespero.
Alessandro Garcia é o próximo autor com o seu “Vãos”, o texto mais longo do volume. Contada em tons intimistas, os sentimentos do protagonista dão o tom, ao relatar seus problemas pessoais, como um mau casamento, a morte mal explicada de um funcionário de sua fazenda, um filho mimado e de comportamento misterioso. É um suspense psicológico que se anuncia como sobrenatural, mas fica no plano realista, pois não há nenhum elemento fantástico. O que mantém o interesse é a prosa habilidosa e as intenções subjetivas dos personagens, deixando ‘vãos’ de expectativas para o leitor.
A seguir temos “A meia-noite do fim do mundo”, de Fernando Mantelli.  Digo que o melhor está no título. A história não passa de um pastiche pouco inspirado e previsível de H.P. Lovecraft. Talvez funcionasse em um fanzine, não deveria ser publicado nesta antologia.
Já “Cabeça-de-arroz”, de Annie Piagetti Müller, explora mais uma história bizarra. Agora é a vez de Nilce, uma mulher viciada em arroz (!). O conto tem o mérito de ser o primeiro do livro a não ser narrado em primeira pessoa até aqui, pois o recurso estava repetitivo e cansativo. Contudo, a narrativa é previsível quanto ao desfecho, aliás na mesma toada de outros contos.
Assim como também “Fígado”, de Silvio Pilau. Uma outra premissa absurda, quando um fígado bate à porta de um alcoólatra dizendo que vai matá-lo por maltratá-lo por tantos anos. Talvez o personagem estivesse tendo deliriuns tremens ou algo do tipo, mas o conto não faz questão de sutilezas em sua proposta moralista sobre o vício da bebida.
“O desvio”, de Antônio Xerxeneski é como “Carne”, um conto que brinca com os clichês, procurando subvertê-los. Um viajante solitário em uma estrada deserta dá carona a uma garota, vestida no estilo gótico. Tudo vai bem, até que um anuncia ao outro que é o diabo. Paira uma certa dúvida durante a leitura, mas o fato é que um estava assustando o outro. Porém, um desvio os espera numa próxima curva que nunca aparece para, provavelmente, definir o destino de ambos. Ótimo conto.
Mas o melhor trabalho ficou para o final. Refiro-me a “Quando eles chegaram”, de Rafael Bán Jacobsen. O argumento é simples e dos mais retratados: Uma invasão extraterrestre em nosso planeta. De início pacíficos, misturam-se aos humanos na condução do poder e dos negócios e por fim revelam suas reais intenções de nos transformarem um fonte de sua alimentação. Até aí também sem novidades, há ecos de O fim da infância, de Arthur C. Clarke e da minissérie televisiva V, a batalha final. Mas a força da narrativa impacta e choca por sua frieza e indiferença com que a matança é realizada e a total impotência com que os humanos são dominados, submetidos e eliminados. Muito efetivo também é o uso da primeira pessoa, com o protagonista contando a tragédia de seu ponto de vista.
Ficção de polpa ainda reserva uma seção chamada de “Faixa bônus”, que dá ainda mais charme à sua proposta pulp, apresentando um conto de H.P. Lovecraft, “O cão de caça”, o primeiro a mencionar o Necronomicon e um making-off interessante mostrando o processo de criação da ilustração da capa.
Vale mencionar também que esta é uma antologia regional e, mais que isso, gaúcha. Quase todos os autores lá nasceram ou moram lá há muito tempo. São em sua maioria relativamente jovens, entre os 20 e 30 anos e atuam no campo literário ao lado de ocupações profissonais na área de comunicação e ciências exatas. Estes fatos certamente significam algo para a comunidade brasileira de ficção científica, pois mostra que existe grupos de autores atuando por fora de suas fronteiras, talvez como efeito da internet e da própria decadência do fandom em integrar os novos interessados, principalmente de uns dez anos para cá.
É curioso que este livro tenha aparecido justamente em meio a uma polêmica sobre as virtudes de uma ficção pulp, como defendida por Ana Cristina Rodrigues e Alexandre Lancaster, em artigo publicado no fanzine Scarium n.19, de junho de 2007.[1] Que este tipo de história tem seus encantos é indiscutível, mas não a concepção pulp dos autores do artigo que entendem que sua simples expressão prescindiria de uma busca por qualidade literária, desqualificando mesmo propostas pretéritas e atuais que procuram conciliar uma boa história com um bom texto. Ora, este Ficção de polpa, acaba por ser uma resposta involuntária, pois afirmando uma proposta pulp, procurou primar por um vocabulário e estilos relativamente elaborados, mostrando que é não só possível como desejável contar boas histórias através da busca por uma boa literatura. É certo que o resultado do livro é um pouco desigual, mas percebe-se o esforço dos autores em produzir pulps com algo mais do que simples pulps, à maneira do que faziam os americanos nos anos 20 e 30 do século passado e que, a dupla de autores do referido artigo, quer parecer ressussitar.
Samir Machado de Machado já divulgou os autores e os contos de uma segunda edição do livro, prevista para publicação em 2008. Se o resultado geral desta antologia é de razoável para bom, com muitos contos semelhantes quanto à temática e um pendor por vezes exagerado para o escatológico e o sensacional, o saldo é positivo pela iniciativa em si, abrindo uma boa expectativa de que no mínimo, o mesmo nível possa ser mantido na próxima edição.

 Marcello Simão Branco






[1] O artigo é “Ficção científica popular”.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar, Edgar Indalecio Smaniotto

A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar: Ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na ficção científica brasileira, Edgar Indalecio Smaniotto. 196 páginas. Editora Corifeu, Rio de Janeiro, 2007.

Um dos filões editoriais que tem sido atacado com entusiasmo pelos fãs brasileiros de ficção científica e fantasia é o dos estudos acadêmicos. Há até pouco tempo, contavam-se nos dedos de uma única mão os livros de não-ficção disponíveis em língua portuguesa sobre o gênero.
Os títulos históricos, publicados ao longo do século 20, geralmente tratavam da produção estrangeira, sendo que o mais importante texto sobre a ficção científica produzida no Brasil foi, por muito tempo, o prefácio escrito por Fausto Cunha para a edição brasileira de No mundo da ficção científica (Science fiction reader's guide), de L. David Allen (Summus Editorial, SD).
Em 2007, os leitores interessados nesse tipo de literatura puderam compartilhar das conclusões de A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar, publicado pela Editora Corifeu, dissertação de mestrado de Edgar Indalecio Smaniotto sobre a vida e a obra do escritor luso-brasileiro Augusto Emílio Zaluar que, em 1875, teve publicado em dois volumes o romance O Doutor Benignus, obra considerada como um dos primeiros exemplos da ficção científica brasileira. A dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNESP de Marília, orientada pela Professora Doutora Christina de Rezende Rubim, que também assina o prefácio do volume.
Smaniotto é um jovem professor que atua no ensino fundamental da cidade de Marília, onde nasceu e reside. Também é colaborador frequente das publicações do fandom brasileiro, geralmente com textos de análise literária.
O trabalho está dividido em seis partes principais. As duas primeiras são “Augusto Emílio Zaluar: Esboço de uma trajetória” e “Entre o relato de viagem e a moderna antropologia”, e dizem mais respeito ao homem Zaluar, sua biografia e sua participação da vida político-cultural na capital do Império Brasileiro. Neles, sabemos que Zaluar nasceu em Lisboa em 1826 e não completou os estudos em medicina para dedicar-se ao ofício de escrever, principalmente na área jornalística. Porém, como não havia possibilidade de se sustentar exclusivamente da escrita em seu país natal, em 1850 Zaluar migrou para o Brasil e aqui se estabeleceu como jornalista. Seus interesses nas ciências, especialmente na antropologia, o levaram a se dedicar aos estudos sobre o homem brasileiro e o seu lugar no mundo. Zaluar acompanhava atentamente os trabalhos das missões científicas no Brasil e isso fica claro na leitura de O Doutor Benignus, pois Zaluar faz questão de citar cada um dos seus inspiradores, inaugurando junto com o gênero uma mania que está cada vez mais em destaque entre os autores brasileiros de ficção científica e fantasia. O conhecimento de Zaluar a respeito do trabalho de campo dos antropólogos está retratado no romance na figura de William River, personagem sequestrado por uma tribo de índios caiapós na Ilha do Bananal, destino final da expedição de Benignus.
Na terceira parte, “A origem do homem: monogenismo e poligenismo”, descobrimos que Zaluar compartilhava da teoria de que o homem teria se originado na América – especialmente no Brasil – e que tinha confiança que mais cedo ou mais tarde essa teoria seria confirmada. Por isso seu personagem em O Doutor Benignus vai encontrar um crânio humano fossilizado, preservado numa providencial caverna no planalto central.
Até aqui, a leitura da dissertação de Smaniotto é conquistada a duras penas. O texto é truncado e repleto de citações e notas de rodapé, algumas bastante longas. Embora o tema não seja enfadonho, não parece ao leitor que se trata de um trabalho sobre ficção fantástica pois o que se falou esteve principalmente associado à pessoa de Zaluar. Entretanto, na segunda metade, o texto ganha contornos pungentes na medida em que Smaniotto aborda os temas que levaram os estudiosos a classificarem o romance de Zaluar com ficção científica de fato.
A teoria da habitabilidade dos mundos é o tema  da quarta parte do estudo, “Seres imaginários do espaço”. Aqui aparece a fascinação de Zaluar pelas teorias do cientista francês Camille Flammarion sobre a habitabilidade dos outros planetas dos Sistema Solar, e até mesmo do Sol e das estrelas, misturando ciência com doutrinas espiritualistas numa real antecipação do que viria a ser a popular ideia dos discos voadores, muitas décadas depois. Mas o trecho em que Benignus trava contato com um habitante do Sol – um ser feito de luz e energia radiante – acontece durante um sonho do sábio, depois de adormecer sobre os restos calcinados de um meteorito recém-precipitado. É curioso notar que a expedição de Benignus foi proposta principalmente para comprovar que o Sol seria habitado, e Zaluar argumenta que seu personagem teria essa certeza apenas por observar as manchas do Sol por seu telescópio. Sendo essas manchas, na interpretação do autor, fenômenos similares ao olho de um furacão, na sua lógica, a superfície do Sol seria fria e, portanto, habitada. Simples assim. Comprovada a habitabilidade do Sol, fica também comprovada a habitabilidade de qualquer outro astro.
A ficção de Zaluar frente a seus contemporâneos Júlio Verne e H. G. Wells é tema em “Estabelecendo comparações: o Doutor Benignus diante do romance científico europeu”. Nesta parte encontra-se o melhor do estudo para o leitor interessado em ficção científica. Smaniotto faz um relato rápido sobre a influência explícita de Júlio Verne na prosa de Zaluar, especialmente quando este insere um balão na sua história, a moda de Cinco semanas em balão, de Verne. Smaniotto observa ali a antecipação da dirigibilidade dos balões, tecnologia que só seria conquistada no início do século 20 por Alberto Santos Dumont. Apesar de ser uma interpretação romântica e uma forma de dar a Zaluar um arremedo da autoridade verniana, é um exagero. Zaluar definitivamente não deu dirigibilidade alguma ao seu balão em O Doutor Benignus, que só chegou aonde chegou – e no momento mais que oportuno diga-se de passagem – por conta de uma tempestade que o carregou na direção certa. Pelo menos neste caso, Zaluar não antecipou nada.
Mas as melhores sacadas de Smaniotto estão nas comparações com Wells, especialmente na análise das diferenças culturais na representação do alienígena. Para Wells, o alienígena é um agressor, uma força de ocupação que humilha a arrogância britânica, enquanto que para Zaluar o alienígena é um ser espiritualmente evoluído que traz uma mensagem pacífica e edificante, e reconhece a promessa de um futuro glorioso para o país.
Smaniotto prepara o fechamento de seu trabalho na sexta e última parte, intitulada “A formação de um mito cultural: o alienígena na literatura brasileira”. Aqui, Smaniotto cita principalmente Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, da brasilianista Elisabeth Ginway (Devir, 2005) e Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950, de Roberto de Sousa Causo (UFMG, 2003), como referências para concluir que o mito do alienígena é uma característica da ficção científica brasileira, na medida em que valida todos os demais componentes da mítica nacional, colocando O Doutor Benignus numa posição de importância para as letras e especialmente para os estudiosos da ficção científica no Brasil.
Cesar Silva

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O fantasma do apito, Miguel Carqueija

O fantasma do apito, Miguel Carqueija. 118 páginas. Apresentação de Marcello Simão Branco. Coleção Scarium Fantástica, volume 2. Edições Scarium, Rio de Janeiro, 2007.

Debaixo de chuva, três garotas se encontram na porta da escola aonde vão estudar. Elas nunca se viram antes, mas a breve viagem numa espécie de teleférico que leva à porta da escola desperta entre elas uma cumplicidade que será seu principal apoio nestes primeiros dias de aula. Isso porque, mal desembarcam no saguão, são acuadas pelo bedel que é extremamente rude com as estudantes. Tudo porque algum espertinho soprou um apito estridente na densa floresta que circunda a escola e ele acredita que foi uma entre as novas alunas.
Depois da má recepção, as garotas são acomodadas num mesmo quarto e passam a se conhecer melhor. Na hora da refeição, acabam se indispondo com um estudante por causa de uma sopa de tomates, sem maiores repercussões. Porém, durante a noite, o estudante é assassinado e, mais uma vez, a suspeita recai sobre as garotas.
Apesar da animosidade explícita da diretora da escola, as meninas são defendidas pela investigadora de polícia que acompanha o caso. Mais tarde, ela vai revelar ser clarividente e que reconheceu a inocência das meninas, especialmente o potencial de clarividência de uma delas.
Mas os problemas não terminam. Outros assassinatos acontecem, sempre fazendo acreditar que as garotas estão, de alguma forma, envolvidas. Mais policiais entram em cena e a pressão sobre elas fica cada vez maior. Somente as próprias meninas podem resolver o mistério do apito, que tudo indica ser um aviso do assassino antes de cometer os crimes. Um assassino acima de qualquer suspeita.
Esta é a história da novela O fantasma do apito, de autoria do escritor Miguel Carqueija, volume 2 da Coleção Scarium Fantástica.
Seguindo a característica que tem dominado seus trabalhos, o autor investe em protagonistas femininas para contar uma história de coragem e amizade no meio de um cenário antagônico e lúgubre. Fica clara a influência da série Harry Potter neste trabalho, que procura sustentar o mesmo clima gótico daquela série. Isso exigiu que o autor reinventasse a realidade, instalando a trama numa alternativa em que a história do Brasil caminhou de forma diferente. Apesar de recursos modernos e detalhes tecnológicos próprios do nosso tempo, predominam cenografias do castelo decadente onde a escola se instala, com ambientes escuros e passagens secretas empoeiradas, truques de magia, carruagens, dirigíveis etc.
No aspecto estrutural, a história tem um objetivo claramente infantojuvenil. O vilão, bem como o detetive Anselmo (personagem que cumpre um contraponto cômico) cumprem bem seus papéis esquemáticos apesar de um tanto estereotipados, especialmente o vilão, mas a impressão final é que isso foi um truquezinho do autor para emular o realismo farsesco das histórias em quadrinhos.
Sobre as protagonistas, o autor não se aproveitou bem do fato de ter três pessoas independentes. Em muitos aspectos, as meninas se parecem demasiadamente, falam da mesma maneira e pensam de modo similar. É impossível reconhecê-las apenas pelos diálogos e, ao final de história, ainda não conseguimos identificá-las claramente, mas isso pode ser superado nas sequências da história, uma vez que o autor divulga que voltará ao universo de O fantasma do apito desenvolvendo mais detalhadamente a estrutura histórica alternativa do mesmo.*
O volume tem a apresentação de Marcello Simão Branco, que sintetiza brilhantemente o trabalho no trecho reproduzido a seguir:

“Neste novo trabalho ficcional, Carqueija demonstra desenvoltura com a construção do enredo – que se situa entre o suspense e o sobrenatural –, com a criação e aprofundamento das personagens e com o desenrolar da trama. Cheia de reviravoltas e surpresas que prendem o leitor a cada fim de capítulo, no mais tradicional e eficiente recurso do folhetim.”

Branco ainda faz um breve apanhado da carreira do autor e eu aproveito para lembrar os seus livros mais recentes: A âncora dos argonautas (Coleção Fantástica, Hiperespaço, 1999), A Esfinge Negra (Nova Coleção Fantástica, Hiperespaço, 2003), As luzes de Alice (Hiperespaço, 2004) e A face oculta da galáxia (Editora Casa da Cultura, 2006).
Carqueija é um escritor voluptuoso, que produz em quantidade e participa com frequência das publicações e editoras dispostas a receber colaborações, sem qualquer preconceito. Embora suas últimas histórias sejam todas mais ou menos do mesmo tipo – aventuras na linha infanto juvenil com protagonistas femininas envolvidas em eventos de magnitude muito além delas mesmas, que sobrevivem aos percalços por graça da sua integridade destemida – atestam um amadurecimento estilístico que qualifica o autor alguns degraus acima dos muitos contos que publicou nos fanzines brasileiros ao longo dos últimos 30 anos.
A boa recepção dos textos de Miguel Carqueija em vários públicos, certamente é um facilitador quando se trata de convencer um editor a investir nos seus livros mas, mesmo assim, ainda lhe falta um livro por editora comercial, com grande tiragem e bem distribuído. Não tenho dúvidas que entre os muitos autores de fc&f atuantes no ambiente dos fãs, Carqueija é aquele que reúne as melhores condições para conquistar bons resultados comerciais no mercado editorial. Só lhe falta um editor que também perceba isso.**
Cesar Silva 
* A sequência da história apareceu em 2009 com a novela Tempo das caçadoras (Scarium).
** Como não podia deixar de ser, Miguel Carqueija passou os últimos anos em plena produção autoral e editorial, conquistando a publicação de dois romances de grande porte: Farei o meu destino (Giz, 2008) e O estigma do Feiticeiro Negro, com Melanie Evarino (Ornitorrinco, 2012).

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Será, Ivan Hegenberg

Será, Ivan Hegenberg, 240 páginas. Editora Ragnarok, São Paulo, 2007.

Primeiro romance de Ivan Hegenberg, escritor paulista formado em Artes Plásticas pela ECA-USP que, em 2005, teve publicada a coletânea A grande incógnita, pela Editora Annablume. Desta vez, o autor envereda pelo fantástico e experimenta a ficção científica, inspirado em livros como 1984 de George Orwell, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, conforme evoca o texto da orelha do livro. Porém, no que se refere à estrutura, este romance tem mesmo é a aparência de uma coletânea, sendo formado pelo encadeamento de narrativas independentes e não contínuas, situadas no mesmo universo. São elas:
“História do mundo”: Um homem desiludido com a vida dialoga com um robô sem emoções, enquanto viaja pelo tempo e pelo espaço através de um programa simulador. O conto contextualiza o ambiente de um futuro superpopuloso controlado política e socialmente por programas de computador, no qual as pessoas aprenderam a dominar a telepatia, e a carência de água e comida é o problema principal.
“Água”: Membros de uma equipe de assassinos do estado, chamado Comando da água, torturam e matam civis inocentes apenas porque eles são infelizes, como forma de reduzir a tensão social pela falta de água. Um deles, entretanto, depois de uma vida de assassinatos, decide dar baixa do pelotão.
“Dia qualquer”: Um homem virtual vive insipidamente num programa simulador. Obcecada por ele, uma mulher morre de inanição depois de passar vários dias ligadas ao computador.
“Passagem”: Uma menina de oito anos aprende, precocemente, como se comunicar por telepatia e passa por problemas de relacionamento com seus amigos da escola e com a sua mãe, ao tomar contato com a alma das pessoas. Sua professora, uma mulher madura e infeliz, torna-se sua principal vinculação emocional com a realidade.
“Zeitgeist”: O capítulo mais longo do romance. O maior telepata do mundo invade a mente das pessoas e constrói um mosaico insano da sociedade do futuro.
“O supremo esteta”: Grafado em corpo diferenciado, este conto simula um texto de divulgação de uma espécie de religião do futuro.
“Encanto”: Um homem cético fica com dúvidas sobre a validade de seu ceticismo depois de participar de um ritual místico religioso em que os participantes, que têm todo o tipo de implantes e reconstruções físicas, tomam um chá alucinógeno que induz um estado de êxtase.
“A aldeia dos índios Tympi”: Jovens intelectuais reúnem-se para um sarau poético. Suas poesias são compostas por computadores, a partir de suas próprias moléculas de sangue. Depois do sarau, um casal tem sua primeira experiência sexual num inferninho.
“Explorações”: Três narrativas se intercalam neste trecho, sendo uma sobre um diretor de cinema que tem problemas conjugais e está produzindo um filme pornô. O segundo é sobre a trágica viagem de um grupo de cientistas ao interior de uma célula e, na terceira, um solilóquio do maior filósofo do mundo concluindo alguma coisa insondável sobre existência de Deus.
“Festa do Último Grito”: Alguns dos personagens do livro se encontram em Praga, uma das poucas cidades do mundo que não é monitorada pelos computadores, para participar de uma cerimônia de suicídio coletivo. O evento é realizado durante uma noite e apenas uma vez ao ano.  Geralmente, metade dos participantes consegue morrer. Os restantes ou sobrevivem da tentativa ou desistem, embora seja perigoso mesmo assim: os habitantes da cidade atuam como assassinos, matando todos os que encontram pela frente. Ali estão, por exemplo, a menina precoce, o ex-assassino do Comando Água, o homem cético, e muitos outros apenas citados ao longo dos inúmeros segmentos narrativos. Para cada um deles, a Festa do Último Grito é o um apocalipse. Sobrevivendo, terão enfim esperança suficiente para recomeçar. 
“Epílogo: atração”: Um casal – visto no conto “A aldeia dos índios Tympi” – colhe argila num barranco enquanto discute sua relação.
O final anti-climático, depois das emoções sangrentas do conto anterior, dá o exemplo para análise do livro todo: uma antologia de textos pós-modernos, sem princípio e sem final, com trechos de interesse intercalados com solilóquios que pouco contribuem com a narrativa. Em alguns casos, a intercalação dos períodos é tão arbitrária que o contexto se perde completamente. Os trechos filosóficos não são convincentes e mais contornam do que abordam os temas que sugerem, dando a impressão que o autor não os domina com profundidade suficiente.
Apesar da premissa base do universo de Será estabelecer que se trata de um mundo superpovoado com problemas de abastecimento gravíssimos, isso parece ter um significado quase desprezível na vidas das personagens, mais preocupadas com seus relacionamentos pessoais do que com água e comida. Tanto que, na maior parte do tempo, suas vidas parecem tão normais que soam até sem graça.
Um pouco melhor é tratada a questão da telepatia, que ensaia ser um detalhe importante nos primeiros contos, mas vai perdendo consistência ao longo do livro até ficar insignificante nos últimos textos.
Dessa forma, Hegenberg desperdiçou dois dos principais temas que caracterizariam o seu mundo do futuro, escrevendo histórias que ficariam bem melhores se ambientadas nos dias de hoje. Sem a devida consistência ambiental, a história se tornou frágil, presa fácil à incredulidade e ao desinteresse do leitor, o que é agravado pela falta de um personagem principal com o qual o leitor se identifique. Nem mesmo as cenas de sexo explícito narradas em “Explorações” causa algum impacto.
Quando tudo parece perdido, vem o melhor texto do livro, o capítulo intitulado “Festa do último grito”, com niilismo suficiente para levantar o interesse do leitor, embalando-o até as páginas finais do volume. Este conto, se descolado do livro, pode figurar com louvor em qualquer antologia literária e deixa claro que, bem orientado, Ivan Hegenberg tem talento suficiente para escrever obras de impacto e interesse.
Cesar Silva

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A caverna de cristais: Aliança dos povos, Helena Gomes

A caverna de cristais, Volume 2: Aliança dos povos, Helena Gomes. 592 páginas. Capa de Milton Nakata. Idea Editora, Bauru, 2007.

Romance de fantasia heroica com trechos de ficção científica, segundo volume de uma série cujo primeiro episódio, O arqueiro e a feiticeira, foi primeiro publicado em 2003 pela Devir Livraria.
A autora, Helena Gomes, natural de Santos (SP), é jornalista e professora universitária. Estreou com o livro Memórias da hotelaria santista (1997), não ficção em coautoria com Viviane Pereira e Laire José Giraud, e também publicou em 2006 o romance de horror Lobo Alpha (Rocco).
A caverna dos cristais: Aliança dos Povos divide-se em três partes principais, cada uma com cerca de 200 páginas: “Herdeiro”, “Mudu-Za” e “Terceiro guerreiro”.
A primeira parte inicia com os jovens irmãos Gothilan e Caleb, e como eles foram tocados pelos cristais mágicos conhecidos como Parenthis. Gothilan viria se tornar um grande líder militar e espiritual, e seria traído por seu irmão. Mas isso é apenas o primeiro capítulo: a história começa mesmo milhares de anos depois, quando vivem os irmãos Thomas e Vince, reencarnações de Gothilan e Caleb que mantêm, ao longo de todo o romance, um triângulo amoroso com a garota Erin.
A Terra está praticamente desabitada, exceto por tribos isoladas vivendo em organização feudal. O reino dos protagonistas chama-se, com efeito, Britanya. Thomas e Vince têm poderes especiais, concedidos pelas parenthis e herdados de suas vidas passadas. As parenthis também permitem alguma comunicação com os bondosos seres extradimensionais chamados eloras.
Para dar combate à Mudu-Za, líder dos anjos negros conhecidos como nergals – poderosa força alienígena enfrentada no primeiro volume da série –, os três jovens vão ao planta Gaia, capital da Aliança dos Povos – uma espécie de federação interplanetária –, para encontrar o mago Tolkien, o último guardião do universo. Para isso, tomam posse de uma espaçonave abandonada, envolvem-se com piratas espaciais e, finalmente, chegam ao destino auxiliados pelos amigos de Vince, que vêm em seu resgate.
Vince sente-se em casa, pois já vivera em Gaia, mas Thomas e Erin deparam-se com uma realidade muito diferente da que conheceram em Britanya. Gaia é um planeta moderno, tecnologicamente similar à Terra dos nosso dias – porém, com espaçonaves –, com um governo mundial que acaba de sair de uma ditadura, mas ainda guarda aspectos de um estado policial.
A busca por Tolkien é facilitada pelos poderes das parenthis, sendo ele, na verdade, o escritor de best sellers conhecido como Nicolas Sheridan. Entretanto, o encontro não passa despercebido da polícia de Gaia que, influenciada pelos nergals, tenta eliminar tanto Tolkien quanto os jovens heróis medievais. Os garotos conseguem escapar e, acompanhados do mago escritor, fogem de Gaia num cargueiro espacial.
Durante a viagem, ficam sabendo de um iminente ataque nergal à Gaia, e decidem sacrificar sua missão principal contra Mudu-Za para trabalhar na defesa da capital da Aliança dos Povos antes que seja tarde demais. Durante a aventura, os jovens isolam-se uns dos outros, cada um acreditando que os demais estão mortos.
A segunda parte do romance conta o que acontece a cada um deles enquanto estão separados, como se lhes revelam as identidades de Mudu-Za e dos eloras, e como despertam a totalidade de seus poderes.
Na terceira parte, todos reencontram-se em Britanya, para onde a batalha contra os nergals se desloca. Ali se prepara o confronto final entre as forças sombrias de Mudu-Za e as forças do bem dos eloras, com muitos conflitos de consciência entre os personagens, traições e superação frente a forças irresistíveis.
As quase 600 páginas do romance impressionam a primeira vista. Ainda mais quando percebemos que é apenas o segundo volume de sete previstos pela autora. A caverna de cristais é, provavelmente, a mais ambiciosa série da ficção fantástica brasileira.
Não há dúvida que Helena Gomes sabe escrever. Seu texto é limpo e fácil de entender, não soa grandiloquente nem infantil, situando-se adequadamente naquele agradável modelo que caracteriza a ficção fantástica. Mas a narrativa é lenta, mesmo com as incontáveis cenas de ação que a autora espalhou pela história. As batalhas são caracterizadas por uma violência caricata, com longos diálogos em que os adversários provocam-se com piadas infames e citações da cultura pop do século 20 da nossa realidade. De acordo com este romance, o futuro da humanidade não acrescentará mais nada à história da cultura popular interplanetária. Além disso, a autora nem tenta disfarçar as inúmeras citações e homenagens aos seus seriados preferidos, como Guerra nas estrelas, Galactica, Babilon 5, O senhor dos anéis etc, um recurso frequente entre os autores-fãs brasileiros, com melhores e piores resultados, mas que pulveriza qualquer verossimilhança dramática e causa grandes prejuízos à já delicada suspensão de incredulidade em que a ficção fantástica brasileira, de forma geral, tem deficiências históricas. Além do mais, há um claro discurso proselitista religioso por detrás da história. Não que isso seja um pecado mortal: muita da boa ficção fantástica mundial é proselitista, seja religiosa, seja política, eventualmente ambas. Mas esse proselitismo só é perdoável quando vem acompanhado de uma história muito interessante e bem escrita, que entretém durante a leitura e suscita discussões depois da última página, como em Os despossuídos (The dispossessed), de Ursula K. LeGuin, Tropas estelares (Starship troopers), de Robert Heinlein, ou Além do planeta silencioso (Out of the silent planet), de C. S. Lewis.
Para os leitores que superarem as duas primeiras partes do romance, há a promessa de uma movimentada e bem articulada terceira parte, que retoma o modelo de fantasia medieval visto no primeiro volume. Os personagens finalmente ganham corpo e os seus dramas pessoais vêm à tona, com ações firmes e definitivas. Mas o cansaço cobra um alto preço: a ideia de ler mais cinco volumes para chegar ao fim dessa história não é muito animadora.*
Cesar Silva

* A Idea publicou, em 2008, o terceiro volume de A caverna dos cristais: Despertar do dragão, e, no ano seguinte, republicou o primeiro volume, O arqueiro e a feiticeira. Em 2015, a editora Rocco lançou o quarto volume, A tríade,  além de A adaga mágica, ebook com uma aventura no mesmo universo da série.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Por universos nunca dantes navegados

Por universos nunca dantes navegados, Luís Filipe Silva & Jorge Candeias, orgs. 262 páginas. Edição dos autores, Lisboa, 2007.

Lançamento aguardado com expectativa no fandom lusófono, desde o princípio organizado através da internet, com amplo chamamento dos dois lados do Atlântico, calçado na credibilidade de seus organizadores, Jorge Candeias, editor da revista eletrônica E-Nigma, e Luís Felipe Silva, veterano no fandom português, autor premiado e responsável pelo site de referência Tecnofantasia.
Depois de um longo período reunindo e avaliando os mais de 70 trabalhos recebidos, os editores escolheram 14 obras, sendo sete de autores portugueses e sete de brasileiros. Não parece ter sido coincidência que a antologia tenha sido assim dividida, provavelmente foi parte do projeto desde o princípio.
O volume apresenta uma característica muito positiva: a qualidade dos contos é bastante homogênea. Não há nenhum conto demasiadamente mau, embora nenhum deles se destaque.
Apresentarei, a princípio, uma rápida sinopse dos trabalhos portugueses que formam o volume, detendo-me a seguir nos trabalhos brasileiros. A ordem de entrada dos contos é a mesma aqui representada, sendo que os contos brasileiros estão intercalados aos portugueses, também na mesma ordem.
Contos portugueses:
“Resíduos sólidos urbanos”, de João Ventura: numa sociedade futura, as pessoas derrotadas são simplesmente jogadas no lixo. Mas há regras. Somente os realmente derrotados podem ser descartados, e instala-se uma crise política quando uma família resolve desfazer-se, ilegalmente, de um vovozinho ainda operacional.
“Fome de pássaro”, de Yves Robert: jovem irrefreável apaixona-se por garota desconhecida que parece ter algo a ver com a aparição fantasmagórica que flutua sobre os telhados, comandando uma revoada de pássaros.
“Littleton”, de Jorge Candeias: turista entra numa simulação virtual da época do faroeste, na qual representa um ladrão de bancos. Porém, as coisas não caminham conforme o roteiro: estranhos equipados com armas de verdade causam pânico entre os avatares do jogo, que dizem ao turista que eles são perigosos criminosos fugitivos refugiados na simulação, e que ele terá de se aguentar enquanto não se resolve um problema técnico que, durante um certo tempo, impede que ele saia do jogo em segurança.
“O pico de Hubert”, de Telmo Marçal: os destinos do assassino perfeito e da acólita de uma seita integralista cruzam-se no último refúgio da civilização depois da queda, não por acaso, uma comunidade corrupta e violenta, dominada por um chefão do crime.
“Assassinos de sobreiros”, de João Ventura: grupo paramilitar extremamente bem equipado invade uma empresa de pesquisas genéticas para assassinar árvores mutantes, mas tem de enfrentar também a equipe de segurança da empresa.
“O nevoeiro que desvendou realidades”, Sofia Vilarigues: numa ilha turística mora uma velha senhora que é uma das últimas falantes de uma língua antiga. Com ela vive seu neto, que aprende os rudimentos dessa língua, que permite dialogar com a natureza. Uma neblina misteriosa leva o jovem a se perder na mata, enquanto uma família num jeep se acidenta em algum lugar selvagem da ilha.
“Deus das Gaivotas”, Antonio e Jorge Candeias: administrador de um pesqueiro passa os dias de baixa temporada em devaneios eróticos com gaivotas. Mas essa é apenas uma história dentro de outra, na qual o autor irritado com a teimosia de seu personagem, o materializa para uma discussão cara a cara.
Contos brasileiros:
“Oberon”, de Walmir Alcântara: garotinha e sua jovem mãe separada de um marido violento, mudam-se para um apartamento de um prédio antigo. As duas são influenciadas por uma presença misteriosa que habita um dos apartamentos superiores e apenas sua vizinha, uma matrona que perdeu a filha, poderá ajudá-las a entender e aceitar seu destino. O conto é doce e simpático, mas soa como algo já lido, refletindo nitidamente as influências do autor. O final feliz arremata o conto de forma previsível.
“Para tudo se acabar na quarta-feira”, de Octavio Aragão: episódio no universo Intempol, criado pelo autor. Desta vez, os agentes da polícia do tempo estão às voltas com um grupo de traficantes do Rio de Janeiro durante o carnaval. O líder da quadrilha – plantado desde criança nessa linha temporal por uma concorrente da Intempol, com o objetivo de desenvolver agressividade e falta de caráter –, depois de um entrevero com outra gangue, vê a namorada, destaque de escola de samba, ser baleada durante o desfile. Sua busca por vingança vai revelar até onde a estratégia de treinamento deu certo. As cenas de ação são  descritas com a crueza costumeira do autor, porém a história em si não chega a parte alguma. Os personagens são todos desprezíveis e não favorecem identificação com o leitor. A história não chega a ter uma conclusão, parecendo ser introdução a uma obra maior. Há uma grande quantidade de referências e citações ao universo intempoliano, que dificulta ainda mais a interpretação dos leitores não iniciados nesse ambiente.
“Digital Éden”, de Gabriel Boz: jovem entrega-se ao vício depois que a consciência de sua namorada desapareceu num computador ilegal conhecido como Digital Éden. Acusado pela polícia de fazer parte dos contraventores e ser responsável pela morte dela, o jovem passa o tempo tomando de drogas pesadas. Sua única esperança é, um dia, poder seguir sua amada. História de desfecho pessimista que não logra ser tão dramática: o personagem inexpressivo não atrai a simpatia do leitor.
“Disse a profetisa”, Carlos Orsi.
Num futuro decadente, uma sociedade teocrática cuja religião está apoiada no corpo congelado de uma viajante do passado, dois jovens irmãos conseguem manter diálogo com a consciência dessa viajante, por meio de um dispositivo eletrônico bem a propósito, que passou centenas de anos sem ter sido descoberto. A conversa abala as bases da religião oficial e acaba por derrubá-la, instalando outra no lugar. Um conto que poderia conter muitos significados, mas que não vai muito longe porque teve um tratamento demasiadamente superficial.
“A irmandade”, de Carlos Patati: várias pessoas têm seu destino modificado pela aquisição, geralmente em condições misteriosas, de um medalhão que lhes dá a capacidade de escutar vozes do presente, passado e futuro. Um a delas usa a capacidade para impedir crimes, antecipando as ações dos criminosos. Mas as coisas não saem de acordo quando ela segue um animado casalzinho numa favela, para impedir que aquele jovem traficante perpetre a maldade que pretende. Conto interessante com boa proposta temática e uma questão moral a ser interpretada pelo leitor. Entretanto, carece de uma estrutura que permita ao leitor memorizar os personagens e compreender o que está acontecendo, principalmente na primeira metade do conto que, de qualquer forma, é curto demais para abrigar a discussão que propõe.
“Ponte frágil sobre o nada”, de Maria Helena Bandeira: mulher vive com o filho cego numa sociedade teocrática que aboliu a linguagem oral (exceto entre os cegos). Repentinamente, a realidade dessa mãe começa a se confundir com outra, na qual homens falantes tentam convencê-la que toda a sua vida é uma ilusão criada pelos sacerdotes. A consciência da mulher salta de uma realidade para outra, sem que ela consiga decidir qual delas é a verdadeira, ganhando contornos ainda mais dramáticos por conta do destino da criança cega, que passa a ter a sua existência questionada. A introdução do conto é interessante, mas  tem desenvolvimento previsível e um desfecho inconclusivo.
“Xochiquetzal  em Cuzco: Uma princesa asteca no reino dos incas”, de Gerson Lodi-Ribeiro, assinando como Carla Cristina Pereira: sequência às narrativas da princesa asteca Xochiquetzal, casada com o navegante português Vasco da Gama numa realidade em que as civilizações nativo-americanos não foram dizimados pelos espanhóis e tornaram-se vassalas de um grande império intercontinental sob o domínio de Portugal. Depois de arrasar a cidade de Calicute, a esquadra de Vasco da Gama parte em direção à América para arrasar outras paragens. Invencível e cruel, a frota lusitana só conhece um meio de negociação: o bombardeio de saturação. Assim, depois de descobrir um novo caminho entre o Pacífico e o Atlântico, ao sul da África, e de batalhar rapidamente contra uma frota espanhola, Vasco e seus almirantes vão à Cuzco bombardear as forças de um novo imperador que, acredita-se, não pretende manter o império inca alinhado à Portugal. A história não tem um estilo narrativo coerente. As vezes, assume o formato de romance, com diálogos voluptuosos, noutras adota o formato de relato de viagem, o que é mais natural uma vez que trata-se de um testemunhal. Porém, a relatora fictícia demonstra um distanciamento displicente dos fatos, como no relato da façanha de dobrar o Cabo das Tormentas, por exemplo. Num momento, com a frota ainda ao largo das ruínas fumegantes de Calicute, os almirantes debatem os grandes riscos de se aventurarem através de um caminho desconhecido que já tirou a vida de muitos navegantes audazes. No momento seguinte, a frota já está no Atlântico, sem maiores delongas. Como personagem, a relatora é praticamente imaterial, sem qualquer função dramática. Lodi-Ribeiro propõe que os atos fictícios de Vasco da Gama seriam mais honrosos que os de Pizarro na história real pois, apesar de igualmente cruéis e violentíssimos, não assumem o caráter genocida que caracterizou as ações civilizatórias sob responsabilidade dos espanhóis. Mesmo não sendo exatamente uma ficção longa, é a maior peça da antologia, com 38 páginas. Mas parece bem mais, pois sua legibilidade é cansativa e incômoda, por conta da grande volume de palavras ilegíveis retiradas das línguas nativo-americanas, tão invasivas que distanciam o leitor. Pelo menos no meu caso, tive de desistir de ler esses termos exóticos para conseguir chegar ao final do conto.
Como é possível perceber, os autores não se incomodaram em seguir a sugestão implícita no título Por universos nunca dantes navegados (que pode até ter sido criado depois de montado o volume): vários contos são sequências de histórias já vistas em outras antologias e mesmo os mais originais entre eles têm um certo ar de já visto. A promessa do título não é, portanto, cumprida. Mas isso não invalida o meritório esforço dos editores que, movidos tão somente pelo prazer da realização, viabilizaram mais uma das raras antologias lusófonas editadas em Portugal, belamente produzida pela lulu.com, um serviço internacional de tiragens por demanda.
Cesar Silva

domingo, 27 de setembro de 2015

Celular, Stephen King

Celular (Cell), Stephen King. 398 páginas. Tradução de Fabiano Morais. Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2007.

Romance de horror e ficção científica do festejado escritor norte-americano Stephen King, autor de best sellers como O iluminado (The shining), Carrie (Carrie), A dança da morte (The stand), Christine (Christine), entre outros.
Em Celular, King volta a um tema que ele mesmo já explorou em outras histórias: o do cidadão americano comum diante do fim do mundo como o conhecemos. Desta vez, ele é Clayton Riddell, um jovem artista que acaba de assinar o seu primeiro contrato com uma grande editora de histórias em quadrinhos de Boston. Ao sair da editora, por volta da 15 horas do dia 1 de outubro,  diante de um prosaico quiosque de sorvetes, testemunha um surto coletivo de loucura da população em geral. As pessoas começam a se engalfinhar em lutas sangrentas e mortais, automóveis fora de controle atropelam pedestres e invadem lojas, causando grande destruição, pessoas em pânico correm pelas ruas, perseguidas por outras que gritam sons desarticulados.
Um desconhecido ataca Clay com um cutelo de açougueiro, mas Clayton é salvo pelo providencial intervenção de Thomas McCourt, um homem baixinho, de bigotes, e com um ar um tanto afetado, mas que não estava louco. Juntos, eles sobrevivem às primeiras horas de caos escondidos num bar, onde encontram outras pessoas igualmente apavoradas e em estado de choque, como a jovem Alice Maxwell, que perdeu a mãe para a loucura. Do lado de fora, a matança continua e, em algum momento, acaba a energia elétrica, assinalando o fim da civilização humana na Terra.
Clay está muito longe de sua casa, em Kent Pond, e preocupa-se com sua esposa Sharon e seu filho Johnny, de doze anos, que lá ficaram enquanto ele empreendia a viagem à Boston. Durante a noite, as coisa se acalmam e, uma vez que Tom mora nos arredores da Boston, Clay e Alice decidem que é uma boa ideia acompanhá-lo até lá. Quando saem da cidade, percebem que boa parte dela arde em chamas.
Eles passam o restante da noite na casa em que Tom morava apenas com seu gato, sem maiores surpresas. Especulando sobre as causas do fenômeno, chegam a conclusão que pode ter sido ocasionado por algum tipo de pulso eletrônico distribuído pelos celulares, e passam a evitar todo o tipo de aparelhos, incluindo rádios e televisores, que também poderiam distribuir o pulso. Sem condição de se comunicar, o único modo de Tom ter notícias da família é indo até Kent Pond. Enquanto se preparam para a longa expedição, observam os enlouquecidos, aos quais chamam de "fonáticos". Percebem que eles demonstram um padrão comportamental: desaparecem durante a noite, mas são muito ativos durante o dia, circulando como zumbis pelas ruas, em busca de alguma coisa que nem eles mesmos parecem saber o quê. A princípio, atacam-se mutuamente, mas esse comportamento aos poucos começa a desaparecer. Os fonáticos também não demonstram interesse em entrar nas casas, de forma que o grupo decide viajar durante a noite, recolhendo-se em algum abrigo durante o dia. Com armas de fogo obtidos numa casa abandonada, partem rumo a Kent Pond.
Durante as longas semanas seguintes, os três companheiros encontram ao longo das estradas dos Estados Unidos um cenários de completo caos e decadência. Cidades abandonadas, muitas destruídas, milhares de carros acidentados com os corpos dos motoristas ainda dentro deles, muitas vezes semi-devorados, e cadáveres insepultos espalhados por toda parte. Os fonáticos, cada vez mais deteriorados, parecem não ter consciência de sua situação. Imundos, alguns com ferimentos gravíssimos, seguem sua rotina sem sentido. Aos poucos os peregrinos percebem que eles estão se organizando em grandes grupos e que parecem comunicar-se telepaticamente.
Nas ruínas de uma escola, Clay, Tom e Alice encontram Jordan, um jovem gênio da eletrônica que sobrevive ali junto ao Sr. Charles Ardai, velho professor e diretor interino da outrora pujante Academia Gaiten. Os três os ajudam a realizar um grande ataque a uma concentração de fonáticos num arruinado campo de futebol. A matança é tão horrenda que motiva o líder dos fonáticos, um negro tão ferido que eles o chamam de Homem Escangalhado, a dedicar atenção especial ao grupo. Fica claro que os fonáticos não estão apenas organizados, mas estabeleceram uma nova ordem social no mundo, incompatível com a existência dos não-fonáticos. A partir do primeiro encontro do Homem Escangalhado, que obriga o velho Charles a suicidar-se controlando-lhe os pensamentos, os quatro sobreviventes prosseguem o caminho para Kent Pond, com as esperanças de Clay cada vez mais reduzidas de encontrar sua esposa e filho com vida.
Celular está dividido em nove episódios, separados conforme a narrativa salta de nível para nível: "O pulso", "Malden", "Academia Gaiten", "As rosas murcharam, o jardim morreu", "Kent Pond", "Bingo do telefone", "Worm", "Kashwak" e "Salvar no sistema".
É interessante notar que, ao contrário de outros trabalhos, King não deixa para mostrar as cenas de horror mais pesadas no final do livro: ele as coloca logo de cara, a partir dos primeiros parágrafos da história, nos momentos iniciais da loucura que se abate sobre a civilização. A tensão escatológica sobrenatural mantém-se por todo o primeiro episódio, mas logo deixa de ser uma história de horror e torna-se uma ficção pós-apocalíptica na linha de Eu sou a lenda (I'm a legend) de Richard Matheson, associado a A noite dos mortos-vivos (Night of the living dead), de George Romero, autores aos quais King dedicou o romance.
Mas King vai ainda mais longe pois, além de ser um bom contador de histórias com ótimas referências, é um grande criador de personagens, provavelmente sua melhor qualidade como escritor. Cada um dos personagens das suas histórias – e Celular não é exceção – é um confidente do leitor, tão realista quanto pode ser um personagem de ficção. Desse modo, seus dramas parecem mais vivos e agudos, suas decisões mais dolorosas, suas experiências mais traumáticas. A certa altura, o leitor começa a se perguntar o que ele faria no lugar daquele personagem e, geralmente, as opções não são muito animadoras: tornamo-nos seus cúmplices, o que faz as questões morais envolvidas ficarem muito mais contundentes.
O romance, originalmente lançado em 2006 nos EUA, já recebeu o interesse da indústria cinematográfica, mas não espere pelo filme: o livro
é suficientemente bom por si só.
— Cesar Silva

domingo, 20 de setembro de 2015

616: Tudo é inferno, Angel Gutierrez & David Zurdo

616: Tudo é inferno (616 Todo es infierno), Angel Gutierrez & David Zurdo. 304 páginas. Tradução de Sandra Martha Dolinsky. Editora Planeta, São Paulo, 2007.

Depois da morte de Jesus Cristo, muitos textos foram escritos a respeitos dos dias em que o Filho de Deus andou entre os homens. Na maioria dessas histórias, Judas, o traidor que vendeu Jesus aos soldados romanos, tem um destino trágico. Mas e se ele não tivesse morrido e deixasse um texto seu com um depoimento que poderia abalar a cristandade?
Esse é o ponto de partida do interessante romance de horror 616: Tudo é inferno, dos escritores espanhóis Angel Gutierrez e David Zurdo, que também assinaram o livro O último segredo de Da Vinci: O enigma do Santo Sudário (2005, Novo Século). Pesquisadores de formação científica, Gutierrez e Zurdo usam seus conhecimentos para dar verossimilhança à uma narrativa que mistura fato e ficção.
A história é centrada no padre jesuíta Albert Cloister, membro de um grupo especial do Vaticano chamado Lobos de Deus, especializado em fenômenos paranormais. Ele pesquisa casos de quase morte, colhendo relatos assustadores de quem teve a oportunidade de ver o que existe do “lado de lá”. Ao acompanhar a exumação do corpo de um padre em vias de ser beatificado, descobre todos os ossos do cadáver quebrados e, no tampo do caixão, gravada à unha, a frase “Tudo é inferno”. Isso o lança numa busca dramática pela verdade absoluta a respeito do plano de Deus para o mundo dos homens. Na pesquisa pelo esclarecimento desse mistério, o padre tem contato com um texto secreto, um códice mantido no Vaticano, que abala suas convicções a respeito das forças que comandam o mundo.
Paralelamente, o bombeiro Joseph Nolan salva o velho deficiente Daniel de morrer num incêndio e acaba por se envolver com a psicóloga Aldrey Barret, que trata dele no hospital. Aldrey teve uma experiência dramática em sua juventude, da qual nunca se recuperou, e também está sofrendo com o desaparecimento do seu filho há alguns anos. Numa das sessões de tratamento, Daniel manifesta uma personalidade maligna e mostra conhecer os segredos obscuros do passado de Aldrey. Cética, ela tenta encontrar orientação com outros profissionais sobre o fenômeno, mas as seções ficam cada vez mais sinistras e a convencem de que o velho está realmente possuído por um demônio.
Na segunda parte do romance, enquanto o Padre Cloister encontra uma localidade em que uma voz sobrenatural lhe revela mistérios através de gravações num aparelho eletrônico, Daniel é submetido a uma tumultuada sessão de exorcismo, quando a entidade no corpo de Daniel revela informações a respeito do paradeiro do filho de Aldrey. Ela então toma uma decisão radical, lançando-se numa trilha de vingança que vai levá-la a uma pequena cidade onde um bem sucedido autor de livros para crianças mantém um segredo terrível no porão. Nolan e Cloister juntam-se a ela para tentar entender por que parece que Deus se esqueceu da humanidade enquanto o mal domina o mundo.
616: Tudo é inferno lembra muito o estilo profissional de Stephen King, com uma ótima construção de personagens. As descrições vivas e precisas de diversos locais do mundo remetem aos romances de Dan Brown.
Apesar da boa distribuição e um interessante trabalho de promoção – a editora distribuiu amostras grátis impressas com um trecho do romance – o livro passou despercebido no Brasil, talvez por ter ficado à sombra desses autores pesos-pesados, e também por serem escritores pouco identificados com a literatura fantástica. Entretanto, trata-se de um livro envolvente que agrada tanto ao leitor não iniciado quanto aquele já experiente no gênero. O final algo redentor diminui o impacto das discussões que o romance evoca, tirando-lhe ainda boa parte da aura de horror escatológico que poderia sustentar, caso tivesse um desfecho mais tenebroso.
É bom perceber, de qualquer forma, que as editoras como a Planeta do Brasil têm publicado autores e títulos inéditos de procedências variadas (no caso, da Espanha), ampliando o espectro de propostas para o leitor brasileiro. Mesmo não sendo um expoente do horror, 616: Tudo é inferno é uma ótima opção de leitura.
Cesar Silva

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A Estrada, Cormac McCarthy

A Estrada (The Road), Cormac McCarthy. 234 páginas. Tradução de Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva – selo “Alfaguara”, 2007.

Apesar de não ser um autor ligado à ficção científica, este romance de Cormac McCarthy era um dos mais aguardados lançamentos para o mercado brasileiro, desde que foi lançado nos Estados Unidos em 2006.
De muito prestígio nas letras americanas, McCarthy venceu o mais importante prêmio literário de seu país, o Pulitzer de 2007, com A Estrada. Já entre os prêmios mais importantes da ficção científica do mesmo país, o livro não alcançou o mesmo impacto. Talvez porque o tema não seja novidade para os iniciados no gênero, pois ‘fim do mundo’, ‘terra devastada’ ou ‘pós-holocausto nuclear’ estão entre os mais explorados pelos especialistas no gênero, com clássicos indiscutíveis como, por exemplo, Só a Terra Permanece (1949), de George R. Stewart e Um Cântico para Leibowitz (1959), de Walter M. Miller Jr.
Mesmo assim, entre os sub-gêneros da ficção científica mais abordados pelos autores mainstream está o tema do fim dos tempos. E não é para menos, especialmente entre as décadas de 50 e 80 do século passado quando sob a vigência da Guerra Fria, o mundo esteve por mais de uma vez às portas de uma guerra final. Exemplos são romances como A Hora Final (1957), de Nevil Shute e Após o Fim (1960), de Alfred Coppel.
Não sei as razões que levaram McCarthy a escrever um livro com este tema neste início de século XXI, mas apesar do apocalipse nuclear não estar mais nas manchetes diárias dos jornais, o mundo pode sim vir a viver uma catástrofe de dimensões próximas ou semelhantes, por outras razões. Seja por um novo supervírus com contínuas mutações, um sério desequilíbrio ecológico ou mesmo o impacto de um corpo celeste no planeta em que vivemos.
Curioso também é que A Estrada trata do tema do fim da civilização e do mundo natural como o conhecemos sem nos dizer claramente o que afinal aconteceu. É verdade que lá pela página 47 o homem que segue peregrinação com seu filho relembra o que teria acontecido, ao ouvir o som de uma grande explosão, seguida de outros menores e terremotos. Ele não volta a especular sobre o que ocorreu, mas pela descrição do estado do que sobrou intui-se que tenha sido o resultado de um conflito nuclear. Afinal o planeta foi devastado, as cidades em ruínas, as florestas queimadas ao ponto de se transformarem em cinzas, uma grande quantidade de fuligem pelo ar, o que impede uma maior incidência da luz do Sol e, por consequência, do calor. Os mares mortos, escuros e estéreis.
O cenário é aterrador, mas o verdadeiro enredo e drama estão centrados na história de um homem e seu filho que percorrem uma longa, triste e perigosa jornada em direção ao Sul, em busca de um pouco menos de frio e, quem sabe, alguma coisa melhor do que a destruição com que passaram a conviver. Munido de um mapa velho e tendo como referência uma estrada principal e algumas secundárias eles seguem seu caminho sob neve intensa, frio e chuva, juntando em um carrinho de supermercado o pouco que aparece pelo caminho para comer e se proteger – produtos enlatados, roupas e um revólver – e deparando-se, vez por outra, com outros sobreviventes. E o encontro com estes revela-se sempre o mais potencialmente perigoso.
Além do aspecto prático há também um forte simbolismo na escolha da estrada como condutora da jornada. Pois ela representa ao mesmo tempo liberdade e busca pela fronteira do desconhecido. O sentido de desbravamento e conquista é muito caro ao imaginário ocidental – e norte-americano em particular. Mas em um mundo como esse o único sentido que resta à estrada é o da busca de salvação à queda. Pois a civilização caiu, não existe mais Estado, nem leis e ordem, e a moral é a individual de cada um, baseada, no fim, numa luta dramática em permanecer vivo. E mais por instinto do que por razão. Pois o ser humano está reduzido à sua crua condição de animal num verdadeiro estado de natureza à lá Hobbes, para quem ‘o homem é o lobo do homem’. Pelo caminho, pai e filho são “os caras do bem” – na tocante definição do menino – à procura de outros “caras do bem” que, em princípio, só pode caber na fantasia do menino.
A prosa é fluente, direta e ao mesmo tempo intimista, contada por um narrador onisciente, num tom marcado pela desesperança ante o caos estabelecido. É, nesse sentido, uma história muito triste e fatalista, mas não necessariamente depressiva. Vale a pena acompanhar a viagem rumo a não se sabe o quê de um pai e seu filho, aí a verdadeira força da história, na luta desesperada pela sobrevivência, mesmo que objetivamente falando, não haja futuro nenhum para os dois, especialmente para uma criança. Pois em um mundo como este é como se não houvesse sentido para a juventude, já que o mundo não tem mais nada a oferecer.
Talentoso como é, McCarthy tira muita emoção da história também pela maneira como a conta. Não há capítulos, apenas pequenas pausas de páginas em páginas, acentuando um caráter de continuidade e fruição que reforça o sentido da busca angustiosa e sem pausa pelos dois personagens. Também os diálogos estão entremeados ao texto, sem nenhum tipo de indicação, dando a impressão de que tanto a narrativa, quanto as falas misturam-se mutuamente, o que ilustra o caráter psicológico e de proximidade do drama dos personagens junto ao leitor.
Pai e filho só tem um ao outro. Sabe-se que a mãe não aguentou o horror. Se o homem mantém sua integridade moral ela deve-se, em boa parte, ao menino. É bonito ver como ele é cuidadoso e amoroso, não só em cuidar da saúde do filho, como também em incutir nele valores nobres em um mundo que perdeu o rumo. E, claro, há passagens marcantes, como quando o menino vê outro menino e pede ao pai para adotá-lo, mas este nega; ou ao encontrarem um velho maltrapilho e o alimentarem. E em momentos especialmente perigosos ou horríveis, como quando encontram saqueadores, num depósito subterrâneo com prisioneiros a serem abatidos para alimento. Sim, o canibalismo viceja neste mundo degradado, como em mais de uma oportunidade eles têm a oportunidade de se deparar.
Impressiona na narrativa a sensação de morte iminente do pai e seu filho. O leitor é conduzido a cada página e parágrafo – ainda mais porque não há capítulos, como disse –, ao suspense de que algo novo e horrível pode acontecer. Ainda mais porque tanto o pai como o filho nos transmitem de maneira vívida este medo e angústia, tornando o leitor uma espécie de testemunha participante do drama.
Em termos de ficção científica strictu sensu esta história não inova em termos temáticos. A sensação macro de transformação dramática, apocalíptica que o mundo pode passar, no caso de vivenciar um armageddon, comum nos clássicos, está presente, mas não de forma prioritária no plano narrativo. Talvez porque o próprio autor tivesse isso em mente, de que seria bobagem querer acrescentar algo deste tipo a esta altura de desenvolvimento do gênero. Assim, partiu para uma abordagem mais íntima e individualizada, centrada no relacionamento de duas pessoas em um mundo destituído de sentido. Por esse aspecto o romance é mais efetivo, pois ao situar o drama deste ponto de vista, o torna mais próximo da situação que cada um de nós poderia, eventualmente, passar numa situação limite e trágica como esta.
Com isso, A Estrada faz a diferença e encontramos a sua grandeza humana e artística, ao iluminar a especificidade do relacionamento muito próximo e especial que existe – ou pode existir – entre um pai e seu filho. Pois mesmo neste cenário terrível, ainda prevalece o amor como um valor importante entre duas pessoas. Neste sentido o livro emociona – e para além do período de sua leitura – tanto em seu desenvolvimento como, principalmente, pelo desfecho brilhante e inesquecível que está reservado para o destino da jornada de um homem e seu menino num mundo moribundo.
Marcello Simão Branco