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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Bestiário, Júlio Cortázar

Bestiário
(Bestiario), Júlio Cortázar, 112 páginas, tradução de Remy Corga Filho. São Paulo: Edibolso, 1977. Publicado originalmente em 1951.

Bestiário é uma coletânea com oito contos do escritor argentino Júlio Cortazar (1914-1984), publicada originalmente em 1951. O autor é vinculado ao fantástico latinoamericano, ao lado de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Gabriel Garcia Marques, mas apresenta um estilo muito particular que o identifica perante seus colegas. 
Cortázar nasceu na Bélgica, mas foi criado na Argentina desde os três anos de idade. Mais tarde, naturalizou-se francês, em protesto contra a ditadura na Argentina. Seus textos muitas vezes se aproximam do surrealismo, escola com a qual também é identificado. 
Os contos desta coletânea são todos curtos, mas a leitura não é fácil nem divertida: são textos perturbadores e dolorosos. Realistas, quase sempre poderiam ser instalados no mundo real sem muito mistério mas, mesmo assim, carregam estranhamento suficiente para torná-los eventos incomuns; cada um proporciona ao leitor uma experiência estética profunda e singular. 
O conto de abertura é "Casa tomada": um casal de irmãos habita uma mansão que, aos poucos, vai sendo invadida por estranhos. "Carta a uma senhora em Paris" é um relato epistolar em que a missivista acredita vomitar coelhos. "A distante" mostra um trecho do diário íntimo de uma mulher que tem vislumbres trágicos de uma outra vida, não necessariamente dela. "Ônibus" relata o início do passeio de uma doméstica em seu dia de folga. Ela embarca em um ônibus metropolitano em que acontecem coisas muito estranhas. "Cefaleia" narra o dia-a-dia de um casal numa granja de mancuspias (um animal imaginário). Contudo, os granjeiros são regidos por uma fixação em doenças. "Circe" é o conto mais simples, sobre um rapaz que flerta uma garota cujos  noivos anteriores morreram em condições misteriosas. O nome do conto meio que entrega, mas o final não é tão previsível. Em "As portas do céu", dois jovens de luto vão espairecer em um barzinho e lá tem uma experiência algo metafísica. "Bestiário", que encerra e dá nome a seleta, é uma espécie de Sítio do Picapau Amarelo à moda portenha, ou seja, não é para crianças. Uma garotinha vai passar as férias na fazenda dos tios que estão com problemas no casamento, mas todos sempre têm de estar muito atentos para evitar um tigre que vaga entre os aposentos da residência.
A edição deste resenha é de 1977, publicada pela Edibolso; tem 112 páginas e tradução de Remy Corga Filho. Mas há edições mais recentes disponíveis nas livrarias, inclusive uma de 2025 pela Companhia das Letras. Leitura obrigatória para todos que pretendem conhecer os traços identitários da ficção latinoamenricana e brasileira. 
Parafraseando o ditado, com Cortázar não se aprende pelo amor, mas pela dor.
Cesar Silva

sábado, 28 de julho de 2018

The War in Space / Battle in Outer Space 2 (Japão, 1977)



The War in Space” é o título americano dessa bagaceira de FC japonesa produzida pela “Toho” em 1977, aproveitando o lançamento de “Star Wars” para tentar lucrar com as histórias de guerras no espaço. O filme também é conhecido como “Battle in Outer Space 2”, numa referência como algum tipo de sequência para “Os Bárbaros Invadem a Terra” (The Mysterians, 1957) e “Mundos em Guerra” (Battle in Outer Space, 1959), ambos dirigidos por Ishirô Honda.
A história é ambientada em 1988, um futuro para a época da produção e um passado já distante para os tempos atuais, 30 anos depois. A Terra está sendo atacada por alienígenas de um planeta muito distante que está em processo de extinção, e que procuram outro lugar para viverem, um dos clichês mais saturados desse sub-gênero da FC. Eles estabelecem uma base em Vênus e promovem um ataque destrutivo nas principais cidades do nosso mundo. Para combatê-los, um renomado cientista japonês, Professor Takigawa (Ryô Ikebe, que esteve também no anterior “Mundos em Guerra”), projetou a nave de guerra “Gothen”, que é utilizada como representante da humanidade e da “Federação Espacial das Nações Unidas” para deter a invasão alienígena.
A “Gothen” tem uma broca perfuradora gigante localizada na parte frontal e com suas armas de raios laser e um sistema de lançamento de aviões similar ao disparo de projéteis de um revólver, vai até Vênus para destruir a base inimiga. A bela filha do cientista, June (Yûko Asano), é sequestrada pelo líder dos vilões e seu antigo namorado, Miyoshi (Kensaku Morita), tenta resgatá-la, respondendo um pedido do atual noivo da moça, o piloto Morrei (Masaya Oki), formando um tradicional e clichê triângulo amoroso. Trava-se então uma guerra no espaço longínquo, no distante planeta Vênus, entre os humanos e os alienígenas invasores, com sua imensa nave na forma de um galeão típico de navegação em nossos oceanos, com suas esferas voadoras que soltam raios laser.
“The War in Space” ou “Wakusei Daisenso” (no original japonês) é um filme bagaceiro de ficção científica dirigido por Jun Fukuda, com uma história típica das exageradas batalhas espaciais entre os humanos e invasores alienígenas, pela defesa de nosso planeta tão cobiçado. A única característica realmente interessante, para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro, são as esperadas maquetes e miniaturas de naves e aviões de guerra, os cenários coloridos tanto das bases terrestre como a alienígena, os computadores gigantes imaginados pelas mentes dos roteiristas da época, e o vilão estranho, aqui representado pelo líder tirano Comandante Supremo do Império da Galáxia, de pele verde e usando um capacete e vestuário hilários. As naves são barulhentas e a “Gohten” até solta fumaça, “poluindo” o espaço.
Porém, de resto, o filme é muito ruim. A interpretação dos atores é sofrível, sendo impossível estabelecer alguma empatia com os personagens e seus destinos. O inexpressivo ator David Perin, que faz o papel do piloto Jimmy, tem uma cena patética onde tenta esboçar alguma emoção ao saber da morte da família num ataque alienígena. Mas, ele falha de forma desastrosa na tentativa. O roteiro é extremamente superficial, explorando os mesmos elementos de dezenas de filmes similares sobre invasão alienígena pela posse da Terra.
Curiosamente, em outra cena patética, temos um clone pobre do “Chewbacca”,o “Wookiee” que se tornou um ícone popular pela cultuada saga “Star Wars”. Só que a cópia japonesa tem chifres bizarros e é um simples guarda que aterroriza a mocinha presa pelo vilão. Porém, ao contrário do famoso guerreiro original, esse é tão incompetente que dá pena.
(Juvenatrix – 26/07/18)



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

As Condenadas (The Gestapo´s Last Orgy, Itália, 1977)


Lançado em fita VHS no Brasil pela “Century Video”, “As Condenadas” é um filme italiano de 1977 que tem o sonoro título internacional “The Gestapo´s Last Orgy”, tradução literal em inglês do original “L´ultima Orgia Del III Reich”. É um obscuro “nazisploitation” repleto de sadismo e violência contra mulheres judias num campo de concentração alemão na Segunda Guerra Mundial, um local especial para receber as prisioneiras com o intuito de entreter os oficiais e soldados nazistas.Com direção de Cesare Canevari (1927 / 2012), a história apresenta uma bela e jovem mulher, Lisa Cohen (Daniela Poggi, creditada como Daniela Levy), que se encontra com o antigo amante num campo de concentração abandonado em ruínas, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Ele era o líder do presídio, Comandante Conrad von Starker (Adriano Micantroni, creditado como Marc Loud), que dirigia o lugar com crueldade, sendo responsável por torturá-la até que se tornasse sua amante.
Primeiramente, como ela sentia-se culpada pela morte dos pais, perdeu o interesse pela vida e reagia com frieza e sem emoções diante das torturas físicas e psicológicas. Depois, recuperou o desejo de viver e cedeu às imposições do comandante alemão. Porém, depois de engravidar e ver o destino terrível de seu filho com sangue judeu, Lisa espera o fim da guerra para reencontrar seu algoz, reviver o passado tenebroso e terminar o pesadelo.

“Vou destruir seu corpo e sua mente. E o único modo, o único de temer a morte, é ficando viva. E quando aquele momento, só quando aquele momento chegar, você morrerá.” – Comandante Conrad von Starker

O filme fez parte da lista de “vídeos nasty” por causa do conteúdo violento, sendo banido na Inglaterra, tanto que essa informação está estampada num dos cartazes originais, como forma de chamar a atenção do público. O fato pode ser explicado pelas inúmeras cenas perturbadoras de horror bizarro e violência contras as mulheres prisioneiras. Elas são espancadas e utilizadas como escravas sexuais para os soldados alemães estressados com os conflitos nos campos de batalha, e para satisfazer os sádicos oficiais que sentem prazer em infligir castigos dolorosos.
Entre as bizarrices incompatíveis com qualquer senso de racionalidade, temos uma mulher oferecida viva como alimento para cães raivosos, atos de coprofagia, estupros coletivos, execuções em câmera de gás e reservatório de ácido, mulheres penduradas de cabeça para baixo próximas de ratos famintos aguardando a refeição. Ou, podendo servir como um ápice para esse conjunto de atrocidades, uma mulher é embriagada e depois queimada no meio de um jantar de gala dos oficiais, onde o prato principal é carne humana de judeus executados e bebês recém-nascidos.
A violência apresentada nem é tão gráfica, existindo uma infinidade de outros filmes mais extremos e sangrentos. Porém, o que o aproxima de ser considerado perturbador são as várias cenas de conteúdo transgressor e que chocam pela crueldade.
Curiosamente, “As Condenadas” também possui outro título original igualmente estranho e incomum, “Calígula Reincarnated as Hitler”, numa referência ao cruel tirano e imperador romano Calígula, retornando dos mortos e reencarnando no ditador alemão Adolf Hitler.
      
“Quando o super-homem deseja se divertir, ele deve fazê-lo com o preço da vida dos outros.” – introdução do filme – palavras de Friedrich Niezsche (1844 / 1900), filósofo e poeta alemão conhecido pelos textos recheados de metáforas, ironias e aforismo. 

(Juvenatrix – 03/08/17)


domingo, 22 de janeiro de 2017

Fantasmas Que Ainda Vagam (Ghosts That Still Walk, EUA, 1977)


Curiosamente, o mercado brasileiro de vídeo VHS, que iniciou seus lançamentos principalmente a partir de meados dos anos 1980, distribuiu por aqui vários filmes obscuros que normalmente apostaríamos que jamais fossem comercializados. É o caso da produção americana “Fantasmas Que Ainda Vagam” (1977), lançado pela D.I.V (Distribuidora Internacional de Vídeo), com direção e roteiro do desconhecido James T. Flocker.
Um adolescente de quinze anos, Mark Douglas (Matt Boston), está com fortes dores de cabeça e sua avó religiosa Alice (Ann Nelson) está tentando ajudá-lo a descobrir as causas. Depois de consultar um médico, ela é orientada a falar com a psiquiatra Dra. Sills (Rita Crafts), que estuda o caso e descobre uma série de incidentes estranhos com a família do garoto. Uma vez utilizando-se de hipnose descobre detalhes sobre um misterioso acidente com Alice e o avô do jovem doente, Harold (Jerry Jensen), que sofreu um ataque cardíaco depois de serem atacados por uma força sobrenatural enquanto viajavam pelo deserto num motorhome.
A psiquiatra se interessa mais pelo caso e descobre que a mãe do menino, Ruth (Caroline Howe), é uma escritora que estava trabalhando num livro sobre a história de uma antiga tribo indígena de mais de 500 anos. E que depois de resgatar uma misteriosa múmia índia de uma caverna, sofreu um colapso nervoso, intrigando a Dra. Sills e complicando progressivamente a solução da crise do garoto, que está piorando e se comportando estranhamente. 
“Fantasmas Que Ainda Vagam” certamente é um filme obscuro, pouco conhecido e que jamais imaginaríamos que fosse lançado em VHS no Brasil. A história até possui algum interesse, mesmo sendo um clichê já muito explorado, sobre um fantasma atormentado que aterroriza os vivos e está em busca de sua paz espiritual. Porém, a narrativa é bem arrastada na maior parte do tempo, num convite ao sono, apesar de algumas boas sequências de tensão como a cena do motorhome desgovernado em alta velocidade pelo deserto, controlado pelo fantasma. E o incrível ataque das pedras rolantes que se locomovem de forma ameaçadora pelas areias em direção ao motorhome das vítimas, numa longa sequência bem produzida, com efeitos convincentes numa época sem as facilidades da computação gráfica. Vale conhecer apenas pela curiosidade de um filme obscuro.
(Juvenatrix – 22/01/17)


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A Maldição de Ghor (Dark Echoes, Iugoslávia / EUA, 1977)


Um exemplar tosco e bagaceiro do cinema fantástico de meados dos anos 1970, numa co-produção entre a antiga Iugoslávia e Estados Unidos, dirigido e escrito pelo americano George Robotham (1921 / 2007), em seu único trabalho nesse ofício, uma vez que sua carreira foi como ator de séries de TV e principalmente dublê. Estamos falando de “A Maldição de Ghor” (Dark Echoes), lançado no Brasil em VHS, com a típica história de uma pequena cidade no meio das montanhas amaldiçoada por um fantasma zumbi vingativo.
Em 1874 um navio com cerca de oitenta pessoas afundou num lago próximo de uma cidadezinha na Áustria. A culpa pelo naufrágio recaiu para o capitão Manfred Ghor (Norman Marshall), que voltou do mundo dos mortos para se vingar dos moradores da cidade, especialmente os descendentes dos promotores responsáveis por sua condenação. Quando mortes violentas começam a acontecer, aterrorizando a cidade e dando-lhe a fama de assombrada, um detetive da polícia, Inspetor Woelke (Wolfgang Brook), coordena as investigações e chama para ajudá-lo seu amigo americano Bill Cross (Joel Fabiani), que tem poderes mediúnicos. Juntamente com uma jornalista, Lisa Bruekner (Karin Dor), eles investigam os assassinatos, entrevistam os moradores como a misteriosa Sra. Ziemler (a atriz húngara Hanna Hertelendy), que tem um corvo de estimação e lidera um estranho culto secreto de feitiçaria, e tentam localizar o fantasma do capitão Ghor.
A história é um grande clichê, sem novidades e previsível do início ao fim, principalmente no desfecho. Mas, independente disso, o filme até diverte justamente pelas características bagaceiras da produção, somadas às atuações inexpressivas do elenco e dos efeitos toscos do monstro assassino, com um trabalho risível de maquiagem, numa época sem computação gráfica. Tem também boas cenas com mortes violentas como uma decapitação sangrenta. A condução da investigação policial não empolga e é até bem sonolenta, mas o filme tenta passar um clima sinistro no interior de cavernas e nas ruínas de um castelo de uma pequena cidade atormentada por um fantasma em busca de vingança contra seus algozes. Além de interessantes sequências aquáticas quando um grupo de mergulhadores investiga o barco naufragado no fundo do lago e é surpreendido pelo capitão Ghor apodrecido e ansioso para aumentar sua coleção de vítimas.
As primeiras cenas de ataques do fantasma zumbi até conseguem estabelecer um atmosfera sombria onde o assassino sobrenatural não é visto, aparecendo apenas sua sombra e ouvindo seus grunhidos nos últimos momentos que antecedem a morte das vítimas. E depois que ele é mostrado, com uma maquiagem tosca de cadáver podre, suas aparições tornam-se os destaques do filme, justamente pelas características bagaceiras. Vale conhecer o obscuro “A Maldição de Ghor” por curiosidade e para comprovar como os efeitos toscos são bem mais divertidos que o CGI vagabundo do cinema tranqueira do século XXI.
(Juvenatrix – 10/08/16)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Incrível Homem Que Derreteu (The Incredible Melting Man, EUA, 1977)

“Maravilhoso! Você não viu nada ainda até ver o sol através dos anéis de Saturno!” – astronauta Steve West

                  
Em 1977 foi produzido um filme tipicamente “B”, de baixo orçamento, mesclando um argumento central de ficção científica com fortes elementos de horror, resultando em mais uma preciosidade do gênero fantástico. Trata-se de “O Incrível Homem que Derreteu” (The Incredible Melting Man), cujo nome é bem parecido e talvez até tenha se inspirado no clássico de FC dos anos 1950, filmado exatamente 20 anos antes, “O Incrível Homem que Encolheu” (The Incredible Shrinking Man, 1957).
Em comum, eles têm o terrível drama particular vivido pelo personagem principal, que se envolve numa situação completamente inesperada. No filme de 1957, dirigido por Jack Arnold, baseado num livro de Richard Matheson, um homem (interpretado por Grant Williams) começa a encolher após ficar exposto a uma nuvem radioativa, num processo irreversível que o coloca frente a perigos mortais como seu gato de estimação ou uma simples aranha no porão. O personagem tem que lutar por sua sobrevivência e aceitar sua inédita condição encarando as novas realidades à medida que encolhe e participa de novos mundos. Já o filme de 1977, dirigido e escrito por William Sachs, traz um astronauta (Alex Rebar) que retorna de uma missão espacial nos anéis de Saturno como o único sobrevivente da expedição e trazendo consigo uma doença misteriosa que literalmente derrete seu corpo aos poucos, deformando sua mente e transformando-o num assassino gosmento.
“O Incrível Homem que Derreteu” foi lançado no mercado brasileiro de vídeo VHS pela “Globo”, transformando-se numa enorme raridade para os fãs do gênero.

(Para quem não assistiu o filme ainda e não quer saber de detalhes reveladores da história e do final, não leia os parágrafos seguintes, pois contém “Spoilers”. Mas, caso já tenha visto ou tenha muita dificuldade no acesso ao filme e quer conhecer a horripilante trajetória do incrível homem que derreteu, continue a leitura).


O drama do astronauta Steve West começa logo quando sua nave “Scorpio 5” retorna de Saturno. Como único sobrevivente da missão e com o corpo todo coberto de feridas pútridas, ele acorda no leito de um hospital do exército todo enfaixado, com o governo mantendo em sigilo o fracasso da expedição e a morte dos outros dois astronautas, isolando a imprensa e a população dos fatos reais.
Ver o sol pelos anéis de Saturno deve ter sido mesmo uma experiência única e maravilhosa, como enfatizou o astronauta na frase reproduzida no início desse artigo, mas também trouxe-lhe como consequência uma misteriosa doença degenerativa. Ao descobrir o estado deformado de seu rosto e mãos, ele se rebela furiosamente e ataca uma enfermeira, matando-a de forma violenta e fugindo desorientado do hospital, vagando sem rumo pela floresta vizinha (esses filmes são super divertidos justamente pelas cenas absurdas do roteiro como nessa sequência que é bem inverossímil, pois só há uma única enfermeira no local e o assassino consegue fugir pelos corredores desertos do hospital com extrema facilidade).
Caminhando pela floresta desnorteado por descobrir sua real condição de “homem derretido”, o astronauta Steve encontra um pescador e arranca sua cabeça com as mãos, jogando-a num riacho. Essa cena de horror é de forte impacto, principalmente para a época da produção, e foi bem explorada mostrando a cabeça decepada do pescador descendo o rio até uma pequena cachoeira e se espatifando contra uma pedra, jorrando sangue para todos os lados.
A mente decomposta do astronauta incitou nele um instinto selvagem para matar e a cada nova vítima ele ganhava mais força para continuar vivo. Para perseguí-lo, surgem então o médico Dr. Ted Nelson (Burr DeBenning, de “Cidade Sob o Mar”, 71) e o militar do exército General Perry (Myron Healy, de “O Extraordinário”, 57), amigos de Steve que tentam capturá-lo antes que ocorram mais mortes e possam descobrir a razão de sua doença para tentar uma cura, cuidando também para que o caso seja devidamente abafado e não venha ao conhecimento geral. Porém, antes de encontrar o astronauta, o assassino ainda aumenta sua ficha criminosa retalhando um casal de idosos que inadvertidamente parou seu carro numa estrada deserta e escura para pegar limões num pomar.
Derretendo cada vez mais a ponto de perder uma orelha ao encostar numa árvore, e deixar fluídos de seu corpo pingando pelo caminho, o astronauta ainda mata o General Perry e ataca um jovem casal de namorados que chegava em casa, matando o rapaz. Nessa sua última empreitada, ele perde o braço esquerdo num golpe de faca da jovem que foi atacada, a qual sobrevive, mas torna-se histérica após o confronto.
Continuando a perseguição estão o Dr. Nelson e agora o xerife da cidade Will Blake (Michael Alldredge), que conseguem localizar o astronauta derretido nas instalações de uma fábrica. É noite, o ambiente está escuro, mas eles encontram Steve tentando fugir. O xerife é então violentamente morto ao ser jogado do alto de uma plataforma e sendo eletrocutado por fios de alta tensão que incendeiam seu corpo. Outros dois policiais aparecem e também são mortos, porém um deles consegue disparar um tiro certeiro no Dr. Nelson matando-o na hora, no momento em que ele tentava interceptar a ação dos policiais contra o astronauta enfurecido.
Após a tentativa fracassada em capturar Steve, ele consegue fugir de seus perseguidores, mas não por muito tempo. O processo de derretimento atinge o seu clímax máximo e ele encosta-se próximo a uma lata de lixo agonizando lentamente, derretendo numa massa gosmenta de carne, ossos e sangue.
No dia seguinte pela manhã, um faxineiro aparece para o trabalho na fábrica e vê a enorme sujeira ao lado da lata de lixo, aquilo que um dia foi um homem, e calmamente pega uma vassoura e pá e inicia a faxina. Enquanto isso, uma segunda missão espacial tripulada com destino à Saturno levanta vôo, ignorando as trágicas consequências da expedição anterior as quais estavam sendo secretamente escondidas pelo governo.
Um final “não feliz” no melhor estilo, pois todos morreram, principalmente o astronauta num sofrimento incrível sentindo em seu corpo um processo de derretimento contínuo, e tudo ocultado secretamente numa verdadeira conspiração governamental (daria uma boa ideia de argumento para um episódio de “Arquivo X”). E o que sobrou do “homem derretido” sendo literalmente varrido para o lixo. Um final excepcional para um filme super interessante.
Como curiosidades, temos uma sequência onde o assassino derretido encontra uma menina na floresta e ela sai correndo procurando por sua mãe gritando que havia visto o “Frankenstein”. Essa é uma confusão frequente envolvendo esse famoso personagem do cinema de horror. Na verdade, Frankenstein é o nome do cientista que criou o monstro, e este passou a ser chamado de a “Criatura de Frankenstein”.
Um pouco antes dessa sequência podemos ver um grupo de três jovens crianças tentando fumar um cigarro, numa cena politicamente incorreta, principalmente naquela época dos anos 1970.
O filme foi filmado a cores e as cenas envolvendo o maníaco ganharam uma intensidade muito forte, evidenciando uma massa disforme de sangue, carne e todos os tipos de fluídos gosmentos e repugnantes, algo significativo para a época. Isso é o resultado da excelente maquiagem e efeitos especiais de Rick Baker, que mais tarde se notabilizaria por seus magníficos trabalhos em “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), “Lobo” (1994) e “Planeta dos Macacos” (2001), citando apenas alguns poucos exemplos.
Aliás, na capa da fita VHS da “Globo Vídeo” existe um dos mais grotescos erros que tive a oportunidade de ver em fitas de vídeo ou DVD´s lançados no Brasil. Simplesmente os efeitos especiais foram creditados para um tal de “Dick Baker”, citando que teve trabalhos em “O Exorcista” e no clip musical “Thriller”, do cantor Michael Jackson. Na verdade, eles criaram um ser híbrido, mistura de Dick Smith (que foi o homem da maquiagem de “O Exorcista”) com Rick Baker (que fez o videoclip “Thriller”, sobre lobisomens). Parece piada, mas isso realmente aconteceu e a prova está na capa da fita VHS. Acredite se quiser...
Outra curiosidade interessante é a presença como ator (apesar de discreta numa pequena participação), do cineasta Jonathan Demme, que mais tarde ficaria famoso por “O Silêncio dos Inocentes” (The Silence of the Lambs, 91), com Anthony Hopkins, e “Sob o Domínio do Mal” (The Manchurian Candidate, 2004), com Denzel Washington.
Para um filme cuja intenção não é apresentar um simples “serial killer” de adolescentes em férias como no posterior “Sexta-Feira 13” (1980), o astronauta Steve West, “O Incrível Homem que Derreteu”, não fica muito atrás, pois num curto período de tempo (uma única noite), ele matou violentamente nove pessoas.
Em todas as cenas envolvendo o astronauta caminhando em seu martírio solitário e derretendo de forma asquerosa, podemos ouvir sua respiração ofegante traduzindo seus gemidos de dor e desorientação do mais puro e absoluto sofrimento.
Enfim, “O Incrível Homem que Derreteu” é mais uma pérola do cinema fantástico bagaceiro, e apesar da produção de baixo orçamento, atores desconhecidos e alguns furos no roteiro com situações inverossímeis, possui qualidades que o coloca em destaque na filmografia de Ficção Científica e Horror dos anos 1970, e que deve ser sempre enaltecido e reverenciado.
(Juvenatrix - Junho 2002)


O Incrível Homem Que Derreteu (The Incredible Melting Man, Estados Unidos, 1977). American International. Duração: 84 minutos. Direção e roteiro de William Sachs. Produção de Samuel W. Gelfman, Peter Cornberg e Robert L. Fenton. Produção Executiva de Max Rosenberg. Música de Arlon Ober. Fotografia de Willy Curtis. Edição de James Beshears. Desenho de Produção de Michel Levesque. Efeitos especiais e maquiagem de Rick Baker, Greg Cannom, Tina Lewis e Dulcie Smith. Elenco: Alex Rebar (Steve West), Burr DeBenning (Dr. Ted Nelson), Myron Healey (General Perry), Michael Alldredge (Xerife Will Blake), Ann Sweeny (Judy Nelson), Lisle Wilson (Dr. Loring), Cheryl Smith (Modelo), Julie Drazen (Carol), Stuart Edmond Rodgers, Chris Witney, Edwin Max, Dorothy Love, Janus Blythe, Jonathan Demme.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Batalha no Espaço Estelar (War of the Planets, Itália, 1977)


     Direção de Al Bradley (pseudônimo de Alfonso Brescia). O Capitão Alex Hamilton (John Richardson) é um astronauta respeitado, mas também conhecido pelos atos de indisciplina e aversão aos computadores. Ele é o comandante da nave espacial MK-31, que é chamada para investigar a origem de misteriosos sinais no espaço, juntamente com outros tripulantes como a bela Meela (Yanti Somer). Sua nave encontra um planeta, e ao pousar descobre uma região inóspita e mergulhada em escuridão (as noites são extremamente longas, com centenas de horas). Dentro de uma caverna sua equipe encontra um portal dimensional que os leva ao encontro de uma raça de alienígenas humanóides com pele pintada numa cor mista de verde e azul e com orelhas pontudas (no estilo do “Spock” de “Star Trek”), liderados pelo chefe Etor (Aldo Canti). A princípio, eles se mostram hostis e depois acabam até aceitando a ajuda dos humanos para enfrentar a pior descoberta que ainda viria: o planeta é controlado por um super computador inteligente que tem escravizado os habitantes.
     No passado, eles viviam felizes em harmonia com as máquinas, que lhes serviam e davam conforto, porém certo dia eles foram atacados por inimigos de outro planeta e tudo foi destruído, restando apenas um único computador que possuía o conhecimento para gerar novas máquinas, mas com propósitos de conquistar a galáxia, escravizando a civilização local. Esse computador psicopata, na intenção de tornar-se ainda mais potente e perfeito, enviou sinais ao espaço para atrair a atenção dos astronautas da Terra, e forçá-los a instalar um componente eletrônico que o deixaria mais forte para poder colocar em prática seu plano tirano e conquistador. 
     "Batalha no Espaço Estelar" é um típico filme bagaceiro italiano com excesso de cores, visual exagerado e naves e estações espaciais com painéis de controle repletos de luzes piscando e botões para todos os lados. O roteiro é simples demais e com uma overdose de clichês, e a narrativa é na maior parte do tempo muito arrastada, gerando uma significativa dose de tédio no espectador, incitando-o ao sono. A ideia de explorar o tema dos computadores dominando civilizações, enfatizando o propósito de tirania, já havia sido visto inúmeras vezes antes, não conseguindo empolgar.
     Foi lançado em DVD no Brasil junto com “O Planeta Fantasma” (1961), que apesar de ser bem tosco, é ainda assim melhor que esse “Batalha no Espaço Estelar”, que vale mesmo apenas como curiosidade.
     (Juvenatrix - 12/11/09)    

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Legend of Dinosaurs and Monster Birds (Japão, 1977)


Filme japonês de monstros gigantes com um título sonoro, dirigido por Junji Kurata e produzido pela “Toei”. Com o nome original “Kyoryu Kaicho no Densetsu”, podemos traduzir o título em inglês para algo como “A Lenda dos Dinossauros e Pássaros Monstruosos”.
Na história, acompanhamos os esforços de um geólogo, Ashizawa (Tsunehiko Watase), acompanhado de sua namorada, a fotógrafa submarina Akiko (Nobiko Sawa), na tentativa de desvendar para o mundo a existência de um gigantesco réptil marinho. O plesiossauro estaria vivendo nos lagos do Monte Fuji (algo como “O Monstro do Lago Ness” japonês), e deveria ser o responsável pela ocorrência de mortes misteriosas e violentas na região. Em paralelo, uma caverna de gelo é descoberta em local próximo e em seu interior um ovo pré-histórico traz à vida um enorme pássaro monstruoso. As criaturas esquecidas pelo tempo inevitavelmente se encontram numa floresta e travam um confronto mortal no meio de um terremoto com a erupção de um vulcão.
Os monstros desses filmes bagaceiros são sempre uma atração, independente da qualidade da história, justamente por sua concepção tosca ao extremo, numa época sem computação gráfica, e onde os esforços da equipe de produção devem ser valorizados pela intenção séria de apresentar monstros gigantescos atacando os humanos ou em combate entre si. Mesmo fazendo parte de histórias repletas de situações absurdas com elementos fantásticos.
Porém, no caso específico de “Legend of Dinosaurs and Monster Birds”, pouca coisa se salva, principalmente por causa da péssima trilha sonora, irritante e totalmente deslocada, convidando o espectador a desistir de acompanhar o roteiro ruim com atores medíocres. A duração de pouco mais de uma hora e meia de projeção poderia ser reduzida para minimizar o tédio, pois as únicas exceções ficam por conta de alguns poucos momentos sangrentos com vítimas desmembradas, e pelas cenas com os monstros. Aliás, eles aparecem pouco na maior parte do filme e se enfrentam no desfecho numa sequência mais longa que acaba tornando-se a mais interessante.      
(Juvenatrix - 31/03/15)